Amigos do Fingidor

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Dabacuri - amazônica 6/13



Zemaria Pinto

terra caída –
ilhas à deriva,
rio abaixo

 

as terras caídas
navegam rumo ao mar
– última viagem

 

casebre de palha
plantado à margem do rio
– pobreza e silêncio

 

o som da fúria –
saúvas trabalhando
na tarde ensolarada

Desfamiliares: Poesia Completa de Leila Míccolis


Câncer: a partitura desarmônica da vida



João Bosco Botelho

 

            O câncer não é uma única doença! Na realidade são centenas de tipos diferentes, que se manifestam por meio de vários tipos de gravidades clínicas. Algumas formas com pouca agressividade biológica, ainda que sem tratamento, não oferecem risco à vida. Outras, sem explicação e nexo com o tipo de vida do doente, aparecem com grande agressividade, mesmo com todos os recursos de tratamento disponíveis, determinam a morte em pouco tempo.

Também é importante relembrar que os cânceres só não se manifestam nos cabelos e nas unhas porque são tecidos de granulação. Fora desses dois segmentos, os cânceres podem ocorrer em qualquer outra parte do corpo, idades e condição socioeconômica, inclusive e estranhamente no feto em formação.

Algumas formas, como os cânceres de colo uterino, absolutamente passíveis de diagnósticos precoces por meio do exame preventivo, têm forte relação com infecções de vírus no colo uterino e certas condições traumáticas: precocidade das relações sexuais, muitos partos normais e repetidas infecções ginecológicas. Em incontáveis outras, não é possível estabelecer qualquer linha causal.

As pessoas continuam, com justa razão, alertas contra o câncer como a mais importante doença da atualidade. Por outro lado, os recursos médicos disponíveis não oferecem, na maior parte dos casos, respostas convincentes.

            É provável que a enfermidade cancerosa seja o saldo de muitos distúrbios ainda desconhecidos do equilíbrio celular, provocados por múltiplos fatores internos e externos à célula. Os determinantes intrínsecos seriam representados pelos códigos genéticos específicos para cada tipo de câncer na estrutura do genoma (como o teclado de um piano) e os extrínsecos pelos incontáveis fatores físicos, químicos e biológicos que poderiam estimular a chave genética (atuando repetidamente no teclado, produzindo sons desafinados).

            Funcionaria, mais ou menos, assim: cada ser humano teria o seu próprio teclado de informações genéticas produzindo partituras harmoniosas e sequenciadas em estrito equilíbrio dinâmico com os elementos circundantes externos. Em determinado momento, o teclado ao ser tocado de forma incorreta, possivelmente por influência de um ou mais fatores extrínsecos, forneceria um som estranho à partitura da organização da vida, dando como resultado o câncer.

            Isso deve acontecer muito mais vezes do que supomos. Estatisticamente é pouco provável que os milhões de combinações físico-químicas efetuadas de uma só vez, a cada segundo, não comportem erros. Todos os dias o homem produz uma fantástica quantidade de proteínas sob a regência genômica, que se colocadas em linha reta, alcançaria várias quilômetros de comprimento.

            Certamente que estamos submetidos, durante toda a vida, aos processos cancerosos. A grande dúvida é saber por que as defesas imunológicas do corpo conseguem bloquear a maior parte dos cânceres e perde a capacidade para outros.

            Muitos dos mais respeitados cancerologistas, como o pesquisa­dor francês Dominique Stehelin, um dos responsáveis pela descoberta do oncogene (o fator intrínseco contido no teclado do piano) afirma que o câncer é a doença mais complicada do homem.

            O exemplo mais marcante e socialmente importante é a relação entre o hábito de fumar cigarros e o câncer de pulmão. As pesquisas realizadas pelo Instituto de Câncer de Amsterdã (Holanda) mostraram o mesmo defeito no gene K‑Ras em trinta e nove pacientes fumantes.

            Certos componentes da fumaça do tabaco alcançariam o décimo segundo aminoácido do gene humano (cada gene é formado por milhares de aminoácidos) causando o câncer pulmonar. Contudo, uma pessoa pode fumar a vida inteira e não morrer de câncer. Como se o seu teclado, por mais que seja estimulado, não forneça o som desarmônico.

            Não existe dúvida de que a ação antitabagista conseguiu reverter a curva de mortalidade do câncer do pulmão. Pela primeira vez, em 1989, após várias décadas, o Jornal do National Cancer Institute publicou a comprovação epidemiológica da diminuição das mortes por ano causadas pela neoplasia pulmonar.

