Amigos do Fingidor

quinta-feira, 31 de março de 2011

Medicina na pré-história

João Bosco Botelho


Mesmo com escassos registros, as análises arqueológicas estabelecem algumas relações concretas da ação médica na pré-história. A ação intencional do homem sobre o homem com intenção de mudar o curso da morte data de 25.000 anos, com o achado do osso do braço de um neanderthal submetido à amputação. A cirurgia foi bem sucedida e o homem viveu muito tempo após a intervenção cirúrgica.

Sem dúvida, as doenças existiam muito antes do aparecimento do homem, porém a ques-tão é tentar desvendar como as sociedades primitivas se relacionavam com estas doenças, na sua luta pela sobrevivência.

O estudo dos fósseis mostra que o homem pré-histórico estava sujeito às doenças de modo semelhante as que os homens modernos continuam enfrentando nos dias atuais. A fratura traumática foi uma das patologias mais frequentes. Em algumas delas foram confirmados sinais de infecção no osso traumatizado, a osteomielite, em tudo igual àquela encontrada nos hospitais de hoje. Também foi possível estabelecer a existência de doenças não traumáticas, como a denominada gota das cavernas, uma espécie de reumatismo do homem pré-histórico.

A tuberculose óssea na coluna vertebral foi documentada no esqueleto de homem do perí-odo Neolítico, em torno de 7.000 anos a.C. , constituindo, sem dúvida, o primeiro exemplar médi-co de tuberculose óssea.

Perdura a questão da existência do ritual-mítico ligado a busca das causas e das soluções das doenças. Na gruta de Trois Fréres, na França, há uma pintura de um personagem em movimento de dança, datando de mais de 10.000 anos a.C., travestido de cervo, em atitude que sugere espécie de ritual médico-mítico, semelhante ao ritual da dança dos bisões, praticado pelos índios do norte dos Estados Unidos, durante cerimônia simbolizando o poder animal na cura das doenças.

Durante o Neolitico, entre 10.000 a 7.000 anos a.C., o homem passou a incorporar méto-dos empíricos no tratamento das doenças. Estes métodos algumas vezes, foram extremamente agressivos, como a trepanação do crânio, isto é a abertura da cavidade craniana com o auxilio de instrumentos suficientemente fortes para cortar os ossos que protegem o cérebro. É facilmente comprovado que alguns destes homens pré-históricos que sofreram a craniotomia sobreviveram muito tempo à cirurgia, o suficiente para favorecer novo crescimento do osso cortado.

Ilustração: pintura rupestre na gruta de Trois Fréres, França.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Academia Amazonense de Letras é motivo de piada

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Deu no pinga fogo da coluna sim&não – jornal A Crítica, de 30.03.2011:


Enquanto o escritor Almino Affonso tomava assento, ontem, na Academia Amazonense de Letras, outros acadêmicos malhavam o imortal Cláudio Chavez (sic), que propôs reeleição infinita na instituição. Estava sendo chamado de chavista.”


Vazou. E agora, José?

Fantasy Art – Galeria

El vitral 2.
Julie Bell.

terça-feira, 29 de março de 2011

Gabriel saiu para almoçar 11/15

Marco Adolfs



...Vissem então uma Manaus que não existia mais, a não ser em pensamentos; ou em alguma fotografia resgatada que tivesse congelado esse tempo. O fato é que Gabriel Sombra resolvera escrever este ensaio como uma espécie de livro do seu juízo final. Um ensaio sobre a solidão de estar sozinho neste mundo manauara esquisito e à espera de uma morte anunciada a cada manhã. O que o confortava? Os livros, as letras, as livrarias abertas, os almoços sofisticados regados a um bom vinho. Isso, e mais o budismo que dizia professar em seus momentos de silêncio. Nada mais apropriado para um solitário, pensou Sombra, do que praticar o budismo. Buda fora um grande solitário também. E o budismo era uma ação “religiosa” de solitários a enfrentarem, dignamente, seus demônios. E, sim, ainda havia as palavras da velha Bíblia carcomida jogada embaixo de sua rede, perto de onde ficavam as suas nádegas acomodadas. Para facilitar na hora de puxar e ler, embora também recebesse, vez por outros, ares flatulentos. Mas Sombra resolveu puxá-la mais uma vez, abrindo-a em Elias, para justamente ler aquela frase que dizia “Vejam isto os mansos, e se alegrem; vós que buscais a Deus, reviva o vosso coração. Porque o Senhor ouve os necessitados, e não despreza os seus, embora sejam prisioneiros”. Este era o cálice de Gabriel e quanto a isso ele o viera sorvendo até as últimas lágrimas. Mas, para ele, acostumado às intempéries desta vida, apesar desses momentos de extremo sentimento do que seria A Solidão, havia a possibilidade de também poder sempre dar um passo além dela própria. Entendendo que a solidão nunca fora o objetivo final deste Deus. Então para poder lidar com esse sentimento, tornava-se imperativo envolver-se em algum projeto. Um projeto que fosse tocado todos os dias, de forma sistemática. Como os livros de poesia, as leituras programadas e, agora, este ensaio que ele passara a escrever. Um projeto que pudesse o absolver do tédio das horas e da angústia de sentir-se destituído de algum sentido para o restante de sua vida. Um homem velho, e até certo ponto sábio, Gabriel Sombra, o poeta, sabia que existia em todo ser humano uma inquietação que o fazia avançar em qualquer direção escolhida. “Eros lutando contra Tânatos”. Mas, e no caso específico dele, onde Tânatos era uma presença sensível, a partir da pele e do cansaço, próprios de um envelhecimento? O que fazer? O que pensar? Escrever fora a resposta, já que ainda podia. Expressar esse impulso final de busca de sentido para uma existência final. “Melhor do que se entregar ao tédio, que mata de vez”, pensou...

segunda-feira, 28 de março de 2011

As histórias de Elisa Bessa

Jorge Tufic

 Histórias ou estórias, é povo e tradição. Etimologicamente corretas, trate-se aqui de contar um fato social, ou, quando com H, de acontecimento histórico. À margem disso, e apesar de nunca haver escrito nada, à guisa de prefácio, sobre contos deste gênero, mas como simples leitor, eu diria que Elisa Bessa, tanto quanto lhe ocorrera na tese de mestrado, no ensaio acadêmico ou em seu encontro com a poesia, estréia-se bem, e muito bem mesmo, com este “Histórias para minha tia dormir”, doze textos que parecem repetir a façanha de Hércules, pois todos se alinham e se festejam numa cadeia de sucessos narrativos.

Surpreendem, assim, o engenho e a arte da ficcionista ao juntar, num só bloco, os mais diversos recursos de técnica, saber e linguagem, sem lhe faltarem, neste processo, os necessários condimentos da ação, a par do tempo medido entre a fábula e o difícil flashback. Pequenos contos ou estórias, pequenos “romances”, cujos resultados são sempre imprevistos, já que se emolduram como sínteses do que resta para ser intuído e completado na imaginação dos leitores.

Orientando-se no sentido clássico da trajetória poética, ou, como quer Nelly Novaes Coelho, “partindo do princípio de que a educação da criança visa basicamente levá-la a descobrir a realidade que a circunda, a ver realmente as coisas e os seres com quem ela convive”, a autora deste livro chega, inclusive, a inovar por um tipo de realismo fantástico que, rastreando os modernos avanços da ficção, nos leva ao suspense quando faz soar uma nota festiva de encantamento e descoberta. Assinalo, aqui, os dois primeiros contos sob os títulos “A menina que não sabia imaginar” e “Trocam árvores por ar condicionado”, liberando-se, daí, a sugestiva temática das peças restantes, numa vitoriosa sequência de abordagens fundamentais, quer no plano da cultura educativa, quer no de nossa responsabilidade frente aos bens terrestres que se perdem na voragem das queimadas. A construção e a invasão surrealista de um shopping (segundo conto antes mencionado), também é uma prova dos grandes momentos que vivenciamos com a leitura dessa obra.

