Amigos do Fingidor

terça-feira, 29 de junho de 2021

E eu sou João

 Pedro Lucas Lindoso

 

O Jornal do Comércio diariamente resgata parte de suas edições impressas do passado. Nesta semana foi reproduzida a edição de 22 de junho de 1963.

O jornal informava que naquele dia, 24 jovens disputavam, no Rio de Janeiro, o título de Miss Brasil 1963. O concurso era no Maracanãzinho e cada estado brasileiro torcia por sua miss.

 Elizabeth Taylor se casaria com Richard Burton. Hoje em dia se sabe que o famoso casal se casaria novamente diversas vezes.  Para poder casar-se com a bela Liz Taylor, Burton acordou em pagar a bagatela de um milhão e quatrocentos e oitenta e nove mil dólares para sua ex-mulher Sybil, dizia o JC.  

Outra notícia interessante era a informação da Delegacia Regional do Trabalho de que dia 24 de junho seria feriado municipal. Portanto, nos termos da Lei 605, de 1949 (infelizmente revogada há muitos anos), não funcionariam as atividades privadas. A delegacia do trabalho, que hoje se chama superintendência, ressalvava que os estabelecimentos que exploram o comércio varejista, de gêneros alimentícios, a distribuição de refrigerantes e os salões de barbeiros podiam funcionar. Somente até as 12 horas desse dia. Dia de feriado de São João.

Quanta saudade da Manaus da minha infância. Festas juninas com as meninas fazendo adivinhações. As enormes fogueiras, as quadrilhas e o boi-bumbá. E não podia faltar o delicioso tacacá, bolo podre, mugunzá, banana frita.

Mas voltando ao jornal daquele sábado, 22 de junho. A principal manchete era: MONTINI É O NOVO PONTÍFICE. O Cardeal Giovanni Montini se tornava o Papa Paulo VI, sucessor de João XXIII.

A morte de João XXIII havia consternado o mundo. Principalmente aos católicos mais progressistas. João XXIII foi o papa do “aggiornamento”. Aquele que deu uma lufada de ar fresco em várias práticas católicas bolorentas e medievais. Acabou com a obrigatoriedade da missa em latim e permitiu que padres fossem às ruas sem batina.

Como o atual Papa Francisco, João XXIII irradiava simpatia. Promoveu o Concílio Vaticano II, renovando e transformado a Igreja Católica para novos tempos.

João XXIII era um homem de diálogo. Ficou conhecido como o Papa Bom. Convocava líderes de outras denominações cristãs para conversar, para trocar ideias. Um grande conciliador. E por isso, grande adepto do Ecumenismo. João XXIII recebendo um desses líderes, o mesmo se apresentou: “Papa, eu sou batista”. No que ele respondeu:

– E eu sou João!

 

domingo, 27 de junho de 2021

quinta-feira, 24 de junho de 2021

Memória, metalinguagem e intertextualidade em "Música para surdos"


Assista no YouTube, clicando na imagem.
Palestra-recital começa no 27º minuto.

quarta-feira, 23 de junho de 2021

Leituras compartilhadas de "A cidade perdida dos meninos-peixes"

 


A cidade perdida dos meninos-peixes, de Zemaria Pinto.

 

Estudo crítico de Dílson Lages Monteiro, com leituras de encantamento de Carol Figueiredo, Diego Mendes Sousa e Jairo Nunes Leocádio.

 

Dia 26 de junho de 2021, às 16h (BSB), via Zoom. Após, ficará disponível no YouTube. 

 

Realização de Portal Entretextos.


terça-feira, 22 de junho de 2021

Coincidências não existem

 Pedro Lucas Lindoso

 

Pernambuco e o Brasil estão de luto. Faleceu em Brasília, no dia 12 de junho último, o Senador Marco Maciel. Residia na SQS 111, Bloco D. Esse imóvel pertencia à nossa família. Com o falecimento de minha mãe, Amine Daou Lindoso, o apartamento foi vendido, por coincidência, à família Maciel. Dona Ana Maria Maciel, esposa do saudoso senador, amiga de minha mãe. Ambas amazonenses. Outra coincidência. Marco Maciel era dileto amigo de meu pai, José Lindoso. Mas isso não foi coincidência.

