Amigos do Fingidor

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Sobre livros, não-livros, nuvens e outros símbolos


 

Zemaria Pinto
 


Perdão, leitor. Perdão, leitora. Trata-se de um equívoco: isto que tu tens em mãos não é um livro. Parece um livro, uma brochura, mas o que “parece um livro” é apenas a forma exterior, e, como toda forma, é perecível. Toda forma é fluida, toda forma é vã. Abre-o, vira as páginas. Assim não: lentamente. Uma a uma. Ainda te parece um livro?

Este é um livro único. Não terá segunda edição. Não será traduzido para idiomas estranhos – e nem mesmo para aqueles que ouvimos misturados ao nosso velho vernáculo. Não venderá aos milhares, não renderá comendas ao autor e nem concorrerá ao Nobel, ao Pulitzer ou mesmo ao Jabuti. Isto que tu tens em mãos, querida leitora, leitor querido, é um não-livro.

O que tens em mãos – leitor, leitora – é uma nuvem. Se não tiveres o necessário cuidado que se deve ter com as nuvens, ela se esvanecerá em tuas mãos. Mas se tiveres ainda a virtude da paciência perseverante notarás mudanças físicas no peso e no volume em tuas mãos. E aí – só depende de ti –, verás uma estrela, um coração, uma flor, ou, quem sabe, uma espada se transformando em tuas mãos.

Porque isto é a obra de Drummond: muito mais que livros, muito mais que poemas, muito mais que palavras – magia, alumbramento, plenitude. O milagre da poesia.

Pois o que tens em mãos é puro encantamento. É fruto do amor e da ousadia de quem muito ama os livros. De quem muito ama a poesia. De quem muito ama a vida. Tenório Telles, amante e amador – cavaleiro de todas as Dulcineias do universo. Pois só tanto amor justifica este singelo gesto de ternura: um livro transbordante de poesia para homenagear os 100 anos de nascimento daquele que é a principal referência da poesia brasileira das últimas seis ou sete décadas – e que ainda o será por muito tempo, pois Drummond não é apenas um escritor: é um acontecimento.

Manifesto: já é tempo de tornar Drummond um símbolo nacional – tal como o são a Bandeira e o Hino. É tempo de fazer de Drummond leitura cotidiana nas escolas do país; divulgar a poesia de Drummond nos outdoors, nos shoppings, nos ônibus, nas praças, nos palanques, nos púlpitos, nos muros, nas calçadas, nos intervalos comerciais. É preciso que sintamos orgulho de Drummond, como sentimos orgulho da seleção de futebol, da seleção de vôlei, do Guga, do Senna ou do Pelé.

Para quem não conhecia Drummond, este livrinho (ou estrela ou coração ou flor...) é a melhor introdução. Para quem já o conhecia... Bem, que tal começar levando a obra completa do poeta à cabeceira?

A leitura regular de Drummond não provocará mudanças radicais na estrutura social ou econômica do país. Mas, por força da sua verdade, a compreensão da obra de Drummond dará ensejo à formação de cidadãos mais completos.

 
(Apresentação do livro O anjo cético e o “Sentimento do mundo”, de Tenório Telles [Manaus: Valer, 2003], homenagem ao centenário do poeta itabirano.)  
 
Drummond, por William Medeiros.
 

Três novos membros do IGHA tomam posse



 
 
 
Acontece neste sábado – 1º de dezembro – a posse dos novos membros do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas: os professores doutores Maria Izabel Medeiros Valle (poltrona 35, do Barão do Rio Branco) e Marcílio de Freitas (poltrona 5, de Alexander Von Humboldt); e o escritor Pedro Lucas Lindoso (poltrona 10, de Gonçalves Dias). A saudação será proferida pela professora e historiadora Edinea Mascarenhas Dias.

A solenidade será realizada na sede do IGHA (rua Bernardo Ramos, 117), no salão nobre D. Pedro II, a partir das 19h30min, sob a presidência do pesquisador José Geraldo Xavier dos Anjos.

