Amigos do Fingidor

sábado, 30 de junho de 2012

quinta-feira, 28 de junho de 2012

A invenção do Expressionismo em Augusto dos Anjos 3/12

Zemaria Pinto

Máscara lírica e dor estética



O termo “máscara lírica” pretende romper com a relação autor-eu lírico: nos poemas expressionistas, o poeta-autor Augusto dos Anjos dá lugar a uma personagem (persona – máscara), para se expressar como tal, na sua inteireza e integralidade de máscara, sem nenhum vínculo físico com o poeta-autor, embora às vezes descreva-se fisicamente como o próprio e até use o seu prenome. A esse poeta-autor Hugo Friedrich chama de “eu empírico”, num contraponto ao eu lírico (1991, p. 37). A máscara lírica é, portanto, resultante do embate entre o eu empírico e o eu lírico, irrompendo como um desdobramento do segundo – é outro eu lírico, muito diferente do primeiro e, principalmente, do eu empírico. Este, entretanto, mantém o controle do processo criativo, pois a máscara lírica é um ato deliberado de criação do poeta-autor.

No caso de Augusto dos Anjos, podemos dizer que o eu empírico é o próprio poeta-autor, manifestando-se por si mesmo, em poemas como os dois primeiros sonetos ao pai ou o sentimental “Ricordanza della mia gioventú”. O eu lírico, por sua vez, é uma personagem do autor, que se manifesta com equilíbrio, porém com um sentimento de evasão, sempre melancólico; é o caso de poemas da segunda fase, como “Uma noite no Cairo”, “A ilha de Cipango” e o encantador “Vandalismo”. A máscara lírica, por fim, é uma segunda personagem, capaz de se expressar de uma forma totalmente diversa de ambos, característica dos poemas expressionistas de Augusto dos Anjos.

A “dor estética” é o conceito que orienta a máscara lírica, definido no poema de abertura do Eu, “Monólogo de uma sombra”. Essa dor estética tem desdobramentos e exigências: a desindividualização ou anulação do eu; a negação do sentimento amoroso; o repúdio a qualquer forma de prazer. A melhor definição para a “dor estética” seria fornecida por Fernando Pessoa no seu conhecido paradoxo sobre o “fingimento” do poeta: é a dor forjada com arte, a dor “fingida” – não necessariamente sentida. Esse fingimento é um véu sobre a máscara lírica. 

A dor estética tem um fundamento ideológico na filosofia de Schopenhauer e no budismo. Para melhor entendermos o conceito, podemos simplificar o pensamento de Schopenhauer da seguinte forma: a vida do homem oscila entre o sofrimento e o tédio; o prazer é apenas uma cessação provisória do sofrimento. Schopenhauer saída para o homem na contemplação estética, na prática ética da justiça e da caridade e na vida ascética, longe dos prazeres mundanos (PADOVANI; CASTAGNOLA, 1990, p. 394-398). A doutrina budista, neste ponto, não difere muito de Schopenhauer, podendo ser resumida da seguinte forma: a vida é sofrimento; a causa do sofrimento é o desejo; é preciso suprimir o desejo para acabar com o sofrimento. O ideal budista é o Nirvana, estágio de não-sofrimento atingido somente pelos iluminados (PADOVANI; CASTAGNOLA, 1990, p. 76-82).

terça-feira, 26 de junho de 2012

Fantasy Art – Galeria

The Mermaid Girl.
Helen Jacobs.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

O que há num nome?

Pedro Lindoso*

 

“What's in a name? That which we call a rose by any other word would smell as sweet.”

“Que é que há num nome? O que chamamos rosa
Teria o mesmo cheiro com outro nome.”

William Shakespeare, in Romeu e Julieta

Raimunda Silva nasceu em Parintins, terra dos bumbás Caprichoso, da cor azul, e Garantido, vermelho. Raimunda, ou Rai, como prefere ser chamada, desde sempre teve problemas com nomes. O seu próprio nome, como todo brasileiro sabe, rima com palavra africana que denomina uma parte do corpo humano a qual a natureza genética favoreceu a nossa heroína com especial fervor.

            Raimunda é filha de “Seu” Raiovaque e Dona Pro Rep. Sofre todos os  constrangimentos possíveis ao ter que explicar a origem dos nomes de seus amados genitores. Raiovaque foi batizado assim porque seu saudoso pai, avô de Raimunda, achava que as pilhas Ray o Vac eram as melhores do mundo. Ora, as pilhas da marca Ray o Vac fazem parte da história e da vida de muitos brasileiros, há décadas. As famosas amarelinhas. Mas dar nome a um filho de Raiovaque é fazer com que a criança tenha desvantagem na vida já na pia batismal. Sua mãe, Dona Pro Rep. nasceu no dia da Proclamação da República. Na folhinha do calendário estava abreviado Pro de proclamação e Rep. de república. Como o dia era feriado, provavelmente a santa seria de grande prestígio. Daí, batizaram a pequena parintinense de Pro Rep. Santa ignorância.

