Amigos do Fingidor

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quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Vamos falar de literatura?

Um artesão de imagens e sua doce canção no chão do tempo 

 Márcia Antonelli

 

Chegou-me em mãos “Canções no chão do tempo” do professor, escritor e poeta Arcângelo Ferreira, também autor das obras “Na claridade do luar: História e Literatura do Clube da Madrugada”, Diálogos entre História & Literatura em Órfãos do Eldorado, de Milton Hatoum. “A Sombra e seus duplos” (contos) e “A Merda do Mundo” (contos), em coautoria com o escritor Thiago Roney (contos).

Atesto que este seu livro de poemas “Canções no chão do tempo” é um desfrute. Um deleite.  Um encanto. Um doce passeio pelas várias construções e linguagens poéticas. Tudo é uníssono e nos embala ao som de uma cítara invernada. É como se as palavras voltassem ao útero materno para enfim descansar da luta. E talvez de fato fosse este o propósito quando o poeta dedica sua obra à própria mãe.

Fui e vim no embalo das palavras tocando o chão do tempo. Imagem, som, cheiro, sabor, o espectro do tempo, os escombros da vida. Fui lendo. Fui gostando. Me envolvendo. Velejando à procura de mim, talvez. Li em três dias esta obra. Deixei-me mesmo embalar. Levar-me por ela. A poesia é toda aquela que se planta sem ambição no peito e se planta. E apaixona-se. “Só se vive eternamente/se se encontrar o esconderijo de Artémis.”



Impressionante o domínio e a leveza de Arcângelo no trato com as palavras. Como se desejam e se pertencem mutuamente. Tão poucas vezes senti paz e alegria e também ternura ao ler um livro de poemas como este, sem grandes ambições, apenas expressando verdades simples. Um trabalho original e valoroso, cheio de ritmos e imagens. Palavra e tempo. Um apelo minucioso com a técnica concretista e haicaísta.  Saúdo e celebro esta obra. Tanto quanto a recomendo.

Amostras poéticas:

 

Saudade

vou pelo mundo

na imaginação, grito

saudade de tudo...


o que pude viver.

o que ainda não posso?

o que iria/irei erguer...

 

vou pelo mundo

preso, neste confinamento,

vem saudade de tudo...

 

 

Acácias

 

manto de chuva

no silêncio das acácias –

instante de viver

 

Vaga Luz

 

Vaga o crepúsculo,

Lume, a noite que chega –

“ave minúscula”


 

quinta-feira, 5 de junho de 2025

A poesia é necessária?

 

Três haicais de primavera

Gracinete Felinto


 

Na estação das flores,

belas manhãs de setembro.

Borboletas dançam.



Nas paredes, flores

descem enfeitando o prédio,

início da estação.

 


No vaso, uma flor

dedicada à estação.

Lá fora, perfume.



quinta-feira, 13 de fevereiro de 2025

A poesia é necessária?

 

4 haicais

            Carlos Guedelha

 

pássaro cativo

nas grades de uma gaiola

não canta mas chora

 

lágrimas no canto

exprimindo dor de exílio

pássaro cativo

 

o céu taciturno

nuvens escondem o sol

o dia nublado

 

a paisagem turva

horizonte embaçado

prenúncio de chuva

 

quinta-feira, 22 de agosto de 2024

A poesia é necessária?

 

Kaleidoscópio (fragmentos)

Anísio Mello (1927-2010)

 

Balé de felino

entre as flores do verde:

traição à vista.

 

Foi buscar o sol

e com suas asas de cera

o sonho acabou.

 

No vaso quebrado

os retalhos de uma vida:

lembranças da China.

 

Num dia quentíssimo

com um balde d’agua na mão

apaguei o sol

 

Caindo do céu

como se fosse cristal

molha o chão: a chuva

 

Olho o céu escuro

uma estrela abandonada

faz o meu luar.

 

Relógio-de-sol

com medo da tempestade

atrasou o dia.

 

Brotando do asfalto

o trilho do bonde é visto:

praça da Saudade.

 

Saudade e lembrança

duas emoções que se unem

na velha cidade.

 

Madeira no campo.

