Amigos do Fingidor

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Bons olhos, maus olhos



Pedro Lucas Lindoso

Meu amigo e vizinho Neliton Marques me informou, preocupadíssimo, que o aquecimento da terra em 2016 suplantou as expectativas. Segundo me disse, 2016 foi o ano mais quente da História. Pelo menos desde que começaram a registrar as temperaturas do planeta. Triste recorde.
Neliton é ambientalista e agrônomo respeitado. É professor e já dirigiu órgão ambiental em nosso estado. Ele vê o planeta com bons olhos.
“O clima não é mercadoria, assim como água, terra e direitos também não são”, diz Sonia Guajajara, da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB). Ela também vê a Terra com bons olhos.
Yuri Gagarin, em 1961, tornou-se o primeiro homem a ver o nosso planeta acima da atmosfera. E anunciou ao mundo: “A Terra é Azul”! Gagarin viu a Terra não só com bons olhos, mas com admiração e assombro.
Aprendi que a Terra é azul porque a luz do Sol é refletida na atmosfera e decomposta como um prisma, produzindo a coloração azul. E também porque há extensa quantidade de água na sua superfície.
O Papa Francisco em sua Encíclica Laudato Si (Louvado sejas) convida a humanidade a “procurar outras maneiras de entender a economia e o progresso, o valor próprio de cada criatura, o sentido humano da ecologia, a necessidade de debates sinceros e honestos, a grave responsabilidade da política internacional e local, a cultura do descarte e a proposta dum novo estilo de vida”.
O Papa vê a terra com bons olhos. E com preocupação.
A Campanha da Fraternidade deste ano de 2017 terá como tema “Fraternidade: biomas brasileiros e defesa da vida” e o lema “Cultivar e guardar a criação”.
Infelizmente, parece que alguns líderes mundiais não entendem ou fingem não entender o que o Papa chama de “sentido humano da ecologia”. E se recusam a ver o planeta com bons olhos. 
Compartilho minhas preocupações com Neliton Marques, Sonia Guajajara e o Papa. Nas minhas meditações e preces, fico me imaginando um Gagarin do século 21. Contemplo e admiro, como se estivesse no Espaço, a beleza azul da Terra. Nesses momentos desejo, do fundo do meu coração, ao nosso planeta, a nossa Pacha Mama, como dizem os povos andinos, que maus olhos não a vejam.   


domingo, 29 de janeiro de 2017

sábado, 28 de janeiro de 2017

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

cenas da vida banal 3


Zemaria Pinto

a secretária passeia
sua bundinha de louça
entre fones, faxes, ais.
num transe de transamor
fecho os olhos e contemplo
por baixo da pele jeans
a carne dura da moça
manga, manguita, mangaba
delírios frutropicais.


quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Deuses, deusas e médicos na Grécia



