Amigos do Fingidor

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Vitral, 10 anos depois

O Cláudio Fonseca é um desses poetas raros que só acontecem de quando em quando, um ou dois por geração. Conheci-o antes de sabê-lo poeta. Nem sei se ele sabia que eu o era. Não falávamos sobre isso. Explico: criaturas noturnas, durante o dia somos analistas de sistemas. Geração 70: /3, /370, cartão perfurado!, balance line, sort/merge, Cobol etc. A primeira “máquina” com que trabalhei tinha 144Kb de memória, e ocupava uma sala duns 100m², a uma temperatura máxima de 18º. Só tem uma coisa que eu odeio mais que frio: cachorro! Mas essa é uma outra história. Quando os néscios nos vêem juntos, vem a pergunta inevitável: como vocês, informáticos, cartesianos e apolíneos, conseguem fazer poesia? Eu sempre respondo que eu, Zemaria, não sei porque insisto em fazer poesia. Será alguma patologia? Diz o Aldisio Filgueiras que a poesia é uma doença tropical. Quanto ao Cláudio Fonseca, eu sei: é porque ele é poeta. Um imenso poeta! Mas o Cláudio não é um poeta fácil. Ele pertence a uma casta especial: é um poeta para poetas. Vitral, que teve poemas reconhecidos e premiados Brasil afora, é um livro de leitura restrita, tal a intricada teia de referências. Mas isso não diminui sua beleza; antes, realça-a.

Cláudio Fonseca é, com o perdão da má-palavra, um neo-simbolista. E não só pelo cunho místico de que sua poesia se reveste, mas também pelo aspecto formal, pela musicalidade atonal, surpreendente. Uma seqüência de belos alexandrinos ou sáficos, de repente, deságua numa série de versos livres – musicais. Um clima de magia, associado à recorrência medieval e a uma linguagem de imagens sinestésicas e evocativas, reforçam essa classificação, de resto puramente didática. Longe da padronização estéril, ele segue a própria intuição e constrói uma poesia sofisticada e densa, sem paralelo na contemporânea poesia amazonense. Talvez alguma ressonância do Luiz Bacellar de Quatro Movimentos, não como epígono, mas como continuador de uma tradição.

Depois de 10 anos de Vitral, o primeiro livro de Cláudio Fonseca, o que temos de novo? Vitral reescrito, remodelado, cortado e acrescido... de três novos poemas. O perfeccionismo do autor nos dá a esperança de que algo está sendo trabalhado, sem pressa, buscando alcançar a altíssima qualidade que é sua marca registrada.

Zemaria Pinto - orelha de Vitral, de Cláudio Fonseca, 2a. edição, 2008.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Afinal, o que é “regionalismo”?
Zemaria Pinto

Na Veja, o Jerônimo Teixeira está para a literatura assim como a Isabela Boscov para o cinema. E nas mesmas condições: sob suspeita. Desconfie de tudo o que o Teixeira escreve. Aliás, desconfie da Veja. Autor de dois livros de contos muito bem recebidos pela crítica (da Veja, claro), Teixeira faz parte daqueles críticos que Harold Bloom enquadra na “escola do ressentimento”, que pode ser ilustrada e simplificada no seguinte silogismo: “mamãe me acha lindo; logo, você é feio”.

Na última Veja, para esculhambar autores que lhe fazem sombra, Teixeira resolveu ressuscitar um conceito equivocado, que estudos sérios dão como mera curiosidade arqueológica: o regionalismo. Sua defesa é de uma simploriedade que tangencia a ignomínia: “o próprio fato de tantos autores se voltarem contra o conceito atesta que, de alguma forma, ele sobrevive”.

Vamos lá: regionalismo foi o nome dado pela crítica a uma literatura que se voltava para o interior do país, desde José de Alencar e Bernardo Guimarães, passando por Graça Aranha e Alberto Rangel, até o boom da literatura neorrealista, a partir dos anos 1930: Érico Veríssimo, Jorge Amado, José Lins do Rego e os incomparáveis Graciliano Ramos e Guimarães Rosa. O nome de Veríssimo, gaúcho que nem o Teixeira, é o primeiro da lista só para anular outro rótulo equivocado: o “romance nordestino”. Aliás, Rosa era mineiro. E por que foi chamado de regionalismo? Porque, com raríssimas exceções, a ficção brasileira retratava o perímetro urbano, mais especificamente, a capital e sua locomotiva financeira: Rio de Janeiro e São Paulo. Lima Barreto, que escrevia sobre os subúrbios cariocas, foi solenemente ignorado em vida. Seus críticos não achavam nenhuma graça naqueles pobres-diabos que ele revelava.

Os defensores da existência hoje do regionalismo – pois os há, além do Teixeira, da mesma forma que há nazistas, fascistas, stalinistas, maoístas etc. – empregam o termo de forma depreciativa, justificando sua classificação pelo uso de uma linguagem própria de uma região, um subdialeto. Ora, só se pode achar que a linguagem baiana, por exemplo, é “regional” se comparada a outra. A comparação será com o carioquês e o paulitês, claro. Aliás, já perceberam como cariocas e paulistas falam de maneira diferente entre si – além de serem ambos diferentes de qualquer outra região do país? Falácia. Outra característica: se o sujeito escrever sobre o Amazonas e falar da floresta é regionalista. Se for pernambucano e falar dos costumes sertanejos é regionalista. É o que os parvos chamam de “cor local”. Mais falácia. Diz-se também que regionalista é a literatura que põe seu foco em determinada região do Brasil. Outra falácia, conforme demonstraremos a seguir.

Pelas características mais comuns do regionalismo, acima elencadas, eu afirmo solenemente que ninguém é mais regionalista em toda a literatura brasileira que o senhor Joaquim Maria Machado de Assis, ele mesmo! Pois, pasmem: toda a obra de Machado de Assis passa-se na cidade do Rio de Janeiro e arredores. Nada mais regionalista, portanto: pela linguagem, pelos usos e costumes, pelo foco geográfico. Pobre Machado! A que te reduziram...

Referindo-se ao recém-lançado livro de contos de Milton Hatoum, A cidade ilhada, Teixeira põe um ovo em pé: “o título faz referência a Manaus”. É o suficiente para a adjetivação maldita: regionalista! Mais: a matéria traz uma ilustração de Hatoum caricaturado como um seringueiro... Ainda não li o livro, por isso não entro no mérito da crítica negativa que o Teixeira faz: “os contos de Hatoum são regulares na mediocridade”. Mas eu duvido que o autor dos já clássicos Relato de um certo oriente e Dois irmãos seja lido pelo obtuso Teixeira sem ressentimento.

(Publicado originalmente nO Malfazejo)

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Beckett, Krapp, a solidão e o nada
Zemaria Pinto
Samuel Beckett (1906-1989).
Foto: autor desconhecido (por mim).