Dona Pro e seu Rayovaque  sempre foram pais dedicados, gente da melhor qualidade. Raiovaque e Dona Pro Rep logo cedo resolveram investir na educação da filha Raimunda, que de tanta chacota, com ajuda de amigos e professores, ficou definitivamente conhecida como Rai.

Rai, ainda garota, começou a estudar Inglês. A língua inglesa é de grande utilidade em Parintins, principalmente na época do festival folclórico. A cidade se enche de turistas do mundo todo. Rai ficou empolgadíssima com a oportunidade de aprender Inglês. Sempre se preocupou em estudar muito. Acreditava um dia alçar novos rumos, em direção a Manaus ou até mesmo o Rio de Janeiro e Miami.

 Os sonhos de menina, já bem escolarizada e ávida por livros, eram  incrementados pelas informações que não paravam de aportar a Parintins. Tudo por conta do boi bumbá. Navios e aviões vindos de todos os lugares do planeta, via Manaus, sempre traziam novidades, cultura e conhecimento.

No primeiro dia de aula de Inglês, o professor saudou a turma com um sonoro “hi”. Rai achava que era com ela e disse “presente professor”. Risada geral. Pensou em trocar o apelido para Raí. Lembrou-se do famoso jogador de futebol e desistiu. Os nomes pareciam entraves em sua vida. Mas a menina não desanimou. Estudou com afinco. Os americanos acham engraçado que a moça se chame Rai, que soa como “hi”, que, todos sabem, é “oi” em Inglês.

Atualmente, Rai fala Inglês razoavelmente bem, além de ser uma linda cunhã poranga, a moça bonita da tribo. Dizem ter sido sondada para se apresentar como cunhã poranga do boi ou rainha do folclore, itens apresentados pelas belas garotas de Parintins, durante o famoso festival.

Teria que ser do Caprichoso, é claro. Fervorosa brincante do boi Caprichoso, não usa absolutamente nada de vermelho, cor do Garantido. Tudo é azul. Só toma Coca-Cola porque em Parintins há dois  “outdoors” da Coca-Cola. Um em azul do lado do Caprichoso e outro  em vermelho do lado do Garantido.

 Raí formou-se em Letras no campus avançado da universidade federal, lá em Parintins mesmo. E tem “notebook”, doado por um gringo que quase a raptou, com juras de amor. Não fosse ela uma cabocla sabida, alfabetizada e muito consciente do que quer da vida.

Depois não gostou do nome do gringo. Chamava-se Raymond, apelidado de Ray. Era muita confusão. E ainda por cima, lembrava o constrangedor nome de seu querido pai, inspirado nas pilhas Ray o Vac. Ah! Os nomes. Sempre atormentando a vida da Rai.


Um dia, Rai apaixonou-se por um rapaz do boi Garantido. A rivalidade entre os bois de Parintins extrapola os dias de festa. O rapaz tinha sobrenome de família  fundadora do boi contrário ao seu. Enamorou-se de um brincante do boi inimigo. Com sobrenome de família de boi inimigo. Prenúncio de tragédia. Amor impossível. Por coincidência, à época, estudava Romeu e Julieta na faculdade. Memorizou com afinco a fala de Julieta, que aqui vamos transcrever, na tradução de Fernando Nuno, para a editora Objetiva:

“É só seu nome que é meu inimigo:
Mas você é você, não é Montéquio!
Que é Montéquio? Não é pé, nem mão,
Nem braço, nem feição, nem parte alguma
De homem algum. Oh, chame-se outra coisa!
Que é que há num nome? O que chamamos rosa
Teria o mesmo cheiro com outro nome;
E assim Romeu, chamado de outra coisa,
Continuaria sempre a ser perfeito,
Com outro nome. Mude-o, Romeu,
E em troca dele, que não é você.
Fique comigo.” 

A frase “Que é que há num nome? O que chamamos rosa/Teria o mesmo cheiro com outro nome;” resumia a sua história, a sua vida. Mas Raimunda era muito prática. Não seria uma Julieta cabocla. Nem pensar. Melhor apaixonar-se por Shakespeare.

