Amigos do Fingidor

quarta-feira, 31 de março de 2010

Fantasy Art – Galeria

Birth of Hope.
Julie Bell.

drops de pimenta 56

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A solidão é broxante. Não tenho vontade de nada. Nem de sair. Nem de escrever. Nem de ficar só. Se saio, encontro com ela. Se escrevo, é sobre ela. Ficar sozinho é bem pior: há sempre um fantasma me espreitando no escuro. Deve ser o espelho. Droga!



(Zemaria Pinto)

terça-feira, 30 de março de 2010

Rimbaud nas ruas

Marco Adolfs

Um dia desses voltei a pensar em Rimbaud. Aquele menino-profeta-mestre do século XIX e que Mallarmé muito bem soube ser o mensageiro de uma ética rebelde de todos os viajantes das letras e que passam (sempre) uma temporada no inferno. E aí fui transportado no tempo. Lembrei então que a primeira vez que dissequei o “menino” Rimbaud – e olha que ele já passou por várias dissecações por parte de minha consciência – eu passava uma temporada em Curitiba. Foi nos anos 80. Vivia entre poesias e com a ilusão embrionária de sentir-me um possível escritor, além de um acadêmico. Fazia muito frio na capital e eu tomava o meu café quentinho no lugar onde estava hospedado, totalmente alheio ao que acontecia lá fora. Como um dândi perfeitamente periférico, desses que olham para o próprio umbigo, folheava um livro: a biografia de Rimbaud.

Mas, terminado o desjejum, resolvi olhar para fora. Olhar para a rua lá embaixo. Eu me encontrava na cobertura de um edifício de vinte andares; quase acima do bem e do mal. Foi quando o meu olhar ficou imediatamente úmido pela visão que tive. E percebi que o líquido poderia até congelar, tal o frio da visão que tive. Mas o que vislumbrei lá embaixo? Vi uma rosa de meninos; rosa das ruas; rosa de meninos abandonados. Pois estavam todos enrodilhados; entremeados uns nos outros; como pétalas. A formarem, no espaço circular em um canteiro de uma praça lá embaixo, uma rosa corporificada. Protegiam-se do frio imenso que fazia nas almas dos homens. Aí eu desci do meu pedestal intelectual e conversei com os meninos. Foi quando fiquei sabendo da existência de um adolescente – entre aqueles – que compunha, nos seus dezenove anos, poemas fulgurantes e visionários, de uma beleza estranha. Lembro de um que procurava atingir cimos do pensamento inviolado da sua pretensa liberdade. Ele me mostrou o papel escrito a lápis e que logo no seu primeiro poema começava assim: “Sou uma dor abandonada na esquina; nascida no limbo desta cidade cretina...” Saí dali pensando que, talvez, Rimbaud estivesse entre eles. Fiquei matutando que muitos daqueles rebeldezinhos seriam retirados da rua, ou pela morte ou pela poesia.

Depois me vi andando a esmo pelas ruas de Curitiba, ainda com o livro sobre a vida de Rimbaud nas mãos. A existência de Rimbaud como tal é a existência do que Claudel dele disse: “um místico em estado selvagem”. Seria como aquele menino? Foi talvez com essa frase que eu tentei ver Rimbaud naquele dia. Mas que poeta pode nascer de uma rosa de carne e sangue congelados? Talvez possa! Quem sabe? Mas Rimbaud me perseguia pelas ruas como um menor abandonado ao relento. Pois, como alguém já o disse: “o rimbaudismo é universal. Sua fosforescência atravessa a barreira das línguas”. E por que não outras barreiras!? Mas lá ficavam eles para trás – os meninos do frio do inferno –, no lugar onde, talvez, antes, fossem pastos verdejantes de esperanças mil. O vento a vergar flores singelas, nos campos do Paraná. Mas Rimbaud continuava em minhas mãos. A perpetuar um certo comportamento e certa insolência rimbaudianos? Vamos imaginar o “Bonne pensée du matin”. Arthur Rimbaud representa uma terrível bomba programada em todas as ruas da existência. Como aquele menino maltrapilho, um raio, uma arma, um heroísmo. Próprio daqueles corpos maltrapilhos que trafegam nas ruas. Pura poesia marginal de quem vive no inferno. É preciso sofrer muito para conceber isso. Esse combate com o anjo infernal e do amor feroz das Musas, semelhante ao do louva-a-deus que devora o macho. Eles estão sendo devorados nas praças. Eles vivem a feiúra, quando ela é bela. Nisto está toda a tragédia! É a fabulosa herança dos mortos na miséria. Que todos nós vivemos.

Mas Arthur Rimbaud foi um milagre nesta Terra miserável, um fenômeno de ordem sobrenatural, por sua precocidade assustadora e pelo mistério de seu destino, que permanece impenetrável como seu gênio mesmo. Deixando de lado o que ele possa ter carregado enrustido em sua alma. Uma fragilidade angelical, talvez. E, Rimbaud inexoravelmente renunciou à literatura aos dezenove anos. Qual o motivo? Não interessa. Sabe-se que na segunda fase de sua breve existência, realizou longas e fantásticas caminhadas, percorrendo a Europa e os oceanos, dando-se a mil e uma ocupações para ganhar a vida, aprendendo uma porção de línguas, para malograr, finalmente, na África, onde cumpriria o resto de seu ciclo infernal em atrozes condições e morrer como um mártir aos trinta e sete anos. Um poeta brasileiro pode chegar a isso? Quando ele foi para o continente africano, tinha algumas economias de que se orgulhava: aproximadamente quatrocentos francos. Uma vida diferente descortinava-se para sua poesia. Os horizontes mágicos da Abissínia e de Zanzibar ofereciam-se a seus delírios. Mas perdeu-se nos caminhos por ele mesmo traçados entre Aden e Djibuti, Zeilah e Harar, só iria abandonar aquele inferno ao ser alcançado pela morte. Assim foi a vida de Rimbaud. Naquele tempo. E hoje? É claro que eu o vi em um deslumbre delirante naquele dia frio de Curitiba.

O destino de Rimbaud foi ser só, terrivelmente e sempre só. Ele era ardente; um temperamento inflexível e difícil. Mas o menino que era, prosseguia infame na visão de todos. Deixara na África alguns amigos que o choraram com sinceridade. Mas antes ele brigara com quase todos os que o conheceram (Izambard, Verlaine, todos os parnasianos, Alfred Bardey etc.) e abandonara os outros (Delahaye, Nouveau). Quando morreu conciliou com todos. Seus acessos de raiva esquecidos. Os meninos da praça de Curitiba – especialmente aquele poeta-menino-marginal – também se enraiveciam com a incompreensão dos outros. Caminhei um pouco mais pelas ruas silenciosas daquela capital estranha e, quando estava me dirigindo para o Shopping, a fim de almoçar, me deparei novamente com o nosso marginal. Estava pedindo uns trocados e cheirando um frasco de cola. Quando me viu até sorriu. Lembro que naquele momento perguntei qual era o seu nome. E ele me disse se chamar Artur! Era Rimbaud ressuscitado!?

Aí Rimbaud saiu das ruas dessa existência, onde andava solitário e quase esquecido, para ser alçado à mente de todos os que passaram a amá-lo como tal. Na poesia, o nome de Arthur Rimbaud brilhava como uma estrela de primeira grandeza. E todos os outros passaram a comentar sua grandiosidade. Dele disse o grande André Gide: Rimbaud era para mim como um poeta demoníaco, um “poeta maldito” entre todos e gostava de o ser, com a ajuda do álcool, o “famoso gole de veneno”, que ele nos convida a beber e que eu degustava com prazer, mais embriagante que qualquer outro vinho, que não podia convir senão aos fortes.

Alguém já disse existirem muitos Rimbaud neste mundo, e que seu número crescerá sempre. “Creio que, no futuro, o tipo Rimbaud substituirá o tipo Hamlet e o tipo Fausto.” Acho que foi Henry Miller quem disse isso. E que Rimbaud é uma curiosa mistura de audácia e timidez. Ele tem a coragem de se aventurar lá onde nenhum branco jamais pôs os pés, mas ele não é capaz de enfrentar a vida com pouco dinheiro. Não tem medo dos canibais, e sim dos brancos, de seus semelhantes.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Roberto Mendonça no Café com o Escritor

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O Vanilla Caffe Vieiralves convida para o 2º Café com o Escritor.

Na ocasião, o historiador Roberto Mendonça irá conversar com amigos, convidados e admiradores.

Estarão sendo relançados os livros L. Ruas: itinerário de uma vocação e Cinema e Crítica Literária de L. Ruas.



Onde? Vanilla Caffe Vieiralves (Rua Acre, Vieiralves, próximo ao Açaí & Cia.)

Quando? 30 de março (terça-feira)

A que horas? A partir das 9 horas da manhã

domingo, 28 de março de 2010

sábado, 27 de março de 2010

quinta-feira, 25 de março de 2010

Amazonino Mendes, poetaço

João Sebastião


Vão dizer que eu tou de sacanagem. Mas, acompanhem o meu raciocínio. O “poema” ao lado foi publicado dia 1º de maio de 1960, em O Jornal, pelo então aprendiz de poeta e diz-que revolucionário Amazonino Mendes. Em pleno dia do trabalhador, em vez fazer um poema sobre aqueles negões de Portinari, que ele tanto admirava, sem sequer saber quem era Portinari, AM fala de amor... Amor?

Na verdade o improvável poema é um autêntico exercício de tanatofilia tautológica ou, se preferirem, tautologia tanatófila. Se não, vejamos. O atual alcaide da província manauara, tomando emprestado um tema de Kipling (e usando-o mal), faz um elogio da morte da amada, no melhor estilo parnasiano – a morte como castigo pela volúpia.

Poesia é, essencialmente, imagem, música e ideias. Quanto às ideias, deixo a conclusão por conta do leitor. Vejamos os aspectos... técnicos do poema. Claque: risos amarelos, a cor preferida do Maumenino.

A música de Amazonino, escondida sob uma falsa forma livre, é puro descompasso. O pretenso poeta não tem a mínima noção de ritmo e harmonia. Em compensação, as imagens são mal resolvidas, na redundância em que se encerram: rosas mortas esquecidas, “sem canção, sem música, sem réquiem”, como se música e canção não fossem conceitos que se superpõem – ou se canção e réquiem não fossem... música. O mau gosto de “a grande Mão Azul” lembra um dos ídolos de AM, Adam Smith (de quem ele deve ter lido todas as orelhas disponíveis): “a mão invisível do mercado”... “Apascentar o silêncio” seria uma imagem razoável se não se ligasse com a ausência da “mão”, em nova redundância. Os dois “versos” seguintes escapam à minha parca compreensão: “o lago fecha-se indiferente etc.” Será que o Negão queria dar uma “cor local”, cabocla, de raiz, à sua composição, por isso incrustou-lhe essa pérola?

Mas o melhor vem no “fecho de ouro”: à possibilidade da morte da mulher amada – “tão de repente”; assassinada? –, o “eu lírico amazonino” sai a fazer “infinitas viagens pelo mar”, provavelmente, com o dinheiro da vítima.

Freud explicaria, mas Amazonino é pré-freudiano, se é que me entendem...

