Amigos do Fingidor

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Os Lusíadas na Quarta Literária

Sarau Amigos

Os exílios do homem

Jorge Tufic

Clivar um soneto ou um poema do grande poeta cearense Francisco Carvalho (grande porque autor de 24 livros, todos merecedores de louvação e carinho), seria o mesmo que reverter o espetáculo da unidade aos fragmentos que se transformam, por sua vez, em milhares de outras unidades poéticas, tal como se concebe a explosão de um cristal uniforme ou de uma galáxia madura. O mistério ou o segredo deste fenômeno consiste, para mim, na propriedade, já solidificada, de um léxico próprio que detona os signos míticos responsáveis pelo volume, jamais repetitivo, da obra em apreço, sem que nada venha indicar que o poeta esteja cansado ou menos disposto aos convites do plectro.

Em respaldo ao que afirmo, Os exílios do homem, que emplaca exatamente o 24º de sua obra, ilumina-se, com algumas variações, dos mesmos índices constantes dos livros anteriores: “parábola”, “réquiem”, “pedra”, “medula”, “tempo”, “candeia”, “holocausto”, “rebanho”, “centauro”, “clepsidra”, “harpa”, “chama”, “zodíaco”, “orgasmo”, “abutre”, “infância”, “alaúde”, “gorjeio”, “espiga” etc. etc., particularmente aqueles que integram a “individualidade” marcante do autor, a exemplo de “antúrio”, “purgatório” e “túnica”, inclusive mitos gregos e referências a passagens bíblicas de conteúdo profético.

Esta última conquista de sua estante sempre vígile ao “gotejar dos minutos”, posto que sólida e perene, acha-se dividida em duas partes – a primeira, contendo 64 poemas, e a segunda, dez (X) miniaturas; ou seja, em minha fraca opinião, temas ou segmentos de estatura épica resumidos em poucas estrofes de aconchego lírico. Resgates, momentos-monumentos, lembranças da infância, réquiens, a humanização da paisagem geográfica, o ciclo vital, os presságios, a onipresença da amada, as horas domésticas, habitat fictício, o pasto, o brinde solitário, a morte, o êxtase, as ruínas, o vento, a chuva e o perfil dos retratos da antessala perempta, continuam presentes neste livro de Francisco Carvalho. As quadras, o dístico, o terceto, entre várias outras composições de pequeno porte, contudo, lhe imprimem a totalidade uníssona de uma partitura que tivesse como orquestra a um sucinto vocabulário de triunfos e demolições. O enigma da vida e da morte pendula, aqui, entre o sarcasmo e a perplexidade.

sábado, 28 de maio de 2011

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Mar morto, de Jorge Amado, uma análise 7/14

Zemaria Pinto


2) Resumo da Fábula


Ao estudarmos a estrutura formal, já fornecemos ao leitor o essencial da fábula de Guma. Mas o enfoque, aqui, é diferente. No estudo anterior, procuramos mostrar ao leitor a visão do narrador, como ele manipula a história que está sendo contada e como, se não ficarmos atentos, poderemos ser iludidos pelas artimanhas da narrativa. Agora, no estudo da fábula, procuraremos mostrar a visão do leitor, a sua visão, ao terminar de ler o livro. Ou seja, vamos montar a história de Guma em ordem rigorosamente cronológica, com princípio, meio e fim, começando, hipoteticamente, com um doce “era uma vez...”. Não nos eximimos de repetir, entretanto, que o nosso “resumo” não substitui a leitura do texto original, tanto pelo que ele tem de riqueza artística quanto pelo prazer que dele você pode extrair.

Infância e juventude – Frederico, marinheiro da cidade da Bahia, de passagem por Aracaju, seduz, com as promessas habituais, uma jovem de família conceituada, que, grávida, é expulsa de casa. Frederico abandona-a à própria sorte, mas ela, já com o filho recém-nascido no colo, o reencontra e lhe entrega a criança. A moça prostitui-se pelas cidades do Nordeste e Frederico continua sua vida de aventuras em cada porto, mas antes entrega a criança aos cuidados de seu irmão Francisco e Rita, esposa deste.

Ao menino fora dado o nome de Gumercindo, o mesmo do padrinho de sua mãe, única pessoa a ampará-la naquele momento difícil. Os tios o chamam de Guma, e é assim que nós vamos chamá-lo de ora em diante, porque é assim que todos o chamam.

Guma pouco se lembra do pai. Em uma noite de tempestade, quando Francisco contava para a mulher e para a Guma a história de um naufrágio, Frederico voltou. Mas não demorou muito tempo. Dizia-se que matara um homem em terras distantes e voltara à Bahia apenas para ser esquecido. Em outra noite de tempestade, após salvar Francisco, Frederico mergulha com o saveiro “Estrela da Manhã”.

Só assim pôde ele continuar sua viagem interrompida e foi com Iemanjá, que ama os homens de coragem.
(“Terras do Sem Fim”)

Nessa mesma noite, Rita, mulher de Francisco, também morre. Não suporta a emoção. Guma cresce sob a influência do tio, sem uma presença feminina por perto.

Aos 11 anos, vai para a escola de Dona Dulce. Seis meses são suficientes para o aprendizado fundamental: ler alguma coisa e escrever o nome. Não que Guma fosse diferente das outras crianças. Todas passam pelo mesmo ritual. A professora, outrora otimista, com o tempo aprende que só um “milagre” poderá mudar a vida daquela gente. Mas ela mesma não sabe que milagre é esse.

Nessa mesma época, acontece a Guma um encontro com o qual jamais sonhara. Sua mãe aparece de repente e quer levá-lo. Francisco nega a posse do garoto. Bastava olhar para aquela mulher para entender que o futuro de Guma não poderia se unir ao dela.

O velho Francisco olhou a mulher. Apesar dos dentes cariados, era bonita. Tinha um dente de ouro para compensar. Vinha dela um perfume extravagante para aquela beira de cais cheirando a peixe. A boca pintada era cor de sangue como se houvesse sido mordida. Seus braços roliços estavam caídos ao longo do corpo. Maltratada pela vida, era ainda nova, nem parecia a mãe de Guma. No entanto há onze anos que ela estava na vida, conhecendo homens, dormindo com eles, apanhando de muitos.
(“Terras do Sem Fim”)

Guma fica muito impressionado com a visita da mãe. Entre os homens do cais, aprendera que um homem só será assim reconhecido após deitar-se com uma mulher. Ele sabe que mais dia menos dia, Francisco lhe trará sua eleita. Por isso, ao ver aquela mulher estranha em companhia do tio, julgou tratar-se de sua “iniciadora”. Para sua decepção, entretanto, fica sabendo tratar-se “apenas” de sua mãe. Mãe que ele jamais esperara e de quem jamais sentira falta. Quando sua mãe lhe pergunta se a está reconhecendo, a febre do desejo invade o frágil Guma.

Ele a conhece, sim. Há muito que ele a espera. Ele a procurou nas ruas de mulheres perdidas, na beira do cais, em todas as mulheres que olharam para ele. Agora a encontrou. Ela é sua mulher. Ele a conhece de há muito, desde que os desejos penetraram seus nervos, perturbaram seus sonhos.

(“Terras do Sem Fim”)

Assim como apareceu, sua mãe some no mundo, mas ele não a esquece. Guma teve que esperar ainda mais dois anos para ter sua iniciação sexual, sob o patrocínio do benevolente Francisco. Mas continua a ver a mãe nas outras mulheres, a buscar aquela estranha que só viera acender o seu desejo e não mais voltara. Em seus devaneios juvenis, Guma pedia a Iemanjá “uma mulher nova e virgem, quase tão bonita quanto ela mesma”. Esta era sua esperança de esquecer a imagem da mãe perdida, tentadora, que se entregava a todos menos a ele.

Se desde os onze anos Guma já conduz o saveiro “Valente” a pequenas distâncias, é somente aos dezoito que o assume sozinho, quando Francisco, após uma manobra imprudente, corrigida rapidamente por Guma, reconhece-se cansado para continuar na luta diária. Agora Guma era um homem completo, dono de seu próprio saveiro, sem ninguém por perto para “cuidar” dele. Pelo contrário, o velho tio agora dependia dele, de seu trabalho, que ele amava fazer como ninguém.

Ilustrações: capa da edição brasileira de 1973; capa da edição argentina de 1972.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Novos lançamentos da EDUA

Médicos, saúde e doença na filosofia grega

João Bosco Botelho


A Medicina apareceu com clareza na estrutura do pensamento grego a partir do final do século V a.C., de forma tão bem sedimentada que influenciou marcadamente os caminhos tomados pela Medicina ocidental nos vinte séculos seguintes.

