Amigos do Fingidor

segunda-feira, 31 de maio de 2010

domingo, 30 de maio de 2010

Na ativa

Armando de Menezes, 84 anos, palestrando sobre Joaquim Nabuco, abolicionista, dia 29.05, na Academia Amazonense de Letras.
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Jorge Tufic, 80 anos em agosto, falando sobre O protesto de Bocage, no último dia 15.05, no IV Festival Internacional de Poesia, em Dois Córregos-SP.

sábado, 29 de maio de 2010

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Sampa, um exercício intertextual

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Zemaria Pinto

Desde quando Baudelaire observou, há mais de 150 anos, que o Homem caminha por entre “florestas de símbolos”, nunca mais a literatura foi a mesma. Os conceitos sucessivos de dialogismo (Bakhtin) e intertextualidade (Kristeva) colocam a obra literária moderna como tendo origem e fim na própria literatura, como um espelho estilhaçado refletindo imagens, ampliando-as, reduzindo-as, invertendo-as. Isso faz com que a obra tenha múltipla significação, sendo propensa, portanto, a diversas leituras.

Nas últimas três décadas, “Sampa”, de Caetano Veloso, tem sido número obrigatório em qualquer seleção de mpb, em discos, bares, rodas de amigos etc. É sucesso fácil. Mas o que é “Sampa”, além de uma bela canção? Usando uma disposição gráfica arbitrária, baseada nas unidades de sentido texto/melodia, uma vez que Caetano nunca a publicou, vamos relembrar integralmente o poema, e em seguida, num exercício de leitura intertextual, enumerar alguns dos diversos referentes externos nele contidos.

1o. bloco – alguma coisa acontece no meu coração / que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João / é que quando eu cheguei por aqui eu nada entendi / da dura poesia concreta de tuas esquinas / da deselegância discreta de tuas meninas / ainda não havia para mim Rita Lee / a tua mais completa tradução / alguma coisa acontece no meu coração / que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João

2o. bloco – quando eu te encarei frente a frente não vi o meu rosto / chamei de mau gosto o que vi / de mau gosto o mau gosto / é que Narciso acha feio o que não é espelho / e à mente apavora o que ainda não é mesmo velho / nada do que não era antes quando não somos mutantes / e foste um difícil começo / afasto o que não conheço / e quem vem de outro sonho feliz de cidade / aprende depressa a chamar-te de realidade / porque és o avesso do avesso do avesso do avesso

3o. bloco – do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas / da força da grana que ergue e destrói coisas belas / da feia fumaça que sobe apagando as estrelas / eu vejo surgir teus poetas de campos e espaços / tuas oficinas de florestas, teus deuses da chuva / panaméricas de áfricas utópicas, túmulo do samba, mais possível novo quilombo de Zumbi / e os Novos Baianos passeiam na tua garoa / e novos baianos te podem curtir numa boa

Primeiro Bloco – logo no primeiro verso há uma referência clara à canção “Carinhoso”, de Pixinguinha e Braguinha: “meu coração / não sei porquê / bate feliz / quando te vê”. O coração que canta “Carinhoso” entra em descompasso pela alegria de encontrar a mulher amada. O coração que canta “Sampa” sente o mesmo ao depara-se com o centro velho da cidade-musa.

No instigante samba-rap “Língua”, Caetano explicaria o “erro” de concordância do segundo verso: “vamos atentar para a sintaxe dos paulistas”. Em “Sampa”, apropriando-se do falar coloquial paulistano, o “eu” lírico emissor, em diálogo com um “tu” sublimado pela própria cidade, fala a linguagem cotidiana do imigrante integrado à metrópole. Observe-se, ainda, a referência à canção “Ronda”, de Paulo Vanzolini, na textura musical da introdução até o segundo verso, quando, por um breve instante, parece-nos ouvir o conhecido “cena de sangue num bar da avenida São João”.

Nos versos seguintes deste bloco, Caetano desculpa-se com os paulistanos por declarações nada simpáticas em relação à cidade, quando ainda não conhecia a poesia concreta, movimento poético nascido em São Paulo, cujos principais teóricos viram no Tropicalismo uma vertente musical de sua poesia. A cantora Rita Lee, ao lado dos irmãos Sérgio Dias e Arnaldo Baptista, formou a banda Os Mutantes, participantes de primeira hora do Tropicalismo, e uma das poucas coisas interessantes surgidas até hoje no insípido rock nacional.

