Amigos do Fingidor

quinta-feira, 31 de março de 2022

A poesia é necessária?

 

Receita para fazer um herói

Reinaldo Ferreira (1922-1959)

 

Tome-se um homem,

Feito de nada, como nós,

E em tamanho natural.

 

Embeba-se-lhe a carne,

Lentamente,

Duma certeza aguda, irracional,

Intensa como o ódio ou como a fome.

 

Depois, perto do fim,

Agite-se um pendão

E toque-se um clarim.

 

Serve-se morto.



terça-feira, 29 de março de 2022

Elifas Andreato (22/1/1946 – 29/3/2022)

 

O artista, entre suas obras.

Chico Buarque, por Elifas Andreato.


Noel Rosa, por Elifas Andreato.

Clementina de Jesus, por Elifas Andreato.







E a verdade histórica?

 Pedro Lucas Lindoso


Manuel Bandeira em seu poema “Evocação do Recife” poetiza: Rua da União… / Como eram lindos os nomes das ruas da minha infância. / Rua do Sol (Tenho medo que hoje se chame de dr. Fulano de Tal). / Atrás de casa ficava a Rua da Saudade… / Do lado de lá era o cais da Rua da Aurora…

Aqui em Manaus, a Rua Henrique Martins se chamou Rua do Sol e a Saldanha Marinho, Rua da Lua.

A avenida das Torres foi nomeada de Governador José Lindoso. Mas muitos continuam a chamá-la pelo antigo nome. O mesmo ocorre com as ruas Recife e Paraíba. Renomeadas em homenagens a dois ilustres amazonenses. Mas a população ainda se refere às ruas em alusão às capitais nordestinas. Como o são todas as ruas da Vila Municipal: São Luís, Teresina, Fortaleza, Natal. (A capital João Pessoa se chamava Paraíba, como o próprio estado).

E a Rua das Flores? Fica no centro da cidade. Com o Império passou a ser Rua do Imperador. Com o advento da República, passou a chamar-se de Marechal Deodoro. Hoje é conhecida como rua do bate-palmas. Todo manauara sabe o porquê.

Muda-se a política. Mudam-se os nomes. Em São Paulo, há o famoso viaduto Minhocão. Ora transformado em espécie de parque. Inaugurado como Elevado Presidente Costa e Silva, hoje denomina-se Elevado João Goulart. Em Brasília, a Ponte Costa e Silva foi rebatizada como Honestino Guimarães. Houve reação. Por decisão judicial voltou ao nome original. Aqui em Manaus, a Maternidade Balbina Mestrinho já foi Ana Nery e voltou a ser Balbina Mestrinho novamente.

Aqui no Amazonas o Município de Presidente Figueiredo, criado no governo de José Lindoso, foi homenagem ao último presidente do Regime Militar. Entretanto, nos anais da Assembleia Legislativa do Amazonas consta, equivocadamente, que seria alusivo ao primeiro presidente da Província do Amazonas. O homem se chamava João Batista de Figueiredo TENREIRO ARANHA. Nos outros monumentos e praças da cidade, o presidente provincial é tido como TENREIRO ARANHA, nunca como Figueiredo.

São Petersburgo uma das mais belas e importantes cidades da Rússia mudou de nome para Petrogrado na Revolução Soviética. Em 1924 passou a chamar-se Leningrado, em alusão a Lenin, obviamente. São Petersburgo foi a capital do Império Russo durante mais de dois séculos. Com a Revolução, os soviéticos optaram por transferi-la para Moscou. Com o fim da União Soviética, voltou a ter seu nome original de São Petersburgo.

As mudanças por razões políticas e ideológicas ocorrem de diversos modos. Pelo esquecimento, por desvirtuamento, pela mudança dos nomes de ruas, praças e cidades e até pela destruição de estátuas e monumentos. Cabe aos historiadores sempre o papel de restituir a verdade histórica.


domingo, 27 de março de 2022

Manaus, amor e memória DLX

 

Casa do Tesouro.

quinta-feira, 24 de março de 2022

A poesia é necessária?

