Amigos do Fingidor

quinta-feira, 31 de março de 2016

Coisa boa é mulher



Paulo Sérgio Medeiros

Coisa boa é mulher que madruga pelo nosso bem-estar, lava, passa, cuida da casa, dos filhos, faz almoço, janta e café.
Coisa boa é mulher que soma, divide, multiplica, se anula, nos bajula, é moderna, antiquada, espirituosa, emburrada, é do jeito que o homem quiser.
Coisa boa é mulher que até nos dias de cólica atura nossas noites alcoólicas. E quer prova maior de generosidade? Experimenta ficar bêbado e você será servido de um revigorante caldo da caridade.
Coisa boa é mulher que nas noites de frio nos aquece a alma arrepiando até os mais recônditos pelos, e, ainda entretidos pelo cigarro, recebemos aquele cafuné.
Coisa boa é mulher que quando o bicho pega pro nosso lado ainda está ali tal qual Madre Teresa de Calcutá, prenhe de fé, pronta pro que der e vier!
Coisa boa é mulher que à la Joana D'arc vai à luta, entra na guerra, morre queimada, mas não arreda o pé!
Coisa boa é mulher que uma vez emancipada é capaz de cometer suicídio para não mais voltar ao regime escravocrata, a exemplo de Dandara, esposa do Zumbi dos Palmares.
Coisa boa é mulher que suaviza a aspereza masculina, dá curvas a linhas retas, perfuma nossos dias, rima poema no jeito de andar em nossas calçadas despoetizadas.
Coisa boa é mulher que é colírio, bálsamo, morfina, música, ópio, irmã, filha, tia, madrinha, esposa, amante, MÃE, sublime criação da natureza.
Coisa boa é mulher que é paradoxo, para-raios, para-lama, para-choque, paraquedas, para-brisa, para trânsito! 
Coisa boa é mulher que nos aceita na doença, na tristeza, com dinheiro ou sem dinheiro, contanto que tenhamos o bicho de pé!

Então, ilustre poeta Thiago de Mello, peço-te a gentileza de reescrever os Estatutos do Homem e faça-me o favor de incluir o décimo quarto parágrafo, que será: Fica decretado a partir de hoje que coisa boa é mulher!

Materialidade da doença nas teorias greco-romanas


João Bosco Botelho

Na Grécia, no século 4 a. C., quando a doença foi abordada fora do domínio exclusivo das divindades, inaugurou-se a Medicina na materialidade do corpo.
O grande e insuperável avanço em relação à tradição anterior reside no fato de que, pela primeira vez, estava estabelecido um sistema teórico coerente, capaz de explicar a doença, a saúde, a terapêutica e o prognóstico. A teoria era simples e competente: para cada um dos quatro elementos de Empédocles (médico e filósofo do século 4 a.C.) – terra, ar, água e fogo – existiria um humor corpóreo, respectivamente: fleuma, bile amarela, sangue e bile preta. 
Como categorias teóricas, os quatro humores, a idéia revolucionária dos médicos gregos, representados por Hipócrates, ficou conhecida como Teoria dos Quatro Humores.
Sob essa formidável concepção teórica, que dominou completamente as práticas da Medicina até o século 18, o corpo humano seria constituído de quatro humores: sangue, fleuma, bile amarela e bile preta.
O equilíbrio entre a quantidade e qualidade dos humores seria o responsável pela saúde. Ao contrário, os desequilíbrios entre eles provocariam as doenças. Como consequência imediata, esse sistema teórico permitiu aos médicos explicarem a origem das doenças fora do poder de curar dos deuses e iniciar o conflito de competência entre a Medicina e a religião. A epilepsia, uma entre as muitas doenças entendidas como divinas, foi arrancada do domínio dos deuses.
Para tratar qualquer doença, bastaria forçar o equilíbrio dos humores por meio de atitudes induzidas para eliminar os líquidos e excreções corpóreos. Os métodos de tratamentos da Medicina oficial passaram a utilizar a sangria e as substâncias provocadoras do vômito, da diurese, do suor e da diarreia.
No século II, o médico romano Cláudio Galeno reforçou a teoria grega ao acrescentar a relação entre o "humor" e o "temperamento", trazendo a saúde e a doença à vida social: os humores sangue, fleuma, bile amarela e bile preta corresponderiam, respectivamente, aos temperamentos sanguíneo, fleumático, colérico e melancólico.
Os sistemas teóricos interligados e dependentes de Empédocles e Hipócrates (séc. 4 a.C.) e Galeno (séc. 1 d.C), capazes de explicar a saúde, a doença e a expressão do ser nas relações sociais, mostraram-se tão adequados ao observável no cotidiano que dominaram as regras do diagnóstico, da terapêutica e as bases do ensino da Medicina, no Ocidente, durante vinte séculos.
Essas teorias alcançaram o Brasil colônia e os médicos da corte portuguesa. Durante vinte e três dias de febre e convulsão que antecederam a morte da Princesa Paula Mariana, filha do primeiro Imperador do Brasil, ela foi submetida às chupadas de quarenta sanguessugas, onze vesicatórios, oito cataplasmas e sete clisteres, prescritos pela equipe de dez médicos que se revezaram à cabeceira real.
Para compreender a influência das teorias greco-romanas na busca da materialidade da doença no Ocidente, até o século 19, o médico viajante Carlos Von Martius, em 1844, descreveu os índios brasileiros como "fleumáticos".
Cabe ressaltar que os melhores tratamentos, na Europa eram baseados nas teorias de Hipócrates e Galeno, consideradas verdades absolutas entre os médicos até a primeira metade do século 19.
A busca da materialidade da doença é contínua. A Medicina obteve extraordinário progresso, mas desconhece a origem de muitos cânceres, certas doenças imuno-moduladas e algumas mudanças no comportamento.

