Amigos do Fingidor

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sexta-feira, 19 de março de 2010

quase poema

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a lua está nua

e nua a rua.

meu deus!

quase poema:

a vida nua,

nua e crua.

 
(Adrino Aragão)
 
 
Fim da série de nanocontos Outras inquietações, de Adrino Aragão.

sexta-feira, 12 de março de 2010

o rosto

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do outro lado da calçada, as crianças cirandavam, quando ele tentava atravessar a rua. ao ver que se aproximava, saíram correndo. mas o rosto do velho gordo, de barba branca, permaneceu na calçada, indiferente, desafiador.

deteve o ímpeto de esmigalhar com o pé aquele riso irônico, que o atormentava desde a infância, de menino que não conhecera o pai. decidiu deva-lo para casa, pendurá-lo na parede do quarto.

assim, todas as noites, antes de cair rendido pelo cansaço, xingava aquele rosto contraditoriamente venerado e odiado.

um dia, o rosto libertou-se do escárnio a que lhe impusera, durante muitos anos. foi quando descobriu o quanto estava preso àquele rosto, de riso aparentemente irônico. uma nova e estranha solidão o abateu, devorando-lhe as entranhas.


(Adrino Aragão)

quinta-feira, 4 de março de 2010

o gesto

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alheio aos carros, que corriam no asfalto, o homem atravessou a pista, como se comandasse um pelotão de fuzilamento. na calçada, gritou algo indecifrável, agachou-se e, com o paralelepípedo, abriu ao meio o ventre do monstro.

olhou as mãos ensanguentadas. o sangue escorria-lhe pelos braços, ensopava-lhe a blusa e a calça esfarrapadas. mas aos seus pés o monstro tombara morto. deu urras de viva a liberdade. não precisava mais da arma, a pedra rolou na calçada, e foi atingir o cão sonolento, na porta do edifício. grito. vozes. ruídos.

no meio da praça abandonada, ele cruzou os braços, retesou os músculos, e permaneceu, como o velho busto do herói da pátria, imóvel e indiferente, ao sol, e à chuva, que logo começou a cair.


(Adrino Aragão)

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

as máquinas

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com o ferro velho recolhido no fundo de quintais, ele esculpiu o pássaro e a máquina em luta desigual. logo a notícia se espalhou, e começaram a chegar os curiosos de outras localidades para conhecer a recente criação do artista.

até que certo dia a cidade acordou com o barulho ensurdecedor. a máquina gigantesca, uma escavadeira de braços de ferro, avançava raivosa contra a escultura e o seu criador.

nas noites de lua, ouve-se o mesmo grito tétrico de pássaro. nunca se soube dizer, no entanto, de onde vem.


(Adrino Aragão)

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

espreita

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do quadro na parede, o gato de olhos verdes vigiava, dia após dia, os passos do artista, à espera do momento propício para surpreender o seu criador.


(Adrino Aragão)

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

o ovo

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sem que ninguém percebesse, a galinha entrou na casa, chegando até o quarto do casal. lá estava, branco e limpo, o ovo na penteadeira, entre coisas que ela ignorava inteiramente, por não existirem em seu pequeno universo.

como os donos viviam mergulhados no mundo das novelas, a galinha reinou absoluta no quarto, agachada sobre o ovo, indiferente a frascos de perfumes, rouge, batom, cremes e outras coisas mais.

os donos demoraram tanto a descobri-la que a galinha conseguiu chocar o ovo. foi quando o ovo rolou da prateleira e, ao se espatifar no assoalho, libertou o pinto, que fugiu apavorado. sem rumo.


(Adrino Aragão)

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

vaga-lume

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revia, já sem muito entusiasmo, a coleção de besouros, quando o fusível queimou, mergulhando o sótão em completa escuridão. tinha medo de escuro, descobriu nos ruídos do velho forro da casa a presença de antigos moradores, fantasmas e duendes. tropeçava nos móveis, e o vaga-lume se revelou na escuridão.

momentos depois, a luz voltou a brilhar no abajur de papel crepom vermelho. mas ele já decidira permanecer no escuro, enquanto o vaga-lume picotava a escuridão em voos luminosos.

foi daí que começaram a surgir os demais vaga-lumes. até que, certa noite, quando o fusível queimou novamente, a luminosidade de seu corpo se sobrepunha à minúsculos vaga-lumes.

e ele se viu sozinho no sótão. sem medo de escuridão. sem os fantasmas. sem os duendes. apenas ele e a luminosidade de seu corpo.


(Adrino Aragão)

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

fiel companheiro

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sorveu o resto de café da caneca, olhou em redor, o louro fora o único que não o abandonara, mas andava nos últimos dias muito triste, não dizia uma palavra. o homem se aproximou e disse, sabe, louro, tomei uma decisão: é hoje, é tudo ou nada. e foi saindo, quando ouviu a voz do melhor amigo, ca-re-ca! ca-re-ca! vai mas volta. ca-re-ca! ca-re-ca!