Fonte: O Jornal, 1º de maio de 1960. Pesquisa do autor.

Ópera Urbana - os 50 anos de Renato Russo

II Colóquio Internacional Poéticas do Imaginário

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A Cátedra Amazonense de Estudos Literários da Universidade do Estado do Amazonas prepara o II Colóquio Internacional Poéticas do Imaginário, para os dias 15, 16 e 17 de setembro, em Manaus. Com o fomento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam) e em copromoção com a Universidade de São Paulo (USP) e a Università di Bologna (Unibo, Itália), esta edição desenvolverá discussões em torno do tema "literatura, interfaces, fronteiras" e contará com a participação de convidados nacionais e estrangeiros, que oferecerão ao público participante conferências, palestras e minicursos durante os três dias. As inscrições para participação como ouvinte e com apresentação de trabalho, nas modalidades comunicação oral (sessão coordenada ou individual) e pôster, serão iniciadas em 05 de abril.


Paralelamente às atividades acadêmicas, a Equipe de Organização vem se dedicando à seleção de um roteiro cultural da cidade, sem esquecer as belezas naturais de uma das mais exuberantes regiões do planeta. Abaixo, seguem informações sobre os convidados confirmados, os eixos temáticos, prazos de inscrição, formatação de resumos e trabalhos completos, além de taxas do evento.

1. CONFIRMADOS

Ana Luísa Amaral (Universidade do Porto, Portugal)
Emerson Inácio (USP)
José Luís Fiorin (USP)
Juracy Saraiva (FEEVALE-RS)
Luciane Páscoa (UEA)
Mádson Góes (UFCG)
Márcio Páscoa (UEA)
Marco Aurelio Pereira (Unicamp)
Mário Lugarinho (USP)
Maurício Matos (Fapeam)
Otávio Rios (UEA/UFRJ/Calouste Gulbenkian)
Roberto Vecchi (Università di Bologna)
Sérgio Miceli (UFAM)
Wilfredo Maldonado (UFPB)
Willi Bolle (USP)

2. EIXOS TEMÁTICOS

1 - Literatura e Linguística
2 - Literatura e Sociologia
3 - Literatura e Retórica
4 - Literatura e Psicanálise
5 - Literatura e História
6 - Literaturas e outras Artes (cinema, visuais, plásticas, cênicas)
7 - Literatura e manifestações culturais
8 - Literatura e outras interfaces ou fronteiras
9 - Efemérides: 80 anos de escrita de A selva, de Ferreira de Castro, ou 100 anos da República Portuguesa

3. PRAZOS E FORMATAÇÃO

Submissão de resumos (comunicação oral/pôster): até 10 de julho de 2010;
Envio dos resultados da avaliação dos resumos: até 20 de julho de 2010;
Envio dos trabalhos completos à Equipe de Organização (comunicação oral): até 31 de julho – os trabalhos completos serão publicados na forma de Anais em cd-rom;
Inscrição como ouvinte: de 05 de abril a 10 de setembro de 2010.

VAGAS LIMITADAS (200)

Formatação:

Verificar informações no site do evento, a partir de 25 de março (resumos e trabalhos completos).
os trabalhos completos aceites serão publicados na forma de e-book, no site da Cátedra/UEA.

4. TAXAS

Graduandos sem trabalho (ouvinte): 20 reais, até 31/07, ou 40 reais, de 01/08 a 10/09;
Graduandos com trabalho: 30 reais;
Graduados e pós-graduandos sem trabalho (ouvinte): 20 reais;
Graduados e pós-graduandos com trabalho: 40 reais;
Professores de nível superior com trabalho: 60 reais;
Minicursos: os participantes do evento poderão inscrever-se nos minicursos oferecidos, ao valor de 15 reais por atividade e dois minicursos a 20 reais. Os cursos estarão disponíveis no site do Colóquio e serão ministrados por professores convidados pela Equipe de Organização.

Para consultar informações e baixar os procedimentos de inscrição e fichas: http://www.pos.uea.edu.br/catedra

Ou entre em contato com:
cael.uea@gmail.com


Prof. Otávio Rios
Prof.ª Juciane Cavalheiro
p/ Comissão Organizadora do II Colóquio Internacional Poéticas do Imaginário (UEA-USP-Unibo)

O mau-olhado

João Bosco Botelho



Para iniciar uma abordagem mais ampla do mau-olhado, a partir da importância social da reprodução da crença no mau-olhado, ao longo de milhares de anos, se torna necessário trabalhar com uma categoria – a medicina-divina – que engloba as práticas de curas relacionadas às expressões de crenças religiosas, contraponto às terapêuticas da medicina-oficial. A discussão teórica que envolve esse conjunto relacional deve estar associada a dois questionamentos:

– Seria possível causar doenças por meio do mau-olhado?

– Seria possível curar doenças por meio da medicina-divina?

Não há dúvida da universalidade da crença do mau-olhado. Luis da Câmara Cascudo (Dicionário do Folclore Brasileiro, 5ª ed, Itatiaia, 1984) é um dos autores que sustenta sua antiguidade e presença nos cinco continentes.

Junito Brandão (Mitologia Grega, v. 1, 2ª ed. Vozes, 1986) assinala a origem pré-olímpica do mau-olhado, explicando as mudanças na transição greco-romana para absorver a concepção helenística predominante nos países cristãos. Na mitologia grega, a mortal Medusa, com a cabeça coberta de serpentes, possuía olhos com excepcional brilho e o olhar maligno que transformava em pedra quem ousasse fixá-los.

Carlo Ginzburg (Os Andarilhos do Bem, Companhia das Letras, 1988) interpretou do modo magistral os cultos agrários, no século 17, em uma sociedade camponesa italiana. A crença no mau-olhado era muito comum naquela comunidade e o tratamento só obtinha sucesso se realizado por alguém com poderes especiais: o benandanti ou andarilho do bem. Em um dos processos do Santo Ofício, para punir o benandanti, no depoimento de um dos acusados, está claro o entendimento do mau-olhado: O que significa, pergunta o inquisidor, ter mau-olhado? E a jovem explica: nós dizemos que têm mau-olhado as mulheres que secam o leite das mulheres que amamentam e são também bruxas que comem as crianças.

Essa compreensão do mau-olhado, numa pequena vila italiana, há três séculos, está próxima de outras, nos dias atuais, que recebem identificações semelhantes: olho de seca pimenteira, malocchio, evil eye, bose blick, mal de ojo, olho grande, significando o malefício intencional causado pelo olhar de alguém.

É possível causar doenças por meio do mau-olhado

A pessoa atingida pelo mau olhado sente, imediatamente ou após algumas horas: apatia generalizada, dores no corpo e na cabeça, alterações na digestão, inapetência, irritação e desânimo. Quando o alvo é uma criança, as consequências são mais intensas, podendo incluir sonolência profunda, olhos encovados e moleiras afundadas.

O mau-olhado é reconhecido como uma das doenças que deve ser tratada pelos especialistas da medicina-divina. Em muitas regiões brasileiras, o ritual de cura continua sendo realizado com a ajuda de um ramo de arruda ou erva-doce recém tirado do galho, semelhante ao registro de Luiz Edmundo (O Rio de Janeiro no tempo dos Vice-Reis. 2 ed., 1981), no século 18. A reza é repetida até as folhas murcharem, sinalizando a cura do solicitante:

Todo mal que nesse corpo entrou,
Ar de névoa, ar de cinza,
Ar de galinha choca, ar de cisco,
Ar de vivo em pecado,
Ar de morto excomungado,
Ar de todo o mau-olhado,
Seja desse corpo apartado,
Deus te desacanhe de quem te acanhou,
Deus te desinveje de quem te invejou.

Em pesquisa sobre a nosologia, no município de Coari e no bairro Novo Paraíso, na periferia urbana de Manaus, que eu orientei, com a participação de alunos do Curso de Medicina, da UFAM, entre 1984 e 1985, presenciamos muitas benzeduras em crianças e adultos, realizadas pelos curadores da medicina-divina, também com ramos de arruda, para evitar ou curar o mau-olhado. A quase totalidade dos doentes que buscava ajuda dos agentes da medicina-divina era composta de mães que levavam as crianças desnutridas, com diarréia e diferentes tipos de desidratação.

É possível curar doenças por meio da medicina-divina


Existem na literatura alguns relatos intrigantes, gerados a partir de estudos controlados, publicados por entidades com credibilidade científica, sobre certas mudanças no curso de doenças, isto é, comprovadas regressões parciais ou totais de doenças, obtidas fora das terapêuticas da medicina-oficial.

Um dos grupos mais interessantes é composto pelas curas obtidas no santuário de Nossa Senhora de Fátima. Apesar das milhares de curas anunciadas pelos penitentes, até 1990, uma comissão independente de cientistas só reconheceu sessenta relatos como fora dos padrões científicos.

Tão importante quanto iniciar a abordagem desse assunto, é continuar indagando qual seria o mecanismo relacionado à cura ou à melhoria de quais doenças provocada pela ação dos agentes da medicina-divina. Até o momento, não há uma resposta satisfatória.

Apesar de a medicina-oficial ser a responsável pelos progressos no controle planetário de algumas doenças infecciosas e o desvendar de muitas outras, na dimensão microscópica, ainda não consegue explicar em qual dimensão da matéria viva o “normal” se transformaria em “doença”. Se é que, realmente, existe a doença como a medicina-oficial concebe.

As variáveis envolvidas nessa complexa questão são incontáveis: todas as emoções relacionadas ao que ouvimos, vemos e imaginamos são processadas no sistema nervoso central, em áreas também pouco conhecidas, enquanto o sistema imunológico, a cada instante, reage às agressões físicas, químicas e biológicas que alcança o corpo. As conjunções dos dois sistemas, estritamente integrados, fazem parte integrante da relação com o meio exterior.

Dessa forma, a medicina-oficial não tem respostas para todas as perguntas. Os agentes da medicina-oficial, com frequência, observam no cotidiano, que certos doentes portadores de determinados tipos de tumores malignos, que evoluem favoravelmente ao tratamento, ao tomarem conhecimento da gravidade da própria doença, inexplicavelmente, ocorre a piora e acabam morrendo rapidamente. Ao contrá-rio, outros que sabem da doença e lutam para viver, acabam superando os índices das estatísticas de sobrevivência.

Talvez, aqui, numa dimensão ainda não desvendada da doença pela medicina-oficial, situam-se os intrincados mecanismos cerebrais e imunológicos, induzidos pelos agentes da medicina-divina, capazes de mudar o curso de algumas doenças e em certas circunstâncias.

É relevante recordar que existe pouco espaço para a medicina-divina nas doenças curáveis pela medicina-oficial. Entre incontáveis exemplos, no braço fraturado, o conhecimento comum aponta, sem dificuldade, para a redução da fratura e a imobilização gessada. Porém, em outros grupos de doenças, nos quais a medicina-oficial é parcialmente competente, como em muitos tipos de cânceres, imunomoduladas, comportamentais e dores crônicas de diferentes naturezas, existe maior presença dos agentes da medicina-divina.