            Como ainda não dispomos de tratamento eficaz para a maior parte dos cânceres, a política publica de saúde está voltada para o reforço do diagnóstico precoce e para as campanhas de alertas contra os fatores externos relacionados com o aparecimento de certos tipos de tumores.

             

quarta-feira, 29 de maio de 2013

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Tudo serviu, inclusive o ruim


Carlos Drummond de Andrade

 

Drummond, por Jorge Inácio.
Sinto-me devedor de todos os autores que li, na infância e na juventude, e me confesso ainda tributário dos que leio agora, desde os que tratam questões de filosofia da linguagem até os últimos e raríssimos escritores de a pedidos. Tudo serviu, inclusive o ruim – como exemplo de ruim. Ficaria muito infeliz se alguém descobrisse em mim o produto de uma exclusiva leitura dos 15 anos.

 

(Entrevista para Homero Senna, publicada no livro República das Letras: 3ª ed., Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1996, p. 4.)

domingo, 26 de maio de 2013

sábado, 25 de maio de 2013

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Dabacuri – amazônica 5/13



Zemaria Pinto
 
 
peixe moqueado,

pimenta e farinha d’água

– manjar amazônico

 

à beira do lago,

alegria domingueira

– almoço em família

 

início das férias –

no balanço do banzeiro

o barco preguiçoso

 

barco vagabundo,

desliza à pele do rio

a árvore morta

A casa alienígena de Van Gogh reformada no Prosamim


Sempre às 20h.


TEATRO ÉDEN

 apresenta

A CASA ALIENÍGENA DE VAN GOGH reformada no Prosamin

Dramaturgia de Jorge Bandeira, a partir do texto Van Gogh, o suicida da sociedade, de Antonin Artaud.
 

Elenco: 

Amanda Magaiver – Ex-tela

Fred Lima – Vincent Van Gogh


Iluminação e Sonoplastia ao vivo: Jorge Bandeira


Figurino, Cenografia, Pesquisa e identidade visual:  Teatro Éden e Vyasa


Filmagem: Teatro Éden

 
        Arte Visual: Alessandra Pinheiro
 

Concepção geral e encenação:

Jorge Bandeira


Esta temporada é dedicada a Einar Damasceno, Cris Fortes Marks e Waldnely Gusmão.

O aborto e o profano


 

João Bosco Botelho

 

Alguns registros sugerem, fortemente, que os métodos abortivos utilizados como contraceptivos foram usuais nas primeiras cidades do segundo milênio a.C. Essa herança social chegou ao mundo greco‑romano. Esses registros também evidenciam que pouco importava à mulher daquela época o momento da gravidez mais propício para provocar o aborto.

As regras sociais do politeísmo, do segundo milênio, não empunhavam restrições, ao menos nos dois mais antigos textos legisladores, o Código de Hammu­rabi, do século 17 a.C., e as leis de Eshnunna (1825‑1787 a.C.) não fazem referência ao assunto.

Em contrapartida, o juramento de Hipócrates, do século 4 a.C., produzido na Escola de Medicina, na ilha de Cós, mostra a clara tendência antiabortiva dos médicos gregos sob a liderança de Hipócrates: “... Não darei venenos mortais a ninguém, mesmo que seja instado, nem darei a ninguém tal conselho e, igualmente, não darei às mulheres pessário para provo­car aborto.” É difícil assegurar se tratar da exclusiva crítica à eutanásia ou, por outro lado, dos cuidados para evitar medicamentos utilizados na época, que poderiam causar a morte, como o heléboro (erva medicinal do gênero Veratrum, da família das liláceas, que contém o alcalóide veratina, com propriedades analgésicas). Igualmente, a proibição do aborto é um dos aspectos mais curiosos do Juramento hipocrático. Nenhum médico hipocrático o condenou, salvo pelas complicações que podiam ocorrer, em especial, a morte da gestante. Entretanto, existe documentação que sugere ser o aborto religiosamente impuro.

Em torno do século 4 d.C., a profissão médica foi severamente fiscalizada e instituído rigoroso exame para todos que quisessem exercer a profissão. O império romano subvencionava os estudantes de Medicina, mas em troca erram obrigados a prestar assistência aos pobres. Os médicos foram proibidos de praticar o aborto e negar o atendimento a qualquer doente, sob o risco de castigo corporal e multa.

Por outro lado, houve certa indulgência em Aristóteles (Política, VII, 4), que aconselhava a interrupção da gravidez frente às necessidades médicas, desde que o embrião não tivesse recebido o sentimento e a vida. No texto aristotélico, existe a limitação do aborto como método anticoncepcional, de acordo com a idade fetal.

