Amigos do Fingidor

terça-feira, 23 de maio de 2017


Endereço: Comendador Clementino, 421, Centro.

Muita chuva. Isso é bom?



Pedro Lucas Lindoso
  

Chove sempre na Amazônia. Às vezes chove muito. As pessoas estão preocupadas porque o rio está transbordando. A cheia do Rio Negro para este ano, em Manaus, que atinge o pico em junho, deverá alcançar mais de 29 metros, segundo avaliações do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, recentemente publicadas nos jornais.
Dizem que muita chuva não é muito bom. Quando alguém diz: chega! Está bom! Deve-se parar. Está o suficiente. O suficiente é bom? Está mesmo bom de chuva? Deve mesmo se pedir para parar de chover?
Ouvi na televisão que houve substancial aumento no volume das chuvas este ano. Obviamente que isso influenciou a cheia dos rios amazônicos.
Comenta-se também sobre um fenômeno meteorológico conhecido como “La Niña”. Esse fenômeno seria o responsável pelo aumento da quantidade de chuvas na nossa região. Chuvas que atingiram as Cordilheiras dos Andes e também a nossa Amazônia. Com certeza então essa tal de "La Niña" é uma garota peruana, ou melhor, quéchua!
Continuo a minha meditação: Será que muita água é bom?
Gosto do vocábulo bom quando ele significa algo útil para nós, seres humanos. Gosto do sentido bíblico da palavra bom. Quando Deus criou o mundo e viu que tudo era bom. Está lá no Gênesis. E penso mesmo que o mundo é bom porque tudo parece ter sido feito e colocado com sabedoria. E grande arte. Sem querer repetir, e já repetindo, a frase feita de que a natureza é perfeita.
Ouvi de um sacerdote, citando São Basílio, que: "A água impregna de sua vitalidade a planta, dando-lhe possibilidade de revestir-se de cores".
Mas até a água em demasia pode não ser bom. Os rios da Amazônia estão transbordando. Isso não é bom. Ou é?
Mas “Deus viu que tudo era bom”. Sendo assim tudo nele é colocado com sabedoria e arte. E se Deus existe e está vivo, dotado de livre vontade porque é vivente, tem o poder de fazer o que escolhe para fazer. Deve, portanto, escolher o que é bom.
Assim, vamos nos alegrar com a abundância das águas que transbordam os rios de nossa região. Se acontecem as cheias todos os anos é porque é bom.

domingo, 21 de maio de 2017

sábado, 20 de maio de 2017

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Nasce uma estrela: Polaris



Quando a palavra dominante é crise, três jovens, de 21 a 24 anos, desafiam a lógica do mercado, que já derrubou tantos grandes – locais e nacionais – e lançam, hoje, uma nova editora, inicialmente, apenas virtual: Polaris.  

Polaris é a estrela que guia os viajantes, ou que guia seus sonhos. E é exatamente isto que a Editora Polaris quer ser: uma nova referência para escritores e aficionados por leitura. Com o objetivo de promover novos autores por meio da produção, publicação e venda de e-books, e eventualmente livros impressos, a Polaris se lança no mercado editorial disposta a ser a estrela do Norte que trará, ao grande público, as mais diversas obras literárias.

A equipe inicial é composta por Rebeca Barbosa, 21, Designer e Pós-Graduanda em Marketing, Publicidade e Propaganda; Letícia Pinto Cardoso, 24, Licenciada em Letras e Mestranda em Estudos Linguísticos; e Guilherme Mateus, 24, formado em Análise de Sistemas.

Segundo Rebeca Barbosa, CEO da nova empresa, “a ideia surgiu quando a vontade de publicar um livro por uma editora local se tornou difícil. Eu vi muitos amigos tentando publicar seus textos em editoras da região, mas recebendo apenas respostas negativas, sempre quis poder ajudá-los, sempre fui apaixonada por Design Editorial desde a universidade, porém, tinha medo de começar. O mercado no Brasil exige muito dinheiro e preparação. Conheci o Guilherme, que botou o maior gás no meu sonho, e disse: ‘Vamos fazer!’ Foi então que entrei em contato com a Letícia para iniciarmos a busca por autores regionais e nacionais.

