Amigos do Fingidor

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Fantasy Art – Galeria

Keith Parkinson.

drops de pimenta 69

.
Mirinha, a solidão é como um tiro na noite. Você imagina uns dez motivos, todos banais. Ninguém tem um motivo sério para dar um tiro na noite.

(Zemaria Pinto)









FIM



de



DROPS DE PIMENTA

terça-feira, 29 de junho de 2010

O alemão brasileiro que veio de longe

Aldemir Bentes*


Início dos anos 80, a pequena Maués era um território conhecido por conta de seu principal produto, o guaraná. Nesse início de década, a febre do garimpo e a esperança de se tornar rico da noite para o dia, atraiu muitos forasteiros para a região dos garimpos do Amana e Parauari. Poucos conseguiram seus intentos e realizaram seus sonhos, outros, a maioria, foram acometidos pela malária e muitos corpos inertes ficaram para sempre nos escombros dos barrancos dos garimpos, seja por morte provocada pela malária ou na disputa pelo ouro.

Apesar das mortes, os garimpos alavancaram a economia do município e novos investimentos foram implantados aqui, notadamente os projetos madeireiros e a expansão do plantio do guaraná.

Foi nesse período de grandes mudanças que aqui chegou a Empresa Safrita Maués S.A., cuja matriz ficava no Estado de Santa Catarina, sul do país. O projeto da empresa consistia em implantar uma indústria de beneficiamento de madeira e plantação de guaraná. Para isso, a empresa adquiriu uma extensa área de mata nativa na região do Rio Pupunhal, à margem direita do rio Maués Açu e construiu a madeireira no Bairro do Éden, onde estabeleceu seu escritório municipal.

A gerencia da empresa ficou a cargo de Ademar Fernando Gunsch Gruber, sobrenome alemão, difícil de nosso caboclo pronunciar e que logo foi traduzido por Xico da Safrita. Xico chegava sem conhecer ninguém e na cidade o povo logo notou a diferença em sua fala, pois o Xico até hoje ainda não conseguiu pronunciar a palavra caRRo, com ênfase ao dígrafo RR, assim, pronuncia caro.

No início, teve que se adaptar a uma nova cultura, sotaque e costumes do lugar. Mas como Xico é bem relacionado, aos poucos foi construindo uma legião de amigos. Os negócios da empresa foram crescendo e nova mão-de-obra foi criada, contribuindo para a economia da cidade. Com a firmação em seu novo solo, Xico conheceu uma jovem de família tradicional da cidade, a qual se tornou sua esposa.

Casaram, tiveram filhos. A empresa Safrita encerrou suas atividades no município de Maués, mas Xico, aqui permaneceu, agora enraizado na nova terra, cuja adoção foi construída ao longo do tempo. De seu casamento nasceu um casal de filhos Sharon e Ademar II (in memorium) .Tempos depois, se separou.

De seu segundo casamento, tem Gleicyanna e Guilherme Gruber II.

No decorrer dos anos, tornou-se empresário do ramo madeireiro. Enveredou pelos caminhos da política, foi vereador e presidente da Câmara Municipal de Maués, participou ativamente da elaboração e implantação da Lei Orgânica do Município de Maués. Com a eleição de seu ex-cunhado Sidney Leite, começou a participar da administração municipal. Mesmo depois do final do mandato de Sidney Leite, continuou fazendo parte do governo municipal, se tornando secretário de Cultura e Turismo.

À frente da Secretaria, Xico mudou a forma de se fazer cultura em Maués. Visionário, ousado, propôs várias mudanças, estruturais e de gestão. Criou a biblioteca municipal “Almir Gomes de Almeida”, cujo prédio leva o nome do falecido deputado Darcy Augusto Michiles. Incentivou os diversos movimentos culturais da cidade, como o corpo de dança, os artistas plásticos, os poetas, escritores, trazendo recursos através de oficinas relacionadas à cultura. Fortaleceu o carnaval do município, a festa do guaraná, o festival de verão, criou o FEIRARTE. Enfrentou muitas dificuldades e venceu de forma exemplar, sempre usando o bom senso do diálogo em suas negociações. Valorizou os artistas locais de todas as vertentes, criou o Museu do Homem de Maués. No início, foi muito criticado por mim, pois o museu não tinha acervo próprio. Entretanto, Xico absorveu as críticas e, através de ações de parceria com a população, superou essa fase; hoje, o Museu já é um local de referência nos diversos eventos culturais do município de Maués, aberto a toda população e seus seguimentos culturais. Trouxe o cinema, os saraus e os musicais poéticos ao palco do museu.

Xico Gruber, à direita, apresenta a biblioteca municipal ao poeta Thiago de Mello.

Conseguiu que Maués sediasse o Festival Literário Internacional da Floresta – FLIFLORESTA 2010 – cujo evento trouxe para nossa cidade, durante três dias, alguns dos maiores escritores do Amazonas, como Thiago de Mello, Abrahim Baze, Márcio Souza, Zemaria Pinto, Carlos Lodi, Ana Peixoto, Ademir Ramos, além do grupo musical Imbaúba, liderado pelo poeta, cantor e instrumentista Celdo Braga. A participação da classe estudantil de Maués foi maciça, inquirindo os palestrantes e debatedores das diversas mesas, das quais os escritores participaram. A impressão que eles deixaram foi a melhor possível e eles deixaram Maués com saudades e prontos para retornarem ao nosso município. A nossa hospitalidade para com eles foi a marca característica de nosso povo.

Por outro lado, ficou a certeza de nossa valorização como seres humanos e a certeza de que não mais estamos sozinhos nessa luta de inclusão do homem através da cultura e do conhecimento.

Existem agora, dois divisores na história cultural de Maués: antes e depois do Flifloresta.

Tudo isso só foi possível graças à determinação, insistência e visão do Secretário de Cultura e Turismo do Município de Maués, Ademar Fernando Gunsch Gruber – o maueense de coração e de alma que todos chamamos de Xico Gruber – o alemão brasileiro que veio de longe.


*Aldemir Bentes é professor de Língua Portuguesa e Literatura, e mantém o Blog do Aldemir de Maués.

O estranho caso da Vila da Barra – 6

Marco Adolfs


O consumo pode aumentar bastante; assim como a produção – afirmei.

– E como é essa vulcanização? – perguntou o português, desejando saber mais detalhes sobre aquela coisa tão maravilhosa que estava acontecendo no resto do mundo e que poderia ser a tão esperada ajuda que tiraria sua vila daquela situação que deixava seus bolsos vazios.

– É uma mistura do leite dessa árvore ao enxofre, o que torna a borracha produzida mais maleável, mais elástica e mais resistente às mudanças de temperatura. Ela não mais endurece quando fria, ficando quebradiça. Nem fica amolecida, quando quente. Como lhe falei, a borracha fica com uma estabilidade impressionante.

– É com isso que aqueles senhores da Companhia Portuguesa de Cerâmica estão mexendo? – indagou o português, desconfiado. – Não ficou bem claro o que eles vieram fazer aqui – completou. Também fizeram muitas perguntas sobre essa tal árvore. E, é claro, me pagaram adiantado pela tua estadia.

– Bem... – comecei a explicar –, estou sendo também muito bem pago, para executar uma tarefa muito especial... – Posso falar? – perguntei-lhe, desviando o olhar na direção das outras pessoas que se encontravam no recinto.

– Vamos até ali – aconselhou o português, indicando uma parte da casa.

– Mas o que é que esses patrícios desejam de tão importante nesse fim de mundo, e ainda mais usando um brasileiro cheio de segredos!? – perguntou.

– As sementes dessa árvore da seringa. – sussurrei. – Centenas delas! – continuei. É disso que eles precisam urgentemente!

O português olhou-me com uma expressão abobalhada.

– É isso mesmo o que o senhor escutou – disse enfaticamente.

– Mas é absurdo! – exclamou o português. – E para que eles querem essas sementes e em tão grande quantidade? – perguntou.

(Continua na próxima terça)

sábado, 26 de junho de 2010

Flifloresta Maués em detalhes


Zemaria Pinto

Me desculpem a sinceridade e a intimidade com a gramática, mas, de saco cheio de tanto ler bobagem acerca do Flifloresta Maués, recém realizado, resolvi dar minha versão, ou, vá lá, meu testemunho.

A imprensa baré e alguns blogs preguiçosos, que se limitam a ecoar releases escritos com semanas de antecedência, comeram poeira. Vamos aos fatos.

O Flifloresta Maués aconteceu dias 22, 23 e 24 de junho, numa promoção da prefeitura daquele município e do Instituto Nacional Valer de Cultura. Da noite de abertura, 22/06, pouco tenho a dizer – porque lá não estava –, a não ser o que ouvi do próprio palestrante e de algumas outras testemunhas. Após os discursos de praxe, o escritor Márcio Souza falou sobre “A educação escolar na Amazônia e a formação de leitores”. Encontrei com o Márcio no aeroporto da cidade (ele partindo, eu chegando); com sua ironia peculiar, Márcio me falou que “aquilo não foi uma palestra, foi um comício”. Ele se referia, claro, ao formato: o escritor, no centro de um palco que serviria às indefectíveis atrações musicais, falando para centenas de pessoas. Uma síntese do que disseram os outros: o povo ouviu o romancista em respeitoso e atento silêncio. Terminada a palestra, as atrações musicais não tiveram a mesma atenção popular que o autor de Galvez, o imperador do Acre.