Afinal, quais foram as principais personagens da literatura universal, senão fadas, bruxos, mágicos, guerreiros, piratas e navegantes? E donde surgiram as figuras das “Mil e Uma Noites”, com tantos efeitos especiais, mágicas e deslumbramentos? Que eles estejam de volta, portanto, neste passeio maravilhoso, devendo-se, contudo, escalar sem pressa os degraus de cada uma dessas histórias contadas por Elisa. A linguagem, hoje, tem a seu dispor tecnologia de ponta e cenários de época, a exemplo de nosso quotidiano invisível e de nossas necessidades visíveis. Por esse motivo, não estranhe o leitor se, ao chegar ao fim destes relatos, já não se recorde das partes, fragmentos de uma sinfonia capaz, também, de ser ouvida pelos olhos, como dissera da paisagem amazônica o grande cientista e escritor Adriano Augusto de Araújo Jorge.

domingo, 27 de março de 2011

Ao Fingidor

Rogel Samuel


fingidor

tua última postagem

me dá a desvantagem

da dor



não assistirei à tua tumba

farei um enorme esforço

para continuar a abrir

teu link morto
 
 

sábado, 26 de março de 2011

sexta-feira, 25 de março de 2011

O teatro mítico de Márcio Souza – 4/5

Zemaria Pinto


Das “histórias verdadeiras” passamos a uma “história falsa”, A maravilhosa história do sapo Tarô-Bequê (SOUZA, 1997, 153-195), pela qual o próprio Márcio Souza diz ter “uma predileção especial” (SOUZA, 1984, p. 42). Tarô-Bequê, encenada pela primeira vez em 1975, encerra um paradoxo na sua própria estrutura: embora em ritmo de comédia, trata-se de uma tragédia, ou, segundo o próprio autor, “uma comédia moral para crianças”, concebida de acordo com a tradição do povo Tucano. A opção pelo tom de comédia confirma a recomendação aristotélica de que estas tratem de “pessoas inferiores; não, porém, com relação a todo vício, mas sim por ser o cômico uma espécie do feio” (ARISTÓTELES,1988, p. 23-24). Tarô-Bequê traz animais antropomorfizados como personagens, com exceção de Cainhamé, o Pai do Mato, um ente com poderes sobrenaturais.

Em outra oportunidade, comentando o texto de A maravilhosa história do Sapo Tarô-Bequê, chamei a atenção para a inversão dos postulados europeus, onde bruxas más transformam gente em bicho. Na peça de Márcio Souza, um sapo transforma-se no guerreiro Tarô-Bequê e um cipó é metamorfoseado na Moça Juruti. O final, trágico, repõe a ordem original, quebrando a hegemonia do “final feliz” das fábulas europeias. A aproximação entre as lendas tucanas e conhecidas passagens da mitologia grega – os mitos de Prometeu, no episódio do roubo do fogo, e de Orfeu e Eurídice, na descida à Maloca dos Mortos –, nos remete novamente a Mircea Eliade, ao referir-se às “mitologias primitivas”:

Elas foram transformadas e enriquecidas ao longo dos tempos, sob a influência de outras culturas superiores, ou graças ao gênio criador de certos indivíduos excepcionalmente dotados. (...) Apesar de suas modificações ao longo do tempo, os mitos dos “primitivos” refletem ainda uma condição primordial. Além disso, nas sociedades “primitivas” os mitos estão ainda vivos e fundamentam e justificam todos os comportamentos e atividades humanas.
(ELIADE, 1986, p. 12)

A fábula de Tarô-Bequê é plena de aventura e suspense. Atendendo a um pedido insistente do sapo, Cainhamé acaba por ceder e transforma-o num guerreiro. Mas um homem solitário não está completo: Cainhamé, então, de um cipó, de tamanho entre o queixo e os pés de Tarô-Bequê, faz surgir a Moça Juruti. Tudo estaria muito bem se Juruti, cansada de comer carne crua, não exigisse do noivo que lhe trouxesse o fogo, guardado pelo Urubu-Rei, caso contrário o casamento não se consumaria. O ex-sapo não resiste ao desafio da amada. Fingindo-se de morto, “uma deliciosa carniça de gente”, Tarô-Bequê é levado pelo vaidoso Urubu-Rei até a casa deste, acima das nuvens, para que sua cozinheira, Dona Mucura, possa com ele preparar um repasto ao patrão. Após cegar o Urubu-Rei com pimenta, Tarô-Bequê apossa-se do fogo e montado no ex-guardião foge de volta para casa, ameaçando queimar-lhe as penas do rabo. Mas a Mucura tem seus contatos e consegue não só descobrir tudo sobre Tarô-Bequê como chegar antes à casa onde Juruti esperava ansiosamente pelo noivo.

À maneira da madrasta de Branca de Neve, Dona Mucura se disfarça e inocula em Juruti um conhecido veneno – coca-cola –, desacordando-a e sequestrando-a em seguida. Ao chegar em casa e não encontrando Juruti, Tarô-Bequê pede ajuda a Cainhamé, que, com seus poderes, descobre que a jovem encontra-se prisioneira do Urubu-Rei e da Mucura, na Maloca dos Mortos. Acompanhado de Dona Surucucu, prima de Cainhamé, “descendente da vigésima geração da cobra-trovão que trouxe no ventre os avós-primeiros para a terra”, Tarô-Bequê, com o disfarce de um amigo do Urubu-Rei, penetra na Maloca dos Mortos, com uma restrição explícita: em hipótese alguma a palavra “não” poderá ser pronunciada. Depois de muito caxiri, que embebeda não só o Urubu-Rei e Dona Mucura, mas também a aliada Surucucu, Tarô-Bequê discute com Juruti sobre se devem ou não levar a cobra junto com eles. Juruti insiste que sim, Tarô-Bequê se nega. Juruti volta a insistir e Tarô-Bequê grita a plenos pulmões a palavra proibida. Como castigo por violar a interdição, Tarô-Bequê retorna à forma de sapo e Juruti se transforma num pé de tajá.

As palavras finais de Cainhamé encerram a comédia com um travo de iniludível tristeza:

                    – Pobre Juruti! Pobre Tarô-Bequê!
                    Nenhum lamento para eles é necessário.
                    (....) No sapo que poreja, vejam um amante desesperado.
                    Ele, o sapo, lerdo e pesado, um amante cheio de perseverança.
                    E nelas, nas folhas dos tajás, a amada não saciada.
                    O resto é essa poeira que acompanha nas margens do rio
                    o caminho de nossos desejos.

Representando a sabedoria ancestral, Cainhamé, diligente protetor da natureza, é o repositório de todas as tradições, melhor dizendo, de todos os conhecimentos de sua gente. A sua linguagem é a única a manter-se sempre em alta tensão poética, deixando claro ao público/leitor a sua ascendência sobre os demais, mocinhos ou vilões. Ao subnominá-lo como Pai do Mato, Márcio Souza toma emprestado um título usualmente empregado para nomear espíritos malignos, como o Curupira, ou monstros, como o Mapinguari. Fazendo uma inevitável analogia com o percurso histórico da Mãe d’Água – que de serpente traiçoeira mudou-se em lânguida ninfa, graças às contaminações que o imaginário popular sofreu ao longo dos séculos –, é muito simpático reconhecer no sábio e ponderado Cainhamé o antes temível Pai do Mato. Sem dúvida, um título de nobreza.

O lado cômico da história é garantido pelas interferências críticas à “civilização”, com gagues relacionadas a acontecimentos recentes, de domínio da plateia, sempre olhados como movimentos do colonizador no sacro espaço do mito. Assim, os tempos mítico e atual se cruzam e se interpenetram, num movimento articulado, garantindo para este o riso e para aquele a reflexão.

Tarô-Bequê sustenta-se em duas colunas mestras: o roubo do fogo, quando o herói leva a melhor, e a ida à Maloca dos Mortos, onde sua pretensão de virar gente se esvanece. Quanto ao simbolismo do fogo – assim como em Jurupari, quando o incêndio da maloca de Naruna representava a purificação, o começo de uma nova era –, aqui ele tem dois significados complementares, essenciais à metamorfose pretendida por Tarô-Bequê:

1 – exprime o seu desejo de conhecimento, pois “não basta moldar um feixe de nervos feito gente para isso ser gente”, como já o alertara Cainhamé;

2 – simboliza o desejo sexual reprimido dos noivos, pois é preciso ter o fogo em casa para que o casamento seja levado a termo e se perpetue; por outro lado, a carne assada ou cozida é um índice de civilidade, tanto quanto a instituição do casamento.

Em ambos os casos, o fogo é iluminação, metáfora do conhecimento humano, sempre em mutação. O mito de Prometeu aqui representado ilustra a humana “vontade de intelectualidade” (BACHELARD, 1990, p. 104); isto é, a vontade de saber, de ir além do conhecido, sem temer a barreira imposta por pais, mestres ou governantes.