 Houve por bem esquecer seu Romeu caboclo. O rapaz só queria saber de dança do boi e nada de leitura. Hoje, sem dúvida, a culta parintinense é a pessoa que mais conhece literatura na cidade. É um fenômeno. Sem nunca ter saído de Parintins já leu Machado de Assis, Eça de Queiroz e avança especializando-se em literatura brasileira contemporânea. Tem preferência pelas escritoras Rachel de Queiroz, Clarice Lispector e Lígia Fagundes Telles. Por último, encantou-se com os trabalhos de Nélida Piñon. Ocorre que ficara grávida do pretendente a pajé do Garantido. Aquele que só queria saber de ser dançarino de boi, e de boi inimigo. Resolveu assumir a gravidez ocultando-a do namorado, na solidão de moça moderna. Mesmo porque seria constrangedor que um filho de uma cunhã do Caprichoso, tivesse um pai pajé do Garantido. Melhor mesmo ficar como filho do boto, muito comum na região. Resolveu que seu filho se chamaria Daniel. Acabaria com as chacotas de nomes em sua família. Entretanto, nasceu uma linda menina. Pesquisando a vida de Nélida Piñon, soube que Nélida é anagrama de Daniel, avô da escritora. Por fim batizou a filha de Nélida Piñon da Silva, na certeza de que sua princesa não vai sofrer agruras com o nome escolhido. Será?
 

Jorge Tufic

IV - ARTE POÉTICA (do “biotipo” ao mágico)
 

                   Rainer Maria Rilke teria sido o último “biotipo” de poeta, segundo um modelo contemplativo zelosamente recortado daquela Europa de fins do século XIX, quando o tropo da rosa adquire força total, em oposição à máquina do progresso e do barulho. Mas nada parece constar a esse respeito desde Homero aos românticos ocidentais, e destes ao parnasianismo. Do romantismo, no Brasil, ficara o protótipo Castro Alves – gravata de nó saliente, bigode afilado e torcido nas pontas, cabeleira farta, perfil apolíneo –, como do parnasianismo ficara Bilac. Tanto um quanto o outro espelhando, na descontenção e na contenção dos gestos, a marca registrada de sua escola. Não há, contudo, registro oficial de um biotipo exato de poeta; e mesmo Nero, empunhando e dedilhando pateticamente a lira – este símbolo clássico da Poesia – não conseguiu mais do que o ridículo de atiçar contra Roma o fogo sagrado dos deuses.

                   O poeta simplesmente é. Ele nunca se define por obra de um biotipo qualquer, por circunstância de um protótipo (que no mínimo pode simbolizar uma escola) ou por uma escritura de versos, ou seja lá por que meio ou forma de comunicação verbal ou não-verbal se faça representar em sua breve ou prolongada travessia. Quanto ao modo particular de vestir, alguns deles, no propósito majestoso de lançarem moda ou apenas se distinguirem dos outros, criam seu próprio traje, o qual, em última análise, servirá unicamente para identificar a pessoa, a menos que ela ostente um decalque onde se leia o conteúdo da embalagem. Entre simbolistas e dadaístas franceses, essa “extravagância” chegou mais longe, com a retórica do cágado e dos cabelos pintados de vermelho. Mas tudo era feito com o só propósito de atrair curiosos.

domingo, 24 de junho de 2012

Manaus, amor e memória LXIII

Da esquerda para a direita, os poetas Elson Farias, Thiago de Mello e Farias de Carvalho, jograleando...

sábado, 23 de junho de 2012

quinta-feira, 21 de junho de 2012

A invenção do Expressionismo em Augusto dos Anjos 2/12

Zemaria Pinto
Fases e recepção


A poesia de Augusto dos Anjos tem duas fases distintas: a primeira, composta por poemas de extração simbolista e parnasiana, com resquícios de romantismo; e a segunda, onde estão os poemas expressionistas do Eu. Mas essa distinção ainda é insuficiente, porque ambas as fases podem ser subdivididas. Assim, estabelecemos quatro fases na poesia de Augusto dos Anjos, conforme a cronologia de produção dos poemas estabelecida por Zenir Campos Reis (1977, p. 30-37)[i]:

1ª fase: de 1900 a 1903;

2ª fase: de 1903 a 1906;

3ª fase: de 1906 a 1912;

4ª fase: de 1912 a 1914.

Dos 58 poemas da edição original do Eu, 13 pertencem à segunda fase, representando o aprendizado e o amadurecimento do poeta – entre os 19 e os 22 anos. São poemas que podem ser distribuídos entre as estéticas então em voga: simbolistas, parnasianos e mesmo românticos. Os outros 45 poemas pertencem à terceira fase, o âmago do Eu. Os poemas da quarta fase foram chamados, a partir da 3ª edição, de “Outras poesias”. Os demais compõem os “Poemas esquecidos”.  

