Amigos do Fingidor

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sexta-feira, 3 de junho de 2022

Primeiro de abril

Zemaria Pinto


Primeiro de abril de 1964. O dia começou como todos os outros dias: às cinco horas, meu pai, tocou os lábios no meu rosto. Senti o roçar da barba por fazer e o hálito quente de café. Esse gesto clandestino era o máximo de carinho que ele se permitia. Mamãe já agitava na cozinha. Olhei pelas frestas, tudo escuro, voltei a dormir. Quer dizer, achava que estava acordado, mas quando senti a rede balançando e ouvi meu nome, tive certeza de que dormira. Isso também acontecia todo dia, e uma hora se passara. Às seis e meia, havia tomado café com leite, acompanhado de meio pão com manteiga – igual a todos os dias. Esperava Emília, vizinha da frente, dois anos mais velha, para irmos juntos. Às vésperas dos sete anos, eu não tinha autonomia para ir sozinho à escola, no mesmo bairro, mas a uns vinte minutos de caminhada.

Para alegria geral, a escola estava fechada. O filho da diretora, por trás do muro, falando em “revolução”, avisava que não haveria aula – e nem se deu o trabalho de abrir o portão. Os mais velhos começaram a dizer que era brincadeira de “primeiro de abril”. Palheta, um garoto meio indígena, meio negro, de uns dez anos, dotado de um talento extraordinário para o desenho, começou a fazer esboços do que seria a revolução, juntando um monte de moleques ao seu redor. O rapaz por trás do muro, um quase adolescente imbuído de súbita responsabilidade, dizia que não era “primeiro de abril” coisa nenhuma e que deveríamos retornar direto para casa. Que pena, um dia sem ver D. Ana, minha professora, que também era filha da diretora.

A manhã transcorreu sem nenhuma novidade, salvo algumas palavras ouvidas em fragmentos de conversas adultas: general, tropas, soldados, quartel, exército... À tarde, quando o vizinho da direita, que era policial militar, chegou em casa, o rádio foi colocado num volume estranhamente alto – mas não se ouviam músicas, apenas o noticiário. Eu não entendia porque aumentar o volume se não havia música tocando. E o vizinho passava de uma estação para outra. Perguntei à mamãe porque o vizinho estava ouvindo aquilo. Isso não é coisa de criança, vai brincar – foi o que ela respondeu e eu prontamente atendi.

Depois das cinco da tarde, já de banho tomado e roupa trocada, sentei-me no banco em frente de casa, para esperar papai. Era um ritual cotidiano. Eu o via dobrando a General Glicério – vindo da visita diária à vovó –, e pegando a nossa rua, Manicoré. Então, corria ao seu encontro e ele me entregava os jornais do dia – O Jornal, matutino, e Diário da Tarde, vespertino. Exceto pelo domingo, em que ele, fazendo o mesmo trajeto, chegava por volta do meio-dia, trazendo o Jornal do Comércio. Aqueles jornais foram minhas primeiras leituras e, por muito tempo, únicas.

Mas, naquela quarta-feira, eu vi descer a noite e meu pai não chegou. Não existia iluminação na rua e não era noite de lua. Mal se distinguiam os vultos, em contraste com as luzes domésticas de candeeiros e lamparinas a querosene, a maioria. Cada nova silhueta que eu divisava era uma esperança renovada. O rádio do vizinho baixara até o inaudível: havia crianças, bem mais novas que eu, e o pai delas estava em casa. Mamãe foi até meu posto diversas vezes. Passava das sete quando ordenou que eu entrasse. Precisa jantar, teu pai já vem, ela disse sem nenhuma convicção. Quando percebi que mamãe chorava, empurrei o prato de sopa de batata e fui para a janela, de onde se viam uns 30 metros de rua, na escuridão, salvo pelas eventuais lanternas de raros transeuntes. Papai não tinha lanterna.