 

Ancestralidade

Tainá Vieira

 

I

De meu ventre saem versos,

concebidos na agonia do existir.

Expulsos em meio à dor e à alegria,

ainda que nascidos de mim,

não me pertencem.

 

Deixo-os livres,

vão por aí sem rumo e sem rima,

à procura de ritmos e imagens

que possam lhes dar abrigo.

Pois a natureza

não me fez mãe à sua imagem.

 

Fez-me oca,

fez-me louca,

tal Medeia,

cujos filhos assassinou,

por não controlar o seu instinto

e nem medir o seu amor.

 

II

escrevo

não com a alma de um artista

tampouco escrevo com a paixão de um poeta

 

procuro palavras soltas

para escrever no chão úmido

com as pontas dos dedos

os mais sórdidos segredos

trancados no coração de uma mulher

 

traços essas linhas

com o vermelho sangue

extraído da entranha

do meu ser selvagem

herdado de minha avó

 

se escrevo

não por prazer

ou por querer

dou luz à agonia

que cresceu em mim

gestada por anos

por séculos

desde o dia em que Eva

descobriu seu corpo nu

 

III

Esta mão que escreve versos,

corta o alho e a cebola

diariamente;

lava o peixe,

tempera a carne,

amassa o pão;

separa as frutas,

os legumes

e as sementes.

 

Essa mão,

não é de poeta ou de chef.

É mão de mulher,

de Sônias e de Marias

que vivem perdidas na rotina

sobrevivendo à sina

de cozer e escrever muitas histórias

até o dia em que suas memórias

não souberem mais distinguir

luz e escuridão.

 

IV

o poema

que escrevo

não pretende

e nem almeja

inspirar alguém

 

o verso livre

que a minha caneta desenha

sem ritmo e sem imagem

marca apenas a passagem

do pensamento meu

 

fabricado em noite fria

na minha mente inquieta

que busca na palavra

a sua alma

de poeta

 

 

quarta-feira, 23 de março de 2022

Meus 69 anos: é vida pra caramba

David Almeida

 

Quem disse que a vida é curta? Gente, eu já vivi 69, longevos anos (em outro contexto é uma boa posição), mas se um ano tem 365 dias, aí, a gente multiplica 365 X 69, que é igual a 25.185 (vinte e cinco mil e cento e oitenta e cinco dias). É VIDA PRA CARAMBA. Então, a vida não é curta, ela encurta para quem não sabe vivê-la, ou é atropelado por alguma pedra que rolou e estacionou no seu caminho. Aí, você me pergunta, como alongar a vida? Aí você me pegou, porque eu não sei. O que me resta dizer é vivê-la intensamente, como vivi, sem me preocupar com o amanhã, mas não sei se serve pra todo mundo, ou se é uma receita. O que eu sei é o que me resta pra continuar a caminhada. É a experiência que tenho desses 69 anos vividos.

Hoje, agora, me atrevo a dizer: as oportunidades, é importante não perdê-las; as vezes a vida para ser vivida está ao seu lado, você, na ânsia de viver, não enxerga a vida ávida perto querendo te abraçar. A vida é como o amor, não adianta correr atrás, porque você pode achar a ilusão e balançar na crista de um tombo, se machucar, esparramando-se todo pelo chão e a vida tão sonhada, doce de viver, amarga para sempre.

A vida e o amor são pinturas expressas no mesmo quadro, emoldurado por uma alma só, dando luz; enquadrando infinitamente o seu caminho, alongando seus passos na exposição da sua existência.

Se há uma receita para viver, é amar cada passo da sua vida por esse “Planeta Ainda Azul”, como fiz: colher cada flor que nele brotar, não guardar para si seu perfume, suas pétalas, suas cores; compartilhar o que de melhor você colheu da vida é importante, para fertilização de outros caminhos, onde, por certo, jardins irão brotar para colorir a vida em todas as estações, e não encurtá-la.

