Amigos do Fingidor

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Antes o mundo não existia


Zemaria Pinto


Quando o mundo inda era nada
Yebá-Buró, não criada
do nada fez os trovões
e os rios e a luz foram feitos
mas o universo perfeito
a humanidade pedia
foi então que ela criou
Yebá-Gõãmu, o criador

Umukosurã-Panami, Umukosurã

Das entranhas da serpente
em canoa transformada
fez-se então a humana gente
e a terra foi povoada

Tukano, Tapuia, Desana
Baniwa, Maku, Siriana
entre si distribuíram
as riquezas do Trovão.

Umukosurã-Panami, Umukosurã

Quando o branco apareceu
tendo ao lado o missionário
cumpriu-se o ciclo esperado
inventou-se o tal pecado
e nunca mais houve paz
nos caminhos da canoa.

Com o lento passar do tempo
toda forma se transforma:
o um no todo se enforma
e o todo se enforma em um
–  o um do nada criado
ao todo um dia retorna
fundindo a fôrma com a forma
e o todo se torna um.

Umukosurã-Panami, Umukosurã


(Letra da canção-tema da peça do mesmo nome, baseada no livro de Luís e Firmiano Lana, encenada pela Cia Vitória Régia, ali pela segunda metade dos anos 90, musicada por Armando de Paula)

Ritos de curas e práticas médicas: pecado e tabu



João Bosco Botelho

Existem vários significantes do pecado associado à doença. Um dos mais interessantes é o pecado mágico, não ético, à violação do tabu.
De modo geral, o tabu previne contra algum de tipo de poder maléfico em pessoas, coisas e situações. Esse entendimento está claro na descrição do rito de cura relatado por Rasmussen, citado por Lévy-Bruhl, na aldeia dos esquimós Iglulik: “Nela participam, além de todos os habitantes da aldeia, o xamã, que desempenha o papel principal, e os espíritos familiares do doente. Perante as injunções do xamã, o doente enumera, uma após outra, todas as violações do tabu, leves ou graves, que cometeu. Quando tem a certeza de que nenhuma foi esquecida, a assistência retira-se, convencida de que a confissão das culpas e dos pecados quebrou a espinha da doença.” É importante entender que a confissão do doente esquimó não representa arrependimento; é, sim, a libertação que cura a doença, o mal.
A compreensão do pecado na antiguidade oferece aspectos interessantes. Entre muitas culturas-linguagens, especialmente nas religiões milenaristas, a libertação do pecado, da doença, sempre se relaciona à confissão seguida pelas rezas e penitências. Dependendo da linguagem-cultura, o curador retira o mal, exorciza o pecado, dirige as aspersões e usa imagens e outros artefatos protetores.
A maior parte das experiências empíricas acumuladas para afastar a dor fora de controle ou empurrar os limites da vida permaneceu guardada pelos especialistas da coisa sagrada. Esses fatores representaram ásperos obstáculos para reproduzir os saberes acumulados fora dos restritos grupos dos enclaustrados representantes das divindades, como assinala a tradição judaica:
1. O incrível poder do curador divino sobre a vida e a morte de tudo e de todos. Em Dt 32: 39 – E agora, vede bem: eu, sou eu, e fora de mim não há outro Deus! Sou eu que mato e faço viver. Sou eu que firo e torno a curar (e da minha mão ninguém se livra).
2. Os saberes empíricos como dádivas divinas. Em Sb 17: 20 – Ele me deu um conhecimento infalível dos seres para entender a estrutura do mundo, a atividade dos elementos, o começo, o meio e o fim dos tempos, a alteração dos solstícios, as mudanças de estações, os ciclos do ano, a posição dos astros, a natureza dos animais, a fúria das feras, o poder dos espíritos, os pensamentos dos homens, a variedade das plantas, as virtudes das raízes.
Em outro momento, esses poderes foram transmitidos aos médicos:
1. O médico como representante reconhecido e festejado da divindade. Em Eclo 38: 1-2 – Rende ao médico as honras que lhe são devidas, por causa de seus serviços, porque o Senhor o criou. Pois é do Altíssimo que vem a cura, como um presente que se recebe do rei. A ciência do médico o faz trazer a fronte erguida, ele é admirado pelos grandes.

Desafortunadamente, alguns médicos, desarticulados da construção histórica, para o infortúnio dos doentes, continuam acreditando nessa relação mítica.