Em 1985, uma das mais respeitáveis revistas da medicina-oficial, o New England Journal of Medicine, advertiu que a suposição do poder da mente sobre a doença era folclórica. Apesar da conclusão da respeitada revista inglesa, no mínimo, precipitada, o conhecimento comum sabe ser usual que as pessoas que estão submetidas às situações angustiantes, adoecem mais facilmente, ao serem comparadas com outras sem estresses.

Mesmo sem respostas consensuais aos dois questionamentos iniciais:
– Seria possível causar doenças por meio do mau-olhado?
– Seria possível curar doenças por meio da medicina-divina?
a experiência imemorial na crença no mau-olhado, sugere que as emoções, ainda pouco compreendidas pela medicina-oficial, podem interferir no rumo de certas doenças e na saúde das pessoas.

Ilustração: Medusa, autor desconhecido.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Fantasy Art – Galeria

Prelude to a kiss.
Josephine Wall.

drops de pimenta 55

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Joca, eu estou partida. Ao meio. Rachada. Ainda não acredito que você fez isso comigo. Depois de 10 anos, Joca? Como você pode ser tão filho da puta?


(Zemaria Pinto)

terça-feira, 23 de março de 2010

Literatura e Sociedade no Amazonas


O Recorte Cultural é um evento que será realizado todos os meses pela Revista Identidade Acadêmica e Cultural na UFAM e contará sempre com convidados ilustres, que abordarão diversos assuntos.

No dia 31 de março, às 19h, teremos como primeiro convidado o escritor Márcio Souza que ministrará a palestra intitulada: Literatura e Sociedade no Amazonas.

As inscrições começarão dia 25 à tarde e se estenderão até às 20h do dia 26, em frente ao bloco de Letras da UFAM, e o investimento será apenas R$3,00. No evento haverá sorteio de livros e entrega de certificado de participação.

Para mais informações, basta acessar o site da Revista:
http://www.revistaidentidade.webnode.com.br/

Um pouco sobre o palestrante

Márcio Souza é romancista, dramaturgo e ensaísta, nasceu em Manaus, no dia 4 de março de 1946. Um dos mais destacados ficcionistas brasileiros, sua obra está traduzida em vários idiomas. Aos 14 anos, começa sua iniciação de escritor, no jornalismo, escrevendo crítica de cinema para o jornal O Trabalhista, de Manaus. Em 1966 começa a estudar Ciências Sociais, na Universidade de São Paulo. Na capital paulista, trabalhou como roteirista de cinema, assistente de direção e produtor de comerciais de televisão. Em 1973, retornou a Manaus, participando ativamente da movimentação cultural que se criou em torno do Teatro Experimental do Sesc – TESC. Nessa fase, escreveu a maioria de suas peças de teatro, trabalho que foi interrompido em 1982 e retomado em 2003.

Sua estreia como ficcionista aconteceu em 1976, com a publicação do romance Galvez, imperador do Acre. Firmou sua reputação como ficcionista, com a publicação de vários outros romances: Mad Maria; A resistível ascensão do Boto Tucuxi; O fim do terceiro mundo, entre outros. A partir de 1996, inicia a publicação de sua tetralogia, intitulada “Crônicas do Gão-Pará e Rio Negro”, da qual já publicou: Lealdade, Desordem e Revolta. No teatro, merecem destaque as peças: A paixão de Ajuricaba, A maravilhosa estória do sapo Tarô-Bequê e Dessana, Dessana. Como ensaísta, escreveu alguns textos reveladores sobre a realidade amazônica: A expressão amazonense: do colonialismo ao neocolonialismo e O empate contra Chico Mendes. Seu livro de contos, Caligrafia de Deus, mereceu boa acolhida dos leitores.

segunda-feira, 22 de março de 2010

O veneno de Zola

Marco Adolfs


O escritor Émile Zola nasceu em Paris a 2 de abril de 1840 e morreu, provavelmente assassinado, em 1902. Dizem que foi por ter inalado o monóxido de carbono de sua lareira que, segundo consta, tinha sido obstruída por pedras. Seria uma vingança daqueles que foram responsabilizados por Zola, no seu escrito J´accuse, em defesa de Alfred Dreyfus? Eles, sentindo-se atingidos pela pena de Zola, armaram, na surdina, uma forma de envená-lo? Ninguém pode afirmar ao certo. Mas, talvez esse provável envenenamento tenha começado a acontecer quando dessa sua carta aberta J'acccuse (Acuso), endereçada ao então Presidente da França, Félix Faure.

Na carta, publicada na primeira página do jornal parisiense L'Aurore, de 13 de janeiro de 1898, Zola acusava o governo francês de simples e rasteiro anti-semitismo, por julgar e condenar, superficialmente, o capitão Dreyfus, oficial do exército francês, por traição, em 1894. Nessa carta, Zola foi tão preciso, que acabou por provocar a revisão do processo e posterior reabilitação do oficial Alfred Dreyfus, em 1906.

Mas aqui, neste momento, paro. Paro para dizer que talvez o veneno de Zola não tivesse sido aquele que ele inalou, mas sim esse antídoto escrito (J´accuse) que ele inoculou nas veias de um governo fraudulento e corrupto, em busca da reabilitação de um corpo social e moral. E digo mais: que isso só seria possível partir – pelo menos naquela época autoritária e conservadora ao extremo – do mesmo escritor que criou a Escola Naturalista, já que essa corrente literária, criada por Zola, propugnava que o escritor elaborasse, não um simples romance, mas uma análise científica pormenorizada do ser humano, da moral e da sociedade de sua época, em busca de soluções, podemos dizer, científicas.

Esse era o veneno de Zola. Sua poção mágica. Seu antídoto contra a corrupção de valores naturais, vigentes dentro daquela sociedade autocrática. Após a publicação do artigo J'accuse, Zola foi processado e condenado a um ano de prisão. Não foi o primeiro sábio a ser preso (e depois obrigado a ingerir um veneno) e não seria o último. Mas, ao saber desta injusta condenação, Zola exilou-se na Inglaterra. Após a sua volta, quando já não corria o risco de ser preso, publicou, no La Vérité en marche, vários artigos sobre aquele caso.

Mas, para terminar, é preciso elucidar um pouco mais a ação literária dessa tal escola naturalista, criada por Émile Zola. O Naturalismo nasceu em 1866, com o romance de Zola Thérèse Raquin; romance de concepção inovadora, já que estava impregnado por estudos científicos e experimentais da época. Nesse romance, ele inseria teorias como o darwinismo, o evolucionismo e o determinismo científico. Na verdade, com Thérèse Raquin, romance que inaugurou a escola naturalista, iniciava no meio literário o chamado “romance de tese”. Um “estudo fisiológico e psicológico do ser humano em um contexto”, segundo Zola. Um romance naturalista, portanto. De alguém que, por conhecer a fisiologia de um corpo natural e social, poderia encontrar facilmente antídotos contra suas “corrupções”. E tanto ele propôs essa corrente que, em 1871, desenvolveu aqueles seus romances vitais para essa defesa; a série Les Rougon-Macquart, sobre os quais ele deu o subtítulo de uma história natural e social de uma família sob o Segundo Império.

Seus principais romances dentro dessa escola são: O Ventre de Paris (1873), A Terra (1887), Nana (1880) e Germinal (1885). Considerada a grande obra de Émile Zola, Germinal demonstra muito bem toda a estética naturalista. O romance descreve as condições de vida dos trabalhadores de uma mina de carvão. Para obter dados e escrever esse romance, Zola passou dois meses trabalhando e vivendo como mineiro na extração de carvão de uma mina da França. Morou com os mineiros e comeu e bebeu nos mesmos locais, para se familiarizar com seus modos de vida. Émile Zola sentiu na pele e na alma como era o trabalho sacrificante dos mineiros. Desde a dificuldade para empurrar pequenos vagões repletos de carvão, até o calor e a umidade no interior de uma mina. Viu de perto aquele trabalho enfadonho e insano que era realizado, todos os dias, para extrair o carvão. Viveu até a promiscuidade das moradias daquela gente; seus baixos salários e a fome que de vez em quando os assolava. O homem Zola conheceu a fundo a fisiologia e a psicologia daquela gente, antes de denunciar o seu sofrimento.

Zola ainda escreveu uma outra série intitulada As três cidades, sobre problemas religiosos e sociais. E, atraído pelo socialismo – posteriormente evoluindo para uma atitude messiânica e profética em relação à trajetória do ser humano –, escreveu uma terceira série, Os quatro evangelhos. Essa ficou incompleta, porque, os seus algozes, no silêncio das brumas, viam que, da chaminé em sua casa estava sempre a sair fumaça. Sinal de que o homem estava fervendo em seu laboratório particular de letras. E esses infelizes acharam que o maldito escritor talvez estivesse maquinando novos artigos compremetedores e reveladores. Então – tudo indica isso –, podem ter pensado que seria fácil matar o homem, sem provocar suspeitas comprometedoras, com aquela fumaça sendo desviada. Assim, apagariam o seu fogo.

O que eles não poderiam esperar é que os escritos de Zola se eternizariam e que ele permaneceria queimando seus artigos e livros através dos tempos. Servindo de exemplo e inspiração, sempre, para artigos e livros verdadeiros, contra as mentiras dos poderosos. Dos que acham que tudo podem. Esse J`accuse e esses livros todos, eram, portanto, os seus antídotos. O veneno de Zola. Que, até os dias de hoje, perdura no ventre desses eternos abomináveis que se arvoram como preconceitusos e donos de suas mentiras. Para eles, existem os articulistas e romancistas da verdade, com suas poções de antídotos contra a arbitrariedade.

Ilustração: Retrato de Émile Zola, por Édouard Manet (1832-1883).

domingo, 21 de março de 2010

A fuga do Curupira

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Inácio Oliveira



Ele, baixo, um metro e trinta, cabelos avermelhados, levemente envelhecido; caminha cuidadosamente pela encosta do rio. Seus pés virados para trás deixam marcas de quem está voltando, mas ele sabe que seu caminho é sem volta. A floresta deixou de existir rio acima de onde ele viera e torna-se cada vez mais esparsa por onde ele avança. Aqui as terras se elevam, ele faz um grande esforço para escalar o barranco e seguir em frente. Parece cansado e triste, tem a expressão abandonada de um anão de jardim. Suas mãos pequenas e rudes afastam de sua vista os ramos que pendem das altas árvores; ele mira vagarosamente a imensidão que se alterna entre verde e cinza, clareira e floresta. Um cão late, distante, muito distante; ele não gosta de cães, esse animal indigno que serve aos homens. Ele sabe que os homens estão próximos, é possível sentir-lhes o cheiro e ouvir o barulho das máquinas ao longe.

Desde quando a floresta começou a ser destruída, ele migra rio abaixo, a oeste. Vaga errante e sozinho, exilado do seu próprio mundo. Não sabe aonde vai. Assusta-o a perspectiva das cidades: os homens e as suas máquinas, fábricas, prédios e automóveis. Às vezes ele para – saudades de sua casa – e olha para trás como para o fim do mundo.

Já chegou a uma parte da floresta onde antes nunca fora, sente-se confuso fora de seus domínios. Teme cair em alguma armadilha que os caçadores preparam. Não sabe quando sua peregrinação terá que acabar, mas sabe que este agora é o seu destino: seguir e seguir. Nunca esteve tão sozinho, os deuses todos mortos, as lendas e as profecias já não fazem mais sentido, ele mesmo já não faz mais sentido.