Próximo às dez da noite – eu olhava o velho despertador a corda, a cada instante –, eu tive certeza de ver papai se aproximando. Tomado de inédita euforia, saí correndo ao seu encontro. Devo ter gritado ou feito muito barulho, porque mamãe saiu logo atrás. Mas, a alegria logo se tornou em tristeza: papai sentou-se à mesa de jantar, cabisbaixo, pediu água do pote e começou a explicar a camisa suja e rasgada, o olho esquerdo roxo e os arranhões nos braços e no peito. Na confusão, os jornais do dia se perderam.

Neste ponto, não sei se reproduzo o que ouvi naquela noite ou o que ouviria tantas vezes depois. Em síntese: militares tiraram o presidente da república de nome engraçado – Jango. Era esperado que o governador Plínio também fosse sacado, pois eram do mesmo partido. O centro da cidade fora ocupado – o mercado, onde meu pai trabalhava, o porto, a área onde funcionavam a prefeitura e as casas legislativas, até o palácio Rio Negro, sede do governo estadual. Os ônibus não puderam circular nessa área, indo somente até a Praça da Saudade. O comércio do Centro fora fechado. As pessoas que chegaram cedo para trabalhar não podiam voltar, classificadas como “suspeitas”, e as que ousaram questionar foram espancadas. Parece que o general comandante queria o governador, que estava fora da cidade, e, não conseguindo, resolveu castigar os trabalhadores, que ameaçaram com greve geral para o dia seguinte. Mas, não teve greve. E, por uma semana, não teve aula.

 

No ano seguinte, comemoraram o primeiro aniversário da “revolução” no dia 31 de março. Alguns, comemoram até hoje. Mas, a mim nunca enganaram: o golpe militar – que interrompeu o processo democrático por vinte e um anos e torturou e assassinou centenas de brasileiros – aconteceu mesmo, de fato, no dia da mentira. E eu fui testemunha.    

 

sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

O penico de Richelieu

Zemaria Pinto

 

Os três tomos escurecidos, com cerca de 40 centímetros de altura e 20 de largura, dominavam o centro da pequena estante, tomada por outros livros – amarelados, raquíticos, esfarrapados. Herdados de seu pai, aqueles três volumes, editados em Lisboa, mas impressos em Paris, eram sagrados para Armando: a biografia de Armand Jean du Plessis, primeiro-ministro de Luís XIII, duque de Richelieu e Fronsac, cardeal de Richelieu, a mente diabólica por trás do conceito de absolutismo, em que um ser humano, frágil e falível – e, invariavelmente, canalha –, detém poderes que só aos deuses é permitido acumular. Mas era exatamente essa ousadia, capaz de seduzir o rei da nação mais poderosa da época, que atraía pessoas simplórias como Armando e, antes, seu pai, o rábula Diogo Silva. O nome do menino, claro, não era mera coincidência.

Desde adolescente, Armando, um orador vibrante, mas de um palavreado vazio e desconexo, que não articulava um pensamento completo, tinha comportamentos esquisitos, como andar imitando o que seria conhecido, muito tempo depois, como o “passo do ganso”: a perna levantada, jogada para frente, e o braço correspondente, em movimento assimétrico, jogado para trás. Não demorou muito para que os moleques começassem a molestá-lo, atirando pedras e taxando-o de doido. Minto, o processo foi lento, pois Armando alternava lucidez e estranheza. Os anos foram passando e Armando ficou conhecido como o “doidinho” da cidade. Um deles, na verdade, pois outros havia, inclusive o famoso Andaluz.

A cidade, Vila Bela da Imperatriz, que já fora Vila Nova da Rainha, era pouco menos que um ponto nos mapas da nova Província, com algumas centenas de almas, dispersas em duas ou três ruas e dezenas de sítios, espalhados não só pela ilha, mas também na extensão rural que ia do Paraná do Ramos até o Nhamundá.