A descida à Maloca dos Mortos, que evoca de modo direto o mito de Orfeu e Eurídice, é recorrente na literatura universal, desde Homero. A Maloca dos Mortos guarda uma relação direta com o inferno cristão de Dante e com os Infernos visitados por Ulisses e Eneias, na Odisseia e na Eneida, respectivamente. A simbologia é clara: se o sapo conseguisse sair daquele lugar interdito aos humanos carregando o fogo, ele teria merecido sua nova condição de homem, pois Cainhamé o prevenira, logo no início da aventura, que ele não seria “aceito por nenhuma comunidade de homens por não ter nascido de mulher”. O fracasso de Tarô-Bequê é um signo da queda cotidiana do homem, o que não é necessariamente o triunfo do Mal; antes, ele deixa-se vencer por si mesmo, pela sua falta de qualidades, sua incompletude. Demasiado humano.

quinta-feira, 24 de março de 2011

O conto no Amazonas


Tenório Telles*


O conto, pela força narrativa de autores como Maupassant, Tchekhov, Poe, Machado de Assis, Cortázar, entre outros, tomou-se um dos géneros literários mais cultuados pelos leitores. Não seria descabido afirmar que é a forma literária da contemporaneidade – e que pelas suas características intrínsecas é capaz de expressar de maneira intensa a complexidade de um mundo fragmentado que se traduz não mais por seu conjunto e suas imbricações, mas pelos lampejos de seus fragmentos. Se o romance é uma trama que busca dar conta do mundo em escala ampliada, o conto tem seu foco nos pequenos acontecimentos da vida, no episódico e no que é mínimo da existência humana – é, por isso, revelador dos anseios, derrotas e aspirações do ser humano.

A isso se deve uma das principais dificuldades de quem se dedica à arte do conto: condensar, adensar a trama aos limites dessa forma literária, o que exige perícia e domínio da técnica e da carpintaria de criar histórias. Sendo uma história curta (short story), o conto contém os elementos comuns da narrativa num arco de tempo e espaço limitados. Como esclarece o escritor Zemaria Pinto, “o conto tem uma história bem definida, poucos personagens, tempo e ação muito concentrados, passados num só ambiente”.

O conto no Amazonas é um estudo teórico e prático sobre essa arte narrativa. A singularidade está no fato de o autor utilizar como referencial analítico os escritores representativos da produção contística regional. O texto se constrói a partir de um breve estudo introdutório em que situa o leitor em relação à história do conto, seus conceitos e os mais destacados criadores. Zemaria apresenta um guia de leitura e, ao mesmo tempo, um pequeno manual de iniciação não só para leitores, mas para os que desejarem se aventurar nessa arte.

O capítulo dedicado ao “conto no Amazonas” corresponde à parte prática deste estudo. Zemaria assume a condição de professor e crítico, apresentando aos leitores alguns dos contos mais significativos da literatura que se produz no Amazonas. Inicia seu percurso com a narrativa mítica “Baíra e sua namorada”, originária da mitologia dos índios Cauaiua-Parintintin. Volta-se a seguir para os textos consolidados pela tradição literária, com a apresentação e a análise de histórias de Alberto Rangel, Arthur Engrácio, Benjamin Sanches, Astrid Cabral, Carlos Gomes, Erasmo Linhares e João Pinto. Este livro nasce destinado a ser um guia de viagem – que espero ajude muitos leitores a chegar ao mundo encantado da palavra e da criação literária.


(*) Orelha do livro O conto no Amazonas, de Zemaria Pinto,
que será lançado no próximo sábado, dia 26/03, às 10h00, na livraria Valer.

Avanços tecnológicos da medicina

João Bosco Botelho


O século que passou marcou a humanidade pelos indescritíveis avanços na melhor compreensão da micro e da macroestrutura dos corpos vivos. A maior parte das pesquisas e do instrumental tecnológico médico, na atualidade, está voltada à compreensão:

1. Da forma e da função dos corpos na macroestrutura por meio das imagens:

– Congeladas num tempo-espaço definido, como as produzidas pelos RX, ultrasom, emissão de elétrons e rádio-isótopos;

– Obtidas na dinâmica viva dos tecidos, em tempo real, a partir dos aparelhos de fibras óticas (endoscopia).

2. Da forma e da função da molécula na microestrutura por meio da engenharia genética.

– Sequência das moléculas do genoma e armazenamento das informações do genbank.

Todos os avanços tecnológicos, na Medicina, tanto no passado quanto no presente, mesmo com a maioria esmagadora dos profissionais desconhecendo o fato, a prática médica continua convivendo com o parodoxo fundamental: em qual dimensão da matéria o normal se transforma em doença (se é que existe a doença, na atual concepção teórica)?

Por outro lado, nós estamos testemunhando avanços significativos, que, mesmo sem terem a força para deslocar esse angustiante paradoxo, impuseram extraordinários avanços à Medicina – o maior desvendar da forma e da função dos corpos na micro e na macro dimensão.

O fantástico conjunto que interliga a microestrutura à macoestrutura dos corpos, essencialmente, representados pelas imagens e pelo projeto genoma, nos últimos vinte anos, produziram as âncoras tecnológicas que mudaram a concepção de diagnóstico, terapêutica e prognóstico por meio do uso:

1. Terapêutica genética;

2. Órgãos artificiais;

3. Neuropróteses;

4. Inteligência artificial.

Estamos muito longe do que a Ciência pretende: alcançar a doença nas dimensões da confluência entre a massa e a energia, na estrutura atômica, provavelmente, onde superaremos o parodoxo que atormenta os pesquisadores.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Fantasy Art – Galeria

Autor desconhecido.

Tacacá na bossa

Sarau do CLAM com noite de autógrafos

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Acontecerá na próxima quinta-feira, dia 24 de março, mais uma edição do Café com os escritores, com o sarau do Clube Literário do Amazonas e noite de autógrafo do livro Nem te conto dos meus poemas, do poeta e contista Rayder Coelho. O evento tem início às 18h, no Vanilla Caffe Vieiralves (Rua Acre, Vieiralves, próximo ao Açaí & Cia).

Desde que lançou o seu livro Nem te conto dos meus poemas, em Dezembro de 2010, o poeta e contista Rayder Coelho já participou de vários eventos; entre eles se destaca uma oficina de textos poéticos intitulada Da prosa à poesia, que ministrou no município de Barreirinha, em Janeiro de 2011, uma realização do Ministério da Cultura, por meio do Microprojeto Mais Cultura na Amazônia Legal.

Desta vez Rayder Coelho é o escritor convidado para uma noite de autógrafo no Café com os escritores. O evento organizado pelo jornalista Evaldo Ferreira já está em sua 12° edição. A noite ainda conta com um recital do CLAM – Clube Literário do Amazonas, do qual o escritor faz parte. O evento acontece no próximo dia 24 e tem início às 18h, no Vanilla Caffe Vieiralves (Rua Acre, Vieiralves, próximo ao Açaí & Cia).

terça-feira, 22 de março de 2011

O conto no Amazonas – lançamento

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Gabriel saiu para almoçar 10/15

Marco Adolfs


...Foi quando então Gabriel Sombra passou a pensar em seu grande amor do passado, Clarice, quando esta lhe disse que estava tudo acabado entre os dois... que ele nunca mais a veria. E ele então, a partir daquele momento, ficou só. Só e sem o grande amor de sua vida. Sem aquela mulher que praticamente fora a responsável por lançá-lo no mundo da poesia. Fazendo-o ganhar um prêmio nacional de literatura, justamente por ter enviado seus originais, à revelia, para concorrer. O grande amor de sua vida, Clarice. Aquela que ele, estupidamente, não conseguira agradecer adequadamente como um homem; e que por isso, o deixara. Águas passadas que ainda moviam o moinho que triturava a sua alma torturada pela lembrança de um erro. Isso tudo, se fosse pensado com profundidade e sem a possibilidade da distração, o levaria à depressão. Principalmente aos domingos, quando todos se procuravam em uma família. Bastava ver com os seus próprios olhos da melancolia passageira. Ver o seu passado e o passado desta cidade de Manaus, os dois dilacerados pelas lembranças fugidias. Isso recrudescia a sua sensação de solidão; ou de estar só. Quando saía e via tudo o que antes fora presente e que seus olhos, agora amargurados, passavam a enxergar como um vazio. Aí, nesse exato momento, uma espécie de água parecia lhe subir até o pescoço; até a garganta. Pés atolados em profundo lamaçal de recordações. Uma corrente o submergindo lentamente. “A alma triste de um solitário culpado de um erro é fardo cruel”. Tudo isso ele pensava, lembrando da Bíblia. Ele era justamente o homem que vira a aflição de ter que andar nas trevas da solidão, vendo o seu corpo envelhecer e despedaçar os seus ossos. E que agora, para se ver livre de tudo isso, transformava esse sentimento em um ensaio sobre a solidão. A tal da solidão criativa em ação. Quase como uma confissão de um solitário a todos os outros solitários que com seus grilhões de bronze gritavam os seus gritos silenciosos. Ele estava pagando justamente por ter sido rebelde e intolerante. O ouro havia escurecido e espalhadas tinham sido as pedras do santuário pelas esquinas da cidade de sua alma. Manaus e ele haviam se tornado incompreensíveis para aquelas pessoas que haviam perdido as referências do passado. Como ele estava sentindo agora. Talvez só as pedras de algumas calçadas desta cidade e alma isolada e solar, ainda aceitassem o tranco das horas passadas. A desgastarem-se continuadamente...

segunda-feira, 21 de março de 2011

Bruno de Menezes, mais que uma simples lembrança

Jorge Tufic


Bento Bruno de Menezes nasceu em Belém do Pará a 21 de março de 1893. Faleceu em Manaus, Amazonas, a 2 de julho de 1963, quando participava do VII Festival de Folclore de Manaus, tendo sido transladado para sua cidade natal.