Depois de quase dois mil anos de limitações impostas, ora pelo sagrado, ora pelo profano, nas relações sociais, a estimativa do número de abortos provocados por ano no mundo ultrapassou, em 1989, 40 milhões. Dez por cento desse total, 4 milhões, foram feitos no Brasil, causando a morte de trezentas mil mulheres.

A Organização Mundial de Saúde publicou que o Brasil já tem maior número de abortos do que de nascimentos. Os estudos da OMS e de outras entidades de direitos humanos, mostram que a mortalidade e a morbidade são atenuadas com a melhor assistência do Estado. Foi o que aconteceu nos Estados Unidos da América, a partir de 1973, quando a Suprema Corte legalizou o aborto, com severas restrições à realização em hospitais públicos, em menores de idade e em gestantes com mais de dois meses de gravidez.

A tendência pró‑aborto iniciada na Europa, nos anos setenta, é hoje mundial. Nos últimos quinze anos, pelo menos vinte países modificaram as suas leis. Na Itália, o mais católico dos países da Europa, a legalização do aborto provocou muito conflito. Só depois de cinco anos de debates no Parlamento, em 1975, e com a ajuda da frente laica, reunindo os representantes de todos os partidos políticos, foi aprovada a mudança. O plebiscito, realizado no papado de João Paulo II, mostrou que 70 % dos italianos aprovaram a lei.

As estatísticas mundiais, notadamente, nos países de tradição cristã, evidenciam o aumento do número dos abortos provocados. Mesmo com essa clareza, continua em plena efervescência essa discussão, na medida em que todos concordam ser necessário monitorar a decisão da busca do aborto como medida anticoncepcional, notadamente se a mulher que pretende abortar é menor de idade.

Na França, a permissão legal para o aborto alcança os embriões de 14 semanas. Contudo, a entrevista obrigatória com equipe especializada, que antecede o ato médico, nos hospitais públicos, e o apoio governamental no sustento futuro da criança, consegue reverter a decisão em mais da metade dos casos

As análises dos dados estatísticos forçam pelo menos duas reflexões:

– As proibições profanas e sagradas não modificaram, em quase dois mil anos, o comportamento das mulheres quando decididas a utilizar o aborto como método anticoncepcio­nal;

– Nas sociedades com problemas de superpopulação, pode ocorrer o estímulo público e institucional ao aborto como forma de controle populacional.

 

quarta-feira, 22 de maio de 2013

terça-feira, 21 de maio de 2013

Sobre a verdade


 
A verdade é indivisível, portanto não pode ter conhecimento de si mesma; quem quer que diga conhecê-la está se referindo a uma mentira.
(Franz Kafka)
 
 

Tradução: Modesto Carone; Os Aforismos reunidos de Franz Kafka.
In: serrote n° 1 (São Paulo: IMS, 2009).

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Discurso para ninguém


Grace Cordeiro



Nada como caminhar nas curvas de uma bela e jovem mulher, e sobre ela, os dias, os poemas e os amigos.

Deitar-se no vinho ou num destilado para lubrificar as entranhas cansadas das mortes.

Nada como as velhas canções para suavizar as rugas por onde ficaram as mãos amantes.

De tudo, um respirar sem ilusão, ou com um pouco de ambição, mas quem sabe o que restará?

Talvez um fluido momento a ermo, uma árvore, um rio, uma rede.

Quem poderá dizer que essa aventura valeu a pena?

A tragédia das horas, pensar que tudo transcorre naturalmente.

A comédia, somos carne que o pensamento leva.

O silêncio para todos, o respeito para poucos.

Alegre selvageria, esse encontro definitivo com o tempo. 

domingo, 19 de maio de 2013

sábado, 18 de maio de 2013

Fantasy Art - Galeria

Lady Rawhide Rides.
Julie Bell.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Dabacuri – amazônica 4/13



Zemaria Pinto
 
 
ondas nunca vistas,

temporal no Nhamundá

– as margens sumiram

 

fraterna harmonia:

mixira, caapi, cauim

– dabacuri

 

sol na cumeeira –

o barco desliza lento

buscando o nascente

 

fogo improvisado

para o almoço de domingo:

peixe moqueado

Jaguaribe – memória das águas

O lançamento do livro de Luciano Maia ocorrerá em Fortaleza.

O aborto e o sagrado


 
João Bosco Botelho

 

É difícil entender as razões pelas quais tanto o Antigo quanto o Novo Testamento, mesmo contendo inúmeras referências específicas sobre a organização familiar, não citam uma só vez a prática abortiva. É como se o fato, que incontestavelmente deveria ocorrer, não tivesse qualquer importância social e religiosa. A Bíblia não condena nem aprova a interrupção da gravidez como forma anticoncepcional.

