Amigos do Fingidor

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

I Mostra de Poesia - da Praça para a Academia (fotos)


A Academia Amazonense de Letras regozija-se em apresentar esta I Mostra de Poesia – da Praça para a Academia, trazendo para a Casa de Adriano Jorge os novos talentos da poesia amazonense. É “mostra” porque não se trata de competição; e “primeira” porque pretendemos que haja muitas outras. A praça é um lugar onde as pessoas se encontram, mas é também um lugar de passagem. E foi numa praça que, em 1954, o Clube da Madrugada – marcante movimento cultural liderado por jovens intelectuais do Amazonas – foi fundado. Mais de 60 anos passados, a Academia abre suas portas para receber os jovens de todas as praças.

Rosa Mendonça de Brito
Presidente da AAL


Presidente Rosa Brito abre os trabalhos.
Ovacionado pelo público, o decano da Academia, poeta Thiago de Mello.
A atriz Koia Refkalefsky, em participação especial, leu poemas de Anne Lucy e de Sálvia Haddad.
Everaldo Nascimento.
Grace Cordeiro.
Gracinete Felinto.
Inácio Oliveira.
José t. Gonzaga.
Miguel de Souza.
Pollyanna Furtado.
Rojefferson Moraes.
João Feijão (Vibe Positiva).
Anne Jezini.
Fotos: Anny Lucy.

Participaram ainda: Anne Lucy, Sálvia Haddad, Saturnino Valladares e Celestino Neto.

Curadoria/Organização: Zemaria Pinto

Estilhaços Literários - Marcio Santana



Code Time - nova exposição de Sergio Cardoso, no ICBEU



Medicina pré-socrática e a Tekhne


João Bosco Botelho


No século 4 a.C., na Grécia, a Medicina se apresentava na estrutura dos saberes que procuravam compreender a natureza visível e a invisível. A profissão estava sedimentada em sistemas de aprendizado e reprodução que influenciaram, profundamente, nos vinte séculos seguintes, os caminhos das práticas médicas no Ocidente.
É possível ter sido depois das guerras médicas (490-479) que a Medicina grega tenha atravessado esse notável desenvolvimento estrutural. A partir dessa época, o médico aparece como intermediário na formação social e na edificação do pensamento coletivo, iniciando a processo de ruptura entre a forte influência dos imemoriais laços mágicos das ideias e crenças religiosas.
Concomitante, ocorreu maior aderência às propostas pré-socráticas, especificamente, a dos filósofos jônicos, para a interpretação da natureza por meio da Tekhne. O médico iniciou outra atuação: atuou na observação dos sinais da natureza visível.
A Medicina se tornou essencialmente etiológica e aderiu ao pensamento de Leucipo de Mileto: "Nenhuma coisa se engendra ao acaso, mas todas (a partir) da razão e por necessidade". Este avanço de dimensões gigantescas possibilitou estabelecer a ponte que ligaria, definitivamente, o diagnóstico ao prognóstico.
Os elementos da natureza tornaram-se a medida de todas as coisas!
Os conceitos normativos alcançaram os significantes da doença como desvio do natural, do funcional e, em maior amplitude, mudança na physis do homem em torno de cinco categorias:
– Universalidade-individualidade: todas as coisas têm a sua physis própria, inclusive o homem com as suas partes, as doenças etc. O novo conceito também está claro no livro "Sobre os Lugares e o Homem": "A physis do corpo é o princípio da razão da Medicina".
– Harmonia: na aparência e na dinâmica a physis é harmoniosa.
– Racionalidade: a natureza é racional em si mesma, o logos no qual o homem se harmoniza está atado ao logos da natureza;
– Divindade: a physis é em si mesma divina.
A influência jônica foi tão grande que toda a literatura médica dessa época que chegou até nós foi registrada em prosa jônica, apesar de ter sido escrita em Cós, ilha de população e língua dóricas. Este fato só pode ser explicado pela aceitação entre os letrados do avanço da cultura e da ciência jônicas.
A preocupação em estabelecer um elo duradouro entre o binômio saúde-doença com a natureza circundante está presente na introdução do livro Dos Ventos, Águas e Regiões, escrito no século 4 a.C.: "Quem quiser aprender bem a arte de médico deve proceder assim: em primeiro lugar deve ter presentes as estações do ano e os seus efeitos, pois nem todas são iguais mas diferem radicalmente quanto a sua essência especificada e quanto as suas mudanças".
Sob esses argumentos, é possível entender que a Medicina tenha iniciado o afastamento das crenças e ideias religiosas na Grécia do século 4 a.C.