Olhar pra trás, de vez em quando, é importante – pra sentir o que fez, o quanto já andou. Olhar pra frente, também, mas não tentar pelo olhar. Medir a distância que o separa da luz no final do túnel, pisar firme com a palma do pé bem espalhada no chão e assim não ter dúvida da escolha do seu caminho em cada encruzilhada.

Na realidade, não sei se fiz tudo isso pra chegar até aqui, apenas nesse momento, desnudo minha trajetória assim, dessa maneira, quem sabe ajudo alguém a alongar sua vida, pois minha vida não está sendo curta, mas nunca levei isso muito a sério não, como sempre fiz em toda essa minha jornada. Viver sem compromisso, comprometendo-me até onde der, até onde a luz da vida me iluminar e apagar minha sombra.

Quem disse que a vida é curta? Gente eu já vivi 69 longevos anos (…)

 

terça-feira, 22 de março de 2022

Equinócio não apareceu

Pedro Lucas Lindoso


20 de março de 2022. Os jornais televisivos com base no Sudeste do Brasil anunciam o fim do verão. O caboclo amazonense, acostumado a notícias estranhas do Sudeste exclama:

– Fim do verão? Ainda chove muito. Estamos no nosso inverno! Deve ser “fakenews”. Mas até na televisão?

As estações do ano na região equatorial, como aqui na Amazônia, não são definidas como acontece nas regiões temperadas. Não se pode confundir as estações do ano com clima. Coisas diferentes.

Aqui na nossa região o importante é o ciclo das águas. No primeiro semestre do ano chove mais. E os rios transbordam. No segundo semestre há menos chuva e muito calor. É a vazante. É quando temos o nosso verão!

Mas todo ano é a mesma coisa. Logo após o dia de São José, que cai sempre 19 de março, anuncia-se o fim do verão e o tal Equinócio de outono.

Tanto a palavra Equinócio quanto a palavra Solstício são abstrações totalmente sem sentido para o caboclo amazonense. Primavera, verão, outono e inverno. As estações do ano são ensinadas desde cedo e sempre às nossas crianças. Em livros didáticos vindo do sul. E o regime das águas? Será que as professoras se lembram de ensiná-lo?

Um jovem manauara, bem inteligente por sinal, me disse que perdeu pontos no ENEM porque não sabia a diferença entre Solstício e Equinócio. Disse-me que não esquece mais: Solstício e Equinócio marcam o início das estações do ano e estão relacionados à incidência dos raios solares e à inclinação da Terra.

Também para os nordestinos, esse negócio de Equinócio é um mistério. Ocorre sempre depois do dia de São José. Seu Chico Estriba, prefeito de Independência, no Ceará, ligou para o governador pedindo ajuda. Seca braba assolando o seu município.

O governador disse-lhe para aguardar o Equinócio. O problema será resolvido.

No final de março Chico Estriba liga novamente para a capital:

– Governador, tenha pena do povo de Independência. Nos ajude. O tal de seu Equinócio não apareceu por aqui. Nada de chuva. Aguardamos a vinda dele aqui em Independência o mais rápido possível.

 

domingo, 20 de março de 2022

Manaus, amor e memória DLIX

 

Av. Eduardo Ribeiro, em 1896,
com a cúpula do Teatro Amazonas, ao fundo, à direita.

sexta-feira, 18 de março de 2022

O Mal de Alzheimer como metáfora da devastação


Zemaria Pinto

 

How does it feel

To be on your own

With no direction home

Like a complete unknown

Like a rolling stone?[1]

(Bob Dylan)

 

As pedras doentes da rua do Fio[2] é o primeiro romance de João Pinto, reconhecido contista piauiense, radicado em Manaus há mais de 40 anos, autor de Luzes esvaídas (1991), O ditador da terra do sol (2002) e Contos de uma aula no vermelho (2011). O romance tem por tema central o Mal de Alzheimer, assunto que tem atraído muitos autores, desafiados pelas dificuldades impostas pela doença.