 

18 de outubro: o dia do médico como marco de luta pela vida


 
João Bosco Botelho

 

A epopeia para empurrar os limites da vida representou um dos principais fatores para o aparecimento dos agentes da cura: da benzedeira ao médico; materializado na Medicina como especialidade social.

 Os registros da arqueologia mostram a existência de práticas de curas, em comunidades ágrafas de caçadores‑coletores. As craniotomias pré-históricas, realizadas há 10.000 anos e os vários ossos de hominídeos achados apresentando sinais de fraturas consolidadas, são inequívocas comprovações da ação intencional de alguns indivíduos do grupo para abrir o crânio e imobilizar o membro fraturado.

Curar é uma palavra mágica porque interliga o sagrado com o profano. O ato de curar traz na sua essência o poder ou a sensação de vencer o maior de todos os obstáculos da vida: a morte.

Este é o ponto básico da principal resistência humana: vencer a morte inevitável!

O fato está claro na mitologia grega. A data atual de comemoração do dia do médico — 18 de outubro — corresponde à época em que era celebrada a festa do filho de Apolo, Asclépio, o deus da Medicina grega.

 Asclépio conquistou uma fama inimaginável. Tinha a delicadeza do tocador de harpa e a fina habilidade agressiva do cirurgião. Todos os doentes que não obtinham cura em outros oráculos procuravam os serviços médicos de Asclépio. Mais cirurgião do que médico, ele criou as tiras, as ligaduras e as tentas para drenar as feridas. Chegou a ressuscitar os mortos e por essa razão foi fulminado por Zeus com os raios dos Ciclopes. Zeus matou o filho de Apolo porque temia que a ordem natural das coisas fosse subvertida pelas curas e pela ressurreição dos mortos.

 O deus da Medicina grega deixou duas filhas — Hígia e Panacéia — e dois filhos — Machaon e Podalírio. As duas mulheres se tornaram famosas pelos conhecimentos empíricos ligados à higiene e às plantas medicinais. Os dois homens foram reconhecidos como médicos guerreiros praticando a cirurgia na guerra de Tróia, e foram citados nominalmente por Homero (Ilíada, 830).

 Muitas esculturas e afrescos retratando Asclépio e a sua filha Panacéia, feitos entre os anos 400 e 100 a.C.,contêm a serpente enrolada em um bastão, como símbolo do renascimento.

 O poder da divindade, artisticamente construído, mantendo a primazia sobre a morte, foi revigorado pela gradativa consolidação do cristianismo como religião dominante. O calendário cristão manteve o dia 18 de outubro como o registro festivo para marcar o nascimento de Lucas, o evangelista médico.

A serpente de Asclépio se enrolou na cruz cristã e formou um dos mais belos sincretismos religiosos da história. A primeira, símbolo da imortalidade embaixo da terra, e a cruz como a representação do inatingível acima da terra, fecham o ciclo mítico pendular entre o desconhecido situado acima da cabeça e abaixo dos pés do homem.

 Ainda estamos angustiantemente longe de compreender os mistérios da vida. Contudo, não é sem razão que os médicos comemoram, muitos sem saber porque, o dia 18 de outubro como marco da resistência à morte inevitável.

De um tudo - o almanaque da identidade cearense


quarta-feira, 28 de novembro de 2012

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Lembrando Luiz Bacellar


                                                        Francisco Vasconcelos

 

A heráldica lembrança do Poeta
se  eterniza nos poemas que deixou.

Nos poemas
e na sempre presença de seus gestos,

de seu  estranho jeito de ser,
exigente na  postura

e no inimitável modo de olhar e sentir o mundo.
Quão diferente foi ele na ortodoxia de seus quereres,

na curiosa excentricidade de seus costumes
e, sobretudo, na indiscutível perfeição de seu fazer poético.

Cauteloso artesão das letras,
os versos que prodigamente nos deixou

têm sabor de luas dadivosas,
dessas que nos inundam a alma

de uma inarredável vontade de querer mais e mais.