Além de convidado oficial, o poeta de “Maria Dagmar” e “Candunga” conviveu com seus amigos do Clube da Madrugada, recebendo o título de Cavaleiro de Todas as Madrugadas do Universo, em ato solene debaixo da árvore do mulateiro, na praça Heliodoro Balbi, centro da capital.

Esteve hospedado no Lord Hotel, rua Quintino Bocaiúva com Guilherme Moreira, onde veio a falecer, bem cedinho, após ter lido os jornais do dia, contendo, um deles, artigo de Mário Ypiranga Monteiro, também folclorista, sobre o evento que movimentava a cidade.

Lembra-me a Izabel, minha mulher, que no dia anterior ao seu trespasse, Bruno passou o dia em nossa casa, onde bebeu, cantou letras folclóricas e dançou ao ritmo dos poemas de “Batuque”.

Em 1968, por iniciativa da Prefeitura Municipal de Manaus e do Clube da Madrugada, e em nome do povo amazonense, foi-lhe erguido um busto na mesma praça Heliodoro Balbi, em frente à Policia Militar do Estado do Amazonas.

A memória que se tem de Bruno de Menezes em Manaus dá-nos apenas a idéia de um semideus que tivesse descido das alturas para visitar a taba de Ajuricaba. Ele fora constantemente louvado e aplaudido onde quer que estivesse.

Ilustração: Batuque de Bruno de Menezes, por J. Bosco.
Hoje, 21/03, comemoram-se os 117 anos de nascimento de  Bruno de Menezes.

domingo, 20 de março de 2011

Allen Ginsberg – uivando pela nudez

Jorge Bandeira


Nu, nudo, despido, nudismo, naturismo, nadismo, tudismo, nudez. Allen uiva pelas ruas desertas, nu e capaz de esmagar bombas com a força de seu pensamento. O nu poeta, o poeta nu é aquele que infla seus pulmões e determina as peripécias da contracultura, ao lado de Jack Kerouac e William Burroughs, estes nus estavam numa ciranda de emoções, num parque de diversões, numa piscina natural e nus, nu este poeta Allen Ginsberg Nu nuas e nunca nu na nuca nu nua não nula nu é a carne é a pele pelada ou pelado nu e nua nua e nu e nunca negando a nudez e numa nuvem nua e nu nu, a algo que você não percebeu ainda, alargar a porta de tua percepção: ficar nu nua basta isso, e a letra n é a letra que mesmo de ponta cabeça é a verdadeira letra nua, veja, pense, digite, nu, agora digite n, un, ao contrário esta letra preserva a mesma tônica de nudez. nu, un, percebam que muitas das vezes as coisas simples estão tão perto que não percebemos, tal qual nosso corpo nu, nua, que olhamos tão pouco, minimamente, nossa nudez está perdida desde nosso nascimento, por isso a importância de vigorar o império da nua letra n, espelho espelhar e espalhar fragmentos desta nudez em todos os sentidos, por todas as direções, tal um livro feito escrito por Kerouac, on the Road, e talvez uma procissão de nus ao redor da usina de belo monte, no Brasil, impedindo sua construção, aliás, devastação, este mundo seria muito melhor, para todos nós. A estratégia feliz e eficácia é nos despirmos e sairmos de nossos casulos, ternos e estou certo que desta forma a homofobia será derrotada definitivamente neste mundo, e por falar nisso acredito também, neste outro mundo, o universo dos poemas, que a nudez não tem sexo, não sei se entenderão o que penso, mas é como se a roupa fosse mais determinante da sexualidade do que a nudez. Uma pessoa nua é detentora de um sexo sabiamente exposto, e por isso está livre do esconderijo da moral, essa sim, determinando a quem pertence uma bunda, um pênis, uma vagina, um ânus. Estou afirmando, eu, Allen Ginsberg morto-vivo pelo poder da poesia, que a NUDEZ é contar 1, cor, 2, saber, 3, cultura, 4, religião, 5, amar, 6, respeitar a Terra, 7, comer, 8, beber, 9, Nu, 10, DEZ. Aquele que ri de tua nudez é o mesmo que ri da pobreza, que mata os índios e que acredita que os políticos podem salvar a humanidade.

sábado, 19 de março de 2011

sexta-feira, 18 de março de 2011

O teatro mítico de Márcio Souza – 3/5

Zemaria Pinto


Do mito cosmogônico passamos ao mito de origem, do herói-civilizador. Jurupari, a guerra dos sexos (SOUZA, 1997, p. 91-152), encenada pela primeira vez em 1979, é a versão Tariana do mito, em três atos. Para Camara Cascudo, Jurupari “é, geograficamente, o mito mais prestigioso, com vestígios vivos em quase todas as tribos” (CASCUDO, 1988, p. 420). A força do mito é a provável responsável pelo ardil missionário de classificá-lo como um demônio, na concepção cristã. Ironicamente, uma autoridade católica, D. Frederico Costa, em documento de 1909, defende o herói da desonra que seus pares tentaram lançar-lhe, enumerando os oito mandamentos de Jurupari e concluindo que tanta reserva moral não caberia num espírito maligno (CASCUDO, 1983, p.76-77, apud COSTA, 1909, p.52-54). Ainda para Câmara Cascudo, Jurupari “é o legislador divinizado, que se encontra como base em todas as religiões e mitos primitivos” (CASCUDO, 1988, p. 420).

A ação de Jurupari se passa num tempo mítico, anterior ao que possa ser admitido como História, mas sem que esta possa negá-lo de todo. Uma peste dizima os homens da tribo, deixando apenas alguns velhos, entre eles um pajé, que, para Naruna, a matriarca, era apenas “uma raiz, uma planta antiga”. Desoladas, as mulheres vão banhar-se no lago Muypá, que lhes era proibido, por ser o lago sagrado onde Ceucy, a estrela, banhava-se todos os dias, “lavando o suor de seus amantes”. Para surpresa das mulheres, o velho pajé lhes aparece no corpo de um jovem belo e forte, anunciando um castigo por haverem ignorado a interdição: “pelo crime cometido, a geração que nascerá amanhã excluirá a mulher para sempre de tudo o que for sério e grave”. Ele mergulha no lago e desaparece entre as mulheres. Depois de passadas dez luas, “todas as mulheres pariram ao mesmo tempo”. Naruna deu à luz uma menina, a quem chamou Ceucy da Terra.

Adolescente, Ceucy, ainda virgem, come uma fruta proibida e o sumo dessa fruta escorre-lhe pelo ventre, fecundando-a. Dez luas passadas, nasce Jurupari. O recém-nascido desaparece como por encanto e seu choro é ouvido próximo à árvore do fruto proibido. Ceucy deixa-se ficar junto à árvore e, durante algum tempo, sempre que adormece, sente o filho sugar-lhe o seio. Vinte anos decorrem até que ele reapareça para assumir o lugar que lhe fora reservado. Aos poucos, sua liderança vai sendo imposta aos homens, a quem fala sobre a música, a agricultura do milho, da mandioca e da banana, e sobre o novo tempo em que eles assumirão os destinos da tribo. Essas informações devem pertencer somente aos homens: são os segredos de Jurupari. Numa das reuniões proibidas às mulheres, Ceucy, que ouvia escondida, é descoberta e recebe o castigo de morte do próprio filho. Naruna foge com as outras mulheres para o “lago de águas verdes”, recebendo os homens uma vez por ano.

