Amigos do Fingidor

Mostrando postagens com marcador Carlos Heitor Cony. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Carlos Heitor Cony. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

A poesia é necessária?



Estatutos do Homem
(Ato Institucional Permanente)

Thiago de Mello

A Carlos Heitor Cony


Artigo I.

Fica decretado que agora vale a verdade,
que agora vale a vida,
e que de mãos dadas,
trabalharemos todos pela vida verdadeira.


Artigo II.

Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.


Artigo III.

Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.


Artigo IV.

Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.


Parágrafo único:

O homem confiará no homem
como um menino confia em outro menino.


Artigo V.

Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.


Artigo VI.

Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.


Artigo VII.

Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.


Artigo VIII.

Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.


Artigo IX.

Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha sempre
o quente sabor da ternura.


Artigo X.

Fica permitido a qualquer pessoa,
qualquer hora da vida,
o uso do traje branco.


Artigo XI.

Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.


Artigo XII.

Decreta-se que nada será obrigado nem proibido.
Tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.


Parágrafo único:

Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.


Artigo XIII.

Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.


Artigo Final.

Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.

Santiago do Chile,
abril de 1964.



sábado, 6 de janeiro de 2018

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Thiago de Mello é candidato à Academia Brasileira de Letras


Thiago de Mello, 88 anos, é candidato à cadeira 32, ocupada até há pouco por Ariano Suassuna.

O poeta amazonense Thiago de Mello é candidato à cadeira 32 da Academia Brasileira de Letras, que tem como patrono o poeta e dramaturgo Araújo Porto-Alegre e cujo último ocupante foi Ariano Suassuna.

Thiago jamais pleiteou uma vaga na ABL, embora tenha sido instado por vários amigos que por lá passaram, desde o poeta Manuel Bandeira até o próprio Suassuna. Mas não resistiu ao apelo do amigo de mais de 60 anos Carlos Heitor Cony:

– Ó Thiago, eu não quero morrer sem ver você na Academia. Depois eu morro pra você sofrer um pouco.

Cony, que tem a mesma idade de Thiago, continua trabalhando e produzindo regularmente.




O principal adversário de Thiago de Mello é o colunista global Zuenir Ventura, 83 anos, autor de 1968: o ano que não terminou, além de cinco outros títulos. Já não bastava o Merval Pereira...

Aliás, no quesito bibliografia, o caboco suburucu dá um banho de cuia. Confiram.


Bibliografia de Thiago de Mello

POESIA

Silêncio e palavra. Rio de Janeiro: Hipocampo, 1951.
Narciso cego. Rio de Janeiro: José Olympio, 1952.
A lenda da rosa. Rio de Janeiro: José Olympio, 1955.
O andarilho e a manhã. José Olympio, 1960.
Tenebrosa acqua. José Olympio, 1960.
Toadas de cambaio. José Olympio, 1960.
Vento geral (1951-1960). Rio de Janeiro: José Olympio, 1960. (Prêmio Olavo Bilac da Academia Brasileira de Letras)
Faz escuro mas eu canto. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1965.
A canção do amor armado, 5 ed.. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1983.
Poesia comprometida com a minha e tua vida, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1975. 5 ed. Civilização Brasileira, 1983.
Os estatutos do homem, edição ilustrada por Aldemir Martins. Martins Fontes, São Paulo, 1977. 3 ed. 1980.
Horóscopo para os que estão vivos. São Paulo: Martins Fontes, 1980.
Mormaço na floresta. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2 ed. 1983.
Vento geral II- Poesia 1951/1981. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1984.
Num campo de margaridas. Rio de Janeiro: Philobiblion, 1986.
De uma vez por todas. Rio de Janeiro: Bertand Brasil, 1996. (Prêmio Jabuti de melhor Poesia)
Campo de milagres. Rio de Janeiro: Bertand Brasil, 1998. (Prêmio Jabuti de melhor Poesia)
Faz escuro, mas eu canto. Rio de Janeiro: Record e São Paulo: Altaya, 1999. (coleção Mestres da Literatura Brasileira e Portuguesa)
Poemas preferidos pelo autor e seus leitores. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000.
A floresta vê o homem. Men viem from the forest – Edição bilíngue. Organizado e Tradução de   Sérgio Bath. Manaus: Valer, 2006.
Melhores Poemas: Marcos Frederico Krüger Aleixo (Seleção e prefácio) São Paulo: Global, 2009.
Os Estatutos do Homem. Edição trilíngue .  Versão castelhana de Pablo Neruda. Versão inglesa Robert Marques e Trudy Pax. Vergara y Riba, São Paulo. 2012.
Como sou. São Paulo: Global. 2014

