Amigos do Fingidor

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Jardim de Haijin - novo livro de Alice Ruiz

Linguagens-culturas construindo e desconstruindo ritos de curas e práticas médicas – 4/11

João Bosco Botelho

Pecado e doença em Roma e no monoteísmo

1. Em Roma

Essa extraordinária reconstrução grega do pecado atingiu os ritos romanos que impuseram regras mais rígidas para evitar o erro cerimonial nos ritos, reforçando o rito puro e novas estruturas polares: piedade (pietas) e impiedade (impietas). O rito mal conduzido, gerando pecado, doença, malefício, infelicidade, seria consertado por meio de outra cerimônia (expiatio) para anular a impureza (pecado). Nessa esteira, seguiram-se os muitos cultos gnósticos defendendo desprezo pelo corpo, pela coisa. Como seguimento, os ritos corretivos dos pecados tornaram-se violentos, impondo jejuns prolongados e flagelações sangrentas, abrindo caminho para outras construções do pecado sob a égide judaico-cristão.

Simultaneamente, não há consenso em torno do pecado original. Um dos exemplos mais significativo da negativa do pecado original está fincado na fundação de Roma, quando Rômulo mata por banalidade o irmão Remo: enquanto Cícero admite o pecado, no De officius, III, 41 (peccatum), Horácio defende o pressuposto de crime, no Epodon líber, VII, 1 e 17-20 (scelus) e Virgílio, afasta a ideia de pecado.

2. No Antigo Testamento e judaísmo antigo

Uma das entrelinhas mais interessantes ligando a doença ao pecado é representada pela interseção da serpente. A ideia de pecado original no AT mostra-se essencialmente voltado à ordem espiritual (Gênesis 2, 8; 3; Job 14, 1-4; Salmos 50 e Ezequiel 18, 1-32), sem a marca da transmissão à descendência.

A concepção fundamental do pecado AT é representada pela associação com doenças, desgraças, infelicidades e provocando ações para corrigir e evitar novos pecados não mortais (Samuel, 20,1; I Reis, 2,19; II Reis, 1, 1) e pecados mortais (Deutoronômio, 14,16; 21, 22; 22,26; Ezequiel, 3, 20; Amos, 9,10). Nas duas circunstâncias, o perdão do pecador, gerando a cura da doença, a dissolução da infelicidade ou do nó, seria alcançado por meio da confissão individual (Gênesis, 39, 9; Josué, 7, 13-23) e/ou do sacrifício ritual (Levítico, 10,17), onde a vítima é o substituto do pecado, isto é, matando-a, o pecado morreria com ela.

Nos últimos séculos do judaísmo antigo, surgiram reconstruções em torno do pecado original, como fontes de doenças, infortúnios e morte prematura, voltadas à responsabilidade de Eva, em Eclesiastes, 25-24: “Foi pela mulher que o pecado começou e, por sua causa, todos nós morremos.”

3. No cristianismo antigo e medieval

Nos Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas existem quarenta e oito referências ao pecado. Em várias passagens, Jesus descreve a concepção judia do pecado, diferenciando os pagãos como pecadores por não cumprirem as Leis, sempre pondo na frente a infinita misericórdia de Deus como possibilidade do perdão puro — Nova Aliança —, curando doenças sem ritos, penitências ou sacrifícios. Essa remissão, plena de bondade como dádiva divina e infinita, se tornaria completa com o derramamento do sangue do próprio Cristo, muitíssimo diversa das muitas citações do Antigo Testamento, nas quais inexiste o perdão sem o sacrifício do pecador. No Evangelho de João o maior pecado do mundo é a hostilidade a Deus, o diabo, pré-existente ao homem. Jesus Cristo ao vencer o diabo, remove o pecado, a doença, o aleijão, a infelicidade.

A reconstrução mais significativa do cristianismo está ancorada no claro conceito de pecado original, no ano 397, por Santo Agostinho, entendendo que o homem vive em pecado desde a origem. Essa ideia agostiniana extremamente severa e pessimista foi proclamada no concílio provincial de Cartago, em 418, forçou a diferenciação do pecado original do pecado individual pelo papa Inocêncio III. Ambas foram adotadas pelos pensadores cristãos do medievo europeu, contribuindo para os excessos praticados pelas cortes de justiças eclesiásticas na interpretação dos pecados mortais: soberba, inveja, ira, preguiça, avareza, gula e luxúria, todos sinônimos de doenças, desgraças e mortes. A única solução estava centrada na confissão seguida da penitência.

Desse modo, na Idade Média europeia, os teólogos mantiveram e acrescentaram rigores no entendimento da doença — como obstáculo entre o homem e Deus — como sinal de pecado, em especial, às moléstias deformantes do corpo, como a lepra.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

AAL elege Almino Affonso

Natural de Humaitá/AM, Almino Affonso, 81 anos, foi eleito no final da tarde desta quarta-feira para a cadeira de nº 15 da Academia Amazonense de Letras, que tem por patrono Graça Aranha e foi ocupada até o ano passado pelo escritor e professor universitário Narciso Lobo.

Ministro do Trabalho e da Previdência Social do governo João Goulart, Almino Affonso reside em São Paulo desde 1976, quando retornou ao Brasil depois de mais de 10 anos de exílio. Desde então, entre outros cargos públicos, foi deputado federal (por SP), secretário de estado no governo Montoro e vice-governador de São Paulo no governo Quércia. Atualmente, o novo acadêmico é secretário de estado das Relações Institucionais do governador Alberto Goldman, herdeiro de José Serra no governo de SP. Em 1990, candidato pelo PDT, Almino Affonso perdeu as eleições para o governo de seu estado adotivo.

Curiosidade: Almino Affonso é pai do titã Sérgio Brito.

Ó Cride... fala pra mãe!

Fantasy Art – Galeria

John Zeleznik.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

O nascimento de Vênus nº 100

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Vênus Anadiômene.
Afresco de Pompeia. Século I a.C.

Começou no dia 27 de outubro de 2008, com a postagem do afresco acima, representando Vênus Anadiômene. Desde então, e sempre às segundas, tem sido postado nO Fingidor um quadro representando o nascimento da deusa, cujo maior ícone é, sem dúvida, o Botticelli, do século XV. A postagem de hoje, do húngaro Adolph Hiremy-Hirschl, é a centésima para o tema. Detalhe: não sei quando irão parar as postagens para O Nascimento de Vênus: garanto que tenho material ainda para muitas segundas-feiras.

O nascimento de Vênus.
Sandro Botticelli (1445-1510).
O quadro, de 1482, encontra-se na Galleria degli Uffizi, em Florença, na Itália.

domingo, 26 de setembro de 2010

Joaquim Nabuco - o abolicionista

Zemaria Pinto


Não fosse o livro dedicado a mim e ao caro Almir Diniz, já seria motivo de imensa alegria noticiar o seu vir-à-luz.

Armando de Menezes, do alto dos seus 84 anos, faz uma lúcida análise do papel de Joaquim Nabuco no processo que culminou com a abolição da escravatura no Brasil.

Parte de uma série de palestras promovidas pela Academia Amazonense de Letras entre maio e junho passados   sobre aquele que, entre outros méritos, foi um dos maiores amigos de Machado de Assis, a plaquete de Armandinho mostra um autor no melhor da sua forma de pesquisador e ensaísta.

Por isso, sempre que ele me diz que já “pendurou as chuteiras”, eu argumento que ele, o bom Armando, ainda tem muito a nos doar. Taí o Joaquim Nabuco, que não me deixa mentir.