Mas Naruna não desiste de conhecer os segredos de Jurupari, que só os iniciados dominam. Este, por sua vez, aplaca a tensão dos homens prometendo que dentro em breve as mulheres voltarão. A jovem Diádue, a serviço de Naruna, consegue seduzir o maduro e experiente Uálri, que é condenado a morrer pela traição. O “segredo” revelado às mulheres é o conhecimento erótico de Uálri: “ele agiu com uma sabedoria nova e não resumiu o amor em poucos gestos”. As mulheres, então, retornam, deixando Naruna e algumas poucas que lhe permaneceram fiéis. Jurupari ensina aos homens acerca das flautas sagradas:

– Minhas flautas farão os desejos ondularem como ramagens saudando o tempo, na alta copa da mata, esvaindo todo o travo das frustrações na torrente distante espumando na descida. E os homens crescerão sem medo, como o trêmulo pássaro parado na margem antes do ocaso.

O terceiro ato começa mostrado um outro legado de Jurupari: os adornos. Os homens vão ao encontro anual com as últimas defensoras do matriarcado. Jurupari, pela primeira vez, vai junto. No encontro com Naruna dá-se o inevitável: ele a mata. Quando retornam, ainda sob os reflexos do incêndio que consome a maloca de Naruna, Jurupari e Diádue fazem amor, mas ele a adverte:

– Esta será a nossa primeira e última noite. Quando os séculos se consumarem eu voltarei a te encontrar e viveremos juntos. Eu mergulharei em ti e repousarei das minhas fadigas e sustos.

Pela manhã, Diádue transforma-se num lago. Antes, entretanto, Jurupari revelara-lhe um último segredo: o Trovão Avô do Mundo queria casar-se e incumbira-o de encontrar a mulher perfeita. Ele precisava continuar sua busca por uma mulher paciente, que soubesse guardar segredo e não fosse curiosa...

Sem um Luiz Lana por perto, Márcio Souza trabalhou à vontade as inúmeras variantes do mito de Jurupari e deu-lhe uma formatação literária condizente, amarrando-o com sua concepção anterior da criação do mundo e com outras histórias, como a das Amazonas, que seriam as guerreiras lideradas por Naruna. O mito de Jurupari é uma “história verdadeira” e explica a origem de vários costumes e práticas: a música, a agricultura, os adornos, o patriarcado. Mas sua fama de legislador deve-se aos mandamentos coligidos por D. Frederico Costa:

1º A mulher deverá conservar-se virgem até a puberdade;

2º Nunca deverá prostituir-se e há de ser sempre fiel ao seu marido;

3º Após o parto da mulher, deverá o marido abster-se de todo trabalho e de toda comida, pelo espaço de uma lua, a fim de que a força dessa lua passe para a criança;

4º O chefe fraco será substituído pelo mais valente da tribo;

5º O tuxaua poderá ter tantas mulheres quantas puder sustentar;

6º A mulher estéril do tuxaua será abandonada e desprezada;

7º O homem deverá sustentar-se com o trabalho de suas mãos;

8º Nunca a mulher poderá ver Jurupari a fim de castigá-la de algum dos três defeitos nela dominantes: incontinência, curiosidade e facilidade em revelar segredos.
                                                         (CASCUDO, 1983, p.76-77, apud COSTA, 1909, p.52-54)

Sobre o oitavo mandamento, que é também o epílogo da peça, Stradelli o apresenta como o desfecho da aventura humana de Jurupari, numa missão que lhe fora atribuída pelo Sol: o de procurar a mulher perfeita, que não tivesse nenhum daqueles defeitos (CASCUDO, 1967, p. 58, apud STRADELLI, 1890).

A despeito do título, que pode levar o leitor incauto a pensar na Lisístrata, de Aristófanes, Jurupari, a guerra dos sexos é um texto dramático, de alta densidade poética, perpassado de um erotismo sutil, que, quando necessário, se escancara, sem cair na vulgaridade. O sexo é mostrado como um índice de civilidade, muito além da mera função reprodutora. Jurupari, por outro lado, é uma personagem atormentada, desprovida de humanidade, centrada na sua missão, como um herói grego consciente de seu destino, previamente traçado pelos deuses.

quinta-feira, 17 de março de 2011

A Amazônia na visão dos viajantes

Clique sobre a imagem, para ampliá-la.

Tabagismo: do sagrado ao profano

João Bosco Botelho


A origem do mito da magia da fumaça está obrigatoria¬mente ligada ao fogo domesticado. Assim, não só é muito antigo como também acompanhou de perto a marcha da humanização. A fumaça acabou incorporando esse sentido religioso de ponte entre o céu e a terra.

Os relatos dos cronistas e viajantes, no Brasil colonial, muitos acompanha¬dos de iconogravuras, narraram o uso do tabaco nos ritos terapêuticos e divinatórios. Os pajés se comunicavam com os espíritos, para curar e adivinhar, através da força embriagadora da fumaça do tabaco queimado.

A passagem do tabagismo do espaço sagrado para o profa¬no ocorreu, no Brasil, com a chegada do colonizador. O vício de fumar, por homens e mulheres, como instrumento de prazer foi imediatamente percebida ainda nos primeiros contatos e assinalado por Cardim, no século XVI: “Costumam esses gentios beber fumo de petigma (tabaco), por outro nome erva santa... ficam com o canudo de cana cheio desta erva, e, pondo lhe fogo na ponta, metem o pau grosso na boca e assim, chu¬pando e bebendo aquele fumo, o tem por grande mimo e regalo.”

Durante a ocupação holandesa do Nordeste brasileiro, na primeira metade do século XVII, pelas tropas de João Maurício de Nassau, o médico Guilherme Piso, chefe dos serviços médicos das Índias Ocidentais, fez o registro fundamental da sedução do tabagismo: “A célebre erva Taba-co ou Petum, chamada pelos brasileiros Petume, em quase todas as Índias Ocidentais é, desde remotos tempos, estimada pelos próprios íncolas para sarar feridas. Logo que os europeus souberam disto, pesquisando lhe as virtudes recônditas, aplicaram as folhas frescas, bem como o sumo das mesmas, a usos humanos; depois secas, nos abusos e prazeres também. De sorte que agora, como o vento hibernal, o fumo do tabaco vicia o orbe universal.”

Explicar o sucesso do tabaco não é coisa fácil. Parece que o prazer proporcionado pelo tabagismo está embutido num sentimento hedonista, envolvendo uma complexa rede social e cul-tural interligada aos fatores biológicos do vício.

O consumo, em 1920, quase nulo no sexo feminino, alcançou a fantástica cifra, em 1970, de duas mil unidades por adulto. A atenção das autoridades mundiais de saúde pública foi alerta-da, pela primeira vez, pelo Relatório de Hammond e Horn, em 1954, financiado pelo American Cancer Society, seguido pelo do Royal College of Phisicians, da Inglaterra, em 1962, descrevendo a nocividade do fumo. Hoje existem mais de setenta mil publicações disponíveis sobre o assunto.

quarta-feira, 16 de março de 2011

terça-feira, 15 de março de 2011

o conto no Amazonas

Rogel Samuel*




Muito me alegra o bom livro de Zemaria Pinto, O conto no Amazonas.

São poucos os bons estudos sobre a literatura amazonense. Poucos. Arthur Engrácio, Jorge Tufic, Mario Ypiranga Monteiro, Djalma Batista, Pe. Nonato Pinheiro e poucos outros. O melhor é Ficções do ciclo da borracha (Manaus, Edua, 2009), de Lucilene Gomes Lima. Nunca se escreveu uma história da literatura amazonense aprofundada.

Outra vez o melhor é o segundo capítulo do livro da professora Lucilene Gomes Lima: “A abordagem do ciclo da borracha na ficção amazonense”, embora só trate da ficção temática. Mas são 40 páginas em que ela desenvolve uma profunda análise da ficção amazonense, desde O paroara, de 1899, de Rodolfo Teófilo, até os nossos dias.

A maioria dos críticos e historiadores da literatura amazonense se deixa seduzir apenas pelo Clube da Madrugada. E esquece o resto. E esquece, por exemplo, que no resto está Raul de Azevedo, um mestre que, ainda não sendo amazonense, viveu em Manaus e ali produziu muito de sua arte. Esquece também (pasmem!) Paulo Jacob, nunca bem estudado, talvez o nosso maior romancista. Nada diz sobre o cronista Afonso de Carvalho, o nosso cronista máximo, no mesmo nível de Rubem Braga. Álvaro Maia, grande poeta, é outro injustiçado, assim como Djalma Passos, Raymundo Moraes etc. Suma ignorância.

Por isso me alegra o livro do Mestre Zemaria Pinto, O conto no Amazonas.

Nada melhor para valorizar um autor do que o crítico. Foi o que fez magistralmente Zemaria Pinto com os autores com que compôs a sua antologia, como o já clássico Arthur Engrácio e o excelente Erasmo Linhares e os demais.

E a parte teórica do seu livro é clara, profunda e perfeita.