Ela acrescenta ainda que “trabalhar no mercado editorial é um sonho desde muitos anos atrás, é muito importante fazer parte disso. O livro, o jornal, a revista, são materiais que deixaram de ser meras publicações e começaram a se tornar objeto de desejo para muitos consumidores.”

Para a editora Letícia Pinto Cardoso, “o mercado editorial é um agente importante na formação de cultura, nas discussões que interessam à sociedade, ou até mesmo as que são negligenciadas. Entendemos o livro não apenas pelo apreço que temos por seu valor cultural, sentimental, mas ainda como um produto social. Aliás, estamos produzindo romances com protagonistas lésbicas, porém que vão além deste rótulo da orientação sexual, porque nós também queremos alcançar o público LGBT, mas sem os apelos comuns, queremos apresentar material, histórias de qualidade, com que possam se identificar, e nós faremos isso!”

Letícia completa dizendo que o mercado “ainda está crescendo nessa área, mas o fator acesso à Internet e as facilidades que um livro digital tem, desde os baixos custos, acesso ao consumidor, até as opções de leitura, são fatores que nos levaram a querer investir nisso.”

Questionados sobre a pouca idade e experiência do grupo, Rebeca afirma que “apesar de jovens, vamos entregar tudo em alta qualidade para todos os escritores que fecharem conosco. Temos experiência em produção de livros, eu já fiz diversos serviços de diagramação e algumas capas para a Valer, enquanto a Letícia trabalhou, e ainda trabalha, com revisão de textos. E mesmo com a concorrência, e o espaço que ocupam, estaremos em vertentes diferente das outras editoras.”

Perguntada sobre como será esse início, Rebeca Barbosa responde com segurança:
– e-books são nossa carta na manga. Estaremos recebendo materiais de escritores locais e nacionais para serem analisados, oferecemos a publicação gratuita, com todos os requisitos, como o registro na biblioteca nacional, lançamento, eventos online, marketing do livro, acompanhamento editorial, tudo o que um livro tem direito, sem tirar nem pôr. Estamos também preparando uma área exclusiva para nossos escritores, como uma rede social, mas direcionada apenas para eles – é uma forma de mantermos sempre contato e atualizações entre nós, autores e Editora. E vamos trabalhar com livros impressos sim, esse é o nosso maior objetivo depois dos e-books.

O analista de sistemas e diretor de tecnologia Guilherme Mateus fala de outros planos:

– Também queremos estrear em breve nossa biblioteca online, ela já tem nome, se chamará Labstore, na qual os leitores poderão ter acesso aos nossos livros por uma pequena taxa por mês (a ser definida). A inauguração ainda não tem data, mas está prevista para o segundo semestre deste ano. Em nosso site também teremos loja on-line (onde estarão todos os títulos de nossa editora, tanto e-books quanto impressos), Blog (com dicas de escrita, artigos, resenhas, consultoria com revisores e mais).

A editora Letícia adianta que escritores do sul e do sudeste do Brasil já estão em fase de negociações com a Polaris, assim como alguns autores de Manaus. Ela ressalta que qualquer um pode submeter o material diretamente no site: www.editorapolaris.com.br.

Sobre o endereço físico da editora, o grupo tem planos para um futuro próximo, mas antes quer conquistar novos autores e o coração dos leitores, para depois pensarem numa base física da Editora. Isso é uma característica da estrela Polaris que, de tempos em tempos, se contrai e depois se expande, variando seu brilho nesse processo. Da mesma forma a Editora Polaris:

– Daremos alguns passos que agora parecem pequenos, mas que são a base para um caminho mais longo – e belo!