Polpa, papel e palavra:

o livro está pronto.



 

quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

A poesia é necessária?

 

Haicais sujos

Hiram Lopes

 

Lago em Nhamundá;

o jacaré vê a bunda branca.

Era a lua cheia!

 

O carapanã vai à vila;

ouvira falar em aplausos.

Morreu no ré menor.

 

O morcego sempre vai à vila.

Suga os primos mamíferos.

Ele morde e abana.

 

A cobra cega foi à cidade.

Na rua olhou à esquerda e à direita.

Avançou. Ploft! Merda!

 

A osga, citadina, faz cléc! cléc!

Ao fone, o menino faz tik! tok!

Converge o colóquio.

 

A efêmera nasceu no lago;

por sina, logo morre.

Que decisões tomou?

 

quinta-feira, 21 de outubro de 2021

A poesia é necessária?

 

Nelson Castro

 


sol de primavera:

pássaros em bando

pousando na praça



quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Dabacuri – da arte de amar 7/7


Zemaria Pinto


longa travessia,
repousa o corpo em silêncio
– porto-calmaria

ondas cavalgadas
nos limites do infinito
– relâmpago sob o sol

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Dabacuri – da arte de amar 6/7


Zemaria Pinto


contas amendoadas
veludo lilás na pele
– faróis de naufrágios

vale natural
universo em movimento
– essências e mel

colinas que se erguem
num poema de Neruda
– rochedos de sonho

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Dabacuri – da arte de amar 5/7



Zemaria Pinto


chuva na vidraça,
nossos corpos aquecidos
em abraçosbeijos

teus lábios roçando
minha barba por fazer
– aragem noturna

invento lembranças
de tormentas e mães-d´água
– a brisa traz um beijo


quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Dabacuri – da arte de amar 4/7


Zemaria Pinto


caminhos cumpridos,
repousam sobre meu peito
teus pés minerais

chá de capim-santo
descansa em breve infusão
– promessas de sonhos

lua na janela –
teu corpo banhado em luz

pousa entre os lençóis


quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Dabacuri – da arte de amar 3/7


Zemaria Pinto



colho de meus olhos
girassóis incendiados
e tos ofereço

nas sombras da tarde
o velho casal passeia
– comunhão de sonhos

murucututu
pousada em nosso telhado
– tristeza ou felicidade?

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Dabacuri – da arte de amar 2/7



Zemaria Pinto

sangrando, o morango
desfaz-se em cor e volúpia
submisso ao marfim


úmidas de orvalho
na floração matinal
– pétalas de rosa


pássaros pousados
sobre o limo do caminho
buscando o verão

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Dabacuri - da arte de amar 1/7



Zemaria Pinto

à noite passada
sonhei com Miss Primavera
– ah, a solidão...


reflexo do sol
no vermelho das espigas
– tempo de colher


florais do desejo
inauguram a manhã
na febre do beijo

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Dabacuri – urbana 3/3



Zemaria Pinto

relógios na mente –
o executivo passeia
sua pressa infinita

riscos incertos –
voando em torno da lâmpada
insetos noturnos

festa de luzes
na praia da Ponta Negra
– lua de verão


lendo à luz de velas,
dou a mão a Zaratustra
– senda luminosa

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Dabacuri – urbana 2/3



Zemaria Pinto
Dia do Trabalho –
a cabeleireira sorri
da fila de espera

restaurante lotado,
garçons em ziguezague
– Dia do Trabalho

almoço findo,
trabalhadores descansam
à sombra da mangueira

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Dabacuri – urbana 1/3



Zemaria Pinto

flores refletidas
no azulejo do pátio
– quadro de Monet

da alta estante
a corujinha de gesso
observa os homens

caixinha de jóias –
o moleque, no sinal,
vendendo morangos

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Dabacuri – memória 5/5



Zemaria Pinto 

crianças em conflito
no salão em festa
– peidos-de-velha

chuva de prata:
estrelas ao rés do chão
– alumbramento!

artes do delírio:
os espectros dos bravos
passeiam silentes

cavalos noturnos
galopam noites de febre
– delírios senis