Amigos do Fingidor

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segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Escrever é fácil


Pablo Neruda (1904-1973), por J. Bosco.








Escrever é fácil: você começa com uma letra maiúscula e termina com um ponto final. No meio você coloca ideias.


(Pablo Neruda)

segunda-feira, 6 de maio de 2013

O Chile de Neruda 2/2


Tainá Vieira
 
 
 Culturas chilenas em Santiago

 
Santiago é uma cidade linda, limpa e cara, mas tem um povo hospitaleiro, uma culinária excepcional (tirando o abacate, influência do Peru) e uma cultura muito rica. Cheguei a Santiago exatamente à hora do almoço, e fui direto ao Mercado Central, conhecer o congrio, um peixe típico do Pacífico chileno. O congrio que degustei era frito, acompanhado de batatas fritas (bem amarelas), muitas rodelas de tomates bem vermelhos e pimentões bem verdes. Era um prato bonito e colorido. Como estava no Chile não poderia deixar de tomar uma boa taça de vinho. Pedi o da casa, um Chadornnay. Gostei do congrio, mas acho que ele perde para o nosso tambaqui. Já o vinho, gostaria de tomar uma taça todo dia.

O meu roteiro por Santiago era conhecer os pontos turísticos da cidade e só depois ir às cidades da costa (Viña del Mar, Valparaiso) e molhar os pés no oceano Pacífico. Um dos pontos mais badalados de Santiago é a Plaza de Armas, que fica no centro histórico. Lá há uma quantidade de bares, lojas e outros lugares interessantes para conhecer. Há monumentos históricos como a igreja Metropolitana de Santiago, construída no século XIX, o correio Central, o Museu Histórico Nacional. Pode-se chegar a Plaza de Armas de metrô. Aliás, Santiago tem cinco linhas de metrô, alcançando todos os lugares bacanas da área urbana. Há outras coisas interessantes para um turista conhecer nos arredores da Plaza de Armas, como os famosos café con piernas (bom para os homens). Há uma espécie plataforma na qual as garçonetes ficam mais altas e é possível visualizar suas pernas, vestidas em microssaias sensuais.  Há também casas de câmbio para trocar alguns reais por muitos milhares pesos chilenos. E de hora em hora há manifestações pacíficas – contra ou a favor de alguma coisa. Enfim, a Plaza de Armas é um mundo em Santiago.

Falando de reais e pesos, o turista brasileiro não pode se enganar: troca-se 1 real por 235 pesos chilenos (em média), mas não se compra nada com esse monte de pesos. Se os chilenos resolverem tirar três zeros de sua moeda, 1 real passará a valer 24 centavos de peso; e 1 dólar, 48 centavos. Quem é mais valorizado?  Uma água mineral varia de 850 pesos (na rua) a 2.500 pesos (no hotel). Faça as contas: de 3,60 a 10,65 reais. E quem vai a Santiago pensando em tomar muito vinho, desista. O vinho chileno é feito para exportação. Logo, o que se encontra é muito caro. Mas os chamados “vinhos da casa”, vendidos em taças com cerca de 200 ml, são invariavelmente bons e relativamente baratos: una copa sai por algo entre 2.000 e 5.000 pesos, dependendo do lugar. O que se vê nos bares, principalmente entre os jovens, é que o santiagueño gosta mesmo é de cerveja. Nesse item, aliás, eles preferem as importadas: brasileñas e americanas.