Se alguém tinha alguma dúvida de que o universo se estrutura de forma binária, o computador, esse eletrodoméstico indispensável (eu não tenho forno de microondas ou aspirador de pó, por exemplo – nem sinto falta), o computador, eu dizia, construído a partir do conceito de bits, um código representado pelos números 0 (zero) e 1 (um), vem, definitivamente, escancarar aos incréus o caráter binário do mundo que nos cerca – por todos os lados. Deus e o diabo, esquerda e direita, progressistas e conservadores, tradicionalistas e iconoclastas, operários e pequeno-burgueses. O bem e o mal. O cru e o cozido. A ética e a bandidagem. Vocês podem escolher quaisquer das infinitas combinações imagináveis. Não há meio termo.

Século XX, segunda metade. Ainda sob o trauma da agressão atômica, o mundo civilizado consome-se nas reflexões existencialistas e nas inflexões socialistas. A guerra fria institui uma nova divisão política e a velha lengalenga volta à tona: artistas devem ou não engajar sua arte à revolução? Muita gente, é claro, acha que não. Do novo centro do poder, a águia americana desova uma nova ordem no teatro. Tragédias familiares neorrealistas dão a tônica. Na Europa, Sartre, Camus e Brecht vão na contracorrente. O irlandês Samuel Beckett é um dos esteios de uma nova forma de pensar o teatro.

Junto a nomes como Ionesco, Adamov, Artaud e Arrabal, Beckett arquiteta o que, à revelia deles, passou a ser conhecido como “teatro do absurdo”. À revelia, sim, porque eles estavam certos de que o que representavam era tão-somente a realidade. Neste sentido, eram conservadores, aristotélicos. Mas qual realidade era essa? Não a das tragédias familiares. Não a das reflexões filosóficas. Não a dos grandes dramas coletivos. A realidade do homem só, destroçado, abandonado pela família, pelo Estado e por Deus.

O homem pós-atômico precisava reinventar o seu futuro. E ao teatro não restava outra alternativa senão negar toda a cultura clássica, base de conservadores e progressistas. Não às convenções de tempo e espaço. Não ao vínculo indissociável de causa e efeito. Não à palavra como espetáculo. Não ao desenvolvimento psicológico dos personagens. E, acima de tudo, não a qualquer coisa que lembrasse o realismo. Assim, voltando à ordem natural das coisas, isto é, ao caráter binário das relações humanas, o teatro pós-atômico cinde-se em duas grandes correntes: a da tradição aristotélica e a da experimentação.

Beckett escreveu Esperando Godot. Nada mais precisava ser dito, até porque muita bobagem já se disse sobre essa obra-prima da literatura universal – sim, porque teatro é literatura, enquanto houver o vínculo (indissociável?) com a palavra. Mas Beckett escreveu também, entre tantos, A última gravação de Krapp, peça em um ato, que era o objeto inicial deste artigo, que só agora emerge da minha inútil prolixidade.

A última gravação de Krapp é um monólogo. Krapp, já velho, passa o tempo lembrando seus fantasmas. E ouvindo-os: a voz que ele inicialmente identifica como sua é na verdade a voz das suas lembranças que se misturam e se confundem com suas fantasias. O velho se diverte e ri e chora e se comove e vive. Krapp é uma metáfora não apenas da solidão da velhice – esta é a leitura óbvia, imediata, preguiçosa. Ele simboliza, antes de mais nada, o ensimesmamento do homem, a incomunicabilidade que ele se autoimpõe, o anonimato e o desamparo. Sem família, sem o Estado, sem Deus. Ao contrário da arte engajada e muitas vezes superficial de Brecht e Sartre, onde a objetividade impera, o texto de Beckett é puro escárnio. Angústia, abandono, solidão. E o nada. Quanta metafísica entre tanta banalidade. Impossível sair ileso.
Lançamento
A Editora Valer convida para o lançamento do livro História da Igreja na Amazônia Central, do padre Celestino Ceretta. A atenção pelo livro não se restringe à comunidade católica, alcançando também aos que se interessam pela história da região amazônica.
Data: 28.02.2009 (sábado)
Hora: 10:00h
Local: Livraria Valer – rua Ramos Ferreira, 1.195

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Arnaldo Garcez expõe em New York
Clique sobre o cartaz para ampliá-lo.
Manaus, amor e memória III
O belo Hotel Cassina, hoje em ruínas.

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Comentadores de blogs – os fastos e os nefastos

Desde quando comecei a postar O Fingidor, em meados de setembro, fui questionado por amigos sobre o porquê de não abrir para comentários. Explicava que não queria interpor entre quadros e poemas qualquer interferência, boa ou má. Achava que seria uma forma de poluição que afastaria os mais sensíveis, porque acredito que a poesia pede silêncio e introspecção. Quando, dias depois, abri o Palavra do Fingidor, liberei os comentários, para, dois ou três dias mais tarde, confirmar minhas suspeitas. Com raras exceções, que não acrescentavam nada aos conteúdos, os comentários recebidos eram chulos, infames, sórdidos, parvos, beirando a idiotia. Fechei. No caso recente envolvendo o quadro do amigo Moacir Andrade, abri novamente para os comentários: entre uma e outra indignação, publicadas como artigos, um sujeito assacava insultos improváveis (até aqui, pelo menos) contra certa autoridade não muito popular entre os artistas de Manaus; outro desses comentários, de clara extração nazista, dizia que todos nós éramos apenas uns bundões (o termo usado, em verdade, foi outro, mais profundo), pois havia coisa muito mais preocupante na cidade que a meroda dum “quadro velho sem importância nem uma (sic)”. Fechei de novo, claro.

Nas minhas postagens nO Malfazejo, dois comentários me chamaram a atenção: o primeiro reclamava do “informe-se”, alegando que ele, pelo menos, o comentador, não precisava informar-se de nada: não entendeu a hilstiana (de Hilda Hilst) piada. Pronto, inventei uma maneira sutil de dizer “informe-se”, sem ser chato (o que no meu caso é impossível, eu sei): o Google é o oráculo da era da informação. Agradeço de coração a esse comentador. O segundo aparenta-se com aquele nazistão citado no parágrafo anterior: em resposta a meu comentário sobre poemas inéditos de Luiz Bacellar, o comentador perdeu uma ótima chance de ficar calado e saiu-se com um comentário estúpido sobre o poeta, um monumento vivo da cidade, que tem não apenas o direito, mas o dever, constitucional e sagrado, de ser chato!

“Ora (direis) proibir comentadores? Certo perdeste o senso!”. E eu vos direi, no entanto, que o debate sério não comporta aleivosias. Para não cometer injustiças por esquecimento, não citarei nomes ou pseudônimos, mas os debates aqui nO Malfazejo alcançam, no mais das vezes, excelente nível. São os fastos. Então, que viva e arda o debate, e queime nele todas as mazelas expostas, cauterizando-as! Aos nefastos, que puxam o debate ao rés do chão, e até abaixo, feito lesmas e minhocas, concordo que todos tenham o direito à expressão, sim, mas a babaquice só deve ser exercida na mais íntima e redundante e tautológica intimidade da masturbação mental. No escuro.
Publicado originalmente nO Malfazejo.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

A inutilidade do padre
Padre L. Ruas
L. Ruas (1931-2000), em foto publicada a 28 de novembro de 1958, em O Jornal, por acasião do seu 27° aniversário. Acervo de Roberto Mendonça.