quarta-feira, 30 de março de 2016

terça-feira, 29 de março de 2016

Podem me chamar de vovô


Pedro Lucas Lindoso

Talvez uma das coisas mais democráticas nos Estados Unidos seja o uso do pronome you. Usa-se you para o presidente, para cavalheiros e damas e para as crianças. Tanto no singular como no plural. Diferente do Brasil em que há o tu, vós, você, o senhor e a senhora.
Os gaúchos não usam você. Para alguns do Rio Grande soa ofensivo. Para outros é muito íntimo, é estranho. Usa-se sempre o tu. Em Porto Alegre o programa das manhãs na TV seria MAIS TU e não MAIS VOCÊ. Já no vizinho Santa Catarina, também no sul, o tu pode soar desrespeitoso.
Em alguns locais do Nordeste usa-se o senhor e a senhora até entre parentes próximos. Aqui em Manaus usa-se você e também o tu com frequência.
No país de Casa Grande e Senzala qualquer um que tenha curso superior é chamado de doutor. Principalmente médicos, engenheiros e advogados. Mas não só esses. Senhores ricos, “estribados”, como se diz no Ceará, são equivocadamente chamados de doutores. Alguns até exigem tal tratamento, sem merecer.
Conheço um bem sucedido lavador e “reparador” de carros da Praça da Polícia, aqui em Manaus. Chama todos os clientes de doutor e doutora. Para ele, teve carro é doutor. E se dá bem!
A vaidade é atributo presente em muitos brasileiros. Que o diga um porteiro de um prédio que foi interpelado judicialmente a usar o tratamento de doutor a determinado morador. Sois rei? Perguntaria jocosamente meu amigo Chaguinhas. Mas já não se usa o vós em português coloquial. Pelo menos no Brasil.
Por falar em reis e príncipes, um colega de trabalho que nasceu em Vassouras e mora em Petrópolis, no Rio de Janeiro, me disse que conhece membros da Família Real brasileira. Apesar de amigo de infância de um deles, só o trata de Sereníssimo Príncipe. Viva a República!
Outro dia, um sujeito aparentemente da minha idade, chamou-me de tio. Fiquei ofendido. Há crianças que são ensinadas a chamar as professoras de tias. Os amigos de meus filhos, que conhecemos crianças, nos chamam de tio e é respeitoso. Parece-me, que o tratamento “tio” e “tia” vai do carinho respeitoso ao deboche.

Mas estou cheio de contentamento com o nascimento de minha primeira neta, a Maria Luísa. Podem e devem me chamar de vovô, por favor.

domingo, 27 de março de 2016

sábado, 26 de março de 2016

quinta-feira, 24 de março de 2016

O Padre



Paulo Sérgio Medeiros

No contexto bíblico, o termo igreja designa reunião de pessoas. E com suas portas sempre abertas essa reunião acontece de forma religiosa. Os fiéis vão lá num ato de fé, estreitar o seu relacionamento com Deus. Para aqueles que só o conhecem de vista, ir à igreja é a oportunidade de ter aquela conversinha ao pé do ouvido.
Mas o povo do deserto se perdeu da outra ponta do laço. Sem afinidade com a liderança da assembleia não houve edificação sobre aquela pedra. Afastamento. Descontentamento. E os dias de calvário se arrastaram por dias, semanas, meses.
Comportamento surreal pra quem confiamos o poder de agregar. O sujeito simplesmente bateu no peito e deu as costas pro “Dar-te-ei as chaves do Reino dos Céus”. Vendeu a alma pro cão e comprou briga com cachorro grande.
Insanidade adquirida no confinamento. Definhou. Pirou o cabeção. Cruzou a fronteira do sagrado. Com um cruzado de esquerda (sem conotação política, ou não) quebrou o Cruzeiro. Rasgou dinheiro. Cruzado, cruzeiro, cruzados novos. Tal qual nossa moeda, desvalorizou-se dentro da casa. Por sinal, um luxo de casa com sua história jogada no lixo.
Tenha santa paciência! O cara trocou a santa, fez quadradinho de oito e monopolizou a quadra, fez parceria política, subverteu a tradição. Procissão! Procissão! Quase findou em processo. E que processão! Expulsou o Almir. Não, vocês não estão entendendo! Expulsar o Almir é como abrir mão do dízimo. Dizimou os fiéis, isso sim!
A batina não lhe cai bem, você não nos fez bem. E sair pela porta dos fundos é o fim do mundo. Não, você não vai sair sorrateiramente pela porta dos fundos. Vem Navi, saia pela porta da frente porque ela está e sempre estará aberta para o povo de Deus.
Então parafraseando Jesus: Ora, se teu irmão pecar, vai, e repreende-o entre ti e ele só; se te ouvir, terás ganho teu irmão; mas se não te ouvir, leva ainda contigo um ou dois, para que pela boca de duas ou três testemunhas toda palavra seja confirmada. Se recusar ouvi-los, dize-o à igreja; e, se também recusar ouvir a igreja, considera-o como gentio e publicano.
Que se abram as portas da casa de Deus e do povo! Seus verdadeiros donos. A sua Via Crucis está só começando. A batina caiu. Vem pra cá, pra realidade, padre Navi. O sofrimento acabou!