A primeira palestra do dia 23/06 também não contou com minha desimportante presença, pois nosso pequeno monomotor (sei do pleonasmo) tocou o solo maué somente a poucos minutos das 10 da manhã. Mas me disseram que o palestrante, antropólogo Ademir Ramos, deu um show sobre o tema “Os índios na Amazônia – dominação e reconhecimento”, não fosse ele uma das maiores autoridades brasileiras no assunto. O historiador e apresentador dos programas Literatura em Foco e Documentos da Amazônia, Abrahim Baze, também participou da mesa. Aliás, o Baze e o Ruy, seu inseparável camera man e diretor, devem ter produzido uns oito programas, com o material colhido na cidade.

Na sequência, eu, acima assinado, palestrei sobre “A Internet e a leitura: conexão e virtualidade”, com a participação brilhante do escritor Carlos Lodi, um dos coordenadores do evento. O pequeno auditório do Museu do Homem de Maués divertiu-se muito (a modéstia me impede de usar palavras mais expressivas) com a leitura do meu poema “O corpo do meu amor”, postado no blog Poesia na Alcova.

Zemaria Pinto, professor Maciel (mediador) e Carlos Lodi.

À tarde, tivemos a palestra do poeta Thiago de Mello, com o auxílio luxuoso do professor Ademir Ramos, sobre “A experiência da leitura na construção do ser humano”. Quem conhece os dois deve imaginar a alegria da garotada que lotava o auditório.

Thiago de Mello e Ademir Ramos.

Em seguida, eu voltei, desta vez com a querida Ana Peixoto, para falar sobre “A leitura na sala de aula – o livro e o prazer de aprender”. Mais festa.

Zemaria Pinto, professor Elias (mediador) e Ana Peixoto.

À noite, aconteceu o recital de Celdo Braga, o lançamento do livro “Arquitetura do Poder”, da professora Iraildes Caldas Torres, natural da terra, e uma concorridíssima sessão de autógrafos com os presentes: A própria Iraildes, Thiago de Mello, Ana Peixoto, Carlos Lodi, Xico Gruber (também da terra), Celdo Braga e o locutor que vos fala. 

Iraildes Caldas Torres, Thiago de Mello e Ana Peixoto.

No dia seguinte, pela manhã, os escritores, juntamente com o prefeito Miguel Paiva e o secretário de Cultura, Xico Gruber, saíram pela periferia da cidade distribuindo livros, de porta em porta. A participação dos citados foi simbólica, mas a rapaziada do IFAM, voluntariamente, se encarregou de cobrir todas as casas de vários bairros.

À tarde, houve um encontro sem pauta, entre os escritores Thiago de Mello, Ademir Ramos e Zemaria Pinto com os professores da rede pública. Devo dizer que foi catártico, para ambos os lados.

 Thiago de Mello, Ademir Ramos e Zemaria Pinto.

À noite, o grupo Imbaúba e o poeta Thiago de Mello encerraram o evento com um emocionante espetáculo, pleno de poesia.
  
Grupo Imbaúba e Thiago de Mello.

PS1: os caros Wilson Nogueira e Dori Carvalho – citados por cem por cento dos mal informados como presentes no evento –, por razões diversas, nem molharam os pés no Maués Açu.

PS2: aos caros Xico Gruber, secretário de Cultura, e Carlos Lodi, coordenador executivo do Flifloresta, quero parabenizar de público pelo sucesso do evento. Os dois, pessoalmente, comandaram todas as ações.

PS3: destaco também a equipe de apoio, formada por Nelson Castro, o mestre-de-cerimônias José Farias e Magda Mafra – além do pessoal da terra, liderado pela D. Osvaldina.

Thiago de Mello e Zemaria Pinto, segurando a lembrança do festival, um belo trabalho de marchetaria, feito por artesãos da cidade.

 O indescritível pôr do sol de Maués, em plena cheia, visto da área de lazer do Hotel Marupiara, onde eu e o Ademir Ramos fomos recebidos como morubixabas.

Fantasy Art – Galeria

Angels.
Heidi Taillefer.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Memórias-sócio-genéticas e as linguagens-culturas: construções essenciais da vida – 3

João Bosco Botelho



7. Linguagens-culturas: partes essenciais da vida

É inconcebível pensar nas linguagens e nas culturas ligadas somente às trocas metabólicas físico químicas, nos níveis biológico molecular, ou nas exclusivas origens sociais. É tempo de interagir a natureza, o social e a História à genética. A força mental que impulsiona a repetição e molda a ficção é muito forte para ser exclusivamente sóciocultural.

O conjunto das reações neuroquímicas, ligando o ser ao objeto, só é consolidado nas mentalidades ─ memorizado e reproduzido ─ quando for elaborado em estreita consonância com as necessidades pessoais e coletivas, requeridas no processo societário, especialmente, a fuga da dor e a busca do prazer.

O ser é biológico e social; ele não existe sem as relações de trocas e estas não seriam possíveis sem ele. As ações apreendidas, inclusive as linguagens e as culturas, também seguem concatenamentos semelhantes nos caminhos do SNC.

Como esses caminhos, que dependem da forma e função de muitos segmentos do corpo, especialmente as do córtex cerebral, possuem claríssima dependência dos genes, do mesmo modo que é importante conhecer as análises históricas anteriores das linguagens e das culturas, objetivando compreender as linguagens e as culturas que desprezam os saberes genéticos estão distantes da atualidade da ciência.

Por outro lado, os indicadores mostram que as teorias que pretendem desvendar os mistérios da vida de relação, nas quais estão incluídas as que tratam da fantástica capacidade de escrever, valorizando a natureza humana pendular entre o objetivo e o subjetivo, contida nos determinantes intrínsecos e extrínsecos, acima citados, oferecem maior possibilidade de acerto.

O conjunto formador da ação apreendida não se dá sobre o nada. As estruturas nervosas, centrais e periféricas, responsáveis pela intercomunicação entre a memória, a linguagem, os sentidos e o social ligam se ao córtex cerebral, através de bilhões de sinapses. É a prisão mental de cada um. É a jarra de Pandora de onde já saiu, na oralidade, e continuará brotanto, na linguagem escrita, todos os infortúnios e todas as esperanças da humanidade.

A vida de relação, registrada nas linguagens-culturas, está sob o constante crivo neurológico funcional. Não existe qualquer dúvida das conjunções anatômicas e funcionais, unindo como gêmeos xifópagos, a forma e a função, mesmo que até hoje não estejam bem explicadas.

Entretanto, estão identificados, pela cirurgia experimental, alguns centros neurológicos específicos, relacionados com o comportamento emocional. Quando estimulados artificialmente por corrente elétrica, nos animais de laboratório, são capazes de os impelir às expressões de sono, agressividade e medo ou fazer o animal assumir posição de cópula ou de choro.

Há de existir algum tipo de coerência funcional a nível celular, molecular e em dimensões ainda menores, na conjunção massa energia, no interior do átomo, ligando o ser ao objeto, transcrito no ato de escrever.

Logo, a capacidade individual para sentir e expressar as emoções, nas linguagens, nasceriam como conseqüência das relações biológico sociais.

Vez por outra, o lento desvendar avança apoiado no estudo dos achados acidentais. Foram descritos dois casos clínicos, na literatura especializada, relacionados com os núcleos cerebrais da linguagem, atendidos por pesquisadores da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, e do Hospital Maggiore, Bolonha, na Itália.

No primeiro, um homem com 62 anos, depois de sofrer um derrame cerebral, não conseguiu mais escrever as vogais; as palavras eram escritas em perfeita simetria com o pensamento expresso oralmente, porém só com as consoantes. O paciente não conseguia simbolizar as cinco letras. Não resta mais dúvida de que a escolha dos caracteres, para compor a linguagem escrita, está contida num segmento específico do cérebro.

O segundo relato diz respeito ao paciente do sexo masculino, 32 anos, norte americano, que depois de ser acometido por acidente vascular cerebral, perdeu a familiaridade com o inglês, sua língua materna, e passou a acrescentar vogais às palavras, resultando num sotaque escandinavo. A cura do distúrbio deu se na medida da recuperação da área cerebral danificada pela isquemia.

É precisamente nessa convergência, entre o físico presente na estrutura celular e o crivo do genético social, dando forma à função, que ocorre a maravilhosa e intrigante materialidade da idéia invisível, capaz de nominar, desvendar, criar e transformar o objeto.

Por essa razão não existe discurso sem a linguagem impregnada do saber acumulado historicamente. No contexto da multidisciplinaridade, as gramáticas são, na essência, ideológicas, porque expressam um tipo de posse do real e as características pessoais que marcam, profundamente, nos corpos, os prazeres e as dores sentidos e imaginados.

Por essa razão, a busca da verdade opera se no conflito entre o objetivo e o subjetivo (de certa forma, confundindo se com o sagrado e o profano), refletindo o estado da coisa numa determinada temporalidade. A variante do tempo impõe se, por estar contida na essência que torna perceptível a forma e a função do ser vivente.

O objetivo primário da ação neurológico motora (a idéia seguida do movimento do corpo), motivada pela mensagem atávico social, responde, por si mesmo, ao mais fundamental sentimento mantenedor da sobrevivência: a cooperação unindo os grupos para fugir à dor e desfrutar do maior prazer. Algo que poderia ser chamado de crítica da proteção pura.