A importância social do médico já era reconhecida desde Homero: “O médico vale por muitos homens”. Porém, a consolidação foi alcançada a partir da relação entre o corpo e a natureza, referida por Platão (Prot. 313 D; Gorg. 450 A, 517 E; Rep. 298 A e Timeu 78 B), onde o médico foi fixado em posição social definida.

Os vínculos da Medicina com a natureza atingiam, claramente, os conflitos sociais. Essa afirmação pode ser comprovada em Sólon, que descreveu a conexão das doenças com o todo social. Baseado nesse pressuposto, Sólon fundamentou parte do seu pensamento político afirmando que as crises políticas interferiram na qualidade da saúde coletiva.

O ponto fundamental da Medicina grega, dos séculos 5 e 4, foi marcado pela união entre a filosofia jônica e o conceito de saúde e de doença. Começou, nessa época, a florescer a Escola de Cós, que congregou médicos e filósofos, sob a influência de Hipócrates, em quem Platão, no século IV a.C., reconheceu a personificação da Medicina. Hipócrates foi respeitado como o símbolo da Medicina corretamente aplicada (Platão, Prot. 313 B-C; Fedro 270 C e Aristóteles, Pol. VII, 1326).

Platão (Leis, 857 D; 720 C–D) também formulou comentário satírico em torno de tema de absoluta atualidade: a diferença entre as Medicinas praticadas nos escravos e nos homens livres. O genial filósofo grego descreveu como os médicos dos escravos corriam de um paciente ao outro. Ao contrário, quando se tratava de cidadão livre, o tempo da consulta incluía a pormenorizada explicação da doença e do tratamento.

Apesar da compreensão grega de a saúde representar o produto do equilíbrio entre muitos vetores existentes no organismo, existiu outra corrente, provavelmente liderada por Políbio, genro de Hipócrates, que, sob a influência da ideia dos quatro elementos de Empédocles (fogo, ar, água e a terra) e da noção do equilíbrio de Anaximandro, produziu a teoria dos Quatro Humores fundamentais (sanguíneo, linfático, bilioso amarelo e bilioso negro), para explicar o aparecimento das doenças.

Essa teoria norteou os rumos da Medicina, transpassou o tempo e dominou o diagnóstico e a terapêutica por quase vinte séculos.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Yellow Submarine

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Fantasy Art – Galeria

Drazenka Kimpel.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Carpe diem com Poesia

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O Clube Literário do Amazonas – Clam realizará na próxima quinta-feira, dia 26 de maio, a “Quinta-Smithiana”, um recital que acontece sempre nas noites da última quinta-feira de cada mês. O evento abre com o recital Carpe diem com Poesia e a exposição da artista plástica Magdaluce Ribeiro. Haverá também sorteio de livros e um coquetel para encerrar a programação. O evento tem início às 19h, no Espaço Cultural da Livraria Valer, situado na Avenida Ramos Ferreira, 1195 – Centro. A entrada é franca.

Além dos membros do Clam, haverá a participação de outros grupos literários convidados, como o Grupo Metaphora e o Sociedade da Marmota.

O Clam nasceu dentro da linha de continuidade da literatura amazonense, fruto de um trabalho feito na Quarta Literária, realizada pela Livraria Valer, que de certa maneira revelou jovens poetas que assegurarão o futuro da literatura produzida no Amazonas. Hoje o Clam se caracteriza por seus recitais e estudos literários. Como todo grupo de jovens artistas em formação, tem suas dificuldades naturais. Mas ao longo de nove anos conquistou seu espaço nos eventos culturais de nossa cidade.

Alguns dos integrantes do Clam.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

O garoto que não quis envelhecer

Moyses Mota


O livro de memória de Ademar Gruber O garoto que não quis envelhecer (Editora Travessia, 2010), embora não seja a intenção do autor, é um livro obrigatório para homens (claro, as mulheres podem e devem lê-lo). É um livro para pais. E filhos, também.

Para homens porque, embora um livro de memórias, fala de dor. Dor de homem. Como fala de amor. Amor de homem. Um amor pouco descrito, ainda, principalmente da forma como aqui está, sem pieguismo, sentimentalismo, culpa ou desespero. É um amor que se sobrepõem à dor.

A narrativa é de um pai, que pega a sua câmera da memória e a liga “no dia do parto”, conduzindo-a com maestria até que “Um silêncio angustiante toma conta de todos”.

É um livro para homens porque mostra – e prova –, como é difícil, nos dias de hoje, ser e estar pai. Porque mostra um homem desnudando-se, em alma e razão, à uma sociedade que desmorona, por entre tantos motivos, porque, na gênese, pais negam-se a ser PAIS, omitindo-se ou optando pelas facilidades de ser, tão somente, “amigos” dos filhos.

Em uma narrativa segura, serena, a emoção vazada na tonalidade devida, sem afetar a condução, o autor só peca em não ter avançado mais.

Os leitores sentirão uma imensa empatia pelo personagem, o que estimulará a curiosidade em saber mais de seus sonhos e “aventuras” contadas pelos seus contemporâneos, seu círculo pessoal. Fica aquele “gostinho de venha mais!”

Afinal, todos nós temos em nossas famílias ou de amigos, nesse exato momento, um Ademarzinho, e precisamos entendê-los melhor.

2ª Reunião Brasil-França de História da Medicina

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domingo, 22 de maio de 2011

Será este um prefácio?

Jorge Tufic


Nada me comove tanto, quando posso imaginar que sou capaz de dizer alguma coisa sobre o povo árabe, de modo particularíssimo sobre a literatura libanesa, e de modo ainda mais honroso para mim sobre o grande filósofo Gibran Khalil Gibran (as iniciais kh são guturais, daí que esta é a grafia correta), com certeza o maior de todos os escritores desse país, em todos os tempos. Tenho-o sempre à cabeceira, e nunca me canso de reler passagens de O Profeta (I Nabi), que quando criança eu li, pela primeira vez, numa edição bilíngue, adquirida por meu tio José, em Paris. Ouvira dele, inclusive, que Gibran teria parentesco com Awayjen, família de minha mãe, motivo pelo qual ela deveria ser prima do ilustre sábio de Bsharré. A meu pai tal descoberta parecia um engano, visto que os Awayjen são de Batroun e os pais da Águia do Líbano são de Bsharré. Mediara a questiúncula o Miguel da Leyla, guarda-livros da firma Atala & Millet, em Sena Madureira, no estado do Acre: – Ora, Taufik, – tonitroou – os antepassados de Dona Faride eram pescadores, e o mar não tem fronteiras.

Conferi este episódio com meu irmão José, memorialista de nossa família, aduzindo-me ele o fato de que Assad (Feliz), nosso tio por parte de mãe, teria sido amigo pessoal de Gibran, em Nova Iorque, aonde fora se estabelecer, na década de 20, primeiro como armador e tempos depois como escafandrista. Todas as provas dessa história aparentemente absurda estivera fechada no baú de tia Lulu, que se casara, já idosa, com meu tio José. Cartas, fotografias, sobretudo correspondência com amigos que ficaram na Europa, de tudo o baú guardava, sem falar nos cupins devoradores, enfim saciados. Remexi nesse passado vencido pela tarefa de Hércules que me impôs o ensaísta, poeta e historiador Gaitano Antonaccio, enviando-me, para a respectiva leitura e prefácio, seu novo livro de pesquisa sob o título Gibran Kahlil Gibran, o Apóstolo Revolucionário.

Desloquei-me, nesse embalo, para o velho arquivo de que sempre disponho, reuni uma breve bibliografia de e sobre Gibran, mas precioso mesmo foi o depoimento de meu irmão Jarjura, apelido de família, tendo descido às lagrimas ao recordar uma de suas conversas com a nossa querida genitora, oportunidade em que surgiam as primeiras traduções d’O Profeta, em língua portuguesa. Lembrava-se ela, sim, desse livro, comentado por sua irmã Lulu, a única realmente alfabetizada das três irmãs. E Lulu afirmava, batendo no peito: – lá aine! Réda men dâmna! (– Luz de meus olhos! Este é do nosso sangue!) A Mansour Challita, quando esteve em Manaus, não hesitei em perguntar sobre estes possíveis vínculos familiares entre casas de Bsharré e casas de Batroun. A resposta do mestre, contudo, foi tão surpreendente quanto seria uma resposta favorável à hipótese de haver parentesco. Disse-me Challita que todos os libaneses são primos, em diversos graus de sangue, amizade ou negócios. Mandou, entretanto, à nossa doce Faride, as saudações da Montanha.

Levado, afinal, à casa de alguns parentes de Nami Jafet, pude então, agora em São Paulo, ficar mais próximo da verdade. O parentesco de minha mãe com Gibran não vinha do ramo Awayjen, mas sim do Hibrahim, como também se assinava e como vejo constar de sua certidão de nascimento. Fez-me ver ainda, um dos descendentes do notável industrial paulistano, que o pai de Gibran, pela sua instabilidade emocional, terá suprimido nomes da família, ao seu bel prazer.