quarta-feira, 29 de abril de 2015

terça-feira, 28 de abril de 2015

Alienígena Lira, pocket show




Alienígena Lira pocket show com Mauri Mrq e Zemaria Pinto

O CD-livro Lira da madrugada, lançado oficialmente no último dia 14 de março, Dia Nacional da Poesia, na Academia Amazonense de Letras, entra em uma nova fase de divulgação: a realização de pocket shows, bem informais, onde os autores, Mauri Mrq e Zemaria Pinto, apresentam-se de forma despojada, interagindo com o público – Mauri apresentando as canções e Zemaria comentando-as. Esses pocket shows poderão ser apresentados em universidades, escolas, teatros etc.
O lugar escolhido para a primeira apresentação foi o sebo O Alienígena, aquele que tem “um acervo do outro mundo”, comandado pelo multiartista Jorge Bandeira. “É um lugar emblemático, onde a tradição e a vanguarda convivem em harmonia, o que tem tudo a ver com o Clube da Madrugada, hoje absorvido pela tradição, mas que teve um papel revolucionário nas artes do Amazonas”, diz Zemaria Pinto.
Lira da madrugada é um objeto contendo três produtos: um CD, com 16 canções criadas a partir do trabalho de 15 poetas, todos eles ligados de alguma maneira ao Clube da Madrugada, entidade multicultural criada em 1954; o segundo produto é um livro com a história do projeto e a trajetória de Mauri Mrq, além das cifras das músicas que estão no CD; por fim, um segundo livro, contendo uma análise da formação histórica do Clube da Madrugada, mais a reprodução integral, pela primeira vez em livro, do “Manifesto Madrugada”, de 1955, e uma análise didática, mas sem firulas, dos poemas musicados. O projeto gráfico de Rômulo Nascimento junta os 3 produtos num só objeto.
A escolha dos poemas foi do próprio Mauri Mrq, para quem “cada poema já tem sua música própria, imaginada pelo poeta; cabe ao compositor descobri-la”. Thiago de Mello, que não participou da fundação do Clube, pois já se radicara no Rio de Janeiro, é o mais velho dos poetas enfocados. O mais jovem é Max Carphentier, da terceira geração do Clube, que começa a publicar na década de 1970. Entre eles estão os já falecidos Anísio Mello, Luiz Bacellar, Antísthenes Pinto, Farias de Carvalho, Alencar e Silva, L. Ruas, Alcides Werk e Ernesto Penafort. Dos remanescentes do Clube, além dos dois primeiros citados, estão Moacir Andrade, Almir Diniz, Jorge Tufic, Elson Farias e Astrid Cabral.
Na análise histórica da fundação do Clube da Madrugada, Zemaria Pinto toca num ponto polêmico: ele afirma que a motivação da fundação do Clube foi política e não estética. “O Clube da Madrugada foi criado para demonstrar a revolta dos jovens amazonenses contra o marasmo que dominava a política amazonense. Tanto que pessoas que não tinham nenhuma atividade artística tiveram papel fundamental na criação e no desenvolvimento do Clube”, diz Zemaria, citando economistas, como os professores Saul Benchimol, Francisco Batista e Teodoro Botinelly, o psicólogo João Bosco Araújo, o jornalista Fernando Collyer, entre outros. Com o tempo, artistas plásticos e escritores foram dominando o Clube, dando a impressão de que o Clube existia em função de suas atividades.
Essa polêmica fica mais fácil de ser compreendida com a leitura do “Manifesto Madrugada”, que fora publicado no único número da Revista Madrugada, em 1955, comemorando um ano da fundação do Clube, que assim começa: “No momento em que o Brasil sofre uma crise total em todas as suas forças intelectivas, morais, educacionais, econômicas e sociais, a mocidade consciente do Amazonas une-se para defender esta herança social inesgotável que herdamos de nossos antepassados”. E segue, analisando a situação de cinco segmentos do conhecimento humano: literatura, artes plásticas, sociologia, economia e filosofia – de um modo geral, concluindo, que esses segmentos eram muito pobres ou simplesmente não existiam no Amazonas.
Um outro ponto polêmico do trabalho de Zemaria Pinto é a afirmativa de que o Clube da Madrugada não é o Modernismo no Amazonas, como se acreditou durante muito tempo, e ainda hoje se repete. Para Zemaria, o Modernismo é uma referência ética, sim, mas não estética, uma vez que, esteticamente, os escritores do Clube ligavam-se à chamada Geração de 45, antagônica aos modernistas, da qual fazia parte, inclusive, o poeta Thiago de Mello. “Seria simplório, diz Zemaria, emular estilos de 30 anos antes, já ultrapassados. O Clube, ao contrário, estava em perfeita sintonia com o que se fazia em arte no Brasil”.
Feita a análise histórica, Zemaria Pinto esmiúça os belos poemas que Mauri Mrq escolheu musicar. E nesse ponto não cabem polêmicas – o professor limita-se a esclarecer ao leitor as metáforas e outras figuras de linguagem dos poemas, tornando-os de fácil leitura e agradável audição.
No último dia 22 de novembro, completaram-se 60 anos da fundação daquele que foi o movimento cultural mais importante da história de Manaus. Lira da madrugada vem reafirmar a importância do Clube da Madrugada, um marco fundador e um divisor de águas na cultura amazonense.

Os autores
Mauri Mrq – amazonense de Manaus, iniciou a carreira artística aos 19 anos, desenvolvendo ao longo do tempo pesquisa em torno da música instrumental brasileira, fazendo a direção musical de vários espetáculos de diversos  grupos de dança e teatro, entre eles o Dança Viva, Grupo Origem e Cia. Vitória Régia, fundando, posteriormente, o Núcleo de Teatro Jiquitaia, onde continuou a função de Direção Musical e Produção de espetáculos, dentre eles das peças A maldição de Acauã, de Darcy Figueiredo, As filhas da terra, de sua própria autoria, e a Derrota do mito,  de Tenório Telles, com Direção de Theo Correa. Nos últimos 18 anos, tem se dedicado a musicalizar e interpretar poemas de autores amazônicos.
Zemaria Pinto – aos 58 anos, mestre em Estudos Literários e especialista em Literatura Brasileira, Zemaria Pinto tem 18 livros publicados em gêneros diversos: poesia, literatura infantil e juvenil, teatro e ensaios. Tem uma dezena de livros inéditos, inclusive três de contos, gênero ao qual tem se dedicado nos últimos anos. É dramaturgo, com seis peças encenadas e outras tantas inéditas. Desde 2004, é membro da Academia Amazonense de Letras, onde atualmente ocupa a função de diretor de Eventos, promovendo, semanalmente, palestras e debates.