Todos os seres vivos, sem exceção, desejam o abrigo protetor. Não se trata, exclusivamente, do viver. O morrer pode representar, em certos instantes, o ato cooperativo dominante e, nesse caso, a morte representará a proteção pura.

O anseio para compreender as diferenças entre o constatado pelos sentidos (objetivo) e o imaginado extrassensorial (subjetivo), propiciou interdependência muito forte entre elas. Em certas etapas do processo, é impossível saber onde começa uma e termina a outra.

Não existiram partidas independentes. A realidade, vivida pelos humanos com os outros animais, dividindo o meio ambiente comum, contribuiu para fortalecer profundas imitações simbólicas, presentes como marcas profundas do tempo passado, na consciência coletiva.

Muitos inventos e expressões estéticas, no passado e no presente, projetadas pelo aprimoramento da técnica, acabam sendo facilmente identificadas no meio comum partilhado.

O ímpeto para reproduzir os elementos visíveis, tirando deles a utilidade para sustentar o conforto (aqui compreendido como a fome e a sede saciadas, o alívio da dor e o abrigo contra o frio e o calor), influenciou as primeiras interações entre o pensamento, o ato e o social.

O fato dos nossos ancestrais longínquos terem aprimorado as cópias do perceptível na natureza circundante, animais e coisas, nos abrigos das cavernas, há milhares de anos, representa a certeza da profunda coerência entre a forma e a função no corpo.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Fantasy Art – Galeria

Woman Shaman.
Viktor Titov.

drops de pimenta 68

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─ Tanta mala...

─ É pra dar um tempo? Então que seja tempo suficiente!

─ Mas não precisa levar tanta coisa. Tenho certeza que você volta...

─ Quer checar pra ver se estou levando algo que não devo?


(Zemaria Pinto)

terça-feira, 22 de junho de 2010

Flifloresta em Maués

O Festival Literário Internacional da Floresta de Maués (Flifloresta/Maués), promovido pela Prefeitura do município, acontecerá no período de 22 a 24 de junho, com a presença dos escritores Thiago de Mello, Márcio Souza, Abrahim Baze, Ademir Ramos, Carlos Lodi, Zemaria Pinto, Ana Peixoto e Wilson Nogueira. O Flifloresta vai fazer parte da programação do Festival de Cultura de Maués, evento que contará com atividades desenvolvidas no período de 2 de junho a 4 de julho, em comemoração aos 177 anos do município (24/06).

A abertura do Flifloresta/Maués está marcada para as 20h30, com a palestra magna “A Educação Escolar na Amazônia e a Formação de Leitores”, ministrada por Márcio Souza. No segundo dia do Flifloresta acontecerá o Simpósio de Leitura e Formação de Leitores, com a presença dos escritores convidados. O Simpósio será das 8h às 21h. Dentro do Simpósio, haverá a palestra “Os Índios na Amazônia – Dominação e Reconhecimento”, e as mesas temáticas “A Internet e a Leitura: Conexão e Virtualidade”, “A Experiência da Leitura na Construção do Ser Humano”, e “A Leitura e o Letramento”. A programação do Simpósio encerra às 20h, com o lançamento dos livros “A Sementinha Voadora”, de Wilson Nogueira, e “O Garoto que Não Quis Envelhecer”, de Xico Gruber, secretário municipal de Cultura e Turismo de Maués. A noite do dia 23 haverá as apresentações dos Poetas Vencedores do Concurso de poesia da cidade, com lançamentos de vários livros e sessão de autógrafos.

No último dia de Flifloresta/Maués, haverá uma vasta programação durante todo o dia, como a distribuição gratuita de livros na periferia da cidade, no Projeto Bibliocleta, com a participação de escritores e voluntários. A Prefeitura de Maués vai usar a estrutura do projeto Bibliocleta para fazer a doação de 5 mil exemplares diversos. O Bibliocleta é uma iniciativa lançada pela Prefeitura, que consiste em uma biblioteca itinerante, com os livros sendo levados de casa em casa por meio de bicicletas, em caráter de empréstimo.

Acontecerá também nesse dia o Encontro de Professores com Thiago de Mello e Zemaria Pinto. No Museu do Homem de Maués o chamado Café Literário, com a performance poético-musical dos poetas Thiago de Mello e Celdo Braga e participação do Grupo Imbaúba. Ainda a apresentação de Fofão & Cia, queima de fogos em comemoração ao aniversário de Maués e apresentação de Salomão Rossy & Banda.

Segundo o prefeito do município, Miguel Paiva Belexo, a realização do Flifloresta, como parte do Festival de Cultura de Maués, institui um novo conceito de comemorações populares. “Todo mundo está acostumado a fazer festas apenas com shows musicais. Estamos criando algo que vai além, que pode deixar sementes para o povo. O contato com a literatura pode mudar a vida de uma pessoa, seja de qual idade for”, afirma. Os locais de realização do Flifloresta em Maués ainda serão definidos.

A primeira edição do Flifloresta aconteceu em 2008, em Manaus. Ano passado, os municípios de Careiro da Várzea, Itacoatiara e Parintins também foram cenários do evento. A participação popular é gratuita.

O estranho caso da Vila da Barra – 5

Marco Adolfs

– Doutor Pompéia – retomou a falar o senhor Lourenço, enquanto me fitava incisivamente –, deves ter percebido que esta nossa localidade passa por momentos difíceis. A invasão de alguns indivíduos vindos pelo rio nos deixou arrasados e com a economia abalada. Enfrentamos ainda o problema da subordinação política e de não admitirmos mais que esta comarca continue dependente do governo do Grão-Pará. Tempos atrás – continuou, misturando os assuntos – houve um levante sangrento na Barra e nós, portugueses, chegamos a temer por nossas vidas. Enfim, a cidade tenta recuperar-se disso tudo. Sinceramente, não sei o que pode ainda nos acontecer daqui para frente. Está tudo tão ruim – lamentou o português, enquanto cofiava as pontas de seu espesso bigode. O comércio está precisando de uma empurradela vigorosa, ora pois – disse, cabisbaixo. A castanha, a salsaparilha e o peixe têm sido nossa salvação. Outros produtos, também muito procurados, foram escasseando e cada vez fica mais difícil encontrá-los. O que temos dá apenas para sobreviver, digo. Precisamos de uma ajuda que nos tire dessa situação.

– E a produção daquela goma elástica? – resolvi perguntar, levando a conversa para a direção imediata ao meu interesse. – Aquela árvore que produz leite?

– Sim, da seringa!... Em alguns países da Europa existem artigos que são...

– ...Aqui restam poucas pessoas que ainda trabalham com essa árvore e ficam em uma região distante da vila – interrompeu o português. É claro que algumas barcas descem o rio com essa borracha. Mas é cada vez mais escassa.

– Mas a produção vai aumentar! – exclamei, com enigmático entusiasmo. E os objetos provenientes desse látex não vão servir apenas para compor tecidos de cintas e ligas ou de suspensórios e sapatos que se destroem em poucos meses – completei, com uma confiança estampada no rosto que assustou a todos.

– Como assim? – perguntou o português, ansioso e intrigado com meu entusiasmo.

– Coisa de um ano atrás um tal de Goodyear, da América, aperfeiçoou a descoberta que um outro sujeito havia feito. É um processo novo de transformação do látex em goma elástica chamado vulcanização. Os objetos de borracha adquirem uma estabilidade e tornam-se duráveis. Essa goma elástica poderá ser ainda mais usada para fazer novos e variados objetos – expliquei, quase eufórico.

(Continua na próxima terça)

domingo, 20 de junho de 2010

Sobre a verdade

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A verdade me repugna. Os donos da verdade me enjoam. Qualquer verdade: a de Descartes, a dos Evangelhos, a dos partidos podres políticos.
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Eu amo a dúvida!

Eu me alimento da dúvida!

Só a dúvida me interessa!

(João Sebastião – poeta nefelibata, filósofo de boteco, profeta do caos –, discursando para sonolentos e entediados garçons, às 3 da manhã)

sábado, 19 de junho de 2010

sexta-feira, 18 de junho de 2010

José Saramago (16/11/1922-18/06/2010)

Morreu no princípio da tarde desta sexta-feira, na Espanha, o escritor português, prêmio Nobel de Literatura de 1998, José Saramago.

Espírito controverso, suas opiniões, como seus livros, nem sempre eram unanimidade.

Poeta, contista, dramaturgo, cronista, memorialista, foi no romance que Saramago se destacou como um dos principais escritores do século XX.
Algumas de suas obras: Memorial do convento (1982), A jangada de pedra (1986), História do cerco de Lisboa (1989), O evangelho segundo Jesus Cristo (1991), Ensaio sobre a cegueira (1995).
Caim (2009), seu livro mais recente, traz a marca do escritor iconoclasta, ao fazer do bíblico e estigmatizado personagem um herói sensual, vítima dos caprichos de um deus cruel e vingativo.

Ilustrações, na sequência: Fernando LLera, Carlos Jarnac e W. Amoroso.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Arthur Engrácio e o Homem Natural

Zemaria Pinto*


Do grupo de escritores que gravitou em torno do Clube da Madrugada, Arthur Engrácio foi dos poucos a se dedicar somente à prosa de ficção. Foi dos poucos também a enveredar pelos tortuosos e nem sempre compensadores caminhos da análise literária, onde se peca pelo que se diz e, principalmente, pelo que não se diz. Depende da perspectiva de observadores e observados.