João Bosco Botelho


“Os gregos que parecem ter sido os primeiros a fazer da Medicina a profissão mais ilustre e completa, escreveram na conformidade deste conceito que fora Apolo o inventor dela, o que não deixa de ter aparente razão. Eles entendiam Apolo como o Sol (com o seu calor benigno e temperado, vivificador das plantas e do homem) ou como o homem possuidor de um espírito divino e melhor que todos os demais do seu tempo. Apolo também foi o primeiro que ensinou e praticou o uso das ervas, como Ovídio deu a entender na sua obra Metamorfoses”. Esse trecho do livro Ouvres Completes, de Ambroise Paré (1510-1590), o mais famoso cirurgião-barbeiro de todos os tempos e um dos responsáveis pela incorporação da cirurgia como especialidade na Medicina, mostra como a mitologia grega influenciou a prática médica no Ocidente durante mais de vinte séculos.
As relações da Medicina com a compreensão mítica da realidade se perderam no tempo. É impossível separar as idéias míticas do entendimento do homem sobre a saúde e a doença.
Das primitivas relações do homem com o animal, posteriormente substituídas pelas relações com a terra, surgiu empiricamente o uso das plantas na busca da saúde. A utilização do vegetal, indispensável à sobrevivência do homem, se processou em complexa compreensão mítica, que foi marcada pelas explicações que se sucederam nos milênios da origem primeira e do destino final do ser humano. Elas evoluíram da epopéia de Gilgamesh, dos babilônios, à teoria do Big Bang, dos modernos astrofísicos, passando pela gênese judaico-cristã e pela Yebá beló da lenda desana da criação do Sol.
Apesar da melhor compreensão que temos hoje das metamorfoses do pensamento mítico, a dificuldade de interpretação aumenta na proporção que recuamos no tempo. Entretanto, parece ser a partir do século 6 a.C., na Grécia, que chegou o material historiográfico suficiente para traçar, com alguma segurança, um perfil da Medicina da mitologia.
É provável que o acervo cultural e médico dos povos mesopotâmicos e dos vales do Indo e do Nilo tenham influenciado a formação do universo médico-mítico grego. Os registros históricos que se ocupam da Medicina na mitologia grega são, provavelmente, o produto das complexas relações do homem que antecedeu a formação do pensamento grego. É possível estabelecer paralelismo entre muitos aspectos das relações médico-míticas das civilizações babilônica, egípcia e indiana com as da Grécia dos cinco primeiros séculos antes de Cristo.
De acordo com a mitologia grega, a Medicina começou com Apolo, filho da união de Zeus com Leto. Inicialmente, Apolo foi considerado como o deus protetor dos guerreiros, posteriormente, foi identificado como Aplous ou aquele que fala a verdade. Ele agia purificando a alma, por meio das lavagens e aspersões, e o corpo, com remédios curativos. Era considerado o deus que lavava e libertava o mal.
Um dos filhos de Apolo, Asclépio, recebeu educação do centauro Quirão para ser médico.  A escolha do centauro mítico para dirigir a educação de Asclépio se consolidou porque ele dominava o completo conhecimento da música, magia, adivinhações, astronomia e da Medicina. O centauro, além destas habilidades, tinha incomparável destreza, manejava com a mesma habilidade o bisturi e a lira.
O centauro Quirão, além de ter educado Asclépio na Medicina, também orientou Jasão na arte de vencer os mais incríveis obstáculos, e Dionísio, o deus da vegetação e do vinho, conhecedor dos mistérios da religião, do êxtase e da embriaguez.



quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Torcedora do Caprichoso



Pedro Lucas Lindoso


Tia Idalina tornou-se fã do casal Michel e Marcela Temer. Mandou-me um e-mail na qual diz que Marcela é nossa Jackeline Kennedy tupiniquim. Em minha opinião está mais para Rosane Collor, versão recatada. A verdade é que ninguém se compara a Michelle Obama. Essa sim, verdadeira “first lady”.
Idalina quer saber por que os Temer ainda estão morando no Palácio do Jaburu. Já deveriam ter se mudado para o Alvorada. Fofocas de Brasília dizem que o casal se recusou a usar o mesmo colchão da Dilma. Estão trocando tudo. Cama, mesa e banho. Há lençóis e toalhas de banho que nem foram usadas. A ordem foi renovar tudo. Um novo enxoval presidencial está sendo comprado.
Enquanto as trocas estavam na ala residencial e na suíte presidencial não houve maiores problemas. Mas as reformas estão além do esperado. Uma assessora de imprensa minha conhecida que mora em Brasília me disse que a Curadoria de Artes e patrimônio dos palácios está em pânico.
O presidente não gosta de preto e pediu que trocassem os sofás daquela cor. Ocorre que a decoração foi feita pelo escritório do Oscar Niemeyer. O ex-curador do palácio afirmou na imprensa que se deve observar que o palácio é um espaço público. Nem sempre comporta gosto pessoal de seus moradores temporários. Está aberta a polêmica.
Minha amiga jornalista lembrou que quando dona Marisa fez um canteiro de flores vermelhas em forma de estrela toda a imprensa caiu em cima. Os canteiros ficavam no gramado externo no fundo do palácio. Obviamente já foram retirados. Todavia, independente de posição partidária, toda celebridade gosta de um “red carpet’”. Mas Marcela Temer não gosta da cor vermelha.
A primeira dama pediu que retirassem todos os tapetes vermelhos do Palácio da Alvorada. O problema é que os tapetes persas, inclusive os que fazem parte da decoração original e pioneira do palácio, são avermelhados. Não há tapete persa que não tenha vermelho na composição.
Para Idalina tudo isso é intriga da oposição. Perguntei a ela porque a ojeriza de Marcela ao vermelho. No Amazonas há os que torcem pelo boi Caprichoso, de cor azul. Há os que torcem pelo Garantido, de cor vermelha.
Idalina me disse que Marcela é torcedora do Caprichoso e odeia vermelho. Entendi. Está explicado. Torcedora do Caprichoso.



