Amigos do Fingidor

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Quem está na chuva...



Pedro Lucas Lindoso


Há muito tempo não ouvia a palavra bisbilhotar. Minha avó usava muito esse vocábulo. Detestava pessoas que andavam em mexericos e intrigas. Dizia que não devemos bisbilhotar a vida dos outros.
Almir Coimbra, meu professor do antigo ginásio em Brasília, gostava de usar a palavra mexericar. Achava eu que era um termo bem brasileiro. Mas não! Professor Coimbra quando queria fazer uma fofoca citava Eça de Queirós em O Primo Basílio: “A vizinhança já se punha a mexericar, a comentar. Um escândalo!” E então contava seu mexerico. Uma figura, o professor Coimbra! Era professor de Desenho. Fizeram uma reforma educacional e acabaram com a disciplina. Foi introduzida Educação Moral e Cívica. O professor desgostoso aposentou-se e foi mexericar no Rio de Janeiro.
Em Portugal, além de mexericar, usa-se muito a expressão coscuvilhar. Raramente os portugueses usam a palavra fofoca. Essa sim,  é definitivamente uma palavra brasileira. Fuxico também é palavra nossa.
Nas cidades pequenas, nos burgos medievais, a fofoca corria solta. Todos davam conta da vida alheia. Hoje, na era da informática, do weakleaks e do facebook, nada mudou. Todos continuam dando conta da vida dos outros.
Na verdade, não existe sigilo. Nem telefônico, nem fiscal, nem bancário. Na época das locadoras, foram bisbilhotar que tipo de filme um candidato à Suprema Corte dos Estados Unidos costumava locar. Um escândalo.
Sobre o assunto, meu colega de fórum Dr. Chaguinhas sempre me ensina que só existe segredo entre duas pessoas. Se um terceiro fica sabendo deixa de ser segredo!
O fato é que foram bisbilhotar o celular da primeira-dama Marcela Temer. A Justiça determinou aos jornais Folha de S.Paulo e O Globo a não veicular textos que tratam do roubo do celular e das contas de e-mail da primeira-dama Marcela Temer. O juiz de primeira instância em Brasília que deu a liminar andou mal. O Egrégio Tribunal de Justiça do DF revogou a medida. O desembargador que cassou a liminar explicou que “não há como consentir que um órgão estatal defina o que a imprensa irá publicar”. Disse ainda que “as relações de imprensa prevalecem sobre as relações de vida privada”.
Para o sábio Dr. Chaguinhas, ao analisar o imbróglio e sempre contra qualquer tipo de censura foi curto e grosso: 
– Quem está na chuva é para se molhar.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Entre a verdade e a dúvida



A verdade me repugna. Todas as verdades, inclusive as dos livros sagrados e as das ciências. Eu cultivo e cultuo a dúvida. Só a dúvida me interessa.

(João Sebastião)


domingo, 26 de fevereiro de 2017

Manaus, amor e memória CCCV


Bonde 20, na esquina da Eduardo Ribeiro com a 7 de Setembro.