Tratamentos da dor: da Idade Média ao século 20



João Bosco Botelho

Os tratamentos oferecidos pela Medicina para vencer a dor, na Europa central, no medievo, estavam atados aos preceitos de Hipocrates, século 4 a.C., e Galeno, século 1 d.C.: o desequilíbrio dos humores levaria às doenças e, em consequência, alteraria os temperamentos, causando dores.
O famoso médico francês Guy de Chauliac, em 1363, na sua obra Grande Cirurgia, definiu a dor como sendo qualquer fator que determinasse o desequilíbrio dos humores. Como todos os tratamentos estavam baseados na intenção de equilibrar os humores por meio de retirada intencional de sangue e secreções do corpo, os tratamentos consistiam nas sangrias, vomitórios, cataplasmas e vegetais, como a salsaparrilha, para provocar a diarreia.
Novos entendimentos da dor atados ao sofrimento coletivo foram provocados quando os países europeus, além de suportarem as mortes provocadas nas guerras intestinas, foram dizimados pela peste negra.  As terríveis dores e sofrimentos antecedendo a morte inevitável nos pestilentos, mesmo sendo interpretados como sinais da cólera de Deus, empurraram a busca de respostas que pudessem cessar o desespero.
O Renascimento trouxe o desvendar dos corpos. Os estudos da anatomia são retomados e, em 1543, é publicado o extraordinário livro La fabrique du corps humain, de André Vesálio. Os corpos abertos e o afrouxamento das proibições pela Igreja impulsionam novos avanços.
As mudanças já iniciadas, o desvendar dos corpos pela anatomia e a posição dos filósofos, mesmo com a condenação de Galileu, em 1633, instigam novas leituras da dor, acompanhadas de inevitáveis rupturas com o cristianismo.
Destacam-se, no século 17, o médico inglês Harvey, em 1628, com a publicação do Exercitatio anatomica de motu cordis et sanguinis in anima, demonstrando os erros de Galeno sobre a circulação do sangue e Marcelo Malpighi, em 1666, com o livro De viscerum structura, inaugurando a micrologia. Esses livros determinaram o início do processo de enfraquecimento das teorias de Hipócrates e Galeno, até então aceitas como dogmas nas universidades cristãs.
 Na segunda metade do século 18, os intelectuais laicizaram a dor. Na França, as rápidas mudanças sociais provocadas pela revolução trouxeram à lembrança os horrores da peste negra e induziram a maior valorização da dor sob a compreensão laica. Entre essas mudanças, destacaram-se: proibição dos sepultamentos nas igrejas, construção dos esgotos e reservatórios de água potável, normas rígidas de higiene pública, desvinculação das universidades do poder eclesial e construção de hospitais sem laço administrativo com a Igreja.
As práticas médicas oitocentistas retomaram nova tentativa de ordenar a dor, adaptando-a às concepções da fisiologia e do pensamento micrológico: dor tensiva (redução da fratura); dor pulsátil (acompanha o ritmo das artérias); dor gradual (presença de líquido na cavidade, como da hidropisia; dor pruriginosa (no prurido intenso, como na sarna).
O século 19 colhendo os frutos da anatomia e da fisiologia amadurece a busca da dor no nível celular, em estreita consonância com a tendência de levar a doença à célula, iniciada no século 17 por Marcelo Malpighi.
No século 20, os progressos para os tratamentos das dores alcançaram dimensão nunca imaginada ser possível. Os estudos genéticos possibilitaram que os analgésicos conseguissem controlar a dor lancinante contínua, como as causadas por alguns tipos de câncer na fase terminal.

quarta-feira, 23 de março de 2016

terça-feira, 22 de março de 2016

Irmãos rivais



Pedro Lucas Lindoso

A rivalidade entre irmãos é assunto bíblico. Milton Hatoum, um dos nossos escritores mais festejados, escreveu o best-seller Dois irmãos. O livro trata de intrincada e tensa relação entre os gêmeos Omar e Yakub, descendentes de libaneses. A trama se passa em Manaus. De temperamentos antagônicos os irmãos não conseguem conviver harmoniosamente. Nem mesmo com a intervenção direta e proposital de Zana, a mãe. Os amazonenses aguardam ansiosos pela minissérie da Globo. Anteriormente prevista para o segundo semestre de 2015, a série Dois irmãos será provavelmente exibida neste ano.
Quando fiz intercâmbio aos Estados Unidos, na década de setenta, havia um estudante de Goiás, também chamado Omar, que tinha sérios problemas de relacionamento com seu irmão mais velho. A família de Omar é de Anápolis, onde também há uma grande colônia de libaneses.
O irmão de Omar, apesar de um ano mais velho, não foi selecionado para o Intercâmbio porque seu Inglês não era tão bom quanto o de Omar. Tal fato o deixou bastante enciumado.
Antes da viagem, Omar pediu a sua mãe que comprasse algumas cuecas, camisetas, calças e camisas novas. Assim foi feito. Não contava Omar que seu irmão, imbuído de terrível sentimento de inveja, convenceu a mãe a comprar uma calça cor-de-rosa, camisas extravagantes e cuecas estampadas com flores e pequenos corações vermelhos.
Omar foi destacado para fazer intercâmbio em uma pequena cidade de Oklahoma, um dos estados mais conservadores dos Estados Unidos. Ao abrir a maleta em frente à família americana que o hospedaria, viu que seu irmão havia subtraído suas roupas novas, substituindo-as pelas vergonhosas calças coloridas e as suspeitíssimas cuecas estampadas.
Os irmãos americanos de Omar não perdoaram. No dia seguinte toda a High School sabia do inusitado enxoval do brasileiro intercambista. O bullying foi tão severo que o rapaz pediu para voltar para Goiás. O programa recolocou Omar em outra família, em outra cidade e Omar passou a frequentar outra High School.
Adão tinha dois filhos, Caim e Abel. Os dois eram diferentes. O filho mais velho, Caim, era orgulhoso e egoísta. Abel, porém, era humilde. Caim ficou com ciúmes de Abel porque Deus aceitou o sacrifício do irmão mais novo e não o seu. Por isso o matou.
O tema, rivalidade entre irmãos, também foi magistralmente explorado por Machado de Assis, em seu livro Esaú e Jacó, onde pontificam os gêmeos Pedro e Paulo, iguais, porém opostos e concorrentes. O livro é alusivo aos personagens bíblicos do Velho Testamento.