Serviço
. Pocket show Alienígena Lira, com Mauri Mrq e Zemaria Pinto;
. Local: O Alienígena – Rua Lima Bacury, 64, Centro
. Data/hora: dia 30 de abril, às 19h;
. Entrada franca;
. O CD-livro Lira da madrugada estará à venda no local por R$ 40,00 (nas livrarias, o livro está sendo vendido por R$ 50,00);

Peppa Pig, em Manaus



Pedro Lucas Lindoso

O mês de outubro é dedicado às crianças. Como pai, tio e futuro avô, resolvi investigar o motivo de tanto sucesso de Peppa Pig entre os curumins e cunhatãs manauaras. Peppa Pig esteve em Manaus. Caruso jamais cantou no Teatro Amazonas. Isso é lenda. Mas ninguém poderá negar que Peppa Pig se apresentou na nossa “Opera House”
 Qualquer um que tenha filhos ou parentes crianças já ouviu falar do desenho “Peppa Pig”. Peppa mora com seus pais e seu irmãozinho, George. Ela adora brincar de se fantasiar e passa o dia saltando entre as poças de lama ao redor de sua casa.
Conversando com papais e mamães, soube que Maria Flor, uma menina muito inteligente, bonita e simpática, é uma das mais ardorosas fãs da Peppa. Gabriel, um garotinho também muito inteligente, porém mais circunspecto, mostrou ser grande admirador da porquinha. Apresentou Peppa ao seu irmãozinho Henrique que só tem um ano, mas ao vê-la na TV bate palmas e ri com vontade.
Mariana, outra simpática e esperta garotinha, filha de um colega de trabalho, era outra fã de Peppa. Parece que não é mais. Seu zeloso pai, muito cioso daquilo que a filha assiste na TV, concluiu que Peppa não é lá muito boa bisca e não serve de exemplo para as meninas e meninos. Fez a cabeça de Mariana contra Peppa.  Parece que deu resultado. Sem saber disso, a avó da garotinha, que mora em outro estado, comprou todos os bonecos da família Peppa para Mariana. A família não sabe ainda o que fazer com os bonecos.
A mãe de Maria Flor me disse que a Peppa só ensina o que não presta como, por exemplo, chupar o canudo quando o suco chega ao final no copo. Além de ser hostil com o irmão George, com os amigos e desrespeitar os pais. E está feliz porque a relação de Maria Flor com Peppa está desgastada.
O famoso escritor Luís Fernando Veríssimo, tem uma neta, a Lucinda, a musa de inspiração de “momento vovô” em suas crônicas. Lucinda ainda não se manifestou sobre a Peppa. O Brasil inteiro está ansioso para saber o que Lucinda acha da Peppa. Vamos aguardar.
Todos conhecem a estória dos três porquinhos, que sempre fez e faz muito sucesso entre a meninada. Há ainda a estória do Nhoc Nhoc, o porquinho comilão. Mas nenhum desses famosos suínos performáticos parece superar o sucesso de Peppa Pig.
Com o mundo globalizado, não é crível ser contra desenhos animados estrangeiros e tampouco manifestações culturais diversas vindas de outras plagas. Claro que gostaríamos que a heroína Peppa fosse um dos nossos mamíferos aquáticos aqui do Amazonas. Boto, peixe-boi ou mesmo ariranha, e não uma porquinha qualquer.
Mas nada justifica a atitude de Luizinho. O garoto de 10 anos é filho de um socialista radical e eleitor da Luciana Genro. Luizinho detesta a Peppa. Diz que ela é uma cunhatã muito da apresentada e vive arrotando. Para Luizinho, Peppa, apesar de suas ideias feministas, é “representante de governos imperialistas” e deveria ser banida de nossa TV. Quando Peppa visitou Manaus, Luizinho fez um enorme cartaz e colocou em seu quarto: “PEPPA, GO HOME”.
Eu pessoalmente achei a Peppa muito engraçada e não acho atrevimento ela chamar o pai de “papai bobinho”. A Peppa é uma fofa!