Mas numa e noutra atividade, Engrácio foi, sobretudo, honesto. Sua prosa é simples, objetiva e direta. Se fosse classificá-lo em uma escola, para satisfazer a sanha dos que não conseguem ver a literatura além dos quadros cronológicos, diria que ele é um naturalista tardio, embora o seu universo, centrado especialmente no interior amazônico, comporte, por isso mesmo, classificações mais ousadas.

A unidade da obra de Engrácio deriva de duas grandes vertentes: a regionalista e a mítica, sendo a primeira fruto da observação direta da vida do homem do interior da Amazônia, e a segunda decorrente da aceitação do universo mítico primitivo desse mesmo homem. Ao refundi-las, Engrácio pratica um realismo fantástico, onde o boto, a boiúna e a mãe-d’água transitam sem causar espanto entre a escória desvalida dos grotões amazônicos.

A propósito de Histórias do Submundo, o livro com que Engrácio estreou em 1960, Márcio Souza observa que “eram 128 páginas desiguais, unidas apenas pelo rancor”. O mais recente livro de Engrácio, A Vingança do Boto, de 95, confirma essa tendência: o rancor faz parte do seu estilo. Engrácio constrói uma literatura de tons fortes, por vezes desagradáveis, denunciando a exploração a que o homem do interior amazônico é submetido desde sempre, sem nenhuma preocupação em agradar a paladares mais sensíveis.

Apesar de original, e de manter uma constante unidade temática, Engrácio nunca foi um inventor de formas, mas foi, sem dúvida, um desbravador dos caminhos da literatura regionalista que se pratica hoje no Amazonas. O professor Marcos Frederico, ao referir-se a Estórias do Rio e à importância histórica de Arthur Engrácio no contexto da literatura amazonense, diz que “a prioridade à Amazônia não é regionalismo inconsequente. Trata-se de assumir uma identidade que, durante os anos, foi massacrada e relegada a um papel secundário”, para arrematar: “a imagem que os contos de Arthur Engrácio transmitem é exatamente esta: a dimensão da Amazônia. Mas não somente a dimensão geográfica. O que Engrácio focaliza, em sua prosa precisa, é principalmente o homem amazonense em sua dimensão maior”. O homem natural, com todas as suas inconveniências e idiossincrasias, sem maniqueísmos: humano, demasiadamente humano.

Encerrando um ciclo na literatura amazonense, sem deixar herdeiros à sua altura, Arthur Engrácio lega-nos um romance inédito, São José do Uruá - Um Mergulho no Mundo Mágico da Boiúna. No dia 16 de abril, Engrácio completaria 70 anos. Há 3 anos, ele surpreendeu-me com um poema para ser publicado nO FINGIDOR: era uma faceta inédita do Jacaré, como os amigos o chamavam na intimidade. O poema homenageava o amigo Ernesto Penafort, falecido. Trocando os nomes, numa paráfrase elegíaca, concluo, citando o primeiro verso daquele poema: noutros tempos, Arthur, eras futuro!


*Publicado no Suplemento Literário Amazonas, logo após da morte de Arthur Engrácio, dia 02 de abril de 1997.

Memórias-sócio-genéticas e as linguagens-culturas: construções essenciais da vida – parte 2

João Bosco Botelho


5. O neocórtex cerebral e as relações com as linguagens

O neocórtex é um conjunto heterogêneo de áreas encefálicas também relacionadas ao comportamento emocional e à capacidade de o sujeito organizar o pensamento ficcional. Entre as estruturas mais importantes, se destacam o tronco encefálico, hipotálamo, tálamo, área pré frontal e sistema límbico.

Desde 1937, os estudos de James Papez demonstraram que as emoções estão, na maior parte, relacionadas com as estruturas do sistema límbico, do hipotálamo e do tálamo, posteriormente identificadas como “circuito de Papez”.

Mesmo com os progressos posteriores da neurofisiologa, não foi possível separar a linguagem emocional (choro, riso, gestos, postura corporal, a mímica do prazer e da dor), de origem predominantemente límbica, da linguagem voluntária, cuidada no vocabulário, armazenado no neocórtex.

A cirurgia experimental evidenciou a importância vital do sistema límbico nas emoções. Após a retirada cirúrgica bilateral da parte anterior dos lobos temporais em macacos Rhesus, provocando lesões irreversíveis no hipocampo, giro parahipocampal e corpo amigdalóide, os animais modificaram o comportamento:

– Agressividade foi substituída pela passividade;

– Comer alimentos antes recusados;

– Incapacidade de reconhecer objetos, como ferro em brasa, e outros animais, como escorpiões e cobras, antes identificados como determinantes de dor física e medo;

– Aumento da atividade oral levando todos os objetos à boca, mesmo aqueles que poderiam causar a morte;

– Aumento desordenado da atividade sexual, levando os animais a tentar copular com parceiros de outras espécies e a de se masturbarem continuamente.

Fora da conhecida conjunção genética, não se conhece as razões da lateralização funcional dos hemisférios cerebrais indicam o esquerdo, nos indivíduos destros, o predominante na linguagem e no controle da atividade gestual proposital.

O hemisfério cerebral direito é o responsável pela apreensão visual-espacial, pelas atividades musicais e reconhecimento da forma fisionômica. Assim, identifica e classifica, através da análise da forma, sem que o nome do objeto, na linguagem oral, ou a palavra, na linguagem escrita, necessitem ser expressos.

Nos primatas, a vocalização organiza se na face interna do lobo frontal. No rastro da ontogênese, esse controle se tornou mais complexo. No homem, está numa área ainda mais especializada que engloba a convexidade do córtex frontal, mantendo conexões sinápticas, no sentido crânio caudal, no nível rinencefálico, reticular peduncular, bulbo e órgãos fonadores. Dessa forma, graça a essa interligação anatômica, os humanos reagem, seletivamente, ao sinal sonoro e imitam a mensagem ouvida.

Como sequência, as linguagens guardam nas origens ontogenéticas a profunda marca da vida afetiva, onde as emoções sentidas ou ficcionadas estão armazenadas em memórias, infelizmente, ainda escondidas nas dimensões molecular e atômico corpuscular.

Um dos produtos finais da interligação das estruturas cerebrais com a vida social — linguagens e culturas — é reproduzida na consciência de si mesmo sentida pelo sujeito, impondo a incrível condição de depositário e herdeiro das gerações anteriores, transmitida, inicialmente, pela oralidade e, depois, pela linguagem escrita, na construção das culturas.

6. Inter-relação neocórtex e outras estruturas cerebrais na construção das linguagens e culturas

A maior parte dos neurocientistas concorda que a linguagem, para se manifestar, estabelece estreitas correlações sinápticas em vários segmentos do encéfalo, passando no neocórtex associático, com o objetivo de manter ativa a percepção do circundande e a expressão das emoções vividas na interpretação do ato apreendido.

Na dimensão macroscópica (órgão), os pontos cerebrais em torno dos quais se organiza a linguagem são: área de Broca, área motora responsável pelo controle fonético da expressão e a zona de Heschl, de natureza receptiva, onde a mensagem é decodificada.

Os dois hemisférios cerebrais não participam igualmente desses complicados mecanismos neurofisiológicos. A dominância do esquerdo, nas atividades manuais, é programado geneticamente. Por outro lado, sabe se que o hemisfério cerebral direito não é desprovido de função linguística. Apesar de o direito não ter acesso à palavra, é capaz de manter a informação em torno de frases curtas e pode decifrar a linguagem escrita.

Sem que possamos estabelecer as razões, mesmo anatômico e funcionalmente menos adaptado para exercer o domínio da linguagem, o hemisfério direito poderá substituir o esquerdo, no caso de uma lesão irreversível que danifique a estrutura, como as sequelas pós-trauma, antes da idade de cinco anos.

Talvez essa similitude escondida na forma e trazida à tona na necessidade da função suprimida por causas não congênitas esteja relacionada com certos aspectos moduladores do discurso que interagem os dois hemisférios cerebrais, traduzidos na linguagem escrita, com os advérbios e as locuções exprimindo reserva e acentuação, como nas respostas à dor e ao prazer, expondo sentimentos e expressões muito diversas.

Mesmo não sendo ainda possível demonstrar no laboratório, é possível supor que esse processo ontogenético que mudou a forma na dimensão macroscópica, também determinou modificações estruturais, no nível celular e molecular, capazes de ajustar as funções cerebrais às necessidades sociais, especialmente nas linguagens e culturas que expressam dor e prazer, tanto pessoal quanto coletivamente.

Essa afirmativa é incisiva e incontestável em outras partes do corpo. Por exemplo, a diminuição gradativa da arcada dentária em função do menor uso do esforço mastigatório. A partir do uso do fogo, mais ou menos há trezentos mil anos, ocorreu um conjunto de fatores, incluindo o cozimento dos alimentos, tornando os mais macios, ocasionando a redução da potência da musculatura mastigatória e, em consequência, do tamanho e número de dentes eruptos, na maturidade. Essa seria a explicação de os terceiros molares permanecerem inclusos.

Infelizmente, a maior parte do SNC permanece desconhecida em nível molecular e dificulta o estudo nos moldes do método experimental.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Fantasy Art – Galeria

drops de pimenta 67

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─ Dez anos de casamento... Não podemos deixar escorrer assim, entre os dedos...

