Amigos do Fingidor

quinta-feira, 30 de setembro de 2021

A poesia é necessária?

        Rosa de sombra

 

Pollyanna Furtado

 

No vermelho da sombra,

esconde-se uma rosa azul.

Rosa precária e triste,

sem pétalas nem odor.

 

Aquela mancha fria,

dissolvida ao pé da porta,

de talos inacabados

e é sombra, coisa morta.

 

Eu vi uma rosa rude

se fechar na boca da noite.

Sem ressoar de sinos.

Rosa venosa de Vênus,

venenosa.

 

Matéria lendária de sonho,

um vulto apenas na manhã.

Nem um pássaro quis beijá-la.

A rosa se desfez.

 

 

terça-feira, 28 de setembro de 2021

Ocitocina

Pedro Lucas Lindoso

 

Dar sem nada pedir em troca. Um dos maiores ensinamentos de Jesus foi: “amai-vos uns aos outros”. Mas no dia a dia nossos atos de amor são geralmente direcionados a pessoas que de certa maneira irão retribuí-los.

Antes de ir para o aeroporto, ao retornar a Manaus, resolvi comprar um lanche frio em supermercado de Brasília. Os preços de qualquer coisa dentro dos terminais de aeroporto são escandalosamente caros.

De posse de um sanduíche natural e suco entrei na fila do caixa rápido. Na minha frente, um casal pagava por café, açúcar, arroz, um frango e um pacote de carne moída. De repente, o jovem senhor, abre a carteira e com tristeza diz para a caixa: “Não vou levar o frango e nem a carne”.

Eu então o interrompi e me ofereci para pagar pela proteína. O rapaz então disse que aceitava o empréstimo. Perguntou onde poderia me devolver o dinheiro. Eu respondi que não morava em Brasília. Que não se preocupasse. Aprendi no Movimento Escoteiro a fazer uma BA (boa ação) por dia. A jovem senhora que o acompanhava me interrompe e diz:

– É para alimentar nossos filhos. Nós trabalhamos. Eu e ele. É que as coisas estão caras mesmo.  Muito obrigado.

O casal se retirou agradecido. Ao pagar pelo meu sanduíche vi a moça do caixa, emocionada, com lágrimas nos olhos. Disse-me que estava triste e com dor de cabeça. Aquele meu gesto havia produzido nela uma sensação de bem-estar. Era como se tivesse tomado um remédio.

Eu também senti uma sensação boa com meu gesto. Da porta do mercado o casal sorriu para mim. A jovem senhora fez um gesto de coração com os dedos da mão. Imaginei que eles também sentiram a mesma sensação de prazer relatada pela moça do caixa.

A minha BA (boa ação) havia produzido uma sensação fisiológica de prazer não só para mim, mas para mais três pessoas.

No avião, ofereci meu livro “Crônicas da pandemia” ao senhor que estava ao meu lado. Ele disse ser médico endocrinologista. Gostava muito de ler. Meu gesto o havia proporcionado uma carga extra de ocitocina. Perguntei-lhe o que era aquilo. Então ele me explicou:

Ocitocina é um neurotransmissor natural produzido pelo hipotálamo. Promove confiança, empatia, estabilização emocional e bem-estar. É bastante relaxante também. Alguns dizem que é o hormônio do amor, da caridade.

Fiquei muito feliz. Havia proporcionado doses extras de ocitocina àquelas pessoas. Precisamos todos de muita ocitocina.

  

domingo, 26 de setembro de 2021

Manaus, amor e memória DXXXIV

 

Pavilhão Universal, instalado na lateral da Matriz. 

sexta-feira, 24 de setembro de 2021

Literatura e Paisagem na Amazônia


Expositores: Zemaria Pinto e Neiza Teixeira;
Mediadora: Beth Cardoso.

 
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quinta-feira, 23 de setembro de 2021

A poesia é necessária?

         Pequena elegia para o meu pai

Inácio Oliveira

 

Meu pai trabalhou muito,

dançou muito,

amou muito,

sofreu muito e foi muito feliz.

 

Depois ele foi se cansando,

hoje ele me olha mas não me vê.

Já não me abraça,

perdeu a força,

perdeu a graça,

perdeu o tato,

ficou preso no porta-retrato.