(*)Publicado originalmente no blog do autor.

segunda-feira, 14 de março de 2011

domingo, 13 de março de 2011

Um poema-lágrima pelo Japão


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Diante dessas fotos


que nos dão, lá do Japão,

eu me quedo em lótus.


(Jorge Tufic)

I Congresso Amazônico de Estudos Literários e Culturais

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O Programa de Letras da Universidade Federal do Oeste do Pará realizará o I Congresso Amazônico de Estudos Literários e Culturais, nos dias 15, 16 e 17 de junho de 2011, na cidade de Santarém-PA.

O congresso tem como tema "Amazônia, Literatura e Cultura", mas desdobra-se em cinco eixos temáticos que são: 1) Literatura Comparada e Estudos Culturais, 2)Literatura, História e Cultura da Amazônia, 3) Literatura, Diáspora e Africanidades, 4) Literatura, Interdisciplinaridade e Ensino, e 5)Poéticas Orais, Memória e Identidade.

As inscrições para apresentação de trabalho poderão ser feitas no período de 04 a 30 de abril. Já as inscrições para ouvintes estarão disponíveis no período de 01 de abril a 14 de junho.

O congresso receberá graduandos, pós-graduandos e profissionais de letras e áreas afins, e contará com conferências, mesas redondas, espetáculos musicais e teatrais, exposição de fotografia, mostra de cinema e sessões de comunicações.

A chamada completa para apresentação de trabalhos e a ficha de inscrição encontram-se em anexo. Para mais informações e para efetuar a sua inscrição acesse http://caelc2011.wordpress.com/ ou mande um e-mail para caelc2011@gmail.com.

sábado, 12 de março de 2011

sexta-feira, 11 de março de 2011

O teatro mítico de Márcio Souza – 2/5

Zemaria Pinto


Dessana, Dessana ou O começo antes do começo (SOUZA, 1997, p. 47-90)[1], encenada pela primeira vez em 1975, é uma recriação do mito dessana da criação do mundo, tal como esse mito chegou à segunda metade do século XX, tendo como ponto de partida a versão de Feliciano Lana, primo de Luiz Lana, coautor de Antes o mundo não existia, publicado em 1980. Em entrevista à antropóloga Berta Ribeiro, Luiz Lana afirma que a decisão de escrever o livro foi tomada após notar que os rapazes de sua tribo, entre eles Feliciano, estavam divulgando as histórias sagradas de forma equivocada (KUMU; KENHÍRI, 1980, p. 9-10). O próprio Luiz Lana, assistindo aos ensaios da peça de Márcio Souza, teve oportunidade de sugerir mudanças no texto (SOUZA, 1984, p. 34), possivelmente eliminando ou corrigindo o que julgava não estar de acordo com a tradição que ficou estabelecida a partir da publicação de seu livro, que tem parceria de Firmiano Lana, seu pai – aliás, o verdadeiro repositório das histórias contadas –, e texto definitivo de Berta Ribeiro.

A encenação começa com o diálogo, em pleno caos urbano de Manaus, entre a personagem Dessana e o coro. Dessana, em contraponto com o coro, funciona como narrador do mito, elo entre o presente e o eterno. Ele invoca o mito do começo do mundo, fazendo aparecer, vivida por quatro atrizes, Yebá-Beló, a que surgiu das coisas invisíveis, a não-criada, a avó do mundo, mais velha que o nada. Essa múltipla representação feminina do deus criador é uma alusão ao domínio matriarcal. Yebá-Beló faz surgir os quatro trovões, seus irmãos: o Trovão da Casa do Rio, o Trovão da Casa da Noite, o Trovão da Casa do Sul e o Trovão do Wapuí-Cachoeira. Observe-se, no nome do terceiro trovão, a influência branca. Na sequência, como os trovões revelam-se incompetentes, a avó do mundo faz surgir Sulãn-Panlãmin, o incriado, que tem por missão criar o mundo. Este recebe a ajuda do Trovão Avô do Céu, que lhe fornece a matéria para a criação do mundo. Do grupo de homens e mulheres inicialmente criados, que brincam como crianças, Sulãn-Panlãmin escolhe Boleka, o primeiro chefe dessana. Para que a criação fosse completada, era preciso que Boleka levasse homens e mulheres a atravessar o lago de leite. Surge então o homem branco, armado com um fuzil, tentando usurpar a liderança de Boleka e de Sulãn-Panlãmin, mas estes não permitem que ele embarque na barriga do Trovão-Cobra-Barco, que era o próprio Trovão Avô do Céu:

                    – Adeus, adeus
                    pobre branco,
                    ficarás para sempre
                    longe de teus irmãos.
                    Serás tão diferente de nós
                    como a pedra é da água
                    e o pássaro é do peixe.

O segundo ato representa as festas, os rituais e os trabalhos manuais desenvolvidos pelo povo dessana. Mostra ainda o nascimento de Jurupari, filho da Filha do Trovão, que, virgem, comeu o fruto de uma árvore proibida. Quando a representação mítica termina, Dessana, responsável por aqueles momentos mágicos, de volta ao caos urbano, é expulso de cena por um policial.

O mito da criação é um mito cosmogônico, símbolo do fim do caos e do advento de uma nova ordem. Faz parte, juntamente com os mitos de origem, do grupo de mitos a que Mircea Eliade chama de “histórias verdadeiras”, que explicam a origem de algo, para discernir das “histórias falsas”, as lendas e os contos populares (ELIADE, 1986, p. 15-19). Toda cultura minimamente desenvolvida tem a sua cosmogonia. Como os dessanas não tinham originalmente uma escrita, seus mitos chegaram até nós pela transmissão oral, sofrendo influências diversas no meio do caminho, especialmente após o contato com o homem branco. O professor Marcos Frederico Krüger, ao analisar o livro dos Lana, observa:

(...) seus valores culturais foram alvo da sanha devastadora dos missionários, no inevitável conflito entre as civilizações aborígine e adventícia. O catolicismo nada assimilou dos mitos amazônicos; o inverso, porém, aconteceu frequentemente, como se pode constatar em diversas narrativas coletadas.
(KRÜGER, 2003, p. 49)

Concebido como uma cantata, o texto de Dessana, Dessana é lírico e reverente, sem dispensar um leve toque de humor, mantendo-se distante da armadilha do misticismo. Com relação à linguagem, uma outra armadilha quando tratamos da representação de uma cultura diversa da nossa, Márcio Souza, como de resto em todas as suas obras onde os índios são protagonistas, opta pela “tradução” para uma linguagem muito próxima à da plateia, que, embora rica em símbolos, jamais resvala no caricatural.

[1] Com relação aos três textos analisados, limitar-me-ei a citar sua inserção no volume mencionado nas Referências, abstraindo que as citações, diretas e indiretas, estão contidas naquele intervalo.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Soneto porre

Anonymus M.C.
Ao Chá do Armando


Companheiro, esses goles pequeninos,
com que lavas tua alma dos enganos,
dão-te a velha algazarra dos meninos
nessa idade dos oito ou doze anos.

Já não se chama uísque, é Chá do Armando
tua líquida bengala... que beleza!
E te vemos garrafas praguejando
contra esses sóbrios, ébrios de tristeza.

Quem passa pela terra sem beber
traga o exclusivo fel do homem que morre
de nunca ter sonhado sem sofrer.

Por isso os brindes teus comovem a zorra
neste brado moral filho de um porre:
Ó vós que não bebeis, fodei-vos, porra!

Clicados pelo Noleto, o pessoal do Chá do Armando, incluindo o próprio ( a cabeça mais branca), se deleita com a voz do tenor Humberto Vieira e o violão de Rossini Lima.
 A paisagem é formada pelos belos quadros de Noleto.
Foto tirada no último dia 25/02.

EDUA inaugura Feira Itinerante

Feira Itinerante dos Livros da EDUA

(Editora da Universidade Federal do Amazonas)


De: 14 a 19 de março



Onde: Praça dos Remédios
Das: 9 às 16 horas



Dia 14 é o Dia Nacional da Poesia (aniversário de Castro Alves)



Os livros de poesia estarão sendo vendidos a preços promocionais

Livros pela metade do preço e até menos

Maiores informações: 8134-9960


Estarão participando o sebo O Alienista e a Agência Filatélica dos Correios

Doenças: em busca do invisível aos olhos

João Bosco Botelho


O médico Marcelo Malpighi (1626-1696) trouxe a doença da macroestrutura para a microestrutura e ofereceu novo norte à Medicina. Para ter idéia do valor das idéias de Malpighi é indispensável saber que a maior parte das ações de saúde, na atualidade, é alicerçada no diagnóstico micrológico dos tecidos, isto é, a busca da infecção ou do tumor.