Segundo Bloco – aqui o “eu” lírico descobre a realidade da megalópole em relação à sua origem: Santo Amaro da Purificação ou a capital, Salvador, seja qual for o parâmetro do poeta-narciso, São Paulo reflete-se num espelho multifacetado, revelando-se, de qualquer ângulo, “o avesso do avesso do avesso do avesso” de qualquer sonho de felicidade. O aprendizado é lento e vai do não-se-ajustar, não-se-reconhecer, até a identificação completa, explicitada no bloco poético seguinte, num processo de mutação contínua.

Terceiro Bloco – os três primeiros versos, de forma concisa e elaborada, desvelam a metrópole paulista: filas/vilas/favelas/grana/fumaça. Mas daquela paisagem sombria que causara no “eu” emissor, em data perdida no tempo, a repulsa, ele vê surgir “poetas de campos e espaços”, reafirmando a influência dos concretistas Augusto e Haroldo de Campos, e brincando com um dos postulados da poesia concreta: a valorização da disposição espacial dos elementos gráficos do poema.

No verso que se segue, as “oficinas de florestas” nos dão margem a, pelo menos, duas leituras. Na primeira, as florestas referem-se ao estereótipo da “selva de pedra”, em movimento contínuo e dinâmico, horizontal e verticalmente. No discurso intertextualizado, porém, refere-se ao Teatro Oficina, cujas montagens revolucionaram a estética teatral brasileira nos anos 60. Nesse mesmo verso, “deuses da chuva”, de plasticidade ímpar, descreve o mítico movimento cotidiano sob a garoa da cidade. Mas não é, necessariamente, a única leitura. Podemos anotar uma referência aos “Demônios da Garoa”, conjunto musical “especializado” em Adoniran Barbosa, cultor daquela especial “sintaxe paulista”, que Caetano adota em “Sampa”. Uma terceira referência é o romance “Deus da Chuva e da Morte”, do irrequieto Jorge Mautner, presença sempre próxima aos tropicalistas.

Os versos seguintes, ou melhor, o longo verso seguinte, sugere a panetnia paulista, para onde diversos segmentos populacionais convergem, numa convivência pacífica e – no sentido colocado no texto, citando o continente africano, desagregado – utópica. Em “Vaca Profana”, canção de 1984, Caetano canta, a propósito dessa pan-etnia, que “São Paulo é como o mundo todo”. Mas “PanAmérica” é também o título do cultuado romance de José Agrippino de Paula, que Caetano situa na raiz do ideário tropicalista.

Foi Vinícius de Moraes, parceiro de Adoniran, quem cunhou a expressão “túmulo do samba”. Para Caetano, entretanto, São Paulo é a fonte revitalizadora da música popular brasileira, metaforizada pelo quilombo de Zumbi, numa nova referência ao teatro, desta vez ao grupo Arena, responsável pela montagem de “Arena Conta Zumbi”, que seguia uma linha mais popular e engajada que o Oficina.

Finalmente, já identificado por inteiro com a megalópole, o “eu” lírico vê os Novos Baianos integrados à paisagem urbana. Se considerarmos que o conjunto formado por João Galvão, Moraes Moreira, Paulinho Boca de Cantor, Baby Consuelo e Pepeu Gomes, entre outros, surgiu logo após a efervescência maior do Tropicalismo, este verso pode ser entendido como uma alusão à capacidade paulista de absorver sem traumas a produção cultural brasileira, para daí irradiá-la ao resto do país. No último verso, “novos baianos” são todos os imigrantes, especialmente os nordestinos, invertendo completamente a conotação pejorativa do adjetivo, emprestando-lhe até algum carinho. Numa boa.


PS1: texto escrito em 1988, como parte de um ensaio mais amplo, denominado Viagem e metalinguagem na poesia de Caetano Veloso.

PS2: O ensaio Sampa, uma parada, de Romildo Sant’Anna, in Poesia e Música (Perspectiva, 1985, org. de Carlos Daghlian), foi a bibliografia básica para este texto.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Filosofia para jovens

Nilson Chaves & Célio Cruz no Açaí

Belô Poético

Processos históricos na ética médica (6/7)

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João Bosco Botelho


7. No renascimento europeu

Alguns acontecimentos marcaram o Renascimento como um novo tempo na Europa, interferindo diretamente na ética médica oriunda do medievo:

– Publicação mecanizada dos livros;

– Ruptura com as interdições eclesiásticas: dissecação pública de corpos humanos;

– Teatros de anatomia em vários reinos europeus;

– Publicação do livro De humani corporis fabrica, de André Vesálio;

– Publicação do livro A cirurgia, de Ambroise Paré;

– Publicação do livro Christianismno restitutio, de Miguel Servet, contestanto a veracidade da Trindade Cristã;

– Publicação do livro De viscerum structura, de Marcelo Malpighi, descrevendo o mundo somente visível sob as lentes de aumento, iniciando o pensamento micrológico, que pode ser considerado o segundo corte epistemológico da Medicina;

– Ampliação das fronteiras com a chegada dos europeus nas Américas, Ásia e áfrica.