 

terça-feira, 21 de setembro de 2021

“Mitezza”: serenidade, moderação, mansidão

Pedro Lucas Lindoso

 

O grande filósofo italiano Norberto Bobbio trouxe para a filosofia contemporânea o conceito de “mitezza”. O vocábulo italiano é traduzido como serenidade, moderação, mansidão.

Por seu turno o francês Sartre, pai do Existencialismo, nos ensina que somos livres, condenados a ser livres. E temos que fazer escolhas. Isso às vezes é angustiante. O Brasil vive um momento de extremismos. A Nação está polarizada. Escolher é parte da nossa existência. Não temos opção de não escolher. Não fazer nada. Não escolher é uma escolha.

Minha escolha pessoal é pela “mitezza” de Bobbio.  Verifico que a sociedade se tornou violenta. A polarização política retroalimenta essa violência, criando inimizades, opressão, medo, desconfiança. O que nos resta a não ser a esperança? Esperança de que o bem vai vencer.

E repito, me agarro no conceito de “mitezza”, compreendido como mansidão: “Bem-aventurados os mansos porque eles possuirão a terra”.

Essa proposta de “mitezza”, de mansidão, não deve e não pode ser confundida com submissão nem tampouco com humildade. Nós, cidadãos brasileiros, devemos deixar a força, o confronto, os acordos para a seara da política e seus agentes. Nós, enquanto povo, enquanto sociedade em comunidade, devemos exercer a “mitezza”, reconhecendo no outro a beleza e a necessidade de bem se relacionar.

No “Louvor à Mitezza”, Norberto Bobbio ensina que, para responder à violência, nós traímos a “mitezza”, desconsideramos a nossa própria mansidão. São as escolhas angustiantes que temos que fazer, como nos lembra Sartre.

Bobbio explica que a “Mitezza”, ou seja, a mansidão, na verdade, não é uma virtude recíproca: “O manso não pede, não exige qualquer reciprocidade: a mansidão é uma disposição para com outros que não precisam ser pagos para se revelar em todo o seu escopo.”

O Brasil parece estar numa encruzilhada. As cartas estão dadas. Devemos ter responsabilidade para deixar e oferecer às novas gerações um país melhor, mais desenvolvido, mais igual e próspero. E penso que para isso é necessária a “mitezza”, a mansidão. Abominando a agressão. Temos que construir uma sociedade onde ninguém seja covarde. Que possamos ouvir a voz dos que não têm voz. Precisamos fazer renascer a justiça e a verdade. Mas com “mitezza”, sem pisar ou vilipendiar ninguém.

 

domingo, 19 de setembro de 2021

sexta-feira, 17 de setembro de 2021

Octaviano Mello e seu tempo

 
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quinta-feira, 16 de setembro de 2021

Manhã cultural: história, cultura e sociedade

 




A poesia é necessária?

          Não sou caboco à toa!

Rojefferson Moraes

 

Não sou caboco à toa!

Sou curumim desvairado

Mendigo de roda de pinga

Comedor de farinha puba

Não sou “caboco” à toa!

Sou o que, sob sol escaldante,

Sentado nas escadas desbotadas,

Corta um limão

E toma um caldo quente

De jaraqui amargo!

 

terça-feira, 14 de setembro de 2021

Celebrando a criação

 Pedro Lucas Lindoso

 

Não sou “expert” em conhecimento bíblico, mas todos sabem que quando Deus criou o Mundo, em Gênesis, Ele “fez os animais, cada um de acordo com a sua espécie: os animais domésticos, os selvagens e os que se arrastam pelo chão. E Deus viu que o que havia feito era bom”. E ainda Deus nos deu “todas as plantas que nascem em toda a terra e produzem sementes, e todas as árvores que dão frutos com sementes”.

Como católico, sou fã incondicional do Papa Francisco. Em sua encíclica Laudato Si, o Papa faz um grande apelo aos mais de dois bilhões de cristãos espalhados pela face da terra: cuidar da criação.

Na parte prática, o Papa Francisco instituiu a cada ano, de primeiro de setembro até 4 de outubro, o convite para os cristãos celebrarem o “Tempo da Criação”. A escolha de 4 de outubro para o ápice dessa celebração não é por acaso. Nesse dia a Igreja celebra Francisco de Assis.