            A mais antiga e clara referência cristã antiabortiva está no Didaqué, manual ético‑moral, escrito nos anos 100 da nossa Era: “Não matarás criança por aborto, nem criança já nascida”. O filósofo cristão Tertuliano (190‑197) também adotou a posição antiabortiva absoluta: “É homicídio antecipar ou impedir alguém de nascer. Pouco importa que se arranque a alma já nascida, ou que se faça desaparecer aquela que está ainda por nascer. É já um homem aquele que virá”.

             São Jerônimo (331‑420), um dos quatro grandes doutores da Igreja, na correspondência endereçada à Algásia, argumentou: “... os sêmens se formam gradualmente no útero e não se pode falar de homicídio antes que os elementos esparsos recebam a sua aparência e seus membros”. Contudo, em outra carta, o monge de Belém considerou as mulheres que escondiam a infidelidade conjugal com o aborto como culpadas de triplo crime: adultério, suicídio, assassinato dos filhos.

            De forma semelhante, Santo Agostinho (354‑430) manteve a separação etária dos fetos: “Pois uma vez que o grande problema da alma não pode ser decidido apressadamente com julgamentos rápidos e não fundamentados, a LEI não prevê que o ato seja considerado como homicídio, uma vez que não se pode falar de alma viva num corpo privado de sensações, numa carne não formada e, portanto, ainda não dotada de sentidos”.

            Na Idade Média, a Igreja cristianizou algumas comemorações oriundas do politeísmo. A da Natividade do Senhor foi uma das primeiras, fixada no fim do século 4, iniciando os atributos sagrados às concepções, seguida da Natividade da Imaculada Conceição de Maria, celebrada no dia 8 de dezembro, e da Anunciação, ou festa da concepção de Cristo, respectivamente nos séculos 6 e 7. Essas celebrações contribuíram para impor simbologia sagrada à gestação.

            A dúvida sobre a data do início da anima­ção do feto, oriunda dos conceitos aristotélicos, atravessou dois milênios de reconstruções sociopolíticas. O magnífico Santo Tomás (1225‑1274) sustentou que não ocorria na concepção e que só o aborto de um feto animado era homicídio. A força da tradição e a moralidade do tomismo para a estrutura dogmática da Igreja influenciaram decisivamente no afrouxamento da proibição. O papa Gregório XIV, apoiado no argumento de muitos teólogos, revogou a Bula de Xisto V (1588), que punia civil e canonicamente todos os que praticassem o aborto em qualquer fase do feto.

             O retorno da Igreja, verificado no século 19, ao rigor do cristianismo do Didaqué tem dois componentes inseparáveis: um teológico e outro político. O primeiro, promovido pelo papa Pio XI, acabou com a distinção multissecular de feto animado e não animado. O segundo, relacionado com a industrialização crescente do ocidente e a imperativa necessidade de mão‑de‑obra, já que historicamente o aborto e suas conseqüências maléficas alcançam mais as mulheres oriundas dos estratos sociais mais pobres. No famoso discurso, dirigido às obstetras, em 1951, foi enfático ao atribuir vida intra-uterina plena antes do nascimento e condenar o aborto enquanto morte do inocente: “...Todo ser humano, até mesmo as criancinhas no seio materno, recebe o direito à vida diretamente de Deus... Não há nenhum homem, nenhuma autoridade humana, nenhuma ciência, nenhuma indicação médica, econômica, social, moral, que possa exibir título jurídico válido para dispor direta e deliberadamente de uma vida humana inocente... visando sua destruição”.
 
            O documento conciliar Gaudium et Spes, considerado progressista em muitos aspectos da ação social da Igreja, manteve a interdição incondicional: “A vida, uma vez concebida, deve ser tutelada com o máximo de cuidado e o aborto como o infanticídio são delitos abomináveis”. Parte dessa construção da Igreja, que se mantém coerentemente contra a prática abortiva como método anticoncepcional, parece ter sido edificada também em passagens do AT (Gn 1, 14; 9, 5‑6 e Ex 20, 13) e do NT (Mc 12, 27; Lc 1, 41‑44 e Mt 1, 18), todas valorizando a vida humana e situando Deus como o único Senhor da vida e da morte.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

domingo, 12 de maio de 2013

Cientificista ou Expressionista?



Luciano Maia

 



         Dentre os trabalhos de análise crítica da obra do poeta Augusto dos Anjos, surgiu, em 2012, em Manaus, o livro A invenção do expressionismo em Augusto dos Anjos, de Zemaria Pinto. Adianto que não devo conhecer todos esses trabalhos; contudo, creio poder declarar que, até hoje, não vi nenhum que abordasse de modo tão percuciente e lúcido a preciosa poesia do vate paraibano. 