O rio esta resumido a um filete d'água que corre sobre as pedras. Ele ajoelha-se e com as mãos feito concha sorve um pouco d'água que lhe refrigera o corpo dando uma sensação de alívio. Olha para os lados e um estranho verão parece entristecer a paisagem.

A tarde declina. Ele caminha em direção à planície que é um vasto campo de arroz, quem olhasse veria qualquer coisa como um espantalho ou um anão perdido no arrozal. Vivera muitos anos para saber que não deve caminhar assim pelo descampado ainda à luz do dia, apressa-se e entra novamente na floresta.

Vai anoitecer. Há uma leve inquietação que cessa assim que o sol escurece. Ele agasalha-se ao tronco de uma árvore a tempo de ver as primeiras estrelas. Faz-se um silêncio completo, é possível apenas ouvir um som inarticulado que vem de seu peito. Em noites como esta ele costumava sonhar sonhos antigos. Agora vive inquieto, perdera a paz que tinha. Seu coração está pequeno, incomoda-se ao mais leve ruído das frutas que caem sobre as folhas secas no chão.

Estante Virtual no ICHL

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Caros Leitores


Depois de revolucionar a Bienal do Livro no Rio de Janeiro com o serviço de troca de livros, vamos novamente materializar a Estante Virtual! E dessa vez não será em apenas um lugar, mas em 50 cidades ao mesmo tempo!

De 22 a 26 de março, a Estante vai ter postos de busca em mais de 70 universidades de todo o país. De Pelotas/RS a Boa Vista/RR, os stands serão pilotados por sebos, livreiros virtuais e até mesmo leitores, que se engajaram nessa divulgação, como a Samia, de Rio Branco/AC, e o Tiago, de Santa Maria/RS.

Em cada posto de busca, os visitantes vão se deparar com um desafio: descubrir um livro que não esteja no portal! Isso mesmo, o desafio agora é achar algum título que não está na Estante.

Quem conseguir realizar a proeza, preencherá um cupom eletrônico para concorrer a R$100 em livros por posto de busca. E, claro, para tornar as coisas mais emocionantes, o tempo será limitado: 1 minuto, medido por uma ampulheta (de verdade, com areia!), que será também presenteada ao ganhador, como troféu. Já quem encontrar todos os livros que procurar (o caso mais comum!) também vai concorrer a 10 vales de R$ 100 em livros, estes sorteados entre todos os visitantes, de todos os 70 stands. Os nomes dos ganhadores serão divulgados no blog no dia 31/03/2010.

O objetivo disso tudo é mostrar para todo o país que os sebos brasileiros, com acervos reunidos aqui na Estante, têm todos os tipos de livros. Ou seja, não servem apenas para se procurarem raridades, como muita gente boa ainda pensa, mas para qualquer demanda de livro. Seja ele lançado há 10 anos ou há poucos meses, seja ele um livro comum ou um best-seller, via de regra você pode comprá-lo nos sebos - e por um preço muito mais acessível do que nas livrarias!

Acompanhe na próxima semana, no blog da Estante, toda essa movimentação nacional! Vamos postar fotos e vídeos de toda a parte do Brasil. Veja também o regulamento da campanha e a lista das mais de 70 universidades com postos de busca.

Abraços aos leitores de todo o Brasil!

André Garcia
Criador / Diretor
http://www.estantevirtual.com.br/



PS: As cidades em que vamos nos materializar! Rio Branco/AC, Maceio/AL, Manaus/AM, Macapá/AP, Camaçari/BA, Salvador/BA, Vitória da Conquista/BA, Fortaleza/CE, Brasília/DF, Vitória/ES, Goiânia/GO, São Luis/MA, Belo Horizonte/MG, Juiz de Fora/MG, Uberlândia/MG, Campo Grande/MS, Dourados/MS, Cuiabá/MT, Belém/PA, Campina Grande/PB, João Pessoa/PB, Recife/PE, Teresina/PI, Curitiba/PR, Iratí/PR, Londrina/PR, Petrópolis/RJ, Rio de Janeiro/RJ, Natal/RN, Porto Velho/RO, Canoas/RS, Ijuí/RS, Porto Alegre/RS, Pelotas/RS, Santa Maria/RS, São Leopoldo/RS, Boa Vista/RR, Criciúma/SC, Florianópolis/SC, Tubarão/SC, Aracaju/SE, Campinas/SP, Leme/SP, São José dos Campos/SP, Maua/SP, Piracicaba/SP, Ribeirão Preto/SP, São Bernardo do Campo/SP, São Paulo/SP, Sorocaba /SP e Palmas/TO.

Em Manaus, a Estante Virtual se "materializará" no sebo O Alienista, do poeta-livreiro Celestino Neto, com um estande no ICHL, próximo à cantina.


sábado, 20 de março de 2010

sexta-feira, 19 de março de 2010

quase poema

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a lua está nua

e nua a rua.

meu deus!

quase poema:

a vida nua,

nua e crua.

 
(Adrino Aragão)
 
 
Fim da série de nanocontos Outras inquietações, de Adrino Aragão.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Rock pra VALER

Show das Águas - manifesto pela preservação do Encontro das Águas

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Com a participação do Grupo Imbaúba, Pereira e Candinho e Inês

Local: Mirante do Encontro das Águas (antiga Embratel), 4 km após a Escola Agrotécnica

Data: 21/03/2010 (domingo), 9:30 h

Ponto de Encontro: ônibus gratuito e comboio de carros partirão às 9:00 h do Posto BR da Bola do Coroado, com retorno às 12:00 h. Contatos: 9198-0869, 9233-9021, 9984-1256; 9114-2012

Venha se manifestar e escutar as mais belas músicas no mais majestoso cenário da Amazônia !!!

O Mirante Encontro das Águas situa-se na margem esquerda do Encontro das Águas, sobre a falésia que emerge até 90 metros acima do Rio Amazonas e que conjuntamente com um imenso afloramento arenítico constituí o Sitio Geológico Ponta das Lajes. Este belo fenômeno geológico recebeu o título de Patrimônio Geológico Brasileiro devido sua importância e raridade na Bacia Amazônica. Do Mirante, pode-se observar todo o entrelaçamento dos rios Negro e Solimões que constituem o Encontro das Águas que formam o Rio Amazonas. Tem-se também uma visão privilegiava da Ilha do Careiro da Várzea, da Ilha do Marapatá, na foz do rio Negro, até a ilha Xiborena, lago Catalão, e Lago dos Reis, que juntamente com as embarcações regionais formam uma das paisagens mais paradisíacas da Amazônia.

Objetivos do Show das Águas

Sensibilizar a sociedade sobre a importância da preservação do Encontro das Águas e de seu tombamento como Patrimônio Cultural e Natural.

Denunciar os riscos socioambientais que o Porto das Lajes representa e a degradação provocada por portos clandestinos, estaleiros, Indústrias do Distrito Industrial e esgotos na região do Encontro das Águas e cobrar das instituições competentes projetos de recuperação.

Produzir uma boa fotografia do movimento SOS Encontro das Águas, tendo como fundo o majestoso Encontro das Águas dos rios Negro e Solimões.

Propiciar uma agradável manhã com belo cenário, manifestações culturais e excelentes músicas dos artistas Celdo Braga e Grupo Imbaúba, Pereira, Candinho e Inês.

Obs. Haverá venda de CDs e DVDs dos músicos que estarão cantando voluntariamente pela preservação do Encontro das Águas.

(Movimento “SOS Encontro das Águas”)
Em virtude das fortes chuvas que caíram no último dia 06, no Rio de Janeiro, o evento com exposição de pinturas e lançamento do livro Varanda do Pensamento, de Arnaldo Garcez, foi transferido para a próxima sexta-feira, 19 de março.

A coisa sagrada: o corpo da medicina popular

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João Bosco Botelho



Por nove dias, as setas do deus dizimaram o exército... Filho de Atreu, quero crer que nos cumpre voltar para casa sem termos nada alcançado, no caso de à morte escaparmos, pois os Aquivos, além das batalhas, consome os a peste. Sus! Consultemos, sem mora, qualquer sacerdote ou profeta, ou quem de sonhos entenda – que os sonhos de Zeus se originam – para dizer nos a causa de estar Febo Apolo indignado: se por não termos cumprido algum voto ou, talvez, hecatombes, ou se lhe apraz, porventura, de nós recebermos o perfume de pingues cabras e ovelhas, a fim de livrar nos da peste. (Homero,Ilíada, I, 53).

A análise histórica das metáforas da coisa sagrada, tanto nas práticas sociais e políticas dominantes quanto nas periféricas, é indispensável para compreender o conflito de competência entre a Medicina e a religião. Esse segmento do texto de Homero retrata com clareza esse conflito: com a medicina incompetente para curar os pestilentos, restou a ajuda de Zeus.

Essas práticas nos enviam, a cada momento, às incontáveis metáforas da coisa sagrada como parte das expressões e crenças religiosas populares desvinculadas das rígidas estruturas hierárquicas da igreja católica. Sob essa perspectiva, é possível entender alguns móveis de como e por que os curadores, adivinhos, magnetizadores, feiticeiros e benzedores nunca cessaram de receber os consulentes.

Por esta razão, o repensar do binômio “curas-coisa sagrada” suscita contínuo interesse das academias que evitam os compromissos monolíticos com a lógica das concepções científicas, porque a cura mágica ou milagrosa, que interliga o pedinte à coisa sagrada, parece tratar-se de uma forma de credulidade. O processo reprodutor desse fenômeno social passa, necessariamente, pela crença pessoal ou coletiva no poder de curar exercido pelas coisas sagradas. Deste modo, a coisa sagrada é, antes de tudo, aquilo que cura.

A disputa trançada entre essa medicina popular, amparada na coisa sagrada como instrumento de cura, e a medicina construída nas universidades, raramente vem à tona despida de paixões, ora em defesa, ora atacando violentamente uma ou outra. Como consequência desse embate, a importância social da medicina popular é diluída na polarização de uma luta de poder em torno da cura, que pode ser simbolizada na mesma essência de Apolo e Dionísio, onde a medicina universitária se confronta com a religião medicina.

Esse conflito se caracteriza como uma história de longa duração. As mensagens rupestres, nas paredes das cavernas, quando associadas aos dados da paleopatologia, deixam entrever, mesmo aos mais céticos, que as práticas de curas e as expressões de religiosidade estariam atadas e dependentes. É possível que a total ignorância para evitar a morte após os traumas severos, na pré-história, principal impedimento da vida, contribuiu para que fosse iniciado, num determinado momento, o processo de divinização do desconhecido. A doença e a saúde, a vida e a morte passaram gradualmente a fazer parte de um mundo exclusivo das divindades e dos seus representantes, os sacerdotes, capazes de interpretar e manusear a coisa sagrada.