Quem melhor se expressou nas redes sociais, para homenagear Marco Maciel, foi a brilhante economista Heloiza Camargos Moreira. Vejam: 

“Não o conheci pessoalmente,  mas sempre tive um enorme respeito pelo ministro, deputado, senador, vice-presidente Marco Maciel. Político com P maiúsculo. Pautou sua vida pelo espírito público. Foi um vice-presidente exemplar, como aqueles que todo Presidente da República pediu a Deus. Austero, discreto, conciliador, respeitou como poucos a liturgia dos cargos que ocupou”. 

Por coincidência, Heloiza é amiga de nossa família há anos. 

Fernando Henrique Cardoso disse que deixava a presidência nas mãos de Marco Maciel sem se preocupar com nada. E resumiu o caráter de seu vice em uma palavra: lealdade.

Marco Antônio de Oliveira Maciel, assim como seu amigo José Lindoso, foi deputado federal e senador. Ambos governaram seus respectivos estados no mesmo período. Apenas uma coincidência.   Ambos iniciaram na política no histórico PSD – Partido Social Democrático, cujo maior prócer foi o grande presidente Juscelino Kubistchek. Outra coincidência.

Marco Maciel era membro da ABL,
desde 2004.

Os homens da família Maciel são dotados de prestigiosa inteligência. Dr. Paulo Maciel, que coincidentemente morou no mesmo bloco D da SQS 111, quando deputado federal, foi amigo de meu sogro, Professor Araújo. Ambos já falecidos, mas reconhecidos em Recife e na Universidade Federal de Pernambuco por seus altíssimos conhecimentos em Matemática. Outra coincidência.

Em jantar em nossa casa, foi servido como sobremesa, doce de cupuaçu. O Senador Marco Maciel, embora casado com amazonense, não gostava de cupuaçu.  Minha esposa Vera, também pernambucana, coincidentemente, não gosta de cupuaçu.

O Senador Marco Maciel era católico. Frequentava a Igreja de Santo Antônio, na 911 Sul, quando estava em Brasília. Dia 13 de junho é dia de Santo Antônio. É tradição se comemorar os santos de junho na véspera do seu dia. Marco Maciel faleceu dia 12 de junho, véspera de Santo Antônio.

Isso não foi coincidência, porque na minha opinião coincidências não existem. 

 

domingo, 20 de junho de 2021

Manaus, amor e memória DXX

 

Bonde de Flores, em 1901.



sexta-feira, 18 de junho de 2021

A bomba

L. Ruas

 

A peste grassara na cidade. Era uma pequena cidade de mais de oito mil habitantes, no máximo.

Em primeiro lugar foram tomadas todas as medidas profiláticas. A cidade foi isolada e ninguém podia sair nem entrar a não ser os organismos oficiais encarregados do abastecimento e da assistência médico-hospitalar.

Sem qualquer outro informe mais preciso, cumpre dizer que a peste se caracterizava por uma inflamação cerebral, que provocava nos doentes uma série de alucinações, tendo como consequência final e orgânica um debilitamento que levava fatalmente à morte. O mais interessante é que nas primeiras semanas os vitimados não apresentavam qualquer anormalidade, daí o primeiro caso ter sido aceito por muitos como coisa verdadeira. Tratava-se de um cidadão que se dizia uma espécie de salvador da pátria, esta espécie, que, aliás, é muito difundida.

Devemos acrescentar, também, que todos os habitantes daquela cidade estavam irremediavelmente condenados e, mais cedo ou mais tarde, todos contrairiam o vírus, embora, segundo os médicos, não se pudesse calcular quando isso poderia suceder. O contágio em muitos casos se dava lentamente.

Diante desse estado de coisas as autoridades oficiais decidiram exterminar aquela cidade. Segundo os moralistas oficiais isto seria permitido em razão do bem comum, pois o vírus poderia ser transmitido a outras cidades vizinhas. E o mal terminaria invadindo toda a nação. Discussão pra lá, discussão pra cá, o Departamento de Defesa apresentou uma sugestão que foi por todos aceita. O Departamento se encontrava em fase de experiências com um novo tipo de bomba e segundo os técnicos faltaria um último teste, a saber, a respeito do raio de ação. O Departamento de Saúde por sua vez chegou à conclusão de que as irradiações provocadas pela explosão poderiam, talvez, purificar a atmosfera e assim debelar a peste para sempre.