O Expressionismo, corrente estética pós-impressionista, surgiu na Alemanha no início do século XX, tendo sido a revista Der Sturm (A Tempestade) muito provavelmente o seu primeiro órgão divulgador. A esse movimento se filiaram artistas de várias categorias, entre os quais, escultores, pintores, teatrólogos, prosadores e... poetas. Dizemos “movimento”, o que, na realidade, não seguia praticamente nenhum preceito pré-estabelecido. 

Zemaria Pinto faz uma análise cuidadosa e paciente, sem entrar em conjecturas tão presentes em obras anteriores. Aborda a assim chamada “dor estética”, conceito extraído do budismo e de Schopenhauer e, em certo sentido, uma maneira pessoana de fingir diante do mundo avassalador que nos cerca, a partir da estética expressionista. 

Augusto dos Anjos, ao contrário do que apregoaram até recentemente alguns críticos literários, numa postura paradoxal, mas claramente intencional, cede ao personagem o lugar do poeta, como bem referiu Eduardo Portella. Essa tomada de posição leva também àquela situação de fingimento da própria dor, de que nos fala Fernando Pessoa. 

Uma outra vertente apontada, a nosso ver, com bastante agudeza por Zemaria Pinto em seu livro, é a questão referente à abordagem que faz o Poeta da técnica e da ciência; ao invés de enaltecê-las, colocam-nas em xeque em várias passagens de seus poemas, quase que como parodiando. Veja-se, a propósito, este quarteto do poema “Os doentes”: “A civilização entrou na taba / em que ele estava. O gênio de Colombo / manchou de opróbrios a alma do mazombo, / cuspiu na cova do morubixaba!” Fala o Poeta do achincalhamento impingido ao índio pelos “civilizados”. 

Sabe-se que a estética expressionista tende, quase sempre, para o caricatural, para o grotesco, quando menos, para certos paroxismos. E é justamente isso que vemos em Augusto dos Anjos, agora com toda a percuciência estudado, analisado e demonstrado por Zemaria Pinto. Em praticamente todos os poemas do vate paraibano encontram-se esses traços do Expressionismo: uma deliberada denúncia do falso belo, do ilusório sentir da vida, em Augusto dos Anjos, desmascarada: “Tu não és minha mãe, velha nefasta!”, disse, referindo-se à própria natureza. 

Saudamos o livro de Zemaria Pinto, que em boa hora vem nos alertar para um enfoque mais apropriado da obra do Poeta, que bebeu também em Shakespeare, tendo sido, entanto, um antiparnasiano declarado, preferindo, sempre, o peso específico das palavras, “o seu fulgor inesperado”, para lembrarmos o nosso Francisco Carvalho, à forma. Deixemos esta estrofe como uma declaração expressionista de Augusto dos Anjos em palavras incrivelmente contemporâneas nossas: “Sol brasileiro! Queima-me os destroços! / Quero assistir, aqui, sem pai que me ame, / de pé, à luz da consciência infame, / à carbonização dos próprios ossos!”, do poema “Gemidos de arte”, escrito ainda no Engenho Pau d’Arco, em 4 de maio de 1907. 

Para concluir este brevíssimo comentário, queremos reproduzir o que escreveu Hildeberto Barbosa Filho no prefácio de A invenção do expressionismo em Augusto dos Anjos: “Envolvida estilisticamente pela “dor estética”, a “máscara lírica” rejeita a representação aristotélica do mundo, desenvolvendo uma minuciosa e perplexa investigação dos fenômenos cósmicos e existenciais (...)”. Queremos crer que aqui está uma síntese feliz do que vemos em Eu e outras poesias.

 

Publicado no Diário do Nordeste, de Fortaleza, em 28/04/2013.

Saiba mais sobre Luciano Maia, clicando aqui.

 

Manaus, amor e mémória CVIII

Rua Recife, anos 50. Ao centro, a igreja de Nazaré.

sábado, 11 de maio de 2013

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Dabacuri – amazônica 3/13

 
Zemaria Pinto



trabalho de séculos –

o estreito mais se alarga

com a força das águas

 

suave contraponto

ao tom monótono do barco

– o som dos pássaros

 

vai-e-vem dos barcos

dia de missa e de festa

– manhã de domingo

 

pequeninos círculos

se formam à flor da água:

ainda chuvisca

Platônica VIII



Tainá Vieira

 