Outro lugar que todo turista precisa e deve conhecer em Santiago é o famoso Mercado Central.  É um mercado como outro qualquer, com uma imensa variedade de frutos do mar, peixes, restaurantes, empórios, pessoas, só que é em Santiago. A grande atração é a centolla, uma espécie de caranguejo gigante, que serve a duas pessoas e custa em torno de 80 mil pesos. Não dá pra comer centolla todo dia... O museu de Belas Artes de Santiago é grande e belo, cheio de esculturas lindas, quadros diferentes e significativos, vale a pena conhecer. Outro lugar famosíssimo em Santiago é o Pátio Bellavista, com entradas pelas ruas da Constitución e Pio Nono, no bairro Bellavista. Um point cultural e gastronômico. Lá se encontram grandes variedades de restaurantes com mostras de culinária do mundo inteiro. Pode-se comer peixes, massas, carnes. Beber pisco, vinho, cerveja – e até a nossa gloriosa cachaça. O restaurante pelo qual fiquei encantada foi o Como água para chocolate, que, como o filme e o livro de Laura Esquivel, também é mexicano. Não fica no pátio, mas do ladinho. O lugar é lindo, bem decorado, com um colorido no limite do kitsch, mas sem sê-lo. Comida deliciosa. Nesse restaurante paga-se muito, mas come-se e bebe-se bem.  No Pátio Bellavista há uma quantidade de lojas de artesanato. É imperdoável uma mulher ir a Santiago e não trazer de lá uma joia de lapis laluzi, uma pedra preciosa que só existe no Chile e no Afeganistão – pelo menos, foi o que me disseram. Mesmo sendo muito caro, vale a pena trazer uma lapis laluzi de lembrança. O Parque Arauco é “o” shopping da cidade. Imenso e com muitas variedades de lojas, chamou-me a atenção o fato do lugar ser um point gastronômico: em vez das indefectíveis fast-food, como no Brasil, lá predominam grandes restaurantes. É difícil até escolher onde almoçar.  Mas antes de conhecer tudo isso é necessário fazer um city tour pela capital chilena. A partir daí fica mais fácil para o turista saber ao certo os lugares que se deve conhecer. E, é claro, é uma sensação única, você percorrendo Santiago do Chile, sentido a brisa daquela cidade no rosto, gastando pesos chilenos aos milhares: é como se sentir rainha em terra alheia.
 
Fotos: Tainá Vieira.
 
Parreira da vinícola orgânica Emiliana, no Vale Casablanca.

A cordilheira dos Andes, a 3.000 metros.
 
 

segunda-feira, 29 de abril de 2013

O Chile de Neruda 1/2


Tainá Vieira

 

 

Da janelinha do avião mira-se uma paisagem inesquecível. A mesma paisagem vista inúmeras vezes pelo seu filho maior, Pablo Neruda. Sim, estou falando da Cordilheira dos Andes. Uma vasta cadeia montanhosa que atravessa sete países da América do Sul, os chamados países andinos. Um deles o Chile, que tem como capital Santiago, esta que me hospedou por sete dias. Era um dos meus sonhos conhecer esse país tão demasiadamente colorido e elegantemente frio. E principalmente famoso pelos seus vinhos maravilhosos, seu vale Nevado e mais ainda pelo seu filho, prêmio Nobel de literatura, o louvado Pablo Neruda,  motivo máximo de minha viagem. Assim que pus os pés em Santiago, senti uma energia estranhamente boa apossar-se do meu corpo, que entrou pelos meus pés e saiu pela minha boca. Acho que era porque tinha que hablar español por uns dias. Tarefa que receberia a nota 8,5 numa prova oral. É uma língua bonita de se falar e difícil de compreender, quando falado rapidamente. É necessário muita atenção para se comunicar, ser entendido  e não ouvir dos hermanos chilenos a palavra em tom de “quase” menosprezo: brasileña? Pois eles compreendem muito bem o nosso portunhol. Eu ouvi essa frase algumas vezes. De resto, quanto ao quesito falar espanhol, eu diria que foi gratificante.

Mas não fui ao Chile gastar dinheiro. Não fui simplesmente viajar por aquele país. Não, minha viagem tinha outro motivo. Conhecer um pouco da vida de Pablo Neruda. Minha missão no Chile. Pablo Neruda que é considerado o maior poeta chileno e um dos maiores da America do Sul. É através das casas de Pablo Neruda que se pode conhecer um pouco desse poeta, que lutou e amou seu povo até a morte. Em 1953, constrói sua casa em Santiago, apelidada de La Chascona, para se encontrar clandestinamente com sua amante Matilde Urrutia, que viria ser sua terceira esposa e o acompanharia até o seu ultimo dia de vida. A casa tem o nome La Chascona (que significa “a descabelada” na língua indigena quíchua) porque Maltide tinha uma enorme cabeleira. A ela Neruda dedica os versos:

Me falta tempo para celebrar teus cabelos.

