Amigos do Fingidor

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

A grande tragédia do teatro é depender do público


 
A grande tragédia do teatro é depender do público. O dramaturgo, no entanto, só realiza sua obra na medida em que se liberta do público.

O autor teatral só deve e só pode respeitar o teatro vazio.

(Nelson Rodrigues – 1912-1980)

In: Nelson Rodrigues por ele mesmo. Org. Sonia Rodrigues, Nova Fronteira, 2012.
Nelson Rodrigues, por J. Bosco.

Curso de Arte Poética


Jorge Tufic
 
III PARTE

O MOSAICO E A ESFINGE


III.1 - O MOSAICO E A ESFINGE

                   No “mosaico cultural” dos tempos modernos, com a liberdade de expressão motivando o aparecimento de novos conceitos para avaliar o passado, suas fórmulas e modelos ultrapassados, a literatura e as artes começaram a mover-se dentro de uma atmosfera mais livre e mais renovadora. Os movimentos de vanguarda (vanguarda natural), ingressavam no Brasil (transformando-se, às vezes, em vanguarda provocada), trazendo consigo palavras-chaves do tipo “convencional” e “progressista”. Surgem então os primeiro inovadores, tocados pelos substantivos do automatismo criador dos poetas surrealistas. Reconheciam eles, aos poucos, que já havia passado a época das carruagens e do chapéu de palinha. 

                   Os primeiros anos do século XX, em nosso país, indicam, assim, a presença de um volume considerável de boas informações do Velho Mundo, trazidas – como não poderia deixar de ser – por brasileiros que estudavam na Europa. O ponto alto de tais informações, oriundas sobretudo do universo artístico, foi sintetizado por Graça Aranha, em sua histórica conferência no teatro Municipal de São Paulo, sob o título de “A Emoção Estética na Arte Moderna”. Dizia o autor de Canaã: “Cada um é livre para criar e manifestar o seu sonho, a sua fantasia íntima desencadeada de toda regra, de toda  a sanção. O cânon e a lei são substituídos pela liberdade absoluta que nos revela, por entre mil extravagâncias, maravilhas que só a liberdade sabe gerar. Ninguém pode dizer onde o erro ou a loucura na Arte, que é a expressão do estranho mundo subjetivo do homem. 

                   Com estas palavras decisivas foi, portanto, inaugurada a Semana de Arte Moderna de 1922, em São Paulo, e as correntes e movimentos artísticos e literários posteriores, voltados para a terra e para o homem do planeta de Makunaíma, consertaram os rumos do barco ou da “canoa transformadora” (como os Dessana classificam sua viagem do nada para o mundo de seus antepassados), em direção dos temas e valores nacionais. 

                   Após o ano de 1922, três foram os movimentos de poesia de vanguarda no Brasil: a poesia concreta, o poema/processo e o praxismo. A poesia concreta “era feita com palavras isoladas no espaço branco da página, criando, entre suas relações, um ideograma significante” (“Vocabulário Técnico de Literatura”, Assis Brasil, id). Abolia-se o verso pelos “signos plásticos”. Uma fusão das artes perseguindo soluções contemporâneas da ciência e da tecnologia. No poema/processo, a poesia é um ato simultâneo à criação do poema. O poema deixa de ser mero suporte da poesia. Aqui, sendo projeto, o poema/processo vai além do “concretismo” porque dispensa a contribuição da palavra. Dissocia ele a Poesia (estrutura) do Poema (processo). Separa o que é língua de linguagem dentro da literatura. A Era da Informática se coloca (ou antecipa) a leitura descontínua da vida moderna, face ao computador. No praxismo, um movimento que se realiza mais em torno de seu criador (Mário Chamie), numa espécie de jogo entre o verso e a palavra, dá-se ênfase especial às soluções fônicas, “segundo três condições de ação: a) o ato de compor; b) a área de levantamento da composição; e c) ato de consumir” (idem). Clodomir Monteiro, ao nosso ver, com mais de cinco livros de poemas publicados, segue de perto e recria os passos do mestre. Seu último livro, intitulado AcreDito, condiciona uma textura de fundo épico sobre o drama do seringueiro acreano.