Ficção sobre doenças, aliás, não é nenhuma novidade. O título deste artigo toma emprestada uma ideia de Susan Sontag, que escreveu o ensaio A doença como metáfora[3] (Illness as metaphor, 1978), onde examina a literatura que tematiza a tuberculose e o câncer. O Mal de Alzheimer – também chamado doença de Alzheimer ou, simplesmente, Alzheimer – tem sido bastante explorado pela literatura.

No plano internacional, o termômetro é o cinema: quatro filmes de muita repercussão nos últimos 20 anos foram originados da literatura de ficção, tendo o Alzheimer por protagonista – Iris (2001), Diário de uma paixão (2004), Para sempre Alice (2014) e Meu pai (2020). Os dois últimos proporcionaram a seus intérpretes, Juliane Moore e Antony Hopkins, inúmeros prêmios de melhor atriz/ator, inclusive o Oscar. Mas, entre outros, não posso deixar de mencionar Amor (2012), um roteiro original. E quem disse que roteiros de cinema não são literatura?  

        Antes, uma palavra incômoda. Seria muito conveniente me omitir sobre o assunto, mas não seria honesto. A edição da Caravana Grupo Editorial é muito ruim. Desde a revisão até a organização dos capítulos. A apontada falta de nexo entre a primeira e a segunda parte, não é um problema autoral, mas editorial. A revisão é péssima, com erros crassos que nem o professor narrador e nem o professor autor cometeriam em sã consciência. Edição amadora. Publicar não é só imprimir.

 

Um narrador problemático

O romance, narrado em primeira pessoa, manifesta o terror pela doença porque o narrador, por herança genética, considera-se predestinado a ela: sua mãe e duas tias são as “pedras doentes” do título. Mas o que ele – identificado como João Pintoroco, João Vinvim e João Ester – não sabe é que sua narrativa já está sob o efeito da doença, sendo conduzido por ela. Isso o torna um narrador indigno da confiança do leitor, problemático, sob todos os aspectos, deixando-se levar por um fluxo de consciência que mistura memórias muito antigas e lembranças recentes, num diálogo com a personagem identificada apenas como Menina, sobre a qual não temos nenhuma certeza de sua existência real ou se é invenção do narrador, um artifício para fazer fluir a narrativa.

Os limites entre memória e invenção desaparecem, mas, aos poucos, vamos entendendo quem é aquele João narrador.

Professor em Manaus e Manicoré, cidades que, muitas vezes, generaliza como Amazônia, ele vai costurando retalhos de sua vida para Menina, prostituta que conhecera em Luzilândia, no Piauí, região do rio Parnaíba, sua terra natal, onde agora os dois se encontram, ele já aposentado e ocupado em explodir as saúvas que infestam seu quintal, num claro paralelo com suas alunas amazônicas. A doença, aliás, desperta a libido de Vinvim, bem como sua insaciável sede alcoólica. E as lembranças, na memória devastada, acumulam-se em um mosaico que vai de um terno lirismo à sórdidas cenas de zoofilia.

Vozes que ele ouve – de pessoas mortas – e mortos que se materializam, não tornam o romance filiado à literatura fantástica. Os mortos de João Pinto não têm nenhuma relação com os mortos de Rulfo ou de Veríssimo, mortos que, pela via do fantástico, materializam um paradoxal realismo. Os mortos da rua do Fio só existem na mente devastada de João Vinvim.    

 

Uma narrativa problemática

As pedras doentes da rua do Fio tem duas partes e dois narradores claramente definidos, embora sejam um só. A primeira parte, a referida conversa com Menina, é estruturada como um puzzle das memórias, verdadeiras ou fantasiadas, do narrador. A narrativa se fecha quando Magda, amante de Vinvim, o deixa para fazer a vida em Teresina. Solitário, Vinvim recolhe-se ao seu porão fantástico, onde ele assassinara Menina, mas, graças à intervenção da padroeira Luzia, ela volta à vida, costurada, como uma boneca de pano.

Se tivesse terminado neste ponto, teríamos uma boa ideia do efeito da doença sobre a mente de um professor e, mais que isso, de um escritor – pois estamos lendo sua narrativa, como fica claro na segunda parte. Mas esta é uma narrativa problemática – e aqui uso a palavra no stricto sensu – pois, entre outros problemas, a passagem abrupta da primeira para a segunda parte desnorteia o leitor.