Para saber tudo sobre a Polaris, além do site, acompanhe nas redes sociais:

Contatos: contato@editorapolaris.com.br

Rebeca Barbosa – CEO e Diretora de Design – (92) 99212-8454

Letícia Cardoso – Editora e Diretora de Conteúdo – (92) 98271-3152

Guilherme Mateus – Diretor de Tecnologia – (92) 99252-6942


Harmonia de Hipócrates com deuses e deusas


João Bosco Botelho


Mesmo com o grande avanço para entender a saúde e a doença como partes do corpo, com textos claramente dirigidos para retirar dos deuses e deusas a primazia da cura, não ocorreu ruptura violenta com as ideias e crenças religiosas que conviviam com as mentalidades da época. É possível que essa conciliação cautelosa de Hipócrates e de outros médicos da escola de Cós, reconhecendo a importância da materialidade das doenças sem atacar o panteão taumaturgo, em especial, o deus Asclépio, tenha contribuído para que Hipócrates evitasse o mesmo destino de Sócrates.
Segundo a mitologia grega, Asclépio era filho de Apolo e da ninfa Coronis. Apolo matou Coronis e entregou o filho aos cuidados do centauro Quiron, famoso médico, que instruiu Asclépio na arte de curar e na delicadeza dos movimentos das mãos do cirurgião. Finalmente, Asclépio consolidou-se nas mentalidades como o principal deus protetor da Medicina e dos médicos. Em sua homenagem foram construídos muitos templos. O mais famoso deles é o de Epidauro, na ilha de Cós, cuja reconstrução arqueológica mostrou salões, vestiários e alojamentos para médicos e doentes, salas de banho e teatro para a recreação.
É certo que a figura do médico, como especialista social, dependente das crenças e idéias religiosas tenha chegado aos gregos com poucas mudanças, oriunda de tempos muito anteriores. Quando a Escola de Cós estava no apogeu e Hipócrates reconhecido como autoridade médica, havia harmoniosa convivência entre a Medicina de Hipócrates e as práticas de curas dos sacerdotes do templo de Asclépio. Como comprovações destacam-se as estelas de mármores encontradas no templo de Epidauro com inscrições de agradecimento a Asclépio pela cura obtida.
É pertinente, mais uma vez, assinalar que o conjunto teórico atribuído a Hipócrates e aos seus discípulos, mesmo obtendo importantes avanços em comparação às práticas médicas das cidades-reinos do Egito e da Mesopotâmia, não provocou explicitamente ruptura com as crenças e idéias religiosas do panteão grego. Essa situação de convivência harmônica entre médicos e os sacerdotes de Asclépio despertou interesse e recebeu críticas ácidas, como as atribuídas a Aristófanes, que encenava ridicularizando o sacerdote de pouco escrúpulo.
O juramento do Tratado Ético de Hipócrates começa com a clara aliança com os deuses e deusas: “Eu juro por Apolo, médico, Asclépio, Hígia e Panaceia, por todos os deuses e todas as deusas...”. Essa posição, de modo espetacular, atravessou os séculos, sendo mantida em diferentes formas até hoje.
         A análise do conteúdo ético do juramento de Hipócrates constitui claríssima conduta com o objetivo de evitar a prática médica prejudicial aos doentes, semelhante ao código de Hammurabi, porém sem a agressividade punitiva babilônica.

quarta-feira, 17 de maio de 2017

terça-feira, 16 de maio de 2017

Teatro Alienígena - leitura performática


O Teatro Alienígena fica na Lima Bacury, entre Floriano Peixoto e Joaquim Nabuco - Centro.
É uma rua sem saída - tal e qual a vida.