A questão que relaciona a coisa sagrada à religião foi analisada por Croce que negou a independência de uma “categoria religião” e a considerava como subproduto da “categoria moral”. Por outro lado, Otto se esforçou para demonstrar a realidade da experiência pessoal com o sagrado como fundamental para qualquer religião e Gramsci desconsiderou qualquer conceito de religião sem a correspondente relação cultural entre o indivíduo e a coisa sagrada. Os estudos gramscianos colocaram a religião como integrando uma concepção da vida cotidiana contida no conjunto ideológico ligado à ética e por isso contribuindo, em certas circunstâncias, para que o homem aceitasse as desigualdades sociais.

Os dois pressupostos – a existência da coisa sagrada nas crenças religiosas como instrumento de cura e a religião mantendo diversos níveis de conflito com outras categorias na busca da saúde –, contribuíram para estruturar pensamentos e atitudes pessoais e coletivas que conduziram o Homem, no duplo papel de executor e objeto das práticas de curas, para enfrentar o determinismo da morte.

Também por essa razão não é adequado entender a religião como Portter: “A religião foi a mãe das ciências e das artes...”, mas ampliar o horizonte dos debates em Jung, que fundamentou a confissão religiosa na transformação provocada pela experiência pessoal do “numinoso”, seguida da fidelidade à coisa sagrada.

Foram feitas várias tentativas para trazer a origem do atual conceito de religião a partir das palavras latinas “relegere” e “religare”, porém todas são passíveis de críticas, já que esses termos latinos não tinham o atual sentido. Parece que indicavam um conjunto complexo de regras e interdições não relacionadas à coisa sagrada.

Não é interesse deste ensaio discutir todas as representações simbólicas e metafóricas das crenças religiosas, mas é importante relembrar que diferentes formas de ideias religiosas estão presentes na maioria esmagadora da população do planeta, entre a qual também predominam entendimentos das doenças e da morte atados à coisa sagrada.

Os livros de medicina e religião não pararam de ser escritos, de geração a geração, para além dos sistemas de valores de referência e de interpretações aos quais se ligam. Até um passado recente, a maior parte tecida nas histórias lineares quantitativas, onde as estruturas das mentalidades foram seguidamente pouco valorizadas. A literatura que trata dos mesmos temas, nos últimos quarenta anos, por meio da Nova História, se afastou dessa postura pouco crítica e se enriqueceu nos trabalhos associando as práticas religiosas e as coisas sagradas ao conjunto social.

Os progressos teóricos e práticos para melhor entender os movimentos sociais e políticos alcançados pela Nova História, especialmente, na História das Mentalidades, estão se fazendo de modo concreto e contínuo, inclusive no que diz respeito às abordagens da história da medicina e da doença, antes exclusivas dos relatos factuais e épicos pessoais.

Nesse mesmo contexto estão situadas as tentativas atadas à busca dos elos perdidos da inserção da coisa sagrada na medicina popular, que deve estar necessariamente contida no cotidiano das relações sociais.

Nessa trilha, existem evidências muito antigas da associação da coisa sagrada com a cura de doenças e com a luta ancestral para vencer o determinismo da morte. Uma das mais significativas é a data da comemoração do dia do médico – 18 de outubro – que corresponde, na mitologia grega, à época em que se celebrava a festa do filho de Apolo, Asclépio, o mais importante deus curador do panteão grego. Pela importância da festa nas tradições populares da antiguidade, o cristianismo acabou provocando o sincretismo e manteve o mesmo registro festivo, no calendário cristão, para marcar o nascimento de São Lucas, o Evangelista médico.

No intervalo de tempo entre o início e o fim da vida, tanto no passado distante quanto no presente, homens e mulheres sempre conviveram com a certeza da doença e da morte. Nas poucas dezenas de anos que conseguem viver, utilizam a maior parte do tempo na procura incessante do conforto (conjunto de situações, de lugares e coisas que dão prazer, protegendo do frio e do calor, prolongando a vida e mantendo a saúde e combatendo a doença). Nessa intrincada busca, é possível que o Homem tenha elaborado sistemas complexos de justificativas para o desconforto predominante, facilmente perceptível no cotidiano da maioria (frio, fome, doença e morte) e, a partir de época impossível de precisar o início, projetou a coisa sagrada para sustentar a busca do conforto perfeito requerido por todos na imaginável vida depois da morte.

Pode ter sido essa epopeia – edificada na luta contra a dor e a morte inevitável –, na pré-história, um dos principais fatores que contribuíram no aparecimento da especialização que ungiu a procura sistemática do conforto e da saúde ligada à coisa sagrada. Nessa época remota, os registros neandertais demonstram que nessa fuga da dor e da morte já utilizavam: cavernas para proteção contra as intempéries da natureza gelada, fabricavam utensílios de pedra e osso, usavam o fogo domado e, da maior importância na compreensão da presença da coisa sagrada nas curas, praticavam o sepultamento ritualizado dos seus mortos, enterrando-os com as cabeças voltadas ao leste, acompanhados de generosas porções de carne e de instrumentos de caça e pesca. Mesmo com esses artefatos pré-históricos, fisicamente identificados, infelizmente só é possível supor a existência da crença neandertalense no renascimento após a morte, portanto, muito antes do aparecimento da espécie sapiens.

O genial historiador Mircea Eliade atribuiu essa dificuldade da demonstração material desse sentimento – a esperança da vida após a morte – ao fato de que as crenças e as idéias não são fossilizáveis.

O imaginável renascimento após a morte – a mais significante de todas as coisas sagradas –, que cura todas as doenças e prolonga a vida ao tempo infinito, é o alicerce que mantém vivo o conflito de competência entre a medicina e a religião.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Fantasy Art – Galeria

Pandora.
Dorian Cleavenger.

drops de pimenta 54

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─ Surpresa!

─ ...

─ Flores...

─ Que aconteceu? Viu passarinho verde?


(Zemaria Pinto)

segunda-feira, 15 de março de 2010

A tentação de Flaubert

Marco Adolfs



O escritor francês do século XIX Gustave Flaubert escreveu pouco, mas atingiu o alvo do que pretendia, revelando um pouco da estupidez humana daquela vida que via e vivia. Revelando as tentações que assolam todo ser, ele revelava as suas. Numa reação ao romantismo sonhador, Flaubert jogou as cartas do realismo na cara de uma burguesia hipócrita e de um provincianismo cego. Cínico, irônico e visionário, ele viu naquela sociedade burguesa que se formava no século XIX, o embrião da dissolução moral e fragmentária que se instalaria de forma definitiva e como verdade quase absoluta, nos séculos XX e XXI, no seio das sociedades consumistas. Era o vazio sendo preenchido pelas novas necessidades estampadas nas ruas. Era a necessidade de escape da alma, aprisionada no tédio de uma província do interior. Necessidades burguesas chamativas e necessidades provincianas clamativas. Quando Flaubert então tocou nas feridas que via, o governo francês da época resolveu levá-lo a julgamento. Acusado pelo seu romance de estréia Madame Bovary (1856) – considerado um livro “execrável sob o ponto de vista moral” –, Flaubert teve que puxar para si a defesa de uma mulher que traiu o marido (assunto do livro), já que os juízes queriam saber quem tinha sido a pessoa na qual ele teria se inspirado para compor a personagem. Quando respondeu “Madame Bovary sou eu!”, ele desnudou ainda mais os aspectos burgueses e provincianos atacados. E disse uma verdade que viveu na pele, já que era filho de um provinciano rico. As tentações de Emma Bovary eram também as dele.

A estória de Emma Bovary, que trai o marido como uma tentativa de escapar da vida medíocre e tediosa que vivia, revela as tentações de fundo criativo (a imaginação do outro) que todo ser humano, homem e mulher, sofrem para escapar da insatisfação e da mediocridade. Uns fogem através do corpo; outros, através da alma. Ou das duas formas, simultaneamente. Emma, sucumbindo à tentação, entregou o corpo como veículo para a sua alma ansiosa. Ela poderia estar se iludindo, mas escapava. Flaubert entregava a sua alma (como escritor) para fugir também, sucumbindo à tentação de ter que revelar tudo isso através da sua escrita. Madame Bovary é o romance de um amor impossível que é deflagrado por uma sensação de que algo estava mudando naquela província e no mundo do escritor. Uma mudança provocada pelos novos tempos e suas inerentes tentações de rompimento com um mundo velho. Quando Flaubert escrevia sobre o drama de Bovary, ele sentia que estava provocando também um escape literário profundo.Uma transcendência na literatura que iria provocar um rompimento em prol do realismo exacerbado e do modernismo iminente das outras gerações. Se a burguesa provinciana predominava, Emma Bovary havia encontrado uma saída através do exercício lascivo de traição a esse mundo. E Flaubert, agarrado à saia dessa madame, vinha experimentando, por seu turno, uma literatura de rompimento com este mesmo mundo. Nada é mais necessário para uma alma que se deseja livre do que escapar de uma província. Mesmo que seja uma província literária. E olha que muitos de nós até hoje tentamos isso. Mas, para se entender essa tentação de Flaubert, de não só ser uma Emma Bovary revolucionária, mas também um escritor de tiro certeiro no escape perfeito, é preciso fazer-se uma aproximação de suas outras obras literárias. Obras próprias de quem sentia-se preso a um destino provinciano odioso e constantemente criticado, volto a repetir. Flaubert propalava aos quatro cantos que era um estudioso da estupidez humana, colecionando episódios de insensatez e burrice. E, segundo ele, a estupidez era mais visível na província.

Na sua obra A tentação de Santo Antão (1874), essa inteligência limitada também foi tema. O livro é uma alegoria da alucinação de um ser humano que deseja a santidade. Onde o deserto, no qual vagueia o pretenso santo, fica repleto de “personagens” ou “fantasmas”. Antão busca a perfeição de um santo enfrentando os seus demônios internos, a Luxúria e a Morte (na verdade Eros e Tanatos). Flaubert e a personagem Bovary também enfrentavam isso. Se as projeções mentais de Antão fazem a sua loucura de santo; as projeções mentais de Flaubert fazem a criação do autor. O desejo de Flaubert era ser não só Emma Bovary, mas também Santo Antão. Ser Emma Bovary é ter a liberdade da vida luxuriante. Ser Santo Antão é ter a liberdade de uma ascese purificada. Como todo escritor percebe quando escreve, esse é o motor que os move. Para Flaubert, ao dizer ser Emma Bovary, tornava-se, naquele momento, uma metáfora de alguém que procurava ressuscitar uma literatura morta. Era extremamente urgente (como hoje, caros escritores e leitores amigos) fugir-se das garras de um provincianismo tacanho. De um regionalismo da alma que nos tolhe como uma cerca enraizada (imposta constantemente) em torno de uma memória que funciona em um circulo vicioso. Um eterno e circular olhar para o próprio umbigo; presos a raízes profundas de árvores mortas. Entre a luxúria e a morte, como as tentações de Santo Antão em seu deserto, devemos optar pela liberdade. A grande tentação a ser realizada por um escritor (e leitor) deve ser a mesma de Emma Bovary e Santo Antão: fugir de seus fantasmas e algozes, tornando válidos todos os meios para atingir-se a libertação.