 Armando homenageia também o confrade Cláudio Chaves, o livreiro Antonio Diniz (do Sebão) e o historiador Roberto Mendonça.   

Formas em Poemas - sarau e exposição

sábado, 25 de setembro de 2010

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

A miragem elaborada – 3

Zemaria Pinto
O homem ocupa o espaço


II


No poema “Do homem”, Alcides Werk persegue a idéia da solidão do homem amazônico em oposição à vastidão do espaço. Um espaço transcendente, intemporal, aumentado pela força das palavras:

                    minha alma perdida
                    vagou pelo tempo
                    vagou pelo mundo

É o ser metafísico – invisível, impalpável, irremediavelmente só –que vê verdades e deuses nascendo e morrendo. Vagar pelo tempo nos dá a dimensão da infinitude dessa viagem: vagar pelo tempo/mundo é ver o homem refazendo, redefinindo, reinventado seu modo se ser. Vagar pela imensidade da imaginação poética é ver a grande aventura humana reconstruir-se a cada manhã: a esperança. Há esperança na “aurora que vem”. Ainda que uma imagem gasta, imprescindível no corpus do poema, como uma forma de situá-lo no tempo. O tempo que se renova rotineiramente, com o homem.

Sob o olhar do poeta, o cotidiano se transfigura em esperas e estas são sua história de 30 mil anos. Nesse sentido, a palavra poética torna-se histórica por ser uma condição prévia à existência da sociedade a que irá aludir em tantos outros poemas.

A idéia de viagem do ser poético pelo tempo/mundo completa-se na observação dos tempos dos verbos empregados. Nas três primeiras estrofes, os verbos estão no pretérito perfeito, enquanto que na última, a lembrança evocada traduz-se no presente do indicativo:

                     é o Homem
                        aurora que vem

É interessante notar ainda a idéia de grandeza que perpassa todo o poema, analisando-se seus predicados de abrangência, intensidade e profundidade: a abrangência percebe-se pelo espaço físico/mental alcançado pelo ser poético:

                     vagou pelo tempo
                     vagou pelo mundo

A intensidade, por outro lado, observa-se na oposição (valor positivo x valor negativo) dos sentimentos vividos:

                     chorou de amargura
                     vibrou de alegria

                     clamou pela guerra
                     clamou pela paz

                     viu deuses brotando
                     viu deuses morrendo

Finalmente, a profundidade revela-se na magnitude mesma da lembrança, reforçada pela maiúscula do substantivo Homem – a que o poeta dirige seu canto –, cuja tarefa conclusiva não exclui valores que implicam em grandeza, seja pelo reforço do adjetivo imenso junto ao substantivo milagre, seja pela imagem já por si só grandiosa, da aurora.

                     é o Homem tecendo
                     o imenso milagre
                     da aurora que vem.

Este último verso, aliás, quebra toda uma sequência iniciada no primeiro verso, de tons predominantemente graves, abrindo as vogais como um grito de felicidade, amenizado pelos bemóis finais:

                     da au/ro/ra/ que/ vem

O grito da aurora rompe a escuridão.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Indicadores sociais no Amazonas - lançamento

Linguagens-culturas construindo e desconstruindo ritos de curas e práticas médicas – 3/11

João Bosco Botelho


Pecado e doença na Grécia

No período homérico, essa concepção antiga se manteve, essencialmente, expressa com clareza no temor do miasma infeccioso e hereditário, presente em Hesíodo, cuja cura obrigava à purificação ritual para retirar o pecado-doença — a catarse. Posteriormente, a transformação desse pecado, presente em uma pessoa, no pecado original, de concepção coletiva, está presente na cosmogonia e teogonia do orfismo, na morte de Dionísio, como uma doutrina da salvação.

A genialidade grega se interpôs como o primeiro contraste nessas concepções vindas de muitas linguagens-culturas indo-europeias e semitas, que construíram a doença ligada ao pecado como castigo dos deuses aos ousados transgressores da ordem divina.

O iniciante processo de mudança, na Grécia dos séculos 4 e 3 a. C., contribuiu para flexibilizar a interiorização do pecado e consequente minimização dos sentimentos dolorosos. Entre os pré-socráticos, o intuito de desvendar a coisa quantificando-a por meio da forma e do volume, consolidou a continuidade da alteração. Empédocles assume especial importância ao teorizar sobre a origem das coisas fora do poder dos deuses, por meio da combinação dos quatro elementos: terra, ar, fogo e água. A genialidade de Empédocles alicerçou a magnífica teorização de Políbio, genro de Hipócrates e médico da Escola de Cós, na estrutura da teoria dos Quatro Humores, descrita no livro Da natureza antiga, dessa vez, pela primeira vez na História, explicando a saúde e as doenças no domínio laico e, sem dúvida, iniciando o longo processo para retirar dos deuses e deusas a exclusividade de causar e curar as doenças: “O sangue humano contêm sangue, fleuma, bílis amarela e bílis preta; que esses elementos constituem a natureza do corpo e são responsáveis pelas dores que se sentem e pela saúde que se goza...”.

Um dos aspectos mais fascinantes do esplendor grego é o fato de que a busca da maior razão não abafou o imemorial fascínio pelo divino, pelo mítico. É possível encontrar vestígios desse passado, que interliga sagrado e profano, também no famoso “Sermão”, como marco da Medicina racional, atribuído a Hipócrates (460-375 a.C.), o mais conhecido representante da Escola de Cós, na Grécia. A questão do segredo assume posição esotérica e sagrada, como na confissão religiosa. Lá, certamente, era aceita a orientação seletiva entre os iniciados para receberem a habilitação necessária para poderem exercer a profissão. De modo geral, existe semelhança entre os ritos médico, o pitagórico e o órfico. Essa compreensão é parecida com a encontrada entre os rezadores populares, onde a prática é impossível de ser exercida entre os não iniciados.

Essa inovadora abordagem estava presente também em Eurípedes, que não admitia a desgraça, a doença, de origem divina, mas do pensamento do homem ao recusar a razão frente à violência das paixões, mas com frequentes atenuantes. De certa forma, Eurípedes ao admitir que ninguém é voluntariamente mau e entendendo o pecado como erro, se aproximou das ideias de Sócrates, que defendeu a premissa de o pecado estar interligado à ignorância. Logo, nessa linha, Eurípedes e Sócrates admitiram a educação como a alternativa para evitar o pecado, o erro.

Nesse contexto, fora do poder das divindades, Platão adicionou a possibilidade do fator contaminante do pecado como erro e juntou a necessidade de punir o agente contaminador pelo banimento da polis. A Medicina como paideia é um dos marcos nessa parte da história da humanidade, onde está transparente o conflito de competência entre as três medicinas — oficial, empírica e divina — com o objetivo de ampliar os limites da vida. Esse processo complexo, oriundo desde os tempos imemoriais, alcançou o esplendor na Grécia do século 4 a.C.

A cultura grega, no século 4 a.C., absorveu as origens mais antigas da medicina-divina e da medicina-empírica, mantendo a figura social do médico, em princípio, como dono do saber notável.

Sem abandonar a influência do divino sobre a vida e a morte, os cantos homéricos mostraram o claro destaque do médico como representante da medicina-oficial e agente social na luta contra os agravos à saúde (Ilíada XI, 510: Máxima glória dos povos arquivos, Nestor de Gerena, toma o teu carro depressa; ao teu lado coloca Macáon, e para as naves escuras dirige os velozes cavalos, pois é sabido que um médico vale por muitos guerreiros, que sabe dardos extrair e calmantes deitar nas feridas).