segunda-feira, 27 de abril de 2015

Ciclo Perverso


    
Inácio Oliveira

Sonho que estou pescando com o meu pai, assim como fazíamos quando eu era criança. Estamos numa canoa, mas ela não está dentro d’água. A canoa está sobre as nuvens, eu estou remando e ela avança vagarosamente. Meu pai está com o molinete nas mãos, o anzol dependurado no ar, parece muito concentrado como se estivesse à espera de um grande peixe.
Acordo na cadeira ao lado da sua cama com o pescoço dolorido. Observo meu pai dormir e do seu peito sai um ruído perturbador, ele tem o sono agitado como se estivesse sendo acometido por terríveis pesadelos. Logo ele vai acordar, as convulsões sempre o atacam no meio da noite. Quando meu pai tem esses acessos precisamos segurá-lo firme, senão ele cai da cama. Nos momentos em que as crises estão mais intensas os enfermeiros o amarram e ele fica se sacudindo na cama como um eletrocutado. Hoje fiquei segurando sua mão durante horas para que ele pudesse tomar o soro, depois ele ficou agitado e eu tive que segurá-lo com mais força para que ele não se ferisse.
Ontem quando cheguei ele parecia estar dormindo, mas estava apenas fraco demais para manter os olhos abertos. Beijei a sua testa, ele abriu os olhos e me reconheceu só depois de alguns segundos. Apertou a minha mão e disse, fazendo um grande esforço – Hoje eu vi a sua mãe. Minha mãe morreu há muitos anos, no entanto quando ele disse isso foi como se ela realmente estivesse ali. O vaso com flores na mesa e a toalha xadrez cobrindo seus pés me fizeram pensar nela, mas foi só por alguns segundos. Meu pai estava cagado em cima da cama. Chamei a enfermeira e ajudei a trocar sua fralda, a merda do meu pai era amarela e pastosa igual a vatapá. Fiquei pensando quantas vezes meu pai trocou a minha fralda no meio da noite e agora eu fazia o mesmo com ele, como se isso fosse um ciclo perverso que encontra no fim o seu começo.
A cama começa a sacudir com o meu pai se tremendo em cima, ele ergue o braço para o alto como alguém que está caindo e espera desesperadamente que o agarrem pela mão. Chamo um dos enfermeiros para que me ajude a segurá-lo, é incrível a força que meu pai adquire quando as convulsões o atacam, ele que normalmente não tem mais nem força para manter os olhos abertos. Já não podemos fazer quase nada, apenas imobilizá-lo e esperar que a crise passe.
Depois de um tempo ele se acalma. Quando o enfermeiro sai eu tranco a porta, pego o travesseiro no qual ele descansa a cabeça e o aperto contra o seu rosto com toda força de que eu sou capaz. Ele treme por alguns segundos e adormece lentamente. Tiro o travesseiro do seu rosto e o coloco de volta debaixo da sua cabeça, seus olhos estão abertos e sua boca pende para um lado. Fecho cuidadosamente seus olhos e ajeito sua boca. Ele parece tranquilo agora. Sento ao seu lado e fico olhando um longo tempo para ele. Vê-lo deitado imóvel na cama me dá um enorme sentimento de paz.

domingo, 26 de abril de 2015

sábado, 25 de abril de 2015

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Medalha do Mérito Cultural Péricles Moraes 2014 – 5/5



Zemaria Pinto


Uma característica marcante na poesia de Alcides Werk é a presença da noite, realçada na dicotomia claro/escuro[1]. A noite protetora, envolvente, cúmplice do caboclo amazônico. A noite, caminho da antemanhã. A noite, precursora da luz. Ele diz no poema “Da noite do rio”:
Nesta noite sem medidas
eu todo banhado em sombras
fugi de casa, fugi
para o branco desta praia,
como se a aurora que busco
neste rio se afogou.
(p. 36)
Perdido o refúgio, perdido o sonho, o homem renova-se, a partir do rio – o símbolo mesmo da mudança, pois que nunca se repete. Mas o “rio noturno” é   apenas  a  projeção  da  angústia  do   “homem  noturno”: adormecido, cansado de viagens, arauto de mortes.  O homem ensombrecido, impotente pela impotência do rio, encontra-se ilhado: não há como lutar contra a noite que se abate sobre seu mundo.
Esse homem noturno em busca da luz é o lado menos visível da poesia de Alcides Werk, da qual se divulga muito a poesia telúrica, a poesia das pequenas e das grandes coisas amazônicas. Porque se esta expressa o espaço amazônico, aquela poesia noturna é uma reflexão sobre o momento histórico, mas sem nada de panfletário, apenas refletindo a angústia de uma alma sensível, vivendo sob o tacão de uma ditadura que tinha o absoluto repúdio popular.
A noite irreversível e sem fim abate-se sobre o poeta e não apenas o cobre. Toma-o. Doma-o. Internaliza-o. A noite é ele. A poesia se espraia pelo tempo sem retorno e se alonga em ocasos que se repetem de forma tão igual que parecem um só: o ocaso da longa noite que o poeta viveu vagando pelo Médio Amazonas.

Eis-me aqui nesta ausência de mim mesmo
(p. 147)
Este verso, do “Soneto VII”, reúne em suas dez mágicas sílabas toda a força da poesia que explode em angústia e dor. De igual modo o “Soneto VI” refere-se à

                                     ronda inútil
por além dos limites do meu nada
(p. 146)
Como se o alheamento dos acontecimentos nacionais o isolasse ainda mais do mundo físico ao seu redor – assumindo definitivamente a “condição de ilha” a que se refere o poema “Aos meus irmãos solitários”. Da mesma forma, os “Sonetos V” e “VIII” perseguem essa imagem do ser ensombrecido – o homem noturno e vazio. Neste, há algo de loucura dominando a expressão poética:
Silêncio. Sinto apenas o silêncio
em mim. (....)
Busco-me, a medo, e vejo pelos cantos
vozes vazias, sons de antigamente,
projetos inconclusos, teias, nada
e tua linda presença estilhaçada.
(p. 148)
Mas é no “Soneto I” que ele resiste da melhor forma – vivendo o seu ofício, escrevendo:
Na meia-luz da tasca entra uma lua
Que inventa novas sombras nas paredes.
Dos meus olhos de espanto e de tristeza
Vai caindo um poema sobre a mesa.
(p. 141)
Os doze sonetos de Estudos, a parte que fecha Trilha dágua, trazem alguns do poemas mais belos, significativos e bem arquitetados da nossa literatura. São apenas doze poemas – que valem por toda uma obra. Antológicos.
O “Soneto IX” – o coroamento desses cânticos libertários – é a síntese definitiva da noite que se instaurara no país a 31 de março de 1964. Suas palavras são imagens retiradas a sangue frio de retinas ainda cálidas. Palavras que a boca não dirá jamais. Imagens, apenas.
Fez-se uma curta pausa. E a noite baça
estendeu seus lençóis sobre as cidades.
Ventos frios de morte andavam soltos,
e formas embuçadas destruíam
restos vagos de luz.
(p. 149)
O “Soneto XII” – o último poema de Trilha Dágua – representa a profissão de fé do autor no futuro, futuro que se constrói com o tempo e com o trabalho indispensável da poesia. Futuro que virá – o poeta o sabe – não com a manhã, pois a aurora é apenas a transição entre a noite de terror e a luz do novo dia. O dia que se constrói aos poucos, na indolência dos segundos. Para o poeta é