Ilustração: Baudelaire e Flaubert, ambos censurados – caricatura de Baptistão.

domingo, 14 de março de 2010

Inventário em tempo sobre meu pai (3/3)

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Allison Leão

III


O Cemitério Luso-Brasileiro de Petrópolis estava muito bonito, mas lhe faltavam os mortos. A densidade demográfica do bairro, bem como sua taxa de mortalidade, ainda não eram suficientemente favoráveis aos interesses de papai. E, além disso, as pessoas ainda desconfiavam da ideia de ter tão perto seus mortos. Nas vezes em que havia um óbito, papai ia até a casa da família do morto e oferecia seu pacote: transporte – papai adquirira uma carroça –, ornamentos, choro, velas. Mas a desconfiança vencia e o enterro se dava no Santa Helena ou no São Francisco, que também era muito distante, no bairro de São Lázaro.

Papai não dormia mais em casa. Passava as noites no seu cemitério. E quando sentia o cheiro da morte saía à cata de quem tivesse falecido. Quando chegava à casa onde se velava o defunto, papai não oferecia mais os serviços. Ficava pelos cantos do velório, calado. Sua presença já significava sua proposta. Quando muito se propunha servir café para as poucas pessoas que na alta madrugada permaneciam a velar o morto. Ele, papai, não arredava pé do velório. Fitava o defunto com um misto de afeto e desejo.

Essas poucas pessoas foram ainda muito menos quando morreu Seu Sahde. Lá estava papai cercando o caixão quando a mulher do turco lhe disse que o enterro, por recomendação do próprio marido, deveria ser feito no Cemitério Luso-Brasileiro de Petrópolis. Desde que o desconto fosse mesmo muito bom. De tão feliz, papai quase deixou que saíssem de graça seus serviços. De manhã cedo, soltou fogos, distribuiu cumprimentos a todos os que – e a maioria foi de curiosos por ver o cemitério – compareceram ao enterro de Seu Sahde.

O bairro, a princípio, dividiu-se. Uns achavam que de fato o preço compensava o incômodo de ter seus mortos tão perto. Ora, se até o miserável do Seu Sahde havia pedido para ser enterrado no cemitério de meu pai... No entanto, uma grande parte dos moradores de Petrópolis não gostava dos métodos pouco ortodoxos de papai: soltar fogos e demonstrar alegria não combinava com a tristeza de espírito que comumente estampamos ante a morte. Os que discordavam de papai, por uma infeliz coincidência, eram justamente os que menos morriam, e, ficando vivos, tinham incontestável poder de decisão sobre os mortos, optando por sepultá-los sob os tradicionais métodos, nos longínquos cemitérios. Papai começou a amargar seu ostracismo fúnebre.

Mas não desanimou. Nos anos seguintes acompanhou todos os enterros da cidade. A qualquer cemitério. Em um mesmo dia chegava a ir a quatro, cinco enterros. Ia na sua carroça, sempre levando os inseparáveis cadernos e lápis. Enquanto o padre ou o pastor dizia as últimas palavras a respeito do defunto, lá estava meu pai, aplicado, disciplinado, sem perder um lance do evento. Havia se desligado completamente da família. Passou a morar em seu cemitério. Entrava e saia do cemitério pelo lado oposto ao da casa, na rua de trás. Não lhe ocorria como a mulher estava se virando para sustentar os filhos. Se bem que da vida de minha mãe eu sei tanto quanto meu pai a sabe. Mas um dia, ela simplesmente me entregou dinheiro e pediu que eu o contasse, que registrasse a quantia, fizesse os cálculos das despesas, acompanhasse os gastos, comparasse com o orçamento e no fim do mês prestasse contas a ela. Ao que parece, ela já se cansava bastante em seus afazeres profissionais, os quais desconheço. Meus irmãos também têm lá suas tarefas. Tornei-me, portanto, o escrevente da casa. E assim, mesmo sabendo pouco sobre os acontecimentos subterrâneos de minha família, sou eu quem lhes registra ao menos os da superfície.

A meu respeito, sobre meu nascimento sequer, papai não chegou a tomar nota. Não soube de meus olhos azuis e meus cabelos claros, que nada condiziam com seu semblante de mestiço nem com o de mamãe. Certamente, se um dia tivesse me visto, relacionaria isso ao fato de que agora ele era um grande empresário e que sua verve europeia finalmente se estampava em seus descendentes. Consta que entre os ibéricos da Galícia não era raro o nascimento de loirinhos sardentos.

* * *

Conforme já escrevi, mamãe, talvez num dia de lembranças boas ou más, quando eu ainda era muito pequeno ou um pouco antes de eu nascer, deu fim a todas as fotos de meu pai. E também quando eu era criancinha fechou a última passagem que dava acesso ao cemitério. Mas antes já havia proibido a cada filho que tentasse ir visitar papai. Disse-nos que papai enlouquecera e que se fôssemos lá ele nos enterraria vivos.

Às vezes, à noite, durante toda a minha infância e agora na minha juventude, ouço os golpes da picareta ferindo a terra. Ninguém sabe o que papai faz por lá, já que, até anteontem pelo menos, os únicos enterros que seu cemitério havia recebido haviam sido o de meu irmão e o de Seu Sahde, o que já faz muito anos. De dia papai saía, lia os necrológios e ia aos enterros, ainda com caderno e lápis. As pessoas não se importavam. Papai passou a ser visto como um louco. Ninguém entendia que ele era um visionário. Foi convidado a ser coveiro, dado estar sempre sujo de terra e conhecer como ninguém os funestos procedimentos. Papai sorriu ironicamente do convite e apenas disse, sou um empresário. E estas foram suas únicas palavras nos últimos anos. Papai, depois que se entregou a seu negócio, tornou-se homem de não falar. Isolou-se no seu silencioso mundo. Ao redor de seu cemitério, ergueu uma altíssima cerca viva, feita de tucumanzeiros justapostos. O tronco espinhoso das palmeiras sempre impediu a entrada de qualquer curiosidade. Não há quem conheça os segredos de meu pai.

Mas ontem de manhã cedo uma parte deles entrou em nossas narinas. O Petrópolis amanheceu com o miasma mais podre que nem se pode imaginar. E nas proximidades do Cemitério Luso-Brasileiro eles eram ainda piores. Não foi nada difícil ligar uma coisa a outra: naquela madrugada os demais cemitérios de Manaus tiveram túmulos violados. Todos os corpos enterrados desde aquele longínquo dia em que papai acompanhou o primeiro enterro de caderno em punho haviam desaparecido. Os anteriores a isso, papai os desprezou.

A polícia e os técnicos compareceram ontem à nossa casa para verificar se procedia a suspeita de papai ter furtado os cadáveres, os ossos e o pó que lhe interessavam. Procuraram uma portinhola por onde papai entrava e saía do seu cemitério, mas ela havia desaparecido. Encontraram apenas a carroça de meu pai, e sem o fatigado cavalo que o acompanhara esses anos todos. Mamãe relutou em permitir que se reabrisse a passagem há tantos anos por ela fechada. Mas os homens lá estavam sob ordem de lei, e mamãe nada pôde fazer.

O odor era insuportável. Mesmo de máscaras, os mais sensíveis desmaiaram. Os que permaneceram de pé não criam no que viam e no que não viam: um belo campo limpo, bem cuidado, aqui e ali pitombeiras-machos e palmeiras exóticas e regionais. E mais nada. Além das bem zeladas lápides de meu irmão e de Seu Sahde, com o mármore como que novíssimo, não havia nenhum outro túmulo ou vestígio dos mortos sequestrados – a não ser o putrefato odor persistente corroendo a atmosfera. Mas a terra sequer revirada estava: um extenso gramado cobria o solo do cemitério. Um dos técnicos sugeriu que se trouxessem as escavadeiras. Mas um outro prudentemente observou que a quantidade de metano no ambiente poderia causar uma enorme explosão, se uma faísca se fizesse. Decidiram então isolar uma grande área do bairro. Evacuaram a população, que fugiu tapando o nariz.

Fizeram perguntas a minha mãe, a meus irmãos e a mim sobre meu pai. Mamãe e meus irmãos só souberam responder o que toda a vizinhança sabia sobre meu pai: quase nada. E eu nem isso. Flagrei-me assim, sem saber nada de meu pai. Sem ter convivido de fato com ele, nunca lhe dei falta. Acostumei-me a sabê-lo só pelo som surdo das inexplicáveis picaretadas.

Os técnicos resolveram dinamitar o Cemitério Luso-Brasileiro de Petrópolis. Uma explosão controlada. Se papai estiver escondido com seus mortos por lá, vai pelos ares junto com eles. Eles já estão mortos mesmo e papai é um criminoso perigoso, dizem as autoridades, mais perigoso que um homicida, porque é como se ele tivesse matado todas aquelas pessoas mais uma vez.

Pedi que me deixassem aqui uma última noite. Fiquei atento aos sons que pudessem vir do cemitério, mas foi a noite mais silenciosa que já presenciei na minha vida. Assim tive tempo de compor este inventário em tempo sobre meu pai. Parei várias vezes e fui olhar o cemitério através da passagem reaberta. Mas está tudo tão calmo, como em qualquer cemitério.

Onde estará meu pai? Vizinhos cogitam que, por debaixo do Cemitério Luso-Brasileiro de Petrópolis, papai tenha construído outro e outro e outros cemitérios. Porque só assim caberiam lá os 40 mil mortos desaparecidos naquela madrugada. Mas os vizinhos têm imaginação muito fértil. Ainda assim, fico na dúvida.

Amanhece o dia. Ouço os sons dos técnicos que se aproximam.

sábado, 13 de março de 2010

sexta-feira, 12 de março de 2010

GLAUCO ASSASSINADO!

O cartunista Glauco Villas-Boas, 53, e seu filho Raoni, 25, foram assassinados a tiros, dentro de casa, em Osasco, nesta madrugada.













Geraldão.
Dona Marta.


Casal Neuras.

Geraldinho.

A revista do Geraldão.

o rosto

.


do outro lado da calçada, as crianças cirandavam, quando ele tentava atravessar a rua. ao ver que se aproximava, saíram correndo. mas o rosto do velho gordo, de barba branca, permaneceu na calçada, indiferente, desafiador.

deteve o ímpeto de esmigalhar com o pé aquele riso irônico, que o atormentava desde a infância, de menino que não conhecera o pai. decidiu deva-lo para casa, pendurá-lo na parede do quarto.

assim, todas as noites, antes de cair rendido pelo cansaço, xingava aquele rosto contraditoriamente venerado e odiado.

um dia, o rosto libertou-se do escárnio a que lhe impusera, durante muitos anos. foi quando descobriu o quanto estava preso àquele rosto, de riso aparentemente irônico. uma nova e estranha solidão o abateu, devorando-lhe as entranhas.


(Adrino Aragão)

quinta-feira, 11 de março de 2010

Antologia Meninos ME – Superando as segmentações de Gênero

Leonardo de Magalhaens

Uma das questões que ameaçam a universalidade das Poéticas é a segmentação de mercado – por faixa etária, gêneros ou rendimentos – quando um determinado público é 'alvejado' por um determinado grupo de autore/a/s, que pretendem 'fidelizar' os consumidores, digo, os leitores.