O mesmo médico homérico também marcadamente estava inserido no espaço sagrado das relações sociais. Os médicos Macáon e Podalírio, que se destacaram na guerra de Troia, mencionados por Homero, são os dois filhos de Asclépio, o deus protetor das medicinas gregas.

Essa aparente dualidade homérica, onde as três medicinas mostram-se sobrepostas, reproduz uma herança sócio-cultural muitíssimo mais anterior à cultura grega, perdida no tempo da ontogenia, que a genialidade de Homero tratou de expor.

O deus Asclépio, filho de Apolo com a mortal Corônis conquistou uma fama inimaginável. Mais cirurgião do que médico, ele criou as tiras, as ligaduras e as tentas para drenar as feridas. Junto com as suas filhas Hígia e Panaceia, era celebrado em grandes festas populares, próximas do dia 18 de outubro, data em que, até hoje, se comemora o dia do médico no Ocidente.

No século 4 a.C., na Grécia, a medicina-oficial expondo abertamente o processo de conflito com outras medicinas, mas compreendida como arte, apresentava-se com clareza na estrutura dos saberes que procuravam desvendar a natureza visível e invisível.

A profissão médica estava tão bem sedimentada em sistemas de aprendizado que influenciou, profundamente, nos vinte séculos seguintes, os caminhos tomados pela medicina-oficial no Ocidente.

A medicina-oficial grega do século 4 a.C., concebida como ciência, nessa condição, deveria valorizar a etiologia (Leucipo de Mileto In: Os Pré-Socráticos: fragmentos, doxografia e comentários. 2. ed. São Paulo. Abril Cultural. 1978. p. 297: Nenhuma coisa se engendra ao acaso, mas todas a partir da razão e por necessidade). A busca pela etiologia da doença entendida como pressuposto do diagnóstico e da terapêutica estava escancarada ao futuro: a fisiologia do corpo que amparava a prática dessa medicina-oficial estava ligada aos pré-socráticos, especificamente, aos filósofos jônicos, intérpretes da natureza circundante visível ou não por meio da tékhne.

Um dos fatos que torna essa reflexão fascinante é que, como hoje, longe de haver separação entre as práticas das três medicinas, a crença no poder de cura dos deuses e deusas e o empirismo continuaram fortes e coerentes com o universo cultural grego.

O herói grego continuou associado à cura de doenças e malefícios. O senso comum compreendia grande número de deuses e deusas possuindo, entre os principais atributos, o dom de sarar as doenças e as feridas de guerra (Platon. Oeuvres Complètes. Paris. Ed. Gallimard. Bibliothèque de la Pléiade. 1950. v.1, v.2. Rep. 407d: — Por conseguinte afirmaremos que também Asclépio sabia isto, e que, para os que gozam de saúde física, graças a sua natureza e à sua dieta, mas têm qualquer doença localizada, para os que têm essa constituição, ensinou a Medicina, que expulsa as suas enfermidades por meio de remédios e incisões, prescrevendo-lhes a dieta a que estão habituados, a fim de não prejudicarem os negócios políticos.)

Contudo, o médico atuava muito além do espaço sagrado, continuava exercendo a arte de adivinhar, porém sobre um sistema teórico coerente que observava e interpretava os sinais da natureza visível e invisível.

Esse avanço de dimensões gigantescas ¬— a Medicina como paideia — possibilitou estabelecer a ponte que ligaria, para sempre, a busca da etiologia das doenças ao diagnóstico, tratamento e prognóstico.

Desse modo, a Medicina como paideia feriu profunda e mortalmente o predomínio da medicina-divina e da medicina-empírica sobre a medicina-oficial.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Os 80 anos de Alencar e Silva

Hoje, 21 de setembro, o poeta Alencar e Silva está comemorando seus 80 anos muitissimamente bem vividos.
Ao lado, um poema do Neto como o chamam os amigos mais chegados da fase pré-Clube da Madrugada, quando o poeta contava apenas 21 anos de idade, em homenagem ao “guru” Américo Antony.

Leia poemas de Alencar e Silva e Américo Antony nO Fingidor.

Pesquisa: Roberto Mendonça. Conheça também o Blog do Coronel.

O estranho caso da Vila da Barra – final

Marco Adolfs


Tudo aconteceu muito rápido. A viagem transcorria calma e lenta. Preparávamo-nos para comer alguma coisa quando uma gritaria estridente irrompeu da garganta daqueles índios. Nossa atenção foi então imediatamente voltada em direção aos gritos que nos assustaram. Nunca poderia imaginar a sequência dos episódios sanguinolentos que aconteceram dentro daquela embarcação.

O primeiro a tombar foi o senhor Lourenço.

Uma forte pancada de remo no crânio seguida de uma série de golpes.

Logo em seguida, seu serviçal viu-se cercado e assassinado por três dos índios. Eu só tive a decisão – já que me encontrava por trás daqueles infelizes – de atirar-me para fora do barco, lançando-me no rio e mergulhando bem fundo. Depois nadei como um desesperado na tentativa de salvar a pele. Ao chegar à margem do rio, que naquele trecho por onde cortávamos estava perto, me escondi por entre os troncos e folhagens, até ver o barco afastar-se o máximo possível. Fiquei ali, naquela margem, até o amanhecer do outro dia, quando então resolvi caminhar. Fui ajudado, graças à divina providência, por um casual morador daquelas imediações que saíra para caçar. Contei-lhe que havia caído de um barco e ele ajudou-me a chegar à Barra três dias depois.

Nunca mais soubemos nada sobre o barco e os índios. Na vila todos ficaram sabendo sobre a tragédia e nada aconteceu de providencial. Os portugueses acabaram por desistir do sonho de plantar as sementes da seringa e dominar o mundo. Depois desse episódio lamentável, ao entrar em contato com eles, pagaram-me o que deviam e nunca mais os vi. Passei alguns meses na capital do império resolvendo esse e outros assuntos e, sem perspectiva alguma sobre meu futuro, acabei por voltar à Barra. Diante do acontecido, eu, que não tinha compromisso nenhum, assumi a família do senhor Lourenço. Com a ajuda daquele vereador espertalhão montei uma farmácia de drogas e unguentos bem em frente à travessa do pelourinho, tendo a mente repleta de lembranças dos primeiros instantes da chegada e dos momentos em que a morte esteve em meu encalço. Nunca desisti de tirar algum proveito de toda aquela riqueza sangrada da floresta. E passei muitos anos da minha existência naquele esquecido vilarejo; assistindo, registrando e sentindo de perto o oscilar entre a opulência e a miséria, entre o auge e o declínio, que a extração do látex legou àquele fim de mundo.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

CAEL promove conferência e workshop

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A Cátedra Amazonense de Estudos Literários, grupo de pesquisa certificado pela Pró-Reitoria de Pós-Graduação e Pesquisa da UEA junto ao CNPq, recebe, com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (FAPEAM) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e do Instituto Camões Portugal (IC), a Professora Doutora Fátima Marinho, diretora da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, autora de uma dezena de livros e de inúmeros artigos publicados em periódicos portugueses e do exterior, para atividades letivas nos dias 6 e 7 de outubro:

Conferência: “REPRESENTAÇÕES DA REPÚBLICA NA LITERATURA PORTUGUESA PÓS-MODERNA”. Auditório da Reitoria da UEA, dia 6 de outubro, às 9h30min. Entrada livre.

Workshop: “LITERATURA E HISTÓRIA: INVENTAR O PASSADO”, dividido em duas sessões de 4 horas-aula, com os seguintes temas, a saber:

1) O aparecimento do romance histórico: de Alexandre Herculano ao fim do oitocentos – 6 de outubro, das 14h às 18h.