E assim as circunvizinhanças da cidade foram escolhidas para servir de área de experiência do Departamento de Saúde.

O plano de experiência estava dividido em duas etapas. O primeiro consistia numa preparação psicológica do povo, para impedir qualquer movimento de pânico. E a segunda consistiria na execução técnica ou propriamente na explosão.

 

Imediatamente começou a realização da primeira etapa. Os dois jornais da cidade e a estação difusora iniciaram uma campanha de esclarecimento público. O povo não deveria dar atenção àqueles que desejavam espalhar o pânico. A situação era normal. Tudo estava em ordem e não se apresentava qualquer ameaça à segurança do povo. Tratava-se, apenas, de uma experiência científica que traria benefícios enormes à nação. O povo deveria, pelo bem da pátria suportar, com paciência patriótica alguns sacrifícios que seriam exigidos para o bom êxito da experiência. Não é necessário dizer que muitos não acreditaram na campanha psicológica, mas, a bem da verdade, é preciso dizer que a maioria dos habitantes a aceitaram com tranquilidade. Não mudaram seus hábitos. Todos continuaram a ir ao barbeiro, tomar sua cervejinha, bater um papo na esquina ou sentados em suas cadeiras de embalo, à noite, nas calçadas. Havia, também, os conformados. “Que adianta, diziam, que adianta perder cabeça se ninguém sabe o dia da explosão?”

E ninguém sabia mesmo. O dia da explosão foi guardado dentro do máximo segredo.

Mas a bomba explodiu, um dia. E da cidadezinha resta, apenas, esta notícia insignificante que trago, hoje, aos meus possíveis e reduzidos leitores.

 

(A Gazeta, 2 setembro 1963)

Pesquisa: Roberto Mendonça

  

quinta-feira, 17 de junho de 2021

A poesia é necessária?

         Apocalipse

L. Ruas (1931-2000)

 

Os meteoros ameaçam nossos jardins.

 

É hora de decolarmos

Para a infinitude do silêncio dilatado

Com nossas asas de sonho

Antes que a terra exploda

E se escancare como a fauce

De uma desmedida flor carnívora

Faminta de nossos corpos.

 

Não mais teremos tempo

De colher o fruto do nosso canto

 

Os meteoros ameaçam nossos campos.

 

Os mares cobrirão nossas faces;

Os vulcões ressecarão nossos ossos;

As mãos, os ventres, os sexos

Murcharão sob o fogo das estrelas

Que cairão sobre vales e colinas.

 

Os meteoros ameaçam nossos rios.

 

É tempo de partirmos para o espanto desmedido.

Do que fomos, fizemos ou cantamos,

Ficará, apenas, o invisível traço

Do voo da ave indivisível

Que se consumiu no espaço.

 

terça-feira, 15 de junho de 2021

Santo Antônio, intercedei a Deus por nós

 Pedro Lucas Lindoso


Estamos celebrando Santo Antônio. Minha avó materna, Brigitta Daou, era de Borba. Lá há um santuário em homenagem ao santo e uma grande festa. Neste ano, mais uma vez, prejudicada pela pandemia.

Aprendi com minha avó a ser amigo de Santo Antônio. Vó Brigitta morava numa enorme chácara na vila Municipal. Lá havia um quintal bem grande. Cheio de árvores frutíferas. E à noite, quando não havia luar, ficava bastante escuro.

Histórias contadas por gente vinda do interior davam conta de um tal Bicho Folharal. E se esse ser abjeto estivesse escondido lá pelo fundo do quintal?

– Vó, estou com medo. E vinha sempre a resposta consoladora.

– Reza para Santo Antônio. É só ficar amigo dele. Protege contra todos os males, erros e até do Capiroto.

E então fiquei amigo, desde menino, de Santo Antônio. O santo nascido em Lisboa, mas que é também de Pádua, onde morou e de Borba, onde é tão querido e celebrado. Na verdade, é muito popular tanto no Brasil quanto em Portugal.