Omar voltou para os Estados Unidos onde mora até hoje, longe do irmão. Abomina roupas coloridas e só usa cuecas exclusivamente brancas.

segunda-feira, 21 de março de 2016

domingo, 20 de março de 2016

Manaus, amor e memória CCLVI


Praça da Matriz, esquina, hoje, da Sete de Setembro com Eduardo Ribeiro.
Ao fundo, o Teatro Amazonas e a igreja de São Sebastião.
Colaboração: Mauri Mrq.

sábado, 19 de março de 2016

sexta-feira, 18 de março de 2016

Discurso de posse no IGHA – 3/3


Zemaria Pinto

Moronguetá, síntese de uma obra em afluência

A obra de Nunes Pereira tem duas vertentes temáticas principais: a indígena, em primeiro plano, e a negra. Nosso pequeno trabalho concentrou-se nessas vertentes, onde Moronguetá e A Casa das Minas despontam como desaguadouros dos demais livros-rios, que afluem, sempre, para um ou para outro, caracterizando-se como uma obra em constante movimento, sempre em evolução: uma obra em afluência.
Gestado em mais de 40 anos de viagens pela Amazônia, Moronguetá – um Decameron indígena é o rio principal, o riomar, para onde afluem todos os outros livros-rios, inclusive os de temática negra, todos tributários dele. Em carta a Arthur Reis, em outubro de 1943, 24 anos antes do livro vir à luz, Nunes informava ao amigo a respeito de uma viagem que fizera ao Alto Madeira. Esboçava-se naquela viagem a ideia de Moronguetá, embora o livro já estivesse sendo gestado há muito mais tempo.

Não tivesse escrito mais nada, este livro seria suficiente para marcar o nome de Nunes Pereira entre os mais importantes autores brasileiros do século XX. Publicado em dois volumes, com mais de 840 páginas, o livro divide-se em cinco partes, além de rico material iconográfico, cada uma delas referente a uma Área Cultural: Roraima; Vale do Rio Negro; Rio Solimões; Rio Madeira; e Rios Andirá e Maués. Em cada uma dessas partes, o autor analisa relevo, clima, flora, fauna, antecedentes históricos e situação atual dos indígenas, concluindo cada uma delas com uma antologia de mitos, lendas, estórias e tradições das etnias da área – o “Decameron indígena”, além de um glossário e notas. No final, dando um toque enciclopédico ao conjunto, há um índice de verbetes e um índice remissivo, sendo este classificado por assunto – fazendo de Moronguetá um completo banco de dados de referência antropológica.
Sobre o significado do título, Nunes Pereira esclarece-o logo na introdução. Moronguetá tem o sentido geral de “narrativa de fatos autênticos e imaginários”, podendo, em função do contexto, significar mito, lenda, conto, estória etc. Quanto ao subtítulo, ele “aproveitou” a ideia de seu colega alemão Leopold Frobenius, que em 1910 publicara O Decameron Negro, relacionando narrativas coligidas junto a povos africanos com o clássico renascentista Il Decameron, de Boccaccio. Nunes Pereira, vendo no seu conjunto a mesma relação – o humor e o sexo como eixos das narrativas, não titubeou: Um Decameron Indígena. Não é demais lembrar a lição de Bergson: “não há comicidade fora do que é propriamente humano.” O riso, como o sexo, é um índice de humanidade.
No capítulo “Situação atual dos indígenas”, que se repete em cada uma das cinco partes em que se divide o livro, o tom dominante é sombrio: Nunes Pereira tem consciência de que o avanço da “sifilização” – como ele define com ironia o que nós representamos para o índio, é o ocaso daquela cultura, daquela literatura, daqueles saberes que têm a exata idade do tempo. Mais tarde, em entrevistas, já em idade avançada, ele não se continha e dizia o que em Moronguetá está nas entrelinhas: “O drama do índio é irreversível. O índio vai desaparecer.”
Um dos textos mais contundentes dos modernos Estudos Literários, no Brasil, Uma poética do genocídio, do inesquecível Antônio Paulo Graça, faz uma análise dos dez mais importantes romances que têm o índio como protagonista, e conclui assim:
O tema último do romance indianista é o genocídio, o extermínio total. (...) Todo romance indianista é uma metáfora do genocídio.

Nunes Pereira, leitor desses livros, e vivendo suas aventuras fora da ficção, tem a mesma percepção crítica, com um tempero ainda mais amargo, porque protagonista da tragédia que se encena no dia a dia.
Passados 50 anos desde a primeira edição de Moronguetá, a situação foi aplacada, muitos avanços foram conquistados, mas a ameaça do desaparecimento continua real e concreta. Ficou o livro-riomar como testemunha de um tempo e como um monumento esculpido em papel, tinta e pensamento – fundamental, para a compreensão não só do índio, mas da multiplicidade que consubstancia a nação brasileira.

Livro de Zemaria Pinto, lançado  no dia da posse.
Manoel Nunes Pereira não é apenas um simulacro de Baíra, o grande burlão. Falo no presente: ele é sobretudo um homem de ciência, procurando compreender o problema do índio, penetrando-lhe a mente, interrogando-lhe a alma. E por haver conseguido seu intento contou estórias repletas de poesia, recolhidas em estado bruto na natureza. As dezenas de livros, a participação ativa em congressos, as inúmeras conferências, somadas ao respeito adquirido entre os maiores de seu tempo, não deixam qualquer dúvida sobre sua importância como cientista. Enfim, a diversidade de seu trabalho – como antropólogo, etnólogo, etnógrafo, ictiólogo, economista e sociólogo – merece um aprofundamento para muito além destas parcas palavras.