Hola, Luiz! Outro dia estava a estudar Jorge de Lima e não tinha como não lembrar-me de ti. Invenção de Orfeu, mais precisamente o Canto IV – Aparições – poema VI : Vinde ó alma das coisas, evidências,/ cinzas, certezas, ventos, noites, dias,/ rosas eternas, pedras resignadas,/ que eu vos recebo à porta de meu limbo./ Vinde esquecidos seres e presenças/ e coisas que eu não sei de tão dormidas./ Graças numes eternos: vai-se a tarde/ e as corujas esvoaçam nas estradas. Lembrei-me de ti por que tu gostavas de Jorge de Lima, me disseste isso certa vez, quando perguntei sobre os poetas brasileiros que tu admiravas. Lembras ?! Gostei muito do livro, é de uma emoção tão grande que chega a tomar conta da gente, nossa alma divaga com os versos por toda as existencias planetárias. A espiritualidade, o misticismo, a miséria de nossa existência, o que realmente somos.  E as referências a Camões e a Dante que tu também admiravas. É  sem dúvida uma grande obra, ele foi um grande poeta, no tempo dele, da mesma forma que tu o foste no teu. Sabes, Luiz, eu não ligo quando meus confrades da academia  dizem que eu sou nefelibata. E daí que eu seja?! Eu sou feliz assim, ou melhor, a literatura me faz feliz. E também, pudera : a literatura é um mundo tão maravilhoso, fantástico, quando eu leio um poema ou um conto ou romance é como se as minhas infermidades não existissem, eu sinto-me bem, sinto prazer, eu rio sozinha, choro. Vivo deveras  cada passagem da prosa ou da poesia. Eu permito que as personagens toquem minha alma, e entrego-me a elas. Ah, e isso é único, só sentindo para saber, como é que meus confrades iriam entender isso, eles não têm tal capacidade...  Porque felizmente só os privilegiados sentem e entendem isso.  E essa emoção e esse prazer é nos dado somente por seres iluminados como Jorge de Lima e como Luiz Bacellar.... Bem, é isso, por hoje não vou mais incomodá-lo. Volto às minhas leituras.

 

Paraíso, caridade e hospitais na Europa medieval 2/2


 
João Bosco Botelho


Santas Casas
 

De modo geral, quanto maior a miséria coletiva, maior é o chamamento à caridade. Nesse sentido, Portugal foi particularmente castigado pela peste negra, pelo menos com duas dezenas de surtos, registrados entre 1188 e 1496.

As epidemias do século XIV, agravadas pelas guerras intestinas da nação portuguesa, mostraram-se tão desesperantes que o enterro dos mortos tornou-se impossível. Os cadáveres acumulavam-se por toda parte, oferecendo aos que sobreviviam a idéia da chegada do fim dos tempos e o cumprimento das previsões apocalípticas.

Impedidos ao acesso de Jerusalém, conquistada pelos muçulmanos, os que resistiram à morte, pela doença ou fome, marcharam em grandes procissões na direção de Compostela, na busca do milagre, no santuário de São Jaime. Muitos peregrinos morriam no caminho ou não conseguiam continuar, impedidos pela fragilidade física. Com o dinheiro da caridade, muitas hospedarias-hospitais foram construídas nos caminhos que levaram a Compostela e utilizadas pelos devotos, seja para recuperar as forças e seguir a procissão ou morrer.

Em Portugal, junto à caridade também permearam outros interesses. Não se deve estranhar que, em muitos casos, estivessem ligados às vantagens financeiras. O argumento ganha suporte no fato de que D. Pedro, em 1420, escreveu ao irmão D. Duarte, sugerindo a intervenção real na administração das hospedarias-hospitais, como alternativa para reabilitar a debilitada economia do reino.

 A Igreja e Portugal passaram a disputar acidamente esse filão inesgotável de recursos que a caridade representava. As ordens religiosas devem ter sido mais ágeis, ao ponto de a situação ter ficado insustentável, causando prejuízo à arrecadação real. A reação foi imediata. Por ordem de D. Duarte, publicada nas Ordenações Alfonsinas, de 1446, ocorreu a intervenção nas albergarias-hospitais, instruindo que todos os legados doados às irmandades deveriam ser encaminhados aos tribunais laicos e não mais aos religiosos.

A dissolução compulsória das albergarias-hospitais foi seguida de medidas tomadas por D. João II, para organizar um hospital único, sob o controle da administração real. Somente em 1479, por meio da Bula de Xisto IV (1471-1484), o rei de Portugal recebeu autorização para construir um hospital único nas principais cidades e sob administração laica.
 