2) A metaficção historiográfica pós-moderna: Saramago, Agustina Bessa-Luís, Lobo Antunes – 7 de outubro, das 14 às 18h.

(Para o workshop, as inscrições serão limitadas a 15 vagas, exclusivas para docentes da UEA e da UFAM e a alunos de iniciação científica da UEA.) Maiores informações e inscrições pelo email da Cátedra: cael.uea@gmail.com. Aulas na Escola Normal Superior. 10 vagas reservadas à UEA.

INSCRICÕES ATÉ 31 DE SETEMBRO.

domingo, 19 de setembro de 2010

sábado, 18 de setembro de 2010

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

A miragem elaborada – 2

Zemaria Pinto
O homem ocupa o espaço

I


A evolução da obra de Alcides Werk traz como canto anunciador, desde Da noite do rio, o poema “Da opção”. A opção é cristalina, não deixa margem a outras interpretações. O poeta não escamoteia o objeto do seu canto:

                    O homem cansado
                    de andar pelo tempo
                    sozinho sozinho

                    à margem da vida.

Cantar para o homem em função do homem amazônida.

                    o homem e a terra

Como o poeta reafirma.

O homem, claro. Mas e a terra? A terra vasta, a terra imensa

                    de muitos lagos
                    de muitos rios
                    de muitas matas
                    de muitas lendas

torna-se maior ainda no devaneio do poeta, que ao fechar os olhos para melhor contemplar seu “belo mundo”, sintetiza a imensidão ao contrapor imagens de uma realidade sonhada com uma realidade vivida:

                    de muitas vidas
                    elementares
                   
                    de muitas mortes
                    antecipadas

A essa idéia indesejada de morte, o poeta quebra a regularidade do ritmo, abre os olhos e vê-se, ele próprio, personagem de seu poema: seu imenso mundo volta-se para dentro do homem-poeta-mundo amazônico.

                    a terra cansando                              o homem cansado
                    dos anos compridos                          de andar pelo tempo
                    de extrativismos                               sozinho sozinho
                    na selva                                            no meio da mata
                    no rio                                                na beira do rio
                    na rua                                               à margem da vida.
                    na mente.

Ao conceito de terra cansada – a terra empobrecida pelo uso constante da cultura extrativista, não reciclada – contrapõe-se a imagem do homem cansado, “sozinho sozinho”, marginalizado. A terra cansada: na selva, no rio, na rua, na mente. Na mente do homem. E aqui o espaço amplia-se: à terra “de água e florestas” soma-se a rua – espaço urbano do homem – e a mente do homem – seu espaço mais interior.

Por outro lado, a leitura cruzada desses dois trechos do poema, como se fossem uma única estrofe,

                    A terra cansando o homem cansado
                    dos anos compridos de andar pelo tempo
                    de extrativismo, sozinho sozinho
                    na selva, no meio da mata
                    no rio, na beira do rio
                    na rua, à margem da vida.
                    Na mente.

reforça ainda mais essa idéia, levando-a além: a força do imutável abandono a que a terra é relegada, leva o homem amazônico a seu inexorável destino: da selva, pelo rio, à cidade. À marginalidade.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

3 livros inéditos de Mário Ypiranga Monteiro

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Será dia 18, sábado, no IGHA (Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas), a partir das 10h00, o lançamento de três obras inéditas de de Mário Ypiranga Monteiro (1909-2004): Papagaio de Papel, O Pescador e Escravidão Indígena.

Edições: EDUA (Editora da Universidade Federal do Amazonas)




Linguagens-culturas construindo e desconstruindo ritos de curas e práticas médicas – 2/11

 João Bosco Botelho


Pecado e tabu

Existem outros significantes do pecado associado à doença. Um dos mais interessantes é o pecado mágico, não ético, a violação do tabu. Nesse caso, não é valorizado se o pecado ocorreu por omissão ou ação e não inclui, em si mesmo, a ruptura com a divindade ou qualquer tipo de arrependimento, portanto, diverso do das religiões milenaristas. De modo geral, o tabu previne contra algum de tipo de poder acumulado em pessoas, coisas e situações. Esse entendimento está claro na descrição do rito de cura relatado por Rasmussen, citado por Lévy-Bruhl, na aldeia dos esquimós Iglulik: “Nela participam, além de todos os habitantes da aldeia, o xamã, que desempenha o papel principal, e os espíritos familiares da doente. Perante as injunções do xamã, a doente enumera, uma após outra, todas as violações do tabu, leves ou graves... que cometeu... Quando tem a certeza de que nenhuma foi esquecida, a assistência retira-se, convencida de que a confissão das culpas e dos pecados quebrou a espinha da doença.” É importante entender que a confissão da doente esquimó não representa, sob nenhuma hipótese, o arrependimento; é, sim, a libertação que cura a doença, o mal.

Na mesma esteira, em outras culturas, como na citada por Taylor, nas cerimônias fúnebres, na Nova Zelândia, poderia ocorrer a transferência dos pecados da tribo para o morto.

Duas abordagens semelhantes podem ser identificadas, no medievo europeu cristianizado: por meio da Paixão, Cristo transfere para si os pecados dos homens, e o pecado contagiante, expresso na feiúra exteriorizada em algumas doenças, como a lepra e outras moléstias deformantes.

1. Pecado na antiguidade pré-grega

De modo geral, entre babilônios, budistas, celtas, chineses, egípcios, hebreus, hindus e japoneses, a libertação do pecado, da doença, da infelicidade, sempre se relaciona à confissão seguida pelas rezas e penitências. Dependendo da linguagem-cultura, o curador retira o mal, exorciza o pecado, dirige as aspersões e usa imagens e outros artefatos protetores.

Desse lá, permanece um ponto diferencial entre as três medicinas: só a medicina-oficial organizou estruturas teóricas para sustentar as práticas de curas, só registradas a partir das primeiras cidades, assim, de natureza muitíssimo mais recente do que as outras.

Do outro lado, também a partir dos primeiros registros escritos, os poderes organizadores dos núcleos urbanos mais antigos ampararam, ora para mais, ora para menos, as três medicinas, na mesma proporção em que tentavam resolver os conflitos sociais provocados pelo medo coletivo da dor e da morte prematuras das epidemias que poderiam enfraquecer a ordem social.

Desde os tempos ágrafos, a medicina-divina e a medicina-empírica evidenciam-se plenamente ancoradas nas práticas divinatórias e nos milagres e, menos, nos saberes empíricos historicamente acumulados. Por essas razões, o diagnóstico, o tratamento e o prognóstico trabalhados de maneira ametódica e casual, sem compromisso da compreensão das etiologias.

Por outro lado, a maior parte das experiências empíricas acumuladas permaneceu guardada pelos especialistas da coisa sagrada. Estes fatores representaram ásperos obstáculos para reproduzir os saberes fora dos restritos grupos dos representantes das divindades, enclaustrados nos silêncios que impedem as críticas e as respostas.

Essa evidência fica muito clara nas civilizações que se desenvolveram na Mesopotâmia e nas margens dos rios Indo e Nilo. Apesar do notável senso empírico, as práticas de cura permaneceram contidas nas amarras do sagrado, como assinala a tradição judaica em pelo menos três argumentos:

1. O incrível poder do curador divino sobre a vida e a morte de tudo e de todos.

Dt 32: 39 — E agora, vede bem: eu sou eu, e fora de mim não há outro Deus! Sou eu que mato e faço viver. Sou eu que firo e torno a curar (e da minha mão ninguém se livra).