domingo, 22 de janeiro de 2017

Manaus, amor e memória CCC


Cervejaria Miranda Correa.
Um brinde ao post 300 desta série.

sábado, 21 de janeiro de 2017

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

cenas da vida banal 2


Zemaria Pinto


depois de afogar as mágoas
em alcaloides diversos
dispostos em vário grau
exorcizo a depressão
tomando guaranamel
com hóstias de sonrisal


quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Magistral presença de Hipócrates



João Bosco Botelho


Hipócrates, segundo Sorano de Éfeso, nasceu na ilha de Cós, em 460 a.C. Filho do médico Heráclides, aprendeu os segredos da prática médica com o pai e nas viagens à Tessária, Trácia, Líbia e ao Egito.
Esse período admirável da Medicina grega, do qual Hipócrates foi o mais importante representante, compreendeu cinco centros de cultura médica que receberam os respectivos nomes da cidade onde funcionaram: Cós, fundada por Hipócrates, em 440 a.C., Rhodes, Cnido, Crotona e Agrigento.
Devido à importância fundamental na história da Medicina, a Escola de Cós acabou absorvendo a denominação de Medicina hipocrática em menção honrosa a Hipócrates. 
O sucesso da Escola Médica de Cós, onde Hipócrates e seus seguidores estruturaram as bases da Medicina oficial grega, responsável pela primeira teoria para explicar a saúde e a doença – a teoria dos Quatro Humores – representa o primeiro corte epistemológico da Medicina, tendo sido cristianizada no medievo e traduzida para o francês no século 19.
A medicina hipocrática pode ser compreendida por meio das obras publicadas pelos médicos da Escola de Cós, em suma, responsáveis pelo primeiro corte epistemológico na história da Medicina, quando as práticas médicas iniciaram o processo de separação das crenças e idéias religiosas. A cura deixou de ser um atributo exclusivo dos deuses protetores ou vingadores para ser explicada pela Medicina, onde era possível e preferível que o homem agisse sobre o outro homem doente, para alcançar a melhoria da saúde.
A estrutura teórica da Medicina hipocrática está contida no pensamento filosófico grego pré-socrático, notadamente, na teoria dos Quatro Elementos de Empédocles (água, terra, ar e fogo). Posteriormente, foi incluído no mundo das idéias platônico-aristotélico.
Se for considerado o fato de que, até o século III a.C., na Grécia, qualquer pessoa poderia exercer a Medicina, o notável avanço proporcionado pelos escritos da Escola de Cós, sistematizando os saberes historicamente acumulados e iniciando o processo de ruptura com as ideias e crenças religiosas, inclusive, é fundamental conhecer algumas idéias centrais que moldaram a Medicina, no Ocidente, durante vinte séculos.
Dessa forma, é possível estabelecer quatro conceitos fundamentais na Medicina hipocrática:
– É fundamental conhecer o corpo humano e o ambiente: só é possível entender a saúde e a doença se o homem for estudado em conjunto com o ambiente onde vive;
– A doença é consequência de agressão ao equilíbrio do corpo: as causas e as consequências das doenças devem ser entendidas em conjunto com as reações naturais do corpo frente à agressão;
– A saúde é obtida por meio do equilíbrio entre os Quatro Humores (sangue, fleuma, bile amarela e bile negra), que correspondem aos Quatro Elementos de Empédocles (água, terra, ar e fogo):
A doença é o resultado do desequilíbrio dos Quatro Humores que poderia ocorrer seja por causas internas, próprias do doente, seja por vetores externos ao ambiente ou modo de vida do paciente, seja pela conjunção dos dois fatores. Sob esse pressuposto teórico, praticar a sangria era uma das formas de obter o equilíbrio dos humores.
Os escritos hipocráticos consideravam a idade como o principal fator interno que poderiam determinar a saúde e a doença. Como fatores externos, as estações do ano, águas, o ar respirado e os ventos.
Assim, a doença era entendida, na Escola de Cós, como um processo resultante de três fases sucessivas e inter-relacionadas: incubação, crítica e resolução.



quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Picolé de groselha



Pedro Lucas Lindoso

O Rio de Janeiro no verão faz mais calor que em Manaus. Tia Idalina me liga de Copacabana esbaforida. Foi à farmácia da esquina. O termômetro da rua indicava 38 graus. Comprou cinco potes de sorvete Häagen-Dazs e voltou para casa.
Mas por que Häagen-Dazs? Sempre consumiu sorvete da Kibon. Quando menino e íamos à praia, havia os picolés premiados da Kibon. Era uma alegria quando achávamos um picolé premiado. Dava direito a outro de graça. Bons tempos. Explicou-se:
– Meu parâmetro agora é Michel e Marcela. Eles adoram Häagen-Dazs. E eu provei e amei. Tem um toque europeu. Os ingleses não imitam os gostos da família real britânica? Por que não imitar os Temer?
Disse a Idalina que informações do Google dão conta que Häagen-Dazs é uma marca de sorvete americana fundada por Reuben e Rose Mattus, no Bronx, em Nova Iorque, em 1961. Posteriormente, em 1983, foi vendida e tornou-se uma multinacional. Não tem nada de europeu. E dizem que a licitação foi superfaturada.
Mas Idalina não arrefeceu. Disse-me que era implicância com Michel e Marcela. Os sorvetes Häagen-Dazs foram licitados para abastecer o avião presidencial durante um ano. Ademais a licitação incluía comida além de sorvete. Para não discutir e nem desagradar Idalina concordei que o sorvete de baunilha com macadâmia crocante deles era delicioso e encerramos o telefonema.
Havia uma sorveteria aqui em Manaus, a TÔ-KI-TÔ, na Rua Emílio Moreira canto com a Ramos Ferreira. No início dos anos de 1980 vendia sorvete SANSUÊ. Depois começou a fabricar seu próprio sorvete. Pertencia a um tio chamado Batuel Lindoso. O sorvete era tão gostoso quanto o Häagen-Dazs. Mas meu tio não teve a mesma sorte que Reuben e Rose Mattus do Bronx. E faliu.
Hoje aqui em Manaus faz sucesso o picolé da massa. Já faz parte da cultura amazonense. Há vários sabores, predominando os regionais, como buriti, tucumã e açaí. E o de tapioca.
Muita gente não consome porque tem a história de que o picolé da massa é um produto que não tem higiene e que é preciso tomar cuidados redobrados.
Existem os produtores honestos, é verdade. A família pioneira guarda o segredo da tal massa a sete chaves. Uns dizem ser massa de macaxeira. Outros, de formulados à base de leite. Há controvérsias.
Há muitas fábricas nos fundos dos quintais. A vigilância fechou uma arapuca administrada por uma cabocla procurada pela polícia que se juntou a um imigrante haitiano para produzir e vender sorvete da massa. Um descalabro em termos de higiene. 
Nem Kibon, nem Häagen-Dazs, nem da massa. Sinto saudades do picolé de groselha de minha infância. Era vendido pelo seu Malaquias, no canto da Henrique Martins com a Rui Barbosa. Aquilo sim era picolé!