TAMBARAMÃ!   

quinta-feira, 17 de março de 2016

Bolsa Carisma



Paulo Sérgio Medeiros

Fico me perguntando qual seria o critério de seleção para o cidadão ter o direito de receber o bolsa carisma, assim que desembarca por aqui? Embora Deus seja tão justo e generoso, ainda assim, Ele não libera essa bolsa pra qualquer um. Ah, mas eu tenho carta de crédito. Não interessa! Aqui quem manda sou Eu! Responde Ele delicada e democraticamente.
Até imagino um processo de seleção bastante rigoroso sem direito a tal carta de crédito e/ou muito menos carta de recomendação, até porque, carta de recomendação redigida a punho pelos próprios pais não legitimaria tal solicitação. Mas mesmo assim continuo a me perguntar: Why? Pourquoi? Por quê? Isso mesmo, em vários idiomas, uma vez que já ando desconfiado de Sua tal brasilidade como as pessoas apregoam por aí. Tenham certeza, dessa pergunta Ele não me escapará quando eu esticar as canelas.
Toda essa introdução pra falar de um amigo querido. Pense num cara carismático. Onde ele chega vira o centro das atenções. Educado, simpático, gentleman, bem-humorado, inteligente, humilde e fiel como um cachorro. 
E as mulheres diante dele? Todas segurando o queixo. E ele nem precisou vir equipado de olhos verdes, barriga tanquinho, nariz afilado, bíceps e tríceps bem definidos. Definitivamente, não é isso que uma mulher inteligente busca num homem. Concordam, meninas?
Ele é do tipo que manda flores, janta à luz de vela, elogia, surpreende, ajuda, ele é romântico, curte Cecília Meireles, percebe o aparar das pontas dos cabelos femininos, em suma, ele é o cara! Eu, euzinho, homem bem resolvido, também fico de queixo caído pro lado dele. Se alguma vez na minha vida eu senti inveja de alguém, foi desse “caboco” que tal sentimento me corroeu. Ele é magnético.
E pra piorar ele ainda toca violão. Aí meus amigos, como diz a expressão, aí f...
Então só retomando o primeiro parágrafo pra finalizar. Não adianta, quem não recebeu o bolsa carisma na chegada, vai continuar sendo mala até a partida.

Linguagens da dor: dos primeiros registros aos gregos



João Bosco Botelho

Na espécie humana, os sentimentos gerados pela dor continua sendo o mais importante instrumento para acionar os alertas biológicos para manter a vida.
Inicialmente, a resposta à dor pode ter iniciado com os nossos antepassados muito distantes reagindo gesticuladamente ou por meio de linguagens específicas contra a dor provocada pelo desconforto do frio, da fome ou dos ferimentos de quaisquer naturezas.
Durante milhares de anos, durante o processo de formação do aparelho fonador, a resposta humana recusando a dor tornou-se plena de especialização, em contraponto às manifestações acolhendo as sensações prazerosas. Assim, nos quatro cantos do planeta, com o passar dos milênios, em todas as linguagens que expressassem a significância dolorosa gestual ou falada manteve impressionante uniformidade. Até hoje, todos gritam conta as dores! As primeiras linguagens escritas incorporaram símbolos gráficos para traduzir o sentimento humano de aversão à dor de qualquer natureza.
As sociedades escravistas que se desenvolveram nas margens dos rios Tigre, Eufrates, Indo e Nilo, registraram com detalhes os sofrimentos causados pelas dores. Dessa forma, existiu grande número de símbolos gráficos identificados como expressões dolorosas. Em algumas culturas, como entre os assírios e babilônicos, a dor era entendida como sinônimo de pecado.
Entre os gregos dos tempos homéricos, especificamente na estrutura dos livros Ilíada e Odisséia, a palavra phármakon, no grego arcaico, significava agente mágico, porque era capaz de restituir a ordem natural sem dor. São encontrados dois grupos de três palavras, respectivamente, relacionadas com a complexa mistura entre a dor física e a dor moral, as suas origens e os sentimentos físicos e psíquicos resultantes do desconforto:
– 1o. Grupo: penthos (desgosto, pesar, inquietação); kèdos (dor corporal); achos (emoção súbita e violenta, transtorno de sentimento que pode levar ao abatimento);
– 2o. Grupo: odunè (relacionada com a dor do parto, podendo ser seguida dos adjetivos: oxus – aguda; pikros – cortante); algos (sofrimento de qualquer natureza); pèma (apesar de certa afinidade com algos, expõe melhor a dor coletiva em determinado tempo: epidemias, flagelo coletivo, sofrimento).
Na Grécia hipocrática, século 4, a teoria de Políbio para explicar a origem da saúde e da doença por meio da teoria dos Quatro Humores, o número de palavras para designar a dor sofreu expressiva redução, ficando claramente restrito à experiência dolorosa em si mesma e aos sentimentos decorrentes.
Na concepção socrática, a dor e o prazer-recompensa não poderiam estar presentes simultaneamente na mesma pessoa, e, de certa forma, ao mesmo tempo em que uma sensação substitui a outra, a ausência de dor poderia ser interpretada como uma expressão do prazer-recompensa.
Platão, com genialidade, aborda e valoriza o sofrimento doloroso e estabelece, em Gorgias, que a autenticidade da Medicina como arte está diretamente relacionada com a capacidade de curar a dor.

Na Alexandria, os extraordinários anatomistas Herófilo e Erasistrato identificaram as diferenças anatômicas e funcionais entre os nervos sensitivos (ligados à dor) e motores (ligados ao movimento voluntário) e entre o cérebro, a meninge e o cerebelo. Com esse estudo, as publicações desses dois gregos fundiram-se às anteriores e firmaram saberes que se mantém até os dias atuais.