Um por um devo contá-los e louvá-los:

outros amantes querem viver com certos olhos,

eu só quero ser penteador de teus cabelos.

(“Soneto XIV”, de Cem sonetos de amor, tradução de Carlos Nejar)

La Chascona, localizada no bairro Bellavista, La Sebastiana, na cidade de Valparaíso,  e Isla Negra são casas-museus de Pablo Neruda.  As casas lembram barcos. São casas bem diferentes de quaisquer outras que já se tenha visto. La Chascona é uma casa divida em três partes, unidas por escadas e caminhos, e  tem um belo jardim. Diz-se que eram duas casas, uma de Pablo e outra de Matilde, e que Pablo abriu uma passagem para ambos transportarem-se, um para a casa do outro. A casa funciona como museu e como biblioteca do autor. As visitas sempre são acompanhadas de guia, em língua espanhola e inglesa. La Sebastiana está localizada no cerro Bellavista, em Valparaíso, e, com seu formato de barco, tem-se uma visão de sonho do Pacífico. Dá a impressão de que o barco logo irá partir. Isla Negra, a casa favorita de Pablo Neruda, foi seu ultimo lar. Lá ele viveu seu amor intenso com sua amada Matilde. Em seu livro Confesso que vivi, Pablo Neruda, falando sobre a mulher, diz:

Minha mulher é da província como eu. (...) Ao falar-lhe, disse-lhe tudo em meus Cem Sonetos de Amor. Talvez estes versos definam o que ela significa para mim. A vida e a terra nos reuniu. Ainda que não interesse a ninguém, somos felizes. Dividimos nosso tempo comum em longas temporadas na solitária costa do Chile.

(“Matilde Urrutia, minha mulher”, tradução de Olga Savary)

 Isla Negra é o nome da praia onde a casa está localizada, um lugar lindo à margem do oceano pacífico. Fica num pequeno distrito de pescadores da região e não é uma ilha – o adjetivo é uma referência a cor predominante das rochas que tornam a praia inviável para o banho de mar. No caminho, a guia repete a piada cotidiana: alguém já ouviu falar do poeta chileno Neftalí Ricardo Reyes Basoalto? Silêncio. E de Pablo Neruda? É claro que todos iam a Isla Negra por causa do escritor, ignorando que aquele nome estranho era o seu nome verdadeiro. O pseudônimo é uma homenagem ao poeta francês Paul Verlaine e a um escritor checo, Jan Neruda.

A casa de Isla Negra é única, não há outra casa no mundo como a de Pablo. Na verdade, são varias casas em uma. Ora se está em uma casa de pedra, ora em uma casa de madeira. Cada cômodo da casa nos deixa com a impressão de que estamos em lugares diferentes: há uma parte que tem o formato de um vagão de trem, homenagem ao seu pai que era ferroviário; outra parte é um barco. A casa abriga várias coleções do autor, pois Pablo era um grande colecionador: há mais de 3.000 objetos do mundo todo espalhado por toda casa. Infelizmente, não se pode fotografar na área interna. Numa das portas, há um tapete feito só de conchinhas, inclusive conchinhas do Brasil, levadas para lá pelo seu amigo Jorge Amado.  Em cima de uma das mesas de centro há uma coleção de taças de vinho. Há um compartimento da casa só para as garrafas, são inúmeras garrafas coloridas. O quarto que Pablo dividia com Matilde é um lugar lindo. Há uma parede de vidro de frente para o Pacífico. A cama está posicionada de um jeito que a cabeça fica em direção ao nascer do sol e os pés ao pôr-do-sol. No quarto está a coleção de chapéus do poeta, a penteadeira de Matilde, um guarda-roupa com as letras P e M na porta, os diversos ternos usados pelo poeta, incluindo o traje que ele usou para receber o prêmio Nobel de literatura, em 1971. No quintal da casa há um barco, onde o comandante Neruda reunia com amigos em imaginárias viagens mar adentro. Há também um sino que Neruda tocava quando os amigos chegavam. Em Isla Negra está o túmulo do poeta e da esposa. Como quis o autor.