São Francisco de Assis, o mais ecológico dos santos da Igreja, foi sempre muito admirado pela sua bondade com todos os seres vivos. Há registros que o santo teve a ideia de fazer um Presépio com animais vivos. Ele viveu no século 13, mas essa tradição continua viva até hoje na cidade de Assis, na Itália.

Francisco conversava com os pássaros. Certa vez, um bando de andorinhas o seguia. Ele teve que interrompê-las e disse: “Irmãs andorinhas, agora eu tenho que falar comigo.” Em outro episódio, Francisco amansou um lobo selvagem dizendo: “Venha aqui, irmão lobo, mando-te da parte de Cristo, que não faças nenhum mal a mim nem a ninguém”.

O Papa Francisco pertence a ordem dos jesuítas fundada pelo espanhol Inácio de Loyola. Os Jesuítas se basearam primeiramente na capela de Montmartre, em Paris. Entre eles estava São Francisco Xavier. É provável que Jorge Mario Bergoglio, ao ser aclamado Papa, tenha escolhido o nome Francisco em homenagem ao Francisco Xavier.

Mas, o Francisco de Assis é bem mais popular. É o pai da Ecologia. Assim, inspirado no Francisco de Assis, o Papa pede que nessas semanas os cristãos realizem ações para proteger o meio ambiente natural.

As questões ecológicas não podem ser negligenciadas por nós amazônidas. Nossa região precisa ser preservada com sustentabilidade. E nós que nela habitamos é que temos que dar as cartas.  Nós precisamos da floresta para sobreviver e usá-la com sustentabilidade. Que ninguém faça mal às nossas matas.

Finalmente, e atendendo ao Papa Chico, vamos até 4 de outubro   celebrar com contentamento a beleza da criação, preservando o nosso meio ambiente. 

 

domingo, 12 de setembro de 2021

Manaus, amor e memória DXXXII


Hotel Cassina, na rua Bernardo Ramos, 
esquina com Governador Vitório.

 

quinta-feira, 9 de setembro de 2021

A poesia é necessária?

         Cuia

Simão Pessoa

(poema feito a partir de um quadro

do artista plástico Turenko Beça)

 

De longe como Matisse

Que a desnudando vestisse

Ela revela a natureza

Que a esconde por inteiro

 

E a esconde por inteiro

Do olho que a devassa:

O vão desdobrado em quilha

Recoberto por limalha

 

De luz é sua textura

Que ao toque se adivinha

Como as bordas da pupila

Refletindo água-marinha.

 

Tem a aparência furtiva

De uma fruta adocicada

Daquela que nos convida

Na a comer – a olhá-la.

 

De luminosos cristais

Sua curvatura se veste:

O gosto de qualquer fruta

Nela é as dobras da pele.

 

É fruta de carne e osso

Silêncio sonho e medula.

É fruta de mil desejos

Na língua mais que na gula.

 

É uma paisagem de dunas

Com casulos emborcados.

É uma ópera intestina

De conchas no alagado.

 

É uma onda sem mistério

Tirando arestas da areia.

É uma maçã que mordida

O baixo ventre incendeia.

 

É o ovo da serpente

Como que moldado em pedra.

É a cúpula do teatro

Na sua forma geodésica.

 

No mais não é uma cuia

Arquitetada por Gaudí.

É uma cuia, mas nativa

De tacacá e açaí.

 

Que uma bunda não é nunca

O silêncio de uma tela:

É uma vontade profunda

De se perder dentro dela.


quarta-feira, 8 de setembro de 2021

Óscar Ramos 83 - documentário


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terça-feira, 7 de setembro de 2021

Paixão por livros ou Não se lê por osmose

 Pedro Lucas Lindoso

 

Meu amigo Chaguinhas tem uma teoria de que os dinossauros foram extintos da Terra porque não liam livros. Nestes tempos de pandemia a leitura e o amor pelos livros e pela ciência foi fundamental. Em todos os aspectos. Os livros me ajudaram muito no período de isolamento social. E os vizinhos nem reclamam, mesmo se você resolver ler em voz alta. Já uma amiga de Brasília foi solicitada pelos vizinhos a não tocar tanto piano. Apesar de ser exímia pianista começou a incomodá-los.