domingo, 30 de dezembro de 2012

Maranhão Sobrinho e seu nascimento



Kissyan Castro
           

Poeta a ladear-se a Cruz e Sousa e Alphonsus de Guimarães, expoentes máximos do Simbolismo no Brasil, e em muitos aspectos a eles transcendendo, José Américo Olímpio Augusto Cavalcanti dos Albuquerques Maranhão Sobrinho, ou simplesmente Maranhão Sobrinho, é um daqueles poetas a quem até hoje não lhe fizeram a devida justiça, quer por indigência exegética, quer por incompreensão ou mesmo descaso. Salvo, talvez, o seu mais conhecido soneto “Soror Thereza”, que vez ou outra é estampado em alguma antologia, continua a passar despercebido do grande público leitor. De seus três livros publicados, somente o primeiro – e isso após terem passados 90 longos anos – teve a graça de uma reedição. E como se não bastasse, sua malograda existência continua envolta em muitas incertezas e contradições. Uma das quais, a propósito, recai até mesmo sobre a data do seu nascimento, alvo das hipóteses mais díspares.
A versão comumente aceita, e inclusive talvez pelo próprio bardo, como o observa Olímpio Fialho, amigo de infância do poeta, é a de que ele teria nascido em 25 de dezembro de 1879. Uma segunda versão é apresentada pelo acadêmico Antonio de Oliveira e que a fixa como tendo ocorrido antes, no dia 20 do mesmo mês (“Separata nº 82 da Revista das Academias de Letras” – Rio de Janeiro, 1976). Embora este assunto não seja, a rigor, de interesse primário, a maneira incontestável com que a questão é apresentada por alguns, seja em artigos, livros ou antologias, e a coincidência, “feliz e raríssima”, com o dia do seu falecimento, suscitaram-me dúvidas e obrigaram-me, como conterrâneo que sou do autor de Papéis Velhos, a que se lhe fizesse a devida retificação. Sendo assim, recorri logo, já que me foi permitido o acesso, às fontes primárias, a partir das quais chegaria a um consenso, pondo um fim ao equívoco.
Maranhão Sobrinho
(Barra do Corda, 30/12/1879 – Manaus, 25/12/1915)
Hoje se completa o 133° ano de seu nascimento.
De minhas incursões ao cartório local acabei por encontrar, às folhas 062 do livro nº 01-A, o Registro de Nascimento do nosso aedo barra-cordense, datado de 03 de fevereiro de 1880, tendo entre outros nomes o de Vicente de Albuquerque Maranhão Filho, pai do referido poeta, arrolado como testemunha. A data encontrada corresponde à versão oficial, com exceção do dia. Maranhão Sobrinho nascera não no dia 20, nem 25, como supunham seus biógrafos, mas no dia 30 de dezembro de 1879. Portanto, quando de seu falecimento, a 25 de dezembro de 1915, o poeta estava, na verdade, às vésperas de completar 36 anos.
Este achado, no entanto, não é recente. Tampouco coube a mim o seu mérito. A nova data já se encontrava registrada no monumental Barra do Corda na História do Maranhão (Sioge, 1ª ed., 1994), graças aos esforços do emérito professor e pesquisador Galeno Edgar Brandes. Pouco tempo depois, em 1997, a mesma data reaparece numa nota de Jomar Moraes ao livro “Baú de Juventude”, reunião de crônicas literárias de Josué Montello.
O que mais intriga, contudo, é que se Maranhão Sobrinho de fato teve conhecimento da verdadeira data de seu nascimento, preferindo antes assumir voluntariamente outra – neste caso, a do natalício do Cristo, segundo a tradição cristã –, não estaria esta atitude vinculada de alguma forma a uma pretensa aproximação com o Sagrado? Das suas concepções estéticas seria ele a encarnação, a própria metáfora em carne e osso? É pouco provável. Uma ideia que assume forma sensível, plástica, perde seu caráter espiritual, tornando-se perecível. O que vai diretamente contra os pressupostos simbolistas. Cinco dias que se interpunham entre ambas as datas, lhe acresceria as “Cinco Chagas do Pesar”, de que fala em seu soneto “Mártir”? Não à toa, Maranhão Sobrinho dizia-se um autêntico mártir da vida, por suas privações e até mesmo misérias, não obstante reconhecesse que de outra maneira jamais poderia alcançar o “gozo eterno”. É o que se evidencia, por exemplo, no poema “Caminho do Céu”, no qual o autor nos segreda, numa abnegação quase estoica, que
“O céu é dado aos mártires, agora,
vamos nós dois, o mundo abandonando”
E em “Salmo da minha Bíblia”, confessa:
“Roxo martírio que a mim mesmo imponho!”
E mais adiante:
“... leio o Missal do meu Padecimento
eterno, eterno, eterno, eterno, eterno...”
O infortúnio, longe de abatê-lo, fazia-o aspirar com maior empenho, numa ambição catártica, ao dia da sua “Libertação”, chegando mesmo a declarar: “Meu sonho límpido é morrer”. E não demoraria muito a que se cumprisse o augúrio que a si mesmo impusera. Às três da manhã do dia 25 de dezembro de 1915, morre, de cirrose hepática, em Manaus, o “poeta maldito de Atenas”, deixando atrás de si numerosa obra, dispersa em não poucos “papéis velhos”, muitos dos quais de embrulho, que quiséramos não fossem roídos por outra traça, senão do Símbolo.
É possível, afinal, que o nosso poeta não lograsse conhecer o dia exato de sua concepção, ou recusasse sabê-lo. Ou, na pior das hipóteses, se negasse mesmo havê-la ocorrido, fato que inevitavelmente o colocaria numa aproximação sacrílega com o “Rabino pálido” de quem tanto ambicionara a sorte, como se vê neste “Judeu Errante”:
“Sabeis de onde saí? Ninguém pode sabê-lo!”
E mais adiante, como se acabasse de cometer algum delito e buscasse na infância aquelas rumas de algodão sob as quais podia abrigar-se após alguma traquinagem, nos cumplicia:
“Ninguém pode saber a lenda dos meus passos!”
Maranhão Sobrinho há quase um século está “escondido”. Não entregue à sua lenda como o preferiríamos, mas exilado no mais absurdo dos limbos. Cumpre assim redescobri-lo, resgatando-o de “debaixo da pluma” do esquecimento, da alienação a que tem sido até hoje relegado.
Para saber mais sobre Maranhão Sobrinho, clique aqui.