2. Os saberes empíricos como dádivas divinas.

Sb 17: 20 — Ele me deu um conhecimento infalível dos seres para entender a estrutura do mundo, a atividade dos elementos, o começo, o meio e o fim dos tempos, a alteração dos solstícios, as mudanças de estações, os ciclos do ano, a posição dos astros, a natureza dos animais, a fúria das feras, o poder dos espíritos, os pensamentos dos homens, a variedade das plantas, as virtudes das raízes.

3. O médico como representante reconhecido e festejado da divindade.

Eclo 38: 1-2 — Rende ao médico as honras que lhe são devidas, por causa de seus serviços, porque o Senhor o criou. Pois é do Altíssimo que vem a cura, como um presente que se recebe do rei. A ciência do médico o faz trazer a fronte erguida, ele é admirado pelos grandes.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Cia de Teatro Vitória Régia comemora 25 anos... trabalhando em dobro

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A Cia de Teatro Vitória Régia comemora 25 anos de atividade com uma programação dupla de Qorpo Santo. Direção geral de Nonato Tavares.

Local: Espaço Cultural Sinttel – rua Alexandre Amorim,  392, bairro de Aparecida (em frete à igreja de Aparecida)

Entrada : R$ 5,00

Às sextas-feiras, dias 17 e 24 de Setembro, e 08, 15, 22 e 29 de Outubro, sempre às 20h00:


Aos sábados, dias 18 e 25 de Setembro, e 09, 23 e 30 de Outubro, sempre as 20h00:

O estranho caso da Vila da Barra – 16

Marco Adolfs


– Este é o sítio do senhor Mourão, onde iremos encontrar nossas sementes – disse o senhor Lourenço.

– E esse senhor é de confiança? – perguntei.

– Bom, não devemos dizer a verdade – respondeu-me o senhor Lourenço.

A embarcação aportou a uma espécie de promontório de mais ou menos vinte pés de altura e o senhor Lourenço ordenou a descida de todos. Preso o barco, galgamos uns degraus escavados no próprio promontório. Atingido o topo vi-me cercado de inúmeras crianças índias que gritavam e pulavam ao nosso redor com extrema alegria. Lourenço afagava a cabeça de todas elas. Cerca de uns doze metros de onde estávamos, um homem gritou e o serviçal do senhor Lourenço acenou imediatamente.

– É o senhor Mourão, o dono do sítio – disse o serviçal.

Fomos bem recebidos e após as apresentações iniciais o homem passou a mostrar-nos sua residência. Um grande barracão coberto de enormes folhas secas de palmeira. Ao olhar o interior da casa percebi que as paredes eram estacas de madeira amarradas com cordas e alisadas com argila. Não existia assoalho, e sim terra batida. Esse senhor Mourão morava com a mulher e seus nove filhos. Demonstrava viver em paz com a vida naquele ermo lugar. Era um tipo bastante falador, que no almoço nos serviu um grande peixe assado, chamado tambaqui, acompanhado de arroz e farinha, o que muito nos deleitou. Nas conversas que travamos, o senhor Lourenço explicou-lhe sobre meu interesse em coletar algumas sementes da seringa. Disse que era para pesquisas farmacêuticas, pois que eu havia descoberto que a semente da seringa, sendo ralada e transformada em pó, servia para curar diversas doenças. Tudo uma grande mentira, é claro, mas que servia para os nossos reais propósitos. O senhor Mourão, como não poderia deixar de ser, ficara maravilhado com mais uma utilidade encontrada para aquela árvore. E principalmente depois que lhe disse que pagaria pelas sementes.

– Mas isso é maravilhoso! – exclamou, efusivo. – Atualmente o produto dessa árvore é mandado para fora, porém em pequena quantidade, e o que sobra nós fazemos uns sapatos bem toscos, que duram apenas alguns meses – explicou, com uma certa decepção no olhar. Mas agora com essa descoberta farmacêutica! – sorriu.

Conversamos ainda por um bom espaço de tempo e nos despedimos para irmos dormir no barco. O sol desaparecia lentamente, pintando o final do dia com seus últimos raios vermelhos. Dormi pensando que no dia seguinte o senhor Mourão nos mostraria sua plantação. “Repleta de sementes caídas no solo”. Os mosquitos zuniam em minha cabeça.

Quando amanheceu, me levantei, tomei uma caneca de mingau e saí acompanhado do senhor Mourão, do senhor Lourenço e dos índios. Todos com o único objetivo de coletar as sementes. Carregávamos inúmeros cestos. A coleta foi profícua. Com três dias de trabalho árduo no meio da selva conseguimos encher todos os potes de cerâmica. Carregá-los até o barco não foi problema. Acondicioná-los, também não. O grande problema aconteceria na metade do caminho ao retornar para a Barra. Com os índios que havíamos contratado. Até hoje penso no real motivo para eles terem feito aquilo.

(Continua na próxima terça-feira)

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

II Colóquio Internacional Poéticas do Imaginário – programação

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15 de setembro de 2010 (quarta-feira)
Manhã e Tarde
Local: Reitoria UEA

8h às 9h – Retirada de material

9h – Cerimônia de abertura

9h 30min – Conferência de abertura: A memória poética como patrimônio de sofrimento
Conferencista: Dr. Roberto Vecchi – Università degli Studi di Bologna (UniBo - Itália)
Apresentação e mediação: Dra. Juciane Cavalheiro (UEA)

10h 45min - Mesa Plenária: Literatura, Linguística, Semiótica
Participantes: Dr. José Luís Fiorin (USP); Dra. Juracy Saraiva (FEEVALE/RS)
Palestras: Linguística e Literatura; A natureza social da linguagem: o direito à arte literária
Debatedor: Dr. Odenildo Sena (UFAM/FAPEAM/SECT)

14h 15min – Literatura, Mitologia, Psicanálise
Participantes: Dr. Marcos Frederico Krüger (UFAM); Dr. Mauricio Matos (FAPEAM-CNPq/UEA).
Palestras: Eros e Poesia: estudo de um poema de Castro Alves; Investigação sobre a morte de Alberto Caeiro – Fernando Pessoa, Nietzsche, Freud e Aleister Crowley
Debatedor: Dr. Allison Leão (UEA)

16h – Mesa Plenária: Literatura, Retórica, Música
Participantes: Dr. Marcos Aurélio Pereira (UNICAMP); Dr. Márcio Páscoa (UEA)
Palestras: O decoro como fundamento da teorização dos discursos na INSTITUTIO ORATORIA e a formação “linguística” do antigo orador; A retórica nas óperas setecentistas de Antonio Teixeira e Antonio José da Silva
Debatedor: Ms. Carlos Renato Rosário de Jesus (UEA/UNICAMP)

Noite
Local: Escola Normal Superior/UEA
18h25min às 22h00 – Comunicações temáticas (8 eixos temáticos)

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16 de setembro de 2010 (quinta-feira)
Manhã, Tarde e Noite
Local: Escola Normal Superior/UEA

8 às 12h – Minicursos (1 a 6)

14h às18h – Minicursos (7 a 12)

16h – 18h – Exibição de documentário: O Rio São Francisco e o Imaginário Fantástico (1h 10min) – Apresentação Dra. Luciana Marino do Nascimento (UFAC)

18h25min às 22h00 – Comunicações temáticas (8 eixos temáticos)

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17 de setembro de 2010 (sexta-feira)
Manhã, Tarde e Noite
Local: Reitoria UEA