Hitchcock divertia-se com os enigmas que criava a partir de algo absolutamente sem importância, que ele chamava de MacGuffin, termo anterior, popularizado pelo diretor inglês. MacGuffin, especialmente nos filmes de suspense, é algo que se procura, mas que não tem importância nenhuma para a trama – aliás, muitas vezes nem é encontrado. Um MacGuffin clássico, fora do universo hitchcockiano, é o Rosebud de Cidadão Kane. O MacGuffin de João Pinto é um baú fantástico, que muda de tamanho de acordo com as necessidades da narrativa.

Ambientada em Manaus, Manicoré e finalizando em Luzilândia, esta segunda parte começa no tempo em que Vinvim, que assinava “poesias” com o nome de João Ester, ainda era professor na “Amazônia”. Às vésperas de voltar para o Piauí, ele tem o seu baú fantástico roubado, iniciando uma perseguição inusitada a si próprio – ou a seu duplo – e relembrando situações do passado.

Trata-se de uma estratégia para, pela via da devastação provocada pela doença na mente do narrador, unir o passado e o presente, pois ele é menos que uma sombra, sem nenhuma densidade física, rarefeito, invisível, transparente – mas, absolutamente onisciente. O que é um paradoxo, pois um narrador protagonista não pode ser onisciente – ou estamos falando de um demiurgo?

 Mariana, sua aluna de Manicoré, faz o contraponto feminino nesta parte e, mesmo depois de abandoná-lo e ir para Porto Velho, quando ele toma o caminho para Luzilândia, ela se materializa para ele, como um arrimo permanente.

Uma questão básica sobre a doença, que não é levada em conta, é que o Mal de Alzheimer é, sobretudo, um processo de perda. Assim, a segunda parte, que é um acúmulo de lembranças, fica desconectada da narrativa descarnada da primeira parte. E ainda integrando o processo de perda, a memória e a linguagem são as primeiras características do doente a serem afetadas, mas o narrador não acusa o golpe, pelo contrário: ainda que misture memória e fantasia, sua linguagem mantém a tensão poética, literária.

 

A metáfora da devastação

Em síntese, temos um narrador muito interessante, na primeira parte; um narrador confuso, na segunda parte – e uma narrativa que é um reflexo desses narradores: ora brilhante ora confusa ora apenas funcional. Pergunto-me se não é essa perplexidade que o narrador quer causar no leitor, provocando-o, como a dizer, do alto de sua inverossímil onisciência, decifra-me ou te devoro.

O mais importante é que João Pinto construiu um João narrador que nos faz pensar em nossa frágil temporalidade. Muito além da literatura, temos, em As pedras doentes da rua do Fio, um documento palpável da finitude e da provisoriedade da vida – devastável, a qualquer instante –, o que me faz pensar que, num contraponto às pedras doentes, pedras que rolam não criam limo. Está aí o poeta Bob Dylan que não me deixa mentir. 



[1] Fragmento de “Like a rolling stone”, de Bob Dylan, do álbum Highway 61 Revisited (1965). Em tradução livre: Como você se sente / Estando por sua conta / Sem direção para casa / Como uma completa desconhecida / Como uma pedra rolando?

[2] PINTO, João. As pedras doentes da rua do Fio. Belo Horizonte: Caravana, 2019.

[3] SONTAG, Susan. A doença como metáfora. Tradução: Márcio Ramalho. Rio de Janeiro: Graal, 1984.


quinta-feira, 17 de março de 2022

A poesia é necessária?

 

A rosa de Hiroxima

Vinicius de Moraes (1913-1980)

 

Pensem nas crianças

Mudas telepáticas

Pensem nas meninas

Cegas inexatas

Pensem nas mulheres

Rotas alteradas

Pensem nas feridas

Como rosas cálidas

Mas oh não se esqueçam

Da rosa da rosa

Da rosa de Hiroxima

A rosa hereditária

A rosa radioativa

Estúpida e inválida

A rosa com cirrose

A antirrosa atômica

Sem cor sem perfume

Sem rosa sem nada.