Companheiros, enterrai-me em Isla Negra,

diante do mar que conheço, de cada área rugosa

de pedras e ondas que meus olhos perdidos

não tornarão a ver.

(“Disposições”, do livro Canto Geral, tradução de Paulo Mendes Campos)

Pablo Neruda faleceu em 23 de setembro de 1973, aos 69 anos, de câncer na próstata, numa clinica em Santiago. Mas essa é a versão oficial. Está em curso a investigação de um possível assassinato. Foi enterrado sem cerimônia, em Santiago, sob o testemunho de militares de Pinochet. Mesmo morto, o poeta querido pelo povo assombrava-os. Somente 19 anos depois, com a restauração da democracia, seu corpo foi levado a Isla Negra, foi então realizada uma cerimônia com a presença de muitos amigos, e sob o olhar do povo que tanto o amava. Depois de conhecer a casa de Neruda, é possível descer à praia, onde há um “moai” (escultura inspirada na cultura rapa nui, da Ilha de Páscoa), esculpido em uma das rochas, representando a cabeça do poeta, olhando o mar sem fim. O túmulo de Neruda fica de frente para o oceano, com a trilha sonora das ondas, batido pela brisa fria do Pacífico. Fiquei um tempo observando: ora mirava o túmulo, ora mirava o mar. Nem sei descrever o que senti naquele momento. Só sei que esse momento permanecerá para sempre gravado na minha memória, assim como a poesia de Pablo Neruda.
 
Publicado originalmente na revista Valer Cultural, n° 4.
Fotos: Tainá Vieira.
 
Detalhe da casa de Neruda, em Isla Negra.

A parte de pedra da casa de Neruda, em Isla Negra.
 

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

El librito


Pedro Lucas Lindoso

Un libro es un buen amigo – Mafalda, personagem do cartunista argentino Quino. 

Libritos são miniaturas de livros, hechas a mano. O librito que me foi presenteado mede 6x4 cm e cabe na palma de minha mão. Veio de Santiago do Chile. Um regalito de meu amigo, poeta e frequentador do Chá do Armando, Zemaria Pinto. Zemaria comprou esses hermosos libritos na sua recente visita ao Chile. Devem ter custado não mais que alguns milhares de “pesos chilenos”, cambiados de nosso real. E, sorrateiramente, presenteou-os a alguns integrantes do chá. Pediu discrição, para evitar ciumeiras com certeza. Não tinha para todo mundo. E, como já disseram, ciúme de homem é bizarro. Mas existe. Azar dos que não ganharam. Morram de inveja. Deixei o librito na minha mesinha de cabeceira. Minha mulher já quis se apossar de meu regalito.  Minha filha se encantou com el librito hecho en Chile. Escondi-o na minha pasta. No trabalho, coloquei o librito em cima da CPU. Eita librito cobiçado! Levei-o de volta para casa. Está no cofre. O librito é nada mais nada menos que El Libro de las Preguntas, de Pablo Neruda. Deviam fazer libritos do Manuel Bandeira, da Cecília Meirelles, Drummond,  Vinicius, Manoel de Barros, Cora Coralina, Thiago de Mello,  Bacellar, Tuffic,  Almir Diniz, Zemaria Pinto e de muitos outros poetas. Como já dito, o librito é uma miniatura. Un libro de bolsillo, pequeño, pero cumpridor. Neruda é prêmio Nobel, como todos sabem, e é o representante más importante de la Literatura Chilena, como dito na contracapa do librito. O nosso poeta Thiago de Melo foi amigo dele. O grande Chico Buarque, em uma de seus mais belos poemas musicados, “Trocando em miúdos” canta: “Devolva o Neruda que você me tomou, e nunca leu”. Eu já li meu librito – El libro de las Preguntas. Vou conservá-lo no cofre, para que não me tomem. E para eu não o perder, como aconteceu com Confesso que vivi, do mesmo Neruda. Não sei se me tomaram ou se o perdi. Mas isso já faz tanto tempo. Mas, trocando em miúdos, um librito de Neruda, trazido do Chile por um amigo, não tem preço.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Sobre Estatutos do Homem