─ Eu prefiro nem pensar no tempo perdido!


 
(Zemaria Pinto)

terça-feira, 15 de junho de 2010

A substância das sombras - cinema arte do nosso tempo

O estranho caso da Vila da Barra – 4

Marco Adolfs


Após falar sobre uma série de assuntos do lugarejo, o senhor Lourenço passou então a apresentar seus familiares. Os dez filhos que tivera com sua primeira mulher, já falecida, e mais três que haviam nascido de sua união com uma jovem nativa. Ao todo, treze mirradas e aparvalhadas crianças mestiças.

– Este aposento está a sua disposição – disse o português, todo sorridente, enquanto abria uma enorme porta de madeira que alcançava o teto, para mostrar o quarto onde eu ficaria acomodado. – Ele é conjugado com um outro, menorzinho, e possui dois janelões que dão para uma bela vista lá fora – explicou. Pode ficar à vontade.

Assim que o hospitaleiro português saiu, passei a arrumar minhas roupas em cima de uma pequena mesa. Coloquei então a muda mais leve que tinha e procurei relaxar meu corpo cansado em uma rede feita de cipó que, maravilhosamente, estendia-se convidativa de um lado a outro do quarto. Mas, meu descanso não demorou muito, interrompido que foi com uma batida na porta. Quando a abri, um pouco contrariado devido à interrupção, deparei-me com um criado da casa, um índio baixo e sorridente, avisando-me, através de gestos, que o almoço estava servido.

– Bem, doutor Pompéia, espero que goste da nossa comida! – foi logo dizendo o português, assim que cheguei ao local da casa onde todos estavam reunidos. Um misto de surpresa e curiosidade estava estampado naqueles rostos mestiços a me observarem.

– É um caldo quente de peixe misturado com uma farinha de raiz indígena chamada mandioca – continuou o português, enquanto apresentava o prato principal. O senhor vai gostar desse nosso peixe, tenho certeza – afirmou.

Naquele momento notei que a única mesa do recinto não daria para acomodar a todos. Porém, assim que o senhor Lourenço se aproximou, imediatamente a criadagem e as crianças começaram a sentar-se pelo chão, cada qual segurando um recipiente de madeira, que chamavam “cuia”, à espera da comida que fumegava em um tacho colocado ao centro da mesa. Um dos criados então adiantou-se, pegou o caldo de peixe e começou a servir. Junto à mesa ficara apenas eu, o senhor Lourenço, sua jovem mulher e o criado que me chamara para almoçar...


(Continua na próxima terça)

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Altas literaturas

Evento matinal na Livraria Valer. Sabe-se lá o que o Zemaria Pinto está dizendo para despertar a atenção do Luiz Bacellar...
(Foto: José Farias)

domingo, 13 de junho de 2010

Manaus, amor e memória XVI


O Jornal do Commercio do dia 13.08.1970 trazia a foto acima, ilustrando matéria que divulgava o filme de Márcio Souza, estrelado por Pierre Clementi e produzido por Renzo Rosselini, filho do cineasta Roberto Rosselini. O filme não saiu, mas, dois anos depois, Márcio Souza dirigia A selva, baseado no romance homônimo de Ferreira de Castro, encerrando precocemente sua carreira de cineasta. Em 1976, Márcio Souza, que já atuava como autor e diretor de teatro, lançou o romance Galvez, o imperador do Acre, início de uma carreira consagrada de romancista, que segue de vento em popa...

Colaboração: Roberto Mendonça.

sábado, 12 de junho de 2010

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Obra nenhuma da engenharia humana pode ser construída no Encontro das Águas

Thiago de Mello

Quem chega a Manaus vai logo querendo saber onde é que ele fica. Quer ver logo o lugar já célebre, onde as águas barrentas do Solimões e as retintas do Negro se encontram, se abraçam, gostam demais de ficar ali unidas, de margem a margem, não sabem viver sem a outra. Mas nada de muita intimidade. Não se misturam. O sábio Jari Botelho, querido meu de infância, dizia que os dois são é pávulos já demais. Assim explicava o fenômeno mágico da mão da Natureza.

Quando veio me ver aqui na floresta, que é dele também, o querido Gabriel Garcia Marquez, escritor colombiano, prêmio Nobel de Literatura, com o seu Cem Anos de Solidão, pediu para parar o barco quando passamos pelo Encontro das Águas. Enquanto sua mulher, a linda Mercedes, tirava fotos, ele fascinado só fazia dizer:

– Es um asombro!

O poeta peruano Arturo Corcuera, hijo de la selva, quando veio para o evento “A Poesia de Se Encontra na floresta”, em Manaus, maravilhado com o que via, fez um comentário que não esqueço:

– El nuestro Solimoens quiere entrar, tu rio Negro no le permite, él lo acarícia y sigue solo, transformado em el Amazonas.

Ernesto Cardenal, autor do genial Cântico Cósmico, que já três vezes veio passar temporada em Barreirinha, sempre ia para a proa do barco quando nos aproximávamos da boca do Solimões. E me chamava:

– Vamos al encuentro del Encuentro!

E o seu deslumbramento está gravado em comovidos versos do seu poema “Manaus Ressuscitada”.

Dona Clotilde Pinheiro, diretora do Grupo Escolar José Paranaguá, onde fiz feliz o meu curso primário, escreveu uma quadra, que não é lá essas maravilhas, mas que recordo contente toda vez que contemplo demorado a beleza deste milagre da Natureza:

Um lindo encanto te espera
lá no encontro das águas:
só divisá-lo já faz
esquecer todas as mágoas.

Já o poeta cearense Quintino Cunha, quando cruzou os olhos com as duas águas pávulas, estava enamorado de Maria, para quem foi logo escrevendo o poema que celebrizou o Encontro:

Vê bem, Maria, aqui se cruzam: este
É o Rio Negro, aquele é o Solimões.
Vê bem como este contra aquele investe.
Como as saudades com as recordações.
(...)
Se estes dois rios fossemos, Maria,
Todas as vezes que os encontramos,
Que Amazonas de amor não sairia
De mim, de ti, de nós que nos amamos!!…

Pois não é que tem muito amazonense e até brasileiros lá das bandas do Sul, que pouco estão ligando para a beleza do fabuloso Encontro? É gente do governo acelerado, da indústria que refresca, da empreita audaciosa. Até das estranjas.

Estão querendo fazer (e vão acabar fazendo, se um valor mais alto não se levantar, bradando contra a ganância dos impiedosos) um porto portentoso, de tecnologia de índole humilhadora, bem no lugar onde reina, encantado, o famoso fenômeno que nem dona Ciência explica de uma vez por todas.

Os profissionais do desenvolvimento desumano sustentam, até rindo, que o Encontro das Águas fica lá bem longe. Do outro lado do rio, o turbilhão dos navios não lhe vai fazer dano algum. Que tudo está sendo muito bem calculado, com a perícia enganosa dos poderosos.

Os que só sonham com riqueza, dizem que paisagem não dá lucro, alma do capitalismo. Que turista tem muito mais coisa bonita para ver na floresta. Dinheiro vai correr solto, mais caudaloso do que a maravilha das águas. Haja caixas numeradas e bem remuneradas.

Mas, devagar com o andor, perdão, com o guindaste, porque pode emperrar. Também tem muita gente boa, em tanto canto do mundo, onde a notícia da agressão começou a chegar, que não está gostando nada desse porto, ali naquele pedaço tão lindo chamado das Lages.

Gente fina, de alta cultura, achando que não é próprio da decência e fere a inteligência esse tombamento feito pela direção estadual do órgão criado para proteger o patrimônio nacional, que se restringiu ao espaço fluvial da dança dos dois rios.

Ai, os tempos mudam, as alturas dos homens também. Vivos estivessem Rodrigo Melo Franco de Andrade, Lucio Costa, Manuel Bandeira, Joaquim Cardozo, fundadores do IPHAN, sabedorias e dignidades profundas como as águas do Negro, tombariam contentes todo o entorno do Encontro, de margem a margem, barrancos adentro.

Obra nenhuma da engenharia humana ali pode ser construída, que magoe a alma daquela criação feliz da Natureza amazônica.

Empresário filho ingrato da floresta, diz rindo que paisagem tem já demais, está mas é sobrando. Os donos do projeto alardeiam que a Vale pode tudo, para a Vale tudo vale. Trata-se da gigantesca Vale do Rio Doce, que deixou de ser nacional.

Pois a história da esperança humana ensina que o povo pode e vale mais. Que sagrado deve ser o amor à Natureza. Grandes são os poderes da aurora, cuja luz adverte que é por essa e por outras que a Terra está se vingando das ruindades que andam fazendo com ela.

Eu, que não tenho lá essas grandes luzes, só advirto que todo cuidado é pouco, não convém ofender muito as águas. Com a vida delas não se brinca, não. Com fogo até que se pode brincar, porque se apaga. Mas com água não se brinca, não, porque ela alaga e, de repente, afoga.

Publicado originalmente no Blog da Amazônia.