quarta-feira, 16 de março de 2016

terça-feira, 15 de março de 2016

Um olhar de ternura, pelo dia da mulher



Pedro Lucas Lindoso

Neste março dedicado às mulheres, quero homenageá-las na pessoa de minha mãe AMINE DAOU LINDOSO, falecida dia 28/02/2016.
Há uma passagem marcante no filme Diários de Motocicleta, quando Che e seu amigo Alberto chegam em San Pablo, colônia de hansenianos na Amazônia peruana. Nós, amazonenses, sabemos que a lepra é ainda uma realidade cruel na região. Tão cruel quanto o preconceito – este, bíblico, milenar.
Os médicos protagonistas quebram regras e tabus impostos pelas freiras que administram a colônia. Com uma visão mais humanista pretendem mudar o paradigma de segregação e apartheid. Há uma festa de aniversário para o jovem médico Che. Ao ver a outra margem do rio onde ficam os hansenianos, o aniversariante deseja comemorar com eles. Mas há um caudaloso rio amazônico como barreira. Numa atitude suicida, Che se atira naquele imenso rio, fundo, com correntezas, à noite, cheio de perigos. Há gritarias de ambos os lados. Quando finalmente chega à margem onde moram os hansenianos e é carregado e socorrido por eles percebe-se nos olhos dos doentes um olhar de ternura, endurecidos pelo sofrimento, claro.
Dona Amine Daou Lindoso foi primeira dama do Amazonas de 1979 a 1982. Ela visitava a colônia Antônio Aleixo semanalmente. Providenciou e conseguiu atendimento médico, ambulatorial, escola e distribuiu muito carinho e atenção.
Há alguns anos, o Governo do Amazonas construiu no bairro um conjunto habitacional que se chama Amine Daou Lindoso. A inauguração contou com a presença do governador, presidente e várias autoridades. Após solenidade e discursos, a comitiva deixa o local. Nesse momento, sem cordão de isolamento eles vieram, vários, cumprimentá-la. Queriam vê-la novamente. Alguns bastante mutilados. Fiquei especialmente tocado com uma senhora de cadeira de rodas, com sinais bastante evidentes de mutilações, porém muito vaidosa, com uma flor no cabelo. Queria repetir versos já ditos a dona Amine. E assim o fez. Eles vieram demonstrar aquele olhar de ternura, o mesmo olhar que Walter Salles captou nos hansenianos de San Pablo. Foi tudo muito bonito, muito comovente.

Nossas homenagens e aplausos às mulheres que, como Amine Daou Lindoso, com coragem, amor e desprendimento, quebram paradigmas, mudam vidas e fazem a diferença. Isso sem deixar de serem mães, companheiras, filhas e irmãs exemplares. Nossa mais calorosa e profunda gratidão a essas grandes mulheres. Feliz 8 de março, dia da mulher.

domingo, 13 de março de 2016

Manaus, amor e memória CCLV


Matriz e entorno.
Colaboração: Mauri Mrq.

sábado, 12 de março de 2016

sexta-feira, 11 de março de 2016

Discurso de posse no IGHA – 2/3



Zemaria Pinto

Em 1918, Nunes Pereira, aos 24 anos, torna-se o fundador da cadeira de número 23 da Sociedade Amazonense de Homens de Letras, precursora da Academia Amazonense de Letras. Por uma dessas coincidências do destino, a cadeira 23, do poeta Cruz e Sousa, que já fora ocupada pelo amigo Alencar e Silva, é hoje ocupada pelo amigo Júlio Antônio Lopes. 
No ano anterior, em março, dera-se a fundação do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Apesar de várias informações desencontradas, Nunes Pereira jamais foi associado ao IGHA, uma lacuna que se corrige hoje, vinculando definitivamente o nome do grande cientista e escritor à centenária Casa de Bernardo Ramos.
Voltando a 1918, ele casa-se com Maria Rodrigues Ribeiro, filha do coronel José Alexandre Ribeiro, de Parintins. Nesse meio tempo, o funcionário público Nunes Pereira, que por formação era técnico em Veterinária, foi incumbido pelo governador Pedro de Alcântara Bacelar de uma missão que poderia ser o estopim de seu interesse pela causa indígena:
Percorrer os campos naturais do Amazonas e do Território do Rio Branco para fazer um extenso relatório sobre o potencial pastoril dessas regiões, convivendo entre os Macuxi, os Arecuna, os Taulipangue e os Ingarikó.

Leitor ávido e voraz, Nunes Pereira formou cinco bibliotecas ao longo da vida. Poliglota, dominava o francês, o inglês, o italiano, o alemão e o espanhol, além do nheengatu. Vale ressaltar uma característica recorrente na sua obra: a absoluta transparência intelectual. Além da bibliografia convencional, ele, no próprio texto, explica detalhadamente como chegou a cada informação ou conclusão – desde as leituras que lhe serviram de base até as mais triviais conversas com seus guias e narradores. Também não poupa citações e referências, especialmente as de cunho literário. Sua fama de boêmio é incompatível com sua disciplina de leitor e de escritor.
Admirador de São Francisco de Assis, Nunes declara-se crente em um Deus “um pouco indígena, um pouco católico”, ressaltando sua condição de maçom. Do seu Arquivo nos anais da Biblioteca Nacional consta um Passaporte emitido pela Grande Loja do Estado do Pará, em outubro de 1954, atestando sua filiação ativa à Loja Maçônica Renascença, de Belém.
Em 1944, juntamente com Geraldo Pinheiro, André Araújo e Mário Ypiranga Monteiro, Nunes Pereira funda o Instituto de Etnologia e Sociologia do Amazonas – do qual foi o primeiro e parece que único presidente. Nos referidos anais, há vários documentos dando conta das atividades do Instituto, inclusive do lendário caso envolvendo os despojos de Koch-Grünberg. 
Em outubro de 1973, recebe o título de cidadão de Manaus, concedido pela Câmara Municipal, proposição do vereador Fábio Lucena.
Em entrevista, aos 83 anos, confessou duas frustrações: “não saber música, e não saber desenho”.

Num dia como hoje, 26 de fevereiro, mas de 1985, há exatos 31 anos, falecia, no Rio de Janeiro, Manoel Nunes Pereira – cientista, poeta e contador de estórias.