Não há ninguém tão inútil como o padre, no mundo. Principalmente no mundo atual. Hoje, os homens úteis são: o homem econômico, o homem político, o homem capitalista, o homem cientifico. Ora, o padre não é nenhum destes.

Por missão, o padre nada tem que ver com a economia nem com os sistemas econômicos. Ele não foi tirado de entre os outros homens para resolver seus problemas de troca e venda. Nem no plano pessoal, nem no nacional e muito menos no plano internacional [ilegível] o mercado é sua atmosfera. A política, por sua vez, não lhe compete. O governo dos povos e das comunidades puramente temporais não é da sua alçada. Sob este ângulo de vista seu lema há de ser o mesmo do seu Mestre: "o meu reino não é deste mundo". Não tem partidos. Não é nem por esta nem por aquela forma de governo. Vive uma indiferença que, às vezes, escandaliza, no governo forte das ditaduras, sob o cetro dos impérios ou na liberdade das democracias. No mundo onde o dinheiro é, de fato, a verdadeira alavanca, o padre deve pregar e viver a mensagem da pobreza. Deve ensinar a pobreza aos ricos e aos pobres, como dizia o vigário de Torey do Diário de um pároco de aldeia, de Bernanos.

Quanto à ciência, o padre muito se assemelha à Bíblia da qual já se disse que não ensina como foi feito o céu, mas como se vai para o céu. O padre não está no mundo para viver em laboratórios, ficar de olho enfiado nos microscópios entre tubos de ensaio e retortas. As experiências, os testes, os exames, as investigações, as lâminas, os bisturis, os microscópios, os bacilos, escorregam de suas mãos untadas com o óleo santo. Eis, portanto, um homem verdadeiramente inútil. E, ainda aqui, é cabível a observação do autor da Descoberta do Outro: “Já observei um fenômeno curioso a respeito das objeções que o mundo costuma levantar contra a Igreja Católica; quase sempre o descrente tem razão.” Para o descrente, e o descrente segundo Chesterton é por excelência o homem lógico, o homem, poderíamos dizer, das idéias claras, o padre é um homem inútil. Um parasita do Brasil, como dizia alguém ao ver um sacerdote passar.

E creio que pouquíssimas pessoas ainda não suspeitaram dessa inutilidade. Mesmo os que andam mais perto dos padres, algum dia, certamente, já se surpreenderam fazendo esta pergunta a si mesmos: “para que serve o padre?” E não vai nisso nenhum motivo de surpresa pois o próprio Paulo, que por antonomásia é chamado “o Apostolo”, falava dessa inutilidade usando até termos mais fortes: “nós nos tornamos semelhantes ao lixo do mundo, ao resto de todos...” Há inutilidade e há inutilidade. Há o inútil desprezível e há o inútil não-desprezível. O lixo é exatamente o desprezível. Portanto não nos admiremos quando alguém disser que o padre é um parasita. Ou quando na sua mente, leitor, transitar esta pergunta: para que serve o padre? Esta é uma pergunta muito natural porque todos nós somos quase sempre adultos e ateus. Ou ateus porque adultos. Somos econômicos e utilitaristas. E normalmente, pela condição humana, as necessidades temporais, possuem a primazia em nossa vida. Em alguns, habitualmente. Em alguns, isto é, em muitos. Na maioria absoluta. Em outros, de quando em vez. De repente. Em poucas horas. Ou em largos períodos. Mas todos vivemos neste jogo feio e desleal de entregar o cetro ora para o corpo, ora para a alma. Precisamente quando os interesses corporais conquistam ou recebem as rédeas, tudo aquilo que ultrapassa as nossas necessidades biológicas e mercantis, perde completamente o sentido. Então somos verdadeiramente adultos.

Para um adulto, o homem útil por excelência, é, talvez, engraçado ver uma criança passar horas a fio, vestindo e despindo bonecas ou desenhando calungas. Ou achará muito paciente o poeta que adormece na burilação de um poema. Ou estranho o padre gastar longas horas naqueles gestos esquisitos, na igreja. Mas isso tudo para ele é simplesmente inútil e um adulto jamais vestirá ou despirá bonecas. Daí também por que o adulto, particularmente o adulto-homem, em geral, não gosta de poesia. E a poesia nas sociedades adultas é considerada como uma secreção ou um sintoma intelectual próprio de uma fase orgânica do indivíduo. E se ouve dizer a todo momento que poesia é coisa de adolescente. Por quê? Porque o adulto é homem do concreto e do útil. É o real que lhe interessa. Real no sentido de sensível, de realizado, de feito. O adulto é marcadamente regional. É prudente: pesa, mede, calcula. Para ele vale unicamente o que é claro, lógico, conseqüente, explicável. Tudo o mais, é inutilidade, é perder tempo. O adulto é o econômico. E como as realizações são características dessa idade o que satisfaz suas necessidades de construir e de realizar. O útil é aquilo que satisfaz uma necessidade. Por isso a infância, a poesia e o mistério naturalmente são inúteis para o adulto.


O mundo da imaginação, da intuição e do invisível lhe são estranhos. Um adulto sabe perfeitamente com Alice no país das maravilhas. Uma criança irá ou pelo menos tentará atingi-lo. Um adulto sabe perfeitamente que a lua é um astro e que é impossível comer estrelas. Mas o poeta come estrelas e conversa com a lua. Um adulto resolverá um problema político-econômico por meio da política e da economia. O padre, porém, passará dias e noites em oração. O adulto não conhece os caminhos para-lógicos do mistério. Suas estradas são largas e claras. Entre o asfalto e o caminho rude o adulto prefere o primeiro. A criança e o poeta facilmente deixam o asfalto e caminham, descalços, pelos fios de água que correm ingenuamente à beira dos caminhos. E o padre não se preocupará em construir estradas asfaltadas. A infância, a poesia e o mistério, cada um, são inúteis ao seu modo. Todos três o são porque não são nem claros, nem lógicos, nem econômicos. Porque todos três são a presença ou o sinal da presença do Mistério. Para o adulto de qualquer idade cronológica, muitas e muitas vezes a poesia e o mistério devem ser deixados de lado como se deixam as crianças. Para não atrapalharem nossos projetos, não dizerem tolices em nossas reuniões, para não interromperem nossas conversas sobre bridge, golfe, política ou gravatas. E sempre, como as crianças ficam, em casa, dormindo e os poetas morrem na mendicidade, no mundo adulto e descrente, o padre será sempre inútil.