26º Festival Poético

Memórias-sócio-genéticas e as linguagens-culturas: construções essenciais da vida – parte 1

João Bosco Botelho

I. LINGUAGENS-CULTURAS E A GENÉTICA

1. A forma do corpo antecedendo a função

A estrutura do ensino teórico-prático da ciência médica transmite precocemente, mesmo podendo não ser percebido de imediato, que a integridade das partes do corpo humano (anatomia) antecede a função (fisiologia) exercida pelas mesmas partes. Dito de outra forma, como ponto de partida, para que o sujeito veja, são necessários os olhos; ouvir, as orelhas; respirar, os pulmões, entre outros exemplos. Na evolução dos estudos, o aluno entende que não basta só esse binarismo aparentemente simples. A complexidade é muitíssimo mais densa. Em todos os níveis, é indispensável que os segmentos específicos do sistema nervoso central e do periférico, que captam, interpretam e reagem às informações coletadas também estejam com as formas e funções normais.

Sob esse pressuposto, para que haja linguagem, igualmente, é indispensável que existam e estejam funcionando as várias estruturas específicas relacionadas à linguagem, nos órgãos dos sentidos, sistema nervoso central e sistema nervoso periférico.

2. Linguagens e culturas

Um dos aspectos mais fascinantes da ciência médica é compreender o processo que culminou no acervo, guarda e reprodução dos saberes por meio das linguagens orais e escritas, que culminaram nas culturas.

As incontáveis manifestações culturais, especialmente as que elaboraram e mantiveram as construções do pensamento subjetivo, para explicar a imaterialidade e o invisível aos olhos, — estritamente dependente da integridade da forma e da função do neo-córtex cerebral, só presente nos humanos —, em última análise, na ontologia, transformaram-se nas responsáveis pela manutenção da vida, desde o aparecimento do neo-córtex nos antepassados Homo.

Sob essa perspectiva, as linguagens e as culturas são tão importantes quanto as vidas. Como mágicas, simultaneamente, desde o passado distante, as linguagens e as culturas inseriram e retiraram múltiplos sentidos às coisas e às vidas, sempre impulsionando na busca das respostas.

Se partirmos do pressuposto óbvio de que, no corpo, a forma antecede a função (para ver o objeto, o sujeito deve ter pelo menos um dos olhos íntegro; para ouvir, uma das orelhas normal; para respirar, os pulmões), é válido teorizar que sem neo-córtex, a existência das culturas seria impossível. Nesse caso, caberia perguntar: seria possível a vida sem as culturas?

O maior obstáculo para validar essa teoria é a impossibilidade de estabelecer as correlações entre a forma e a função, no sistema nervoso central, em especial, no neo-córtex cerebral, nos níveis macroscópico (órgão), microscópico (célula), ultramicroscópico (molécula), atômico e subatômico. Dito de outro modo, se a observação empírica é suficiente para comprovar que o ser humano é capaz de falar e construir culturas se torna obrigatório existirem áreas anátomo funcionais, nos níveis acima mencionados, responsáveis por aquelas ações.

Os entraves aumentam na razão direta do avanço dos estudos na direção das menores estruturas. O desconhecimento fica mais denso a partir da molécula; portanto, ainda muito distante da unidade massa energia, no interior do átomo, objetivo maior da investigação científica.

Assim, sob a guarda da anatomia, no nível macroscópico, do sistema nervoso central (SNC) humano, é possível ensaiar através da paleopatologia, com razoável margem de acerto, a análise das impressões determinadas pelo cérebro nos antepassados distantes, na face interna dos crânios fósseis. As transformações sofridas na forma do SNC há milhares de anos, e, conseqüentemente, no modo como o cérebro se mantinha em contato com os ossos do crânio, estão relacionadas com a atual capacidade de falar e de escrever.

Alguns antropólogos afirmam que as moldagens endocranianas dos Pithecanthropus (Homo erectus, viveu há 300.000 anos) evidenciam, na superfície cortical, marcas das áreas identificadas, hoje, como responsáveis pela linguagem falada. Nesse sentido, é razoável pensar que esse antepassado humanóide já possuísse algum tipo de fala.

Os atos humanos de falar e de escrever estão unidos em complexa ponte envolvendo a maior parte do SNC com a vida de relação, principalmente, certos segmentos do córtex cerebral, identificados com a capacidade de imaginar e representar a ficção, isto é, o objeto não percebido na materialidade espacial pelo sujeito.

3. Similitudes entre ontogenia e filogenia: fuga da dor e busca do prazer

Até três semanas de vida intrauterina existem incríveis semelhanças macroscópicas entre os embriões de diferentes espécies. Essa similitude impôs o conhecido axioma da biologia, presente na literatura desde a segunda metade do século 19: a ontogenia segue, em determinado tempo, a filogenia, significando que existe na espécie Homo sapiens sapiens herança genética de outras espécies.

Parte importante desse axioma, comprovado no estudo dos genomas de várias espécies, que estabeleceu pontes entre o passado muito antigo, contido no cérebro oriundo da filogenia comum e o cérebro atual, resultante do processo evolutivo é a insubstituível polaridade entre a dor e o prazer.

4. Linguagens e culturas para fugir da dor e buscar o prazer

As determinantes atávicas para fugir da dor e buscar o prazer continuam sendo os elos mais fortes das ordens filogenéticas e ontogenéticas. Todos os sujeitos, de qualquer espécie, se organizaram com o objetivo de evitar a dor de qualquer natureza e ativar as fontes naturais produtoras de prazer. Entre as mais importantes produtoras de prazer estão a sexualidade e os alimentos, ambos acompanhados das muitas derivações simbólicas.

É lógico também admitir que as contradições provocadas nas lutas em torno da sobrevivência dos antepassados distantes, pouco a pouco, induziram modificações na forma do corpo e, especificamente, na do SNC, ajustando-o para promover novas formas e funções ligadas à sobrevivência. Aceitar o prazer e recusar a dor parece ter sido um ponto comum de incontestável relevância no projeto da vida humana no planeta, incontestavelmente atado às linguagens e às culturas.

O corpo humano tornou-se adaptado a essa determinante sócio genética. Incontáveis terminações nervosas periféricas, conectadas ao cérebro, mantêm todas as estruturas corporais atentas à dor e ao prazer. É possível afirmar, sem receio de estar cometendo exagero, que a vida humana não teria sido possível sem essa adaptação neurossensorial.

Dessa forma, como fruto do processo de humanização, o neo-córtex cerebral adicionou ajustes às emoções, sempre atualizados à temporalidade da luta pela sobrevivência, ligando indissoluvelmente a fuga da dor e a busca do prazer às linguagens e culturas.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Fantasy Art – Galeria

Julie Bell.

drops de pimenta 66

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─ Vamos dar um tempo...

─ ...

─ Você pode ficar aqui; eu vou pra casa da mamãe.

─ ...

─ Você vai ter liberdade, poder se organizar...

─ Vamos ser práticos; nada de casa de mamãe: você dorme com as crianças, eu fico com o nosso quarto!


(Zemaria Pinto)

terça-feira, 8 de junho de 2010

Lançamentos - Prêmios Literários Cidade de Manaus 2008

O estranho caso da Vila da Barra – 3

Marco Adolfs


Comecei a sentir enorme dificuldade em caminhar, devido às subidas e descidas pronunciadas daquelas ruas sem calçamento e repletas de buracos com lama. Mas o que mais me impressionou nas cercanias da cidadela foi a quantidade significativa de umas aves de penas negras a circularem pelos ares ou mesmos rente a nossos pés. Meu companheiro explicou tratar-se dos urubus, uma ave de rapina da região.

Após muito subir e descer, suando as bicas sob um sol inclemente, finalmente atingimos uma parte da cidade onde a temperatura se apresentava mais amena. Atravessávamos por uma velha ponte de madeira por baixo da qual um braço de rio escuro deslizava placidamente saindo do interior da selva fechada. Não pensei duas vezes e, ao chegar do outro lado da ponte, convidei meu acompanhante para refrescarmos nossas cabeças e pés naquele riacho maravilhoso. Deliciosamente revigorados, retomamos a caminhada em direção ao meu destino, que, segundo o senhor Salgado, ficava a uns cinquenta metros em linha reta de onde estávamos. “Passando a próxima ladeira!”, disse, rindo.

Enquanto caminhava, os pensamentos se revolviam em minha cabeça, misturados que estavam com a dúvida e, porque não dizer, com a ousadia, dos meus reais propósitos naquela localidade. Trazia comigo uma carta de apresentação dos donos de uma fábrica de cerâmica portuguesa – a Companhia Nacional de Cerâmica Lisboeta –, que estavam interessados em investir, segundo eles, “em um novo e impressionante negócio que iria mudar o mundo”. Já havia estado naquela vila e pago o comerciante português para hospedar-me e ajudar-me no que fosse possível. Imaginava que esse homem poderia não saber de maiores detalhes sobre o negócio que havia por trás da minha ida àquele lugar. Por isso, quando finalmente cheguei a casa deste – incumbido de uma missão que julgava espinhosa e delicada –, pesavam-me as dúvidas sobre o que poderia acontecer no momento em que ele soubesse o que faríamos.