Armando começou a inspirar cuidados de doente mental perigoso quando recebeu uma encomenda da Corte: um penico esmaltado, ricamente trabalhado por um fino artesão francês. A curiosidade geral perguntava o que ele iria fazer com aquela obra. A resposta foi imediata: Armando passou a exibir o belo penico, para cima e para baixo. Com seu andar idiota, o braço esquerdo agora ficava em estado de permanente tensão, carregando, em riste, o rico vaso. Ele explicava no seu estranho linguajar: “próximo do coração, o penico guarda com meu peito uma relação metonímica.” Perguntado sobre o que o penico representava, Armando dizia, com os olhos marejados, que aquela joia pertencera ao Cardeal de Richelieu. Nele, a “inteligência suprema da humanidade” escarrou, urinou e, com um pouco de sorte, até “defecou fezes luzentes, inefáveis e indizíveis” no pequeno receptáculo cardinalício e ducal.

– Aberrações em forma humana, vocês deveriam ajoelhar-se diante deste pequeno milagre da “art de France”!

Foi quando Armando desandou a falar francês. De início, algumas palavras ou frases curtas. Em pouco tempo, já estava discursando em francês, o que não fazia diferença nenhuma já que ninguém o entendia em português. Armando atribuía sua “évolution” a “le pot de chambre miraculeux de Richelieu”.        

Conhecido na Vila e arredores como “Le Petit Richê” ou simplesmente “Richê” – num lugar que ganharia fama futura por apelidar até os apelidos –, Armando foi eleito vereador e só não chegou à presidência da Câmara, o que equivalia a ser o alcaide do lugar, porque um juiz de maus bofes, desses que vivem nas sombras, vindo de um paraná das redondezas, declarou-o relativamente incapaz. “Moi, relativement incapable?”, perguntava-se Richê, denunciando ao Baixo Amazonas e ao mundo a injustiça de que fora vítima. “Le peuple a perdu!”

Em não raros momentos, Armando declarava seu sonho de fundar uma Academia, “avoir l'académie française comme modèle”. Mas, naquele fim de mundo, como encontrar intelectuais a sua altura? “Ici, la médiocrité règne. Je suis seul.”

Passaram-se os anos, Armando foi definhando a olhos vistos. Abandonou o passo de ganso e passou a usar o penico como chapéu. Numa tarde de setembro, ele assistia ao pôr-do-sol – em tons de laranja e azul, dignos de Renoir – do alto de um barranco. Foi a última vez que o viram. Ninguém explica o que aconteceu, embora não faltem teorias: foi atraído e levado pela Mãe-d’água, foi abduzido por selenitas, metamorfoseou-se em cágado... A verdade, entretanto, é uma só: Armando Silva, conhecido como Le Petit Richê, sumiu, desapareceu, escafedeu-se, deixando como única prova de sua passagem por este mundo o penico de Richelieu, àquelas alturas já bastante deteriorado – pelo que ficou ao léu, e, sem que ninguém atinasse ao seu valor histórico-sentimental, foi anulado da memória da Vila.

Mas, Armando não foi de todo esquecido: há pesquisadores – na UFAM, na UEA e até na UFOPA – que defendem a tese de que as cores de dois famosos bois-bumbás da região o homenageiam, usando as cores de França. Como diria Richê, “le bleu et le rouge, unis par le blanc.”

 

PS1: esta história me foi contada por uma aluna, em janeiro de 1989, quando estive, por três semanas, em Parintins, dando aulas de Teoria Literária. Pelo lado materno, essa aluna descendia dos Tupinambás; pelo lado paterno, da família do patriarca Diogo Silva. Mas, o assunto em casa era tabu, pois acreditavam que a loucura é hereditária. Por isso não revelo seu nome – mas, guardo em mim a lembrança de uma lua cheia refletida em seus infinitos olhos negros.

PS2: quase vinte anos depois – não por acaso, em uma noite de lua cheia –, numa memorável sessão do Chá do Armando, o velho Sumaúma, que era parintinense e exímio contador de causos, narrou, com riqueza de detalhes, a mesmíssima história, ouvida por vários amigos presentes, alguns dos quais ainda vivos.

 

Aos dois – à moça Tupinambá e ao Armando Sumaúma de Menezes – 

ofereço, dedico e consagro.