quarta-feira, 30 de agosto de 2017

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Desistiu de casar


Pedro Lucas Lindoso


Além do conhecido 11 de agosto, quando nós advogados celebramos nosso dia, duas outras efemérides de agosto chamaram minha atenção. Dia 13, dia do canhoto, e dia 15, quando foi celebrado o dia do solteiro.
Vamos começar pelos canhotos. Preconceito é algo odioso. Em todos os sentidos e de todas as formas. Os ignorantes sempre perseguem todo aquele que é considerado ‘diferente’ da maioria. Os canhotos, indivíduos que se utilizam da mão esquerda para comer, escrever e segurar objetos, já foram ou são motivo de discriminação.
Em Francês, “gauche” significa esquerdo, mas também pode significar algo incorreto ou mesmo desajeitado. Na língua italiana, canhoto é sinistro. Esquerda em Italiano é sinistra, o que também é pejorativo.  A palavra portuguesa “canhestro”, que é sinônimo de canhoto, também se apresenta como sinônimo de algo desajeitado ou errado.
Em Espanhol, canhoto é “zurdo”. Muito cuidado para não confundir “zurdo” (canhoto) com “surdo” em Português. Há o equivalente em Espanhol “sordo”, porém o termo mais adequado é “deficiente auditivo”, assim como em Português. É o que me explicou minha professora de Espanhol.
Quanto aos solteiros, melhor não opinar muito, pois pode ser desastroso.  Um jovem prestes a ficar noivo leu em algum lugar que “As únicas pessoas realmente felizes são mulheres casadas e homens solteiros”.
Eu lhe disse que evitaria opinar, pois poderia ofender minha esposa. Mas lhe disse que casamento é sim uma prova de resistência física, intelectual, moral e financeira. Mas que valia a pena.
Todavia, como advogado cabia lhe alertar que ao deixar de ser solteiro, nunca mais poderá voltar ao “status quo ante”. Ou seja, jamais poderia voltar a ser solteiro novamente.
E se eu me divorciar? Perguntou-me. Ficará divorciado, respondi-lhe. E se ela falecer, serás viúvo, ora, ora. Solteiro, jamais.
O rapaz desistiu de casar! Pretende celebrar o 15 de agosto até morrer.


domingo, 27 de agosto de 2017

Wilson das Neves (14/06/1936 – 26/08/2017)



O samba é meu dom
É no samba que eu vivo
Do samba é que eu ganho o meu pão
E é no samba que eu quero morrer
De baqueta na mão
Pois quem é de samba
Meu nome não esquece mais não


             (Fragmento de “O samba é meu dom”, de Wilson das Neves e 
Paulo César Pinheiro)