O senhor Salgado nos fez as prévias apresentações e despediu-se. Então pude me identificar melhor, como sendo “doutor Eurico Pompéia... O senhor a ser esperado naquela casa, trazendo uma carta de apresentação dos donos da...”. Mal pude terminar minha apresentação e fui interrompido pelo senhor Lourenço, um homem baixinho, barrigudo e de aspecto simpático e bonachão, que tanta alegria externou por minha chegada, “já esperada para qualquer momento”– disse –, que fiquei um pouco constrangido. Mas, aos poucos, desprendia-me de todos aqueles pensamentos de insegurança em relação a ele. De imediato passei a gostar daquele homem. Assim que adentrei o recinto que me parecia ser a sala principal do enorme sobrado de madeira onde morava o português, fui envolvido por seu jeito hospitaleiro. Esclareceu logo saber da minha chegada por esses primeiros dias do mês em curso e que por causa disso havia preparado um cômodo da casa para ficar a minha inteira disposição.

(Continua na próxima terça)

domingo, 6 de junho de 2010

Filhos da várzea – Verdade & Arte


Zemaria Pinto*


A primeira edição de Filhos da várzea veio à luz somente 18 anos após o lançamento do primeiro livro de poemas de Anibal Beça, Convite frugal. Se este era ainda um livro de adolescente (já não se fazem mais adolescentes como naquele tempo...), Filhos da várzea trazia um poeta maduro, curtido sob o alternante sol&chuva amazônicos, senhor das palavras e das melodias misteriosas que delas insistem em brotar.

Dividido em três partes, "Filhos da várzea", "Hora nua" e "Poemas dedicados", tendo os "4 cantares bacantes" como intermezzo, o livro nos revela o que viria a ser uma das marcas registradas do poeta: o domínio das formas - do precioso haicai guilhermino ao poema de metros livres e rimas brancas, experiências aproximadas às vanguardas em voga, sem deixar de dar uma piscadela marota com os sonetos construídos sobre a graça das redondilhas. Numa palavra, e sei que me repito, senhor de seu ofício: mestre.

A primeira parte, que dá título ao livro, compõe-se de dois sonetos introdutórios – um anunciando a escritura, outro expondo o tema – e nove poemas construídos de forma singular: seis estrofes, num crescendo aritmético de dois a sete versos, somando vinte e sete versos por poema. A presença enfática do número 9 não é gratuita ou ocasional, entretanto, pouparei o leitor de considerações simbólicas em torno do 9, chamando sua atenção apenas para a pele do poema, o observável logo na primeira visada: uma celebração da vida que insiste em brotar, mesmo no recôndito das várzeas:

Ele virá da luz e das águas,
das verdolengas águas de várzea.
Como a gárrula dos sábios prevê,
crescerá gaio à fímbria dos igapós.

Entre o místico, o mítico e o poético, Anibal arquiteta uma delicada peça de câmara, aparentada àquele Severino lá dos mangues do Recife.

A segunda parte do livro, "Hora nua", como o próprio título sugere, problematiza o tempo, uma das principais recorrências da poesia lírica. Mas não só o tempo é desnudado: o poeta reflete-se em cada poema, fazendo de cada circunstância um momento ímpar. No "Poema cíclico", por exemplo, que mereceu do saudoso professor Antônio Paulo Graça um ensaio minucioso e esclarecedor, ele celebra a passagem de seus 38 anos, identificando-se com o mito de Sísifo, condenado a rolar uma grande rocha até o topo de uma colina; ao atingir o ponto mais alto, a rocha rolava novamente para baixo, eternizando a punição:

Sem embargo
trago sempre no alforje
um fardo estrelas:
                                        sei-me estivador
                                        desse cais agônico:
                                        atarefado Sísifo.

Pois é esse o trabalho do poeta: buscar sempre o topo da criação em cada poema iniciado.

Nos "Poemas dedicados", ao lado das previsíveis homenagens anunciadas no título, encontramos poemas de rara extração, como "Primeira lição das facas", "O sono dos justos" e "Poema amargo para a cidade onde nasci e não pretendo morrer...". São trabalhos que transcendem a cronologia convencional, transformando-se em matéria de autêntica poesia, como um prêmio ao laborioso Sísifo: a arte consubstanciada em verdade, para muito além de seu tempo. Por isso, é mais que oportuna esta reedição de Filhos da várzea: não se trata de mero resgate de algo que foi, mas da afirmação de algo que é, perene, como o é a verdadeira obra literária.

*Apresentação à segunda edição de Filhos da várzea, editora Valer, 2002.

Sarah Rodrigues toma posse na Academia Paraense de Letras

A escritora Sarah Rodrigues, logo após a sua posse na Academia Paraense de Letras, dia 27 de maio, ladeada pelos amigos José Coelho Maciel e Jorge Tufic.

Na ativa


O pintor e escritor Moacir Andrade, 83 anos, discorre sobre seu patrono, Euclides da Cunha, em solenidade na última sexta-feira, na sala Mário Ypiranga Monteiro, da AAL. Observado pelo presidente José Braga, Moacir tem ao fundo o troféu e fantasias da Escola de Samba Vitória Régia, vencedora do carnaval amazonense de 2010, homenageando a Academia Amazonense de Letras.

sábado, 5 de junho de 2010

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Manaus, amor e memória XV

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Chamada pelo povo de Ponte de Ferro, ligando o bairro da Cachoeirinha ao Centro, foi inaugurada em 1895 e tem sobrevivido a mais de um século de reformas. Seu nome oficial é Benjamin Constant; hoje, situa-se embaixo dela um complexo de lazer popular chamado de Largo do Mestre Chico. Largo, eu não sei porquê; Mestre Chico é o nome do igarapé que passava (vejam a foto!) sob ela, desaguando no rio Negro.
Ignoram, os beócios que a tudo nomeiam, que por essa bela ponte passou, durante muitos anos, de ida e de volta, o poeta Maranhão Sobrinho (1879-1915), morador da Cachoeirinha. Taí um nome, esquecido, pra qualquer coisa desta cidade!

Processos históricos na ética médica (7/7)

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João Bosco Botelho

8. No século 17

O século 17, também conhecido como o século da razão, trouxe o encontro entre as liberdades com a ética médica. Esse complexo conjunto sócio-político foi firmemente tocado pelas idéias de Newton, Descartes, Locke, Spinoza, Leibniz, Cornelle, Racine, La Rochefoucault e Molière.

Como nunca no passado, as práticas médicas aumentaram o valor da materialização da doença, olvidando cada vez mais a dependência das idéias e crenças religiosas. Centenas de descrições de estruturas e sistemas anatômicos, que receberam os nomes dos respectivos autores, foram acrescentadas aos saberes anatômicos.

Sob o impacto dessas profundas mudanças estruturais, a ética médica foi retomada por Spinoza, em 1661, nos seus geniais livros A ética e o Tratado da reforma do entendimento, ambos valorizando a vida e rejeitando valores negativos da compreensão dos conflitos sociais. Nesse contexto, a Medicina oficial e o médico como seu agente, foram reconhecidos como partes importantes da construção do belo, do feliz, da vida, iniciando as concepções do “direito natural”.

9. No século 18

O século 18, reconhecido como o século das luzes, brilhou sob esplendor das idéias de Locke, Leibniz e Condillac. Essa característica foi retomada por Kant que reconheceu a supremacia da razão como instrumento para superar a ignorância. Sob certas condições é possível também entender certa semelhança com as ideias sobre a natureza dos homens, defendida pelos autores setecentistas, como o início da generosidade explícita, como manifestação da virtude, que os médicos devem adotar no trato com os doentes. Nesse contexto, Diderot acorda ao caráter protetor na natureza e Rousseau defende a natureza como “delicada amiga do homem”, como princípio da verdade e da virtude. Desse modo, o século 18 também refunda a ideia da generosidade virtuosa que rapidamente se aderiu à Medicina. Também é interessante assinalar que a ideia de progresso, central no século das luzes, não se desprendeu dessa generosidade, como está claro na declaração dos Direitos do Homem.

Esse ideário de generosidade, direito e ética se transformou em mensagens de liberdades e acenderam os pavios das revoluções que forçariam, outra vez, a abordagem da ética, sob a ótica do genial Kant. Esse homem extraordinário, sem jamais sair de sua cidade natal Königsberg, na antiga Prússia oriental, publica dois livros que mudariam algumas abordagens da ética e da moral: em 1788, Crítica da razão prática, e, em 1790, Crítica da faculdade de julgar. Este, essencialmente contra o autoritarismo que dominava o mundo político no qual vivia, sob o reinado de Frederico II, rei da Prússia, cujos julgamentos sumários lembravam os realizados pela Inquisição católica, nos quais o réu já entrava no julgamento previamente condenado e só eram permitidas as respostas “sim” ou “não” do próprio réu e das testemunhas, tudo feito para evitar as emoções nos julgamentos. O desfecho contra o vício nos julgamentos viria com a introdução do não menos genial Crítica da razão pura, onde a categoria metafísica é utilizada para repudiar todos os dogmatismos despóticos, falsas genealogias, as indiferenças quanto as diferentes naturezas dos saberes humanos.

Por outro lado, a forte presença do pensamento micrológico, inaugurado por Marcelo Malpighi, no Renascimento, atingiu e ocupou a maior parte do ideário da Medicina na busca da materialidade da doença sob as lentes de aumento.