PROSA

Notícia da Visitação que fiz no Verão de 1953 ao rio Amazonas e seus Barrancos. Ministério da Educação, 1957.
A estrela da manhã. Ministério da Educação, 1958.
Arte e ciência de empinar papagaio. Manaus, 1982.
Manaus, amor e memória. Rio de Janeiro, Philobiblion, 1984.
Amazonas, a menina dos olhos do mundo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1992.
Amazonas, pátria da água. Water Heartland. Edição bilíngue. Fotografia de Luiz Claudio Marigo. São Paulo: Sver & Boccato, 1990 (Prêmio Osvaldo Orico da Academia Brasileira de Letras, em 1989)
O povo sabe o que diz. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 2. Ed. 1993.
Borges na luz de Borges. São Paulo: Pontes Editores, 1993.
Amazonas águas, pássaros, seres e milagres. Rio de Janeiro: Salamandra, 1998.
Os milagres da palavra. Florianópolis, Museu/ Arquivo da Poesia manuscrita, 1998.
Tradução: arte de recriar. Florianópolis, Museu/Arquivo da Poesia Manuscrita, 1999.
Mamirauá, Foto: Luiz Claudio Marigo. Tefé: Sociedade Civil Mamirauá, 2002.
ABC da floresta Amazônica. Com Pollyanna Furtado. Fortaleza: Conhecimento, 2008.
O desafio do exílio. In: Caderno do Refúgio. Brasil: ACNUR, 2007.

Neruda no coração da floresta. Memorial da América Latina: São Paulo, 2008.

Thiago confiou-me um delicado convite recebido da CEPAL - Comissão Econômica para América Latina e Caribe, autorizando sua divulgação. Todo salamaleque é pouco para o autor dos Estatutos do Homem.


Clique sobre a imagem, para ampliá-la.


Se o quesito qualidade da obra fosse o único determinante ele já estaria eleito. Infelizmente, academias têm lá seus achaques e tiques. Desde Richelieu. Nossa torcida para o poeta.

sábado, 23 de maio de 2009

“O Corvo” e seus leitores
Carlos Heitor Cony

Edgar Allan Poe (1809-1849).

Meados de 1997. Num almoço com o poeta e amigo Ivo Barroso, falávamos sobre traduções e nem me lembro mais como chegamos a “O Corvo”, de Edgar Allan Poe. Em minha vã ignorância, pensava que o poema só havia merecido duas versões em português, a de Machado de Assis e a de Fernando Pessoa.

Ivo falou de uma outra versão, a de Milton Amado. Começou a recitar a primeira estrofe, cuja história é tão popular, entre nós, quanto a abertura de Os Lusíadas. Eu não a conhecia. Tinha referências de uma terceira tradução, a de Gondin da Fonseca. Ignorava compacta­mente o texto que Ivo recitava.

Foi assim que também me entusiasmei. Sabia que o mineiro Milton Amado traduzira outras obras em parceria com Oscar Mendes. No dia seguinte, Ivo enviou-me a tradução integral, acompanhando o ensaio que havia escrito sobre o tema, dando-me na bandeja um bom assun­to para minha crônica diária na Folha de S. Paulo.