(Publicado no jornal Universal – domingo, 30 de outubro de 1955)

O historiador Roberto Mendonça, "curador" da obra do poeta, ensaísta e filósofo Luiz Ruas, nos informa que essa foi a última colaboração de Ruas para o Universal – semanário produzido pela igreja católica e distribuído nas igrejas aos domingos. Teria sido censurado? O Universal circulou entre 1953 e 1958, dirigido pelo cônego Walter Nogueira.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Colóquio Nacional Poéticas do Imaginário prorroga prazo para inscrição de trabalhos

A organização do Colóquio Nacional Poéticas do Imaginário, que acontecerá de 12 a 14 de maio na cidade de Manaus AM, informa que o prazo para submissão de trabalhos foi prorrogado até 15 de março, última data para recebimento de propostas (resumos) nas modalidades comunicação oral ou pôster. Grupos de pesquisa podem propor sessões coordenadas com o intuito de realizar a divulgação de seus trabalhos. Atente-se que o resumo deve estar de acordo com as normas informadas no site do evento e filiar-se a uma das linhas temáticas dessa primeira edição, a saber:
1. Relações luso-brasileiras;
2. Literatura e História;
3. Literatura e Imaginário;
4. Literatura e subjetividade;
5. Entre fronteiras: o regional, o nacional e o universal;
6. Efemérides: 80 anos de escrita de A selva, de Ferreira de Castro;
7. Outras efemérides.

Quem desejar participar sem apresentação de comunicação ou pôster pode fazê-lo na condição de ouvinte. Além das conferências, palestras, sessões de comunicação e exibição de pôsteres, o Colóquio Nacional Poéticas do Imaginário oferece 7 minicursos (concomitantes), ministrados por docentes de renomada produção intelectual, que podem ser verificados na ficha de inscrição. Um guia gourmet e cultural de Manaus, indicações de hotéis (executivos e de baixo custo) e outras informações aos participantes externos estarão on-line a partir do dia 1° de março.

O evento é uma promoção conjunta entre a Cátedra Amazonense de Estudos Literários (UEA) e a Cátedra Jorge de Sena (UFRJ); recebe fomento da Fapeam e do CNPq e apoio da Secretaria de Estado de Cultura do Amazonas, Associação de Amigos da Cultura e Instituto Camões (Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal).

O quê? COLÓQUIO NACIONAL POÉTICAS DO IMAGINÁRIO: literatura, história, memória

Quando e onde? 12, 13 e 14 de maio - Reitoria da Universidade, Manaus AM

Informações e inscrições: http://www.pos.uea.edu.br/catedra

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

3 haicais inéditos de Luiz Bacellar
A mão firme do poeta: poesia de altíssima tensão.
Em meio a tanta miséria intelectual, ganhei do amigo Luiz Bacellar um presente sublime: a honra de publicar três poemas inéditos seus – de uma vez. E quero divulgar o fato em primeiríssima mão (sei do cacófato) aqui, com você.

Em primeiro lugar, só para colocar a todos no mesmo nível (ó pedantismo, teu nome é professor!), vamos falar rapidamente sobre o haicai, uma forma poética tipicamente japonesa, surgida no século XVI, como um jogo de salão. Infelizmente, alguns haijins (é assim que se chamam os fazedores de haicais), maus poetas, continuam a tratar a forma como se fosse um mero jogo e não poesia.

Alguns pontos: o haicai não admite sentimentalismo – nada de dor de cotovelo ou de chifres. Sobretudo, o haicai não prescinde de uma boa dose de humor – não o humor cômico, cearense, zombeteiro, mas a graça, a presença de espírito. A relação com o zen-budismo, que, em sã consciência, nenhum haijin admite (para não misturar alhos com bugalhos, afinal poesia e religião não combinam), está nas raízes do haicai: tudo no mundo é transitório, impermanente, efêmero. Por outro lado, o zen não se admite como um ser isolado, mas como parte indissociável de um todo. Assim, podemos concluir que a característica primordial do haicai é a observação da natureza e seus ciclos essenciais: nascimento, vida, morte; primavera, verão, outono, inverno. Simples, não?

Mas vamos ao Bacellar, o primeiro a divulgar a forma no Amazonas, em seu livro Frauta de Barro, de 1963.

Luar de agosto.
No alheio telhado ao lado
concerto de gatos.

O primeiro poema descreve uma alegre fornicação felina. O luar de agosto nos informa que é noite de verão (para nós, amazônidas). Noite quente. O toque sutil ocorre em nominar a algazarra como “concerto”.

Búfalos na estrada.
A lua viaja nos
lombos da manada.

O segundo poema é de uma plasticidade extraordinária. Abstraia: uma viagem noturna de búfalos. As sombras negras se movimentam, levando com elas a lua “nos lombos da manada”. Podia ser um quadro de Hiroshige (informe-se).

Noite de piracema.
A lua indiscreta mostra
a rota do cardume.

O terceiro poema nasceu na minha frente, documentado na foto acima. De novo, a plasticidade ímpar: o cardume, de encontro à nascente, característica da piracema, brilha à luz da lua.

Os três poemas, você percebeu, são instantâneos que refletem o eternamente contínuo e o instante único, relampejante. Luar de agosto, búfalos na estrada, noite de piracema representam a condição geral (temporal e/ou espacial) do poema. Não há poesia, ou melhor, há apenas uma poesia natural. A poesia enquanto criação explode mesmo é na sequência das imagens, que mostram um momento único, fugaz.

O haicai é uma arte difícil dentro da sua simplicidade. Talvez por isso as crianças têm enorme facilidade para apreender o que os haicaístas chamam de “espírito do haicai”: uma poesia antiliterária, surpreendente como um artefato capaz de fazer brotar a beleza a partir da banal (e miserável) realidade cotidiana.
Publicado originalmente nO Malfazejo.
Os haicais de Bacellar, mais um quadro de Hiroshige, estarão na edição de 19/02 d
O Fingidor.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

O efêmero eterno – simplicidade e leveza nas Folhas da selva
Li essa historinha em uma antologia japonesa de contos para crianças. Tentarei recontá-la, condensando-a.

O aluno pergunta:

– Mestre, onde posso encontrar o verdadeiro sentido da existência?

Sem vacilar, o mestre responde:

– O verdadeiro sentido da existência humana, gafanhoto, está na poesia.

O garoto pensa alguns segundos. Vai se afastando, retorna, titubeante:

– Desculpe-me, não consigo atinar...

– É simples: se todos voltassem sua atenção, pelo menos algumas horas por dia, com sincera dedicação, à poesia, teríamos um mundo com menos espaço para a violência, para a poluição... E até para a corrupção. As relações seriam mais harmoniosas, baseadas na fraternidade, porque a poesia não está apenas nas palavras que se perdem no ar; ela está nos gestos, nos olhares e em muitos outros lugares: a poesia está no vento, na chuva, no céu estrelado, no pôr-do-sol, no correr do rio, na pluma que cai lentamente sobre o asfalto da estrada... Ter os sentidos aguçados para perceber a poesia da natureza não nos faz melhores, mas nos faz mais conscientes de nosso papel como seres humanos.

Não consegui deixar de pensar naquele mestre como um haijin, um cultor da simplicidade poética do haicai, para quem tudo é transitório, impermanente, efêmero: é preciso cultivar o instante, como a uma flor. Só acrescentaria, fazendo graça, que os sentidos seriam mais bem explorados de forma sinestésica: olhos para comer, nariz para escutar, ouvidos para cheirar, mãos para ver e língua para tatear...