domingo, 15 de janeiro de 2017

sábado, 14 de janeiro de 2017

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

cenas da vida banal 1



Zemaria Pinto


rito da simples manhã:
entre o mijo e o dentifrício
a noite evola-se amarga
na overdose de hortelã


quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

18 de outubro – dia do médico


João Bosco Botelho  


Os registros pré-históricos evidenciam que a humanidade sempre conviveu com a certeza da doença e da morte. A epopeia edificada na busca da saúde empurrando os limites da morte sedimentou o aparecimento dos agentes da cura, da benzedeira ao médico, e a materialização da Medicina como especialidade social.
A inteligência humana elaborou no espaço sagrado as construções teóricas para justificar a doença e a morte, em especial, de modo espetacular, a ambicionada felicidade na imaginável vida depois da morte.      
Curar é uma palavra mágica porque interliga o sagrado com o profano. O ato de curar incorpora na essência o poder ou a sensação de vencer o maior de todos os obstáculos da vida: a morte. 
Esse é o alicerce primordial da resistência humana: vencer a morte inevitável! 
 O fato está claro na mitologia grega. A data atual de comemoração do dia do médico – 18 de outubro – corresponde à época em que era celebrada a festa do filho de Apolo, Asclépio, o deus da Medicina grega. 
O estudo da representação social de Asclépio no panteão grego é capaz de identificar um ponto comum na relação entre os mundos sagrado e profano: a insubordinação à ordem divina. 
Asclépio conquistou uma fama inimaginável. Tinha a delicadeza do tocador de harpa e a fina habilidade agressiva do cirurgião. Todos os doentes que não obtinham cura em outros oráculos procuravam os serviços médicos de Asclépio. Mais cirurgião do que médico, ele criou as tiras, as ligaduras e as tentas para drenar as feridas. Chegou a ressuscitar os mortos e por essa razão foi fulminado por Zeus com os raios dos Ciclopes. Zeus matou o filho de Apolo porque temia que a ordem natural das coisas fosse subvertida pelas curas e pela ressurreição dos mortos. 
O deus da Medicina grega deixou duas filhas – Hígia e Panaceia – e dois filhos – Machaon e Podalírio. As duas mulheres se tornaram famosas pelos conhecimentos empíricos ligados à higiene e às plantas medicinais. Os dois homens foram reconhecidos como médicos guerreiros, praticando a cirurgia na guerra de Tróia, e foram citados nominalmente por Homero (Ilíada, 830). 
Muitas esculturas e afrescos retratando Asclépio e a sua filha Panaceia, feitos entre os anos 400 e 100 a. C., contêm a serpente enrolada em um bastão, como símbolo do renascimento.  O poder da divindade mantendo a primazia da vida sobre a morte, foi revigorado pela gradativa consolidação do cristianismo como religião dominante. O calendário cristão manteve o dia 18 de outubro como o registro festivo para marcar o nascimento de Lucas, o evangelista médico.
A serpente de Asclépio se enrolou na cruz cristã e formou um dos mais belos sincretismos religiosos da história.

Não é sem razão nem simples coincidência que os médicos comemoram, muitos sem saberem porquê, o dia 18 de outubro como marco da resistência à morte inevitável.  

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Enquanto se construía Brasília