Sou de uma família de apaixonados por livros. Meu pai ia às livrarias todos os sábados pela manhã. Quando menino, morei na rua Henrique Martins aqui em Manaus. A rua das livrarias. Será que meu pai teria comprado a casa por esse motivo?  Na década de sessenta os livros chegavam “fechados”, com as folhas dobradas. O livro é uma coleção de folhas de papel impressas. Essas folhas são dobradas e reunidas em cadernos cujos dorsos são unidos por cola ou costura. Os leitores antigos tinham necessidade de abrir as folhas usando uma espátula. Abri muitos livros. Fui ensinado a ter cuidado. Parece estranho, mas preciso explicar isso para os leitores jovens. Só conhecem livros com folhas todas já cortadas. E hoje só fazem leitura pelo tablet ou computador.

Nem sempre foi fácil e barato ter um livro. Os primeiros livros foram feitos pelos sumérios, cuja civilização tem seu auge por volta do século quarto antes de Cristo. Textos que tratavam de leis e religião. E também de lendas e poemas. Os Sumérios falavam uma das línguas mais antigas do mundo.

Até a Idade Média os livros eram muito caros e inacessíveis. Feitos a mão. Tudo mudou com a impressão do primeiro livro impresso do mundo. Em setembro de 1452 foi impressa a Bíblia de Johannes Gutenberg, na cidade de Mainz, na Alemanha.

E isso mudou tudo. Antes de Gutemberg não era fácil tampouco barato ter um livro. Os Contos de Cantuária, The Canterbury Tales, em Inglês, foram escritos por Geoffrey Chaucer. São uma coleção de histórias em prosa e em verso. Foi escrito ainda na Idade Média, no final do século 14. Chaucer é anterior a Shakespeare. O livro é um marco da Literatura Inglesa. Meu personagem favorito é o Monge. Fui professor muito anos e me identifico com ele. Dizia aprender com alegria e ensinar com alegria. Tinha a maior biblioteca da comunidade. E pasmem! Tinha orgulho de seus seis livros!

A nossa casa da Henrique Martins agasalhava a biblioteca de meu pai logo no primeiro cômodo. Em Brasília havia livros nos corredores do apartamento e no meu quarto. Dormi entre e até embaixo de livros. Aprendi a ler sempre. Aprendi a amar os livros. Mas não se enganem. Não se lê nem se aprende por osmose.

 

domingo, 5 de setembro de 2021

Manaus, amor e memória DXXXI

Paço Municipal.

 

sexta-feira, 3 de setembro de 2021

Memórias de barrancos: a poesia comprometida de Isaac Melo

        Zemaria Pinto

 

Há exatos 90 anos, Ezra Pound publicou a primeira versão da sua teoria poética, definitivamente sistematizada três anos depois.[1] Numa palestra para entendidos em poesia, esse tópico frasal causaria comoção: 90 anos?!... Certamente, começariam a abandonar o recinto ou a desligar o aplicativo. Acrescento ainda, para os que não sabem, que Pound (1885-1972), norte-americano, era assumidamente fascista, tendo vivido na Itália de Mussolini, de 1925 a 1945, quando foi capturado pela Resistência e entregue às forças de seu país natal, sendo preso, torturado e declarado “doente mental perigoso”, ficando isolado nessa condição por doze anos. Uma teoria de 90 anos, formulada por um fascista, então? Sim. E ainda não ultrapassada. Se você – minha cara leitora, meu caro leitor – estivesse naquela hipotética sala, continuaria me ouvindo? Se positivo, sigamos adiante. Se não, obrigado pela atenção e até outra. Só não me cancele...

A teoria de Pound resume-se ao seguinte: há três modalidades de poesia; aquela em que predominam propriedades musicais, baseadas em características próprias da poesia, como metrificação, estrofação, rima, assonância, aliteração, anáfora etc.; uma segunda, onde as imagens são construídas a partir de figuras de linguagem consagradas na retórica, como metáfora, metonímia, alegoria, sinestesia, hipálage etc.; e, por fim, aquela em que predominam as ideias, a reflexão, sem prescindir das propriedades musicais e imagéticas – Pound dizia que esta é “a dança do intelecto entre as palavras”. Respectivamente, o querido leitor, a querida leitora, irão encontrar essas definições com os nomes gregos que Pound preferia: melopeia, fanopeia e logopeia.