Manaus, amor e memória LXXXIX

O velho Colégio Estadual - vê-se pelo figurino - num tempo bem antigo...

sábado, 29 de dezembro de 2012

Fantasy Art - Galeria

Into the light.
Jia Lu.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

A invenção do Expressionismo em Augusto dos Anjos

O novo livro de Zemaria Pinto é a sua dissertação de mestrado em Estudos Literários, defendida em abril/2012, na UFAM.
A orientação foi do professor Allison Leão, da UEA, autor dos livros de contos Jardins de silêncios e O amor está noir.
O livro traz uma antologia dos poemas expressionistas de Augusto dos Anjos.
A invenção do Expressionismo em Augusto dos Anjos tem apresentação do escritor e crítico literário Hildeberto Barbosa Filho, professor da UFPB, e orelha do professor Marcos Frederico Krüger, autor de Amazônia: mito e literatura, entre outros títulos. 

A invenção do Expressionismo em Augusto dos Anjos, com 310 páginas, encontra-se à venda na Livraria Valer, por R$ 35,00.

Algumas construções da doença no Novo Testamento


João Bosco Botelho

 

Sendo Deus perfeito na essência e criador de tudo e todos, também poderia curar doenças, como forma de representação de poder junto aos homens. Nada poderia ser demonstrativo de maior poder do que aumentar o tempo de vida dos homens, mortais em si mesmos, porque quanto mais vivessem, menos mortais se tornariam.

Se a doença era a determinante da morte e deixava clara a inevitabilidade do fim da vida, só poderia ser consequência da ação maléfica do anti-deus, no sentido de demônio e diabo, também como forma de demonstrar o poder contrário ao de Deus.

A polarização Deus e anti-deus consolidou a eterna e também mítica luta entre o bem e o mal, visto que, só e unicamente pela força bondosa de Deus, os humanos poderiam vencer o anti-deus e superar as doenças.

Algumas passagens bíblicas tornam claro o importante papel dos sacerdotes, na qualidade de representantes de Deus, autorizados a curar.

Esse simbolismo metafórico e religioso da saúde e da doença, como consciência da materialidade do corpo, se mostrou tão forte que alcançou as promessas escatológicas dos profetas. Algumas delas definem que, no fim dos tempos, não haverá enfermos nem sofrimentos e lágrimas.

A historicidade escatológica do NT impôs a separação definitiva da religião judaica da cristã. O judaísmo continua esperando o Messias, enquanto o cristianismo considera a ressurreição de Cristo como a prova de sua identidade como Filho de Deus e a vitória da vida sobre a morte e promessa da vida eterna.

O NT reproduziu alguns parâmetros do AT sobre a manifestação das enfermidades e da prática dos curadores. Nesses pontos, uma das diferenças marcantes entre o AT e o NT reside na fé de que Jesus Cristo, o filho de Deus tornado homem, curou e ressuscitou os mortos.

Nos muitos registros deixados pelos Apóstolos, Jesus Cristo encontrou e curou muitos doentes. Ele compreendeu as doenças de modo semelhante aos profetas do AT e o sofrimento ligado ao pecado.

As passagens do NT sobre as curas assumiram grande importância no apostolado de Jesus Cristo porque foram descritas com igual destaque pelos Apóstolos e incontáveis pessoas, ao longo dos séculos, nas representações na arte e literatura, desde os primeiros tempos do cristianismo primitivo.

No NT, as doenças também são justificadas pela equação pecado-castigo, onde a ação do anti-deus sobre a integridade dos homens é a grande determinante, enquanto a expulsão do corpo representa a cura e o perdão dos pecados. A saúde e a doença continuaram resultantes da luta entre o bem e o mal, simbolizando, respectivamente Deus e o anti-deus.

A representação metafórica da doença no NT assume a forma de uma consciência corpórea no pecador, cujo peso das faltas cometidas contra a Lei macula a obra da Criação perfeita em si mesma. A cura dos cegos, leprosos, paralíticos e loucos acaba por legitimar o magistério de Jesus como Filho de Deus e confirmar a promessa dos profetas.

Muitas passagens do NT também procuraram desacreditar os adivinhos e fazedores de prodígio, que desafiavam o poder de Deus. Os milagres assumiram grande significado na legitimação do cristianismo, já que estavam contidos nas antigas promessas dos profetas. Assim, Jesus Cristo também foi compreendido como o maior de todos os taumaturgos.