A produção da terceira fase – os outros 45 poemas do Eu – é constituída de trabalhos cuja maioria é marcada por uma expressão até então desconhecida na literatura brasileira[ii]. Entendamos “expressão” como uma combinação não apenas de fala e linguagem, mas, sobretudo, de imagens e ideias, harmonizando forma e conteúdo de maneira inusitada. A partir de determinado ponto numa hipotética linha do tempo – localizado em junho de 1906, com a publicação de “Queixas noturnas”[iii] –, Augusto dos Anjos dá uma guinada na sua expressão poética. É como se o eu lírico desse lugar a um outro – sua máscara lírica. Sua poesia adquire um tom mais agressivo, abordando temas como o “novo homem” e “uma nova humanidade”. Essa nova expressão, inominada, dá o tom da maioria daqueles 45 poemas.

Desqualificar essa dificuldade de enquadramento foi a estratégia utilizada por boa parte da crítica, considerando irrelevante, mero didatismo ou mesmo uma grande bobagem qualquer classificação[iv]. Outra parte, baseada em alguns daqueles 13 poemas e em poemas que o autor certamente rejeitaria[v], classifica-o como simbolista. Augusto dos Anjos foi ainda chamado de parnasiano e até de art-noveau.

Para explicar aquela poesia tão original, o “infortúnio crítico” de Augusto dos Anjos, no dizer de Eduardo Portela (1994, p. 65), aponta-lhe patologias diversas – físicas, morais, sociais –, inferidas a partir da combinação entre leitura equivocada e desinformação biográfica: esquizofrenia, tuberculose, ateísmo, materialismo, individualismo, extravagância, ceticismo, pessimismo, satanismo, egocentrismo, pobreza pecuniária.

Uma parcela quase insignificante – do ponto de vista quantitativo – viu na expressão poética de Augusto dos Anjos marcas, vestígios, indícios da estética expressionista: Gilberto Freyre, Anatol Rosenfeld, Massaud Moisés, Lêdo Ivo, Luiz Costa Lima, Ivan Junqueira, Sérgio Martagão Gesteira. E aqui entramos nós.



[i] A propósito, todas as datas de publicação citadas, salvo eventual indicação em contrário, foram obtidas em Augusto dos Anjos: poesia e prosa (REIS, 1977). 
[ii] Enfatizamos maioria porque alguns poemas, poucos, ainda podem ser classificados como parnasianos e simbolistas.
[iii] O poema “Queixas noturnas”, inaugural do novo modo de escrever, foi publicado pela primeira vez no dia 03 de junho de 1906, no periódico O Comércio, da Paraíba.
[iv] Órris Soares chega às raias da violência: “A que escola se filiou? – A nenhuma. [...] Isso de escolas é esquadrias para medíocres.” (1928, p. XIII).
[v] Os “Poemas esquecidos”, de interesse mais histórico que literário.

Lançamento: Cobra Grande

quarta-feira, 20 de junho de 2012

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Olhar de viés


João Sebastião

Em nome de quem...



Dentre as minhas muitas obrigações cotidianas está a de ouvir discursos. Ouço dezenas deles ordinariamente. Discursos vazios, desconexos, ridículos, improfícuos, infames. “Bom dia a todos e a todas”: alguém tentou me explicar que isso faz parte do discurso politicamente correto, que procura não discriminar os gêneros. Mas a discriminação está na gênese do milenar discurso patriarcal. Seria preciso mudar a genética, antes de mudar a gramática.

Agora, se tem uma coisa que me irrita mais que encontrar cabelo em pamonha, me indigna mais que o cinismo em público e me provoca vômito, como misturar mastruz com leite, é ouvir de alguma figuraça, dirigindo-se a uma mesa onde outras figurinhas palitam as unhas, entediadas, o bordão: – Dr. Sacripanta de Tal, em nome de quem eu saúdo os demais membros da mesa. BLEARGH!!!

Já ouvi governador falar isso mais de uma vez! Presidente de Academia de Letras, trocentas vezes! Vereadores, deputados, senadores – a maioria, analfabetos funcionais –, esses nem me espantam.