Exímio alquimista do belo,

era do mais íntimo  de seu sensível ser
que lograva  transformar em poesia,

até mesmo o insólito e desprezível,
como fez ao lamentar a sorte dos indesejáveis moradores

dos esconderijos feitos ao pé das velhas e românticas mangueiras
da Rua da Conceição.

(onde irão morar os ratos, de ventre gordo e pelado?)
De tais mangueiras,

chegou, até mesmo a ouvir a saudosa conversa,
nos seus lamentos e nas ternas reminiscências casimirianas .

(Oh que saudades que tenho...)
E era tal a lembrança que tinha da Rua da Conceição,

que fico a imaginar ter sido  também ali por perto que,

cauteloso e cismarento,
escondia seus ardentes desejos do solitário

e consciente eremita que fora a vida inteira.

 
Na abrangente alquimia de seus versos,

com um simples giro do polegar nas pedras de seu isqueiro
despertava miríades de estrelas,

logo surgindo (só para vê-las) a bailarina chama
na qual, compulsiva e inevitavelmente

se comprazia em atender aos nicóticos caprichos 
do seu mais frequente e traiçoeiro amigo,

precursor da agonia.

 

E as recordações que tinha ele das treze casas da rua,
numa das quais morou por muito tempo!

Como esquecer a terna e doce balada que dedicou
à Senhora Dona Donana, ex-dona do quarteirão?

 

Ah, Poeta, quanta saudade plantaste com teus versos.
Agora, velho amigo,

livre das amarras que te continham,
é com a certeza do eterno que segues o teu caminhar.

E vais vestido exatamente como gostarias de ir:
paletó feito de brumas,

camisa de neblina,
cachecol à moda russa

e,  na lapela,

um breve floco de nuvens.

Vai, poeta!
Os que ficamos,

por muito tempo

ouviremos  embevecidos

os maviosos sons de tua frauta de barro...

Brasília/outubro/2012


Tarde de sábado, julho, 2006, no El Perikiton.
Da esquerda para a direita: Zemaria Pinto, Luiz Bacellar, Tenório Telles e Mauri Marques.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Curso de Arte Poética


Jorge Tufic
 
 
II.5 – OS PROCESSOS BÁSICOS DA IMAGEM (TROPOLOGIA)
 

                   Um poema pode se elaborar sem a intervenção de um metro ou de rimas, enquanto não pode nascer sem aquela magia interior que se manifesta sob a forma de imagens ou de metáforas (D. Lewis & Y. Peres, citados por Nelly Novaes Coelho, in “Literatura & Linguagem”). As figuras não são adornos supérfluos. Constituem a própria essência da arte poética. São elas que liberam a carga poética encoberta no mundo, a que a prosa retém cativa (Jean Cohen, idem).
 

II.5.1 - O SÍMILE

                   O símile ou comparação, em poesia, é sempre regido por conectivos ou partículas comparativas: “como”, “tal como”, “assim como”, “tal qual” etc. O termo real se polariza ou adere ao termo ideal, assim correspondidos no processo da comparação, onde ambos, embora figurem na mesma linha do verso, são termos independentes. O símile é um processo bastante usado, por mais chocantes que pareçam os termos de comparação. Como nesta “Elegia quase ode”, de Moacyr Félix:

 

Como se feras, vejo as ruas
agachadas no dorso de uma aurora

 
II.5.2 - A IMAGEM
 

                   Enquanto no símile os dois objetos do poeta – o real e o ideal – se distinguem um do outro como dois jogadores de clubes diferentes, na imagem, o segundo objeto é que passa a ser o primeiro. Há uma identificação mais profunda entre os dois termos. São eles, por assim dizer, inseparáveis. No caso da imagem, entretanto, o objeto em foco, ao invés de ser “como”, “tal” ou “assim como”, ele próprio toma a forma e a substância do objeto ou do termo ideal. A amada, por exemplo, é luz, estrela, ar ou distância. E não como se fosse. “Amor é fogo que arde sem se ver” (Camões).