Dizem que a festa de Santo Antônio de Borba só não é melhor e mais concorrida que a de Lisboa.

Aqui em Manaus havia um português que apesar de ser comerciante bem sucedido, dizia sempre ser “um pobre diabo”. Ao ser cumprimentado pelas pessoas, invariavelmente, respondia:

– Estou indo bem. Como “um pobre diabo”. Acabou sendo conhecido com a alcunha de “pobre diabo”. E pasmem! Era um fervoroso devoto de Santo Antônio.

O seu “pobre diabo”, com o intuito de pagar uma promessa ao famoso e querido santo, resolveu construir uma capela em sua devoção. A capela fica obviamente na Rua Borba! No bairro da Cachoeirinha, aqui em Manaus. E a igrejinha ficou conhecida como igreja do pobre diabo. Há uma jaculatória que diz: se milagres procuras, pede-os a Santo Antônio. Dele fogem desventuras, erros males e o demônio! É irônico.

Bons tempos em que eu tinha medo só do bicho folharal. Hoje tenho medo de ataques cibernéticos, ataques de facções do crime, e principalmente desse vírus horrível que persiste em levar pessoas amigas e queridas.

Santo Antônio, intercedei a Deus por nós!


domingo, 13 de junho de 2021

sexta-feira, 11 de junho de 2021

Márcia Antonelli relança "O desentupidor de fossas"


Na Feira de Artesanato da Eduardo Ribeiro. 

 

quinta-feira, 10 de junho de 2021

A poesia é necessária?

        Olorum Ekê

Solano Trindade (1908-1974)

 

Olorum Ekê

Olorum Ekê

Eu sou poeta do povo

Olorum Ekê

 

A minha bandeira

É de cor de sangue

Olorum Ekê

Olorum Ekê

Da cor da revolução

Olorum Ekê

 

Meus avós foram escravos

Olorum Ekê

Olorum Ekê

Eu ainda escravo sou

Olorum Ekê

Olorum Ekê

Os meus filhos não serão

Olorum Ekê

Olorum Ekê


terça-feira, 8 de junho de 2021

Absoluta prioridade

                                                          Pedro Lucas Lindoso

 

Com referência à proteção e aos direitos das crianças, poucas constituições no mundo têm um artigo tão amplo, tão incisivo e tão marcante quanto a nossa. Vejamos:

 

“Art. 227. É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.”

 

Recentemente um vereador carioca violentou, foi cruel, torturou e matou o filho da namorada. Um menininho indefeso chamado Henry.

Meu amigo Chaguinhas é síndico num prédio com ampla área de lazer. O zelador pediu permissão para trazer os filhos de seis e oito anos para conhecer a piscina do prédio. As crianças só conheciam banho de rio e de igarapé. Era um sábado pela manhã. O zelador terminaria sua jornada ao meio dia. Só havia as duas crianças na piscina infantil. Uma moradora achou que aquilo seria uma ousadia e gritou com os meninos:

– Saiam já daí!

Os garotos assustados, tremiam, e não era de frio, agarrados às calças do pai. Chaguinhas viu aquilo e tentou amenizar. Disse que o rapaz havia pedido autorização e que, nos termos da nossa Constituição, toda criança tinha direito ao lazer. Além de ficar a salvo de qualquer discriminação. 

A moradora, meio sem graça, disse que o assunto deveria ser pauta de reunião de condomínio. Interrompeu seu banho de sol e subiu ao apartamento.

Durante essa terrível pandemia, com as escolas fechadas, muitas crianças brasileiras ficaram sem acesso às aulas virtuais. Simplesmente porque não há internet, computador ou tablet disponível para milhares de crianças e adolescentes Brasil afora.

A imprensa denuncia constantemente que milhares de crianças e adolescentes são vítimas de crueldade, abuso e violência sexual dentro de suas próprias casas, por vizinhos e até mesmo por parentes próximos.

Não foi à toa que os constituintes de 1988, quando foi promulgada a nossa Carta Magna, decidiram assegurar expressa e constitucionalmente os direitos dos brasileirinhos. E com absoluta prioridade!