Entre outras singularidades do Renascimento, se destaca a vontade coletiva de retomar os ideários políticos da Grécia platônico-aristotélica. Desse modo, inicia-se outra fase da ética médica sob menor influência dos dogmas do cristianismo medieval. Portanto, a ética médica renascentista se adaptará às liberdades chegadas com o Renascimento.

– Importante e decisiva procura da materialidade da doença;

– Retomada das diretrizes teóricas da Medicina greco-romana;

– Diminuição do valor atribuído aos santuários curadores;

– Aumento do número de médicos oriundos das novas universidades;

– Maior participação de médicos laicos no processo formador da Medicina;

– Livros escritos em latim;

– Presença de geniais pintores e escultores, como Michelangelo, Leonardo da Vinci, Rembrandt, entre outros, detalhando nas obras de artes o corpo desnudo;

– Maior acesso aos livros produzidos no período greco-romano;

– Desenvolvimento da anatomia e da fisiologia;

– Substituição das confrarias, sob a guarda dos respectivos santos protetores – como a dos cirurgiões, sob a proteção de São Cosme e São Damião – pelos Colégios e Academias laicos, como o Royal College of Surgeons, em Londres, e a Academia de Ciências, em Paris;

– Cirurgia incorporada à Medicina;

– Forte recuo da compreensão da doença como mal, provocada pela fúria divina.

No Renascimento europeu, enquanto a Medicina ampliava os domínios da compreensão da saúde, foi consolidada a busca da materialidade da doença sob o estandarte da micrologia.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Fantasy Art – Galeria

Millenium tree.
Josephine Wall.

drops de pimenta 64

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─ Que é isso? Fumando?

─ ...

─ Há mais de 10 anos que você... Lembra? Eu disse que só aceitava namorar se você deixasse de fumar...

─ É como diz o dito: não há bem que sempre dure...

 
(Zemaria Pinto)

terça-feira, 25 de maio de 2010

Diálogos Imemoriais

O estranho caso da Vila da Barra – 1

Marco Adolfs


Era o dia 13 de junho do ano de 1840 quando finalmente cheguei àquela cidadezinha localizada nos confins do mundo civilizado. A manhã mostrava um radiante sol abrasador com um céu azul quase sem nuvens. Quando a embarcação aportou na pequena ribanceira em frente ao lugarejo, um certo alívio inundou-me o coração. Afinal eu havia enfrentado quase dois meses de navegação exaustiva até aquele lugar. A cidadezinha era conhecida como Vila da Barra do Rio Negro ou Lugar da Barra. Do ponto de vista geográfico estava situada na margem oriental daquele extenso rio de nome Negro, a doze ou treze milhas de sua confluência com o Amazonas. Localizada em um terreno com altitude média de quarenta pés acima do nível das águas, o lugarejo estava entranhado no meio de dois braços de rios que mais pareciam duas enseadas. Logo que deixei a barca e coloquei os pés naquela terra, fiquei sabendo que o atracadouro central, atulhado de pequenas embarcações, tinha o nome de Ribeira das Naus e respondia como o principal porto daquele vilarejo. O local exalava um estranho odor que mais parecia uma mistura de fezes com carnes apodrecidas.

Durante a longa viagem eu havia travado amizade com um comerciante de nome Salgado que trabalhava na venda de tecidos por toda aquela região. Parecia conhecer tudo e todos e, sempre que podia, me esclarecia sobre aspectos pitorescos das localidades por onde passávamos. Ao notar meu aspecto nauseabundo, esse senhor começou a explicar que aquele odor forte era proveniente da venda de comestíveis por parte de um mercado coberto que ficava localizado na rua da Matança, perto da praça. “Um local que também servia para abate de gado e exposição de peixes e tartarugas, algumas mortas e com as vísceras expostas e apodrecendo ao sol”, ressaltou. Disse ainda que parte daquele odor era “proveniente da banha e dos ovos de tartaruga colocados à venda em enormes tachos feitos de barro”. Quando cortamos por uma pequena travessa, um bando de gaivotas passou próximo de nossas cabeças. Não foi sem propósito, depois fiquei sabendo que denominavam aquele trecho de Travessa das Gaivotas...