sábado, 25 de fevereiro de 2017

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

cenas da vida banal 7



Zemaria Pinto

garçom, traga-me uma navalha

e um chope espumando nuvens


quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

O aborto e o sagrado



João Bosco Botelho

É difícil entender como tanto o Antigo quanto o Novo Testamento, mesmo contendo inúmeras referências específicas sobre a organização familiar, não citam uma só vez a prática abortiva. É como se o fato, que incontestavelmente deveria ocorrer em muitas mulheres, não tivesse qualquer importância para a coesão do grupo.  Na Bíblia não há referência ao aborto.
A mais antiga e clara referência cristã antiabortiva está no Didaqué, manual ético‑moral, escrito nos anos 100 da nossa Era: “Não matarás criança por aborto, nem criança já nascida”. O filósofo cristão Tertuliano (190‑197) também adotou a posição antiabortiva absoluta: “É homicídio antecipar ou impedir alguém de nascer. Pouco importa que se arranque a alma já nascida, ou que se faça desaparecer aquela que está ainda por nascer. É já um homem aquele que virá”.  
São Jerônimo (331‑420), um dos quatro grandes doutores da Igreja, na correspondência endereçada a Algásia, argumentou: “os sêmens se formam gradualmente no útero e não se pode falar de homicídio antes que os elementos esparsos recebam a sua aparência e seus membros”. Contudo, em outra carta, o monge de Belém considerou as mulheres que escondiam a infidelidade conjugal com o aborto como culpadas de triplo crime: adultério, suicídio, assassinato dos filhos.
De forma semelhante, Santo Agostinho (354‑430) manteve a separação etária dos fetos: “Pois uma vez que o grande problema da alma não pode ser decidido apressadamente com julgamentos rápidos e não fundamentados, a Lei não prevê que o ato seja considerado como homicídio, uma vez que não se pode falar de alma viva num corpo privado de sensações, numa carne não formada e, portanto, ainda não dotada de sentidos”.
Na Idade Média, a Igreja cristianizou algumas comemorações oriundas do politeísmo. A da Natividade do Senhor foi uma das primeiras, fixada no fim do século IV, iniciando os atributos sagrados às concepções, seguida da Natividade da Imaculada Conceição de Maria, celebrada no dia 8 de dezembro, e da Anunciação, ou festa da concepção de Cristo, respectivamente nos séculos VI e VII. Essas celebrações contribuíram para impor simbologia sagrada à gestação.
A dúvida sobre a data do início da anima­ção do feto, oriunda dos conceitos aristotélicos, atravessou os séculos. O magnífico Santo Tomás (1225‑1274) sustentou que não ocorria na concepção e que só o aborto de um feto animado era homicídio. A força da tradição e a moralidade do tomismo para a estrutura dogmática da Igreja influenciaram decisivamente no afrouxamento da proibição. O papa Gregório XIV, apoiado no argumento de muitos teólogos, revogou a Bula de Xisto V (1588) que punia civil e canonicamente todos os que praticassem o aborto em qualquer fase do feto.
O retorno da Igreja, verificado no século XIX, ao rigor do cristianismo do Didaqué tem dois componentes inseparáveis: um teológico e outro político. O primeiro, promovido pelo papa Pio XI, acabou com a distinção multissecular de feto animado e não animado. O segundo, relacionado com a industrialização crescente do ocidente e a imperativa necessidade de mão‑de‑obra, já que, historicamente, o aborto e suas consequências maléficas alcançam mais as mulheres oriundas dos estratos sociais mais pobres. No famoso discurso, dirigido às obstetras, em 1951, foi enfático ao atribuir vida intrauterina plena antes do nascimento e condenar o aborto enquanto morte do inocente.
O documento conciliar Gaudium et Spes, considerado progressista em muitos aspectos da ação social da Igreja, manteve a interdição incondicional: “A vida, uma vez concebida, deve ser tutelada com o máximo de cuidado e o aborto, como o infanticídio, são delitos abomináveis”.


quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

O milagre do call center


Pedro Lucas Lindoso


Para o meu amigo Dr. Chaguinhas, os famosos call centers são a praga do milênio! Chaguinhas, que acha que o Português é uma língua suficientemente rica para evitar estrangeirismos, começa por abominar o nome em Inglês. Disse-me que recebeu um bilhete da secretária onde se lia: ”ligar para o cousenter”.  Mas conforma-se porque as opções em vernáculo seriam central de atendimento ou centro de chamadas telefônicas. Por serem locuções muito grandes acabariam virando siglas. Depois, se até em Lisboa e em todo Portugal usam a expressão call center, melhor mesmo se conformar. Com a expressão, mas não com a praga que são essas centrais.
De fato, ao ligar para a maioria dos call centers uma gravação nos submete às opções diversas. Disque um para isso, dois para aquilo. Antes de ouvir todas as diversas opções vou logo apertando a tecla 9 que é sempre para “falar com um dos nossos atendentes”. Pode ser um atendente ou uma atendenta. Geralmente é uma atendenta.  Que não foi uma boa estudanta senão estaria em um emprego melhor e menos estressante.
Já fui acordado às 6:00 horas da manhã por um call center do sudeste. A moça não sabia que em Manaus, no horário de verão, há uma diferença de duas horas para menos. Não sabia nem o que era fuso horário! Mas isso foi assunto de outra crônica.
Pois bem, call centers podem ser motivo de estress, mas podem também fazer milagres. Disse isso ao Chaguinhas que logo me perguntou a que tipo de milagre eu me referia. Disse-lhe que precisei agendar horário para um exame de ultrassonografia. Estou enfrentando a maratona de exames periódicos anuais.
Nem precisava ter me preocupado em agendar. Era por ordem de chegada. Mas valeu a pena pelo milagre! Ao dizer meu nome perguntou se Lindoso era com “S” ou “Z”. Até aí tudo bem. Depois quis confirmar o endereço. Era o mesmo. Depois o telefone. Também permanecia o mesmo. O telefone é esse mesmo, o senhor confirma? Sim, disse-lhe calmamente.
Aí aconteceu o milagre. A moça me perguntou: a data de nascimento continua a mesma? Tomei um susto. Mas resolvi arriscar o milagre: disse-lhe que não. Agora a data de meu nascimento é 13 de maio de 2000. Ela me pediu que eu confirmasse a data. Não tive dúvida. 13 de maio de 2000. Eis o milagre do call center. Tornei-me um jovem de 17 anos! Não sou mais um coroa do século passado. Nasci neste século, neste novo milênio! Viva o milagre do call center! Viva!



domingo, 19 de fevereiro de 2017

Manaus, amor e memória CCCIV


Palácio Rio Negro, jardim à esquerda.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

cenas da vida banal 6


Zemaria Pinto


beija-flor, no ar suspenso,

suga a papoula amarela.

lembra o amante apressado

que na ânsia de ir embora

esquece do gozo dela.



quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Os deuses gregos e a serpente na medicina



João Bosco Botelho

É necessário tentar explicar porque o Centauro Quíron foi o preceptor de Asclépio, o grande deus curador grego, de Jason e Dionísio. É provável que tenha existido razão no pensamento mítico grego para justificar a ligação entre as qualidades necessárias para exercer a prática médica, encontradas em Asclépio, com a epopeia épica do Velo de Ouro, de Jason, e com o conhecimento dos mistérios da religião e da vegetação de Dionísio.
Apesar de tratarem-se de pontos aparentemente discrepantes e sem qualquer relação entre eles, é possível estabelecer o elo coerente a partir da compreensão de como era a prática médica naquela época. O entendimento fica mais fácil se aderirmos a medicina aos dois cortes epistemológicos: o pensamento celular, a micrologia (microscópio ótico), e o pensamento molecular, a ultramicroscopia (microscópio eletrônico). Dessa forma, sem esses conhecimentos, a ação médica atual ficaria desprovida dos principais suportes para identificar as doenças e os objetivos da prática ficariam intransponíveis.
Para o exercício da prática médica sem o apoio da micrologia (biopsia) e da genética torna-se necessário possuir a determinação de Jason em vencer incríveis obstáculos e o conhecimento da vegetação e da religião de Dionísio. Talvez tenham sido essas as bases complexas das relações do centauro Quíron, com Asclépio, Jason e Dionísio.
Para os gregos daquela época o deus Asclépio deificava a medicina na mitologia: era celebrado em grandes festas públicas, no dia 18 de outubro, data que o cristianismo estabeleceu como o dia do nascimento de Lucas, o Evangelista médico, e, até hoje, se comemora o dia do médico no Ocidente.
Asclépio conquistou uma fama inimaginável, tinha a delicadeza do tocador de harpa e a habilidade agressiva do cirurgião. Todos os doentes que não obtinham cura em outros lugares, procuravam os serviços médicos desse deus. Mais cirurgião do que médico, ele criou as tiras, as ligaduras e as tentas para drenar as feridas. Chegou a ressuscitar os mortos e, imediatamente, foi morto por Zeus, com os raios dos Ciclopes. Zeus matou Asclépio por temer que a ordem do mundo fosse transtornada.
Asclépio deixou duas filhas, Hígia e Panaceia; a primeira celebrada como a deusa da medicina, e a segunda curava todos os doentes com os segredos das plantas medicinais. Além delas, teve dois filhos, Macaão e Podalírio, médicos guerreiros, que se destacaram na guerra de Tróia.
Existem muitas comprovações arqueológicas das dádivas de agradecimentos dos doentes à Asclépio. No hospital de Epidauro, na ilha de Cós, na Grécia, foram encontradas várias esculturas com o nome do doente, a descrição da doença e da cura obtida. Esses objetos artísticos simbolizando Asclépio, datados entre os séculos 6 e 2 a.C., contém a serpente enrolada no bastão.
A relação entre a serpente e a medicina já estava presente na civilização babilônica, dez séculos antes da formação da polis grega. No Louvre, existe um vaso de cerâmica encontrado na região de Lagash, representando o deus da cura babilônico – Ningishzida – segurando um bastão com duas serpentes entrelaçadas.
É possível compreender a relação da medicina com a serpente sob dois aspectos míticos: pode viver em cima e embaixo da terra e tem a capacidade de mudar a pele, de tempos em tempos, encenando o renascimento. 
A última interpretação está relatada no Rig Veda (1.79,1), no qual os Adityas são descritos como os descendentes das serpentes e ao perderem a pele velha, eles venceram a morte e adquiriram a imortalidade.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