 
II.5.3 - A METÁFORA

                   A metáfora, como sua própria raiz já indica, fica além do símile e da imagem, e é neste locus por vezes indeterminado, quando se trata da linguagem poética, que vamos encontrá-la sujeita às mais variadas interpretações. Acentua-se ainda mais esta dificuldade, na ausência de um elemento real como ponto de partida. Deste modo, esse recurso estilístico de que tanto se fala, um dos mais importantes, sem dúvida, na poesia de todos os tempos e origens, ele está mais para a intuição e a criatividade, do que mesmo para a lógica. Projetando-se “além” do texto e do contexto em que ficam inseridos a obra e o autor de um poema, a metáfora transporta em suas asas outros significados que extrapolam da simples referência, por mais concreta que ela seja, como é o caso da “pedra”, no famoso poema de Carlos Drummond de Andrade. Uma verdadeira pedra no caminho, inclusive para tantos que hajam tentado, e ainda tentam, desvendar-lhe a ressonância, o impacto e a temperatura ou “os círculos concêntricos de som e luz”, segundo a visão crítica de George Whalley. Nem o concretismo, com todo o seu empenho de fugir aos “sintomas” do passado, conseguiu escapar ao magnetismo semântico dessa palavra. Cassiano Ricardo: “Que estruturas são essas? O símbolo, a imagem, o mito, a imaginação pictográfica... Bem pensando, o poema concreto, tal como o praticam DÉCIO PIGNATARI, HAROLDO e AUGUSTO DE CAMPOS, não deixará (paradoxalmente) de ser uma metáfora gráfica: uma admirável metáfora gráfica.”
 
                   Não é de estranhar a constatação do criador de “Martim-Cererê”, para quem toda poesia é metáfora.

domingo, 25 de novembro de 2012

Manaus, amor e memória LXXXIV



Um doce para quem indicar com firma reconhecida em cartório (afinal, a turma precisa faturar) em baixo do que está essa bela praça...

sábado, 24 de novembro de 2012

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Antísthenes Pinto, uma apresentação 2/2


Zemaria Pinto
 
 
 
O Clube da Madrugada fora fundado com um ideal: ser um centro irradiador de idéias novas. Isto valeria para a política, a economia, as artes, enfim, para todas as manifestações do pensamento. Havia entre os jovens fundadores do Clube um desejo incontido de mudança. Antísthenes Pinto constrói sua obra poética sob esse signo – da experimentação e da busca do novo, tendo sempre em mente o axioma de Maiakovski: não há arte revolucionária sem forma revolucionária. As influências são as mais diversas, indo desde o surrealismo até a poesia concreta. Mas a principal marca da poesia de Antísthenes é a ironia com que ele traça a cartografia do mundo a sua volta, sem nenhuma autoindulgência, como no poema de abertura de Sombra e asfalto, de 1957, sua estréia em livro:

 

O meu patético olhar engole o longe:

– Escuro limitando com escuro

E quanto ao perto: cinza no cinzeiro

E o negro cão do tempo me mordendo.[1]

 

Ossuário, de 1963, foi o livro que motivou no crítico Assis Brasil, para definir o trabalho de Antísthenes, a idéia de “uma poesia de interesse visual, descarnada, limpa”[2]. Morando no Rio de Janeiro, publicando regularmente no lendário Suplemento Literário do Jornal do Brasil, quando ainda dirigido por Mário Faustino, Antísthenes elabora poemas austeros, ásperos, sem concessões, de onde a poesia brota quase imperceptível:

 

oblonga

     a

                noite

                           gasta-se

                                em

                              grilos[3]

 

Prêmio Prefeitura de Manaus, em 1976 – havia, há 28 anos, um Prêmio Prefeitura de Manaus de Poesia! –, Angústia numeral é o livro mais emblemático de Antísthenes, o que não significa o melhor. Aquela contenção de Ossuário explode, treze anos depois, em uma festa de palavras, onde o verso longo e delirante – ecoando Whitman, Maiakovski, Fernando Pessoa, ou mesmo o Mário de Andrade da Paulicéia desvairada – nos pega como um soco:
 

sejamos malucos embora usemos gravatas

e fiquemos sempre de cócoras.