 

Memórias de barrancos, de Isaac Melo, é um livro singular. Sua primeira qualidade é fugir de modismos e hermetismos inócuos, construindo uma poesia que tem cores e odores próprios. Uma poesia sensorial, que quase pode ser tocada. E que os idiotas – os daqui e os de lá – chamariam de regionalismo, como se isso fosse um crime de lesa-literatura e não um atributo para além do meramente acessório, o que leva à segunda qualidade do livro: sua universalidade. Calcada no contemporâneo, longe de se datar, colabora com a compreensão do que acontece para além do noticiário ordinário, atrelado a facções e a discursos que entendem a obra de arte apenas na sua superfície visível a olho nu com a mente em suspensão.

Alguns clichês descartáveis, um ou outro adjetivo supérfluo e até mesmo inevitáveis “gralhas”, podem ser corrigidos (ou não) numa próxima edição – o que me lembra um ensinamento poundiano: poesia é condensação, poesia é medula. Só assim, o poeta pode alcançar o máximo da sua expressão, atingindo a “linguagem carregada de significado até o mais alto grau possível” – outra sacada de Pound. Formado em filosofia, o autor orienta sua poesia a repensar a condição humana – e como ele está em Rio Branco ou Tarauacá, não em São Paulo ou no Paraná, sua poesia repensa o seu universo próximo – não apenas a gente, mas os mitos que fundaram essa gente.

Os oitenta e quatro poemas que compõem o livro não estão divididos por temas, embora obedeçam a uma organização lógica – que, às vezes, é negada. Mas isso não tem muita importância, embora fosse desejável. O poema que abre o livro – “Da Amazônia” – tem uma clara função de “poética”, na medida em que anuncia para o leitor o que o espera na leitura dos poemas consequentes:

 

escrevo da Amazônia (...)

escrevo com estes barrancos (...)

escrevo com estes igarapés podres (...)

 

São os versos que iniciam as três primeiras de dez estrofes. “Corpos rebeldes / que sucumbem nas periferias”; “rios assoreados”, onde faltam peixes “e se envenenam as águas”; a violência das queimadas; o sangue de indígenas, posseiros e quilombolas; matas que viram pastos, pastos que viram cemitérios.

 

escrevo também com as mãos calejadas

deste povo sofrido (...)

às vezes atadas, às vezes em oração

mãos em luta ou em luto

mas jamais em vão

 

O segundo poema, que dá título à coletânea, “Memórias de barrancos”, tem uma construção inusual, nas suas seis páginas e meia, misturando versos curtos e versos longos, que podem ser, equivocadamente, tomados como prosa, mas são poesia de alta tensão, lembrando um remoto Roberto Piva ou ainda um não menos longínquo José Agripino de Paula. E aqui, sigo o ensinamento soberano de Pound: nenhum poeta está sozinho no mundo. É preciso comparar e descobrir conexões, ainda que não intencionais. O poema de Isaac Melo tem um tom de manifesto, procura vínculos, nexos, links:

 

coração de ouricuri, dentes de coco jarina

olhos de sementes de mulungu

pele de barranco, cabelos pretos de igapós

mãos de sapupemas, dedos de cipós (...)

kaxinawá yawanawá katukina ashaninka (...)

e foi assim, sem brasão nem nobiliarquia, às margens do rio tarawaká, que tudo se deu. (...)

aí chamaram o delegado que chamou o pastor que chamou o padre que chamou o bispo que chamou a corte celestial do supremo (...)

 

A ironia de Isaac Melo tange a crueldade, quando trata da poesia como mero instrumento de ascensão social:

 

poesia, poesia sempre, não a guardada em potinhos, daquelas que os poetas lavram e levam para a admiração das confreiras e confrades sempre casta e castrada nunca cáustica.

              

Aliás, poesia cáustica não cabe na mediocridade de grupinhos de mensagens.

A aproximação com a poesia de Thiago de Mello é explícita: “faz escuro e eu me espanto”. Tal como em Thiago, a poesia de Isaac é comprometida – com a vida. “Memórias de barrancos” corre o risco mesmo de datar-se: quem haverá de lembrar-se, daqui a vinte, trinta anos, do sentido destas palavras de maldição?