 

domingo, 6 de junho de 2021

Manaus, amor e memória DXVIII

 

Prédio da Alfândega, 1922.
Quer dizer, esse fenômeno anual tem a mesma idade
de Manaus. Resolvê-lo para quê, se é fonte de renda...


sábado, 5 de junho de 2021

Manhã de autógrafos do Alienista está de volta!


Todos os domingos de junho, na Feira de Artesanato da Eduardo Ribeiro, 
a partir das 10h. 

 

sexta-feira, 4 de junho de 2021

Almir Diniz, pintor da natureza amazônica


Zemaria Pinto

 

Aos 89 anos e após 16 livros de poesia em apenas 16 anos, Almir Diniz continua a nos surpreender. Neste novo livro, O jardim da minha mãe, temos poemas que vão desde a adolescência, datados que são da década de 1940, até poemas da plena maturidade, como aqueles produzidos nos dois ou três últimos anos. A datação, aliás, nos permite acompanhar a trajetória de Almir Diniz – essencialmente lírica, tendo por substância o homem, a água e a terra amazônicos –, observando o seu modus operandi: poesia construída sobre imagens, plena de cores, fazendo justiça à exuberância natural de onde ela emana – a floresta amazônica.


Vitrais – aquáticos, terrenos, mágicos – são a metáfora perfeita para designar essa poesia que se consubstancia na paisagem amazônica, sem perder a literariedade, pois Almir Diniz é também um artífice da palavra, buscando sempre o encanto das organizações simétricas na construção das estrofes, onde a melodia flui nas assonâncias e aliterações, sempre amparadas por rimas, internas e externas, que fazem vibrar as notas de cada canção, em serenos metros decassílabos ou em vivas redondilhas, como neste Paisagem aquática, poema da maturidade, onde o fazer poético tangencia o banal cotidiano do caboclo em sinestesias raras:

 

Imaginei-me poeta

quando me vi remar sonhos

na igarité das ideias

singrando o líquido dorso

dos lagos de minha infância:

– o do Rei e o Marajá –

bordados de canarana

e lendas de cobra-grande

e ilhas de matupá

de bubuia contra o vento

nas asas do meu momento.

(...)

Imaginei-me um esteta,

pintor nativo, um aedo,

quando vinha a primavera,

ouvindo do passaredo

suaves canções nativas

de japiins, sabiás,

canários e curiós,

rouxinóis, uirapurus

saudando manhãs de luz,

a alma de sons vestida,

os olhos tecendo a vida.

 

A par do elemento sensual – a cabocla canoeira “quando rema faz afago” –, tão presente em outros livros de Almir Diniz, prevalece, neste, o elemento mítico, quando a sabedoria ancestral paira sobre qualquer conhecimento científico. Como um velho pajé, Diniz pontifica, pessoanamente: “É preciso ler no mito / o que ele tem de infinito”. Se o mito é “o nada que é tudo”, há de o ser!

O jardim da minha mãe, terra de delicadezas e ressonâncias míticas, é obra de poeta maduro, que conhece os caminhos e seus percalços, mas sabe como chegar ao destino, com segurança. Sonora e cromática, a poesia de Almir Diniz se assemelha ao movimento da piracema, quando os peixes nadam no sentido inverso da corrente, buscando a reprodução e a desova, como se não existissem a não ser para retornar. O brilho deles contra a luz do sol lembra efeitos arquitetônicos que se esvaem no ar, mas o poeta os percebe na fugacidade do instante:  

 

Os frisos da piracema

de tão belos se assemelham

a ondas de luz de um poema.

 

A poesia de Almir Diniz é assim: está sempre voltando a si mesma, como os peixes na piracema – para se multiplicar, até o infinito.

 

(Apresentação do livro O jardim da minha mãe, de Almir Diniz – Manaus: Reggo/AAL, 2018) 

quinta-feira, 3 de junho de 2021

A poesia é necessária?

 

O jardim da minha mãe

Almir Diniz (1929-2021)

 

Hoje, voltei ao jardim,

ao que restou do jardim

que fora teu santuário.

Olha: foram dolorosas

as recordações das rosas,

que as tinhas sempre formosas

em tão belo relicário.