Como sernambi



Pedro Lucas Lindoso

A vida nos seringais do Amazonas não é fácil. Nunca foi. Meu avô Zacarias foi dono de seringal. Ele e seu irmão, tio Carlos, vieram do Maranhão e se instalaram no rio Madeira, em Manicoré.
A lida do seringueiro é completamente diferente de qualquer outro “homem do campo”, como se diz no sudeste. Aqui, não há campos, há floresta! Por volta das onze da noite, o seringueiro acorda. Antes de se embrenhar na mata, toma um café com beiju. Então vai cortar seringa.  Para se extrair o látex são feitas incisões na casca das árvores. O corte é inclinado para permitir o escoamento da seiva. O leite da seringueira é colhido em pequenas canecas afixadas na extremidade inferior do corte. Esse trabalho termina geralmente por volta das três horas da madrugada. Lá pelas seis da manhã, o seringueiro volta para colher o látex.
Depois de recolher o produto das canecas, começa o trabalho de defumar.  Na época de meu avô o seringueiro trocava sua produção por gêneros alimentícios. Era o sistema de aviamento. Meu avô era generoso. O mesmo não se pode falar do tio Carlos. Ele sempre dizia que as bolas de seringa do caboclo não valiam o bastante. Não pagava o aviamento como deveria. Tio Carlos era mau. Mantinha os seringueiros atrelados a uma dívida impagável. A uma eterna servidão.
Tio Carlos, dizem, ainda abusava das caboclas. Foi assassinado numa revolta. Mutilaram seu corpo e rogaram praga a sua descendência.
O labor do seringueiro é muito duro. É um trabalho noturno e dentro da selva, com seus imensos perigos e desafios. O seringueiro só descansa depois de almoçar. E vai dormir nas tardes quentes e chuvosas em seu tapiri, como é chamada a cabana dos caboclos amazônicos. Depois irá acordar no meio da noite e cortar, novamente, seringueiras na mata, até de madrugada. E recolher novamente o látex e defumá-lo. Dia após dia.

Existem basicamente três tipos de borracha: a fina, a entrefina e a sernambi. Essa é nada mais nada menos do que o resíduo de látex que cai no solo e se mistura na terra. É resto. Borracha de segunda categoria, refugo, rebotalho. Ainda há muitos seringueiros perdidos na Amazônia. Estão esquecidos pelo poder público. Desprezados ou tratados como SERNAMBI.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Sérgio Cardoso é eleito para Academia Amazonense de Letras



O dramaturgo, pintor e cineasta Sérgio Cardoso foi eleito, no último sábado, para a cadeira n° 2, de Euclides da Cunha, anteriormente ocupada pelo pintor, poeta e folclorista Moacir Andrade.


A AAL ainda tem uma cadeira vaga, a de n° 40, de Paulino de Brito, ocupada até recentemente pelo contista e cronista Francisco Vasconcelos. O edital de inscrição para essa vaga ainda não foi lançado.  


domingo, 14 de maio de 2017

Manaus, amor e memória CCCXVI


Grupo Escolar Silvério Nery.

sábado, 13 de maio de 2017

sexta-feira, 12 de maio de 2017

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Concerto na Academia - Recital Camerístico com a OBA


Dia 13 de maio, sábado, às 19h.
Entrada franca.
A AAL fica na rua Ramos Ferreira, 1009, esquina com Tapajós.