Por força da localização do meu texto na página de opinião daquele jornal, minhas crônicas são geralmente de natureza política. Evidente que uso e abuso da independência que é a marca da Folha. Sempre que posso, emigro do dia-a-dia de nossa vida pública e enveredo para temas variados, embora tenha certa relutância em abordar a seara literária – natural constrangimento de quem atua profissionalmente no jornalismo e na literatura.

Bem, seria mais uma crônica, das muitas que já escrevi. Daí que não me emocionei quando recebi o primeiro fax de um leitor pedindo a transcrição integral do texto de Milton Amado. Nos dias seguintes, começaram a chegar telegramas, cartas, faxes e telefonemas com o mesmo pedido. De todas as regiões do Brasil apareciam curtidores do poema, confraria numerosa espalhada em todo o território nacional. Liguei para o Ivo que me deu informação igual: também ele estava sendo solicitado a mostrar o mapa da mina.

Ficamos orgulhosos em saber que um tema literário despertava tanto e tamanho interesse. Uma semana depois, recebi uma espécie de reclamação do departamento ligado ao relacionamento da Folha com seus leitores. O volume de pedidos vindos de todas as partes do Brasil começava a tumultuar o serviço. Sugeriam-me que eu tomasse uma providência.

Fiz nova crônica, explicando o óbvio: meu espaço era pequeno para publicar a tradução de um poema razoavelmente longo. Além disso, havia a questão dos direitos autorais. Transmiti as indicações que me foram passadas pelo Ivo: a tradução de Milton integrava a coleção Poesia e prosa (Obras completas) de Edgar Allan Poe, da Glo­bo, de Porto Alegre, 1943. E, mais recentemente, a edição da Nova Aguilar reunindo a obra completa de Poe.

Posteriormente, num encontro casual com meu amigo Maurício Azedo, ele me agarrou pelo braço, levou-me a um canto e começou a recitar outra tradução de “O Corvo”, essa de Benedito Lopes. Nova­mente liguei para o Ivo e fiquei sabendo que ele estava dando o toque final em seu ensaio, no qual constaria o original de Poe acompanhado das cinco traduções citadas: Machado, Pessoa, Milton, Gondin, Bene­dito Lopes, e mais uma ainda, a de Alexei Bueno, feita em 1980.

Trata-se de excelente ocasião para o leitor brasileiro tomar conheci­mento não apenas do poema em si mas dos desafios da versão de um texto literário em outra língua. Além de pertencer ao primeiro time dos poetas nacionais, Ivo Barroso é, reconhecidamente, um dos nossos mais importantes mestres na arte da tradução. Seu nome - editores e leitores o sabem – é garantia de seriedade e bom gosto.

Essa é, em resumo, a história deste livro. Embora não se trate de um campeonato, é evidente que temos, Ivo e eu, opinião pessoal a respeito de cada uma das traduções. E aí a surpresa: apesar de o poema ter merecido a atenção de dois monstros sagrados de nossa literatura (Machado e Pessoa), o trabalho de Milton Amado, modesto redator provinciano em Minas Gerais, é disparadamente o melhor, tanto do ponto de vista técnico como da fidelidade interna ao poema.

Em tempo: os direitos autorais da presente edição, por deter­minação de Ivo e consenso dos herdeiros dos tradutores cuja obra ainda não caiu em domínio público, serão da família de Milton Amado. Afinal, foi ele quem deu pretexto e oportunidade para a publicação, em livro, do ensaio de Ivo Barroso.

De minha parte, comerei o prato frio da vingança podendo informar ao serviço de atendimento aos leitores de a Folha que o retorno dado à crônica sobre “O Corvo” foi um dos motivos deste livro. E que muitos novamente se emocionarão lendo em boa e criativa linguagem literária alguns dos mais belos versos produzidos pelo gênio humano.


(Apresentação do livro “O Corvo” e suas traduções, Lacerda Editores, 1998; organização: Ivo Barroso.)
Até o final deste ano, comemorando os 200 anos de nascimento de Poe, O Fingidor publicará outras versões de "O Corvo".