Impossível voltar, e continuo.
Elaboro miragens e as persigo
com a determinação dos suicidas.
(p. 152)
Meu caro Alcides, foi muito bom te encontrar, aqui na Academia, nesta bela noite de abril. Amanhã é sábado – e nos últimos tempos sempre nos encontrávamos nas tardes de sábado, lembras? Tu recitavas
Gosto de frequentar esta taberna
onde me sirvo de meu próprio vinho,
nem perguntam quem sou. Meu companheiro,
que antes cantava e me aplaudia, agora
embuçado em silêncio me observa
como se eu lhe devesse algum milagre.
(p. 141)
Aquele companheiro mudo era eu. Há mais de 10 anos não nos vemos, mas a tua lembrança está sempre comigo, como está sempre com teus amigos, com teus filhos e tua Santina. Foi muito bom relembrar teus poemas e tuas lições – “soneto é coisa séria, rapaz!” – e a tua alegria por reconhecer nos 14 versos que te dediquei, enfim, um soneto – num momento em que estavas triste, mas triste de não ter jeito. Aqui o repito e a ti o consagro, em definitivo:
  
Trago nas mãos a lâmina dos anos
que passaram por mim tragando sonhos:
sementes de um passado sem memória,
inúteis fragmentos de silêncio.

As velhas alegrias disfarçadas
tatuam sombras em meu rosto pálido.
Sorrio amargo, o limo transparente
refletido nos dentes amarelos.

Meus olhos baços já não sonham luzes
sob o cantar monótono do vento:
palavras surdas nos meus lábios cegos.

Antúrios se renovam no meu peito
e de meus braços pendem sensitivas.
Nos pés carrego o peso desses sonhos.[2]

V

Meus caros Dom Mario Pasqualotto, Sérgio Cardoso e Prof. Gláucio Campos Gomes de Matos. Vencemos mais uma etapa de nossa jornada. Daqui a pouco estaremos todos de volta às singularidades de nossas vidas particulares, à azáfama de nossos afazeres cotidianos. Mas esse tempo em que aqui estivemos juntos se estenderá em nossos corações e mentes como uma teia de afeto recíproco – de nós, acadêmicos, para com vocês; de vocês para conosco; e de todos aqui presentes para com a memória de Péricles Moraes.
Muito obrigado!





[1] Zemaria Pinto. Adaptado do ensaio A miragem elaborada, publicado na 4ª edição de Trilha dágua, Manaus: Edições Imprensa Oficial do Amazonas, 1994.
[2] Zemaria Pinto, “Exercício nº 5”, publicado em Fragmentos de silêncio. Manaus: Edua, 1995. p. 51.

Renan Freitas Pinto leva Bernardo Ramos ao Sábado na Academia



Ritos de cura como hierofanias


João Bosco Botelho


Desde tempos ágrafos, homens e mulheres aliaram-se aos panteões lutando para entender, sem aceitar, passivamente, a brevidade da vida frente à natureza circundante. Reagiram se organizando para viver mais e melhor, desafiando a tirânica competência dos deuses e das deusas para controlar a vida, curar as doenças e os infortúnios.
Os ritos de curas como hierofanias (manifestação do sagrado) são muito anteriores se comparados às práticas médicas. Alguns sítios pré-históricos mostram claras comprovações, com mais de 10.000 anos, que membros da espécie homo utilizando artefatos cortantes executaram intervenções deliberadas e repetidas sobre os corpos, como as trepanações de crânios e amputações dos membros.
O aparecimento da palavra “médico” nas linguagens-culturas mesopotâmicas esteve associado ao forte marco identificador dos poderes pessoais desses especialistas sociais — curadores de todos os matizes — para intervir na doença, como pressuposta garantia para aumentar os limites da vida e sarar a dor fora de controle.
Curadores e médicos entendidos sob essa perspectiva — agentes sociais oriundos de muitas linguagens-culturas capazes de aumentar os limites da vida e sarar a dor fora de controle —, de lá para cá, como história de longa duração, mantiveram esse entendimento nos cinco continentes.
De lá para cá, quase quatro mil anos, os ritos religiosos de cura inseridos nas ideias e crenças religiosas nunca foram abandonados, mais ou menos valorizado em dependência das linguagens-culturas e dos bons ou maus resultados obtidos nos tratamentos mágicos. Em certos textos mesopotâmicos é difícil distinguir onde começava a prática médica e onde terminavam os ritos de curas.
Por outro lado, fora das análises acadêmicas, a maior parte das pessoas continua valorizando a ausência da dor, do mal, da doença como fruto da obediência às divindades. É possível que a arqueologia desse intricado nó entre as práticas de curas e as religiões esteja assentada nas antigas compreensões do pecado como sinônimo de doença. Entre os claros registros nas tábuas de escrita cuneiforme, achada na biblioteca de Hammurabi, um é particularmente interessante para demonstrar as práticas médicas atadas aos ritos de curas religiosos: assírios e babilônios entendiam o pecador como doente, débil, angustiado, possesso do demônio (utukku). Os termos sortilégio, malefício, pecado, doença, sofrimento aparecem como sinônimos. A libertação desse pecado, a doença, só seria obtida no rito religioso da confissão e da penitência.      
Essa compreensão do pecado ligado à doença como sinônimo do mal está mais claramente presente nas religiões que admitem o pressuposto da violação voluntária do livre arbítrio, contra a ordem divina, gerando culpa ao pecador, punido com a doença. Para apagar o pecado, o mal, a culpa, deve cumprir ritos de expiação: os da consciência, confissão e penitência; e os da obediência ao divino: rezas e sacrifícios.