Mas eu fico doente se ouço um colega professor, curtido e mal pago, talvez mal alimentado, repetindo a bobageira. Estive num evento, recentemente, em uma conceituada universidade federal... Não, não foi na UFAM, embora já tenha ouvido a besteira, muitas vezes, lá também. Eu dizia que estava em um evento, com uma mesa cheia de professores, o reitor, o representante da Capes e o capescete. E seis discursos foram feitos, dos quais dois ignoraram solenemente a sonolenta mesa, mas quatro (dois terços!), inclusive a coordenadora do evento (uma espécie de pop star acadêmica) e o reitor repetiram a cantilena:

– Magnífico reitor Professor Nulidade da Silva, essa pessoa linda e maravilhosa, em nome de quem eu abraço carinhosamente os demais membros da mesa.

– Professora Sirigaita Rotunda, em nome de quem eu cumprimento os demais membros da mesa.

Saí de lá enjoado, o estômago querendo devolver a lagosta moqueada, temperada com cachaça de engenho e meia dúzia de Heinekens, do almoço. Caramba, estragar lagosta por causa de uns ogros... Fui ao boteco da Maga, botar mais umas Heinekens na carcaça e ouvir blues. Precisava esquecer aquela overdose de “em nome de quem”. Não consegui. Tanto que estou aqui, leitor, dividindo contigo minha angústia. Querido leitor do momento, na pessoa de quem eu saúdo todos os meus três ou quatro eventuais futuros leitores...     

Curso de Arte Poética

Jorge Tufic


                   Diante de alguns impasses que mudaram os focos de leitura, chegamos a considerar que a única saída para o consumo imediato de poesia, segundo a teoria PROCESSO, com “a técnica já criando nova linguagem universal”, é a semiótica. Aqui, a funcionalidade informacional “é mais importante do que a funcionalidade estética”; e o fato de encarar ou não os objetos-poema como poesia, torna-se uma questão secundária ante a eficiência de construir sempre novas estruturas baseadas em cada nova experiência. “O poeta procura letras nos objetos”, escreve Wladimir Dias-Pino, em cujo livro, “Processo: Linguagem e Comunicação”, divulga as inúmeras opções e/ou operações de montagem dialética, aproveitando, com isso, um vasto laboratório de consumo e codificações extraídas ao cotidiano, prosaico ou poetizável. Decerto foi este o último movimento de vanguarda na poesia brasileira, projetando-se além do ideograma dos concretistas e do pop. Numa só frase: “o lúdico transformando em didático/consumo popular.” 

                   Considerar, acreditar, para entender. Em última análise, há um longo caminho percorrido entre a inquietação lógico-verbal e o poema visual, gustativo, manipulado ou descartável. Os intervalos de crise dizem menos respeito à poesia do que ao suporte. As artes plásticas nos dão este exemplo, guardadas as devidas proporções. Pois é na poesia que o vivente das coisas se depara com maior desafio, quando a maioria dos recursos tradicionais foram praticamente exauridos no uso e no abuso da imagética, na orgia embriagadora de que pouco se aproveita no cômputo geral. Para nós, contudo, desde que a poesia não seja o assunto do poema, nem deixe transparecer, tanto quanto possível, dicotomia com a prosa, distinguindo-se desta pela crispação daqueles significados paralelos de que nos falam os semiólogos, qualquer forma utilizada pelo poeta deve ser respeitada e avaliada pela crítica. Afinal de contas não será a palavra, o logos, a única alternativa de sobrevivência na voragem de um mundo racionalmente explicado?

domingo, 17 de junho de 2012

sábado, 16 de junho de 2012

Fantasy Art – Galeria


The messenger.
Tony Kew.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

A invenção do Expressionismo em Augusto dos Anjos 1/12


Zemaria Pinto


[Augusto dos Anjos] desidealizou o conceito de gosto para dessacralizar a linguagem e, com isto, verbalizar despreconceituosamente a experiência humana.

(Eduardo Portela) 

O animal conhece a morte tão-somente na morte; já o homem se aproxima dela a cada hora com inteira consciência e isso torna a vida às vezes questionável, mesmo para quem ainda não conheceu no todo mesmo da vida o seu caráter de contínua aniquilação. Principalmente devido à morte é que o homem possui filosofias e religiões.

(Schopenhauer)

Augusto dos Anjos, poeta expressionista?