Por outro lado, chegaram os avanços nos saberes em vários aspectos da Medicina:

– Fisiologia: a anatomia já não bastava à liberdade, as academias e sociedades médicas promoviam debates sobre o funcionamento dos órgãos;

– Fisiologia experimental: muitas funções foram monitoradas e melhor compreendidas nos animais de experimentação, principalmente o cachorro e o gato domésticos;

– Os estudos de Virchow foram fundamentais para a consolidação da histologia;

– Com a associação entre anatomia-fisiologia-micrologia-histopatologia nasceria a anatomia patológica explicando os mecanismo da morte causada pelas doenças;

- Muitos cirurgiões descrevem técnicas cirúrgicas com o objetivo de diminuir as complicações pré e pós-operatórias. Contudo, permanecia a temeridade pelas cirurgias cavitárias, no crânio, tórax e abdome, quase sempre sinônimo de morte do doente.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Torrinho, esta noite, no Fino da Bossa

Fantasy Art – Galeria

John Silver.

drops de pimenta 65

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A verdade é que já não somos mais os mesmos: marasmo, repetição, mesmice. A temperatura baixa e a gente nem percebe. Mas gelo também queima, não?

(Zemaria Pinto)

terça-feira, 1 de junho de 2010

Wilson Bueno assassinado!

O escritor Wilson Bueno (1949-2010), apenas mais uma vítima da violência?
Foto: Ricardo Craveiro.



Fernanda Trisotto e Adriano Ribeiro
Fonte: Blog Cella

O escritor Wilson Bueno estava morto há mais de 12 horas quando seu corpo foi encontrado, por volta das 19h30 de ontem. Segundo o perito do Instituto de Criminalística do Paraná Edmar Cunico, Bueno foi assassinado com um golpe de arma branca no pescoço. Ele teria tentado reagir depois de ser esfaqueado. Não havia sinais de arrombamento na casa. O escritório de Bueno estava revirado e os peritos encontraram sacos plásticos vazios espalhados pelo chão, o que indica que o assassino pretendia roubar algo.

A diarista Jacinta Breck, que trabalhava havia sete anos na casa do escritor, chegou ao sobrado onde Bueno morava por volta das 9h30. Ela notou que o portão estava sem o cadeado e que a porta estava aberta. Segundo Ja­­cinta, um computador que sempre ficava no escritório, no segundo andar, estava na sala.

Por recomendação de Bueno, Jacinta só teria acesso ao segundo piso da casa depois que ele acordasse e lhe desse bom dia. Por conta dessa exigência, a diarista trabalhou normalmente no primeiro piso da casa. O escritor costumava levantar entre 15 e 16 horas, porque gostava de trabalhar de madrugada. Por volta das 17 horas, a diarista estranhou a ausência do patrão e decidiu ligar para um amigo dele, que foi até a casa e encontrou o corpo de Bueno no escritório.

De acordo com o primo do escritor Emídio Bueno Marques, Wilson Bueno estava caído na escrivaninha do escritório e havia muito sangue no local. Marques afirma que o local estava bastante bagunçado e que a primeira impressão foi de uma tentativa de roubo. “A paixão da vida dele era escrever, ser jornalista e ser escritor. Ele era um ícone da literatura do Paraná”, diz. Segundo o primo, Bueno estava editando seu 13º livro.

Abigail Schambeck, vizinha de Bueno, o conhecia há pelo menos 30 anos. Ele era morador do bairro e estava naquele sobrado havia dez. A vizinha afirma que não percebeu nenhuma movimentação estranha na casa do escritor durante o fim de semana. Ela conta que Bueno tinha muitos conhecidos e recebia muitas pessoas em casa.

Bueno foi uma das vozes mais influentes do Paraná

Bruna Maestri Walter

Escritor e editor do extinto jornal Nicolau, Wilson Bueno era uma pessoa “turbulenta” e reclusa, mas divertida. O escritor José Castello via Wilson Bueno como uma pessoa inquieta, de temperamento forte, “turbulento”. Para o chargista do jornal O Estado do Paraná, Luiz Antônio Solda, amigo desde a década de 70, Bueno era solitário e andava recluso. Rogério Pe­­reira, editor do jornal Rascunho, acredita que, pelas primeiras impressões, tratava-se de uma pessoa divertida e bem humorada. Várias são as visões da personalidade de Wilson Bueno. Sua literatura, no entanto, é unânime: uma das mais importantes do Paraná.

Bueno nasceu em Jaguapitã, no Norte Central do Paraná, em 1949. É autor de Bolero’s bar (1986), Manual de zoofilia (1991), Amar-te a ti nem sei se com carícias (2004) e Cachorros do céu (2005). “A literatura se confunde com a minha própria percepção da vida e do mundo. Acho que minhas primeiras palavras, minhas primeiras expressões frente à decifração do mundo foram literárias. É curioso”, disse Bueno, em dezembro de 2006, durante o sétimo encontro do projeto Paiol Literário, realizado em parceria entre o Rascunho, o Sesi Paraná e a Fundação Cultural de Curitiba.

Para o jornalista Rogério Pereira, a obra de maior projeção de Bueno é Mar Paraguayo, livro escrito em 1992 em “portunhol”. Bueno tentou uma reprodução da linguagem dos hispânicos que vivem no Brasil, disse ao jornal Rascunho.

Outro trabalho de destaque de Bueno foi o jornal Nicolau, considerado o Melhor Jornal Cultural do Brasil pela Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA), em 1987. Ele também era cronista do jornal O Estado do Paraná, da revista Ideias e colaborador do caderno cultural do jornal O Estado de São Paulo. Escreveu para a Gazeta do Povo quando tinha 14 anos. “É que a Gazeta tinha uma página literária e, nela, já pontificava Dalton Trevisan, com seus 45 anos. Na época, ele já começava a se tornar um grande nome literário”, disse Bueno durante o Paiol Literário.

O escritor José Castello afirma que Bueno era um autor muito envolvido com a vanguarda, a experimentação. “Era um cara inquieto como escritor. Os livros dele são muito diferentes um dos outros, sempre buscando coisas novas” diz Castello. “Ele também era cronista, poeta, fazia poemas curtos à moda japonesa. E teve essa passagem muito importante na história da imprensa literária, que foi o período longo (oito anos) que editou o Nicolau.”

Castello classificou a morte do amigo como algo odioso e abominável. Solda, chargista de O Estado do Paraná, morava perto de Bueno, mas não teve coragem de ir até a casa do amigo, local da morte. “É uma coisa muito dolorida.”

Bibliografia

Confira lista com os livros publicados de Wilson Bueno

Bolero’s Bar (Curitiba: Criar Edições, 1986)

Manual de zoofilia (Florianópolis: Noa Noa, 1991)

Ojos de água (Argentina: El Territorio 1992)

Mar paraguayo (São Paulo: Iluminuras, 1992)

Cristal (São Paulo: Siciliano, 1995)

Pequeno tratado de brinquedos (São Paulo: Iluminuras, 1996)

Medusario – mostra de poesia latinoamericana (México: Fondo de Cultura Econômica, 1996)

Jardim zoológico (1999)

Meu Tio Roseno, a cavalo (São Paulo: Editora 34, 2000)

Once poetas brasileños, de 2004

Amar-te a ti nem sei se com carícias (São Paulo: Editora Planeta, 2004)

Cachorros do céu (São Paulo: Editora Planeta, 2005)

Diário vagau (Curitiba: Travessa dos Editores (2007)

Pincel de Kyoto (2007)

Canoa Canoa (2007)

A copista de Kafka (São Paulo: Editora Planeta, 2007)


Ex-editor do Nicolau, escritor se impôs usando estilo e texto

Irinêo Baptista Netto


A literatura de Wilson Bueno era extremamente engenhosa e erudita. Muitos a achavam cerebral. Gostava de criar suas narrativas a partir de referências como Machado de Assis e o checo Franz Kafka. Era um escritor que se impunha pelo estilo, conhecido pelo tempo e pelo esforço que empregava ao burilar seus textos.

Antes de construir uma bibliografia respeitada, com 13 títulos publicados no Brasil, México e Argentina, Bueno chamou atenção no final dos anos 1980 como editor do Nicolau (1987-1995). A publicação abriu espaço para artistas do Paraná e de outros estados, apostando em autores que não tinham espaço em lugar algum. Eram escritores, poetas, cineastas e artistas plásticos que deram passos importantes no jornal.

Bueno estreou na ficção com Bolero’s Bar (1986). Mar Paraguayo (1992), que alia português, espanhol, guarani e portunhol, levou a obra de Bueno ao exterior.

Uma mudança importante na carreira veio em 2004. Foi quando passou a publicar pela gigante Planeta. A estreia na nova editora foi com Amar-Te a Ti Nem Sei Se Com Carícias, todo escrito em português do século 19, uma homenagem a um dos escritores que mais admirava, Machado de Assis (outro era Guimarães Rosa). As fábulas de Cachorros do Céu, seu título seguinte, o colocaram entre os dez finalistas do Prêmio Portugal Telecom, um dos mais importantes do país.

Em A Copista de Kafka, o escritor escreveu uma série de contos independentes à primeira vista, mas que, juntos, criam um painel amplo e o aproximam do romance. Bueno havia entregado os originais de seu trabalho mais recente para a Planeta, uma narrativa que mistura memórias e ficção. “É o meu livro da maturidade, minha obra mais importante”, disse.

O livro mais recente de Wilson Bueno.

Nota: entre 1993-95, recebi exemplares do Nicolau, sempre acompanhados de bilhetes, lacônicos mas muito simpáticos, sobre O Fingidor, zine feito em papel A4, dobrado ao meio, que enviava ao editor daquele jornal, escritor Wilson Bueno.
(Zemaria Pinto)