quinta-feira, 10 de março de 2016

O rodado



Paulo Sérgio Medeiros

Quando meu amigo sacou a ideia de uma viagem em grupo, no cabo dela (me perdoem a cacofonia) já veio outra. Alugar um carro. No caso, dois. Éramos um grupo de onze pessoas. Por mim tal sugestão poderia tranquilamente ficar guardada na bainha de sua empolgação.
Mas viajar em grupo descarta-se qualquer possibilidade de decisão unilateral.  As decisões, não agradando a todos, devem no mínimo agradar a maioria. Ainda assim isso não evitará cara fechada, beicinho, momento osga (piada interna) e outras frescuras do homem moderno.
Humildemente engatei uma ré de minhas duas únicas objeções quanto ao aluguel dos carros. Objeção um: Não gosto de dirigir, nas férias então, isso ganha peso dois. Objeção dois: Dirigir por ruas desconhecidas em outra cidade cujo trânsito é tão maluco quanto o nosso não transitava pela minha cabeça.
Porém, decisão acatada. O dia da viagem chegou. Desembarcamos no Rio e a autoconfiança do meu amigo foi embrulhando minha insegurança à medida que ele contava suas aventuras pelas BRs afora.  O cara era rodado!
Primeiro destino. Laranjeiras. Isso aqui é moleza, saca só! Com o GPS em mãos o nosso percurso Galeão–Laranjeiras estava traçado. Agora, Paulinho, é só me seguir. Arreganhei um sorriso e desabafei cá com meus botões. Esse cara é rodado!
Ele na frente com o GPS e eu logo atrás como ele bem me recomendou. Coladinho na sua traseira. Meu outro amigo no banco do carona – o antônimo do rodado – fazia o papel do navegador-tranquilizador. Paulo, relaxa porque qualquer coisa a gente liga liga liga liga liga liga. Isso quando ele não estava resmungando: Pow, esse cara não é de grupo. Ele só dirige zimpado. Era um próprio personagem de HQ.
No entanto, eu não queria mesmo era perdê-lo de vista. Avancei sinal, ultrapassei pela esquerda, fiz retorno na contramão, fechei um taxista e não conseguíamos sair das proximidades do sambódromo, que por sinal me chamou a atenção pela sua apoteose. Gostei muito dos setores um e treze. Aliás, ficar dirigindo em torno do sambódromo me remeteu ao filme Férias frustradas. Olha a Torre Eiffel! Olha a Torre Eiffel! Olha a Torre Eiffel!
Mas como diz o ditado: quem tem boca tanto bate até que fura. O Rodado, após meio tanque desperdiçado, se rendeu ao carro amarelo no sinal vermelho e o taxista dando dois beijinhos no ombro e com apenas duas palavras nos levou ao nosso albergue. Siga-me! Caracas, ele sambou na nossa cara. Lacrou!
Uma vez que era só o primeiro dia, voltei a conversar cá com meus botões. Esse negócio de alugar carro não vai dar certo. Ó céus, ó vida.
O Rodado viria a se perder outras vezes, mas aí nada que pusesse nossos passeios em risco. Até porque era só eu acionar meu navegador-tranquilizador que o mesmo acionava sua esposa com o: liga liga liga liga liga liga liga.


Limites da cura nas menores estruturas da matéria


João Bosco Botelho

Os seres vivos, dos unicelulares ao homem, manifestam-se na natureza em torno da complexa dispersão da multiplicidade das formas e das funções biológicas visíveis e invisíveis. É nessa maravilhosa identificação dos múltiplos, porém únicos, que se torna possível aos sentidos humanos, tanto nos inatos quanto nos adquiridos, que é possível apreender a partir da comparação e, a seguir, reproduzir, modificar e interpretar o observável.
Nesse conhecimento historicamente acumulado – a repetição ou a repulsa do visível e do sentido – a espécie se tornou Sapiens. A explosão da inteligência humana deu-se na construção de idéias para desvendar o ainda invisível, a partir do processo cumulativo dos saberes.
Se tomarmos como exemplo um grupo de pessoas adultas, ao longe o suficiente para vermos a forma – o corpo –, poderemos caracterizá-lo, sem esforço, como homens e mulheres. Contudo, conforme nós nos aproximamos, perceberemos que continuam homens e mulheres, porém diversos entre si em cada porção agora mais perceptível dos seus corpos.
Continuando o desvendar da matéria, a mesma e incrível variação continua nas dimensões microscópicas – a célula. Apesar de as células serem passíveis de reconhecimento como sendo originadas na tireóide, elas são distintas entre si. Com a atual tecnologia disponível é possível afirmar que essa extraordinária unicidade que molda o ser vivente, ocorre também no nível molecular.
O que torna mais fascinante o desafio de compreender os corpos humanos é o fato de as doenças também reproduzirem, nas dimensões macro e microscópicas, um conjunto infinitamente maior da multiplicidade das formas e das funções quando comparadas ao normal.
A perda do caráter individual dos seres vivos parece ocorrer no nível atômico. Os corpos, órgãos, células e moléculas normais ou doentes mantêm a multiplicidade, porém os átomos que os compõem não teriam diferenças entre si.
Dessa forma, com o avanço do desvendar das estruturas, torna-se cada vez mais necessário entender as modificações dos tecidos visíveis, identificados como doenças resultantes de mudanças estruturais em todas as dimensões da matéria: células, moléculas, átomos e partículas subatômicas como entidades físicas plenamente relacionadas.
Esse é o ponto de encontro marcando os limites entre o mundo vivo e a natureza inerte! Por um lado, existe a coisa, não reproduzível em si só, composta de átomos organizados em moléculas sem vida e, pelo outro, o ser vivo podendo reproduzir-se, composto dos mesmos átomos organizando as moléculas, as células, os órgãos e os corpos.
Os elementos químicos da cadeia periódica são os mesmos para todas as coisas vivas e inanimadas do planeta. Isto quer dizer que a ciência admite as formas e as funções dos átomos de carbono, que compõem as moléculas do diamante, como sendo exatamente iguais às dos átomos de carbono formadores das moléculas das células do coração humano.
Neste momento, cabe a pergunta fundamental: em qual dimensão do ser vivente a forma determinante da doença substitui a estrutura preexistente para que o normal se transforme em doença? Ou ainda, de modo mais contundente e dramático: o normal e a doença existem ou são partes de outro conjunto ainda desconhecido da ciência?
O que torna tudo mais extraordinário é o fato concreto de que, mesmo sem saber em qual dimensão da matéria o normal se transforma em doença, existe um vigor extraordinário das ciências para lutar contra a dor e empurrar os limites da vida.

