Toada da chuva
Guimarães Rosa (1908-1967)
Chove e faz frio.
Posso vir ao passado,
porque a chuva cai, em estribilho
de dedos brancos num teclado manso,
disciplinada, como uma velha trova,
e o meu passado é frio...
(Chuva fina,
chuva fria,
desfiando sem cessar...
Ontem foi dia de festa,
e a chuvinha veio, lesta,
todas as flores regar.
Hoje é manhã de Finados,
os túmulos já estão lavados,
e a chuva não quer parar...)
Vara o ar um feixe
de flechas oblíquas,
ferindo nas poças mil mariposas,
que ruflam, doidinhas, as asinhas de água.
Nas lagoas do asfalto, círculos convergentes,
entretangentes, a abrir e a fechar.
E da beira de um telhado,
cai, comprido e constante, um jorro claro,
que espirra na calçada,
onde uma aranha de vidro esperneia,
pendurada
de um fio de sol molhado.
(Chuva bela,
chuva leve,
que te debulhas no ar...
Se és tão triste nas goteiras,
por que tuas mãos, zombeteiras,
vêm nas vidraças tocar?!...
– “Mas, junto a cada goteira,
se há sempre um poeta a escutar?!...”)
As mãos de água,
frias mãos de fada,
correm dedos longos,
alisando as árvores, tateando as casas.
Cada folha verga, sob grandes gotas,
cada casa esfria, sob as telhas úmidas.
(Chuva santa,
chuva clara,
como a toalha de um altar...
Por que tanta cousa impura,
tanto pecado e amargura,
daqui não podes lavar?!...
– “Quanto mais desço, a enxurrada,
mais suja não vês rolar?!...”)
Nas portas, nas janelas,
sob os toldos,
gente parada, como insetos presos.
Quando passar a chuva,
toda a cidade destapada e clara,
Pensarão, talvez, que não mais os isolam
Muitas outras campânulas de cristal...
(Chuva boa,
chuva meiga,
que assim me vens consolar...
Se no céu estão chorando,
por que preciso chorar?!...)