O primeiro a apontar a aproximação de Augusto dos Anjos ao Expressionismo foi Gilberto Freyre, em artigo de 1924, eivado de equívocos históricos e de avaliação, porém, com uma observação pioneira: “Havia em Augusto dos Anjos alguma coisa de um moderno pintor alemão expressionista. Um gosto mais de decomposição do que de composição” (1994, p. 78). Quarenta e cinco anos depois[i], é Anatol Rosenfeld quem volta ao assunto, lançando as primeiras luzes para a compreensão do autor pelo viés expressionista, ao aproximá-lo dos poetas alemães Gottfried Benn, Georg Heym e Georg Trakl, contemporâneos de Augusto dos Anjos:
Há naturalmente diferenças profundas, de forma e substância, entre cada qual desses poetas de uma só geração e, em especial, entre os três alemães e o brasileiro. Mas há, sem que se queira fazer de Augusto dos Anjos um expressionista (movimento do qual dificilmente pode ter tido notícia), coincidências notáveis. (2006, p. 264)
Ora, não “ter tido notícia” do movimento expressionista não tira de Augusto dos Anjos o mérito de, a seu modo, ser parte integrante dele, desenvolvendo processos expressionistas inéditos, em paralelo com o que faziam os poetas europeus. De qualquer forma, o que nos interessa é a utilização de elementos teóricos do Expressionismo, comuns em Augusto dos Anjos e na primeira geração expressionista alemã, que começa a aparecer em 1910, quatro anos após o início da produção expressionista do autor paraibano.

Objetivos

O que pretendemos demonstrar: primeiro, fugindo do lirismo confessional, e baseado em um conceito pinçado em Schopenhauer, a dor estética, o autor forjou uma personagem, a sua máscara lírica; segundo, a finalidade desta era denunciar a degradação pela qual passava a humanidade, por meio de poemas que subvertiam as noções então aceitas de beleza; por último, como consequência desse processo, Augusto dos Anjos aproximou-se de tal forma dos expressionistas alemães – antes deles –, que é absolutamente aceitável classificá-lo como um poeta expressionista. Em outras palavras, justificando o título do nosso trabalho, Augusto dos Anjos inventou uma variante expressionista, calcada especialmente na deformação da realidade, buscando uma representação não aristotélica, inserida em uma forma fragmentada e contrastante – dentro do padrão geral, de “uma poesia marcada menos por um estilo comum do que por atitudes comuns” (SHEPPARD, 1999, p. 313). E aqui não se trata apenas de uma “sensibilidade expressionista”, termo que poderia ser usado em relação a Euclides da Cunha, por exemplo, mas de um corpus e uma Ideia expressionistas. Sem temer o grotesco ou o kitsch, extraindo beleza do “mau gosto” e da matéria em decomposição, Augusto dos Anjos registrou, de modo singular, a vida brasileira no limiar do século XX.
 (Continua na próxima quinta-feira)



[i] 1969 é o ano de publicação do texto em livro. Na 30ª edição do Eu, de 1965, Francisco de Assis Barbosa cita Rosenfeld, com detalhes (p. 315). Aliás, o próprio Rosenfeld afirma, no prefácio de seu livro, que aqueles estudos haviam sido publicados, “na sua grande maioria, em periódicos brasileiros, no decurso dos últimos quinze anos” (2006, p. 11).
OBS1: Comunicação apresentada ao I CONALI - Congresso Nacional de Literatura, realizado em João Pessoa, de 03 a 06 de junho de 2012, comemorando o centenário de publicação do Eu. Publicada nos anais do I CONALI.
OBS2: Trata-se de uma versão resumida da dissertação de mestrado em Estudos Literários do autor, apresentada a 11 de abril de 2012, na UFAM.

Arnaldo Garcez expõe no Rio





quarta-feira, 13 de junho de 2012

Fantasy Art – Galeria

Discovery Island.
Michael Fishel.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Ruínas de Pau d'Arco

Zemaria Pinto

No último dia 05 de junho, levado pelo amigo escritor Hildeberto Barbosa Filho, fui conhecer as ruínas do engenho Pau D'Arco, onde nasceu e viveu grande parte de sua curta vida o poeta Augusto dos Anjos, celebrado em um Congresso Nacional de Literatura promovido pela UFPB, de 03 a 06 de junho, lembrando os 100 anos da edição do Eu. 

Não entrarei em detalhes. Das dezenas de fotos que fiz, ficaram estas duas: o pé de tamarindo e a casa de Guilhermina, que, restaurada, é um acanhado memorial do poeta.

E ficam, para sempre, os poemas pelos quais eles o tamarindo e Guilhermina serão lembrados.

O pé de tamarindo, imortalizado por Augusto dos Anjos, fica nos fundos casa construída em lugar da casa onde nasceu e viveu o poeta.

Debaixo do tamarindo


No tempo de meu Pai, sob estes galhos,
Como uma vela fúnebre de cera,
Chorei bilhões de vezes com a canseira
De inexorabilíssimos trabalhos!


Hoje, esta árvore, de amplos agasalhos,
Guarda, como uma caixa derradeira,
O passado da Flora Brasileira
E a paleontologia dos Carvalhos!