terça-feira, 8 de março de 2016

A Tabacaria - no Alienígena


II Colóquio de História e Geografia da Amazônia


Para se inscrever, solicite a Ficha de Inscrição em
igha.manaus@gmail.com
ou
zemariapinto@hotmail.com

segunda-feira, 7 de março de 2016

Lábios que beijei 56



Zemaria Pinto
Rita


Nunca prestara atenção em Rita, até que viajamos juntos a um evento do banco, em Recife. Estranhei logo no avião suas roupas despojadas, à moda hippie, que começava a seduzir os mais jovens, com uma flor nos cabelos. No evento, ela vestia-se de modo convencional, mas à noite, quando saíamos em grupo, ela se destacava exatamente por quebrar as convenções. Na segunda noite, já havíamos feito uma combinação – entre o meu parceiro de quarto e a parceira dela – de modo que ficamos juntos. Ela acendeu um incenso e um baseado, dizendo que era para trazer bons fluidos a nossa noite. A verdade é que nunca me dei bem nem com um nem com outro. Mas Rita, do tipo mignon, mas cheia de curvas e reentrâncias e toda durinha, valia a pena.


(Continua no blog Poesia na Alcova)

domingo, 6 de março de 2016

Manaus, amor e memória CCLIV

Eduardo Ribeiro, com o Teatro Amazonas ao fundo.
Colaboração: Mauri Mrq.

sábado, 5 de março de 2016

sexta-feira, 4 de março de 2016

Discurso de posse no IGHA – 1/3



Zemaria Pinto[1]

Sr. Presidente do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, Dr. Antônio José Souto Loureiro – na pessoa de quem eu cumprimento os demais membros da mesa – senhoras e senhores associados do IGHA, família, amigos, crianças, minhas senhoras, meus senhores...

Na entrada, vocês receberam um livrinho intitulado Nunes Pereira, esboço em cinza e sombras. A finalidade desse livrinho era poupá-los desta fala, porém o ritual de posse manda que se faça uma alocução, especialmente porque a Cadeira de n° 59 será ocupada pela primeira vez. Então, considerando a hipótese de que a leitura integral do livrinho – onde falo da vida e da obra de Nunes Pereira – possa ser eventualmente substituída por atividades mais interessantes, vou lhes comunicar o que julgo essencial nesse trabalho – pelo menos o que for possível na passagem de 48 páginas para 6 laudas, dentro do limite de 12 minutos.
Os que conhecem Nunes Pereira já devem ter ouvido algumas das histórias que se contam sobre ele – e que ele mesmo ajudou a divulgar, alimentando um folclore em torno de sua figura emblemática. Histórias de rebeldia, de boemia, de bonomia e de sexo. Esse anedotário acaba supervalorizado em relação a uma obra que, ainda viçosa e original, é subestimada – pelo que levantei, apenas duas teses de doutorado têm como centro a obra de Nunes Pereira, ambas da PUC-SP: Labirintos do saber: Nunes Pereira e as culturas amazônicas, de Selda Vale da Costa (1997), e Mitopoética dos muiraquitãs, porandubas e moronguetás: ensaios de etnopoesia amazônica, de Harald Pinheiro (2013).
A proposta do livrinho é, ignorando o anedotário, dar uma visão panorâmica sobre a vasta obra de Nunes Pereira, procurando despertar, especialmente nos mais jovens, a curiosidade de conhecer o indispensável da obra do autor de Moronguetá – um Decameron indígena.

Uma vida a ser contada

O cinema nacional, que já sobreviveu à chanchada e à pornochanchada, vivendo agora uma fase de absurda mediocridade, com chanchadas de todas as escalas e matizes, precisaria descobrir esse personagem, que pautou sua vida pela aventura e pelo risco, mas também pelo humor e pela alegria, um herói a um só tempo épico e pícaro – eventualmente, priápico.
Manoel Nunes Pereira nasceu em São Luís do Maranhão, no dia 26 de junho de 1893, filho de Manoel Nunes Pereira e Felicidade Nunes Pereira. Ele, de ascendência lusitana; ela, de ascendência africana. Durante algum tempo, perdurou um mal-entendido com relação ao ano exato de seu nascimento, desfeito em uma entrevista ao Pasquim, quando ele disse que teve necessidade de alterar o ano para 1891, “para entrar num curso”. Na mesma entrevista, conta que começou a se interessar pela temática indígena quando ouviu, em uma conversa de seu pai com amigos, a descrição de um massacre de franceses contra índios do Amapá. Tinha 3 ou 4 anos. “Os franceses pegavam as crianças pelas pernas e esborrachavam suas cabeças contra as árvores”. A imagem terrível acompanhou o menino por toda sua vida, dedicada, talvez, a entender, vigiar e punir, aquele ato primordial – covarde, selvagem e fora de qualquer padrão de humanidade.
Sobre a grafia correta de seu nome também pairam dúvidas. Manuel ou Manoel? Na maioria das vezes, escreve-se Manuel, que é a forma clássica, portuguesa. Porém, em três documentos reproduzidos do Arquivo Nunes Pereira, da Biblioteca Nacional, o nome grafado é Manoel – inclusive o seu Título de Eleitor amazonense, tirado aos 52 anos, na 2ª Zona Eleitoral de Manaus, constando como residência o Grande Hotel. Nesse mesmo documento, o ano de nascimento confirma-se em 1893.
Desde 1911, entretanto, aos 17, 18 anos, Nunes Pereira já andava por Manaus, como jornalista do Correio do Norte – aliás, onde seu nome aparece, várias vezes, grafado como Manoel. E produzindo sonetos, muitos sonetos, com uma pegada simbolista, mas sem descolar da forma parnasiana. É curioso notar que os jornais da época noticiam o aniversário de uma prima do poeta, Clara Nunes, neta de D. Auta Souza Nunes, bem como a chegada de D. Felicidade, para visitar o filho jornalista. Um ramo da família morava em Manaus?





[1] Discurso proferido na noite de 26 de fevereiro de 2016, por ocasião da posse na Cadeira n° 59 do IGHA, que tem por patrono Nunes Pereira.