 

sexta-feira, 18 de junho de 2021

A bomba

L. Ruas

 

A peste grassara na cidade. Era uma pequena cidade de mais de oito mil habitantes, no máximo.

Em primeiro lugar foram tomadas todas as medidas profiláticas. A cidade foi isolada e ninguém podia sair nem entrar a não ser os organismos oficiais encarregados do abastecimento e da assistência médico-hospitalar.

Sem qualquer outro informe mais preciso, cumpre dizer que a peste se caracterizava por uma inflamação cerebral, que provocava nos doentes uma série de alucinações, tendo como consequência final e orgânica um debilitamento que levava fatalmente à morte. O mais interessante é que nas primeiras semanas os vitimados não apresentavam qualquer anormalidade, daí o primeiro caso ter sido aceito por muitos como coisa verdadeira. Tratava-se de um cidadão que se dizia uma espécie de salvador da pátria, esta espécie, que, aliás, é muito difundida.

Devemos acrescentar, também, que todos os habitantes daquela cidade estavam irremediavelmente condenados e, mais cedo ou mais tarde, todos contrairiam o vírus, embora, segundo os médicos, não se pudesse calcular quando isso poderia suceder. O contágio em muitos casos se dava lentamente.

Diante desse estado de coisas as autoridades oficiais decidiram exterminar aquela cidade. Segundo os moralistas oficiais isto seria permitido em razão do bem comum, pois o vírus poderia ser transmitido a outras cidades vizinhas. E o mal terminaria invadindo toda a nação. Discussão pra lá, discussão pra cá, o Departamento de Defesa apresentou uma sugestão que foi por todos aceita. O Departamento se encontrava em fase de experiências com um novo tipo de bomba e segundo os técnicos faltaria um último teste, a saber, a respeito do raio de ação. O Departamento de Saúde por sua vez chegou à conclusão de que as irradiações provocadas pela explosão poderiam, talvez, purificar a atmosfera e assim debelar a peste para sempre.

E assim as circunvizinhanças da cidade foram escolhidas para servir de área de experiência do Departamento de Saúde.

O plano de experiência estava dividido em duas etapas. O primeiro consistia numa preparação psicológica do povo, para impedir qualquer movimento de pânico. E a segunda consistiria na execução técnica ou propriamente na explosão.

 

Imediatamente começou a realização da primeira etapa. Os dois jornais da cidade e a estação difusora iniciaram uma campanha de esclarecimento público. O povo não deveria dar atenção àqueles que desejavam espalhar o pânico. A situação era normal. Tudo estava em ordem e não se apresentava qualquer ameaça à segurança do povo. Tratava-se, apenas, de uma experiência científica que traria benefícios enormes à nação. O povo deveria, pelo bem da pátria suportar, com paciência patriótica alguns sacrifícios que seriam exigidos para o bom êxito da experiência. Não é necessário dizer que muitos não acreditaram na campanha psicológica, mas, a bem da verdade, é preciso dizer que a maioria dos habitantes a aceitaram com tranquilidade. Não mudaram seus hábitos. Todos continuaram a ir ao barbeiro, tomar sua cervejinha, bater um papo na esquina ou sentados em suas cadeiras de embalo, à noite, nas calçadas. Havia, também, os conformados. “Que adianta, diziam, que adianta perder cabeça se ninguém sabe o dia da explosão?”

E ninguém sabia mesmo. O dia da explosão foi guardado dentro do máximo segredo.

Mas a bomba explodiu, um dia. E da cidadezinha resta, apenas, esta notícia insignificante que trago, hoje, aos meus possíveis e reduzidos leitores.