A mudez é a arma que nos faz rir

do caótico sol da refrega.

 

Sejamos, também, interiorizados como os postes

e deixemos os cabelos cobrir-nos como lençóis.

Sejamos cães, cães pelo menos vinte e três horas

por dia e façamos da chuva

a ordeira companheira a suavizar nossa náusea.[4]

 

Este foi o primeiro poema de Antísthenes que li em livro. Estávamos em 1980, e eu o conhecia apenas dos jornais. Em menos de uma hora, já havia lido os 41 poemas de Angústia numeral e começava a relê-los, vibrando cada palavra:

 

Os guarda-chuvas abertos à rua

vertical e a lepra por baixo num euforismo

de canção.

As janelas caladas deixando o vento túmido

passar as suas patas ciclópicas

e o imenso monociclo levando para nenhuma parte

o homem de cabeça decepada

e as mulheres todas com o sexo

sangrando

cobrindo os olhos congestionados.[5]

 

Aqueles versos ensandecidos mostravam-me que as leituras da beat generation, em especial de Allen Ginsberg, bem como do paulista Roberto Piva, não eram vãs. Havia alguém muito próximo que dialogava com aqueles poetas. Era preciso conhecê-lo melhor.

O último livro original de poemas publicado por Antísthenes Pinto foi Curvas do tempo, de 1984. Editado por conta do próprio autor, o livro configura-se como um legado que o poeta teimava em nos deixar. Cada uma das faces de sua poesia múltipla está representada naquelas 70 páginas, que ainda se dão ao luxo de trazerem novidades, como o uso da música, marcada pelo domínio do metro popular, aliado à harmonia advinda das entonações perfeitas, como neste pastoril, de sabor levemente surreal:
 

Havia um pássaro em pânico

entre gardênias e Mirra,

foi bem cedo que a vi

com seus cabelos azuis

nessa campina de sono,

de vacas tontas de sol

e laranjas crepitando

como pombos na manhã.[6]

 

Mas estão também em Curvas do tempo os versos descarnados de Ossuário e os versos longos e arrebatados de Angústia numeral. Estão presentes os cães, os cães sempre presentes na poesia de Antísthenes. E também os ossos – as flores ósseas, o ósseo sol, o canto ossificado –, recorrências que se associam e se completam, nos quadros cáusticos que a inquieta poesia de Antísthenes Pinto eternizou.

 

PS: este texto é um excerto adaptado do discurso de posse do autor à Cadeira de N° 27 da Academia Amazonense de Letras, cujo antecessor fora Antísthenes Pinto.



[1] Poesia reunida, de Antísthenes Pinto, Manaus, Puxirum, 1987.
[2] Dicionário prático de literatura brasileira, de Assis Brasil, Rio de Janeiro, Tecnoprint, 1979.
[3] Poesia reunida, de Antísthenes Pinto, Manaus, Puxirum, 1987.
[4] Angústia numeral, de Antísthenes Pinto, Manaus, Prefeitura Municipal, 1976.
[5] Idem.
[6] Curvas do tempo, de Antísthenes Pinto, Manaus, Edição do Autor, 1984.

A cirurgia como arte


 
João Bosco Botelho

 

A cirurgia, no passar dos milênios, continua mantendo a mesma característica básica – a arte trabalhada no próprio homem – onde a luta contra a dor e a morte é o pilar sustentador do início, meio e fim.

Da primeira amputação cirúrgica realizada, em torno de 25.000 anos, no Monte Zagros, no Iraque, até os transplantes, a cirurgia guardou íntima relação com a busca da perfeição do corpo no arquétipo divino antropomórfico.