Manaus, amor e memória CCCXXXI



sábado, 26 de agosto de 2017

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

I Mostra de Poesia - da Praça para a Academia



Escolha do médico: elo de confiança


João Bosco Botelho


A doença não existe só em si mesma; em certo instante, pode ser entendida como abstrata, por ser nominada e classificada pelas pessoas, como história de longa duração.
A conjunção simultânea dos sinais e sintomas que a doença determina no corpo humano, impõem a observação pelo médico ou outro curador da doença como mal. Essa situação assume na prática como o ponto de partida para retirar as doenças das construções teóricas abstratas.
A consequência da enfermidade, entendido como mal que deve ser extirpado, constitui o principal pilar que alicerça a abordagem do doente, estruturando o elo de confiança entre o enfermo e o médico, não somente como fenômeno biológico, mas também parte da totalidade sociocultural de ambos, do curador e do doente. O controle das endemias sempre esteve diretamente ligado a essa realidade. O historiador Jaques Le Goff é enfático: "A doença não pertence somente à história superficial dos progressos científicos e tecnológicos, mas à história profunda dos saberes e das práticas ligadas às estruturas sociais, instituições, representações e mentalidades."
Um dos exemplos mais marcantes é a hanseníase. Essa doença começou a desaparecer da Europa, no século 17, trezentos anos antes do início do tratamento efetivo. Aqui reside um dos pontos cruciais do atual entendimento da medicina enquanto pratica social: é preciso que as escolas de medicina repensem as metodologias para que os alunos compreendam a dimensão social da doença.
A análise cultural das doenças pode contribuir também para esclarecer como se processa a escolha que o doente faz na procura do médico ou do curandeiro, consolidando o elo de confiança.  Em determinadas culturas distantes milhares de quilômetros entre si, esse encaminhamento é concretizado de modo semelhante, isto é, as pessoas se baseiam no sistema referencial dos amigos e não somente em indicadores objetivos do êxito profissional.
A milenar crença de que a doença é castigo divino ainda é marcante em muitas culturas.  Após a escolha do curador-popular, não necessariamente do médico, as práticas se distanciam rapidamente. Em certo sentido, em especial na construção do elo de confiança, a medicina popular pode ser mais competente que a medicina das universidades. O médico tende como resultado da sua formação desvinculada do sociocultural, abordar exclusivamente a doença em compartimentos corpóreos, enquanto que o curador popular se envolve com o dominante cultural e o utiliza no objetivo de curar.
A compreensão das enfermidades como forma de desvio social foi teorizada por Talcott Parsons (1902-1976), em 1951, foi marcada pelo etnocentrismo americano da década de cinquenta que acabou legitimando os Relatórios Flexner (Abraham Flexner, 1856-1959), publicado em 1910, que fechou mais da metade das faculdades de medicina e reformulou completamente o ensino da medicina nos Estados Unidos, ao defender: "O paciente tem a obrigação de buscar ajuda técnica competente (fundamentalmente, um médico) e cooperar no processo de recuperação".
Essa conduta fortaleceu a medicina e a morte hospitalar e fixou relação de absoluta dependência entre o doente e o médico. É evidente que o estudo de Parson é inaceitável nos países onde a maioria esmagadora da população não tem acesso à medicina hospitalar.  

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Izaura, com z, a chef de cuisine


Pedro Lucas Lindoso

As pessoas que vão trabalhar em nossa família costumam ficar para sempre. Eu tinha um mês de idade quando Dária Nascimento, a Darinha, foi parar em nossa casa. Chegou a conhecer meus filhos e morreu na nossa casa. Antonieta, a Teté, morou com a gente e depois foi responsável por ajudar minha tia Ana Maria a criar minhas primas. É minha comadre querida.
Outra figura importante da família é Izaura. Sem jamais ter cursado o “Cordon Bleu” tornou-se a nossa grande “chef de cuisine”. Filha de dona Adalgisa, já falecida, que um dia lhe ensinou:
– Minha filha, não trabalhe para gente sem educação. Os patrões acham que escolhem os empregados. Na verdade nós é que escolhemos os patrões. Não vale a pena trabalhar para gente sem eira nem beira.
Um dos orgulhos de Izaura é de ter cozinhado para banqueiros e grandes empresários amigos de meus tios, em São Paulo. Faz questão de lembrar já ter cozinhado para deputados, senadores e até para o ex-governador José Lindoso.
O falecido marido de Izaura, seu Oswaldo, trabalhava na Rede Globo-SP. Era eletricista. E, claro, conhecia muitos artistas e celebridades. Muitos globais provaram os quitutes de Izaura. Os elogios nem sempre repassados por seu Oswaldo, que “monopolizava” as amizades com os “famosos”.
A Editora Marco Zero publicou uma série de livros de receitas. “100 Comidinhas para comer com cerveja” foi um magnífico sucesso editorial. Elaborado pela grande escritora e querida cunhada Maria José Silveira. Há um consenso na família de que o significativo resultado de vendas deve-se à participação de Izaura com sua famosa receita de “batatinhas”.
O lado libanês da família já aprovou com louvor os “charutos” da Izaura e na questão das sobremesas o pudim de claras é imbatível.
Em minha opinião, a grande especialidade da Izaura é o “cozidão”. Só ela sabe o ponto correto de cada verdura, de modo a não ficar uma mais cozida que a outra. Administrar a correta textura dos legumes é só para uma “chef" como Izaura. 
Dona Adalgisa tinha razão. Para ser uma “chef de cuisine” é melhor escolher a patroa certa do que cursar o tal de “Cordon Bleu”. Acho até que Izaura pode ganhar o master chef. É só se inscrever!


segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Maria Camargo lança o roteiro da série Dois Irmãos


No lançamento, a autora fará uma explanação sobre adaptação/roteiro.

domingo, 20 de agosto de 2017

sábado, 19 de agosto de 2017

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

exercício da crueldade


Zemaria Pinto


palavras são serpentes, são navalhas
são balas que explodem dentro do peito
de quem ouve e de quem fala!