 

(A Gazeta, 2 setembro 1963)

Pesquisa: Roberto Mendonça

  

segunda-feira, 10 de maio de 2021

sexta-feira, 19 de março de 2021

Bolero's Bar 30

Ronda 

Zemaria Pinto


Aqui é só uma estação da minha via sacra noturna. De bar em bar, de dancing em dancing, e o nível baixando... Já me conhecem. Riem de mim. A misericórdia me aconselha a desistir. É inútil. Parece que adivinhas meus passos. Covarde, foges. Quando não há mais ninguém nas ruas, os lugares já fecharam, volto para casa. E sonho – acordada, porque não consigo dormir. Mas é apenas sonho. A realidade será o dia em que te encontrar. Estarás com alguém? Bebendo, jogando, dançando? De uma coisa eu tenho certeza: a manchete escandalosa do matutino – CENA DE SANGUE NO BAR!!!

 

Ronda (1953), de Paulo Vanzolini (São Paulo, 1924-2013). Samba-canção.

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sexta-feira, 12 de março de 2021

Bolero's Bar 29

Vereda tropical 

Zemaria Pinto


Foi há muito tempo, nossas primeiras férias. Ela era pouco mais que uma adolescente. O hotel à beira-mar era um convite à contemplação: a brisa úmida queimava o sal em nossos lábios e sons de longes canções se mesclavam à suave música das ondas. Maré baixa, a extensão da praia era um jardim de caminhos entrelaçados – até hoje sinto o seu hálito quente e ouço suas palavras sem nexo, suas gargalhadas sem motivo. Mas tudo são lembranças, apenas. Já não há mais praia, não mais mar, não mais brisa, não mais canção. E não há nossos desejos explorando, cegos, aqueles caminhos tortuosos.     

 

Vereda tropical (1938), de Gonzalo Curiel (México, 1904-1958). Bolero.

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sábado, 6 de março de 2021

sexta-feira, 5 de março de 2021

Bolero's Bar 28

 Lama 

Zemaria Pinto


Liberdade. Essa é a palavra. Liberdade de fazer o que quero, quando quero e com quem. É verdade que nem sempre vou poder fazer onde quero, mas... É por isso que calúnia e fofoca não colam em mim. Ainda mais, de quem já comeu na minha mão. É ignorar, simplesmente. Minha avó tinha um ditado: quem com porcos anda chafurda com eles. Para uns, a lama é um estágio; para outros, permanência e destino. O melhor é fazer de conta que o paspalho morreu. Foi atropelado pela manduquinha, pronto! Morto não fala, não difama, não mente. A morte do opressor é a libertação do oprimido.      

 

Lama (1952), de Ailce Chaves (?) e Paulo Marques (?). Samba-canção.

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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

Bolero's Bar 27

Noche de ronda 

Zemaria Pinto


É mais uma história de amor que termina. Aliás, as histórias de amor não terminam: elas implodem. E nós implodimos juntos e nos despedaçamos, num antirritual demoníaco. Não, essa não sou eu falando d’Ela. Não chegamos ao estágio do ódio. No fundo, bem lá no fundo, eu espero que ela volte. Nos meus devaneios mais loucos, nas madrugadas da minha varanda, eu vejo a lua passando e sei que em algum lugar ela está olhando a lua e pensando em nossas madrugadas na varanda. Hoje, a lua contempla apenas o negrume da minha solidão, a sombra do desespero que dá esse sentido provisório à minha vida.  

 

Noche de Ronda (1937), Maria Teresa Lara (México, 1904-1984). Bolero.

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sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

Bolero's Bar 26

Fracasso 

Zemaria Pinto


Eu sei que só morreu o que esteve vivo. Do que houve entre nós restam apenas as cinzas frias. Eu a amei demais? Qual é a medida certa de amar? Eu a sufocava? Com a minha atenção, meu carinho ou minha presença? Ciúmes? Quem não teria ciúmes, no meu lugar? Aconteceu como um tumor, que vai crescendo sem controle. Em pouco tempo, eu já não era mais eu. Eu era ela. Eu era nós. Para se libertar dessa relação embrutecida, ela tomou o único caminho possível. E me deixou reduzido a mim mesmo, à ridícula história de um fracasso. Nem saudades eu sinto. Apenas a sensação crônica e dolorosa de um soco no estômago.   

 

Fracasso (1946), de Mário Lago (Rio de Janeiro, 1911-2002). Samba-canção.