           Contrariando a expectativa, a unificação das incontáveis instituições de caridade voltadas à assistência médica, idealizada para fugir do controle de Roma, não deu certo. Pouco mais de dez anos depois, a Igreja suplantou o Reino português adaptando o antigo projeto centralizador para criar as Santas Casas, sob a administração dos Hospitalários de São João, dos Antoninos e do Espírito Santo, que se firmaram da Ásia às Américas, inclusive chegando a Manaus, no século XIX, que continuaram receberam doações ainda mais abundantes dos ricos desejosos do paraíso.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Fantasy Art - Galeria

Diálogos com el viento.
Alex Alemany.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

O Chile de Neruda 2/2


Tainá Vieira
 
 
 Culturas chilenas em Santiago

 
Santiago é uma cidade linda, limpa e cara, mas tem um povo hospitaleiro, uma culinária excepcional (tirando o abacate, influência do Peru) e uma cultura muito rica. Cheguei a Santiago exatamente à hora do almoço, e fui direto ao Mercado Central, conhecer o congrio, um peixe típico do Pacífico chileno. O congrio que degustei era frito, acompanhado de batatas fritas (bem amarelas), muitas rodelas de tomates bem vermelhos e pimentões bem verdes. Era um prato bonito e colorido. Como estava no Chile não poderia deixar de tomar uma boa taça de vinho. Pedi o da casa, um Chadornnay. Gostei do congrio, mas acho que ele perde para o nosso tambaqui. Já o vinho, gostaria de tomar uma taça todo dia.

O meu roteiro por Santiago era conhecer os pontos turísticos da cidade e só depois ir às cidades da costa (Viña del Mar, Valparaiso) e molhar os pés no oceano Pacífico. Um dos pontos mais badalados de Santiago é a Plaza de Armas, que fica no centro histórico. Lá há uma quantidade de bares, lojas e outros lugares interessantes para conhecer. Há monumentos históricos como a igreja Metropolitana de Santiago, construída no século XIX, o correio Central, o Museu Histórico Nacional. Pode-se chegar a Plaza de Armas de metrô. Aliás, Santiago tem cinco linhas de metrô, alcançando todos os lugares bacanas da área urbana. Há outras coisas interessantes para um turista conhecer nos arredores da Plaza de Armas, como os famosos café con piernas (bom para os homens). Há uma espécie plataforma na qual as garçonetes ficam mais altas e é possível visualizar suas pernas, vestidas em microssaias sensuais.  Há também casas de câmbio para trocar alguns reais por muitos milhares pesos chilenos. E de hora em hora há manifestações pacíficas – contra ou a favor de alguma coisa. Enfim, a Plaza de Armas é um mundo em Santiago.

Falando de reais e pesos, o turista brasileiro não pode se enganar: troca-se 1 real por 235 pesos chilenos (em média), mas não se compra nada com esse monte de pesos. Se os chilenos resolverem tirar três zeros de sua moeda, 1 real passará a valer 24 centavos de peso; e 1 dólar, 48 centavos. Quem é mais valorizado?  Uma água mineral varia de 850 pesos (na rua) a 2.500 pesos (no hotel). Faça as contas: de 3,60 a 10,65 reais. E quem vai a Santiago pensando em tomar muito vinho, desista. O vinho chileno é feito para exportação. Logo, o que se encontra é muito caro. Mas os chamados “vinhos da casa”, vendidos em taças com cerca de 200 ml, são invariavelmente bons e relativamente baratos: una copa sai por algo entre 2.000 e 5.000 pesos, dependendo do lugar. O que se vê nos bares, principalmente entre os jovens, é que o santiagueño gosta mesmo é de cerveja. Nesse item, aliás, eles preferem as importadas: brasileñas e americanas.

Outro lugar que todo turista precisa e deve conhecer em Santiago é o famoso Mercado Central.  É um mercado como outro qualquer, com uma imensa variedade de frutos do mar, peixes, restaurantes, empórios, pessoas, só que é em Santiago. A grande atração é a centolla, uma espécie de caranguejo gigante, que serve a duas pessoas e custa em torno de 80 mil pesos. Não dá pra comer centolla todo dia... O museu de Belas Artes de Santiago é grande e belo, cheio de esculturas lindas, quadros diferentes e significativos, vale a pena conhecer. Outro lugar famosíssimo em Santiago é o Pátio Bellavista, com entradas pelas ruas da Constitución e Pio Nono, no bairro Bellavista. Um point cultural e gastronômico. Lá se encontram grandes variedades de restaurantes com mostras de culinária do mundo inteiro. Pode-se comer peixes, massas, carnes. Beber pisco, vinho, cerveja – e até a nossa gloriosa cachaça. O restaurante pelo qual fiquei encantada foi o Como água para chocolate, que, como o filme e o livro de Laura Esquivel, também é mexicano. Não fica no pátio, mas do ladinho. O lugar é lindo, bem decorado, com um colorido no limite do kitsch, mas sem sê-lo. Comida deliciosa. Nesse restaurante paga-se muito, mas come-se e bebe-se bem.  No Pátio Bellavista há uma quantidade de lojas de artesanato. É imperdoável uma mulher ir a Santiago e não trazer de lá uma joia de lapis laluzi, uma pedra preciosa que só existe no Chile e no Afeganistão – pelo menos, foi o que me disseram. Mesmo sendo muito caro, vale a pena trazer uma lapis laluzi de lembrança. O Parque Arauco é “o” shopping da cidade. Imenso e com muitas variedades de lojas, chamou-me a atenção o fato do lugar ser um point gastronômico: em vez das indefectíveis fast-food, como no Brasil, lá predominam grandes restaurantes. É difícil até escolher onde almoçar.  Mas antes de conhecer tudo isso é necessário fazer um city tour pela capital chilena. A partir daí fica mais fácil para o turista saber ao certo os lugares que se deve conhecer. E, é claro, é uma sensação única, você percorrendo Santiago do Chile, sentido a brisa daquela cidade no rosto, gastando pesos chilenos aos milhares: é como se sentir rainha em terra alheia.
 