Coube, portanto, a um quando nada pretenso consanguíneo de Gibran Khalil Gibran, a honra maior de assinar estas linhas sobre o competente ensaio de Gaitano Antonaccio, no qual ele celebra o magnífico Poeta do Nascente e do Poente através de um sem-número de facies que irão, decerto, ajudar os leitores a ver outros aspectos da obra desse filósofo, com ênfase das vertentes que alimentaram toda a sua admirável produção literária. Ressalta, ainda, o autor, neste livro exemplar, aspectos até hoje pouco estudados da vida e obra de Gibran, convindo assinalar a feição globalizante do ensaio, a linguagem utilizada, enfim, o método ou a metodologia (ou anti) capaz de torná-lo numa síntese cuidadosamente elaborada, de fazer inveja a qualquer mestrando de letras, indo, talvez, além, quem sabe à plenitude do doutorado. A inspiração poética de Gibran Kahlil Gibran, o Apóstolo Revolucionário, como não poderia deixar de ser, emana de fontes primárias que vêm desde as Mil e Uma Noites até onde começa o renascimento das letras árabes, mas cujas sutilezas de imaginação ampliam sobremodo o núcleo sêmico das palavras, tornam blocos verbais quase que ou totalmente restritos ao idioma em que foram concebidos. Ou seja, virtualmente intraduzíveis. Como neste fragmento sufi: Corro atrás dos sopros do zéfiro para me distrair. Mas meu coração só aspira ao rosto Daquele que deu seu perfume aos ventos. Deste centro iluminado terá saído o embrião do apóstolo Gibran Khalil Gibran, o motivo que sabe das esquivâncias com que tentara se proteger contra as loucuras do mundo. O místico, também, se deflagra a partir dessa concentração umbilical da língua materna, sempre embebida na paisagem e no amor, na fantasia e no mais sincero ímpeto do homem sangrado, ou sagrado, pelo seu próprio destino.

Ao ensaísta, aqui, a obra ou o apostolo de Gibran, são mais importantes do que a sua biografia. Isto é saber. E outra maneira de explicar essa postura eu não acho, senão que há, entre ambos, pontos bastante flexíveis de harmoniosa identidade. Faz-me lembrar uma pessoa do círculo extra-madrugadense que houve por bem escolher, para tema de uma crônica, nada mais nada menos do que a Fernando Pessoa. Em tempo, detalhe: tratava-se, no caso, de um autor sem assunto, ou simplesmente de um cronista sem a perspectiva do fotógrafo. Para não melindrá-lo eu lhe disse, então, que a escolha é livre; só que lhe restava ou caberia, simplesmente, acertar o nível de sua crônica no mínimo que fosse do outro, em matéria de poesia.

Muito ao contrário dos buscadores de assunto para escrever, em Gaitano Antonaccio os temas é que se encarregam de fluir, e fluem com generosidade. Uma vez mais este escritor amazonense nos causa surpresa com a magnitude de sua prosa, dando-nos o verdadeiro perfil de quem soube fazer de sua vida uma busca constante de resposta aos enigmas existenciais que o levaram a sentir-se, para onde quer que se virasse, apenas como um ser exilado.

sábado, 21 de maio de 2011

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Mar morto, de Jorge Amado, uma análise 6/14

Zemaria Pinto


O capítulo “Terras do Sem Fim” é o mais longo de todo o livro. Nele se resume a história de Guma, do nascimento até os 20 anos. O leitor deve observar o movimento de vai e vem da narrativa, o que justifica o uso da expressão história-puxa-história. De início, somos apresentados ao velho Francisco, tio de Guma, que o criara, na ausência do pai, morto num naufrágio:

Hoje vive de remendar velas e do que lhe dá Guma, seu sobrinho. Tempo houve, porém, em que teve três saveiros que os ventos da tempestade levaram. Não puderam foi com o velho Francisco. Sempre voltou para o seu porto e os nomes dos seus três saveiros estão tatuados no seu braço direito junto com o nome de seu irmão que ficou numa tempestade também.

O narrador parece guiado unicamente pelas lembranças de Francisco: sua mulher que morreu “do coração”, na mesma noite em que morrera Frederico, o pai de Guma; o encontro com a mãe de Guma, quando este já ia pelos 11 anos de idade. Na sequência, narra-se o encontro de Guma com a mãe, sob a perspectiva do protagonista, num anticlímax interessante, pois o menino imagina que, aos 11 anos, aquela mulher estranha seria sua iniciação sexual. A decepção é seguida do ciúme que ele sente do tio (não pela mãe, mas pela mulher...). O menino sente, pela primeira vez, o desejo de morrer, de viajar com Janaína para as Terras do Sem Fim. Depois daquele encontro fortuito, a mãe desaparece de novo, mas ele continua a vê-la em cada mulher que sua libido de criança deseja.

O ritmo da narrativa é ligeiro, como um saveiro com o vento a favor. O fragmento seguinte conta a iniciação sexual de Guma, aos 13 anos:

Ele era homem, dobrava uma mulher aos seus pés. Agora já podia sair com o “Valente” pelos portos todos, sozinho como um verdadeiro mestre de saveiro. Voltou em meio do temporal que desabou. A mulata se acolheu no seu peito com medo. Ele sorriu pensando que Iemanjá estaria com ciúmes e descarregava contra ele os ventos e os raios.

Ainda neste fragmento – passaram-se outros anos, passaram outras mulheres –, Guma assume em definitivo o manejo do saveiro “Valente”, aos 18 anos. Um fragmento para falar da melancolia de não conhecer o além-horizonte, representado na figura recorrente de Chico Tristeza, e voltamos novamente no tempo para conhecer um pouco mais da infância atribulada de Guma: sua passagem pela escola de Dona Dulce, por 6 meses (!), aos onze anos, tempo suficiente para aprender a “ler e a escrever o nome”. Novamente é marcada a inevitabilidade do destino:

Poderia ter entrado na Politécnica, seria um grande engenheiro e talvez inventasse uma máquina que melhorasse o destino dos marinheiros no mar instável. Mas, os meninos do cais não vão às faculdades. Vão para os saveiros e para as canoas.

Mas a lembrança mais remota era a de uma porta se abrindo em noite de tempestade e um homem que entrava “numa capa de oleado, escorrendo chuva”. Era o seu pai, Frederico, que retornava de viagem, para pouco tempo depois morrer afogado em outra noite de tempestade.

O último fragmento relembra casos e amigos de infância e adolescência: Rufino, Jacques, Rodolfo, Maneca Mãozinha.

Procuramos resumir o movimento de apresentação do enredo no capítulo “Terras do Sem Fim”, para que o leitor perceba o engenho do ficcionista: as informações nos são passadas em parcelas, em aparente desordem. Observe quantas vezes, neste capítulo, os pais de Guma são citados rapidamente: Frederico, viajante de terras distantes, ausente; a mãe, inominada, presença fugaz e frustrante. O mesmo se dá com a figura mítica de Iemanjá/Janaína, presença recorrente em todo o capítulo.

O narrador deixa que a história flua como numa conversa à beira do cais, ao sabor das ondas que vão e vêm, mas, ao final do capítulo, temos todas as informações sobre o jovem Guma e estamos, juntos com ele, preparados para as peripécias dos capítulos seguintes, onde se mostra a afirmação de Guma como um herói daquela gente. Seus feitos correm por todos os cais da Bahia e o narrador o entrevê, no capítulo “Viscondes, Condes, Marqueses e Besouro”, junto a heróis populares do povo baiano, como Zumbi, Besouro, Lucas da Feira e o temível Lampião, ainda vivo à época.

Esta primeira parte do livro nos mostra o herói em “construção”. Aqui conhecemos um Guma, valente, destemido, fiel aos seus e à lei do cais. Um Guma amante de muitas mulheres, mas apaixonado por Lívia, que, ele acredita, fora “presente” de Iemanjá. Não à toa, o último capítulo intitula-se “Marcha Nupcial”, no qual se percebe, entretanto, um tom fúnebre, anunciando o que viria a seguir.

A segunda parte de Mar morto, “O paquete voador”, tem nove capítulos e a mesma estrutura narrativa conversa-puxa-conversa da primeira parte, que procuramos demonstrar a partir do capítulo “Terras do Sem Fim”. Desta vez, entretanto, os capítulos seguem uma ordem cronológica rígida, exceção feita a “Toufick, o árabe”, onde, em flashback, o narrador conta a trajetória do personagem de terras árabes até a Bahia.