É possível comparar a cirurgia com a pintura ou outra expressão da arte humana. Quando o cirurgião consegue retirar o câncer da tireóide ou o da laringe ulcerada, desenvolve um conjunto de gestos que é indissolúvel da arte. A sensação da obra terminada, na cirurgia, não deve ser diferente da sentida pelo pintor ao terminar o quadro ou a do compositor ao ouvir a música.

Os gregos reconheceram a importância da cirurgia para a Medicina. Os livros escritos, na escola de Cós, na Grécia antiga, em torno do 4 século a. C., atribuídos a Hipócrates, contêm volumosa referência à prática cirúrgica.

Com o avanço conquistador dos romanos e a organização militar desse povo, grandes hospitais militares foram construídos, nas principais cidades do Império, para receber os soldados feridos em combate. Nessa fase, a cirurgia alcançou grande desenvolvimento, principalmente no tratamento das feridas traumáticas de guerra. É dessa época que os estudos de Herófilo (340-? d. C.) e de Eresistrato (330-? d.C.) identificaram a tireóide, a próstata, o estômago, o duodeno, o sistema nervoso, além de diferenciar o tendão do nervo.

A partir da ascensão do cristianismo, a partir de Constantino, no século 4, a Medicina começou a absorver o sentido de caridade e perdeu parte das conquistas em torno da técnica.

Os reinos cristãos edificaram os hospitais para abrigar os indigentes – nosocomia. A partir dessa fase, entre os séculos 6 e 7, iniciou-se um período muito difícil para os cirurgiões. Em consequência das restrições eclesiásticas, o corpo humano não pode mais ser estudado e a guarda sigilosa, nas abadias, dos livros de anatomia escritos pelos gregos e romanos, contribuíram para que a cirurgia fosse uma atividade temida de ser exercida.

Esta situação de estorvos à arte cirúrgica se consolidou ainda mais no Concílio de Tours (1163), por meio da Bula Ecclesia Abohorret a Sanguine ou “A Igreja abomina o sangue”.

A cirurgia atravessou dez séculos entre severas restrições. Nesse período, os cirurgiões-barbeiros ocuparam os espaços amputando e lancetando, arrancando dentes, cortando cabelos e barbas.

A primeira resistência a essa situação ocorreu na Faculdade de Medicina de Montpellier. Alguns cirurgiões, liderados por Jean Pitard (1238-1315) fundaram a Confraria de Cirurgiões, sob a proteção de São Cosme e São Damião e se separaram dos barbeiros.

A cirurgia foi incorporada, definitivamente, como especialidade médica a partir de 1436, quando os antigos cirurgiões-barbeiros ingressaram na Faculdade de Medicina de Paris.

Com a utilização da anestesia, a partir de 1846, e da antissepsia, em 1867, finalmente, o cirurgião pôde debruçar-se por mais tempo nos objetos da sua arte – os corpos – e reunir esforços para empurrar os limites da dor e da vida.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Curso de Arte Poética


Jorge Tufic
 
II.4.4 - A ONOMATOPEIA


                  A melhor definição de onomatopeia, aplicada ao gênero poesia, está, ao nosso ver, no “Pequeno Dicionário de Arte Poética”, de Geir Campos: “Nome dado à FIGURA que resulta quando se repetem ou combinam palavras cujos sons, numa espécie de HARMONIA IMITATIVA, dão idéia exata ou aproximada do objeto ou ação a que se refere o texto, fazendo valerem sobretudo as consoantes (fricativas sugerem fuga, sopro; sibilantes, deslisamento, atrito; guturais, rolamento, confusão; explosivas, pancada, choque), como em “Noite de São João”, um poema de Jorge de Lima, que começa:
 

Vamos ver quem é que sabe
soltar fogos de São João?
Foguetes, bombas, chuvinhas,
chios, chuveiros, chiando,
          chiando
          chovendo
          chuvas de fogo!
          Chá-Bum!
 