Assim, surgem as literaturas infanto-juvenis, as poesias para crianças, ou para 'terceira idade', ou então criam uma poesia mística (que encontramos nas prateleiras de 'auto-ajuda'), para melhor agradar ao público – isto é, melhor segmentar os 'públicos-alvo' do Mercado voraz e insaciável. Criaram uma poesia religiosa, mas também uma poesia erótica, ou poesia para mulheres, ou poesia para rebeldes de plantão. Assim, perde-se uma 'universalidade' que poderia englobar vários leitores, para enfim possibilitar uma real comunicação.

Esses 'nichos de mercado' sempre atraem com facilidades. Iguais aos grupos de 'redes de relacionamento na internet' segmentados em 'comunidades' de gostos/estéticas semelhantes, para reverenciarem autores semelhantes e cultivarem interesses (de consumo, principalmente) semelhantes. Assim, vários já escrevem para um 'determinado público' e esquecem que a Poesia não é apenas para X ou Y, mas para a comunicação (se possível for...) entre X e Y.

Não faz sentido falar de uma poesia para mulheres, ou para homens, ou para homossexuais, ou para heterossexuais, ou para religiosos, ou para materialistas, ou para punks, ou para neo-hippies, etc., pois estes 'públicos-alvo' ou 'segmentações de mercado' não passam de 'compartimentos estanques' que se auto-referenciam e giram no vazio. É como se cada grupo falasse uma 'língua' diversa. O que lembra muito o 'discurso acadêmico' que só é falado por acadêmicos e entendido por acadêmicos.

Não me interessam segmentações. Daí que eu não escreva para 'acadêmicos'. A minha escrita pretende fugir dos muros da faculdade – lugar onde um monte de acadêmicos escrevem para outros tantos acadêmicos, desprezando um tal 'senso comum' e queimando incenso uns para os outros. Tal qual aqueles bons velhinhos no chazinho das cinco horas na Academia Brasileira de Letras (ABL), trocando gentilezas e elogios afáveis, em autoglorificações, julgando-se 'imortais'. A minha crítica pretende dialogar. Infelizmente, poucos concedem um minuto de atenção.

Tudo isso é para apresentar uma Antologia de Autores organizada por uma poeta de expressão feminina e feminista, Tânia Diniz, com militância de 20 anos em movimentos sociais e culturais, que recentemente abriu espaço no seio da Poesia Feminina para a Poética dos 'meninos'. Claro que antes eu devia até pensar que “Mulheres Emergentes” era outra 'segmentação de mercado', onde autoras escrevem para um 'público feminino', um “clube da Luluzinha”. Com esta iniciativa, a Mulheres Emergentes derruba todas as dúvidas e desconfianças.

Na Antologia Meninos ME encontramos toda uma diversidade de estilos e autores, onde destacamos, de pronto, os nomes de Ronaldo Zenha, Sérgio Bernardo, Lucas Guimaraens, Zemaria Pinto e Lucas Viriato. Intelectuais, profissionais liberais, parentes de poetas famosos, exemplificam uma diversidade de Escrita que marca a Literatura pós-anos 60, a chamada 'pós-modernidade'. Nenhum foco, ou discurso, ou 'movimento vanguardista', mas uma multiplicidade de discursos 'atirando pra todo lado'.

Muita intertextualidade e metalinguagem. O que não faz um curso de Letras? Lucas Viriato, jovem intelectual pretende 'dialogar' com Julia Kristeva (que pretendia 'dialogar' com Bakhtin, cultuado pelos nossos queridos professores). Eis o poema “Efeito Kristeva” (p. 33),

o centro move-se com o sujeito,
Não há verdade absoluta.

E

A intertextualidade
É mais do que a aceitação dos limites humanos
E o fim de suas pretensões metafísicas,
Ela é a chave para uma nova consciência,
Uma nova metafísica.

O 'dialogismo' de Bakhtin hoje é ferramenta-de-mil-e-uma-utilidades (H. Bloom que o diga...) e o excesso de metalinguagem da poesia 'pós-moderna' é uma prova clara desta 'síndrome da influência' (explico: prefiro 'síndrome' a 'angústia', pois ressalta algo doentio, enfermiço) que contamina os autores sem nada a dizer (então falam sobre o ato de escrever).

Temos ao lado a tradição. O acadêmico Lucas Guimaraens, bisneto do poeta-ícone do Simbolismo mineiro Alphonsus de Guimaraens (que muito me influenciou no meu debut poético, não é sem razão que eu grafo 'de magalhaens'!), aqui compartilha conosco nove peças de sua autoria. Há todo um diáĺogo com a tradição decadentista, que pode ser resumida com versos tais, “Os poentes sepulcrais do extremo desengano / Vão enchendo de luto as paredes vazias, / E velam para sempre o seu olhar humano.” (in Kiriale, 1902)

Diálogo que se apresenta em “Alphonsus de Guimaraens Filho” (p. 24) quando o autor vai folhear a obra do avô,

folheio seus livros e páginas dissolvem
no palpar de meus dedos como doce em minha boca
seus poemas osmoticamente não são mais matéria,
estão em mim eu os vivo e me torno mais humano.
Os poemas vivem homem vivem humanizando

Referências aos nomes ícones da tradição modernista – João Cabral de Melo Neto, os Andrades, Mário e Oswald – mostrando que o próprio 'modernismo' foi 'diálogo' com outras vanguardas – ou 'antropofagia', como preferia o exaltado Oswald.

(ao francês explico que nordeste se encontra entre vida e
morte, mas João Cabral não é traduzível).
Em São Paulo chão é asfalto de pau
de arara.
Mário, Oswald,
de onde veio esta força em piadas
se trânsito não permite atropelar realidade?
(“São Paulo”, p. 27)

Como todo bom intelectual, adepto de 'dialogismos' e 'interdisciplinaridades', o poeta aqui usando Foucault para ficar 'em cima do muro', pois na moda intelectual hoje em dia é assim: nem Sartre, nem R. Aron, nem Fidel nem Tatcher, 'nem direita nem esquerda', mas 'democrata', 'terceira via', 'centrão'. Claro, vamos admitir, hoje todo mundo é 'democrata'... Terroristas e torturadores abraçados, em lágrimas, sob a flâmula da Democracia...

Foucaultidianamente
nem esquerda nem direita
dar voz às vozes
(“Foucaultidianamente”, p. 28)

Realmente não se pode confiar nos intelectuais. São capazes de destruir qualquer Conceito (logo após terem acabado de inventar o mesmíssimo!) A desconstrução da Linguagem é outra das 'balizas' pós-modernas, com estruturalismos e desconstrutivismos (pesquisem na Wikipédia, please...) pululando nas Cátedras. Tem filosofias e filósofos para Metafísica nenhuma reclamar. Um excesso de Metáforas para a Existência – desde que dê lucro para alguém (ou corporação, claro).

Daí as Palavras já não terem muito valor. Banalizadas, vão cair nos dicionários e enciclopédias, vão importunar os estudantes de Etimologia e Gramática Tradicional. Afinal, usamos e abusamos de 'palavras alheias' para representar os nossos (catalogados) sentimentos,

Nem palavras.
Apenas sentimentos de palavras
alheias: troco dos avessos
dos vazios homens que angustiam
no ar impossiblidade factual de ser o outro.
(p. 29)

Vivemos desconfiando da Linguagem desde Nietzsche e Wittgenstein, vivemos com 'a pulga atrás da orelha' com a impossibilidade de alcançar a Verdade, porque a Filosofia se faz com Palavras – e a Palavra mente, falseia, engana. Mas o poeta não pode deixar de poetizar as polêmicas filosóficas, assim como o filósofo 'estetiza' a liberdade (“ah, liberdade quantos crimes se cometem em teu nome!”, disse a madame diante da guilhotina) lidando com os frutos do “galho da sabedoria” e sempre “ruminando limites nas verdades” (p. 31), para ceder espaço a mais um pouco de intertextualidade, com as velhas referências (como poderíamos esquecer o nosso guru CDA?)

No rumo de casa José colheu a rosa no asfalto.
Imediatamente rosto em lágrimas
braço trôpego alcançou
seu desejo insaciadamente beijado.
(“Passagem”, p. 32)

Assim o desastrado gauche José de “E agora, José?” pula fora do poema e vai colher a flor de “A Flor e a Náusea” onde uma flor (mesmo que feia) vem romper o asfalto do cotidiano e propiciar a 'epifania' ou o 'insight' poético.

Adiante. Os três poemas de Ronaldo Zenha (Boa Esperança/MG) – pp. 43-45 – variam entre o simbólico e o político, o imagético e o saudosismo, quando o poeta recorre ao 'fraseado' de slogans políticos (o que mais lembra algo do tipo: “A liberdade venceu a violência” ou “A justiça venceu o escárnio” ou ainda “A coragem venceu o medo”?), numa leitura que parece irônica – mas então lançamos o olhar à dupla dedicatória “ao povo de Betim / a Maria do Carmo Lara” - e de repente o poeta pode estar falando śerio?! Mas uma leitura séria deste poema coloca em dúvida a sanidade mental do Eu-Lírico (para não dizer do Poeta, e correr o risco de ser processado...) Tive a infelicidade de viver em Betim, de 2003 a 2008, e não tenho saudades. Período posterior ao da citada prefeita, que retornou recentemente. Uma política de cima para baixo, 'trabalhista' ou não, não resolve nada. O povo betinense é despolitizado como qualquer outro. Vive na pobreza, num dos municípios de maior arrecadação no Estado!

O poema “jacumã” é para se ouvir ao som de rock progressivo (pelo menos eu ouvi assim...) e é um convite à viagem. Tal qual um bom rock viajante faz a gente se abstrair da realidade do 'asfalto cotidiano' – numa experiência semelhante aquela de ler os Arcadistas nos prados e colinas de Ouro Preto ao entardecer – num momento de 'lirismo enquanto escapismo'. Daí as imagens do interior/sertão idealizado.

O vento e a chuva, a lavar a alma dos viajantes que passam
por uma interminável vereda.
Navego por esse mar de montanhas, naufragando meus olhos
na mais pura e límpida gargalhada de amor.

e finaliza

São os vales do meu Sertão que me fazem assim...
jacumã das embarcações aladas...
colibri do mato, horizonte aberto...
(p. 45)

leiam também de Ronaldo Zenha: http://www.tanto.com.br/ronaldozenha-navegar.htm

Folheando, encontramos o interessante poema em prosa (ou prosa poética) “Atrasa o trem na estação de Bergen” de Sérgio Bernardo, onde a narrativa vai tecendo e entretecendo sensações – coisa de poesia! – e apresentando um acontecimento, delineando uma estória – coisa de prosa! – não igual a um romance, mas lembrando aqueles contos da Clarice Lispector, que o/a leitor/a precisa 'ir montando', recriando nas sequências da leitura, a reconstruir um fato disperso em fragmentos textuais.

A estação está vazia, apenas o bilheteiro por trás das grades cochilando como o gato a seus pés. Silêncio de chumbo. O vento e a chuva açoitam.