The wall – parede, muro ou muralha?


Pedro Lucas Lindoso

Quando se começa no Inglês, logo se aprende a frase “the book is on the table”. Mais adiante vem “the picture is on the wall”. E o aluno entende que “wall” significa parede. Mais adiante percebe que assim como “picture” significa pintura, quadro, pode também significar fotografia. E descobre que “wall” pode ser muro. Tem até uma rua famosa em Nova Iorque, a Wall Street.
Para o falante de Português, parede e muro parecem ser palavras bastante distintas. Mas sabemos que palavras homônimas são muito comuns em Inglês. Uma amiga poetisa diz gostar de pintar suas paredes de verde claro porque acha que é relaxante. A palavra parede nos remete mesmo às divisórias de uma casa. Coisa bem distinta de muro. Colocamos coisas nas paredes. Retratos, quadros, crucifixos, objetos de arte, relógios, quadro de avisos, pôsteres e tantas outras coisas que nos são gratas e nos dizem respeito. As paredes de uma casa podem refletir a personalidade de seus donos.
Já o muro nos lembra defesa, proteção. Aquilo que separa um lugar do outro. Sempre penso no Muro das Lamentações ou Muro Ocidental, em Jerusalém.
O Presidente Trump pretende construir um muro na fronteira entre os Estados Unidos e o México.  O secretário de Segurança Interna, John Kelly, espera que dentro de dois anos o muro, que deverá ser uma “barreira física”, esteja em curso.
Outro muro de triste memória é o Muro de Berlim. O atual prefeito, Michael Muller pediu ao Presidente Trump que não construa o muro. Lembrou-lhe do sofrimento causado na Alemanha e na Europa pelo Muro de Berlim.
O Papa Francisco fez um apelo para que se construam pontes e não muros.
A Grande Muralha da China começou a ser construída antes de Cristo.  O imperador Qin Shihuang a ergueu para proteger a região da invasão de nômades vindos do norte. Trump quer proteger os americanos de outros americanos. Estes vindos do sul. Em inglês chama-se The Great Wall of China. Aí se aprende que “wall” significa parede, muro e muralha. 
Penso que a do Mr. Trump está mais para muralha. A grande muralha de Trump. Bem, em Inglês existe a expressão “trump up” que significa inventar, tramar. Mr. Trump poderia inventar coisa melhor como legado aos EUA e ao mundo. Vai construir THE WALL, que não será uma parede, nem um muro, mas uma grande muralha. Muito triste.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Lex Moraes, plagiário e ladrão



Alexandre de Moraes, o Lex Luthor de Michel Temer, cometeu o mais execrável dos crimes: a usurpação do pensamento. Tivesse um mínimo de dignidade, em vez de ministro do Supremo, o intelectobandido faria o caminho de Santiago, a pé, de ida e volta, com direito a dois pães por jornada, bebendo água da chuva, durante os próximos 30 anos. Nem assim, a mancha que lhe cobre a alma desapareceria.  