É interessante notar, entretanto, que, se a primeira parte mostrava o herói em “construção”, isto é, em trajetória ascendente, desde sua concepção, a partir do encontro entre um marinheiro e uma prostituta, o ponto zero, até os vários feitos heróicos que culminam, no ponto máximo, com a união a Lívia, esta segunda parte mostra o declínio do herói e seu fim trágico.

Guma, o herói, comete erros: trai seu melhor amigo, Rufino, trai a esposa, Lívia, e envolve-se com o contrabando em busca de dinheiro fácil. Seu final, heróico, é bem verdade, não o exime de culpa. Por isso, nesta parte, a narrativa toma um tom sombrio desde o início, que, na verdade, reata a história a partir do ponto em que se iniciara, nos capítulos “Tempestade” e “Cancioneiro do cais”, na primeira parte. A continuação destes é exatamente “Roteiro do mar grande”, a rota onde morreram Mestre Raimundo e Jacques. O capítulo “Eram cinco meninos” é especialmente sombrio, pela narrativa do acidente que resultaria no título, pelo aparecimento do misterioso tio Leôncio e especialmente pelo remorso que consome Guma.

Jorge Amado não é muito hábil em mostrar o que vai na alma de seus personagens, mas nos faz, com poucas palavras, perceber o sentimento de Guma, após a dupla traição:

Guma não fita a lua. Quebrou a lei do cais. Não é medo de Rufino que ele tem. Se não fosse seu amigo não se importaria. Tem é vergonha, vergonha dele e de Lívia. (...) Traíra a todos, traíra também seu filho por nascer, pois não lhe deixava uma tradição no cais. (...) Não. Era um traidor, fizera igual ao sujeito que apunhalou Besouro pelas costas. (...) Se não fosse um marinheiro, Guma choraria como uma criança, como uma mulher, como um preso de lúgubre prisão.

Como se observa, o herói está reduzido a nada.

O último capítulo da segunda parte, “Terras de Aiocá”, mostra-nos o último ato de heroísmo de Guma, ao salvar o contrabandista Toufick e Antônio, filho de F. Murad, o “chefão” do contrabando. Mostra-nos também a última viagem de Guma, para as Terras do Sem Fim, as terras da Princesa Aiocá.

“Mar morto”, a terceira parte, em quatro capítulos explica o título do romance, reabrindo, com o otimismo possível, a saga de Guma, a ser continuada por Lívia e Frederico, seu filho.

Ilustrações: capa da edição brasileira de 1965; capa da edição italiana de 1958.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Lançamento: Diálogos com a Amazônia

Medicina na mitologia grega

João Bosco Botelho


De acordo com a mitologia grega, a Medicina começou com Apolo, filho da união de Zeus com Leto. Inicialmente, Apolo era considerado como o deus protetor dos guerrilheiros. Posterior-mente, foi identificado como Aplous, aquele que falava a verdade e purificava a alma por meio das lavagens do corpo com remédios curativos.

Um dos filhos de Apolo, Asclépio, pré-determinado para ser médico, recebeu os ensina-mentos sagrados do mítico centauro Quirão. A escolha do centauro estava assentada no fato de ele possuir o completo conhecimento da música, magia, adivinhações, astronomia e da Medicina.

Para os gregos daquela época, Asclépio divinizou a Medicina na mitologia. Ele era cele-brado em grandes festas públicas no dia 18 de outubro, data em que até hoje se comemora o dia do médico no Ocidente. Asclépio conquistou uma fama inimaginável, tinha delicadeza do tocador de harpa e a habilidade agressiva do cirurgião. Os doentes que não obtinham a cura em outros lugares procuravam as curas milagrosas desse deus taumaturgo. Chegou a ressuscitar os mor-tos e, como consequência, por ordem de Zeus, temendo que a ordem do mundo fosse transtornada, foi morto com os raios das Ciclopes.

Asclépio deixou duas filhas, Hígia e Panacéia; a primeira foi celebrada como a deusa da Medicina e a segunda curava todos os doentes com os segredos das plantas medicinais. Além delas, teve dois filhos, Macaão e Podalírio, médicos guerreiros que se destacaram na guerra de Troia.

Existem muitas comprovações arqueológicas das dádivas de agradecimentos dos doentes para Asclépio. No hospital de Epidauro, na Grécia, foram encontradas várias esculturas com o nome do doente, a descrição da doença e da cura obtida. Quase todas as representações simbólicas de Asclépio produzidas, entre os séculos VI e II a.C., contêm uma serpente enrolada num bastão.

O simbolismo da serpente é frequentemente ligado à transcendência da morte. Existem vá-rias explicações para a relação da Medicina com a serpente. As mais conhecidas são: a serpente pode viver em cima e embaixo da terra, atuando como mediador entre os dois mundos e a capaci-dade de mudar a pele, de tempos em tempos, encenando o renascimento.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

terça-feira, 17 de maio de 2011

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Almanaqve Neolatino

Jorge Tufic


Quando à frente da Diretoria de Assuntos Culturais da FCA, em Manaus, coube a mim saudar a “III Écloga”, de Virgilio, na tradução de um veterano professor do Colégio Estadual do Amazonas, Agenor Ferreira Lima. Numa boa hora como esta – dissera então – em que o Governo inglês cogita seriamente de restabelecer o latim no curso secundário, suprimindo-lhe as declinações e tendo por objetivo “despertar o interesse e a atenção dos estudantes através do estudo da semântica e da etimologia”, a AFL decide entregar ao público o resultado do estudo que fez sobre a III écloga de Públio Virgílio Marão (um desafio de cantadores há 2.000 anos passados).

Sabe-se hoje que a influência do latim não se consolida apenas nos idiomas que a receberam por via direta, devendo-se lembrar a conquista da Bretânia pelos romanos, que deixaram ali suas raízes e o empenho vitorioso na reintegração da Inglaterra no seu passado europeu e cristão, conforme esclarece Francisco Barbosa de Rezende. Ora, bem: se este curioso fenômeno acontecera, como ainda acontece, nos países de fala anglo-saxônica, como então se deverá estimar o valor do latim no contexto do português, do espanhol, do italiano e outras línguas essencialmente ramificadas?

Resposta ampla e concreta a essa pergunta nós vamos encontrar no “Almanaqve Neolatino”, do poeta Luciano Maia. “A inclusão de Luciano Maia num espaço que não é tradicionalmente o seu, não o afastou, felizmente, do processo criativo próprio do seu continente – que é a Poesia –, “adverte, numa das abas do volume, Napoleão Nunes Maia Filho. Isto é patente: tanto a linguagem quanto a escolha dos textos, com ênfase aos de conteúdo poético, fazem deste livro, a par das curiosidades ínsitas ao calendário que fixa e determina o enriquecimento e as transformações da História, um raro objeto de leitura obrigatória.

Divide-se ele em três partes, contendo, ao final, um apêndice onde foram transcritos textos de diversos autores neolatinos, dentre estes a clássica parábola do filho pródigo, Sancho I, Federico Garcia Lorca, Nicolás Guillén, Pablo Neruda, Arnaut Daniel e Salvador Espriu. Numa correspondência harmoniosa aos dados contidos nos capítulos medulares da obra, aqui o leitor pode familiarizar-se com o romeno, o italiano, o sardo, o judeu-espanhol, o crioulo de Macau, o galego-português, o catalão, o espanhol, o francês, o provençal antigo, o galego propriamente dito e o romanche. O “Almanaqve Neolatino” é de 1990. Com “As tetas da Loba”, de 1996, Luciano Maia conclui seu périplo em torno dessa temática estreitamente ligada aos constantes desafios do faber, e aos penosos trabalhos de Hércules.

Cinco anos após a edição do “Almanaqve”, já muito mais experimentado na arte de cultivar a beleza destes falares do Lácio, volta o poeta à matéria de sua paixão e nos explica, à guisa de prefácio ao “As Tetas da Loba”: “Admirador inconteste das Línguas românicas, em suas mais variadas feições, sou um entusiasta da latinidade também no âmbito da linguística: para mim, qualquer idioma ou dialeto neolatino é mais sonoro, mais harmonioso e poético que qualquer outra língua do mundo”. E mais adiante: “Delicioso é escutar, em romeno, a palavra bodega, com o mesmo significado que ela tem no interior do Nordeste do Brasil. Ou ouvir em idioma corso, num restaurante parisiense: “A mamma parla u corsu in casa lindu e puru” etc.

Do livro acima referido, para abonar o arraigado sentimento do autor pela histórica loba e seus filhotes, transcrevo a seguir as estrofes sob o título “Salve, Nicolás!”:

As tetas da Loba se africanizam
e hoje alimentam sopros pixinguinhas
e sopros anônimos e em Cuba
as tetas da loba amamentam Pablo Milanés
y Silvio Rodríguez y
um canto en un país libre
neolatino, mestizo, caribeño y hermoso.
E desde que José Martí adoçou os caules
cañaverales, Guillén entoa
su songoro-sosongo...