As personagens se materializam em palavras e névoas, solicitam atenção, até pensamos num passado tenebroso – e deparamos com um futuro angustiante. Nada direi mais para não embaraçar o prazer (ou desprazer) da leitura.

mais textos de Sérgio Bernardo nos links
http://raizdemandragora.zip.net/
http://www.jornalpoiesis.com/mambo/index.php?option=com_content&task=view&id=293&Itemid=2
http://www.jornalpoiesis.com/mambo/index.php?option=com_content&task=view&id=283&Itemid=2

Após tantas páginas de diálogo com a tradição, temos o contraponto. Do mais criativo poeta de nossa geração aqui encontramos apenas um poema – e inexpressivo – enquanto sabemos que Wilmar Silva/Joaquim Palmeira tem uma Obra que ofusca totalmente todas as antologias em que tem participado (e até aquelas que ele tem organizado – com exceto de PORTUGUESIA, onde os seus poemas não causam efeito). Um único poema de “Estilhaços no Lago de Púrpura” ou um fragmento 'não-soneto' de “Cachaprego” (recentemente musicado!*) geraria mais 'massa crítica' do que meia dúzia de antologias iguais a esta (com todo o respeito pela iniciativa desta antologia! O critério ressaltado seria : vanguarda/inovação/nova linguagem).

*Ouçam o enebriante “Musicacha”, da parceria WS com o músico Gilberto Mauro, http://www.myspace.com/gilbertomauro)

Finalizando, algumas considerações sobre os poemas de Zemaria Pinto (Manaus/AM). Além do vocabulário e das imagens, é destaque o conhecimento/a sensibilidade para os recursos sonoros. É Poesia é para ser lida em voz alta, declamada. “Poesia Sonora” soa como redundância (a menos para quem ache que 'Poesia Concreta' seja mesmo Poesia e não Artes Plásticas...) A exploração (no bom sentido) do som de cada palavra – não apenas aliterações, assonâncias, rimas e métricas – mas a posição das palavras, ou o uso de verbos no particípio na função de adjetivo, detalhes que reativam as palavras enquanto 'coisa' (=som) mais do que 'símbolo' (=ideia)

anêmicas cançonetas
sonetos ossificados
noturnos anoitecidos
baladas banalizadas
delírios delituosos
(“A casa perscrutada – escrivaninha”, p. 54)

Não apenas a escrivaninha é 'perscrutada', mas também a coleção de livros brochuras calhamaços alfarrábios a qual damos o nome singelo de 'biblioteca',

as chamas aprisionadas
entre as páginas dos livros
são metáforas perenes
imagem, símbolo, mito
semeadura de paixões
fronteiras com o infinito
(“A casa perscrutada – biblioteca”, p. 55)

e a 'devassa' continua pelo 'quarto das meninas', p. 56, onde o Eu-Lírico masculino se depara com o universo (des)velado do Imaginário feminino (não é necessário dizer que a mulher será sempre um enigma para o homem, e Freud que o diga...):

embora fixa no espaço
a câmara provisória
se transporta pelo tempo
em múltiplas dimensões
mulheres que um dia foram
em crianças se revelam
(“A casa perscrutada – quarto das meninas”)

A busca certamente continua, se ainda não verbalizada/escrita pelo Autor, certamente reempreendida pelo/a Leitor/a, que vai sair pela casa, a percorrer cômodos e aposentos, exumando lembranças e registrando inventários para ressituar a existência de 'coisa' pensante no meio de outras 'coisas' pensantes ou não.

Mais sobre o Autor Zemaria Pinto no blog http://ofingidor2008.blogspot.com/ (também para quem aprecia pintura clássica...!)

Assim, elevando nossas desculpas aos que não foram citados (ah, os que ficam nas sombras, rangendo os dentes...!) vamos passar o fecho neste ensaio breve sobre a Antologia Meninos ME (Mulheres Emergentes), e passar ao dicionário de español-português para lermos as traduções hispânicas da obra-prima “Estilhaços no Lago de Púrpura”. Quem viver, lerá.

Mar/10

Antologia Meninos ME
(Mulheres Emergentes / Anome Livros / 2009)
organizada pela poeta Tânia Diniz

Mais sobre Leonardo de Magalhaens:
http://leoleituraescrita.blogspot.com/
http://desencontrosgrafados.blogspot.com/

quarta-feira, 10 de março de 2010

Fantasy Art – Galeria

Desert Wings.
Keith Parkinson.

drops de pimenta 53

.
─ Mas é seu aniversário!

─ Por isso mesmo...

─ Mas eles são uns chatos!

─ São meus amigos...

─ ...

─ Vamos fazer o seguinte: eles vêm, sim. No seu aniversário você pode convidar até o babaca do seu chefe!


(Zemaria Pinto)

terça-feira, 9 de março de 2010

Amazônia de Euclides – viagem de volta a um paraíso perdido

A Livraria Valer lançará, no próximo sábado, 13 de março, o livro Amazônia de Euclides – viagem de volta a um paraíso perdido, do jornalista e escritor Daniel Piza. O lançamento ocorrerá às 13 horas, do sábado, dia 13, na Livraria Valer, situada na Av. Ramos Ferreira, 1195 – Centro. O evento é aberto para a comunidade. Piza dedica-se ao jornalismo, é professor e editor-executivo do Jornal Estado de São Paulo.

Em Amazônia de Euclides, o jornalista Daniel Piza refaz a viagem realizada por Euclides da Cunha (1866-1909) no ano de 1905 – quando foi designado para liderar a comitiva mista brasileiro-peruana de reconhecimento do Alto Purus – e faz uma leitura comparativa da época com a realidade do local hoje. Além de realizar um detalhado levantamento daquele rio, Euclides também fez uma importante análise histórica, social e geográfica do extremo oeste da Amazônia. Tal viagem permitiu que o escritor fosse o primeiro a fazer uma leitura da “sociedade seringueira”, denunciando a exploração a que era submetida. E, em 2009, ano marcado também pelo centenário de morte do escritor de Os Sertões, Piza – juntamente com o fotógrafo Tiago Queiroz – cruzou o rio Purus e repetiu o trecho final do trajeto do autor, com a finalidade de contemplar e eleger os pontos que tiveram relevância dentro do itinerário euclidiano.

Dentro da reconstituição atual, o autor contempla os pontos mencionados por Euclides da Cunha, e elege os que realmente foram relevantes para assinalar diferenças e semelhanças importantes na paisagem física, social e econômica entre a Amazônia de 1905 e a atual. Estagnação econômica, o advento da religião evangélica e a volta dos índios kaxinawá e kulina (que, na época de Euclides, se embrenharam na floresta, para fugir dos caucheiros e donos de seringais) estão entre as principais relevâncias percebidas por Piza, 104 anos após o percurso de Euclides:

“A geografia física não mudou muito, pois se trata de uma das regiões mais preservadas e menos habitadas da Amazônia, porém, a geografia humana se transformou totalmente”, diz Daniel Piza. “Euclides viu dezenas de seringais ocupados por caboclos nordestinos. Nós vimos povoados com ex-seringueiros, hoje vivendo de plantar, pescar e caçar e, sobretudo, aldeias indígenas, que vivem do mesmo modo. No entanto, o clima de abandono – por parte do poder público – e de um lugar ainda em formação, onde a natureza é cambiante e surpreendente, continua o mesmo. Aquelas pessoas seguem vivendo com pouca higiene e saúde, à base do escambo do que plantam ou criam, e com uma escolaridade baixa e irregular”, completa.

Com 192 páginas, o livro amplia e adensa a matéria especial publicada em 5 de abril de 2009, no jornal O Estado de São Paulo. A reportagem integra o projeto multimídia com textos e fotos enviados ao jornal e blog, bem como boletins e programas de rádio, além de um documentário – exibido pela TV Cultura em agosto de 2009.

Amazônia de Euclides conta também com os ensaios amazônicos, compostos por três artigos escritos por Euclides da Cunha e publicados, no ano de 1904, pelo jornal O Estado de São Paulo. Neles (“Conflito Inevitável”, “Contra os Caucheiros” e “Entre o Madeira e o Javari”), o escritor fundamenta a urgência e a importância da expedição à fronteira com o Peru. Tais textos foram escritos antes mesmo de Euclides ter a confirmação, por parte do barão do Rio Branco (então organizador das comissões demarcadoras dos limites brasileiros), de que seria membro integrante da comitiva que percorreria o Alto Purus. Euclides da Cunha não chegou a escrever um livro sobre a Amazônia, mas seus estudos, após os trabalhos da comissão de reconhecimento, formam um dos conjuntos mais expressivos sobre a região – pouco depois da morte do escritor, tais estudos foram reunidos no livro À Margem da História.

Através de entrevistas e fotografias, o leitor tem a oportunidade de se aproximar um pouco mais da cultura e da realidade histórica de uma das regiões mais afastadas dos grandes centros do país. Interessados pelos dramas e diversidades da nação, problemas históricos que enfrentam e às vezes fingem não enfrentar, pelas questões da Amazônia e o dilema entre conhecê-la e explorá-la, além de uma aproximação com os habitantes que lá vivem, terão bastante material para reflexão. Leitores de longas reportagens, de narrativas de não-ficção e amantes de Euclides da Cunha, um dos maiores escritores do Brasil, também fazem parte do público alvo do livro.

Sobre o autor

Daniel Piza nasceu em São Paulo em 1970 e estudou Direito no Largo de São Francisco (USP). Começou sua carreira de jornalista em O Estado de S. Paulo (1991-92), onde foi repórter do Caderno 2 e editor-assistente do Cultura. Também trabalhou na Folha de S. Paulo (1992-95), como repórter e editor-assistente da Ilustrada, onde cobriu especialmente as áreas de livros e artes visuais. Foi editor e colunista do caderno Fim de Semana da Gazeta Mercantil (1995-2000). Em maio de 2000, retornou ao Estado como editor-executivo e colunista cultural; desde 2004 assina também uma coluna sobre futebol. Colabora com a revista Continente Multicultural, entre outras, e é comentarista da rádio Eldorado. Traduziu oito títulos, de autores como Herman Melville e Henry James, e organizou seis outros, nas áreas de jornalismo cultural e literatura brasileira. Escreveu 16 livros, entre eles Jornalismo Cultural (2003), a biografia Machado de Assis – Um Gênio Brasileiro (2005) e Aforismos sem Juízo (2008). Fez também os roteiros dos documentários São Paulo - Retratos do Mundo e Um Paraíso Perdido - Amazônia de Euclides.

Sobre o fotógrafo

Jornalista formado pela PUC de São Paulo, Tiago Queiroz desde o início do curso se apaixonou por fotografia. Gosta de descobrir histórias e personagens curiosos da cidade. Trabalha no jornal O Estado de S. Paulo desde 2002. Concorreu a alguns prêmios de fotografia: foi finalista do Prêmio Ethos de Jornalismo e vencedor do Prêmio Abraciclo de Jornalismo, do Prêmio Olhar Solidário e do Prêmio Estado de Jornalismo, este último pela série de fotos Amazônia de Euclides.

LANÇAMENTO:


Data: 13 de março de 2010 (sábado)

Local: Livraria Valer (Av. Ramos Ferreira, 1195 – Centro)

Horário: 13 horas

Título: Amazônia de Euclides – viagem de volta a um paraíso perdido

Autor: Daniel Piza

Nº de páginas: 192

Preço: R$ 39,90