João Sebastião – poeta nefelibata, filósofo de boteco, profeta do caos – tomado de mística ira contra o ministro ladrão.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

sábado, 11 de fevereiro de 2017

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

cenas da vida banal 5


Zemaria Pinto

cabeça baixa, caminho
na multidão em desordem.
o que procuro não sei
a quem busco desconheço.
recomeço a cada esquina
a soturna travessia
na contramão dos silêncios
desatinado, fugindo
do banal cotidiano
que me impõe o pôr-da-tarde:
voltar pra casa sozinho.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

AAL abre inscrições para Cadeira N° 2





A Academia Amazonense de Letras abriu inscrições para a Cadeira N° 2, de Euclides da Cunha, vaga com o falecimento do pintor e escritor Moacir Andrade. O edital foi publicado no Diário Oficial do Estado no dia 30 de janeiro, com prazo de 30 dias, contados a partir da publicação. Esse prazo termina em pleno Carnaval, motivo pelo qual os interessados devem ter como limite, por dúvida das vias, o dia 24 de fevereiro. A AAL localiza-se na Rua Ramos Ferreira, 1009, Centro, e a secretaria atende de segunda a sexta-feira, de 10 às 17h. Fone para contato: (92) 3342-5381; e-mail: academiadeletras.am@gmail.com

O aborto e o profano



João Bosco Botelho

A ausência de proibição do aborto como método anticoncepcional nos livros sagrados sugere que a prática não causava transtorno social. Igualmente, os legisladores do politeísmo no Oriente e no Ocidente não empunhavam restrições. Dois dos mais antigos textos laicos da ação médica, o Código de Hammurabi e as leis de Eshnunna não fazem referência ao assunto.
Houve certa indulgência em Aristóteles (Política, VII, 4), que aconselhava a interrupção da gravidez frente às necessidades médicas, desde que o embrião não tivesse recebido o sentimento e a vida.
Depois de quase dois mil anos de limitações impostas, ora no sagrado, ora no profano das relações sociais, a estimativa do número de abortos provocados por ano no mundo ultrapassou, em 1989, 40 milhões. Dez por cento desse total, 4 milhões, foram feitos no Brasil, causando a morte de trezentas mil mulheres.
A Organização Mundial de Saúde publicou que o Brasil já tem maior número de abortos do que de nascimentos. Os estudos da OMS e de outras entidades de direitos humanos, mostram que a mortalidade e a morbidade são atenuadas com a melhor assistência do Estado. Foi o que aconteceu nos Estados Unidos da América, a partir de 1973, quando a Suprema Corte legalizou o aborto, com severas restrições à realização em hospitais públicos, em menores de idade e em gestantes com mais de dois meses de gravidez.
A tendência pró aborto iniciada na Europa, nos anos setenta, é hoje mundial. Nos últimos quinze anos, pelo menos vinte países modificaram as suas leis.  Na Itália, o mais católico dos países da Europa, a legalização do aborto provocou muito conflito. Só depois de cinco anos de debates no Parlamento, em 1975, e com a ajuda da frente laica, reunindo os representantes de todos os partidos políticos, foi aprovada a mudança. O plebiscito, realizado no papado de João Paulo II, mostrou que 70 % dos italianos aprovavam a lei.
As proibições profanas e sagradas não modificaram, em quase dois mil anos, o comportamento das mulheres quando decididas a utilizar o aborto como método anticoncepcional. Do outro lado dessa questão social complexa, nas sociedades com problemas de superpopulação, como na China, ocorre o estímulo público ao aborto. 
A impressionante mortalidade e morbidade do aborto clandestino continuará estimulando mudanças nas leis, inclusive no Brasil.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Quedas em Paris