Quando pararem todos os relógios
De minha vida e a voz dos necrológios
Gritar nos noticiários que eu morri,


Voltando à pátria da homogeneidade,
Abraçada com a própria Eternidade
A minha sombra há de ficar aqui!



A casa da ama de leite Guilhermina, restaurada, é o que resta além do Tamarindo. 



Ricordanza della mia gioventú


A minha ama de leite Guilhermina
Furtava as moedas que o Doutor me dava.
Sinhá-Mocinha, minha Mãe, ralhava...
Via naquilo a minha própria ruína!


Minha ama, então, hipócrita, afetava
Susceptibilidades de menina:
“– Não, não fora ela! –” E maldizia a sina,  
Que ela absolutamente não furtava.


Vejo, entretanto, agora, em minha cama,
Que a mim somente cabe o furto feito...
Tu só furtaste a moeda, o ouro que brilha...

Furtaste a moeda só, mas eu, minha ama,
Eu furtei mais, porque furtei o peito
Que dava leite para a tua filha!

Curso de Arte Poética

Jorge Tufic


                     Quanto aos defensores do verso, da metáfora, a estes caberia também um avanço mais arrojado em suas pesquisas. Os estudos dedicados ao assunto muito contribuíram para isso. A análise estrutural “descobriu” um outro Rimbaud por trás da aparente obscuridade de seus quartetos (“A estrela chorou rosa no coração de tuas orelhas, /O infinito rolou branco de tua nuca a teus rins, /O mar perolou ruivo em suas mamas vermelhas, /E o homem sangrou negro em teu flanco soberano”). Eros e Tânatos se irmanam, então, para uma análise permanente do texto aberto, atribuindo mais importância aos símbolos que engendram o conteúdo da mensagem poética, do que propriamente aos valores relativos da forma em que foram vazados. Abre-se, pois, o leque das confluências e as divergências parecem reduzir-se, na medida em que umas e outras correntes de ideias terminam por encontrar-se no mesmo sistema de fragmentação (ou destruição, como preferem os semiólogos) do discurso ou da estrutura, verbal ou não-verbal, do objeto “poético”, sem que, tampouco, se tenha chegado à conclusão do que seja este objeto ou do que seja este poético. Em “Sísifo”, livro de poemas de Marcus Accioly, há uma sequência de fundo “didático” que começa por estabelecer a diferença entre prosa e poesia, entre o lírico e o épico, entre o antigo e o moderno; a sequência prossegue com animais & pássaros, com a natureza, e termina com a “linguagem” das estrelas, um desfecho no qual as palavras se desarticulam, os fonemas invadem o espaço do objeto que tentam “segurar”, e, de tudo, restará ao final a “linguagem da água / no silêncio”, onde a palavra silêncio, escrita e repetida quarenta e quatro vezes, com todas as suas letras entre parêntesis, resulta numa superfície compacta, num daqueles signos polivalentes que chegam a demonstrar as funções referidas: água, vento, moléculas, átomos, silêncio.

                   Assim posto, tanto faz o poeta saturado de tradicionalismo abandonar o verso, como o poeta do verso persistir em sua necessidade, desde que ambos estejam empenhados na “localização” da poesia (e note-se que Rimbaud, autor do quarteto citado, é um poeta do século XIX), os efeitos reais não levam a outra coisa, a menos que o agente, embora limitado por sua época, consiga reafirmar o ethos da liberdade criadora através de arrojadas metáforas, a exemplo de Sousândrade. As palavras de ordem são de Pierre Albert-Birot: “A arte começa onde a imitação acaba”. Ou: “Procurai outra coisa, sempre outra coisa; porque procurar é viver e encontrar é morrer”. A poesia está em tudo, desde que o viver a reconheça. Nós estamos na Era da Máquina, mas raros se apercebem disso. A nostalgia bucólica, o cravo na lapela, já não comovem o Ral do progresso científico. O homem semiótico está aí mesmo: “...pensar profundamente é pensar o mais longe possível do automatismo verbal” (Paul Valery).

domingo, 10 de junho de 2012

Manaus, amor e memória LXI

Rua Municipal é a atual 7 de Setembro. Esta é uma das duas primeiras pontes, no sentido centro/bairro.
Hoje, sob ela passa um Prosamim.
Esta foto é de uma sublime crueldade: ao centro, a branca burguesia enfarpelada que ainda hoje cultua a belle époque;
à esquerda, o povo, representado por um casal de crianças negras e pobres.

sábado, 9 de junho de 2012

Ivan Lessa (09/05/1935-08/06/2012)


Ivan Lessa, por Liberati.