(Adrino Aragão)

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

território noturno

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fechou os olhos. continuava enxergando de igual modo. melhor ainda, porque o olhar trespassava pedras, montanhas, folhas, árvores, tudo que estivesse diante dele.

guardou os olhos no bolso. olhou em volta os meninos jogando bola.

e se foi assobiando, saltitante, feliz como um menino, na direção da clínica de olhos.



(Adrino Aragão)

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

os habitantes da chuva

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o velho, os peixes prateados, a rã verde. eram sempre os mesmos, e chegavam com a chuva.

o que pretendiam? de onde vinham?

nunca se soube. chegavam silenciosos. partiam mais silenciosos.

num desses temporais memoráveis, só a rã decidiu permanecer no vilarejo.

ainda hoje coaxa, solitária, no escuro brejo. coaxa, coaxa, coaxa; talvez à espera de novos temporais.


(Adrino Aragão)

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

o grito

a cidade acordara com o espocar dos foguetões. nas ruas e avenidas, as faixas e bandeirinhas. no céu sem nuvens, o aeroplano fazia acrobacias incríveis, deixando para trás mensagens de fumaça.

súbito, os acordes da banda anunciaram a chegada do carro oficial. os aplausos e foguetórios explodiram frenéticos, ao aceno do imperador.

da multidão, veio o único grito não-ensaiado.

– morra o imperador!

foi então decretada a caça às últimas bruxas.

(Adrino Aragão)

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

(in)nesperado

acordou na hora de costume. após o café, demorou um pouco mais na leitura dos jornais, vestiu o paletó e, como sempre fazia, despediu-se com um beijo no rosto da mulher.

mas, desta vez, não voltaria para o almoço. nem sequer telefonaria. era quase noite quando foram encontrá-lo sentado no banco da praça próxima ao porto. o corpo inerte, já frio como o da estátua em bronze poucos metros adiante. os olhos sem brilho permaneciam fixos na folha de papel, que comunica a aposentadoria compulsória.


(Adriano Aragão)

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

véspera de ano novo

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raspou o pó de café que restava no fundo da lata: deu graças, tinha o suficiente para aquele dia. os bolinhos de farinha fritos na banha substituiriam o pão. e o açúcar? haveria de conseguir um pouco com a vizinha, uma xícara daria para uns dois dias. enquanto fervia a água, estendeu sobre a mesa a toalha branca, comprada pelo marido dias antes de falecer. não esqueceu o pé de arruda no centro da mesa: desejava entrar no ano novo com o pé direito, e a arruda era um santo remédio para mau-olhado e outros malefícios. pitava o cachimbo quando ouviu alguém chamar à porta da casa. uniu as mãos em forma de prece, “deus seja louvado!”, exclamou, reconhecendo a voz da bondosa dona coló.

(Adrino Aragão)

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

caminhante


cansado da longa caminhada, sentou-se à beira da estrada. e começou a mastigar as pedrinhas que restavam no bolso do blusão encardido.

era quase fim de tarde quando decidiu retirar da sacola de couro os únicos pertences que o acompanhavam: a ânfora, o caderno de notas e a flauta.

ao sopro da flauta, pousaram-lhe sobre os ombros as primeiras aves. mas foi a pomba branca que trouxe no bico o pequeno ramo de oliveira.


(Adrino Aragão)

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

urubus


esticou os braços, um após o outro, as pernas, o corpo, os olhos ainda pesavam sonolentos, bocejou, que vida mais besta, meu deus.

indiferente aos reclamos da mulher, permaneceu mergulhado na rede. agora sonhava com urubus voando, planando, festejando as nuvens que se arrastavam ameaçadoras.


(Adrino Aragão)

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

o pescador


o pescador ficou orgulhoso quando se reconheceu nas fotos, em cores, que ilustravam a reportagem da revista editada na capital. só não entende por que agora as mesmas pessoas desejam expulsá-lo do mundo primitivo em que sempre viveu: as gaivotas e garças repartem com ele a fartura de peixes, a areia branca da praia contrasta com o verde do mar e dos coqueiros, o vento e as ondas sussurram segredos, nas noites escuras e solitárias da ilha.


(Adrino Aragão)

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

o pássaro (ii)


por trás das grades, o homem olhava o sabiá trinando no beiral da casa. e recordou com nostalgia o pássaro que todas as manhãs vinha bicar alpistes na janela do quarto.

(Adrino Aragão)

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

o pássaro (i)


e o menino, no último esforço, ouviu o canto soturno do pássaro na tarde cinza.

(Adrino Aragão)

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

galo de rinha


depois que lhe depenaram o pescoço, floresceu o canto rouco. daí que, agora, o galo das sonoras madrugadas reina, sob o alvoroço dos apostadores, nas manhãs de rinhas manchadas de sangue e esvoaçares de penas.

sua fama de galo brigador tem trazido adversários de muito longe.

temo que num desses dias trágicos o altivo galo não resista à fúria de galos mais novos, com seus esporões de aço e bicadas dilacerantes. e, com isso, a cidade mergulhe novamente no esquecimento.

(Adrino Aragão)

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

na trilha do eterno


por três vezes
subiu a montanha.
por três vezes
contemplou a lua cheia
banhando de ouro o templo.
por toda a eternidade
dissemina a essência do
belo.

(Adrino Aragão)