Pedro Lucas Lindoso


Há sessenta anos, em 3 de janeiro de 1957, Juscelino Kubitschek visitava Manaus para inaugurar a Refinaria de Petróleo da COPAM – Hoje denominada de REMAN - Refinaria de Manaus Isaac Sabbá, pertencente ao sistema Petrobras.
O atual nome da REMAN é homenagem mais do que merecida à capacidade empreendedora de Isaac Benayon Sabbá, o grande responsável pela criação da COPAM – Companhia de Petróleo da Amazônia. Isaac Sabbá acreditava no progresso do estado e apostou na existência de petróleo na região.
JK havia visitado o Amazonas em abril de 1956 e pela segunda vez em seu mandato, iniciado havia um ano, prestigiava o Amazonas e seu povo. Naquela primeira visita a Manaus foi ainda ao município de Nova Olinda – onde a Petrobras havia encontrado petróleo. A presença do presidente celebrava esse achado, bem como viria para conferir o jorro do poço NO-1-AZ, de Nova Olinda do Norte.
Ao fazer escala em Anápolis, em seu voo para Manaus, em abril de 1956, Juscelino assinou Mensagem ao Congresso encaminhando projeto de lei que dispunha sobre a mudança da capital para o planalto goiano. Coube ao amazonense Deputado Federal pelo Amazonas, Dr. Francisco Pereira da Silva, Presidente da Comissão Parlamentar da Mudança da Capital, da Câmara dos Deputados, membro de sua comitiva, a caminho de Manaus, a lavratura da ata.
Nessa segunda visita, já em 1957, o governo do estado conclamou a todos os amazonenses a comparecer ao Aeroporto de Ponta Pelada “a fim de receber com a manifestação de que é merecedor o Excelentíssimo Presidente da República, doutor Juscelino Kubitschek, grande amigo do Amazonas”.
O governo estadual pedia ao comércio e à indústria que fechassem as portas no horário da tarde para que os trabalhadores pudessem aderir a manifestação de apreço ao presidente visitante. As escolas estaduais e particulares foram incentivadas a participar com os alunos devidamente uniformizados e fazer alas entre o aeroporto e a Praça General Carneiro, na Cachoeirinha. Lá seria inaugurado o Conjunto KUBITSCHEK, conjunto residencial construído pelo governo.
Meu saudoso pai, José Lindoso, era membro da Executiva Estadual do PSD – Partido Social Democrático, partido político de JK, e participou de todas as solenidades.
Eu nasci em maio daquele ano de 1957. Enquanto JK visitava Manaus, tratores cuidavam de desbravar o cerrado e se construía a nova capital – Brasília, a capital de todos os brasileiros.



sábado, 7 de janeiro de 2017

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

exercício nº 17


Zemaria Pinto


de cinco mil sementes repartidas
em outras cinco mil repetições
transforma-se a parede num festim
de gritos e sussurros sem sentido

miríades de sonhos e de sons
de um outro inferno ainda refletidas
são fugas recorrentes de mim mesmo
na sordidez do tempo aprisionadas

da câmara sombria um som se eleva
em timbres modulados na memória
buscando a quintessência do silêncio
na velha luta vã contra as palavras

pois o poema é nada mais que isso
música para surdos – nada mais

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Eutanásia e ortotanásia: a morte com dignidade


João Bosco Botelho


Em março de 2005, milhões de pessoas viram na TV o drama familiar da doente norte-americana, em coma durante quinze anos. Expedida a autorização judicial, morreu treze dias após serem interrompidos os cuidados médicos.
O fato trouxe à tona novas discussões em torno do direito de morrer com menos sofrimento, por meio da eutanásia e da ortotanásia.
A eutanásia ativa objetiva a interrupção da vida por meio de autorização consentida entre o doente e o médico executante. A eutanásia passiva não provoca a morte imediata, mas interrompe todos os cuidados médicos que mantêm a vida.
A ortotanásia pode ser entendida como a chegada da morte no processo natural. Nessa circunstância, a assistência médica não contribui para prolongar artificial e desnecessariamente o processo de morte.
O drama da doente norte-americana provocou três questionamentos:
– O poder das instituições hospitalares e do médico para manter a vida artificialmente dos doentes sem qualquer possibilidade de recuperação;
– O direito de pedir a própria morte quando o doente lúcido, sem possibilidade de cura, com sofrimento incomensurável, não quer mais dor;
– Na impossibilidade de o doente decidir, nas mesmas condições acima citadas, se alguém da família poderia decidir a hora da morte.
De modo geral, as discussões de ordem jurídica e ética, alcançaram diferentes espaços das relações laicas e religiosas. Sem unanimidade frente às várias correntes, a discussão acabou restrita aos abusos da tecnologia médico-hospitalar, que transformou o doente terminal em mercadoria de valor, seja científico ou monetário.
É importante ressaltar os órgãos fiscalizadores públicos e privados, inclusive os da Igreja, por meio da bula Evangelium Vitae, de 1995, do papa João Paulo II, valorizam a ortotanásia, opondo-se aos excessos terapêuticos, sustentando que as renúncias aos meios desproporcionais para prolongar a vida, não correspondem ao suicídio ou a eutanásia. 
As publicações em muitas línguas reforçam o desejo coletivo de poder morrer com dignidade, próximo da família e sofrendo o menos possível.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Fantasy Art - Galeria


The second sin.
Adrian Bordan.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Ácido sulfúrico ou anilina?