Igualmente, é possível perceber diferenças fundamentais no trato que o AT e o NT deram aos cuidados coletivos com a saúde. Enquanto o primeiro é rico em recomendações higiênico-dietéticas, relacionadas com as necessidades da época, o segundo ficou quase estritamente ligado ao enfoque salvífico ou condenatório pessoal.

O poder de Jesus para curar os doentes foi transmitido aos apóstolos como condição fundamental para evangelização, em Mt 10, 1: Chamou os doze discípulos e deu-lhes autoridade de expulsar os espíritos imundos e de curar toda a sorte de males e enfermidades, e em Mc 16, 17-18: Estes são os sinais que acompanharão os que tiverem crido: em meu nome expulsarão demônios, falarão em novas línguas, pegarão em serpentes, e se beberem algum veneno mortífero, nada sofrerão;imporão as mãos sobre os enfermos, e estes ficarão curados.

Estas duas passagens do NT representam dois dos mais importantes símbolos cristãos que contribuíram na consolidação da catequese salvífica,  especialmente, na colonização das Américas.  

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

O gramofone encantado


Pedro Lindoso
 
 
Lucília era uma senhora solteira. No nordeste seria considerada uma típica vitalina. Procuradora aposentada, vivia num confortável apartamento, cheio de recordações de viagens, retratos dos pais, já falecidos, irmãos que moram distante, sobrinhos espalhados pelo mundo.

Numa de suas últimas viagens, por países andinos, comprou um gramofone, numa feira de antiguidades. Junto com o antiquíssimo aparelho vinha um conjunto de discos antigos, compatíveis com o tal. Uma pitoresca coleção de valsas, todas exclusivamente de Johann Strauss. Nascido em Viena, na Áustria, Strauss é um dos ícones do Romantismo. Compôs centenas de valsas, além de operetas, polcas e marchas. Ao chegar ao hotel, Lucília ouve em pleno hall, em alto e bom som, Sonhos de Juventude, valsa composta em 1846. Achou uma mera coincidência. Foi descansar. No meio da noite, acordou espantada, ao som da valsa Só se vive uma vez!

No dia seguinte, deveria tomar o avião de volta para casa. Espantou-se novamente. A valsa Choros de Despedida era tocada no aeroporto assim que terminou de fazer seu check in. Sentiu palpitações e naquele momento a valsa Accelerationen ecoava por todo o terminal, causando uma estranha sensação de euforia em Lucília.

Ao chegar em casa, desfez as malas, desembrulhou o gramofone, posicionando-o numa singela mesinha ao lado de uma querida chaise longue, que compunha sua vasta sala de estar. Embaixo da mesinha, colocou a coleção de discos de Strauss.

Foi dormir. Uma sucessão de valsas, agora vindas de sua sala, invadiam seu quarto, deixando-a perplexa e intrigada. Das Montanhas, de 1864; Mil e Uma Noites de 1871; e para terminar a noite, a valsa Em Casa, composta em 1873.

Pela manhã, encontrou um disco no gramofone. Era o disco daquelas valsas que havia escutado de seu quarto. Aquilo estava ficando sério e Lucília, católica fervorosa, sentia-se incapaz de lidar com aquela situação inusitada.

À noite seguinte, o misterioso tocar de valsas continuou. Vinho, Mulheres e Música, de 1869,  fez Lucília se lembrar de um antigo e impossível amor. Era o mês de dezembro, o Natal se aproxima e faz com que Lucília fique cada vez mais nostálgica. Contos dos Bosques de Viena, seguida de Vozes da Primavera, fez com que Lucília tivesse coragem de levantar-se e ir até a sala.

Pasmem. Um casal rodopiava pela sala de Lucília ao som de Sangue Vienense, composta por Strauss em 1873. Fez um esforço para ver se conhecia o casal. Inútil. Não eram estranhos a ela, mas não conseguia identificá-los. O casal ignorava Lucília, e em seguida dançaram Cuida de quem confias! e Adeus a S. Petersburgo. De súbito, o casal sumiu e o gramofone parou de tocar.

Naquele momento, Lucília decidiu que não ficaria com o gramofone em casa. Também não gostaria de entregá-lo a alguém conhecido que pudesse ser admoestado pelo tal gramofone encantado. Era época de Natal. Ninguém mereceria receber um presente tão perturbador.

O que fazer? Lembrou-se de Maria Tereza, sua amiga de infância que administra um asilo de velhinhos. Foi sincera com a amiga. Contou-lhe os mistérios que estavam por trás do gramofone. Que fizesse uma rifa. Destinando o dinheiro ao asilo, o que era uma boa causa, em especial nesta época natalina. Serviria para fazer uma ceia completa para os idosos ali esquecidos. Talvez uma ação de boa vontade pudesse exorcizar os mistérios do gramofone. E assim foi feito.