 


terça-feira, 15 de março de 2022

O sagrado poder das mulheres

Pedro Lucas Lindoso

 

Mês de março. Em especial no dia oito é o dia em que se presta mais homenagens às mulheres. Sim, porque elas devem ser amadas, lembradas e respeitadas nos 365 dias do ano. Neste março especialmente cor-de-rosa quero saudar as mulheres trabalhadoras, no campo e nas cidades, as executivas, profissionais liberais, servidoras públicas e do setor privado. Sem esquecer as mulheres cientistas e da área da saúde. Tão importantes em épocas de pandemia.  Como marido, pai, irmão e avô, quero expressar um especial afeto às mulheres de minha vida.

E como filho, infelizmente já órfão, quero prestar também homenagem à minha mãe. Não existe experiência mais sagrada em nossa existência do que o aconchego, o colo de uma mãe. Com nossas mães, mulheres excepcionais de fundamental importância em nossas vidas, aprendemos o sentido da vida. Elas, as mulheres, mães biológicas ou não. São elas que alimentam, vestem, dão banho, acariciam e nos cobrem com carinho. Muitas com ajuda dos companheiros pais, é claro. Mas sempre na linha de frente. Elas são especialistas em nos dar carinho e especial atenção.

E como pai quero também homenagear minha filha Marina, que está na doce espera de uma garotinha que se chamará Catarina. Aprendemos que Deus é fonte de vida. As mulheres são a extensão mais visível desta fonte divinal. A mulher é sempre a melhor cuidadora. Aquela que cuida da vida. E o cuidado é tudo. As mulheres, em especial as mães, são cuidadoras por essência. E a essência do humano está no cuidado pela vida.

Em Inglês, existe a expressão “I care”. Eu cuido, eu me importo. O contrário disso é “I don’t care”. É uma expressão muito forte, de desprezo. Significa não somente “eu não me importo”. É mais forte. Significa algo como “não estou nem aí”. Mas as mulheres se importam. Elas estão sempre lá. Presentes, atuantes, dedicadas, amorosas.

As mulheres, principalmente as mães, são fontes primárias de carinho e de afeto. E o mais importante, como já disse, as mulheres recriam a vida. Esse poder de recriar a vida dado às mulheres por Deus, as fazem copartícipes da criação divina. É por isso que as mães são sagradas. Simplesmente porque recriam a vida com Deus. E por isso cuidam tão bem de todos.

O cuidar, o se importar é fundamental para que a vida se manifeste em sua plenitude. Se não existir o cuidado, a vida não pode subsistir. Frei Vitório Mazzuco nos diz que: “O sagrado feminino faz parte essencial deste carinho e cuidado necessários”. Obrigado mulheres por existirem. E por esse sagrado poder de nos criar e nos dar carinho.

 

domingo, 13 de março de 2022

Manaus, amor e memória DLVIII

 

Orla dos Remédios, com a igreja ao fundo, à direita.
À esquerda, a Catedral.

sábado, 12 de março de 2022

Prêmios Literários Cidade de Manaus 2022



Prêmios Literários Cidade de Manaus 2022 

(clique no texto acima, para obter o edital e informações sobre os 

Prêmios Literários Cidade de Manaus 2022)


 


quinta-feira, 10 de março de 2022

A poesia é necessária?