Fotos: Tainá Vieira.
 
Parreira da vinícola orgânica Emiliana, no Vale Casablanca.

A cordilheira dos Andes, a 3.000 metros.
 
 

sábado, 4 de maio de 2013

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Dabacuri – amazônica 2/13


Zemaria Pinto
 
 
 
a força do rio

constrói caminho nas pedras

e arrebata corpos

 

à flor da terra

as raízes se entrelaçam

formando figuras

 

inventando formas,

raízes à flor da terra

– assombro e encanto

 

olhos faiscantes,

o pequeno jacaré

observa, atento

 

Paraíso, caridade e hospitais na Europa medieval 1/2


João Bosco Botelho

 

Hospitalários de São João, Antoninos e Espírito Santo


A etimologia de paraíso tem ligação com paradaiza, do persa, que originou pardes, no hebreu, e paradeisos, no grego, significando jardim. Sem dúvida, não um jardim qualquer, mas retratando o lugar pleno de conforto e prazeres.

Cipriano, no século 3, destacou-se na primeira concepção cristã de eternidade com bem-aventurança, plena de fartura e felicidades: “Uma terra luxuriante, na qual os campos verdejantes estão cobertos de plantas nutritivas e guardam intactas suas flores perfumadas”. Na mesma linha, São Pedro Damião, no século 11, adicionou o pressuposto de que no paraíso, não existiria a miséria presente no medievo: “Não vemos mais nem lama, nem lodo, nem contágio. Aqui, o horrível inverno não castiga mais, nem o tórrido verão. A floração contínua de rosas cria uma primavera perpétua”. 

Atentos ao protestantismo que recusava as idéias de um paraíso materializado, os teóricos do Concílio de Trento (1545-1563) iniciaram o processo para adicionar obrigações que justificassem o acesso à bem-aventurança após a morte, com destaque à participação laica na graça santificante.

Os cristãos uniram as determinações conciliares à caridade, para garantir as delícias do paraíso, após a morte. Com a aquiescência da Igreja, entenderam que a ajuda prestada aos enfermos desamparados, com certeza, contaria créditos para que fossem esquecidas, no Julgamento Final, as injúrias e crimes cometidos durante a vida, não importando quantos malefícios tivessem causado.

Sem que os teóricos trentinos tivessem especificado como seria a ajuda aos doentes, o senso comum firmou duas alternativas: abrigar os doentes nos castelos ou agrupá-los em instituições administradas pela Igreja. A primeira, presente nas canções de cavalaria, foi discretamente rejeitada pelos senhores feudais, temerosos da contaminação pelas doenças infecciosas, em especial, a lepra e a peste. Então, só para os ricos, a segunda tornou-se instrumento para alcançar o paraíso por meio das generosas contribuições para construir os L’Hôtel de Dieu (Hotel de Deus) e os Xenodochium pauperum, debilium et  infirmorum (Hospital  dos pobres, dos fracos e dos  enfermos) e manter longe os pestilentos.

Como os donativos somaram quantias inimagináveis – afinal, os abastados desejavam as delícias do paraíso depois da morte –, tornou-se necessário criar novas ordens religiosas para administrar a fortuna e os novos hospitais. Entre as mais importantes, destacaram-se os Hospitalários de São João, Antoninos e Espírito Santo, que atuaram intensamente em vários reinos europeus, em especial em Portugal, onde os avanços sociais e políticos contra os dogmas eclesiásticos medievais foram muito mais tardios se comparados aos reinos da França, Itália e Inglaterra.