Boa e má prática médica



João Bosco Botelho

Com o sedentarismo avançando, no Neolítico, importantes modificações foram se processando nos grupos sociais que habitavam as terras férteis da Mesopotâmia e do Egito. Aquelas sociedades absorveriam parte da experiência acumulada dos saberes. Nessa fase, ocorreu o início da modificação da economia produtora, passando do nível de subsistência coletiva à concreta divisão do trabalho, com o aparecimento do excedente de produção e das trocas comerciais, tornando as sociedades francamente hierarquizadas. Também surgiram as propriedades privadas, que possibilitaram os assentamentos duradouros e evoluiriam às primeiras aldeias.
As cidades se formaram nas transformações, e, simultaneamente, se estruturaram social e politicamente, gerando o aparecimento das civilizações regionais.
Entre elas, destacaram-se aquelas que ocuparam as terras próximas dos rios piscosos e obtiveram significativos avanços na guarda territorial e poder de guerra: a babilônia e a egípcia. Esses povos, mesmo mantendo importantes diferenças, decididamente influenciaram, direta e indiretamente, as culturas posteriores.
As civilizações regionais assimilaram, ao longo de vários milênios, diferentes formas de governos, predominando o teocrático de regadio e mercantil-escravista. Sob vigilâncias hierarquizadas, moldaram a ação da prática médica.
As guerras contínuas ofereciam saques, escravos e territórios, robustecendo a propriedade e a escravidão. Durante os conflitos deve ter havido a participação dos médicos; principalmente, no manuseio das feridas traumáticas e amputações cirúrgicas dos membros dilacerados.
O corpo humano também foi manuseado nos rituais religiosos para a conservação após a morte. Essa conduta alcançou níveis de alta sofisticação entre os egípcios, sem que representasse avanço no conhecimento da anatomia. Mesmo com a clara diferenciação entre os que manuseavam o corpo com fim religioso e outros que tentavam entender e nominar as doenças, em torno de 3.500 anos, já estava estabelecida a figura social do médico como um dos especialistas nas relações sociais.
A atividade médica deveria ser intensa, suficiente para gerar conflitos frequentes, determinando mal-estar social e obrigando o legislador intervir. O rei Hammurabi (1728-1688 a.C.), da Babilônia, dedicou vários parágrafos do seu famoso código para disciplinar a Medicina, impondo prêmios e castigos. Nos parágrafos 218 a 223, está claro que o médico era reconhecido e ocupava espaço importante nas relações sociais numa sociedade claramente hierarquizada:
    218 – Se um médico fez em um awilum (homem livre em posse de todos os direitos de cidadão) uma incisão difícil com uma faca de bronze e o causou a morte do awilum ou abriu o nakkaptum (arco acima da sobrancelha) de um awilum com uma faca de bronze e destruiu o olho do awilum: eles cortarão a sua mão;
    219 – Se um médico fez uma incisão difícil com uma faca de bronze no escravo de muskenum (intermediário entre o awilum e o escravo) e causou a sua morte: ele deverá restituir um escravo como o escravo morto;
    220 – Se ele abriu a nakkaptum de um escravo com uma faca de bronze e destruiu o seu olho: ele pagará a metade do seu preço;
    221 – Se um médico restabeleceu o osso quebrado de um awilum ou curou um músculo doente: o paciente dará ao médico 5 ciclos (40 gramas) de prata;
    222 – Se foi filho de um muskenum: dará 3 ciclos (24 gramas) de prata;
    223 – Se foi um escravo de um awilum: o dono de escravo dará 2 ciclos (16 gramas) de prata.

O Código de Hammurabi iniciou o processo laico impondo sanções que devem receber os médicos pela imprudência, imperícia e negligência e os honorários diferenciados, de acordo com o estamento social do doente.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

terça-feira, 9 de maio de 2017

Como em trocas e troços



Pedro Lucas Lindoso

Quando eu era menino morava na Rua Henrique Martins, no Centro de Manaus. Vez por outra, era mandado comprar alguma coisa necessária na cozinha ou aviamento para costuras. Havia a mercearia do Seu Malaquias, no canto com a Rua Rui Barbosa. Na outra esquina, com a Rua Barroso, tinha o Seu Pinto. Em geral ouvia a seguinte recomendação de minha mãe:
– Traga o troco.
Isso significava que eu não poderia comprar nem bombom nem bola de gude, nem tampouco tomar um guaraná ou fazer qualquer outro gasto. Apropriar-me do troco seria falta grave e motivo de ficar de castigo.
Desde que a Prefeitura reajustou a passagem de ônibus para R$3,80, há polêmica entre usuários de ônibus e trocadores. Parece que falta moeda na cidade de Manaus.
Estive nos Estados Unidos recentemente. Em uma compra de $4,11 dei uma nota de $5,00 e recebi exatos $0,89 centavos de troco. Lá é assim. Não falta moeda. E as moedas têm nome. Um centavo chama-se “penny”; cinco centavos, “nickle”; dez centavos, “dime”, e vinte e cinco centavos, “quarter”. Uso sempre um porta-moedas para guardá-las. Deve-se economizar em reais, quanto mais em dólares.
Antes de ir para o aeroporto, de volta para o Brasil, estive numa farmácia para usar as moedas americanas. Havia quase seis dólares em moedas. Ainda ficaram $0,48 centavos de dólares. Quatro “dimes” e oito “penny” no meu porta moedas. No aeroporto fizemos um lanche que custou $10,10. O troco de R$11,00 foram exatos noventa centavos de dólares. Somados aos $0,48 que estavam no porta-moedas, eu entrei no avião com $1,38 em moedas americanas.
Antes de pousar em Manaus, um anúncio da American Airlines convidava os passageiros a doar seu troco para a UNICEF. Um comissário passou recolhendo as doações. As minhas moedas juntaram-se a outros trocos e somaram-se a milhares de dólares anualmente destinados a projetos da UNICEF. Trata-se de órgão das Nações Unidas com atuação junto a crianças em vários países, inclusive no Brasil. Achei que devia doar o meu troco de $1,38. Essas moedas de trocas iriam se perder nas minhas gavetas. Junto a outros troços. Lembrei-me de minha mãe. Não fiquei com o troco. Não gastei o troco e nem trouxe o troco!