Maria Tereza ficou feliz com o presente, mas não acatou a sugestão da sua querida amiga Lucília. Colocou o gramofone no salão de festas do asilo. Daquele ano em diante, nas noites de réveillon, velhinhos deste mundo e de outros dançam valsas vienenses, sempre depois da meia-noite, saudando o ano que se inicia. A primeira valsa é sempre An der schönen blauen Donau, a famosíssima Danúbio Azul.

Alguns dançarinos preferem a Valsa do Imperador, outros se entusiasmam com a Valsa do Tesouro e outros com Vozes da Primavera. O réveillon acaba, invariavelmente, todos os anos, ao som da valsa Grande Viena.

E o asilo nunca mais foi o mesmo.

Curso de Arte Poética


Jorge Tufic
 
POESIA INFORMATIZADA

 

                   Heitor Luiz Murat (RJ), inserido no volume “Momentos de Crítica Literária” (VII-Campina Grande-Paraíba) com trabalho sob o título “Arte Informática: novos rumos da inteligência artificial”, assim resume suas primeiras experiências: a poesia (3):

                   “Minhas primeiras experiências se realizaram na PUC/RJ com um sistema gerador de quadrados mágicos de palavras. Quadrados mágicos de palavras são conjuntos de letras que formam palavras tanto na horizontal quanto na vertical. Por exemplo: 

E L O
M A R
A R A 

                   O problema combinatório se torna interessante se introduz restrição de formação de palavras existentes na língua portuguesa. A crítica pode ser feita por alguns algoritmos simples que eliminam combinações impossíveis na língua portuguesa, em conjunto com consultas a um dicionário armazenado em memória.        

                   A medida que aumentávamos o tamanho do lado do quadrado os problemas aumentavam. Em particular quando o lado é de cinco letras surgem problemas bem complexos de tratamento de sufixos, prefixos e radicais. 

                   Quando o problema se tornou de uma complexidade insuperável, recolhemos todos os sistemas construídos e aplicamo-los à análise de poesias. 

                   Os quatro grandes sistemas empregados foram: 

-     os geradores de rimas

-     os analisadores métricos

-     os analisadores rítmicos

-     os analisadores de conceitos

                   O primeiro sistema nada mais era que um dicionário de rimas que foi rapidamente abandonado, tendo em vista que meus poemas normalmente não rimam. (...) O sistema está sempre a serviço do autor e o controle esteve sempre comigo. O computador é usado como um servo. Ressalto isto para dissipar os usuais temores de que a máquina poderia estar me dirigindo ou escravizando. 

                   Antecedentes da poesia informatizada na Semana de 22: Cassiano Ricardo e Menotti del Picchia.”

domingo, 23 de dezembro de 2012

Manaus, amor e memória LXXXVIII

Praça do Congresso, dividida em quatro, para dar passagem aos animais de rodas.
Ao fundo, o imponente IEA.

sábado, 22 de dezembro de 2012

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Os natais de Maranhão Sobrinho


Zemaria Pinto

 
Reza a lenda que Maranhão Sobrinho nasceu no dia 25 de dezembro de 1879, em Barra do Corda, no Maranhão, e morreu em Manaus no dia exato do seu aniversário de 36 anos – em 25 de dezembro de 1915. Esta segunda data, com a ajuda do pesquisador Roberto Mendonça, já a havíamos dada como certa, aqui no blog. Republiquemos a segunda via da certidão de óbito:


 
Agora, com a ajuda inestimável do poeta Kissyan Castro, conterrâneo de Maranhão Sobrinho, estabelecemos a verdade quanto à data do seu nascimento: o poeta de Papéis velhos... roídos pela traça do símbolo nasceu no dia 30 de dezembro de 1879, cinco dias após a data comumente registrada. Eis a cópia da certidão do poeta, recuperada em 1992, pelo pesquisador Galeno Edgar Brandes, publicada em seu livro Barra do Corda na história do Maranhão.
 
 

Kissyan mandou-me também uma cópia da página do livro original do Cartório em que Maranhão Sobrinho foi registrado, onde se lê tudo o que está no documento acima. Não a reproduzo porque está muito escura.

Místico, seria o próprio poeta o responsável por essa alteração na data de seu natalício?

Então fica assim: nas próximas edições sobre Maranhão Sobrinho, patrono da cadeira 7 da AAL, vamos respeitar a verdade histórica, conhecida, aliás, há vinte anos. Não vamos esquecê-la “em nome da tradição”, como fez a Academia Amazonense de Letras com sua data de fundação, ignorando minha pesquisa: leia a respeito clicando aqui.

 

Leia mais sobre Maranhão Sobrinho clicando aqui.

O mundo contra o tabagismo



João Bosco Botelho

 

A crença no poder mágico da fumaça, produzida pela açäo do fogo em alguns vegetais, foi  uma constante, desde tempos imemo­riais, no universo mítico de muitas sociedades. 