A medicina de Hipócrates


João Bosco Botelho


Hipócrates, segundo Sorano de Éfeso, nasceu na ilha de Cós, em 460 a.C., filho do médico Heráclides, aprendeu os segredos da prática médica com o pai e nas viagens a Tessália, Trácia, Líbia e Egito.
Esse período admirável da Medicina grega, do qual Hipócrates foi o mais importante representante, compreendeu cinco centros de cultura médica que receberam os respectivos nomes da cidade onde funcionaram: Cós, fundada por Hipócrates, em 440 a. C., Rhodes, Cnido, Crotona e Agrigento.
Devido à importância fundamental na história da Medicina, a Escola de Cós acabou absorvendo a denominação de medicina hipocrática em menção honrosa a Hipócrates. 
O sucesso da Escola Médica de Cós, deve-se ao fato de ter sido onde Hipócrates e seus seguidores estruturaram as bases da Medicina grega na busca da materialidade das moléstias. Nesse núcleo fervilhando de novas propostas para sair das práticas de curas fortemente atadas às crenças e ideias religiosas oriundas do Egito e da Mesopotâmia, tornou-se responsável pela primeira teoria laica para explicar a saúde e a doença – a teoria dos Quatro Humores –, publicada pelo genial Políbio, o genro de Hipócrates. A proposta foi tão consistente que se manteve em discussão até o final de século 18, entre os luminares da Medicina ocidental.
A medicina hipocrática pode ser compreendida por meio das obras publicadas pelos médicos da Escola de Cós responsáveis por dezenas de textos com atualidade até hoje, quando as práticas médicas iniciaram o processo de separação das crenças e ideias religiosas. A cura deixou de ser um atributo exclusivo dos deuses protetores ou vingadores para ser explicada pela Medicina, onde era possível e preferível que o homem agisse sobre o outro homem doente, para alcançar a melhoria da saúde.
A estrutura teórica da Medicina hipocrática está contida no pensamento filosófico grego pré-socrático, notadamente, na teoria dos Quatro Elementos de Empédocles (água, terra, ar e fogo). Posteriormente, foi incluído no mundo das ideias platônico-aristotélicas.
Dessa forma, é possível estabelecer o marco fundamental da medicina hipocrática: só é possível entender a saúde e a doença se o homem for estudado em conjunto com o ambiente onde vive.


quarta-feira, 16 de agosto de 2017

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Mês do cachorro louco


Pedro Lucas Lindoso

Tia Idalina é uma pessoa supersticiosa. Aliás, muito supersticiosa. Ela pede, encarecidamente, às pessoas que evitem relatar qualquer superstição. Ela explica que acaba adotando a prática e isso é muito cansativo, segundo nos explica.
O mês de agosto é um sofrimento para Idalina. Procura não sair de casa. Recolhe-se a uma espécie de retiro espiritual. Diz que é para evitar o azar que acredita impregnar especialmente o mês de agosto. Titia se abastece de pé de coelho, trevo da sorte, amuletos, sal grosso e até um dente de alho pode ser encontrado junto aos seus pertences.
Ontem telefonei e a secretária me disse que ela não atende telefonemas no mês de agosto. Mas faria concessões, incluindo a minha pessoa.
Argumentei com Idalina que não via razão para tanto sofrimento no mês de agosto, no que ela me replicou:
– Só para lembrar: em agosto houve o suicídio de Getúlio Vargas, a morte da Princesa Diana, Elvis Presley e de Juscelino Kubitschek. Todas me abalaram profundamente, por motivos diversos. Um horror!  Em 1914, no dia 1º de agosto, teve início a 1ª Grande Guerra Mundial. Em 1945, mais de 200 mil pessoas morreram em Hiroshima e Nagasaki, completou. E você acha pouco?
Disse-lhe que o meu problema com agosto é que não há feriados para a gente descansar e passear. Além disso, em Brasília costuma ser muito seco e em Manaus faz muito calor.
Segundo meu colega Chaguinhas, foi entre os romanos que o mês de agosto começou a ser considerado azarento, embora não se saiba exatamente o motivo. Já aqui no Brasil, com a influência dos portugueses, essa crença chegou e se espalhou. Daí o dito popular “casar em agosto traz desgosto”.
Pergunto a uma amiga veterinária e muito culta por que agosto é o mês do cachorro louco. Ela me explica:
– No mês de agosto, a concentração de cadelas no cio aumenta bastante devido às condições climáticas. E quando as cadelas estão no período fértil, os cachorros ficam loucos (mesmo!) e brigam para conquistar a fêmea. Essa luta feroz entre os machos em busca da fêmea faz com que a raiva, doença transmitida pela saliva do bicho, se espalhe mais.
Então pessoal, vamos vacinar a cachorrada, porque agosto é mês de cachorro louco.