Agora, com Folhas da selva em mãos, penso o quanto vale toda uma vida dedicada integralmente à poesia. Aos 60 anos, o poeta Anibal Beça pode olhar para trás e avaliar, a partir de sua própria experiência, se o velho mestre tinha ou não razão. Reunindo a produção de haicais, presentes em sua obra publicada em livro desde Filhos da várzea, de 1984, Folhas da selva é um livro novo, mesmo quando nos deparamos com poemas familiares, uma vez que a disposição é outra, sendo conseqüente abstrair uma nova sensação dessa nova leitura. Os haicais de No país do carnaval e Dos olhos da amada, por exemplo, titulados e rimados, estão apropriadamente reunidos sob o título geral À maneira de Guilherme de Almeida, num tributo merecido àquele que vulgarizou, no melhor sentido dessa palavra, a prática do haicai no Brasil. Os poemas de Mínima fratura, de 1987, também são encontrados entre as Folhas da selva, dispersos, como se houvessem sido tangidos pelo vento.

Ao leitor menos afeito à leitura da poesia japonesa, termos como haibun, senryu e renga podem soar estranhos. Então, o professor que mora em mim pede o teclado. Renga, a haijin Rosa Clement explica, com muita propriedade, na introdução a “Chá das Quatro”, bela parceria com o poeta José Félix. Haibun é prosa poética, haicai em prosa ou haicai entremeado com prosa. Senruy é o haicai com finalidade cômica. Dadas as dicas, o leitor descubra por si mesmo o que afinal é poetrix. Voltei. Entendo ser imprescindível a união entre haicai e humor, no que este tem de graça, leveza, presença de espírito. E aí peço licença ao professor – ou será que ele voltou? – para lembrar Octávio Paz, para quem o bom haicai divide-se em duas partes:
  • uma, que reflete a condição geral, temporal e/ou espacial do poema – contendo em si a idéia de eterno, não no sentido metafísico, mas da repetição cotidiana, por isso eterna: uma flor, um pássaro, o nascer do sol, a lua cheia, uma formação de nuvens;
  • outra, refletindo o instante, o efêmero – a experiência jamais sentida.

Uma parte enunciativa ou descritiva; outra, inesperada, relampejante. É isso que o haicai procura registrar: o agora em contraponto com o sempre. E se alguém mais atento estiver pensando que eu usei contraponto quando deveria ter usado contraposição, esclareço que foi de propósito – afinal contraponto é justaposição de vozes, sem perda de harmonia.

“Folhas da selva”, a coleção que abre e dá título ao livro de Anibal Beça, transborda de exemplos que ilustram essa “tese”:

Flauta na floresta –
o vento sopra nos furos
do bambu brocado.

O vento e a floresta representam a condição geral, espacial do poema, o sempre. A música provocada pelo vento nos furos do bambu – a flauta – é o efêmero, a experiência única, o agora que não se repetirá jamais.

Olhos marejados –
saudade se misturando
aos pingos da chuva.

Se o humor não transparece, fica a leveza, o espírito do poeta ao vivenciar aquela cena sob a chuva, o elemento espacial. A abstração de que é a saudade que provoca aquela imagem única é, na verdade, uma quebra do distanciamento, mas, ao mesmo tempo, é um exercício de auto-ironia.

Com Folhas da selva, Anibal Beça encerra um ciclo que prenuncia outro, pois a selva, assim como a relva, faz parte da condição geral do poema, do eterno que se renova porque se repete, folha a folha, poema a poema, até o infinito.

Zemaria Pinto - apresentação do livro Folhas da Selva, de Anibal Beça.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Manaus, amor e memória II
Biblioteca Pública. Vista lateral, a partir da rua 7 de Setembro.

Biblioteca Pública. Vista da rua Barroso.
Nesse prédio, a 09 de janeiro de 1918 – e não em 1° de janeiro, como se acreditou por décadas – foi fundada oficialmente a Academia Amazonense de Letras.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Repercussão 1

Oi, Zemaria: Em matéria no Diário do Amazonas do dia 28/01/2009 - "Diretores de teatro ousam para agradar crianças" o escritor Márcio Souza, diretor do Teatro Experimental do Sesc do Amazonas (TESC), declara: Para se ter autores, é preciso saber ler e escrever, conhecer a língua portuguesa. Em uma cidade que não possui sequer biblioteca pública disponível, como é que vai ter autores?

Pelo visto o escritor também, como nós, está desinformado sem saber onde ficam as bibliotecas do Estado, enquanto a tradicional Biblioteca Pública, na Sete de Setembro com a Barroso, mofa em si mesma.

Mauri Marques


Repercussão 2

Prezado Zemaria Pinto:

Quero de público externar toda a minha solidariedade a você no caso em epígrafe.

Sobre as palavras do secretário, tudo bem que ele esteja transferindo a pinacoteca para um lugar mais adequado, uma vez que a Vila Ninita realmente estava fora dos propósitos.

Acrescento, porém, que nada está sendo feito que não seja da obrigação do Estado. Observei as fotos dos quadros do Moacir Andrade e fiquei estarrecido.

Na minha modesta opinião, o "nosso" Moacir bem que merecia uma distinção maior em razão de tudo o que ele já fez e continua fazendo pela arte amazônica. Por outro lado, fica evidente o "esforço" que está sendo feito em prol da arte em nosso Estado. É triste saber que tudo está sendo sucumbido por uma burocracia arcaica que penaliza a todos que de alguma forma admiram ou praticam a arte.

Em relação às bibliotecas eu até prefiro não me estender muito. Todas as pessoas que de alguma forma mexem com livros sabem do descaso que as nossas parcas bibliotecas sofrem. E só para informação, quase metade dos municípios amazonenses não possuem sequer uma bilblioteca. Não desanime caro Zemaria. Quem sabe um dia, ainda poderemos assistir a mudança da utopia atual para uma realidade sonhada por todos àqueles que apreciam arte e leitura.

Benayas Inácio Pereira

Mauri Marques - cantor, compositor, diretor de teatro.
Benayas Inácio Pereira - poeta e cronista.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Robério Braga responde
O quadro de Moacir Andrade, pelas lentes de um fotógrafo da SEC.
Recebi e-mail do secretário de Cultura Robério Braga, que transcrevo na íntegra:

Zé Maria,

Recebi o e-mail que você retransmitiu.
Respondo, pedindo que faça chegar ao interessado.
Em 20 de outubro de 2008, por oficio de nº 1385/GS/SEC, requeri ao Secretário de Fazenda a cessão da obra de Moacir Andrade a que se refere o signatário original do e-mail.
O pedido foi arquivado pela dra. Rose, subsecretária, que não autorizou a cessão.
Seguem os registros fotográficos da nossa equipe que visitou o local e a obra.
De outro lado, devo dizer:
A Pinacoteca do Estado existe, criada em 1965, remontada em 1997, até o mês passado funcionava na Vila Ninita, anexo ao Palácio Negro. Agora está sendo montada em local definitivo, no Palacete Provincial, antigo Quartel da Policia Militar, na praça da Policia.
Na ocasião (1997) criamos o ateliê de restauro de obras de arte para salvamento do pequeno acervo recebido.
Quanto a não existir bibliotecas, creio que o autor da matéria não sabe da existência. Porque talvez não seja usuário de bibliotecas, pois existem, e são várias, até para deficientes visuais.