O médico italiano foi auxiliado por algumas variáveis importantes. Além do estímulo coletivo de busca do invisível atrás da pele que contagiou a Europa renascentista, os primeiros estudos da óptica foram fundamentais para que pudesse ser montado o microscópio. A importância do uso das lentes de aumento, na Medicina, pode ser comparada ao vapor como fonte de energia para o desenvolvimento da indústria.

O conjunto das novas observações consequentes da utilização do microscópio foi tão grande e em espaço de tempo tão pequeno, que se formaram muitas associações científicas, onde eram comunicadas e discutidas as descobertas em torno da microestrutura do corpo humano. Entre as aplicações imediatas das novas observações é possível destacar a identificação do ácaro como agente causador da sarna. Essa doença da pele, conhecida desde os tempos bíblicos, estava incluída entre as doenças aceitas como contagiosas, mas até então não se tinha explicação para a transmissão. A identificação do ácaro tornou-se a primeira comprovação de que o microorganismo podia ser a causa de uma doença.

O entusiasmado pressuposto de que todos os problemas da saúde seriam resolvidos pelas "demonstrações visíveis" acabou engendrando o distanciamento entre o médico e o doente. Muitos dos valores da relação médico-pacientes foram atingidos pelos aparelhos postos entre ambos. A crítica da Medicina mecanicista atingiu consolidação adequada com as publicações de Thomas Sydenham (1624-1689). Nos últimos anos da sua vida, esse médico genial defendeu arduamente a presença do médico na cabeceira do doente, utilizando os recursos que pudessem auxiliar na cura.

Existe incrível atualidade nessa questão. A persistência da atitude mecanicista dominando os rumos das ações de saúde coloca por terra o papel humano e de agente de transformação social que o médico deve ter.

quarta-feira, 9 de março de 2011

terça-feira, 8 de março de 2011

Promoção de mulher!

Jorge Bandeira


Aproveite nossa promoção de todo dia. Uma mulher todinha sua para você fazer o que quiser com ela: trair, bater, humilhar, caçar, espancar, estuprar, abortar, mutilar, fazer de escrava sexual, acorrentar, afogar, assassinar, cegar, tornar infértil, fazê-la de eterna secretária do lar, domesticá-la para todas as tarefas, prostituí-la, torná-la seu brinquedo favorito, usar e abusar de seu corpo, ser aquela que sempre dirá o sim para você, sem questionar absolutamente nada, pois você é o dono da verdade. Mulher em promoção todo dia, em todas as cidades, satisfazendo seus desejos mais secretos, eis a mulher, servindo ao seu senhor e sendo um animalzinho obediente e dócil. Essa é a verdadeira mulher em promoção, e utilize todos os seus recursos, ela liga e desliga quando você manda, tenha o controle total sobre este objeto chamado mulher, por milhares de anos sendo a serva capaz de fazer tudo o que você queira. Recuse imitações, escolha sempre a original, a mulher pronta para lhe atender, nua ou com roupas, eis a mulher maravilha, bela e sensual, não existe a feiúra onde você tem uma mulher disposta a morrer por você. Use sua mulher fácil das formas mais especiais que possam existir neste circo da alegria do macho. Mulher é sempre assim, um item necessário para nossa existência, não somos nada sem essa escrava sorridente ao nosso lado. Ah, mulher, por isso compro flores de ferro e de aço para lhe jogar na cara. Meu amor cafajeste não tem preço, e você é minha vida devassa e a reles espécime de minhas orgias e de minhas taras. Claro que não a farei sofrer rápido, seu sofrimento deve ser bem lento, lerdo, para que aprendas a ter neste teu homem a fortaleza mais intransponível, o exemplo perfeito de força e ordem. Mulher, e é por isso que lhe coloco em apuros, fingindo te amar e te querer, mas tudo não passa de mais um jogo pueril de minha parte, teu homem e senhor. Eu posso lhe trair quando e com quem quiser, e tu só a mim pertences, sou o senhor de tua vida e de tua morte. Neste teu dia internacional, só desejo uma coisa: que não percebas que sou um fraco e que você faça comigo tudo que faço contigo.


(texto escrito para um mundo doente)

segunda-feira, 7 de março de 2011

Algumas palavras sobre a poesia de Nelson Castro

Jorge Tufic

Pensamento e afeto verbal estruturam, numa só cadeia temática (o ser, a falta, a ilusão e a possibilidade), estes dez poemas de Nelson Castro, escolhidos pelo autor como parte do “quinta estação”, uma antologia poética do Clube Literário do Amazonas (Clam), cujo lançamento esteve anunciado pelo Flifloresta (festival literário internacional da floresta), mas que fora adiado.

Poemas feitos para dizer, ou escritos para ficar, a reflexão e a palavra desbravam, neles, o caos do interdito e a turbulência do poliedro abissal do universo, deslumbrando-se, no entanto, diante da metáfora (ou metaphora), que logo abandona o casulo da lógica formalista pelo toque da poesia. O modo coloquial disfarça e humaniza os labirintos da especulação filosófica, o diálogo entre Fedra e Eupalinos, Safo e os rochedos de sua ilha se vão deixando incorporar numa linguagem de todos.

Cada um desses poemas, contudo, distingue-se dos outros pelo seu conteúdo, mantenha embora a leveza do arcabouço, sístole e diástole como no poema “o flautista”, tendo-se em mira, sobretudo, a unidade do bloco, sem qualquer fissura, decididamente pronto para tornar qualquer livro do gênero numa obra duradoura.

Na qualidade de leitor, porém, impressiona-me a determinação de “o ilusionista”, “Livro Mater”, “ad infinitum” e “Para sempre”, nada podendo contra os demais, donos de força própria, coesão, solidariedade.

Nelson Castro é um poeta que vigia e capta os movimentos do sonho, a claridade dos gestos humanos, o silêncio das rosas e a fúria contida do átomo. Não é possível comentar sua poesia de uma janela tão estreita como essa, donde se avista apenas uma nesga do imenso valor que ela transmite. O restante há de ser matéria de uma outra crítica, realmente especializada.

Se falo alguma coisa é simplesmente um testemunho da luz que me torna um outro, muito mais diferente do que sou, depois que o li. Obrigado, Nelson.

sábado, 5 de março de 2011

sexta-feira, 4 de março de 2011

O teatro mítico de Márcio Souza – 1/5

Zemaria Pinto*


Embora ociosa para alguns, a discussão a respeito da especificidade do texto de teatro atravessa milênios e oscila ao sabor das teorias em voga. Antes de falar, então, sobre o teatro mítico de Márcio Souza, permito-me estabelecer alguns parâmetros essenciais para delimitar a abrangência desta análise:

1 – O texto dramático é literatura, sim. Sem renegar o bom Aristóteles e seus prosélitos, antes, complementando-os, afirmo que os gêneros literários, hoje, podem ser arquivados sob os títulos Poesia, Prosa de Ficção e Drama; neste último, arquiva-se o texto teatral;

2 – O texto de teatro, entretanto, só é literatura quando aprisionado nas páginas de um livro. Sobre o palco, ele adquire outra dimensão, passando a ser um componente – em alguns casos, o mais importante; em outros, nem tanto – do espetáculo;

3 – No geral, o texto dramático guarda total homologia com os outros gêneros, podendo ser apresentado em prosa ou em verso, e mantendo uma estrutura básica, formada por enredo, fábula, personagens, ambiente e tempo;

4 – O texto dramático alicerça-se na fala das personagens. Sem fala não há texto dramático. Mas há teatro. De outra forma: um texto dramático formado só de didascálias, sem falas, não é literatura. Mas pode ser teatro;

5 – Em síntese, texto de teatro é literatura, mas teatro é espetáculo. Com falas ou sem falas.

Então, esclareça-se que as tentativas de análise aqui perpetradas levam em conta unicamente os textos impressos, esquecendo-se o autor, temporariamente, dos muitos espetáculos a que assistiu nos últimos trinta e tantos anos, em que esses textos foram encenados. Aliás, as peças de Márcio Souza, mesmo as que têm suporte musical, dão ênfase ao texto, na melhor tradição ocidental.

O leitor mais atento perceberá, na divisão das peças em blocos, a influência de Sábato Magaldi. Não se trata de emular simplesmente o grande crítico, mas de, tomando emprestada sua ideia, quando da organização do Teatro Completo de Nelson Rodrigues, identificar os caminhos comuns das onze peças publicadas de Márcio Souza. Assim, sem abdicar do sagrado direito ao arbítrio, mas apontando a ênfase onde ela se mostra mais densa, e sem preocupações cronológicas quanto à escritura ou encenação, mas buscando um nexo temporal no cerne dos textos, dividi a obra dramática de Márcio Souza em quatro blocos: peças míticas, tragédias amazônicas, chanchadas amazônicas e peças cariocas.