 

chores por quem trocou o cristo pelas figuras caricatas dos messias de armas nas mãos com seus apóstolos da ignorância e da ignomínia do medo e da morte

 

Os dois poemas citados dão o tom geral do livro, mas não esgotam o prazer de novas descobertas, surpreendendo o leitor com subtextos diversos. Mulheres fortes: “A bisavó”, “Chica”, “Maria Mulher”, que “trabalhava o dia inteiro / e à noite ainda apanhava do companheiro”. Futebol-ópio: abordado no poema-título, retorna em “Seleção”, “e as almas exangues / já não aguentam gritar / tantos gols de sangue”. A poesia do silêncio: “Intervalo”, “O pó”, “A sombra”, “Epifania”, “No escuro”. A delicadeza dos tercetos, nas páginas 57 a 68. Imagens de altíssima densidade poética, como “o vento, pendurado no varal” (“Porque é domingo”); “o desossar das horas” (“Prisioneiros”); “sob o escarro do tempo” (“A existência”); “as vísceras das horas” (“A sombra”); “a vida tem o comprimento / de um banzeiro” (“Banzeiro”); “a lembrança em mim é água de repiquete” (“Memorial lírico da infância”); “o sangue das horas lentas” (“Momento”), um improvável diálogo com Raimundo Monteiro, como improvável é o diálogo com Anibal Beça em “Terna colheita”.

Sem descuidar do ritmo, da melodia e da harmonia, a principal sustentação das ideias em Memórias de barrancos são mesmo as imagens. O neologismo “servilização”, por exemplo, do poema “Coração doador”, é em si mesmo uma ideia que reflete uma imagem de servilidade, opondo-se à civilidade – esta, tão transparente que prescindimos de imagem para entendê-la. O poema “Uma tarde na Amazônia” tem um desfecho surrealista:

 

acordo-me, a rede é agora um poema

meu corpo, um rio de palavras

leio-me na nudez de minhas águas

 

E lembrando que, afinal, ninguém está sozinho, o poema “Epitáfio” é um papo descontraído com uma das “Polonaises” de Leminski: “um dia / a gente ia ser homero / a obra nada menos que uma ilíada”.[2] Intertextos. 

A ironia, figura presente na maior parte dos poemas de Isaac Melo, pode ser ilustrada, sem necessidade de maiores explicações, no poema “Depois do último”, que transcrevo na íntegra:

 

depois do último

indígena sucumbir

pela bala envenenada

do capital

vão erguer

em plena capital

em bronze maciço

um grande memorial

para eternizar

e ensinar

às gerações futuras

o amor

e o valor

das culturas

 

  Se “os artistas são as antenas da raça”, como acreditava Ezra Pound, Isaac Melo, de seu posto, às margens do Tarawaká plantado, capta, processa e retransmite os sinais da servilização, fazendo o seu trabalho de metamorfose – mudando a banalidade em linguagem – para que um dia cheguemos ao estágio da civilização. Ou não.


Criador e criatura.

 



[1] How to read (1931) e ABC of reading (1934), encontráveis em português com os títulos Como ler (in A arte da poesia: Cultrix, 1976) e ABC da literatura (Cultrix, 1977). Os anos referem-se às minhas edições. 

[2] Caprichos & relaxos. São Paulo: Brasiliense, 1983. p. 50.


quinta-feira, 2 de setembro de 2021

A poesia é necessária?

 O busto de Voltaire ou O neoliberalismo é fascista

Zemaria Pinto

 

o original talvez fosse de mármore

ou bronze

ou ferro

sobre a mesa, o gesso branco

barato

roto

desbotado

moldado aos milhares

vagabundo e solitário

 

a falsa cabeleira, a calva oculta

os olhos baços, o nariz adunco

o lábio em linha, a boca de improváveis dentes

e o queixo penso ao peito, peso da corcova

representação da velhice

símbolo de uma era morta

metáfora da decadência

alegoria da ruína

 

mas

o busto pensa e, mais que isso, luta

um mundo sem ameias, nem peias verdades

a dúvida como dogma

as vísceras como dívida

a liberdade, uma dádiva

a igualdade, um anelo

contra a opressão um libelo

 

meus olhos pousam na podre estrutura

buscando o cerne além do simulacro

e um turbilhão de ideias me avassala:

nunca um pequeno busto foi tão belo!

 

Amazonas, vazante de 2019

 

Voltaire (1694-1778).
Busto de autor desconhecido.