quarta-feira, 22 de abril de 2015

terça-feira, 21 de abril de 2015

Pescaria em Silves



Pedro Lucas Lindoso

Silves é uma cidadezinha do interior muito simpática, limpa. Na verdade é uma ilha. Silves fica no lago Saracá. Trata-se de belíssima região com predominância de diversos lagos amazônicos. O Lago Canaçari por si só é uma atração. A paisagem é deslumbrante. As várzeas e igapós da região de Silves têm uma extraordinária abundância de peixes e uma rica diversidade aquática. Ultimamente, Silves tem ficado famosa pelas piranhas. Pela pesca da piranha, melhor explicando. O mais ilustre cidadão silvense que conheci foi o saudoso Agobar Garcia. Ele fez muito por Silves e amava sua terra como ninguém. Faleceu há poucos meses e deixou viúva uma das senhoras mais queridas da sociedade de Manaus – Ilsa Garcia. O casal morava há anos num prédio na Av. Getúlio Vargas. Felipe, um simpático garotinho morador do edifício, perguntou pelo vovozinho Agobar, que andava sumido. Disseram ao garoto que vovozinho Agobar virou uma estrelinha. Agobar adorava pescar nos lagos de Silves, desde muito moço. Será que lá no céu tem lagos tão bonitos quanto os de Silves? Pode até ter, mas acho que no céu não tem piranhas, que se possa fazer um caldinho gostoso. Vai ter pesca da piranha agora em agosto, lá em Silves. Uma amiga me mandou uma receita de caldinho. Ela chama piranha de palometa. Vejam só:
Ingredientes: 1 kg de palometa - Suco de limão - uma cebola picada - dois dentes de alho picados -1 maço de cheiro-verde picado. Óleo, sal e pimenta do reino - dois pimentões picados - três tomates picados sem pele e sem sementes - 2 litros de água.
Modo de Preparo: Limpe as palometas, deixe-as com a cabeça e tempere com limão, cebola, alho, cheiro-verde, sal e pimenta. Deixe repousar por uma hora. Esquente o óleo, frite as palometas por alguns minutos com todos os temperos. Adicione o pimentão, o tomate e a água. Tampe a panela e deixe cozinhar em fogo baixo. Após uma hora, verifique o sal. Coe numa peneira grossa. É gostoso bebê-lo bem apimentado. Há também quem goste de engrossar o caldo com farinha.

Vovozinho Agobar iria adorar pescar piranhas em Silves, agora em agosto. Que pena. Saudades do vovozinho.

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Lábios que beijei 46


Zemaria Pinto

Madalena e Conceição



Minha querida amiga Nana divertia-se a valer quando eu lembrava a história de Madalena e Conceição, duas belíssimas moças que alumiaram minha imaginação de menino. Elas eram o paradigma da elegância feminina caminhando por aquelas ruas de barro até o asfalto, onde passavam coletivos, praças e caronas. Madalena, branca, o cabelo negro chanel, lábios finos, caminhava com vagar, em estado de permanente meditação. Conceição, a tez de bronze, os louros cabelos curtos mas altos, lábios carnudos, parecia sempre apressada. Se as duas passavam juntas, caminhava à frente, parando de vez em quando. Quando as via adivinhava o perfume que delas emanava, como de um jardim no inverno. Sonhei muito com Madalena e Conceição – dormindo e acordado, poluções e orações sacrílegas de Onan. Nas minhas fantasias, reunia as duas e as submetia à minha luxúria juvenil. – E o que você pensava que elas eram? Putas, claro! A gargalhada de Nana ecoava por toda a orla de Parintins, onde nos encontráramos; eu, em missão do banco; ela, em projetos especiais de educação. Madalena era professora de uma escola tradicional e severa, enquanto Conceição – numa época em que as mulheres só podiam ser professoras, freiras ou donas de casa – trabalhava em um banco estatal. Nana estudara com as duas primas e mantivera desde então a amizade. A fantasia só foi desfeita mais de 30 anos depois. Melhor dizendo, esclarecida; porque ainda hoje sinto o perfume de Madalena e Conceição, o sedoso de suas peles, o frutado de seus lábios, a música de seus sussurros e a docilidade da submissão de ambas à concupiscência do fauno moleque.

sábado, 18 de abril de 2015

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Medalha do Mérito Cultural Péricles Moraes 2014 – 4/5