Especificamente sobre o fogo, é possível que a atençäo comum tenha sido despertada pelo amorfismo incontrolável. De maneira diversa dos elementos materiais com formas domáveis, o fogo amorfo, por si só, impedia qualquer  contato manual. O produto da combustäo, a fumaça, de igual modo mantinha a imprevisibilidade da forma; ao contrário do fogo, era passível de ser possuída por quem a aspirasse.

Os relatos dos cronistas no Brasil colônia, muitos acompanha­dos de icnogravuras, narraram o uso do tabaco nos ritos terapêuticos e divinatórios. Os pajés se comunicavam com os espíritos, para curar e adivinhar, através da força embriagadora da fumaça do tabaco queimado.

A passagem do tabagismo do espaço sagrado para o profa­no se deu, no Brasil, com a chegada do colonizador. O vício de fumar como instrumento de prazer foi assinalado por Cardim, no século 16: “Costumam esses gentios beber fumo de petigma (tabaco) por, outro nome erva santa... fica como canudo de cana cheio desta herva, e pondo‑lhe fogo na ponta metem o pau grosso na boca e assim chu­pando e bebendo aquele fumo, e o tem por grande mimo e regalio”.

Durante a ocupaçäo holandesa, do Nordeste brasileiro, na primeira metade do séuclo 17, pelas tropas de Joäo Maurício de Nassau, o médico Guilherme Piso, chefe dos serviços médicos das Indias Ocidentais, registrou: “A célebre erva Tabaco ou Petum, chamada pelos brasileiros Petume, em quase todas as Indias Ocidentais é, desde remotos tempos, estimada pelos próprios íncolas para sarar feridas. Logo que os europeus souberam disto, pesquisando‑lhe as virtudes recônditas, aplicaram as folhas frescas, bem como o sumo das mesmas, a usos humanos; depois secas, nos abusos e prazeres também. De sorte que agora, como o vento hibernal,  o fumo do tabaco vicia o orbe universal” . 

O consumo, em 1920, quase nulo no sexo feminino, alcançou a fantástica cifra, em 1970, de duas mil unidades por adulto.

A atenção das autoridades mundiais de saúde pública foi alertada, pela primeira vez, pelo Relatório de Hammond e Horn, em 1954, financiado pelo American Cancer Society, seguido pelo do Royal College of Phisicians, da Inglaterra, em 1962, descrevendo a gravidade do tabagismo.

Nos anos 1965, a comunidade científica percebeu a brutal mudança nas incidências dos cânceres, todos ligados ao tabagismo: boca, laringe, pulmäo e bexiga.

A patir dos anos 1970, muitos países iniciaram de forma coordenada o combate ao tabagismo. O mundo conseguiu, trinta anos depois, postar o fumante como alguém desprezível.

O Brasil é reconhecido mundialmente como um exemplo na luta contra o tabagismo.  

Independete das crenças políticas, ideológicas e religiosas, o mundo está unido contra o tabagismo.

 

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Luiz Bacellar, aqui e além


Tainá Vieira

 