 

Uivo (fragmento)

Allen Ginsberg (1926-1977)

 

Para Carl Solomon

I

Eu vi os expoentes da minha geração destruídos pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus,

arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada em busca de uma dose violenta de qualquer coisa,

“hipsters” com cabeça de anjo ansiando pelo antigo contato celestial com o dínamo estrelado na maquinaria da noite, que pobres, esfarrapados e olheiras fundas, viajaram fumando sentados na sobrenatural escuridão dos miseráveis apartamentos sem água quente, flutuando sobre os tetos das cidades contemplando jazz,

que desnudaram seus cérebros ao céu sob o Elevado e viram anjos maometanos cambaleando iluminados nos telhados das casas de cômodos,

que passaram por universidades com olhos frios e radiantes alucinando Arkansas e tragédias à luz de William Blake entre os estudiosos da guerra,

que foram expulsos das universidades por serem loucos & publicarem odes obscenas nas janelas do crânio,

que se refugiaram em quartos de paredes de pintura descascada em roupa de baixo queimando seu dinheiro em cestos de papel, escutando o Terror através da parede,

que foram detidos em suas barbas púbicas voltando por Laredo com um cinturão de marijuana para Nova York,

que comeram fogo em hotéis mal pintados ou beberam terebintina em Paradise Alley, morreram ou flagelaram seus torsos noite após noite

com sonhos, com drogas, com pesadelos na vigília, álcool e caralhos e intermináveis orgias,

incomparáveis ruas cegas sem saída de nuvem trêmula e clarão na mente pulando nos postes dos polos de Canadá & Paterson, iluminando completamente o mundo imóvel do Tempo intermediário,

solidez de Peiote dos corredores, aurora de fundo de quintal com verdes árvores de cemitério, porre de vinho nos telhados, fachadas de lojas de subúrbio na luz cintilante de neon do tráfego na corrida de cabeça feita do prazer, vibrações de sol e lua e árvore no ronco de crepúsculo de inverno de Brooklyn, declamações entre latas de lixo e a suave soberana luz da mente,

 

(Trad.: Cláudio Willer)

 

terça-feira, 8 de março de 2022

Carnaval do ano que vem

 Pedro Lucas Lindoso

 

Parodiando a famosa canção: este ano foi igual àquele que passou, eu não brinquei, você também não brincou. Aquela fantasia que eu comprei ficou guardada e a sua também, ficou pendurada. Mas ano que vem tá combinado. Vamos brincar aglomerados!

Há pessoas que têm restrições ao carnaval. Umas até por razões religiosas. Eu respeito, claro. Mas o inesquecível dom Helder Câmara opinou a respeito: “Carnaval é alegria popular. Direi mesmo, uma das raras alegrias que ainda sobram para a minha gente querida.”

Recebi um WhatsApp de tia Idalina. Estava inconsolável com o cancelamento do desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro. E dizia:

– Nos meus setenta anos de vida, nunca vi cancelarem o carnaval. Uma tristeza!

Idalina insiste em dizer que só tem setenta anos. Uma pessoa que dirigia uma Romi-Isetta pelas ruas de Copacabana nos anos de 1960, não tem só essa idade. Mas o assunto é carnaval.

Todo ano Idalina convida os sobrinhos para assistir ao desfile em seu apartamento. Quando recebe pirarucu seco e farinha de Manaus prepara um delicioso pirarucu de casaca. E vatapá feito com pão. É muito concorrido. Mais animado até do que ir ao sambódromo. Principalmente depois que titia comprou uma mega TV. Parece cinema. 

Ela ainda oferece um papel impresso com o nome das escolas e os respectivos itens. E uma prancheta com caneta. Para quem quiser brincar de ser júri e dar notas durante o desfile. O vencedor é homenageado no sábado seguinte, no desfile das campeãs, com um delicioso tacacá.

Durante anos tia Idalina torceu pela Portela. Depois andou apoiando a Mangueira. Mas há anos que se encantou com a Beija-Flor e diz que jamais vai virar casaca. É Beija-Flor e pronto!

Não é à toa que titia ficou triste com o cancelamento dos desfiles. E os sobrinhos também, claro. Na sua opinião o carnaval é muito importante para o povo. O carnaval põe um pouco de sonho e alegria na realidade dura dessa vida. Portanto, ela já decidiu:

– Ano que vem está combinado. Vamos assistir ao desfile aqui, aglomerados!

PS. O Romi-Isetta foi um microcarro produzido no Brasil, entre 1956 e 1961, pelas Indústrias Romi S.A.