Zemaria Pinto


IV

Conheci Alcides Werk no início dos anos 1980. Autodidata, Alcides ensinou-me muita coisa que os livros não ensinam. Teve a paciência – que eu não tenho com os jovens que me procuram – de corrigir meus textos imaturos, justificando cada crítica. E hoje eu digo, com paradoxal orgulho, que tive a humildade – que os jovens que me procuram quase nunca têm – de aceitar suas críticas.
Quando, ao final daquela década, fiz uma especialização em Literatura Brasileira, sob a orientação do mestre Marcos Frederico Krüger, o tema da minha dissertação não poderia ser outro senão o livro que eu aprendera a amar como sendo a própria identidade amazônica em poesia: Trilha dágua. Mais amadurecido, eu discutia com Alcides cada ponto do meu trabalho, antes de mostrá-lo ao meu orientador. Muitas vezes discordamos e algumas vezes eu mantive meu ponto de vista, mas ele não perdia o bom humor: “discute isso com o Marcos; se ele concordar contigo, tudo bem: 2 a 1 pra vocês.”
Alcides Werk Gomes de Matos nasceu em Aquidauana – hoje, no Mato Grosso do Sul – em 20 de dezembro de 1934. Filho de pai pernambucano e mãe gaúcha, neto de imigrantes alemães, Alcides dizia não se lembrar de passar um ano numa mesma localidade. Tendo perdido a mãe aos 10 anos, em Caracaraí, aos 14, separou-se do pai em Conceição do Araguaia, onde fez um curso de telegrafia, indo trabalhar em um posto de atração de índios Gaviões, no Tocantins, próximo de onde hoje está Tucuruí. Aos 17 anos, sentou praça em Belém. Aos 20, veio para Manaus, mas aqui não ficou muito tempo, embrenhando-se pelo interior, desde o Alto Solimões até o Baixo Amazonas. E como ele mesmo escreveu,
aventurando-me pelos altos rios, pelos paranás, pelos lagos distantes, abeberando-me do que ainda resta da cultura aborígine, do nosso ameríndio, do caboclo, aprendendo a viver com simplicidade.[1]
Em 1964, funcionário de carreira do Departamento de Correios e Telégrafos, foi para Recife, mas de lá retornou um ano depois, internando-se no Médio Amazonas – Maués, Nhamundá e áreas circunvizinhas –, onde viveu por 8 anos, longe dos desmandos da ditadura.
Aos 40 anos, o poeta nômade já estabelecido em Manaus como funcionário do DENTEL – Departamento Nacional de Telecomunicações, lançou seu primeiro livro: Da noite do rio, embrião daquele que viria a ser seu livro mais representativo, Trilha dágua, lançado em 1980. Quatro edições, sempre revistas e ampliadas, muitas antologias, e dois livros independentes depois – In natura, poemas para a juventude (1999) e Cantos ribeirinhos (2002), ambos com poemas de Trilha dágua e inéditos –, Alcides começou a organizar o seu livro definitivo, sua poesia completa, intitulado A Amazônia de Alcides Werk, que ele não chegou a revisar. O poeta faleceu pouco mais de um mês antes de completar 69 anos, em 13 de novembro de 2003.
Trilha dágua[2] e, por extensão, a poesia de Alcides Werk, é um livro onde a vida pulsa a cada poema, porque a “obra de arte é uma coisa viva”, já nos ensinou o poeta. Da sua vivência no interior do Amazonas, Alcides foi buscar a matéria prima para a sua poesia. Assim é que o livro, dividido em quatro partes mais um glossário, abre com o poema “Opção”, uma espécie de poética de Alcides, onde a relação “o homem e a terra”, título dessa primeira parte, é explorada num processo de sobreposição de imagens, que se vão toldando, até o arremate:
– Eu canto para o homem.
(p. 27-28)
Ao conceito de terra cansada, contrapõe-se a imagem do homem cansado, marginalizado. Ali estava feita a opção, que se desdobra em muitos outros poemas, como “Do homem”, onde o poeta define a abrangência, a intensidade e a profundidade de seu canto, revelando:
E toda lembrança
que trago comigo
é o Homem nascendo
é o Homem cantando
é o Homem caindo
é o Homem se erguendo
é o Homem domando
é o Homem tecendo
o imenso milagre
da aurora que vem.
(p. 30)
O ritmo amazônico vem embalado em versos curtos, de 5 sílabas, mesmo quando dissimulado em versos livres:
O barco passando e a onda molhando
o menino molhado, na porta da frente.
O homem doente
deitado na rede
com os olhos cansados de espanto e de mágoa
de ver tanta água
de ver tanta água
(p. 38)
São registros de vida que se sucedem, como se captados por uma câmera:
As águas do lago
no início da noite
são como um espelho
que o casco estilhaça
com a força do remo.
(p. 50)



[1] Alcides Werk, “Traços autobiográficos”, na antologia Marupiara. Manaus: Edições Governo do Estado, 1988. 
[2] WERK, Alcides. Trilha dágua. 5ª ed. Manaus: Valer/Governo do Amazonas, 2000.