As peças míticas reúnem os textos que tratam da mitologia índia do rio Negro, em cuja foz foi plantada a cidade de Manaus. Dessana, Dessana representa o mito da criação do mundo, como o povo Dessana conseguiu preservá-lo. Jurupari, a guerra dos sexos baseia-se na visão Tariana do mito desse herói-civilizador, uma personagem de importância messiânica para os povos do rio Negro. A maravilhosa história do sapo Tarô-Bequê é uma comédia que trata de lendas do povo Tucano, envolvendo bichos e gente comum. Longe da condição de mito, mas não da mitologia.

A Paixão de Ajuricaba, a primeira peça de Márcio Souza levada à cena, abre o capítulo das tragédias amazônicas, com a história ficcional do herói. A rigor, aliás, é a única tragédia do grupo. Pequeno teatro da felicidade, ambientada durante a guerra entre cabanos e legais, trata da tragédia coletiva, da mesma forma que Contatos amazônicos de terceiro grau, uma alegoria do poder destruidor da colonização.

Homenageando as origens cinéfilas do autor, agrupei entre as chanchadas amazônicas a cota da sua obra que seria, talvez, mais apropriado chamar de farsas históricas. Mas soaria muito helênico. As folias do látex é uma alegre análise sobre nossas origens e nosso caráter. A resistível ascensão do boto Tucuxi, baseada em fatos cruelmente reais, mostra a arte da politicalha amazônica nos anos pós-Vargas/Maia. Tem piranha no pirarucu é um painel risonho e franco da Manaus pós-moderna.

Finalmente, o bloco das peças cariocas traz os dois textos de Márcio Souza ambientados fora do Amazonas e com uma temática menos endógena: O elogio da preguiça, comédia, e Ação entre amigos, drama. O pano de fundo é o Brasil brasileiro dos anos 60, 70 – do século passado!

Deuses, heróis, bufões – e também gente comum: é nesse universo que o teatro de Márcio Souza se consubstancia. Utilizando-se de uma linguagem de grande carga poética, especialmente nas peças míticas e na tragédia de Ajuricaba, com expressões e palavras muitas vezes desconhecidas mesmo dos nativos urbanos, o texto impõe-se naturalmente, pela sua própria coerência interna. Entretanto, ao contrário do que o leitor apressado pode estar presumindo, não se trata de um “teatro regionalista”. Mas essa discussão terá seu tempo certo.

*Comunicação apresentada no II Colóquio Poéticas do Imaginário,
em setembro de 2010, na UEA.

quinta-feira, 3 de março de 2011

A perda de um grande amigo: Benedito Nunes



Soube de sua morte no blog do Zemaria Pinto, no “Palavra do fingidor”.

A última vez que o vi foi na UFAM, em Manaus, durante um seminário. Eu estava sentado a seu lado, junto com sua esposa, conversamos muito e dele ganhei um exemplar de uma revista acadêmica. Depois de tantos anos, ele me reconhecera. Tinha uma memória privilegiada, uma inteligência imediata, uma cultura enciclopédica, e uma humildade e simplicidade cativantes.

Ele era um grande mestre, respeitado no mundo todo, até por nomes como Foucault.

Foucault veio de Paris para visitá-lo, e se hospedou em sua casa, na praia.

Também estive com ele na Editora Vozes, na UFRJ, em alguns poucos encontros.

Mantive uma correspondência com ele.

Foi pouco. Mas a companhia de um Mestre tem efeito multiplicador.

Encontro agora uma pequena carta que me escreveu:

“Belem, 17.12.86

Prezado Rogel Samuel:

Só agora – tantos foram “os trabalhos e os dias” de viagem neste ano - posso agradecer-lhe o artigo com referencias à minha pessoa. Também agradeço o Teolit, livro de um Mestre, igualmente Inventor, que me ensina a ensinar.

Um abraço do

Benedito Nunes”

Não encontro outra carta, no meio da papelada desorganizada em que vivo.

Mas a dor de sua perda.

A medicina e o mecanicismo

João Bosco Botelho

A principal diferença entre a Medicina-oficial, a reconhecida e autorizada pelo Estado, das praticadas pelos curadores das religiões e pelos conhecedores dos saberes historicamente acumulados, reside no fato de a primeira estar assentada em torno de processos teóricos que apoiam a terapêutica e o prognóstico.

Um desses processos teóricos — o mecanicismo — determinou profunda influência nas práticas médicas oficiais a partir do século XVI. Um dos pilares da mudança pode ser sentida nas palavras de Galileu Galilei (1564-1642): “Aquilo que acontece no concreto, acontece do mesmo modo no abstrato, os cálculos e raciocínios feitos com números abstratos devem corresponder aos cálculos feitos com moedas de ouro e prata. Os erros não estão no concreto ou no abstrato, na geometria ou na física, mas no calculador que não sabe calcular.” A afirmação retrata muito bem o pensamento dominante no século XVI: o progresso da ciência estava nas mãos dos homens. O conceito de máquina substituiu o de fábrica oriundos dos tempos do médico romano Galeno. Os homens começaram a medir a máquina humana em níveis nunca antes imagináveis.

O médico Santório (1561-1636) foi um dos primeiros a aplicar na Medicina as novas concepções de medidas. Ele mensurou o ritmo da respiração e a quantidade de urina e fezes e comparando com o peso dos alimentos ingeridos, concluiu que o corpo deveria eliminar por outras vias, parte do que era ingerido. Grande parte da sua produção teórica foi publicada, em 1614, no livro “Dstatica Medicina”, onde descreveu com incrível clareza a ideia de que o corpo humano era uma fábrica.

Contudo, a maior dificuldade dos mecanicistas foi explicar o conjunto articulado do corpo. Dessa forma, houve facilidade em comparar os pulmões com fole, os dentes com a tesoura, o estômago com a garrafa, porém não estabeleceram uma relação coerente entre as partes.

O maior fruto dessa fase foi o processo teórico-prático elaborado por Marcelo Malpighi (1626-1696), aluno de Santório. Esse médico genial introduziu o pensamento micrológico na Medicina, isto é, a procura da origem da doença na estrutura invisível aos olhos desarmados. Sem risco de errar na imprudência do exagero, é possível afirmar que as publicações de Malpighi introduziram a Medicina no difícil caminho da ciência.

quarta-feira, 2 de março de 2011

terça-feira, 1 de março de 2011

Quarta Literária: Odisseia, de Homero, com Elson Farias


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Na ocasião, Elson Farias lançará o livro Jogo de caixas de montar.

Gabriel saiu para almoçar 9/15

Marco Adolfs



...Procurando uma personalidade histórica para servir como exemplo de solitário maior, Gabriel Sombra, o porta solitário, encontrou vários líderes políticos; mas, o maior, pensou então, já que estava citando muito a Bíblia, talvez fosse o próprio Judas, o traidor de Jesus. Um sujeito com todos os requisitos para se tornar um solitário. Nesse momento de seu ensaio Gabriel Sombra parou então para raciocinar que deveria deixar a Bíblia de lado e tentar ser mais técnico em como descrever os solitários. Tinha como exemplo maior ele próprio. O que se tornara; ou por escolha; ou por falta justamente dela. Com todo o conhecimento acumulado que Sombra tinha sobre psicologia, sabia que, essencialmente, os solitários sem fé eram pessoas geralmente agressivas como ele de vez em quando o era; ou se tornavam misantropas, como ele parecia ser muitas vezes assim. Ou então fugiam de tudo em busca de um isolamento de vítima; como um pobre coitado que vive se lastimando e culpando os outros pelas suas lástimas. Quantas e quantas vezes ele não sentiu isso mesmo. Uma vítima da incompreensão dos outros. E quantas e quantas pessoas não estariam na mesma situação? “Milhões!”. Há inumeráveis e especiais casos de pessoas solitárias no mundo. U’a mulher solitária porque o marido não a acompanha seja lá onde for; ou ainda um marido que se sente só porque a mulher só pensa em se dedicar a si própria. Estranho mundo. E ainda existem aquelas causas inevitáveis que acometem; ou irão acometer algum ser humano em determinado tempo de sua vida. Entre elas, pensou Gabriel, escrevendo o seu ensaio, existe a morte de um ente querido. Essa justa e injusta morte, a mais competente anunciadora de sofrimentos e solidões. Sombra então parou e percebeu a existência de outro fator, este preponderante, como desencadeador de um sofrimento interno que leva alguns seres à percepção da extrema solidão: o medo. Essa percepção do perigo e do abandono que pode levá-los a gestos absurdos...