Fantasy Art – Galeria

Songs under the apple tree.
Linda Bergkvist.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Amazônia: literatura e cultura

Zemaria Pinto




Derivado do III Colóquio Internacional Poéticas do Imaginário, este livro vem reafirmar o sucesso de um evento de grande magnitude que não se deixa cair no erro da repetição de velhas fórmulas. Antes, o primado aqui é a originalidade. O desafio começa logo no título – Amazônia: literatura e cultura. Qual Amazônia? Todas. Porque a Amazônia só pode ser pensada a partir de sua diversidade: continental.


Como afluentes do grande rio que a navega ao meio, os assuntos se expandem e se multiplicam nas mais diversas cores e direções: da literatura à história, a produção cultural amazônida está aqui repensada desde as manifestações orais – ancestrais – até a contribuição/contaminação imigrante, passando pela viagem que essa cultura faz para fora de si mesma.


Não citarei nomes para não explicitar preferências por um ou outro texto, pois no final eles se completam, formando um grande painel desse caldeirão cultural amazônico.  Mas é preciso registrar a presença luminosa de Astrid Cabral – a professora falando da poeta. Discorrendo sobre seu processo de criação, ela nos dá uma lição de simplicidade: “Parto rumo à aventura do desconhecido, em busca do que só existe misteriosamente dentro de mim, de modo vago e amorfo, porém, em luta para emergir.” Aula magna.

Obs: orelha do livro Amazônia: literatura e cultura, organizado por Allison Leão, reunindo as conferências apresentadas no III Colóquio internacional de Literatura, realizado pela UEA, nos dias 16 a 18 de maio passado.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Curso de Arte Poética

Jorge Tufic


O quanto dissemos, no entanto, ao desembocar nas teorias extremamente provocadoras do século XX, com seus mitos tecnológicos e o pretendido “discurso de ninguém”, amplia-se numa sequência de fatos ligados à conquista da fotografia, do cinema, das artes plásticas, e conduzem à nova ciência de ler o mundo, que tem na Semiologia o seu ponto de apoio. Assim, o campo ainda mal definido do poético excita os pesquisadores a testarem a saturação verbal do Ocidente, opondo-lhe ou impondo-lhe o ícone utilizado no Oriente. A ocorrência de uma ruptura com a tradição ocidental torna-se, deste modo, inevitável com os trabalhos de Fenollosa, cuja influência sobre Ezra Pound resulta numa poética de estrutura gráfica, como a de Mallarmé. Umberto Eco: “A Poética, no sentido mais lato da palavra, se ocupa da função poética não apenas da poesia, onde tal função se sobrepõe a outras funções da linguagem, mas também fora da poesia, quando alguma outra função se sobreponha à função poética.”

                   A liberdade criadora atinge o seu clímax. Renova-se o vocabulário com o dia-a-dia, as gírias vão sendo aproveitadas, os padrões castiços cedem ao incremento de novas experimentações no domínio da sintaxe, com o pronome oblíquo iniciando períodos, entre muitas outras, inclusive a busca de recursos poéticos nos falares indígenas. Acirram-se as polêmicas entre os epígonos do concretismo, do neoconcretismo e os defensores do verso, os sinólogos, como eram considerados por Fenollosa. É nesse estágio, precisamente, que uns e outros se aprofundam em sua teoria a respeito do objeto poético ou objeto da poesia, estes procurando estabelecer uma forma que pudesse distinguir a prosa da poesia, revalorizando a função da metáfora, e aqueles colocando a poesia como “antiliteratura”, estando mais relacionada com as artes (pintura, música etc.), do que com a sintaxe lógico-discursiva da prosa. Entre os defensores do verso estão, naturalmente, os poetas da geração de 45. Alguns poemas concretos, explorando ainda o valor da palavra em seus diversos níveis (prosódico, sintático, semântico), os poemas-objetos e a poesia/processo, afirmam em definitivo a posição de uma vanguarda atuante, já repercutindo em outros países da América e da Europa. OLHO POR OLHO, de Augusto de Campos, é um exemplo de clareza e eficácia. O próprio autor explica que o mesmo “não necessita de ‘chave léxica’ explícita porque se compõe de signos extraídos da realidade cotidiana: uma esteira de olhos arrancados a personagens conhecidos conduz a um triângulo formado por sinais de trânsito, de significação universal (...). Esse poema 'inqualificável' tem, pois, uma semântica visível a olho nu.”

domingo, 3 de junho de 2012

Manaus, amor e memória LX

Em plena Eduardo Ribeiro, uma english house, seja lá o que isso for.
E a macacada babando...

sábado, 2 de junho de 2012