Não me lembro agora exatamente o dia, mas sei que era manhã de maio e fazia muito calor. Foi logo no inicio de sua estadia na Fundação Dr. Tomas, quando eu ia lá praticamente todos os dias, me acompanhando sempre o jornal do dia e duas peras. O horário de visita era de apenas uma hora, e eu passava uma hora exata em sua companhia. Chegava, ele me cumprimentava beijando-me a mão e eu a sua, fazia uma festa, e, o que eu mais gostava, ele sorria um sorriso charmoso e sedutor, dizendo-me frases em francês. Outras vezes falava em japonês ou alemão. Gostava de mostrar que sabia muitas coisas. Nisso reconheço a vaidade do homem Bacellar.  Naquele dia, o encontrei lendo a biografia da escritora norte-americana Patricia Highsmith. De inicio a conversa girou em torno da vida da escritora, ele falou-me da obra e também da vida pessoal da mesma, e isso fez com que eu lembrasse a pintora Frida Kahlo. Comecei falar de algumas semelhanças que percebi entre as duas, e ele se mostrou muito interessando na minha conversa, me perguntou se eu conhecia a obra de Frida e se já havia lido algum romance de Patricia; depois me perguntou se gostava de romances policiais, o que estava lendo e outras coisas mais. Era pura gentileza, claro.
Sempre havia assunto, sua consciência estava sempre acordada, ele contava muitas histórias, falava de lugares que conhecia só de ler nos livros e falava com tanto conhecimento que me transportava para lá. Cada encontro era sempre uma aprendizagem. Às vezes falava uma palavra desconhecida e eu rapidamente perguntava o que o era e ele logo me explicava.  Conversávamos muito sobre tudo, mas eu sempre trazia a conversa para sua obra; um dia cheguei a dizer-lhe que seria uma especialista na obra bacellariana. Ele sorriu, enigmático.  Falei dos seus livros, de como adorava seus poemas, que o considerava o maior e o melhor poeta da literatura do Amazonas.  Naquele dia, até perguntei por que não escrevia enquanto estava ali se recuperando; ele disse-me que não dava, pois para escrever era preciso estar com a cabeça tranquila, mas quando saísse iria ajeitar alguns haicais inéditos e escrever mais cinco rondéis para Sol de feira. Aí entramos no paraíso, na minha paixão, Sol de feira.
Aqui abro um parêntese para lembrar que a obra de Bacellar, excetuando os haicais de Satori, foi toda escrita antes dos 45 anos. Mais: Frauta de barro e Quatro movimentos foram escritos até os 30 anos.
Como uma bacellariana de carteirinha, afirmo: mesmo que Luiz Bacellar tivesse escrito apenas um dos seus quatro livros, qualquer um dos quatro, ainda sim, ele teria o mesmo valor que tem hoje, ainda sim ele seria um dos maiores poetas da literatura brasileira. O que faz um poeta não é quantidade, é qualidade, é a carga de conhecimento que está na essência de sua obra. Um poema de Luiz Bacellar é um verdadeiro tesouro, pois quando se lê um poema seu, conhece-se lugares, línguas, filosofias, músicas, autores e, principalmente, conhece-se mais sobre a própria existência.
Frauta de barro, premiado em 1959, seu livro de estréia, é um livro de memórias: Há tanta angústia antiga em cada prédio!/ Em cada pedra nua e gasta. E agora/ Em necessário pranto que demora/ O amargo verso vem como remédio (...). A poesia é um bálsamo para as angústias do poeta.  Quatro movimentos ou Quatuor, que também estava entre os poemas premiados em 1959, eu diria que é um livro escrito com caneta de pena e tinta de ouro no papel de seda, divido em quatro partes denominadas  “Carta Sazonal”, “Carta Pastoral”, “Carta Lunar” e “Carta Náutica”; são pequenas jóias raras, esculpidas pelas mãos de um ourives, que coloca na sua obra delicadeza e emoção inigualáveis: O meu verso é um fragor: desmoronar-me/ sinto quando escrevo. E o ruído é tanto/ que vou com passo incerto no meu canto/ como se caminhasse à beira-mar/ num dia de ressaca sob um luar/ como o de agora (a Via Láctea é um manto/ salpicado de sal, de prata e pranto)/ em que as horas de esquecem de passar./ Meu verso é um natural correr de pena/ que rasga, que destrói, mutila e mata/ minhalma que é de espuma e de verbena:/ é um vestido deixado sobre a cama,/ vazio de um corpo amado. E me arrebata/ no vácuo intenso do meu próprio drama.  Alguém conhece um gênio que consiga escrever algo assim?! Eu o conheci, Luiz Bacellar!
Sobre Satori, não há em mim, palavras para falar desse livro, pois sua grandeza e  seu conteúdo vão tão alem de qualquer  análise ou crítica que ainda não me vejo preparada para tamanha responsabilidade; mas um dia quem sabe, decifrarei os mistérios, como este: quando o sol acende/ os cristais que a chuva/ pendurou na teia; ou este outro: dentro da papoula/ o pirilampo apaga a / lâmpada de fada.
E por último Sol de feira, de 1973, ah, esse é o que me leva a caminhos tão distantes. Através dele, fui também tripulante da viagem de Vasco da Gama em Os Lusíadas, e consegui fazer parte da viagem entrando pelo “rondel do limão”: chega o limão/ ácido e raro/ seivoso e claro/ como o verão /o poeta di-lo/ cúpido e ardente/ túmido e olente/ verde mamilo// na toalha branca/de mesa parca/ seu brando grumo/ empresta ao sal/ fino o cristal/ do fresco sumo. E o que dizer do “rondel da goiaba”: teu verde fruto/ entre a folhagem/ se denuncia/ pelo perfume,/ o doce sumo/ de tua polpa/ lembra a saliva/ de uma cabocla (...). Esses são alguns dos rondéis que há no Sol de feira, e foram dois dos quais trabalhei para o III Colóquio Poéticas do Imaginário, da UEA, de 2012.  Do clássico Camões  à cabocla de sua terra, como nenhum outro, Luiz Bacellar é o poeta do mundo, pela sua sabedoria, delicadeza e maestria.  Deixou para nós um legado vasto, cabe a nós aproveitá-lo para tentar compreender a mente de um poeta que fez de uma simples fruta, uma jóia para a poesia.  O que esperar, agora que ele partiu? Pela sensibilidade de sua obra, que seus versos ecoem por vales e montanhas e seu nome seja lembrado por muitas e muitas gerações.
Quando a visita acabava, eu voltava para casa feliz e triste. Triste por ele estar ali, e feliz, por ele ceder-me uma hora da sua nobre companhia.  Com um travo na garganta, socorro-me de Walt Whitman: Oh capitão! Meu capitão! Nossa jornada medonha terminou. Entretanto, sei que, como a Fênix, ele ressurge em outras plagas.

(Publicado originalmente na revista Amazonas Educação.)