As línguas românicas que continuam hodiernamente o latim vulgar, segundo Luciano Maia, podem ser enumeradas da seguinte maneira: Francês (atestado desde o século IX); provençal (atestado desde o século X); italiano (atestado desde o século X); espanhol (atestado desde o século X); sardo (atestado desde o século XI); português (atestado desde o século XII); galego (atestado desde o século XII) reto-românico (atestado desde o século XII); catalão (atestado desde o século XII) romeno (atestado desde o século XVI); e o dalmático (atestado desde o século XIV).

Obediente à metodologia científica que preside à textura do assunto “almanaqve”, muito mais raro entre nós, o autor desta pesquisa oferece, em seguida às duas primeiras partes, rigorosamente didáticas, uma terceira parte movida ao sabor de curiosidades e pormenores (coloquialidades e duplo sentido entre os vários idiomas enfocados). E brotam as dicas, o bem humorado letreiro, o gesto que denuncia a presença de um pedestre “chifrudo”, a sonoridade e o significado das palavras, na Terra dos Dácios.

E o que mais dizer sobre o “Almanaqve Neolatino”, de Luciano Maia? Sim, que o v de “almanaqve” era u, nos tempos de Dona Briolanja...

domingo, 15 de maio de 2011

Manaus, amor e memória XXI

Da série “Paróquias de Manaus”, do livro Frauta de Barro:


POBRE DIABO


Até mesmo o capiroto

deve ter o seu devoto.

Dizem que depois de velho

faz-se frade, esse “rapaz”

porém que ir mais além:

ficou pobre e virou santo.

Valei-me São Satanás!

(Luiz Bacellar)


Capela situada à rua Borba, no bairro de Cachoeirinha, dedicada a Santo Antônio, mandada construir, ao final do século XIX, por um particular; aos poucos, talvez por não lhe ver uso regular, o imaginário do povo transformou-a na “capela do Pobre Diabo”.

II Seminário de Dramaturgia Amazônida

sábado, 14 de maio de 2011

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Mar morto, de Jorge Amado, uma análise 5/14

Zemaria Pinto


d) Enredo


As informações fornecidas na sequência podem parecer redundantes e supérfluas para o leitor já familiarizado com a obra, mas a observação da narrativa por esse prisma é importante, sim, para compreendermos melhor a arte do ficcionista.

Mar morto é dividido em três partes: “Iemanjá, dona dos mares e dos saveiros”; “O paquete voador”; “Mar Morto”. As três juntas têm 25 capítulos e estes têm subdivisões que marcam bem a passagem do tempo. Observemos, como exemplo, o capítulo “Acalanto de Rosa Palmeirão”, inserido na primeira parte do romance.

De início, o narrador nos fala da personagem como de alguém muito distante, que um dia andara por aquele cais, mas agora é mera lembrança:

Por onde andaria Rosa Palmeirão? Nascera naquele cais, fora pelo mundo, que não gostava de estar num só lugar. Ninguém sabe por onde ela anda. Onde ela estiver tem barulho. Porque ela traz navalha na saia, punhal no peito e porque tem um corpo bem feito.

Na subdivisão seguinte (separada da primeira por uma estrela ou um outro sinal, dependendo da edição que o leitor tenha em mãos), o narrador nos conta o retorno de Rosa Palmeirão, o reencontro com os velhos amigos do cais e a aproximação amorosa a Guma. Finalmente, no terceiro fragmento do capítulo, nos é narrado um momento da intimidade do novo casal, depois de passados alguns dias do que se contou no segundo fragmento:

Ela ficou olhando as águas do rio. Quis sorrir, ficou encabulada:
Te juro que queria muito ter um filho, um filhinho para eu tomar conta e criar ele... Não ria não...
E não teve vergonha das lágrimas que rolaram sobre o punhal do peito, a navalha da saia.

O leitor observou que houve uma passagem de tempo significativa entre o primeiro e o terceiro fragmentos. Entretanto, não se justificaria a abertura de novos títulos-capítulos, uma vez que o que dá unidade ao capítulo citado é a figura personalíssima de Rosa Palmeirão.

Feita essa observação de ordem meramente formal, válida para quase todos os capítulos, analisemos cada uma das partes de Mar morto.

“Iemanjá, dona dos mares e dos saveiros” – composta por doze capítulos, conta a vida de Gumercindo, o Guma, protagonista do romance, desde seu nascimento até o encontro e o casamento com Lívia. Aliás, até cinco meses após o casamento, que é quando se dão os acontecimentos narrados nos capítulos iniciais – “Tempestade” e “Cancioneiro do Cais”.

Esses capítulos de abertura colocam o leitor, de chofre, no centro dos acontecimentos: em uma noite de tempestade em que a jovem esposa Lívia aguarda a chegada de seu marido, o mestre de saveiro Guma, sabe-se da morte de mestre Raimundo e seu filho Jacques. Esses capítulos nos informam também, pontuados por uma explícita sensualidade, sobre o destino inexorável daqueles personagens: o mar, que é seu sustento, é também sua desgraça.

O mar é amigo, o mar é doce amigo para todos aqueles que vivem nele. E Lívia sente o gosto de mar da carne de Guma. O “Valente” balança como uma rede.

Uma voz, que não se sabia ao certo de onde vinha, cantava:

É doce morrer no mar...

Os capítulos seguintes são narrados de forma mais ou menos linear, no modo história-puxa-história, como se observou na análise do foco narrativo. “Terras do Sem Fim”, o terceiro capítulo, é um bom exemplo dessa forma de narrar. Comecemos por explicar o título. Em 1931, o escritor gaúcho Raul Bopp publicou um livro chamado Cobra Norato, um poema ambientado na Amazônia, usando elementos do fabulário local. Terras do Sem-fim, no poema de Bopp, designa um lugar paradisíaco, lendário:

Um dia
eu hei de morar nas terras do Sem-fim

Em Mar morto essa concepção não difere. Observe o que diz o narrador no final do capítulo, ao falar do destino inevitável dos náufragos:

O velho Francisco, que já não viaja, que fica no cais esperando a morte calma, livre das tempestades, das traições das ondas, sabe também que eles morrerão sem temor. Mas ao contrário de Dona Dulce, o velho Francisco tem inveja deles. Pois, contam que a viagem que os náufragos fazem com Iemanjá, para as Terras do Sem Fim, por sob os mares, mais veloz que os mais velozes navios, vale bem essa vida porca que eles levam no cais.

Observe, portanto, que para justificar a luta diária contra a morte, cria-se um clima fantástico, como a compensá-la: a companhia de Iemanjá, a entidade que reina sob as águas do mar, redenção aos que por ela dão a vida em sacrifício. Em 1943, sete anos após a publicação de Mar morto, Jorge Amado dá ao público um romance intitulado Terras do Sem Fim. Mas esta é uma outra história.

Ilustrações: capa da edição portuguesa de 1971; capa da edição húngara de 1961

quinta-feira, 12 de maio de 2011

O Arquivo de Turenko Beça

Medicina na Índia antiga

João Bosco Botelho


É provável que a Medicina na Índia antiga já estivesse sistematizada séculos antes da in-vasão pelos arianos vedas, em torno do ano 2.000 a.C. A suposição é baseada nos estudos ar-queológicos realizados na cidade Mohenjo-Daro, no noroeste da Índia, nas margens do rio Indo. Nessa cidade foram encontradas ruas bem traçadas com rede de esgotos, canalização para água e banhos públicos. Os achados colaboram na confirmação da importância dos cuidados de saúde pública na profilaxia da doenças.

A primeira sistematização da Medicina na Índia antiga está contida no Ayurveda (Veda da Longevidade), escrito em sânscrito e pleno de religiosidade. O texto original comporta mil capítu-los divididos em cem mil versículos ou Shlokas, divididos em Ashtânga, palavra que até hoje é utilizada na Índia como sinônimo de Medicina.

O Ayurveda está dividido em oito capítulos que tratam de diferentes assuntos médicos:

Shalya: cirurgia para retirada de corpo estanho, do feto morto retido intrauterino, drenagem de ferida com pus e a utilização de instrumental cirúrgico;

Shalakya: cirurgia dos olhos, nariz, orelhas e garganta;

Kayacikitsã: terapêutica em geral com mais de oitocentos diferentes tipos de plantas medicinais;

Bhutavidya: ensinamentos que permitem tratar com os espíritos dos mortos, com os demônios e com os doentes que foram possuídos pelos deuses que causam as doenças;

Kaumarabhritya: cuidados dos recém-nascidos e das mulheres grávidas;

Agadatantra: toxicologia, venenos e antídotos;

Rasayana ou Jará: ervas do rejuvenescimento e afrodisíacos;

Vajikarana ou Vrisha: descreve as propriedades dos afrodisíacos.