domingo, 13 de agosto de 2017

sábado, 12 de agosto de 2017

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

romança



Zemaria Pinto

2° movimento (noturno)


havia o vento que desvendava
suavemente a pele morena
nave noturna
suavemente

havia a água que transbordava
alucinante a dourada fúria
colo de espuma
alucinante

havia a terra que aconchegava
dilacerante a fértil ravina
vale sagrado
dilacerante

e havia o fogo que iluminava
serenamente o fugaz momento
gozo profundo
serenamente


Deuses, deusas e médicos na Grécia


João Bosco Botelho


As relações da Medicina com a compreensão mítica da realidade se perderam no tempo. É impossível separar as ideias míticas do entendimento do homem sobre a saúde e a doença.
Das primitivas relações do homem com outros animais, posteriormente substituídas pelas relações com a terra, surgiu empiricamente o uso das plantas na busca da saúde. A utilização do vegetal, indispensável à sobrevivência do homem, se processou em complexa compreensão mítica, que foi marcada pelas explicações que se sucederam nos milênios da origem primeira e do destino final do ser humano. Elas evoluíram da epopeia de Gilgamesh, dos babilônios, à teoria do Big Bang, dos modernos astrofísicos, passando pela gênese judaico-cristã e pela Yebá Beló da lenda desana da criação do Sol.
Apesar da melhor compreensão que temos hoje das metamorfoses do pensamento mítico, a dificuldade de interpretação aumenta na proporção que recuamos no tempo. Entretanto, parece ser a partir do século 6 a.C., na Grécia, que chegou o material historiográfico suficiente para traçar, com alguma segurança, um perfil da Medicina da mitologia.
De acordo com a mitologia grega, a Medicina começou com Apolo, filho da união de Zeus com Leto. Inicialmente, Apolo foi considerado como o deus protetor dos guerreiros, posteriormente, foi identificado como Aplous ou aquele que fala verdade. Ele agia purificando a alma, por meio das lavagens e aspersões, e o corpo, com remédios curativos. Era considerado o deus que lavava e libertava o mal.
Um dos filhos de Apolo, Asclépio, recebeu educação do centauro Quirão para ser médico.  A escolha do centauro mítico para dirigir a educação de Asclépio se consolidou porque ele dominava o completo conhecimento da música, magia, adivinhações, astronomia e da Medicina. O centauro, além destas habilidades, tinha incomparável destreza, manejava com a mesma habilidade o bisturi e a lira.
O centauro Quirão além de ter educado Asclépio, na Medicina, também orientou Jasão na arte de vencer os mais incríveis obstáculos, e Dionísio, o deus da vegetação e do vinho, conhecedor dos mistérios da religião, do êxtase e da embriaguez. 
Hipócrates, talvez para evitar o mesmo destino de Sócrates, não abrigou o confronto com os deuses e deusas do panteão grego, em especial, com o deus Asclépio, o mais importante deus curador daquela época. Ao contrário, a Escola Médica de Cós, na ilha de Cós, no século 4 a.C., onde foi produzida a maior parte dos textos que possibilitaram o avanço na Medicina em direção à melhor compreensão da saúde e da doença, se consolidou ao lado do maior templo grego dedicado ao Deus Asclépio.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Papai...