No dia 9 de abril de 1964, a Junta Militar que tomara o país de assalto dez dias antes decreta o Ato Institucional Nº 1, cassando direitos políticos e enxovalhando a frágil democracia brasileira. No Chile, onde servia como adido cultural, o poeta Thiago de Mello escreve um poema-desabafo, ironicamente subintitulado Ato Institucional Permanente. Ali nascia, de modo circunstancial, fruto da indignação e da revolta, o poema mais celebrado do autor: Os Estatutos do Homem*.

A publicação do poema, dias depois, no Correio da Manhã, do Rio de Janeiro, custou-lhe inúmeros dissabores, entre os quais o rompimento temporário de uma velha amizade com o poeta Manuel Bandeira, simpatizante do novo regime. Mas trouxe-lhe também, com o tempo, a alegria do reconhecimento daqueles que, sem voz, usaram a palavra encantada do poeta para expressar sua esperança.

Em livro, Os Estatutos do Homem aparece pela primeira vez em Faz Escuro Mas Eu Canto, de 1966, no qual o poeta declara, no poema “A Vida Verdadeira”: “Não, não tenho caminho novo. / O que tenho de novo / é o jeito de caminhar.” Era uma nova forma de cantar: a poesia de Thiago de Mello – até então, entre introspectiva e metafísica – assumia uma postura radicalmente oposta, de forte conotação social, que ele mesmo classificaria como poesia comprometida.

Os Estatutos do Homem é uma celebração da utopia. Suas imagens são claras e traduzem claridade. Verdade, vida, manhãs de domingo, girassóis, palmeira, vento, azul do céu, são palavras colhidas logo nos primeiros Artigos, às quais outras igualmente positivas vêm se juntar, compondo um todo harmônico, que, discursivo na aparência, envereda pela poesia mais lúdica, engendrada no cerne da linguagem, como no Artigo XII, que antecipa em quatro anos o “é proibido proibir” dos jovens revolucionários do maio de 68: “Tudo será permitido, / inclusive brincar com os rinocerontes / e caminhar pelas tardes / com uma imensa begônia na lapela.”

Mas, e agora, leitor? Quase 40 anos passados, qual o sentido de Os Estatutos do Homem? As circunstâncias históricas são outras, é verdade, mas a essência do nosso cotidiano, lamentavelmente, continua o mesmo. Já não existem mais os Atos Institucionais, as prisões arbitrárias, os interrogatórios ilegais, a censura, a tortura, os assassinatos... Mas o Homem continua oprimido, vitimado pelo desemprego, pela fome, por um sistema de saúde ineficiente, por uma previdência falida; sem teto, sem terra, sem acesso a uma educação de qualidade, submisso a uma cultura industrializada e alienante; exposto à violência do crime organizado e à barbárie do aparelho policial. Numa palavra: sem liberdade.

Por isso este poema se mantém íntegro e atual: porque você, leitor/leitora, tem a sua parcela de contribuição na lenta construção de um mundo fraterno e justo. Poemas não mudam o mundo, mas podem mudar pessoas: se ter a liberdade como “algo vivo e transparente” no “reinado permanente da justiça e da claridade” é um sonho, somente compartilhando esse sonho – e aliando-o à ação concreta – poderemos torná-lo realidade.
*Assim era grafado nas primeiras edições. Depois, suprimiu-se o artigo.
(Zemaria Pinto, na orelha da terceira edição trilíngüe de Estatutos do Homem – Manaus: Valer, 2001.
Tradução do poema para o espanhol: Pablo Neruda; para o inglês: Robert Márquez e Trudy Pax.)