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sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

Bolero's Bar 25

Siempre en mi corazón 

Zemaria Pinto


A distância, o tempo, a solidão não servem para medir a ausência. Eu sei que vocês vão rir, mas, acreditem, ele está presente o tempo todo, não sei se no meu coração ou na minha mente. Ou na minha vontade. No meu desejo que arde. Nas memórias doces e amargas, uma infinidade de véus que vão revelando lembranças apagadas. É como se ele tivesse ido para a guerra, para a linha de frente, para a certeza da morte. Mas eu devo esperá-lo. Enquanto ele estiver vivo, enquanto o inimigo não o fuzilar, eu devo esperá-lo.

 

Siempre en mi corazón (1941), de Ernesto Lecuona (Cuba, 1895-1963). Bolero.

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quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

Bolero's Bar 24

Alguém me disse 

Zemaria Pinto


É engraçado o quanto o sofrimento atrai amigos; não apenas os velhos amigos, mas novos, que aparecem como insetos depois da chuva. Pouco me importa! Pouco me importa que estejas com outro ou com outros. Se estás feliz, muito bem! Ótimo! A vida segue. O quer que eu diga agora parecerá mágoa. E é mágoa! Mentiste, me enganaste, me traíste! E acham que me consolam vindo me dizer que te viram, com quem te viram, onde te viram. Merda! É mais um trouxa que vai cair na tua lábia de juras de amor eterno, um novo começo, agora é sério etc. etc. etc. Não demora muito e o idiota vai estar aqui ou em outro bar, querendo morrer afogado em um copo. Centenas, milhares, milhões de copos, não aplacarão a dor de ser descartado.

 

Alguém me disse (1960), de Evaldo Gouveia (Iguatu-CE, 1928-2020) e Jair Amorim (Santa Leopoldina-ES, 1915-1993). Bolero.

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sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

Bolero's Bar 23

El reloj 

Zemaria Pinto


As horas passam como cavalos enlouquecidos, sob as sombras da noite. Eu conto cada segundo marcado, avançando ao encontro da manhã, quando ela irá embora, construir um novo futuro, um outro destino. Se eu pudesse parar o tempo, não o tempo dos relógios, mas o tempo das vidas, a manhã não chegaria jamais e a noite seria para sempre. Bobagem. O tempo é uma ilusão. O relógio é uma ilusão. Eu estou aqui, despedaçado, e ela está lá, dormindo sem remorsos. Mas o sol é concreto. Quando a manhã chegar, terei a solidão por companhia e essa indescritível dor me dilacerando a vontade.


El reloj (1957), de Roberto Cantoral (México, 1935-2010). Bolero.

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sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

Bolero's Bar 22

Castigo 

Zemaria Pinto


Aí um dia você explode. Joga todo o peso das costas pelos ares. E fica leve como o pó que flutua na réstia de luz. Porque, quando você se dá conta da bobagem que fez, você é apenas isso: poeira, sordidez, porcaria, lixo. E tudo começa com uma briguinha. Aliás, com um acúmulo de briguinhas. Na verdade, o fim começa quando você cansa do monturo de briguinhas acumuladas por anos. Voltar é um verbo que eu não conjugo. Orgulho e castigo. Parece título de romance antigo. Ah, se a gente já nascesse sabendo. Quanta lágrima seria evitada.   

 Castigo (1958), de Dolores Duran (Rio de Janeiro, 1930-1959). Samba-canção.

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sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

Bolero's Bar 21

Dos almas 

Zemaria Pinto


O que Deus uniu só o ser humano pode separar. Foi o que se deu conosco. O edifício de felicidade que construímos com tanto empenho e dedicação ruiu por terra, num repente, quando a sombra do ódio nos envolveu. Daquele ponto em diante, ficou impossível continuar: a desconfiança minou nossas almas, de um lado e de outro, como uma doença que, progressivamente, corroesse nossos corpos até secá-lo, aos ossos. Ela morreu para mim. Mas ficaram as boas lembranças, de antes da doença, em que a alegria não conhecia a inveja e o ciúme. Se nosso amor fora abençoado, por que, quando mais precisamos d’Ele, Deus nos abandonou?