Paulino de Brito e Francisco Vasconcelos, no Sábado na Academia



A genética igualando pessoas com cores diferentes de pele



João Bosco Botelho

O século 20 está profundamente marcado pela aproximação entre a Medicina e o Direito, ambos procurando por meio da ciência e da tecnologia, controlar a dor, empurrar os limites da vida e evitar as injustiças.
 Ao aceitarmos a pós-modernidade, como sugere Jean‑François Lyotard, moldada no desencanto aos metarrelatos universalistas, será inevitável o repensar o enquadramento metafísi­co de palavras‑sentimentos: “razão”, “sujeito”, “totalida­de”, “verdade” e “progresso”.  Por essa razão, se torna cada vez mais difícil existir lugares para os super-heróis com as superpropostas.
Se as sociedades continuarem seguindo o mesmo curso na ciência e na tecnologia, as relações de conhecimento, incluindo, especialmente, as éticas, ficarão entre o antagonismo entre dois outros mundos: o desenvolvido e os em desenvolvimento, separados pela produção tecnológica oriunda do trabalho sistemati­zado nos laboratórios de pesquisa.
 Se abordarmos a pós-modernidade da Medicina sob esse enfoque técnico‑científico, veremos com transparência que o pilar sustentador está fincado na aquisição de um saber que está substituindo os anteriores, a engenharia genética, vendido ou negado pelos países em desenvolvimento, de acordo com as conveniências político‑econômicas.
 Nesse complexo conjunto, a Medicina dos países desenvolvidos se afastou da classificação morfológica das doenças e está utilizando a engenharia genética na busca de soluções para os problemas de saúde, entre outras, câncer, doenças degenerativas e o envelhecimento.
 A Medicina dos subdesenvolvimentos ainda continua empenha­da no estudo da morfologia celular, sempre alte­rada pela desnutrição crônica e pelas doenças infecciosas que matam precocemente milhões de crianças por ano.
  A Medicina é na atualidade o trem caminhando veloz­mente em direção dos laboratórios de estudo do genoma humano, com a saúde e a doença sendo conduzidas à intimidade da estrutura molecular dos genes.
 As notícias sobre a engenharia genética são cada vez mais frequentes fazendo com que entre nas casas como o anúncio de qualquer outro produto de consumo. A mídia mostra com grande destaque uma grande colheita de grãos ou a cura de certa doença, antes não imaginadas, tudo graças às pesquisas reveladoras dos segredos dos genes.
 Hoje, mais do que nunca, é imperativo o repensar dos pressupostos teóricos da Medicina nesse novo contexto, mais especificamente depois da publicação dos trabalhos do pesquisador Susumu Tonegawa, Nobel de Medicina de 1987, esclarecendo muitas dúvidas de como se efetiva a defesa interna do corpo frente às bactérias. Ficou demonstrado que segmentos do material genético, componente a defesa inata, podem gerar novas sequências, capazes de iniciar a luta contra muitas doenças.
 Desse modo, é possível afirmar que parte da estrutura genética humana é plástica, capaz de desenvolver muitas combinações gênicas adaptativas às necessidades da vida. A partir desse pressuposto, ficou fácil demonstrar o que já faz parte do conhecimento historicamente acumulado: as pessoas subnutridas ja­mais terão defesa imunológica suficiente para enfrentar muitas doenças.

  A partir dessa abordagem pós‑moderna na Medicina caíram todos os pressupostos étnicos racistas, diferenciando grupos sociais mais inteligentes e mais fortes do que outros. Desse modo, a espécie humana é espetacularmente semelhante, independente da cor da pele e olhos, se alimentada com a quantidade necessária de proteínas. 

quarta-feira, 15 de abril de 2015

terça-feira, 14 de abril de 2015

Eduardo Galeano (03/09/1940 – 13/04/2015)


O maior desejo



Pedro Lucas Lindoso

Meu amigo Chaguinhas, como bom manauara, gosta de três coisas nessa vida: mulher, boi e futebol.
Casado com dona Chiquinha há mais de cinquenta anos, está com os filhos criados e netos saudáveis. Às vezes, agora muito raramente, Chaguinhas arruma umas namoradas. Dona Chiquinha não sabe, nunca soube e nunca saberá. Põe a mão no fogo pelo marido. E nunca, jamais se queimou.
Chaguinhas anda meio macambúzio com duas de suas paixões. O Caprichoso, que perdeu o festival e anda envolto em brigas de diretoria. E o Vasco, rebaixado da primeira divisão do campeonato brasileiro.
Mas a grande paixão do Chaguinhas é o Atlético Rio Negro Clube. Barriga preta convicto, Chaguinhas começou a namorar dona Francisca num dos famosos bailes do Rio Negro. “Ela estava linda, toda de branco. Eu usava smoking. Bons tempos”, me disse, todo nostálgico.
Chaguinhas não aguenta mais a chateação dos seus amigos flamenguistas. Ainda mais agora que o Flamengo foi tricampeão da Copa do Brasil. A maioria desses flamenguistas daqui de Manaus foram ou são torcedores do Nacional. O  principal rival do Rio Negro no futebol é o Nacional.
Rio Negro e Nacional é o maior clássico do futebol amazonense. E umas das maiores rivalidades do norte brasileiro.
Uma das grandes alegrias do Chaguinhas foi a derrubada do prédio modernoso que enfeiava a Praça da Saudade, em frente ao clube. Chaguinhas e Francisquinha namoraram muito na Praça da Saudade. “Havia uns caramanchões. A praça sempre foi bonita. Fiquei contente com a restauração”, me disse ele, com os olhos cheios d’água.
Chaguinhas morava em Aparecida e Chiquinha num casarão da Ferreira Pena. Hoje o casal mora num grande condomínio no Parque das Laranjeiras. Casa com piscina. Chaguinhas ainda dá suas braçadas. Foi campeão de natação pelo Rio Negro e nadou muitas vezes no Parque Aquático do clube.
O Rio Negro sempre foi um grande clube. A eterna Miss Amazonas e Miss Brasil Terezinha Morango representou o Rio Negro, Manaus  o Amazonas e o Brasil.
Chaguinhas sabe tudo do clube. Disse-me que o Rio Negro possui 18 títulos do Campeonato Amazonense. Não se esqueça, meu amigo, o galo da Praça da Saudade foi tetracampeão entre 1987 e 1990.
É um dos três clubes do futebol local que já participou da principal divisão do Campeonato Brasileiro, em seis edições. Participou ainda por seis vezes da Copa do Brasil.

Sabe qual é o meu maior desejo? Ver o Rio Negro de volta na primeira divisão do brasileirão. Série A. Não posso morrer sem essa alegria. Salve o Chaguinhas! E o Rio Negro!