Atenciosamente,

Robério dos Santos Pereira Braga
Secretário de Estado de Cultura

Obs: a carta referida, cuja cópia veio anexa ao e-mail, serve para nos informar que muito antes de 20 de outubro de 2008 o quadro já estava na mesma situação em que se encontra hoje. Menos deteriorado, talvez. Provam-no as fotos que o secretário gentilmente anexou – uma delas acima reproduzida. Quanto à nova Pinacoteca: viva! Já não era sem tempo. Em relação à Biblioteca, o secretário tem razão: o autor não faz uso de bibliotecas públicas porque tem a sua, particular, com mais de 20 mil volumes, comprados, ao longo dos últimos 39 anos, com seu parco salário. Pena que as bibliotecas existentes tenham um funcionamento tão burocrático: segunda a sexta, de 8 às 17h. Nem vou comentar tal limitação. Mais: a Biblioteca Pública a que me referi é um prédio histórico, situado na esquina da rua Barroso com a Sete de Setembro, em “reforma” há anos, e sem prazo para voltar a funcionar.
Ah, informações úteis: o quadro se chama “A magia do Uirapuru” e data de 1977.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Obra de Moacir Andrade apodrece no subsolo da SEFAZ
Exposto à umidade e ao mofo do subsolo, o quadro, envergonhado, volta-se para a parede.

Um quadro de Moacir Andrade, medindo cerca de 2 x 4,5m, está abandonado no subsolo da Secretaria de Fazenda do Estado. Servidora do alto escalão daquele órgão confidenciou-me que foi pedida ajuda à Secretaria de Cultura, com a finalidade de restaurar o quadro que já esteve no hall de entrada da SEFAZ, mas a SEC “nem te ligo”.

Tem sentido: a SEFAZ tem vários quadros de Moacir Andrade e de outros artistas locais, adornando suas paredes, humanizando aquele ambiente onde só se respira o vil metal; mas quem entende de arte é a Secretaria de Cultura, mantenedora da Pinacoteca do Estado. Alguém viu uma Pinacoteca por aí? Nem uma Biblioteca, não é mesmo, Mauri?

INDIGNE-SE!
As cores vibrantes de Moacir Andrade, marca registrada de um trabalho que tem reconhecimento mundial, estão perdendo a alma num porão público.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Imprensando a imprensa

Quando eu reclamo dos mano da imprensa local (superficiais, escrevem mal, titulam pior ainda) dizem que eu sou exigente. Serei, sempre. A imprensa tem poder. Nós, que estamos fora dela, estamos sujeitos à sua influência e manipulação. Mas não vou chover no molhado. O Malfazejo e o Blog do Holanda vivem cantando as pedras dos conchavos entre imprensa e governo, no Amazonas. Leia. Informe-se.

O que me tirou do sério foi um texto de Isabela Boscov, todo-poderosa crítica de cinema da poderosíssima Veja. Sempre que leio a opinião da Sra. Boscov procuro orientar-me pelo viés contrário, ou seja: se ela diz que o filme é bom tenho certeza de que é uma meroda. E vice-versa.

Comentando o filme O lutador, estrelado por Mickey Rourke, Madame Boscov consegue ser, entre pedante e simplória, engraçada. Não vou entrar no mérito da abrangência: leia a revista e tire suas próprias conclusões. Mas a parte engraçada quero dividir com você.

Comentando o mergulho fulminante de Rourke do estrelato à ruína (palavras dela), Mrs. Boscov escreve:

Na fase terminal do processo, lá pelo fim dos anos 90, chegou a depender da mesada de um dos dois amigos que lhe restavam para comer.

PQP! Além de junkie (informe-se), o velho Mickey é biba? Ele tinha dois amigos para comer. Comia um de manhã e outro à noitinha, ou antes de dormir? A construção da frase é tão esdrúxula que cabe até uma leitura mais radical: o velho Mickey – junkie e biba – é também canibal. Por isso que lhe restam só dois amigos para comer. Já comeu, e jogou os ossinhos fora, como um Dr. Hannibal Lecter (informe-se) subnutrido, todos os seus outros amigos. Ô Belinha, dessa vez você se excedeu, minha filha!

Agora, falando sério (força de expressão: eu sempre falo sério). Se você quiser ver um Mickey Rourke em grande estilo, assista a Sin City, filmaço de Robert Rodriguez & Frank Miller – e Tarantino dirigindo uma cena como “diretor convidado”. A Boscov achou Sin City uma meroda!

Publicado originalmente nO Malfazejo, ontem.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Lembrando Max Martins
Jorge Tufic

Fiquei surpreso com o falecimento do Max Martins. Um grande amigo do Pará, ao tempo de Rui Guilherme Barata, Bruno de Menezes e Jurandyr Bezerra. Ao lado desses, estiveram conosco, em Manaus, o Benedito Nunes, o Max, este com mais frequência, e o Nazareno Tourinho. Foi a época em que a literatura apagou de vez as rivalidades de futebol entre os dois Estados: Pará e Amazonas.

Em 1961, eu obtive o primeiro lugar no concurso de poesia realizado pela Província do Pará para o Norte/Nordeste, com a apoio da SPEVEA. O segundo lugar foi do Alonso Rocha. Um tempo de muita fraternidade entre os escritores e poetas desses dois estados da federação.

Em Manaus, o Max Martins hospedava-se em casa: ele devia ter uns trinta e cinco anos e temia desaparecer aos 40 ou 41, idade em que seu pai deixara este mundo. Eu nunca vi tanto medo da morte!

Eu tenho comigo a primeira edição de O Estranho, com dedicatória do autor. Além de outros livros de sua autoria, geralmente pequenos. O Max fazia parte das reuniões semanais na casa do Bené, à rua da Estrela, em Belém. Uma bela casa, com torre medieval...

Max Martins (Belém, 26/06/1926 – Belém, 09/02/2009)

O poeta Max Martins, por J. Bosco.
Max Martins nasceu em Belém do Pará, em 1926. Exerceu cargos públicos até o momento de sua aposentadoria, a qual o Inamps incorporou outra: a de escritor, obtida há alguns anos e transformada, de imediato, no primeiro caso de escritor que se aposenta e recebe benefícios por ter exercido, por mais de trinta anos, a poesia. Hoje é diretor de um núcleo de cursos na área de linguagem verbal, aberto a estudantes de nível médio, universitários e interessados na literatura de um modo geral, conhecido como Casa da Linguagem.