Pedro Lucas Lindoso


Mais uma vez chega agosto e se comemora o dia dos pais. Para muitos brasileiros é um dia de tristeza e constrangimentos. Há milhares de pessoas que não foram reconhecidas por seus pais. Na Amazônia, há os filhos de boto.
Reza a lenda que o boto sai dos rios e se transforma em um garboso rapaz. Veste-se de elegante traje branco e sempre usa um chapéu para cobrir a narina do topo de sua cabeça. Seduz moças desacompanhadas, engravidando-as. Daí o costume de dizer que, quando uma mulher tem um filho de pai desconhecido, é “filho do boto”.
Conversando com meu amigo Chaguinhas sobre filhos e a função de ser pai, ele vai logo sendo sarcástico e começa a filosofar:
– Meu amigo, acho que a gente nunca na verdade se torna um filho adulto. Apenas se aprende como atuar em público, geralmente de maneira hipócrita e/ou dissimulada.
Os filhos serão sempre filhos. Os filhos de boto aprendem a se virar e desde cedo lutam pela sobrevivência. Ribeirinhos ou urbanos vão à luta somente com a ajuda materna, que é a que mais importa.
Enquanto os filhos de boto não recebem nenhum carinho e orientação dos pais, os filhos legítimos e reconhecidos podem ser vítimas de muita proteção. O desvelo de muitos pais pode ser um mal para os filhos.
Contou-me que um colega seu, professor de uma faculdade de Direito em Brasília, recebeu a visita de um pai de aluno, questionando a baixa nota de seu filho, acadêmico de direito. O mais absurdo é que o pai do “garotinho estudante de direito” era um advogado, com atuação em uma cidadezinha do interior de Goiás.
O professor argumentou ao colega pai que o rapaz deveria vir falar com ele pessoalmente e pedir a revisão da prova. Afinal, já era um adulto. Era preciso aprender a atuar em público. Em breve, seria um advogado!
O rapaz se formou. Logo após a formatura o pai faleceu. Ele teve que cuidar do inventário. Ao se dirigir ao juiz, ao invés de qualificar o de cujus como FULANO DE TAL, etc., começou a petição assim:
Papai...

sábado, 5 de agosto de 2017

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

romança


 Zemaria Pinto

1° movimento (modinha)


reza, vela, terra nua,
lembranças de nem-me-lembro,
festa de febre, louvor
para os peixes de setembro.

abre-se o rio numa flor,
o azul veludo vigia,
desce a negra com seu manto:
água, vaga melodia,

espanto, sussurro, canto,
desejo, espasmo, agonia
– explode em carne meu verso
  pra  fazer nascer o dia!

sobre o cimo do universo,
despida de linho ou lã,
a lima de aço flutua
nos fumos da antemanhã.