 

Dos almas (1945), de Dom Fabián (Argentina, 1915-2001). Bolero.


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sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

Bolero's Bar 20

A volta do boêmio 

Zemaria Pinto


– Amigas e amigos leais, amores da minha vida plena de amor, o bar é um templo sagrado, apropriado a orações em sussurros, não a discursos. Mas preciso dizer da minha alegria em revê-los, abraçá-los, tocar para vocês, cantar com vocês. Não faz muito tempo, saí por aquela porta, crente que uma nova etapa da minha vida começava. E era verdade. Uma vida maravilhosa, com a mulher que escolhi para envelhecer, amorosa flor, mãe dos meus filhinhos. Agora, de volta, apenas reato o fio da etapa anterior, com esta que segue sendo a minha felicidade: os meus amigos e a minha família. Porque eu não posso separá-los: eu sou vocês e sou eles. Sem eles eu não sou nada e não sou nada sem vocês. Dó maior, maestro! 

 

A volta do boêmio (1957), de Adelino Moreira (Portugal, 1918-2002). Samba-canção.

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sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

Bolero's Bar 19

Historia de un amor 

Zemaria Pinto


Estar aqui, no meio de tanta gente alegre ou triste e me sentir sozinho como nunca estive, não existem palavras para expressar. É uma dor vazia. Uma sensação de queda. As mãos inúteis não seguram, sequer tocam. É um pesadelo em que me vejo correndo na escuridão, sem saber para onde vou nem do que fujo, e, de repente, a queda, o vazio, o nada... Dizem que a rotina corrompe o amor. Para nós, ao contrário, o amor era uma suave liturgia: desde o acordar até o adormecer, e todos os pequenos gestos, as mais corriqueiras ações, os atos mais banais, tudo era parte do sagrado ritual cotidiano, onde o bem e o mal se encontravam na mais perfeita harmonia. A luz que dela emanava e iluminava o nosso caminho apagou-se e me jogou nas trevas dessa existência sem sentido.

 

Historia de um amor (1955), de Carlos Eleta Almarán (Panamá, 1918-2013). Bolero.

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sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

Bolero's Bar 18

Nossos momentos 

Zemaria Pinto


A solidão é um vácuo, um instante antes do nada. A solidão é um vômito, uma golfada perene. A solidão é um vício, uma viagem sem volta. Para preenchê-la, restam-me as lembranças dos momentos tatuados na pele do tempo e das palavras fundidas em magma de pensamento enquanto estivemos juntos; palavras que escrevi na areia; areia que a onda lavou. A onda da tua inconstância, que volta sempre com muita força, mas se dilui em espumas, de volta à areia, até desaparecer, como as ilusões mais verdadeiras.

  

  Nossos momentos (1961), de Haroldo Barbosa (Rio de Janeiro, 1915-1979) e Luiz Reis (São Luís, 1926-1980). Samba-canção.

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sexta-feira, 27 de novembro de 2020

Bolero's Bar 17

Nuestro juramento

Zemaria Pinto


Tristeza não combina com a gente. É o uísque que te entristece. A dúvida é para os filósofos, não para os amantes. A angústia, idem. Nós nos amamos e somos felizes, mas se isso te faz sofrer, vamos fazer um trato. O cenário é o pior possível: se um de nós morre, o que o outro vai fazer, para sobreviver a esse amor? Tudo que te peço é que chores sobre o meu corpo o que puderes chorar, para que eu leve no ataúde as tuas lágrimas por companhia. Mas se eu ficar sozinha, te prometo escrever nossa história. Assim, todos ficarão sabendo do quanto nos amamos e o quanto é possível amar. As letras serão vermelhas sobre a página branca, simbolizando o meu sofrimento. Tinta-sangue, brotada do coração.

 

Nuestro juramento (1956), de Benito de Jesús (Porto Rico, 1912-2010). Bolero.

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