II.4.5 - O ECO 

                   Segundo Geir Campos, o eco ou ressonância consiste “numa espécie maligna de HOMOTELÊUTON, de efeito desagradável ao ouvido”. Como “artifício poético”, no entanto, ele acompanha a saída mais fácil para o extravasamento espontâneo da verve popular. O exemplo é de Gregório de Matos: 

Que falta nesta cidade? - Verdade!
Que mais, por sua desonra? - Honra!
Falta mais que se lhe ponha: - Vergonha!  

 

II.4.6 - O PARALELISMO 

                   O paralelismo é um velho recurso poético no qual são repetidos os versos e estrofes do mesmo poema. Exemplo: “E agora, José?”, de Carlos Drummond de Andrade.
 

II.4.7 - O REFRÃO (ou Estribilho) 

                   Nas cantigas populares ou nos poemas eruditos, é a repetição de um ou mais versos entre uma estrofe e outra, como reforço de uma lembrança, de uma idéia ou mesmo de sons, palavras e locuções familiares a uma época, incidente, fato social, folclórico etc. Como sinônimo de estribilho, o refrão tem raízes populares no modo coloquial de situar acontecimentos afetivos, no repouso melódico da frase e na repetição fragmentária. Há copiosos exemplos de refrão na moderna poesia brasileira, com Jorge de Lima, Manuel Bandeira, entre outros.

domingo, 18 de novembro de 2012

Manaus, amor e memória LXXXIII

Canto do Quintela, em 1910. Possivelmente.

sábado, 17 de novembro de 2012

Waterfall.
Roberto Campus.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Antísthenes Pinto, uma apresentação 1/2


Zemaria Pinto


 

Antísthenes de Oliveira Pinto foi um artista das letras: poeta, ficcionista, cronista e ensaísta, além de exercer, por muito tempo, a faina diária do jornalismo. Ao longo de 19 anos de convivência, lembro-me de visitá-lo em pelo menos quatro endereços: 10 de Julho, Jardim Paulista, Parque 10 e Joaquim Nabuco. Deixou-nos, aos 71 anos, em dezembro de 2000. Trabalhando pela sobrevivência até os últimos dias, até onde lhe permitiu sua saúde, jamais teve tempo para se dedicar à sua arte de modo integral, o que não o impediu de nos legar uma extensa obra.

Transitando das mais radicais experiências poéticas da segunda metade do século XX até o consagrado romance de traço regionalista, Antísthenes Pinto deixou um rastro de luz a iluminar para sempre a história da literatura amazonense. Autor de doze livros de prosa – entre romances, novelas, contos, crônicas e ensaios – e cinco de poesia, além da Poesia reunida[1], o legado de Antísthenes ainda está por merecer a atenção de estudos mais profundos. Para falar apenas da superfície, sou tentado a fazer o óbvio levantamento cronológico. Mas seria enfadonho para os que me lêem, e não faria justiça ao autor. Por isso, limitar-me-ei a comentar brevemente sua prosa de ficção – romances, novelas e contos – para em seguida comentar a poesia de Antísthenes, que, particularmente, me fascina, pela ousadia e essencialidade.   

Com a publicação da novela Chavascal, em 1965, Antísthenes Pinto dá início a uma série de narrativas que têm como tema a vida no interior da Amazônia. Dava continuidade a uma tradição ilustre: Araújo Amazonas, Alberto Rangel, Ferreira de Castro, Ramayana de Chevalier, Álvaro Maia, Paulo Jacob, passando pelo companheiro de Clube da Madrugada Arthur Engrácio, que àquela altura já publicara Histórias de submundo. O romance nordestino dos anos 30, que podemos classificar como neorrealista, é o modelo – não a ser imitado, simplesmente, mas a servir de base a uma literatura que pudesse ter uma face verdadeiramente amazônica. Na sequência de sua obra, três romances vêm coroar o trabalho sobre aquele tema inicial, a vida do homem ribeirinho, repleta de amoralidade e extrema violência: Terra firme, A solidão e os anjos e Várzea dos afogados. Não se trata de literatura de denúncia, panfletária, porque não são os homens rudes e suas vicissitudes o foco principal do autor. Tampouco se verifica o confortável maniqueísmo, típico de uma literatura dita engajada, muito comum à época. Acima dos homens e suas enfermidades éticas está o espaço amazônico – impenetrável, cruel, arquetípico –, que os transforma em monstros morais, deformados interiormente. A visão infernista que Antísthenes passava da Amazônia traduzia, em verdade, o seu desencanto para com o futuro daqueles que vegetavam no esquecimento dos beiradões, cuja única esperança – como para a Leontina, de Várzea dos afogados – era a mudança para a capital. Vivíamos o auge da Zona Franca de Manaus. Mas para o homem do interior tudo continuava como sempre, desde sempre.