08h45min – Mesa Plenária: Literatura, Sociedade, Cultura
Participantes: Dr. Willi Bolle (USP); Dr. Mário Lugarinho (USP/CNPq)
Palestras: Entre a literatura de ficção e as ciências sociais: Dalcídio Jurandir; Globalização, Homogeneização cultural e Literatura
Debatedor: Dr. Marco Aurélio Paiva (UFAM)

10h30min – Mesa plenária – Literaturas Mexicana, Portuguesa e Africanas
Participantes: Dra. Laura Padilha (UFF/CNPq); Dr. Horácio Costa (USP)
Palestras: O romance angolano contemporâneo, suas cartografias e formas de deslocamento; Acerca da formação do cânone nas poesias portuguesa e mexicana modernas (séc. XIX e XX).
Debatedor: Dra. Michele Brasil (UFAM/UEA)

14h – Mesa Plenária – Literatura, História, Memória
Participantes: Dr. Emerson da Cruz Inácio (USP), Ms. Otávio Rios (UEA/UFRJ)
Palestras: Poesia sem templos nem manuscritos; Clio entrelaçada ou o sequestro da História
Debatedor: Dra. Gleidys Maia (UEA)

15h45min – Café Literário
Participante: Dra. Ana Luisa Amaral (escritora portuguesa)
Apresentação e mediação: Dr. Emerson da Cruz Inácio (USP)

16h45min – Espaço cultural
Apresentação: Dr. Márcio Páscoa (UEA)

17h30min – Exposição de Banners
Mediação: Dr. Marcelo Seráfico (UFAM)

17h30min – Lançamento de Livros
Apresentação e mediação – Ms. Nicia Zucolo (UFAM)

20h – Conferência de Encerramento: Do sublime precário: tempos/poemas; corpo(s)/vida(s).
Conferencista: Dra. Ana Luísa Amaral (Portugal)
Apresentação e mediação: Dr. Mário Lugarinho (USP)

domingo, 12 de setembro de 2010

Roberto Mendonça e Almino Affonso disputam cadeira de Narciso Lobo na AAL

Simão Pessoa*

No próximo dia 29, acontece uma nova eleição na Academia Amazonense de Letras (AAL) para escolha do novo acadêmico que vai ocupar a cadeira do saudoso poeta e jornalista Narciso Lobo (na foto ao lado, conversando com Roberto Mendonça).

Dois candidatos estão na disputa: o historiador Roberto Mendonça e o advogado Almino Affonso, ex-vice-governador de São Paulo.

Se eu pertencesse à Academia, com absoluta convicção votaria no historiador porque ele possui suas raízes fincadas neste chão.

Almino Affonso (foto abaixo) nasceu em Humaitá, mas desde 1958 só vem ao Amazonas rigorosamente a passeio.

Após 12 anos de exílio (1964-1976), ele retornou a São Paulo e foi secretário dos negócios metropolitanos de São Paulo no governo de André Franco Montoro, vice-governador do estado de São Paulo na gestão de Orestes Quercia, além de deputado federal e conselheiro da república.

Também foi candidato derrotado a governador em 1990, pelo PDT.

No ano 2000, foi secretário Municipal de Relações Políticas do rápido governo do prefeito paulistano Régis de Oliveira.

Quer dizer, Almino Affonso tem mais a ver com a Academia Paulista de Letras do que com a Academia Amazonense de Letras.

Roberto Mendonça nasceu em Manaus, no outrora bairro de Constantinópolis, hoje de Educandos, nos fundos do cine Vitória.

De origem humilde, foi interno do Seminário São José de Manaus, mas terminou a vida profissional como coronel aposentado da Polícia Militar do Estado.

Aposentado, ele resolveu caçar notas e fatos jornalísticos em páginas amareladas. Muitas, amareladas demais.

Ao trazer à lembrança fatos passados, nem sempre edificantes, Roberto Mendonça presta um serviço inestimável a quantos se empenham de alguma maneira – por necessidade acadêmica ou por curiosidade – com a história amazonense.

Membro do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas desde 1994, Roberto Mendonça (foto ao lado) é autor dos livros “L. Ruas: itinerário de uma vocação”, “Intérpretes de Aparição do Clown”, “Catando papéis e escrevendo histórias”, “Cândido Mariano & Canudos”, “Os Bombeiros de Manaus”, e “Administração do coronel Lisboa”.

Quando soube que Roberto Mendonça era candidato à academia, o escritor amazonense Rogel Samuel, atualmente radicado no Rio de Janeiro, escreveu o texto abaixo, que endosso com fervor:

Leio que Roberto Mendonça é candidato a uma vaga na Academia Amazonense de Letras. Ninguém melhor do que ele pode servir à Academia.


Conheci-o há anos, na biblioteca da UFAM, em Manaus, na rua Ramos Ferreira. Ele já pesquisava os textos dos antigos acadêmicos: Ramayana de Chevalier, Genesino Braga etc.

Ele sabia que eu fui o primeiro a colocar na Internet os autores daquela época de ouro da AAL: Álvaro Maia, Péricles Morais, João Leda.


Ele sabia do meu gosto pelos autores amazonenses: André Araujo, Hemetério Cabrinha, Mavignier de Castro, João Nogueira da Mata, Pe. Nonato Pinheiro, Moacyr Rosas e tantos outros.


Tivemos grandes prosadores, antes dos grandes poetas do Clube da Madrugada.


Mas um livro em particular logo nos uniu naquele dia: “Aparição do Clown”, de L. Ruas.


Eu só tinha um xerox do livro, mas mesmo assim consegui colocar o livro no meu site, tempos depois.


Roberto Mendonça tem tudo para entrar na academia, vários livros importantes.


E, principalmente, amor pela literatura amazonense.

(*) publicado originalmente no blog do autor.

sábado, 11 de setembro de 2010

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

A miragem elaborada – 1

(um voo livre sobre a poesia de Alcides Werk)
Zemaria Pinto*

Ao Professor Doutor Marcos Frederico
Krüger Aleixo, que orientou
este trabalho.

Elaboro miragens e as persigo
com a determinação dos suicidas.
(Alcides Werk, in “Estudo XII”)

Por que não recortar as minhas incursões
de poeta-crítico em prosa porosa?
(Augusto de Campos, in O anticrítico)

No chão, depois de antes



Cidadão do mundo, o poeta forja seu trabalho com inequívoca identidade amazônica, adquirida à força da experiência de mais de 30 anos em contato direto com a região.

Nascido em Aquidauana, Mato Grosso do Sul, desde cedo – por força do caráter aventureiro de seu pai – Alcides acostuma-se ao nomadismo das andanças Brasil afora. Com apenas 20 anos, ainda “praça”, chega ao Amazonas, que em pouco tempo conhece – desde o Alto Solimões ao Baixo Amazonas – e de onde sai, ainda sequioso de aprendizagem, anos depois, em 64, indo para o Nordeste, acossado pela “redentora”, a quem o jovem poeta incomodava por suas posições lúcidas e coerentes.

Funcionário de carreira do DCT (posteriormente desmembrado em ECT e DENTEL), ainda antes do fim da década de sessenta retorna ao Norte, fixando-se no Médio Amazonas – Maués, Nhamundá e áreas circunvizinhas

aventurando-me pelos altos rios, pelos paranás, pelos lagos distantes,
abeberando-me do que ainda resta da cultura aborígine,
do nosso ameríndio, do caboclo, aprendendo a viver com simplicidade,

Como ele mesmo afirma nos “traços autobiográficos” da antologia Marupiara.

Essa vivência intensa, construída muito além de meras lembranças, chama a atenção na poesia de Alcides Werk, onde o elemento tratado – a terra, a água, o homem – é real, tangível.