Ainda segundo os ensinamentos contidos no Ayurveda, as doenças se dividem em três tipos: as curáveis ou Sadhya, as que podem melhorar ou Yapya, e as incuráveis ou Pratyakhyeya. Do mesmo modo, admitem que as doenças sejam consequentes de culpas das vidas anteriores ou Karmaja, e que para curá-las totalmente é indispensável a penitência ou Prayashcitta.

A relação entre a doença e o castigo divino é constante, isto é, as causas das doenças físi-cas estavam vinculadas às transgressões das normas. Alguns desses conceitos sobreviveram no tempo e continuam vivos na atualidade.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

segunda-feira, 9 de maio de 2011

domingo, 8 de maio de 2011

O texto nu ou a teoria desvelada

Rogel Samuel*


Quando abri o belo livro de Zemaria Pinto, O texto nu, logo pensei, pelo título: “trata-se de obra de poesia”. Pois ele é um poeta. E bom poeta. Mas qual surpresa foi a minha ao ver que abria um volume de... teoria literária. E ainda mais, um compêndio teórico prático, didático, claro, metódico, onde se explicam as diversas teorias literárias, no mais claro texto possível, o mais facilitado, e tudo muito bem escrito, no seu bom estilo, para o público em geral e para os alunos da graduação em letras.

O título não engana. Ali a teoria da literatura – como ele a chama – está nua. Desnudada, sem véu. Entramos ali num terreno complexo, variado, infinito, movediço, que é aquela disciplina plural, entre filosofia e ciência, vasta e renovável. E notável. E desafiadora.

Poucos são os bons manuais que sobreviveram, por isso mesmo. Porque as novas teorias sempre aparecem. Localizadas, nacionalizadas. Porque o teórico da literatura deve saber de tudo o muito necessário para dar conta de suas tantas faces daquele conjunto de saberes: a linguística, as estéticas, as filosofias, as diversas línguas, as diferentes literaturas nacionais etc.

Quando iniciei por concurso minhas aulas na Faculdade de Letras da UFRJ me jogaram aos leões, e o joguei durante vários anos, numa maluquice, uma infernal disciplina que se chamava “Evolução da literatura”, aquela loucura, uma trapalhada, pois o curso ia desde a Idade Média até as Vanguardas! Quem é capaz de saber, de dominar aquilo tudo? Lembro-me do professor Brisemeister, um filólogo alemão, que na primeira aula do nosso curso de Pós-graduação na UFRJ perguntou a um colega:

– Qual sua disciplina?

– Literatura brasileira, respondeu o aluno.

– De que época? – quis saber Brisemeister, que nos deu um curso em português, pois falava vários idiomas.

Um dos maiores talentos brasileiros, que foi José Guilherme Merquior, caiu naquela armadilha, a de escrever sobre tudo e sobre todos: Freud, Marx, Hegel etc. Assim um grande filósofo brasileiro, o mestre Ivan Lins, comentou que passara a vida inteira lendo Hegel. No final da vida afirmou: “Estou começando a compreender...”

Mas isso não aconteceu com o escritor e poeta Zemaria Pinto. Ele só expôs, no seu livro, as ideias claras e clássicas, as consagradas, as mais conhecidas, as mais gerais, de maneira direta, sem viés, sem polêmica. Basta dizer que não cita ninguém durante o texto, só na bibliografia, onde nos orgulhamos de estar, com dois títulos.

Seu livro é daqueles que já nascem clássicos.


Rogel Samuel é poeta, escritor, webjornalista, doutor em Letras, professor aposentado da Universidade Federal do Rio de Janeiro e autor, entre outros títulos, do Novo manual de teoria literária e do romance O amante das amazonas.

(*) Orelha do livro O texto nu, de Zemaria Pinto – 2ª edição, Valer, 2011 –, que será lançado na próxima quarta-feira, 11 de maio, às 19h30, na Saraiva MegaStore, no Shopping Manauara.

Na ocasião, inaugurando o evento Encontro com a palavra, o autor falará sobre o conteúdo de seu livro, que serve tanto a estudantes e escritores principiantes quanto a interessados na literatura de modo geral.

sábado, 7 de maio de 2011

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Mar morto, de Jorge Amado, uma análise 4/14

Zemaria Pinto

c) Foco narrativo


Uma das análises mais interessantes a serem feitas em uma narrativa é descobrir qual o papel desempenhado pelo narrador, qual o “foco” da narrativa, qual a percepção, o ângulo de visão de quem narra. O narrador de Mar morto, que não deve, em hipótese alguma, ser confundido com o autor, se nos apresenta a um só tempo original, dada a sua dificuldade de ser caracterizado, e velho conhecido, quando descobrimos que a técnica usada é tão velha quanto o velho hábito de contar histórias. O leitor pode observar que logo após a dedicatória, que é um atributo do autor, o narrador fala diretamente conosco:

... Agora eu quero contar as histórias da beira do cais da Bahia.(...) Eu as ouvi nas noites de lua no cais do Mercado, nas feiras, nos pequenos portos do Recôncavo(...)
Vinde ouvir a história de Guma e de Lívia que é a história da vida e do amor no mar. E se ela não vos parecer bela a culpa não é dos homens rudes que a narram. É que a ouvistes da boca de um homem da terra, e dificilmente um homem da terra entende o coração dos marinheiros.

Você percebeu, leitor, que o narrador coloca-se numa posição de personagem, falando em primeira pessoa, identificando-se como “homem da terra”, mas, ao término da leitura da obra, percebemos que a narração se deu, sempre, em terceira pessoa. Ou seja, o narrador não participa da história que conta, está a alheio a ela. Quando isso acontece, os manuais nos ensinam, dizemos que o narrador é onisciente. Mas será mesmo onisciente o narrador de Mar morto?

Se você já leu o livro todo (e para ler estes comentários é preferível que sim), deve lembrar-se do personagem Leôncio, irmão de Francisco e tio de Guma, que aparece rapidamente, numa atmosfera sombria, no capítulo “Eram Cinco Meninos”. Leôncio parece portar um estigma, mas qual? Se o narrador fosse onisciente, não haveria porque sonegar essa informação ao leitor. Em assim o fazendo, passa-nos a impressão de algo incompleto, mal resolvido, um personagem sem função na trama.

Em contraposição a este, há o episódio da morte de Rufino e Esmeralda, no capítulo “Água Mansa”. Como não há testemunhas, o narrador, se não aceitarmos sua onisciência, teria “inventado” tudo, o que não deixaria de ser uma forma de onisciência...

Lembremos ainda o delírio do canoeiro Traíra, em seu leito de morte:

Rodrigo examinou a ferida, o doente não ouvia mais nada, não se apercebia da presença deles. Só via as três filhas dançando em torno, saltando risonhas, rindo alacremente. Marta, Margarida, Raquel. É uma boneca nova que Raquel tem nos braços, uma boneca nova que conversa com ela, boneca que ele trouxe nessa viagem. Ele vai embora num navio, ele vai embora numa nuvem e Marta e Margarida e Raquel dançam no cais, dançam as três de mãos dadas como nos dias felizes em que Traíra chegava das longas viagens e deitava na mesa os presentes trazidos. Marta veste as peças mais novas do enxoval, Margarida dança sobre pedras que catou na beira do rio, Raquel aperta uma boneca ao peito.

(“Marta, Margarida, Raquel”)

Neste caso podemos aceitar uma onisciência “relativa”, uma “licença poética” do narrador, que, dominado pela emoção, busca pintar com tintas líricas o momento cinza e inexpressivo da morte.

Muitos outros episódios poderiam ser mostrados, nos quais o narrador conta o que ouviu de alguém, exatamente como fora prometido na abertura. Essa maneira de contar, tipo história-puxa-história, retrata bem a oralidade da qual o povo se serve para transmitir suas tradições. Guma e Lívia jamais existiram, mas até a forma de contar sua história empresta-lhes verossimilhança, isto é, faz-nos parecer que eles foram reais, construídos por um “narrador testemunha”, que narra o que “viu, ouviu ou leu em algum lugar”, mas cuja visão é limitada se comparado ao narrador onisciente.

É narrador testemunha, pois, o personagem que nos conta a vida de Guma: sua visão é limitada pelas informações recebidas, porém, como todo bom contador de histórias, ele preenche os vazios não com a verdade tal e qual porque não a conhece, mas com a “verdade possível”, tirada de sua fértil imaginação.

Ilustrações: capa da 4a. edição portuguesa - note o apelo à telenovela Porto dos Milagres, de 2001; capa da edição islandesa de 1957. 