Pedro Lucas Lindoso

Fim de ano. Leio nos jornais que neste 2016 que ora termina a famosa tabela periódica de elementos aumentou.  Quatro novos foram batizados como nihônio, moscóvio, tennessino e oganessono.
A notícia fez lembrar-me de um Natal de minha infância, quando o Papai Noel deixou perto de minha cama um presente inesquecível. Tratava-se de uma caixa que continha um microscópio pequeno, tubos de ensaio de verdade, feitos de vidro. Além de tubos de ensaios, a caixa O PEQUENO QUÍMICO vinha com mini béquer e pipeta. E continha também reagentes. Claro que em doses pequenas. Até ácido sulfúrico.
 Fui alertado de que havia substâncias perigosas e que eu deveria brincar somente com a ajuda de meus irmãos mais velhos. Ao brinquedo que vinha sob a aura de algo mágico, era imposto uma tutela desagradabilíssima. A necessária vigilância de irmãos mais velhos foi por demais frustrante. Terminou por confiscarem o meu presente em definitivo. Foi-me permitido, eventualmente, ver as coisas estranhas no microscópio. E só.
Ao protestar e dizer que o presente era meu, levou-se o assunto ao papai Noel. Meu velho pai ficou impressionado com a explicação de meu irmão mais velho sobre os perigos do ácido sulfúrico, que vinha no brinquedo. Foi informado de que o ácido possui alto poder de corrosão e causa grandes problemas ao ser humano, tanto quando ingerido acidentalmente como quando inalado ou derramado sobre a pele.
Ante tal fato, meu pai decidiu que a tutela era definitiva e que eu deveria obedecer aos mais velhos sem reclamar. Era para o meu próprio bem e para minha própria segurança.
Via a alegria de meus irmãos em lidar com ácido sulfúrico e outros reagentes. Apesar de só poder observar.  As experiências evoluíam para outras coisas e logo os verdadeiros donos do brinquedo começaram a experimentar diversos líquidos tais como material de limpeza encontrado na despensa. Soda cáustica, suco de limão e outros produtos serviram de teste. Até que todos os tubos de ensaiam se quebraram, os reagentes acabaram e a brincadeira foi esquecida.
Se fosse nos dias de hoje, provavelmente meu brinquedo não seria confiscado. Vi uma dessas caixas numa loja de brinquedos – O PEQUENO QUÍMICO e achei uma bela porcaria. Os tubos de ensaio foram substituídos por plástico. Os reagentes por anilina. Tudo hoje é perigoso e proibido. Não sei como a minha geração sobreviveu a tantos perigos.
Fico pensando na infância dos químicos que descobriram os novos elementos.  Li no jornal que os novos inquilinos da tabela periódica, produzidos artificialmente, são altamente radioativos.

Será que o estojo do PEQUENO QUÍMICO desses cientistas ainda tinha ácido sulfúrico ou já era anilina?

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Lábios que beijei 66


Zemaria Pinto
Janaína e o centauro



Os anos de relacionamento com a índia Janaína mudaram seu conceito sobre mim. Mania de falar coisas sem nexo, uma noite, eu quase adormecido, a ouvi dizer meu centauro. Por quê? Centauros são brutos, insensatos e estúpidos. Nada têm de humano, a não ser a falsa metade, mera aparência. Centauros não se deixam dominar, sua natureza é assassina e suicida. Não medem, não pesam, não ponderam. Agem por puro instinto. Eu sou um centauro? O pior de todos que já passaram por este mundinho besta. Perdido o sono, montei sobre Janaína e a possuí com um vigor próximo à violência. Fato raro, Janaína não gozou. Acendi a luz da cabeceira, para ir ao banheiro, e pude ver de relance o brilho de seus olhos úmidos.

domingo, 1 de janeiro de 2017