Em Portugal usa-se a palavra troco no plural. Trocos. Pronuncia-se com “o” aberto, como em trocas e troços.

sábado, 6 de maio de 2017

sexta-feira, 5 de maio de 2017

exercício nº 1


Zemaria Pinto


As horas passam como cães na noite
sobre o meu corpo de ervas verticais,
mesclando sons, ruídos ancestrais
ao silêncio do quarto. O forte açoite                            

do vento prenuncia a tempestade.
Relâmpagos inventam sombras tortas
nas paredes de formas natimortas:
uma forca, um punhal, uma deidade

pagã. Em meu peito um animal freme,           
se agita, as mãos crispadas sobre o torso
nu, já não fala, balbucia, geme.

Buscando sonhos numa busca vã,
meu corpo explode em derradeiro esforço,
nos murmúrios convulsos da manhã.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Intervenção curadora do homem



João Bosco Botelho


A palopatologia dos fósseis mostra que os homens e mulheres pré-históricos estavam sujeitos às doenças semelhantes às que nós, na atualidade, continuamos enfrentando. A fratura traumática constituiu uma das doenças mais frequentes nos fósseis estudados; em algumas delas, foram confirmados sinais evidentes de infecção do osso, a osteomielite, lembrando as encontradas nos hospitais de hoje.
Também se comprovou a existência de doenças não traumáticas, como a gota das cavernas, uma espécie de reumatismo. O pólen de Nenúfar, designação de diversas plantas da família das ninfeáceas, capazes de determinar reação alérgica nos dias atuais, existe desde o Pleistoceno Médio, isto é, há mais de 100.000 anos. A tuberculose óssea na coluna vertebral, problema médico em muitos países, inclusive no Brasil, está documentado no esqueleto de homem do período Neolítico, constituindo, sem dúvida, o primeiro exemplar médico dessa doença.
A ocorrência de moléstias na pré-história é indiscutível. Porém, interessa conhecer como os homens primitivos iniciaram a luta para controlar a dor, conservar a saúde e empurrar os limites da vida. Desse modo, é importante relembrar que certos animais, quando feridos, lambem os ferimentos; outros mamíferos, promovem limpeza mútua dos pelos e comem plantas que provocam vômitos. É provável que o homem primitivo tivesse se comportado da mesma maneira: lambendo o machucado e pressionando o local para interromper a hemorragia.
Perdura a questão da existência de ritual mágico, na pré-história, ligado às concepções míticas, na busca de cura das doenças. Na gruta de Trois Fréres, nos Pirineus franceses, está a pintura rupestre de um personagem em movimento de dança, datando de 10.000 anos, travestido de cervo, em atitude que sugere uma espécie de ritual, semelhante à dança dos bisões, dos índios do norte dos Estados Unidos, e a dos índios tukanos, no norte do Amazonas, ambas utilizadas em cerimônias simbolizando o poder animal na cura das doenças.
O conjunto das informações paleopatológicas, no Neolítico, sugere fortemente a gradual incorporação de métodos empíricos estruturando a ação intencional do homem sobre outro homem. Essas atitudes são algumas vezes agressivas, como a trepanação do crânio – abertura dos ossos do crânio. Essa extraordinária prática é facilmente comprovada por meio do estudo dos fósseis. E mais, alguns desses homens pré-históricos submetidos a essa cirurgia sobreviveram muito tempo, comprovado pelo crescimento do osso cortado.
É interessante assinalar, sem que existam explicações plausíveis, que as trepanações, realizadas no Neolítico europeu, também foram executadas até o século 16, em sociedades que não tiveram contato interétnico, como as da Polinésia Francesa e as do altiplano peruano pré-colonial.
Fora da dúvida de porque as craniotomias foram realizadas, não se pode negar que representou algo absolutamente extraordinário, na medida em que uma parte do corpo, o conteúdo do crânio, foi exposto intencionalmente, desvendando o escondido atrás da pele. 
Essa demonstração explícita de poder – o homem intervindo no corpo de outro homem – resultaria em grande destaque no grupo social. Respeitando as devidas proporções, essa relação de dominação do curador sobre o objeto da sua prática, o doente, sob alguns aspectos, perdura até os dias atuais como um dos instrumentos da atávica fuga da dor e a preservação da vida. Pode ter sido um dos pilares sustentadores que edificaram o homem primitivo no processo de assimilação dos saberes para evitar a dor e a morte, capaz de impulsionar o ímpeto para desvendar o invisível, como primeiro passo ao aperfeiçoamento da linguagem e da transmissão dos saberes.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