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Lançamento: 2a ed. de Amazônia – um paraíso perdido

Medicina e igreja na Idade Média

João Bosco Botelho


Com as mudanças estruturais no Império Romano, iniciadas pelo Imperador Constantino e consolidada por Teodósio, nos fins do século IV, o Império Romano do Ocidente firmou a capital em Milão, na Itália, e o Império Romano do Oriente em Constantinopla, atual Istambul, capital da Turquia.

O Império Romano do Ocidente sofreu profunda transformação sociopolítica nos anos seguintes em consequência da invasão dos visigodos, da cristianização e da gradativa mudança do sistema mercantil-escravista para o feudal e, como não poderia deixar de ser, a prática médica foi envolvida nas mudanças em curso.

Com a cristianização da Europa, a influência exercida pela Igreja Católica na Medicina foi se fazendo de forma gradativa e irreversível. A origem teórica dessa interferência remonta aos tempos pré-cristãos, quando o pensamento judaico associava o aparecimento das doenças aos pecados. O extremismo dessa âncora conceitual, a partir do século VI, contribuiu para o fechamento das escolas de medicinas oriundas da herança greco-romana. O atendimento médico e o combate às doenças passaram a ser realizadas nos mosteiros e abadias pelos padres das diferentes ordens religiosas. Entre os que se destacaram no exercício da atividade médica está o de Monte Cassino, na Itália, construído sobre antigo templo de Apolo.

Com o passar dos anos, os padres passaram também a exercer a Medicina fora dos muros dos mosteiros. Em consequência dos atritos com as populações urbanas próximas aos mosteiros, gerados pelos maus resultados das práticas médicas, os religiosos foram proibidos de exercer a atividade de cura fora dos mosteiros, por determinação dos Concílios de Remis (1131) e de Roma (1139).

A pressão coletiva para mudar esse rumo da Medicina culminou com a formação de escolas de Medicina junto aos mosteiros, como a Escola de Salerno, no sul da Itália, fundada ao lado de um convento beneditino. Essa instituição foi responsável perante a História pela famosa frase: Primo, nou nuocere (Primeiro, não façam mal). Pouco tempo depois surgiu a Escola de Montpelier, na França, com a mesma característica, isto é, o ensino era baseado nas obras de Hipócrates e Galeno.

A cátedra universitária remonta a esse período. O professor sentado na grande cadeira, daí o nome cátedra, explanava aos alunos calados e atentos, ávidos de conhecimentos.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

terça-feira, 3 de maio de 2011

Ernesto Sabato (24/06/1911-30/04/2011)

Quarta Literária: Thiago de Mello fala sobre Pablo Neruda

Gabriel saiu para almoçar 15/15

Marco Adolfs



...Com a “sua” solidão como se fosse uma trilha aberta na direção do campo florido da existência criativa; e ele, Gabriel; como um demiurgo; um criador; inserido nesta situação de estar só; pensou, incisivamente, “pois então que todos criassem, no lugar de chorar!”. Sombra resmungou um pouco, antes de anotar esta frase. Mas, para ele, o fato de ter optado pelo isolamento criativo não garantia a total felicidade. Havia, em determinados momentos, o peso excessivo do silêncio. Pois, para Sombra, esse silêncio também tinha peso e fazia muita força no sentido de desestabilizá-lo de vez em quando. Principalmente aos domingos. O fato era que a solidão apresentava diversas facetas. Ela podia ser também desesperadora. Mas por outro lado notava-se a própria essência da sua vida de escritor existindo somente a partir da solidão. Muitas e muitas vezes ele também sentiu-se seguro em seu casulo. Não poderia negar. Dentro de si mesmo, sem existir nenhum conflito. Mas, quando tinha que pensar do ponto de vista prático – “onde estava todo mundo?” – isso o desesperava, gerando o sentimento muito conhecido da angústia. Ele estava livre e não usufruía, por causa de sentimento atávico de ter que viver em grupo. Em caso de perigo ou doença, o que fazer? Seus fantasmas. Foi quando Gabriel pensou naquelas milhares de pessoas que estavam acompanhadas de outros seres humanos. Que nunca haviam estado só. Pelos menos aparentemente. Que, fugindo da angústia, haviam, isto sim, renunciado à liberdade que o estar só proporciona. “Então eu deveria escrever sobre a angústia”, pensou Sombra, num lampejo de sua mente e ajeitando-se um pouco mais na rede.

Mas Gabriel era forte nesses sentidos todos de assumir, mesmo com um pequeníssimo desespero domingueiro a sua existência longe dessas observações existenciais. Pois, para o grosso da humanidade a solidão é vivida como algo extremamente cruel aos seus sentidos. Porém, embora Gabriel Sombra de vez em quando sentisse esse sentimento com mais intensidade, fazia dele uma necessidade. A necessidade de estar só o protegia de inconvenientes contraditórios. “Nunca quis que alguém se metesse na minha vida, mesmo”, pensou, com uma certa intensidade. O peso da solidão, que porventura o levasse a sentir-se incomodado, era passageiro. Durava apenas algumas precaríssimas horas de domingos e feriados, antes e depois do almoço. Até o anoitecer, quando então voltava para a sua “caverna meditatória”. E, como está escrito neste livro de consoladores e solitários extremos: E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco para sempre, o Espírito da verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê, nem o conhece; mas vós o conheceis, porque habita convosco e estará em vós. Não vos deixarei órfãos; voltarei para vós... Quantas vezes o provocaram no deserto e o ofenderam na solidão!Porque o SENHOR consolará a Sião, e consolará a todos os seus lugares assolados, e fará o seu deserto como o Éden e a sua solidão, como o jardim do SENHOR; gozo e alegria se acharão nela, ações de graças e voz de melodia... As tuas cidades porei em solidão, e tu te tornarás em assolação; e saberás que eu sou o SENHOR.

...Então, ao colocar o ponto final em seu ensaio sobre a solidão, Gabriel Sombra, o poeta solitário da cidade de Manaus, olhou para o seu pequenino relógio de pulso e percebeu que estava na hora de sair para almoçar...

E foi o que fez, para imenso prazer de sua alma.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Os Sonetos Reunidos de Alencar e Silva, uma simples apresentação

Jorge Tufic*


Escrever sobre o poeta Alencar e Silva, sobretudo quando o tema recai nos sonetos reunidos neste volume, somatório de uma vida inteira dedicada à poesia, antes de ser uma tarefa que nos empolga, é um dever que nos desarma diante de tantas facetas de sua vida e de seus múltiplos recursos de escritor preocupado em fixar pormenores da história cultural da geração madrugada, de cujos primórdios datam as primeiras estrofes de sua pena versátil.

Ainda jovem, em Manaus, escrevia e publicava sonetos, poemas, artigos e crônicas nos matutinos e vespertinos de maior circulação, inclusive na revista de Anísio Mello, “Amazonas Ilustrado”, de 1952, ano que marca sua estréia na poesia, com o livro Painéis. Em 1951 participou de uma caravana de poetas que demandara o sul, sudeste e extremo-sul do País, com paradas obrigatórias no Rio de Janeiro e São Paulo, estando esse grupo constituído pelos seus amigos de então e de sempre Farias de Carvalho, Antísthenes Pinto e Jorge Tufic. Numa segunda viagem dessa caravana, passaria a integrá-la o inesquecível Guimarães de Paula. Segundo historiadores, estas duas incursões dos “caravaneiros”, também chamados de “monges”, se inscrevem nos antecedentes do movimento madrugada, surgido em 1954, ou seja, um ano após seu retorno definitivo a Manaus, em cuja praça do Pina deu-se o encontro da geração que tomaria seu nome: a “geração madrugada”.

Um raro depoimento sobre Alencar e Silva é de Arimathéa Cavalcante, completamente avesso a qualquer manifestação desse tipo. Segundo esse mestre, também poeta e dos bons, “ALENCAR E SILVA é um Midas admirável. Moderno. Tem o Dom mágico de transformar, não no ouro que não tem importância para ele, mas em poesia tudo aquilo que toca. Respira poesia, e é dela que o mundo de hoje mais precisa, porque sendo mescla de prazer e dor, é sobretudo natureza, amor, vida, é Deus que vem para dar um novo alento ao mundo em rotação.” (Território Noturno, Coleção Madrugada, 2003). Para Max Carphentier, no prefácio de Noturno Após o Mar, livro de crônicas e poemas em prosa, “Alencar e Silva pertence a essa corporação restrita de reveladores-salvadores do divino-humano, dos que, esperançosamente sós, se fortaleceram e se consumaram, e se aceitaram majestosamente tristes, sabiamente sombrios, numa estratégia apostolar milimetrada, para poderem preparar, a partir mesmo do cerco das sombras, a hora da alegria.”