O lançamento, em 1981, de É proibido perturbar os pássaros inaugura um novo ângulo da ficção de Antísthenes: contos de temática urbana, tramas trabalhadas como se fossem poemas – cada palavra valorizada ao extremo, texto enxuto, sempre buscando essências. Confirmamos esse fato no livro de contos seguinte, Os suicidas, onde observamos que vários contos do livro anterior são revistos e retrabalhados, numa faina incessante, como se o contista-poeta estivesse sempre procurando a sociedade ideal entre forma e conteúdo.

Mas a maturidade da obra ficcional de Antísthenes Pinto ainda estaria por se revelar em sua plenitude, em novelas exemplares. Antes, porém, o professor pede a palavra e explica, da maneira mais simples, o que entende por novela, pois há, pelo menos, duas concepções contraditórias. Fiquemos com aquela que diz que a novela é uma espécie de ‘romance condensado’ – com poucas personagens, poucas células dramáticas, ações limitadas a um espaço reduzido, e tempo cronológico bem definido. Pois bem, Os agachados, agraciado com o Prêmio Suframa de Literatura, em 1984 – havia, há 20 anos, um Prêmio Suframa de Literatura! –, traz-nos um Antísthenes diverso do contador de histórias com quem nos acostumáramos: num clima onírico, ele acompanha a trajetória de Rinaldo e a rotina dos botequins de Manaus e seus frequentadores. Nessa novela, em verdade, a grande personagem é a linguagem, e toda a tensão construída, com arte, em torno dela.

Por fim, fechando a obra ficcional de Antísthenes Pinto, temos a novela Porão das Almas, publicada em 1992, sem dúvida, sua obra-prima. Um menino de 13 anos, Bores, habita o porão de uma velha casa, decadente em todos os aspectos, em uma bucólica Manaus, hoje apenas imaginada. O pequeno Bores, de saúde frágil, convive com os fantasmas que lhe frequentam o sórdido porão, mas também com os fantasmas de carne e osso que transitam à luz do dia pelos corredores sombrios do sobrado: as tias infelizes, o pai, uma ruína moral, a mãe anulada, o irmão suicida, a louca Matilde, apaixonada por ele. Explorando os limites do paradoxo, a tragédia que se abate sobre a família de Bores representa a sua redenção. Fazendo uso da técnica cinematográfica, a narrativa se estrutura em quadros que, quando não fechados, completam-se ou explicam-se logo adiante. A simplicidade da trama, aliada à mediocridade e ao ridículo que esmagam as personagens, lembra de imediato dois gigantes, quase sempre esquecidos: o brasileiro Dionélio Machado e o russo Anton Tchekov. Mas são meros pontos de referência: Antísthenes basta-se em si mesmo.   



[1] Poesia: Sombra e asfalto (1957); Ossuário (1963); Angústia numeral (1976); A rebelião dos bichos (1977); Curvas do tempo (1984); Poesia reunida (1987).
Romances: Terra firme (1970); A solidão e os anjos (1976); Várzea dos afogados (1982).
Novelas: Chavascal (1965); Os agachados (1985); Porão das almas (1992).
Contos: É proibido perturbar os pássaros (1981); Os suicidas (1988)
Crônicas: Quelônios do Carabinani (1984); Os garis das alturas (1992).
Ensaios: Literatura: novos horizontes (1984); Oito poetas amazonenses (1992).