Pedro Lucas Lindoso

Está em cartaz um interessante musical, concorrente ao Oscar deste ano, La La Land. A bela Emma Stone, no papel de Mia, trabalha num café dentro dos estúdios da Warner e sonha em se tornar atriz. Numa das falas a personagem comenta que uma tia, passando uma temporada em Paris, caiu no Sena. Li recentemente uma crônica do Luís Fernando Veríssimo em que ele ressalta a coincidência de uma antiga crônica sua que parece ter sido inspirada na história do filme. Só que o texto de Luís Fernando Veríssimo é de 2009.
Na tal crônica de Veríssimo, “tia Belinha tinha ido sozinha a Paris e lá conhecera um conde francês, ligeiramente arruinado e ligeiramente maluco, com quem tivera um tórrido caso de Verão. Numa noite quente, dançando numa margem do Sena, depois de muitos copos de champanhe, os dois tinham tropeçado e...”
Achei a coincidência fantástica. Eu também tive uma tia que deu uma queda em Paris. Infelizmente não foi no rio Sena e também foi uma pena que não houvesse um conde francês. Mas triste ainda é que ela sonhou a vida toda em conhecer Paris. Já idosa, conseguiu finalmente realizar seu desejo de toda uma existência. Nem precisaria ter ido lá. Conhecia Paris como ninguém. Pelas fotos, livros, pela literatura, pelas canções de Edith Piaf. Podia descrever a torre Eiffel e o Arco do Triunfo como ninguém. Falava da Catedral de Notre Dame e da Basílica de Sacre Coeur como se tivesse assistido a centenas de missas por lá. Não conheci ninguém mais familiarizada com o Champs-Élyseés e os Jardins de Luxembourgo. Sabia de cabeça todas as salas do Louvre onde estavam localizadas as obras mais famosas. Sem contar o fato de que falava francês como uma verdadeira parisiense.
Pois bem. O destino dessa tia não poderia ter sido mais trágico. Estudou com professores franceses no início do século vinte, num conceituado internato em Belém. Depois estudou Química numa faculdade administrada por franceses, também no Pará. Como já disse, sua pronúncia era de uma verdadeira parisiense.
Era muito bonita, inteligente e preparada. Voltou para Manaus e se apaixonou por um político importante que governou o Estado do Amazonas por muitos anos. Nos anos cinquenta refugiou-se no Rio de Janeiro. Por um tempo lecionou francês na Aliança Francesa. Revisava os textos do namorado senador, que além de político era escritor e imortal.
Sua queda em Paris foi preocupante e mobilizou a família inteira. Uma amiga que fazia um curso por lá, localizou-a num hospital francês. Retornou ao Brasil debilitada, sem ter curtido Paris como merecia. Uma lástima.
Minha tia não caiu no rio Sena como a personagem de Veríssimo e a tia de Mia do filme La la land. Mas não deixou de ter um romântico toque parisiense. Titia teria caído em Montmartre. Bairro boêmio de Paris onde há charmosas ruas de paralelepípedos, causadores da queda.


segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Lábios que beijei 67


Zemaria Pinto
Janaína Janaína



Minha vida amorosa já entrava em declínio quando conheci a índia Janaína, plena de frescor, vivacidade e doçura. Janaína jamais me pediu nada e o pouco que lhe dei nada representava diante do que recebi. Éramos muito diferentes – ela, vegetariana, sensível, a delicadeza personificada, falando de arte e poesia; eu, que só aprendi a falar em dinheiro e tinha os sentidos ligados no imediato, emudecia e às vezes adormecia. Viajamos muito. Ela conhecia quadros, museus, lugares, tipos de vinhos, mesmo sem nunca ter estado ali antes – e falava muito sobre. Brigamos muito também: várias vezes nos separamos, quase sempre, por bobagem. Eu ia atrás dela, fazia promessas, e ela acabava voltando. Sabedora do meu passado de amores tortuosos, dizia-se agradecida por me manter fiel a ela. Mas isso não era verdade: de vez em quando, eu ia ao centro de massagem, só para não perder o hábito, além de um ou outro caso ocasional ou nem tanto. Eu não podia achar que aquilo fosse para sempre. Janaína era uma dádiva, que, eu sabia, mais cedo ou mais tarde, iria perder de vez. Apesar da gangorra, tínhamos uma vida plena de alegria. Tomávamos vinho e dançávamos músicas de um tempo em que a mãe dela ainda nem havia nascido. E nos amávamos gostoso. Com o tempo, Janaína, amadurecida e senhora de seu prazer, já não pedia sexo como no início. Quando acontecia, ela se iluminava. Se não acontecesse, ela continuava com seu sorriso largo e seu jeito brando e delicado de ser. Na véspera do meu aniversário de 60 anos, nos amamos como não acontecia havia anos – e ela disse que aquele era o seu presente. Já ia alta a madrugada quando adormeci. Pela manhã, um bilhete na mesinha da sala, a tinta borrada, o perfume dela ainda no ar – e mais nada.