terça-feira, 2 de maio de 2017

Quem protesta é intelectual



Pedro Lucas Lindoso


Em governos neoliberais, geralmente os trabalhadores não têm muito o que comemorar no dia 1º de Maio. Dia do Trabalhador. Pelo menos tivemos mais um generoso feriadão. A segunda-feira foi emendada com o fim de semana. Muito mais do que um feriado, a data tem por objetivo refletir sobre direitos adquiridos e cidadania.
Parece consenso, não só nos livros de História como no “Google”, que a origem e as manifestações começaram em 1886, em Chicago. Houve greve geral. Esses protestos ficaram conhecidos como a “Revolta de Haymarket”. Os trabalhadores reivindicavam a redução da carga horária de trabalho.
Minha professora de História Jael Reis nos ensinou que no século 19 o 1º de maio foi uma data bastante usada para manifestações operárias. Não só nos EUA, mas também na França e em outros países da Europa. O dia foi comemorado na Suécia pela primeira vez em 1890, com manifestações e desfiles. Nos Estados Unidos e Canadá, o Dia do Trabalho é conhecido como Labour Day e é celebrado na primeira segunda-feira do mês de setembro.
O fato é que a data tornou-se o Dia Internacional dos Trabalhadores, sendo feriado em numerosos países do mundo. Havia desfiles e grandes comemorações em Moscou, na extinta União Soviética. Por razões políticas óbvias não poderia haver essas comemorações nos Estados Unidos, que, como já dito, comemora-se o dia do Trabalho na primeira segunda-feira do mês de setembro. Na terça começa o ano letivo nas escolas americanas. Na Austrália, o dia de celebração varia de acordo com a região.
Para os brasileiros é o dia de celebrar a criação da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), em 1º de maio de 1943, por Getúlio Vargas. A CLT está incorporada à Constituição de 1988, mas parece que os ventos neoliberais querem acabar com a lei ou modificá-la significativamente,
O Brasil costumava comemorar o aumento do salário mínimo nesse dia. Mudaram a data. Muitos sindicatos fazem festa. Alguns sindicatos patronais colaboram.
Birobiro, presidente do Sindicato dos Picolezeiros do DF e Entorno, festeja a data com cervejada e churrascada. Há distribuição de brindes. Faz um grande bingo e sorteios de passagens para o Rio de Janeiro. De preferência, em meio a um grande show com cantor da hora. E viva o feriadão!
Birobiro, parafraseando Joãozinho Trinta, diz que companheiro trabalhador gosta é de festejar, quem gosta de protesto é intelectual.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Beber socialmente


Eu acho absurda a ideia de beber socialmente – se você não quer ficar bêbado, por que não toma uma coca-cola?

                        (Stephen King)