 

Mãe: senti no coração

tanta dor, tal comoção

e tão imenso desgosto

que, cheio de pasmo e espanto,

refugiei-me num canto

pensando esconder o pranto

que escorria do meu rosto.

 

Nem um só cravo ou begônia,

um simples cróton – vergonha! –,

angélica, ou bem-me-quer,

nem uma simples verbena,

mesmo uma rosa pequena,

um lírio ou uma açucena,

nem uma dália sequer.

 

E os crisântemos doirados,

os bogaris perfumados,

girassol e margarida,

as papoilas, laranjinha,

os jasmins que tantos tinha,

nove-horas, a flor rainha...

morreram, por ti, querida.

 

A bela-da-noite, a zina,

cana-da-índia, a cravina,

igualmente – que maldade! –

Sabe, Lídia, eu tenho medo,

vou revelar-te um segredo:

cuidar dele? – sou um aedo,

só sei cuidar de saudade...

 

Refazer o teu jardim?

Não posso, Mãe, – ai de mim! –

Como iria, enfim, fazê-lo?

Sem teu olhar maternal

sem tuas mãos sem igual,

como fazer, afinal?

Não posso – falta o teu zelo.

 

Mas, sabe o que vou fazer?

Já que não posso esquecer

teu sonho que vive em mim?

Em volta do teu solar

vou refazer o pomar,

onde sempre ias orar

após saudar tem jardim.

 

E quando o tempo chegar

do cacau, caju, da ingá,

da graviola e mamão...

em vez de rosas, querida,

terás a mesa sortida

de tantas frutas, de vida:

ao centro teu coração!

 

Cambixe, AM, 11/6/2004.

 

terça-feira, 1 de junho de 2021

Roubaram a lua do céu


 Pedro Lucas Lindoso

 

Meu amigo Chaguinhas está parcialmente quarentenado num sítio, propriedade sua, na estrada que vai para Presidente Figueiredo. Quando está por lá troca o dia pela noite. Sempre na companhia de sua paciente e dedicada esposa. Ambos gostam de um bom vinho. E ouvir música clássica. Chaguinhas é aficionado em óperas. Descobriu várias na internet. Às vezes vara madrugadas tomando vinho e ouvindo óperas em sua propriedade rural.

A luz elétrica do local é restrita à casa. Chaguinhas vai sempre por lá quando é lua cheia. “O luar que clareia a mata e o igarapé é mágico”, diz ele.

Meu amigo foi informado de que no dia 25 de maio teria uma Superlua. E que na madrugada do dia 26 haveria um eclipse lunar combinado com outro fenômeno, chamado de Lua de Sangue.

Chaguinhas e eu eventualmente nos comunicamos por WhatsApp. Disse-lhe que meu próximo livrinho infantil será sobre um eclipse total da Lua, ocorrido num seringal. Se chamará Acorda Lua. O livrinho trata também da rotina dos seringueiros.

Chaguinhas comentou que os eclipses não têm graça nos centros urbanos. As luzes da cidade desvirtuam a luz da Lua e a claridade romântica do luar. Já no campo é diferente. Um eclipse total atordoa o pessoal do interior. Eu disse a ele que havia explorado esse tema no meu livrinho. Mas que não daria mais nenhum “spoiler”.

Pois bem, na noite do dia 25 recebo uma mensagem dele me dizendo que a lua estava cheia e linda, com boa visibilidade, apesar de algumas nuvens. Aguardaria o eclipse por volta de 4h45 da madrugada.

Disse-lhe que iria pôr o despertador e também contemplar o fenômeno da minha janela.  Por sorte dá para o oeste, onde a formosa lua estará.

Ele argumentou que não vai ser muito legal porque as luzes da cidade impactam o luar. E ainda pode ter nuvens. Mas me desejou sorte.

As quatro e meia da madrugada, sabendo que eu esperava o eclipse, me mandou a seguinte mensagem:

– A lua aqui está linda. Há poucas nuvens. Mas o luar está incrível. Está forte e grande. Está em periélio. Ponto no qual a distância entre a Lua e a Terra é menor.

Na última mensagem, provavelmente com a cabeça já cheia de vinho, Chaguinhas me relata:

– A Lua sumiu. Roubaram a Lua do céu!