Curso de Arte Poética


Jorge Tufic
 
II.8 - A NATUREZA DAS CLASSES DE PALAVRAS

 

 

                   Este espaço do nosso Livro poderia estar sendo preenchido com novas achegas sobre o indispensável “equipamento” do mestre que fosse obrigado, por profissão, a conhecer e analisar um poema, de acordo com as palavras e seus valores representativos. Indicamos para isso, no entanto, os livros “Comunicação & Literatura”, de Nelly Novaes Coelho, e “Comunicação em prosa moderna”, de Othon M. Garcia. Isto, é claro, só deve ser indicado, de preferência, a críticos e professores de Literatura. Aos produtores ou artistas, cabe apenas saber que, para qualquer tipo de construção e/ou desconstrução poética, haverá ou não um modelo diferente de análise, enquanto que deixa de existir, praticamente, um juízo de valor que recomende a qualidade de um poema para um determinado modelo de análise. Introduzido de vez pelo Estruturalismo, qualquer objeto de análise, poema ou estrutura poemática, vai do mais simples ao mais complexo ( como se demonstra na parte final deste volume).



VAMOS VER O INVERSO DO VERSO?
( ou a “ponte do verbal para o icônico?”)

                   A paronomásia rompe o discurso (hipotaxe), tornando-o espacial (parataxe), criando uma sintaxe não linear, uma sintaxe analógico-topológica. Num poema, a paronomásia horizontal (aliteração, coliteração) cria a melodia, enquanto que a paranomásia vertical é responsável pela harmonia. A rima constitui a paronomásia vertical mais comum. “Un coup de dés”, de Mallarmé, e os poemas concretos, trabalham com paronomásias audiovisuais horizontais e verticais. A repetição dos sons sempre é uma repetição que se dá no tempo. Esta repetição dos sons no tempo cria uma rede especial rítmica um diagrama, uma sintaxe topológica. Ritmo é ícone. O som com marcação de tempo é ritmo, assim como é ritmo a marcação espaço-temporal (na dança, no cinema ou numa cadeia de montagem) e a espacialização do espaço (na arquitetura ou na pintura). O ritmo é um ícone relacional. Resumindo, a similaridade sonora gera semelhanças e correspondências espaciais e aqui nós temos o fundamento principal da sintaxe icônica subjacente na poesia e em certos tipos de prosa, com as obras Tristram Shandy, Ulisses e Finnegans Wake. A paronomásia seria a ponte verbal para o icônico; por esta mesma razão, é considerada “poética”, “literária” e, principalmente, “não-científica”... Sim, muitos acreditam que a ciência é essencialmente verbal. Parecem não se dar conta do fato de que a ciência verbalizada nada mais é do que uma tradução da ciência icônica (Semiótica & Literatura, Décio Pignatari, Cortez & Moraes, 2ª ed., SP, 1979).

domingo, 16 de dezembro de 2012

Manaus, amor e memória LXXXVII

Balneário Parque 10 de Novembro, década de 1950: a pior parte do igarapé do Mindu.

sábado, 15 de dezembro de 2012

Cruz e Sousa não é mais patrono na Academia Amazonense de Letras


Zemaria Pinto
 

A ignorância perdoa-se; a estupidez, não.
(João Sebastião, poeta nefelibata, filósofo de boteco, profeta do caos)
 

O advogado e jornalista Júlio Antônio Lopes tomou posse, na noite de ontem, como o mais novo imortal na Academia Amazonense de Letras (AAL), na qual passa a ocupar a cadeira 23, que tem como patrono Cruz e Silva (...)
(Jornal A crítica, página A8, edição de 15/12/2012)

 

Eu já desconfiava que, em algum momento após aquele 25 de setembro de 2011 quando falecia o amigo Alencar e Silva, a cadeira 23 da AAL havia trocado de patrono.
 
Cruz e Sousa (1862-1898).
 
Na próxima oportunidade, considerando que a AAL será a única academia de letras – desde a Brasileira até a mais humilde das academias municipais – a não ter o extraordinário poeta negro entre seus patronos, reivindicarei o seu nome para a cadeira 27, que ocupo, substituindo Tavares Bastos, que o tempo tratou de obscurecer. 

Um poema de Cruz e Sousa aos beócios: 

Oh! trânsfugas do bem que sob o manto régio
manhosos, agachados – bem como um crocodilo,
viveis sensualmente à luz dum privilégio
na pose bestial dum cágado tranquilo.
 

Eu rio-me de vós e cravo-vos as setas
ardentes do olhar – formando uma vergasta
dos raios mil do sol, das iras dos poetas,
e vibro-vos à espinha – enquanto o grande basta,
 

O basta gigantesco, imenso, extraordinário –
da branca consciência – o rútilo sacrário
no tímpano do ouvido – audaz me não soar.
 

Eu quero em rude verso altivo adamastórico,
vermelho, colossal, d’estrépito, gongórico,
castrar-vos como um touro – ouvindo-vos urrar!

(“Escravocratas”, publicado no livro Obra Completa (1961). Poema integrante da série O Livro Derradeiro.)


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