Lançou seu primeiro livro, O Estranho, em 1952 (edição do autor). Dessa edição muitos exemplares se perderam, pois o resultado da impressão, muito precária, àquela época, não tendo agradado ao poeta, deveria ter sido jogada fora, a seu pedido. Porém, o garoto encarregado da tarefa, penalizado, deixou alguns exemplares nas soleiras dos casarões por onde passara a caminho do incinerador público, contrariando assim a ordem expressa do poeta. Graças a esse fato, O Estranho conheceu uma repercussão a posteriori, por ocasião das doações de acervo das grandes famílias de Belém a bibliotecas de universidades e instituições.

O Estranho refletia a percepção, mesmo que tardia, do modernismo, principalmente da musicalidade de Cecília Meireles, e do coloquialismo estilizado de Carlos Drummond de Andrade em Alguma Poesia, bem como do livro O Homem e sua Hora, de Mário Faustino ("O pão dos sábados/E as aventuras de Mário e Juvenal/Já não te comoverão/Na tristíssima volta ao lar paterno").

Em Anti-retrato (1960), nota-se a evolução para o trato com temas que se tornariam recorrentes em seus poemas – evolução impulsionada, de resto, pela aproximação entre as formas de construção da prosa e da poesia postulada por Faustino em seus estudos sobre poética. ("Já é tudo pedra/os dias, os desenganos./Rios secaram neste rosto, casca/de barro, areia causticante").

Esse projeto de escrita vai se aperfeiçoar uma década depois em H'Era (1971) com, entre outros fatos, a declaração expressa em seus poemas da preferência por autores nacionais como Drummond, Jorge de Lima e Guimarães Rosa, e por estrangeiros como Dylan Thomas, William Alden e Henry Miller. ("Palavras famintas pedem bis, e o X/de Hamlet e Henry Miller me visava;/velhas rezavam, se revezavam/em cantos, panos, palinódias").

Em O Risco Subscrito (1976), os poemas de Max Martins ganham um tom mais universalizante, ¡á anunciado no livro anterior. Aqui, a preocupação com a linguagem se torna o próprio assunto do poema; o ritmo bem marcado delimita agora uma nova relação formal com o espaço em branco da página. 0 que Benedito Nunes, na apresentação da obra, chama de "ensaio de espacialismo", principalmente em O Ovo filosófico:

o olho
do ovo
----------
o ovo
do olho.

Em Caminho de Marahu (1983), a opção pelos temas eróticos transforma-se em um objeto de pesquisa e crítica para o poeta. A influência de João Cabral e dos movimentos de vanguarda, como a poesia concreta e o poemaprocesso, redunda em um certo estranhamento da linguagem dos textos, que associam a natureza da pesquisa de linguagem à natureza do desejo sexual: "O branco apaga tudo – as cores deste gozo/E o próprio gozo/neste poço/ cala/o som da água".
Para Edilberto Coutinho (O Globo, 9/fev/1984), "Max Martins se revela, neste Caminho de Marahu além de poeta, um pesquisador e crítico, na linguagem de Décio Pignatari e dos irmãos Campos, (...) com seus parâmetros mais remotos (dentro da modernidade) em Mallarmé – por exemplo – ou, mais recentemente e de forma mais ostensiva, em Ezra Pound".

Um livro-folder, ou um livro-pôster, assim era 60/35 em sua primeira edição, em 1986. Os dezoito poemas que o compõem parecem confirmar as imagens utilizadas em seus livros anteriores. Como diz o verso de Edmond Jabès, que serve de mote para o autor, "tu és aquele que escreve e que é escrito". Nesses poemas percebem-se decisões quase sólidas na construção dos versos ("Escrevo duro/escrevo escuro"). Característica que constitui sua diferença quando comparados a Marahu, onde, ao mesmo tempo que retorna a temas e imagens anteriores, parece cair em um pessimismo absoluto da linguagem ("Ponho na tua boca as cinzas/da minha insígnia"). Marahu encerra, cronologicamente, a lista dos livros reunidos em Não Para Consolar (1992).

Denyse Cantuária
Mestre em Comunicação e Semiótica.
Professora da Universidade Estadual do Pará, UEPA.
Manaus, amor e memória I
Manaus, início dos novecentos.
Palácio da Justiça, na avenida Eduardo Ribeiro.
(Obs: o título da postagem, início de uma série, foi emprestado de Thiago de Mello)

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Carroll + Bandeira = Snark
Traduttore, traditore. Traduzir poesia só pode ter duas finalidades: ganhar uma grana ou recriar o original, no sentido poundiano de “crítica via tradução”, que pode se originar de algo do tipo “li uma tradução, mas não gostei; faço melhor” – o que não deixa de ser uma forma de crítica, muito criativa. Mas o ditado italiano – “tradutor, traidor” – sempre corre o risco de se concretizar, qualquer que seja o caso. Aliás, alguém (quem, mesmo?) já disse que, numa tradução, a poesia é exatamente aquilo que se perde.

Como eu sei que não tem grana no jogo, fica apenas a certeza de que Jorge Bandeira, mais uma vez, optou pelo risco. Aliás, é escrevendo perigosamente que ele constrói sua obra. Sempre no limite. Sempre à margem – do óbvio e do oblívio. E a edição é bilíngüe: para mostrar que não tem nada a esconder.

Traduzir Lewis Carroll é duplo desafio: o texto, tempossacralizado, intocável, é muitas vezes intraduzível – para quem teme o humanum experimentum, legado de Prometeu: só desafiando os deuses podemos merecer a consciência humana. Eva intuiu isso: ao provar do fruto do conhecimento, arrastou Adão para trás da primeira parreira que encontrou e deu uma banana à serpente.

Nascido Charles Lutwidge Dodgson, Lewis Carroll (1832-1898), inglês, filho de um pastor anglicano, diplomado em matemática por Oxford, dividiu seu tempo de adulto entre lecionar matemática e lógica, escrever poesia e ficção para crianças, e fotografar muito – menininhas, em poses lânguidas, numa época em que esse adorável passatempo ainda não era satanizado. Além de um belo álbum com essas fotos, deixou-nos o sublime “Alice no país das maravilhas” (1865) e seu complemento “Através do espelho e o que Alice encontrou lá” (1871), que formam com este “A caçada do Snark” (1876) a sua trilogia do absurdo. Carroll joga com a linguagem e a lógica, e, como bom matemático, autor de “Euclides e seus rivais modernos” (1879), com os paradoxos que contradizem a concepção ordinária de espaço e de tempo.

Para você imaginar o que vem a ser um Snark, o nosso herói, ou melhor, a nossa caça, pense em um híbrido de serpente (snake) e tubarão (shark). E embarque com o leiloeiro nessa equação plena de nonsense.

(Zemaria Pinto - apresentação de A caçada do Snark)

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Botando o pingo nos ii

Conhecida jornalista baré propôs em artigo recente o fim da crase. Confessou, humildemente (coisa rara num jornalista; tanto quanto num médico, advogado, analista de sistemas... tá bom, a lista é longa), que a maldita farpa era uma pedra no seu caminho. Cá entre nós, mais é o mourão, como diria aquela ciganinha do Lorca (informe-se).

Devagar com a louça, moça. Roma não se fez num dia. E o mundo, feito em apenas seis – sem análise de impacto, sem comissões ambientais, sem sequer a menor tabela de caminhos críticos – deu nessa meroda (nem adianta informar-se: abstraia) que está aí.