A partir dessa observação – um tanto simplificadora –, a escolha do espaço como primeiro elemento de abordagem foi até óbvia: os poemas de Alcides Werk têm a imagem como preocupação intrínseca. Insisto: são imagens de lembranças, são fatos vistos no presente, são vivências exteriores interiorizadas na poesia.

O texto básico desta análise é o subtítulo “O homem e a terra”, do livro Trilha dágua, 3ª edição. Foram, entretanto, objeto de estudo textos afins das antologias Poemas da água e da terra e Murupiara.

O segundo elemento de abordagem é a dicotomia claro x escuro, que perpassa toda a poesia de Alcides Werk, representada na oposição dia x noite, sem o maniqueísmo fácil da oposição bem x mal. Alcides permite que os símbolos reflitam a ocasião, sem preconceitos estereotipados, valorizando, assim, a leitura prazerosa.

Para esta segunda análise não há um texto básico, posto que a característica tratada é marcante em toda a obra do poeta, tendo sido utilizados o Trilha dágua, em sua totalidade, e as antologias.

Para efeito de comparação entre os textos, foram utilizadas também as duas primeiras edições de Trilha dágua, bem como o primeiro livro do autor, Da noite do rio, a bem da verdade, a edição “zero” de Trilha dágua, porque este é aquele, aumentado.

Não foram incluídos neste trabalho, por terem sido publicados esparsamente, acima de uma dezena de poemas novos, cada vez mais fortes, mais telúricos, prenhes de sentimento à terra, à água, à mata, ao Homem.

Um vôo livre? Sim, desatrelado das peias de um academicismo que poderia até desviar a atenção do objeto estudado, as raras citações foram consideradas como reforço ao texto eventualmente capenga.

No mais, a bibliografia é responsável pelo que sobrar de positivo no resultado final. Mergulho.

Manaus, março a outubro de 1989

(*) Ensaio originalmente apresentado como trabalho final do
Curso de Pós-Graduação em Literatura Brasileira,
na Universidade Federal do Amazonas, em 1989.
Foi publicado na 4ª edição do Trilha dágua (1994)
e em Toda Poesia (2004).

Obs: será postado sempre às sextas-feiras.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

29ª Feira de Livros do SESC

Mais informações: clique aqui.

Linguagens-culturas construindo e desconstruindo ritos de curas e práticas médicas – 1/11

João Bosco Botelho


Ritos de curas como hierofanias
Desde tempos ágrafos, os homens e as mulheres ora aliaram-se aos panteões, lutando para entender, sem aceitar, a finitude da vida frente à natureza circundante; ora organizaram-se para viver mais e melhor, desafiando a tirânica competência dos deuses e das deusas para curar.

Os ritos de curas, como hierofanias*, são muito mais anteriores se comparados às práticas médicas. Alguns sítios pré-históricos mostram claras comprovações paleopatológicas, com mais de 10.000 anos, de que membros da espécie homo, utilizando artefatos cortantes executaram intervenções deliberadas e repetidas sobre os corpos, como as craniotomias e amputações de membros.

O aparecimento da palavra “médico” nas linguagens-culturas mesopotâmicas esteve associado ao forte marco identificador dos poderes pessoais desses especialistas sociais — curadores de todos os matizes e os reconhecidos como médicos — para intervir na doença, como pressuposta garantia de aumentar os limites da vida e sarar a dor fora de controle, com indissolúvel ligação aos muitos deuses e deusas curadores.

Curadores e médicos entendidos sob essa perspectiva — agentes sociais oriundos de muitas linguagens-culturas capazes de aumentar os limites da vida e sarar a dor fora de controle —, de lá para cá, como história de longa duração, mantiveram esse entendimento nos cinco continentes.

Durante mais de três mil anos, os ritos religiosos de cura inseridos nas idéias e crenças religiosas, além de manterem conflitos de competência com a Medicina, nunca foram abandonados, mais ou menos valorizado em dependência das linguagens-culturas e dos bons ou maus resultados obtidos nos tratamentos médicos. Em certos textos é difícil distinguir onde começava a prática médica e terminavam os ritos de curas.

Sob essa perspectiva, é possível entender a Medicina entremeada em três vertentes:

– Medicina-divina: os agentes entendem a saúde e a doença sob a exclusiva vontade dos deuses e deusas e a cura é obtida por meios de ritos nos lugares sagrados;

– Medicina-empírica: os agentes aceitam a doença do mesmo modo, mas aplicam os conhecimentos historicamente acumulados, da natureza circundante, na busca da cura;

– Medicina-oficial: muito mais recente do que as anteriores, os agentes têm construído e desconstruindo processos teóricos para entender e dominar as doenças fora do poder dos deuses e deusas.

Nos quase quatro mil anos de história, a Medicina-oficial tem mantido diferentes níveis de conflito de competência com a Medicina-divina e a Medicina-empírica. Só no século 19, com maior transparência no Ocidente, esse conflito se polarizou alicerçado em três paradigmas, forçando construções e desconstruções:

– Fisiologia de Claude Bernard;

– Micrologia desvendando os micróbios causadores das doenças infecciosas que atemorizaram a humanidade;

– Estudos de Pasteur instruindo irresistível oposição à crença da existência de formas de vidas larvárias, perniciosas à saúde, vindas dos ares contaminados e fedorentos, entendidos como humores pútridos.

Sem que se conheçam com maior precisão os mecanismos neuroendócrinos responsáveis pelo sofrimento, sem dúvida, a interiorização da crença no pecado gera respostas somáticas com fortes componentes emocionais: medo, angústia, culpabilidade, remorso e alterações do sistema autoimune.

Desse modo, não há dúvida que continuam vivas as construções e desconstruções tecidas em torno do conforto pessoal e coletivo — a ausência da dor, do mal, da doença — gerado na obediência às ordens orquestradas pelos homens, em nome dos deuses e deusas ao longo de milhares de anos.

PECADO E DOENÇA

É possível que a arqueologia desse intricado nó entre Medicina e a religião esteja assentada nas antigas compreensões do pecado como sinônimo de doença. Entre os claros registros nas tábuas de escrita cuneiforme, um é particularmente interessante para demonstrar o quanto as práticas médicas eram atadas aos ritos de curas religiosos: assírios e babilônios entendiam o pecador como doente, débil, angustiado, possesso do demônio (utukku). Os termos sortilégio, malefício, pecado, doença, sofrimento aparecem como sinônimos. A libertação desse pecado, a doença, só seria obtida no rito religioso da confissão e penitência.

Essa compreensão do pecado ligada à doença como sinônimo do mal está mais claramente presente nas religiões que admitem o pressuposto da violação voluntária do livre arbítrio, contra a ordem divina, gerando culpa ao autor do distúrbio, punido com a doença. Desse modo, para apagar o pecado, o mal, a culpa, é necessário cumprir ritos de expiação com componentes interiores: confissão e penitência; e exteriores: rezas e sacrifícios.

Também é possível compreender o pecado não só como uma quebra da norma, mas inerente a condição humana — o pecado original. Heidegger foi mais além ao afirmar: “O homem não está apenas carregado de erros, está em falta”. Essa trilha de Heidegger segue São Paulo (Romanos, 14, 23) onde só a e a graça são os únicos remédios para combater o pecado.

(*) Curas místicas, relacionadas a práticas religiosas.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Fantasy Art – Galeria

The Huntress.
Dorian Cleavenger.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

O estranho caso da Vila da Barra – 15

Marco Adolfs


– O melhor a fazer é não levantar nenhuma suspeita dos políticos da cidade, ansiosos por uma confusão nova – disse o senhor Lourenço e eu concordei.