domingo, 5 de fevereiro de 2017

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Fantasy Art - Galeria


The Soul of the Unicorn.
Josephine Wall.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

cenas da vida banal 4


Zemaria Pinto

(para o Engels Medeiros)

mais que a calva insinuante
mais que a barriga disforme
o que mais me mete medo
na voraz fome do tempo
vem sob a forma inocente
de um branco fio de cabelo 
florescendo entre os pentelhos


quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Práticas de curas


João Bosco Botelho


O processo que culminou com a Medicina como especialidade social, com avanços e recuos, tem proporcionado:
– Entender, dominar e modificar a multiplicidade dinâmica das formas e funções do corpo;
– Estabelecer os parâmetros do normal e da doença;
– Vencer as limitações impostas pelo determinismo da dor e da morte.
Esses saberes históricos facilitam o entendimento da função do médico como um dos especialistas sociais que trabalham para evitar a dor e empurrar os limites da morte, tanto no passado quanto na sociedade contemporânea.
Sob esse enfoque – a Medicina como especialidade social – não há como dissociar o presente do passado distante.
É possível que as comunidades ágrafas tivessem na busca da sobrevivência cotidiana e na observação das mudanças, em torno da natureza circundante e do corpo, grande parte da sua atenção. As relações entre vida-morte e saúde-doença deveriam estar entre elas, já que interferiam na segurança pessoal e coletiva. Esse conjunto pode ter provocado a especialização de alguns dos seus membros – curador ancestral – que se interessaram por controlar as situações de risco à segurança e a vida.
Nesta fase, quando o nosso ancestral começou a apreender e tentar modificar o processo natural dos binômios vida-morte e saúde-doença, estava iniciado o extraordinário processo humano com o objetivo de diminuir a abstração e aumentar a materialidade dos acontecimentos e ações que pudessem evitar a dor e empurrar os limites da vida.
Essas pessoas diferenciadas fizeram-se curadores. Foi nesse contexto, no qual alguém passou a cuidar do outro, ferido impossibilitado da locomoção ou da própria proteção, que os elos de confiança entre o curador e o doente iniciaram a arqueologia da Medicina como especialidade social.
Os mais antigos registros paleopatológicos indicativos da existência das práticas de curas na pré-histórica surgiram em comunidades ágrafas, alguns milhares de anos antes dos documentos escritos na Mesopotâmia.
Os indicativos evidenciam que o processo biológico de desenvolvimento e adaptação ao meio ambiente dos nossos ancestrais está voltado à fuga da dor. A documentação fóssil existente da primeira ação médica conhecida, no homem pré-histórico, data de 45.000 anos, no Pleistoceno Superior. Trata-se do esqueleto de um Neandertal, descoberto no monte Zagros, no Iraque, com traços de amputação intencional, no braço direito, com a marca indiscutível de o osso ter sido seccionado com a ajuda de objeto cortante.
Existem outras ações curadoras bem documentadas, como a encontrada no osso rádio de alguém que viveu em torno de 25.000 anos, com sinal de fratura traumática consolidada após ter sido colocada no lugar certo, dessa forma demonstrando que foi ajudado por outro membro do grupo social.
As práticas de curas têm acompanhado o homem na conquista planetária – para o bem e para o mal.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017