Assim como, um dia, tiraram a farpa do sete (havia uma farpinha cortando o 7 horizontalmente, para difençá-lo do 1...) e, para os informáticos pré-billgates, tiraram o farpão do zero (Ø, achavam que confundia com a letra O), proponho, como o início da reforma da reforma, a RETIRADA IMEDIATA DOS PINGOS DOS II, QUER DIZER DOS ii.

PS: o título não está errado: para tirar o pingo dos ii é necessário botá-los. Isso é pura metafísica (informe-se).

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Lançamento: A Lenda da Mangaba

O jornalista e sociólogo José Maria Viana de Souza lança neste sábado, dia 7 de fevereiro, às 10h, na Livraria Valer (Ramos Ferreira, 1195, Centro) o livro A Lenda da Mangaba. Trata-se de uma peça de teatro que se divide em cinco cenas, exatamente como os atos das tragédias gregas. A obra reune diversas linguagens culturais, numa retomada das raízes do "caboco-indígena". O autor menciona a passagem do padre Antônio Vieira pela Amazônia como apóstolo dos índios.

O livro traz ainda mais dois textos: A terra dos bravos, que discute a saga do seringueiro, e Araquarela, a Bela, que brinca com a história cultural da cidade paulista de Araraquara. São 122 páginas por onde desfilam índios e caboclos, comerciantes e aventureiros, com lembranças, discussões históricas, críticas, apelos, saudades e peripécias da condição humana.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Márcio Souza relança A Selva

No próximo sábado, dia 07/02, o Grupo de Estudos e Práticas Audiovisuais Difusão Audiovisual promove seu primeiro encontro aberto ao público. O encontro se dará no SESC da rua Henrique Martins, Centro. O escritor Márcio Souza fará a exibição do filme "A Selva", rodado na década de 1970, em Manaus. Em seguida, haverá um bate-papo com o escritor sobre a experiência da produção do longa-metragem e seu processo de criação.

Horário: 18 às 21h
Entrada franca

Haverá ainda sorteio de ingressos para a abertura da temporada 2009 da peça "Sábados Detonados".

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

"Vou sentir saudades do trema"

(Entrevista ao caderno Muito + JC, do Jornal do Commercio, em 16.01.09)

O escritor Zemaria Pinto, fala sobre o impacto das mudanças ortográficas da língua portuguesa, iniciadas em 1º de janeiro.

Seu nome oficial é José Maria Pinto de Figueiredo, mas ele prefere que o chamem de Zemaria Pinto. É amazonense de Manaus, onde reside desde sempre, mas, por mero acaso, nasceu em Santarém, no Pará. É formado em Economia, com pós-graduação em Análise de Sistemas e em Literatura Brasileira, embora uma coisa não tenha nada a ver com a outra.

Autor de sete livros, desde 2004 ocupa a cadeira nº 27, na Academia Amazonense de Letras, cujo patrono é Tavares Bastos. Uma de suas características, e qualidades, é se empenhar em divulgar a literatura, com destaque para a amazonense.

Muito + JC: Desde o dia 1º de janeiro estão valendo as mudanças na ortografia da língua portuguesa. O que você achou dessas mudanças?

Zemaria: Vou sentir saudades do trema. Para nós, do Brasil, as outras mudanças foram para melhor.

Muito + JC: Em 1971 foi feita uma mudança similar a essa. Você acha que ainda cabem outras mudanças ou a língua portuguesa, nos oito países que a falam, agora está unificada?

Zemaria: Lembro perfeitamente dessa última mudança. Eu fazia o ginásio, na época, e não ganhei nenhum trauma por isso. Aliás, lendo livros editados antes dessa reforma, dou-me conta de quanto ela foi positiva, no sentido de simplificar o uso da língua. O idioma não é um monumento imutável; ele é um processo dinâmico: está em constante metamorfose. Essa tentativa (ainda não acredito que vá dar certo, embora torça por isso) de unificação é positiva. Se ela der certo, é necessário que, de tempos em tempos, se faça uma revisão, pois as mudanças naturais que ocorrem em um país não ocorrem em outro. É uma questão cultural. É como fazem os países de língua espanhola, que é unificada.

Muito + JC: A língua portuguesa, pelo menos no Brasil, é bastante mutável. Você acredita que isso, a longo prazo, não torna, novamente, o português (no Brasil), passível de outro processo de unificação com os demais países?

Zemaria: Foi o que eu disse antes. Todas as línguas são mutáveis, são organismos vivos. Dentro de um determinado prazo, 20 a 30 anos, deverá haver uma revisão, sim. Principalmente, com relação a novas palavras.

Muito + JC: Será que essas mudanças não vão "bagunçar" a cabeça dos alunos da disciplina de português, afinal, nossa língua é bem complicada, difícil de ser dominada completamente, e ainda fica sendo mudada.

Zemaria: Todas as línguas são complexas. O português não é mais difícil que nenhuma outra língua. Quanto à modificação, ela acontece cotidianamente, sem que sequer nos demos conta. Agora, cá entre nós, a cabeça dos alunos, mesmo os de nível "superior", já é bem bagunçada. Não acredito que essa reforma vá complicar nada. E é uma boa oportunidade para os professores acomodados, que acham que já não têm mais nada a aprender, abrirem novamente a gramática.

Muito + JC: O que de bom e o que de ruim resultará com essas mudanças?

Zemaria: O que eu vejo de extremamente negativo é o fim do trema. As outras mudanças vieram para facilitar o uso da língua. Essa é uma visão, reconheço, colonialista. Sei que grandes escritores portugueses, Saramago entre eles, ofenderam-se com a mudança, que teve um foco no Brasil. Já os africanos adoraram, porque eles já estão acostumados com o português "brasileiro". Tem o aspecto econômico, também. Uma edição de livro brasileiro não precisará ser "traduzida" para ser vendida em Portugal e nos outros países. O inverso também é verdadeiro. Todos ganham com isso.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Academia Amazonense de Letras promove homenagem anual
O escritor Péricles Moraes (1882-1956), um dos fundadores da AAL.

Pelo quinto ano consecutivo, a Academia Amazonense de Letras concede a Medalha do Mérito Cultural Péricles Moraes, nas áreas de Arte, Letras e Mecenato. Personagens como Astrid Cabral, Ivete Ibiapina, Nivaldo Santiago, Óscar Ramos e Milton Hatoum já foram agraciadas. Neste ano, o bailarino Marcelo Mourão, o escritor Carlos Gomes e o Instituto Dirson Costa foram os escolhidos.

A entrega da medalha, em noite de gala, será a 28 de abril, em local a ser confirmado, pois o prédio da AAL está em reforma. O orador da cerimônia, entretanto, já foi designado: será o escritor Max Carphentier.

Péricles Moraes foi um dos fundadores da Academia Amazonense de Letras, seu presidente de 1948 a 1956, e hoje é patrono da cadeira número 1. O dia 28 de abril marca o seu aniversário de nascimento, em 1882.