Carregados de enormes sacos com mantimentos e apetrechos variados, entre armas, vasilhas e barris, partimos silenciosamente, envolvidos pela escuridão. A embarcação que nos fora alugada deveria ter vinte e cinco pés de comprimento por nove de largura. Toda ela comportava uma extensa cobertura feita com folhas de palmeira, entrelaçadas e amarradas firmemente, por tiras de cipó. A forma final dessa cobertura era uma estrutura abaulada num semiarco perfeito. Eu, o senhor Lourenço, o índio seu serviçal e mais dois índios nos instalamos no interior escuro daquele imenso barco, enquanto os outros dois índios contratados encarregavam-se de remar. Navegamos um tempo considerável em meio a uma escuridão de meter medo e com um frio que parecia nos querer congelar os ossos. Estávamos em um mutismo comum, o que aumentava ainda mais toda nossa preocupação em torno daquele objetivo um tanto insólito em que nos metíamos.

Quando amanheceu, o senhor Lourenço resolveu quebrar o silêncio e começou a esclarecer-me sobre aspectos variados da flora e da fauna daquela região inóspita e ao mesmo tempo fascinante. Explicou também sobre a altura das águas “que já haviam inundado uma boa parte das terras, mas que agora pareciam estar baixando”. Para mim, aquilo tudo era maravilhoso. Depois de remarmos mais ou menos umas sete horas, atingimos as águas amarelas do Solimões. A luz do sol estava radiante e inúmeras ilhas de plantas flutuavam ao sabor da corrente. Como a tarde já caía firme, resolvemos atingir a margem e acampar para o almoço. Os índios haviam pescado uns peixes enormes e foi o que assamos e comemos, ali mesmo. Durante o almoço, o senhor Lourenço resolveu que só prosseguiríamos viagem no outro dia pela manhã. Mal terminamos nosso apetitoso almoço e a noite caiu com seu manto estrelado sobre nossas cabeças. Os índios acenderam uma enorme fogueira e ficaram a um canto conversando quase em surdina. Aquela noite cheia de estrelas e mosquitos parecia que ia ser longa.
No outro dia retomamos a expedição e, com o sol novamente bem acima de nossas cabeças, chegamos ao nosso destino. Ao vislumbrar a terra verifiquei que ficava numa das margens meridionais daquele Solimões bravio, a cerca de 90 milhas a montante da barra do Rio Negro.

(Continua na próxima terça-feira)

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Os 82 anos de Luiz Bacellar e a juventude de Koya Refkalefsky

Fazendo cara de assustados, os aniversariantes Koya (02/09) e Bacellar (04/09). Na sequência, no sentido horário, Mauri Marques, Zemaria Pinto, Roberto Mendonça, Marco e Dora Adolfs. Aconteceu na última sexta, 03 de setembro, no Pina, em torno a uma dieta rigorosa de bacalhau, vinhos e muito azeite. Clic: Francisco Mendes.

Os aniversariantes ladeando Paloma Figueiredo, que também estava em festa: formara-se em Direito, pela UEA, na noite anteiror, 02/09.

domingo, 5 de setembro de 2010

Academia Amazonense de Letras já tem candidatos às duas vagas

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A Academia Amazonenese de Letras já tem candidatos paras as duas vagas cujas inscrições encontram-se abertas até o próximo dia 16: para a cadeira nº 26, que fora de Oyama Ituassu,  o empresário José Roberto Tadros; e para a cadeira de nº 28, vaga com o falecimento do poeta Anibal Beça, há mais de um ano, o também poeta e cronista Simão Pessoa.

Os dois são candidatos fortíssimos: Tadros já mereceu da AAL, em 2007, a medalha do Mérito Cultural Péricles Morais, na categoria mecenato. Quanto a Simão Pessoa, se vivo fosse, seu maior “cabo eleitoral” seria o próprio Anibal Beça, que escreveu, há uns bons 20 anos, uma Ode ao poeta mordaz Simão Pessoa, da qual transcrevo apenas o fecho:

Este Simão Pessoa
(guardem bem o seu nome)
é do meu chão
e do meu coração
e isto nada tem
com a rima fácil
e muito menos
com nenhuma solução
é apenas confissão:

se não me chamasse Anibal
me chamaria Simão.

sábado, 4 de setembro de 2010

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Arte e literatura de ficção – 2/2

Zemaria Pinto*


Eu convido você a uma longa viagem através da literatura de ficção, tentando entender aquele fenômeno denominado literariedade.

Não há, com certeza, maneira mais convincente de apreender o sentido de uma obra de arte do que vivê-la, senti-la, penetrá-la por inteiro. Daí a necessidade dessa viagem. Porém aqui veremos somente o roteiro. As escalas, você poderá mudá-las ao sabor das estações e dos temporais. Das calmarias e dos vendavais. E do prazer que emanará de cada uma.

Comece com Clarice Lispector, A paixão segundo G.H. Se você não perceber o descortinar-se de um novo mundo, comece a pensar em desistir. Dos meus conselhos, claro.

Mas tente ainda os contos de Kafka: Na colônia penal, uma brilhante antecipação dos horrores do nazismo. A metamorfose, aquele em que o personagem Gregor Samsa amanhece transformado em um repulsivo inseto, e que é a mais esplêndida análise ficcional da condição humana: o monstro que massacra o homem é a sua própria solidão − familiar, profissional, amorosa.

Se você pensou em ler também O processo, do mesmo Kafka, peço-lhe calma: ainda é muito cedo. Algumas obras exigem um mínimo de maturidade para o leitor.

Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, por exemplo, não é um romance para ser lido: é para ser degustado, com preguiça e prazer, tendo o sol por testemunha, além de deus e do diabo. De Rosa, comece com Sagarana ou Estas estórias: até caem no vestibular...

Em seguida, vá a mi Buenos Aires querido, com Jorge Luis Borges: O Aleph. Mas não deixe de conhecer a simplicidade do conto “O Outro”, de O livro de areia, exemplo radical de literatura de iniciação.

Descubra o Graciliano Ramos de São Bernardo e observe o que se pode fazer quando se tem o domínio da técnica narrativa, como o tinha o velho Graça.

Bem, a lista de sugestões já está bastante extensa e certamente irá ocupá-lo por muito tempo, contudo, não custa nada recomendar ainda o magnífico novelão de Gabriel Garcia Márquez, Cem anos de solidão. Ou, ainda, a prosa barroca do português José Saramago, de Memorial do Convento, os contos de Lucia McCartney, de Rubem Fonseca, o humor ferino de Galvez, o imperador do Acre, de Márcio Souza, e o Relato de um certo oriente, de Milton Hatoum, um labirinto de espelhos estilhaçados.

O teste final para você ter certeza de ser um leitor qualificado é ler Dom Casmurro, de Machado de Assis, de um só fôlego, em uma tarde chuvosa de domingo.

Se você conseguir encarar o bruxo do Cosme Velho sem cair nas armadilhas do tédio, terá, então, aprendido a separar o joio da má literatura do trigo que é feito com arte.

Haveria dezenas de autores, centenas de livros, dignos de serem indicados. Estes serão descobertos pelo meio do caminho, como os portos que os guias apressados, e invariavelmente malfeitos, esquecem de nomear, mas que nem por isso são menos merecedores de nossa atenção, de nosso carinho.

(*)Escrito e publicado (no Amazonas em tempo) ali pelos meados dos 90, do século passado, a partir das aulas de Teoria Literária, que resultariam, afinal, nO Texto Nu.

Ilustração: foto de Clarice Lispector. Autor desconhecido.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010