Acha-se também, e com justiça, incluído na antologia de André Seffrin, Roteiro da Poesia Brasileira – Anos 50, Global Editora, SP, 2007, sob a direção de Edla van Steen –, parte de uma série que trata das raízes até o ano 2000, um instrumento auxiliar e da maior valia para o estudo das fases e dos processos criativos de nossa literatura. “Os anos 50 foram dos períodos mais férteis da poesia brasileira do século XX.” Tempo de grandes aventuras formais, suplementos literários, debates, performances. Fazendo coro às mudanças e inovações, Alencar e Silva foi um dos teóricos da “poesia de muro”, apoiada pelo Clube da Madrugada, e outras correntes estéticas que fizeram história.

Poesia Reunida é de 1987, com três livros, apenas, de sua laboriosa oficina, editados entre 1965 e 1986. Apresentando-a, discursa o poeta e cronista L. Ruas, de saudosa memória: “Gostaríamos apenas de dizer que Alencar e Silva comprova, na edição desta obra conjunta, que permanece fiel a si mesmo, o que equivale dizer que permanece fiel à sua singular vocação poética”. E Elson Farias, no prefácio à primeira edição de Lunamarga, não deixa por menos: “O livro que temos em mãos, além do timbre pessoal característico da expressão autêntica, traz as melhores qualidades da atual poética brasileira: profundidade mítica, angústia, a palavra existindo livre dos luxos supérfluos e do comum, dolorosamente sofrida e recriada no espaço vital do seu mundo.” A fortuna crítica tonteia pelas celebridades: José Alcides Pinto, Ramayana de Chevalier, Arthur Engrácio, Antísthenes Pinto, Genesino Braga, Guimarãs de Paula, Anísio Mello...

Na qualidade de homem público e braço de Governo, sobressai-se como Diretor-Presidente da Imprensa Oficial do Estado, fazendo editar o Suplemento Literário Amazonas, que circula de novembro de 1986 a outubro de 1988. Nada disso por conta do Estado, senão através de um acordo feito junto aos assinantes do Diário Oficial, com alguns centavos a mais nas respectivas assinaturas. Foram, na verdade, vinte e quatro edições e uma distribuição nunca vista antes por toda a América do Sul. Além disso, pagavam-se as colaborações selecionadas pela Comissão Editorial e a ninguém, que eu saiba, negara-se acolhida em suas páginas abertas, quer para todos os amazonenses, quer para escritores de outros Estados brasileiros. Por falta de maiores aproximações ou tempo para isso, valeu-se o Diretor-Presidente daqueles companheiros do Clube da Madrugada que aparecem no expediente, sem, contudo, discriminar ou cercar a iniciativa de normas ou preconceitos temáticos ou linguísticos, muito menos grupais ou pessoais. Em tão pouco tempo à frente do órgão, nem por isso deixara, também, de apor o seu visto favorável à publicação de obras importantes da literatura amazônica.

Assis Brasil, no volume “A Poesia Amazonense no Século XX”, relembra que Astrid Cabral haveria de destacar o veio romântico e “o equilíbrio clássico” da poesia de Alencar e Silva, toda vazada em “dicção despojada e serena”. Enfim, “amazonense e brasileiro por circunstâncias biográficas, podendo aplicar-se a Alencar e Silva a verdade pessoana: sua pátria é a língua portuguesa”. E vai mais longe na pesquisa a que sabe imprimir o calor da descoberta: “Escrevendo desde adolescente, entre poemas e primeiros livros publicados, ativa colaboração nos jornais de Manaus, “A Tarde”, de Aristóphano Antony, e “A Crítica”, de Umberto Calderaro Filho. O jornalismo literário foi feito em “O Jornal”, onde o Clube da Madrugada mantinha um importante suplemento e no “Jornal-Cultura”, da Fundação Cultural do Amazonas, de que foi secretário e editor”. Digressões necessárias, já que o nosso Alencar é, antes do mais ou do menos, poeta. Um poeta universal desde que nascera, e mais que universal, cósmico, já que até mesmo o ponto geográfico de seu nascimento, em Fonte Boa-AM, as enchentes cíclicas arrastaram para o oceano atlântico.

Mas foi o professor e crítico Arimathéa Cavalcanti o autor que melhor estudara o poeta no livro citado linhas atrás, estudo que, pela extensão e planejamento, tem-nos encaminhado para uma compreensão global de sua obra poética. Deste modo, esclarece: “Pude agora ultimar a análise, sem caráter definitivo, mas de modesta contribuição, na certeza de uma verdade insofismável: a obra enriquece espiritualmente a quem quer que a folheie. Pois o livro Território Noturno, de Alencar e Silva, propõe amplas reflexões, eis que abrange aquelas regiões oníricas onde nem sempre mergulham escafandristas neófitos, na tentativa de desvendar-lhe quando não o hermetismo, pelo menos a aura de enigma criada pelos símbolos, ajudados do próprio autor, em comparações e confrontos textuais”. Ressalta o lírico, percebe vagamente a presença de um neomisticismo em algumas de suas escritas, dando-nos, afinal, uma investigação crítica dificilmente encontrada em monografias da espécie.

Poeta maior, escritor extensivo aos mais difíceis gêneros literários, memorialista que faz a história de sua geração e do Clube da Madrugada, Alencar e Silva conta com os seguintes livros publicados, entre prosa e poesia: Painéis, poesia, 1952; Lunamarga, poesia, 1965; Território Noturno, poesia, 1982; Sob Vésper, poesia, 1986; Poesia Reunida, 1987; Noturno Após o Mar (crônicas e poemas em prosa), 1988; Sob o Sol de Deus, poesia, 1992; Ouro, Incenso e Mirra (poema em cinco segmentos e cinquenta sonetos), l994; Solo do Outono, poesia, 2000; Jorge Tufic: As Tendas do Caminho, ensaio, 2004; Crepuscularium, poesia, 2006. A sair, tem o Autor os seguintes títulos: Prosa Vária, ensaios, e Poetas e Figuras na Paisagem, ensaios. Entretanto, como um de seus velhos companheiros, sou testemunha das inumeráveis ocasiões em que a Musa lhe dera aquele sopro extra para compor sonetos e poemas, satíricos ou não, com o único objetivo de exercitar as falanges, expor deformidades ou tirar-nos de certos apertos em nossos caminhos pelo mundo. Um fato no mínimo grandioso, ocorrido em São Paulo (1951), ao ensejo da visita que fazíamos à sede da Prudência e Capitalização, na tentativa de obtermos apoio às nossas viagens de Caravaneiros da Cultura, foi Ramayana de Chevalier, secretário particular de Adalberto Vale, Superintendente da empresa seguradora, quem nos sugeriu a idéia de formularmos o pedido que tínhamos a fazer, através de um soneto. Sem demora, Alencar e Silva tomou a si o desafio, redigiu, com a maior tranquilidade, os quatorze versos solicitados, e, assim, com este “passaporte”, oficializamos palestras e contatos em Curitiba, Florianópolis e Porto Alegre.

A obra de que estamos nos ocupando reúne todos ou quase todos os sonetos do autor, recolhidos das páginas de oito títulos, com mais alguns avulsos, sem falar nos improvisos e nas circunstâncias poéticas ou de foro íntimo. Sem falar, também, nos rejeitos que vamos deixando nas cestas do lixo, nem sempre merecedores desse trágico destino. Egresso do rigor parnasiano, do neossimbolismo e dos versos livres que trazíamos conosco do sul do País, a estrutura do soneto alencarino é simples, funcional e profundamente sugestiva, quando retarda ou deixa ao leitor a fruição da beleza e da verdade. “Quero enxuto o meu verso e muito simples”, em O Soneto no Amazonas (pag. 22), eu destaco esse verso de um soneto de Lunamarga como exemplo de “linhas calmas e transparentes, despojado de lugares-comuns e dos artifícios postos em prática, na ânsia de inovação, por certos autores da corrente futurista.”

Já é hora, contudo, de entregar ao leitor este livro do poeta, representativo, como se verá, de uma de suas paixões literárias, talvez a maior, que é a arte do soneto. Mas Alencar e Silva é poeta em qualquer situação, gênero ou categoria. Um belíssimo poema ele carrega, também, no afeto e na convivência humana, de que nunca, jamais, enquanto vivermos, podemos nos esquecer.

(*) Apresentação do livro Sonetos Reunidos, de Alencar e Silva, a sair.

domingo, 1 de maio de 2011

Manaus, amor e memória XX

Manhã de autógrafos na praça da Matriz. Anos 1970.
No sentido horário: Arthur Engrácio (de costas), Jorge Tufic, Jorge Pinheiro Pucu, Carlos Gomes, Ernesto Penafort, Alencar e Silva e Moacir Andrade.
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Uma homenagem aos abnegados trabalhadores das letras do Amazonas, desde sempre trabalhando nas mais precárias condições.