O mau-olhado


João Bosco Botelho


Não há dúvida da universalidade da crença do mau-olhado. O inesquecível Luís da Câmara Cascudo, no seu Dicionário do Folclore Brasileiro, sustenta a antiguidade e a presença do mau-olhado nos cinco continentes. É também reconhecido em algumas regiões brasileiras como olho de seca pimenteira.
O grande mestre da mitologia grega, Junito Brandão, assinalou a origem pré-olímpica do mau olhado, explicando as mudanças na transição greco-romana para absorver a concepção helenística predominante nos países cristãos. Na mitologia grega, a imortal Medusa, com a cabeça coberta de serpentes, possuía olhos com excepcional brilho e com olhar maligno que transformava em pedra quem ousasse fixá-los.
Carlo Ginzburg interpretou do modo magistral os cultos agrários, no século 17, em uma sociedade camponesa italiana. A crença no mau-olhado era comum naquela comunidade e o tratamento só obtinha sucesso se realizado por alguém com poderes especiais: o benandanti ou andarilho do bem. Em um dos processos do Santo Oficio para punir o benandanti, no depoimento de um dos acusados, está claro o entendimento do mau-olhado: O que significa, pergunta o inquisidor, ter mau-olhado? E a jovem explica: nós dizemos que têm mau-olhado as mulheres que secam o leite das mulheres que amamentam e são também bruxas que comem as crianças.
As compreensões do mau-olhado são semelhantes e recebem nomes de significâncias próximas: olho de seca pimenteira, malocchio, evil eye, bose blick, mal de ojo, olho grande e olho gordo.
Os relatos mantêm semelhanças: a pessoa atingida pelo mau olhado sente, imediatamente ou após algumas horas, apatia generalizada, dores no corpo e na cabeça, alterações na digestão, inapetência, irritação e desânimo. Quando o alvo é criança, as consequências são mais intensas, podendo incluir: sonolência profunda, olhos encovados e moleiras afundadas.
O mau-olhado é reconhecido como uma das doenças que devem ser tratadas pelos curadores populares. Em algumas regiões brasileiras, o ritual de cura continua sendo realizado com a ajuda de um ramo de arruda ou erva-doce tirado do galho, semelhante ao registro de Luiz Edmundo, no Rio de Janeiro, no século 18: “Todo mal que nesse corpo entrou; ar de névoa, ar de cinza; ar de galinha choca, ar de cisco; ar de vivo em pecado; ar de morto excomungado; ar de todo o mau-olhado; seja desse corpo apartado; Deus te desacanhe de quem te acanhou; Deus te desinveje de quem te invejou”.
Alguns médicos observam no cotidiano, que certos doentes portadores de determinados cânceres, evoluindo favoravelmente ao tratamento, ao tomarem conhecimento de estar com essa doença, as complicações aparecem rápido; inexplicavelmente, ocorre a piora irreversível e acabam morrendo mais rápido.
O conhecimento historicamente acumulado insiste na veracidade do mau-olhado, sugerindo que as emoções, ainda pouco compreendidas pela medicina, interferem no rumo de certas doenças e na saúde das pessoas.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Ganhar ou perder?



Pedro Lucas Lindoso
   
A ex-presidente Dilma em desastroso improviso afirmou: “Ninguém vai ganhar, ninguém vai perder. Todo mundo vai perder”. O pronunciamento “viralizou” na Internet. Muita gente se divertiu com isso. Principalmente, os “coxinhas”.
O fato é que ela tinha razão. Muitos estão sendo responsabilizados e há prejuízo para toda a Nação. Independentemente do viés político. Todo mundo perdeu.
É verdade que muitas vezes ninguém perde e ninguém ganha. Empata. Principalmente no futebol. Nicodemos é técnico de um time e foi excursionar no interior.  O presidente, na verdade o “dono” do time pediu notícias. Mande por “whats app”. Nicodemos que maneja o celular bem melhor que a Língua Portuguesa, mandou bala: ”Cheguemos, descansemos, treinemos, almocemos, joguemos. Nem ganhemos nem perdemos. Empatemos. Abraços. Nicodemos”.
Na vida parece que se perde mais do que se ganha. Às vezes perdemos uma oportunidade e ganhamos outra mais adiante. Um rapaz de Parintins me encontra no fórum e lamenta: “Nosso boi Garantido perdeu”. Eu lhe disse que não se pode ganhar sempre. No ele retrucou: “Eu fico triste só até o fim do ano. Quando chega janeiro eu me alegro porque sei que naquele ano que se inicia meu boi vai ganhar.”
Parece que há mesmo certo rodízio. Só há dois bois. Caprichoso e Garantido. O espetáculo é tão bonito que, parafraseando Dilma, ninguém perde, ninguém ganha. Todos ganham. Principalmente a economia da cidade de Parintins.
Por falar em ganhar ou perder, outro dia ouvi  um relato envolvendo o comendador português José Cruz. Fundador  e presidente do grupo Guaraná Magistral. O saudoso José Cruz liderava um grande número de portugueses empreendedores aqui no Amazonas. Um belo dia adentram  em seu escritório vários patrícios indignados e esbaforidos. Davam notícia que um deles, conhecido comerciante manauara, havia adotado a cidadania brasileira e não era mais português. Naquela época não havia dupla nacionalidade como hoje. Foi então que o comendador Cruz acalmou os ânimos exaltados dos portugueses:
– Portugal nada perde. O Brasil nada ganha.
A tirada do comendador foi genial. Todos ficaram tranquilos e conformados.
Conclusão: o raciocínio da ex-presidente Dilma não foi tão desastroso assim. Quem sabe um dia vamos mesmo estocar vento!