Amigos do Fingidor

terça-feira, 2 de junho de 2026

O Estoril


Pedro Lucas Lindoso

 

Havia um bar em Ceilândia, no Distrito Federal, cujos donos eram um simpático casal de portugueses. Arminda e Manuel serviam o melhor bolinho de bacalhau de Brasília. E eram cuidadosos para que a cerveja e os refrigerantes estivessem sempre estupidamente gelados.

Manuel faleceu aos cinquenta anos de infarto. Arminda, com as duas filhas jovens universitárias, decidiu continuar o negócio.

O bar com o impactante nome de Estoril, abria para refeições rápidas no almoço. Pela noite, Manuel entrava em cena. A clientela vinha ávida pelo bolinho de bacalhau. Fabricados por Arminda e filhas. Eram congelados e devidamente acondicionados. Cabia ao Manuel e um assistente fritá-los e vendê-los, com aquela cervejinha, noite adentro, ao som de fados e outros ritmos portugueses.

Com a morte do marido e tendo que assumir o período noturno, Arminda impôs algumas regras que acabaram por causar o afastamento de muitos fregueses e a consequente falência do negócio.

Arminda colocou um inusitado cartaz com os seguintes dizeres. “Proibido algazarras e palavras de baixo calão” Instada a explicar o que eram palavras de baixo calão, Arminda não deixava por menos. Dotada de conhecida verborragia, começa com extensas explicações.

Palavras de baixo calão são termos ou expressões consideradas indecentes, grosseiras, insultuosas ou ofensivas. Essas palavras geralmente têm conteúdo sexual explícito. E ainda podem conter ameaças, ofensas diretas ou linguagem vulgar. E não quero, não aceito e não preciso de brigas e discussões aqui no meu estabelecimento. Trata-se de uma casa portuguesa, com certeza. Exijo respeito. Sou viúva e tenho duas filhas moças. Ora pois, pois.

Arminda poderia simplesmente explicar que o termo “calão” significa linguagem indecente, insultante ou vulgar. Quando eu era menino usava-se a expressão “nome feio”. Hoje se diz simplesmente “palavrão”.

O fato é que o cartaz, as cansativas explicações e as regras de Arminda constrangiam e acabaram por afugentar a clientela. E o Estoril fechou as portas. A única coisa que ficou foi a receita do bolinho de bacalhau. Após muita insistência, uma das filhas do casal repassou-a aos colegas do Curso de Letras da UnB. Eis a receita:

Ingredientes: 1 xícara (chá) de salsinha. 1 xícara (chá) de cebolinha. 800 g de bacalhau. 1 kg de batata cozida.1 colher (café) de pimenta-do-reino. 1 colher (café) de sal. 5 ovos. Preparo: 1. Esprema as batatas. 2. Misture o sal nas batatas quando ainda estiverem quentes. 3. Acrescente o bacalhau, a salsa, a cebolinha e a pimenta. 4. Misture bem. 5. Adicione as gemas. 6. Misture novamente. 7. Bata as claras em neve. 8. Misture bem. 9. Modele os bolinhos. 10. Deixe descansar na geladeira por, pelo menos, 30 minutos. 11. Frite.