(Continua na próxima terça)

segunda-feira, 24 de maio de 2010

A poesia em Pessoa

Poetas Emergentes

Abrahim Baze é eleito para AAL

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Aconteceu no último dia 21 a eleição para a cadeira 13 da Academia Amazonense de Letras, que tem por patrono Estelita Tapajós e era ocupada até data recente pelo professor Jauary Marinho.

Por uma margem expressiva de votos, superando outros cinco concorrentes, foi eleito o historiador e apresentador de TV Abrahim Baze. Autor de vários títulos sobre a história de Manaus, Baze escreveu também o ensaio biográfico Ferreira de Castro, um imigrante português na Amazônia, sobre o festejado autor de A Selva.

Baze mantém há 10 anos o programa Literatura em Foco, no canal AmazonSat. O acervo do programa constitui-se num verdadeiro museu da imagem e do som, da literatura que se faz na região norte.

Depois da posse de Abrahim Baze, a AAL terá ainda sete vagas, num total de quarenta, a preencher.

FMF – II Simpósio de Comunicação Social

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No dia 1º de junho, das 18 às 22h, no auditório Nelson Falcão, ocorrerá o II Simpósio de Comunicação Social da Faculdade Martha Falcão, contando com a presença de Daniela Assayag, repórter da Rede Amazônica, e Silvia Dias, Diretora da AVIV Comunicação, de São Paulo. O cantor Cileno será a atração musical da noite. No evento haverá sorteio de brindes e ao final será servido um coquetel.

As inscrições podem ser realizadas na Faculdade Martha Falcão, na Coordenação do curso e/ou comissão responsável pela divulgação nas faculdades. Valor: R$ 5,00. Vagas limitadas.

Para mais informações, ligue: 2121-0961; 9126-2495; 9974-6652.

domingo, 23 de maio de 2010

Allison Leão julga os melhores do Portugal Telecom

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Zemaria Pinto


Nosso colaborador, Professor Doutor Allison Leão, da UEA, autor dos livros de contos Jardim de silêncios e O amor está noir, é, pelo segundo ano consecutivo, um dos julgadores do Prêmio Portugal Telecom de Literatura.

O júri é composto pelos escritores Alcides Villaça, Allison Leão, Antonio Carlos Secchin, Antonio Torres, Beatriz Resende, Cristovão Tezza, Jerusa Pires Ferreira, José Castello, Lourival Holanda, Regina Zilberman, Sérgio Sá, e pelos curadores do prêmio: Benjamin Abdala Jr., Leyla Perrone-Moisés, Manuel da Costa Pinto e Selma Caetano.

O grupo irá decidir, entre as 54 obras previamente escolhidas, quais serão os dez finalistas, cujos nomes serão divulgados em Agosto. A 8 de novembro serão divulgados os títulos vencedores.

O Prêmio Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa contempla três vencedores. O primeiro recebe 100 mil reais (45.700 euros); o segundo, 35 mil reais (15.900 euros); e o terceiro, 15 mil reais (6.800 euros). O primeiro lugar do ano passado foi Nuno Ramos, com o romance Ó.

Alguns dos concorrentes deste ano:

Portugal: José Saramago (Caim), António Lobo Antunes (O meu nome é legião e Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?) e Maria Teresa Horta (Poemas do Brasil);

Moçambique: Mia Couto (Antes de nascer o mundo);

Angola: José Eduardo Agualusa (Barroco tropical);

Brasil: Milton Hatoum (A cidade ilhada), Rubem Fonseca (O seminarista), João Ubaldo Ribeiro (O albatroz azul), Dalton Trevisan (Violetas e pavões), Ana Miranda (Yuxin), Luis Fernando Veríssimo (Os espiões) e Chico Buarque (Leite derramado).

Além dos nomes de Allison Leão e de Milton Hatoum, nossos velhos conhecidos, registre-se a presença, também no júri, de Lourival Holanda, atualmente na UFPE, que, durante cerca de 20 anos, atuou no Departamento de Letras da UFAM, entre a segunda metade dos anos 70 e meados dos 90.

sábado, 22 de maio de 2010

sexta-feira, 21 de maio de 2010

II Colóquio Internacional Poéticas do Imaginário

Leia mais sobre o II Colóquio Internacional Poéticas do Imaginário: clique aqui. 

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Sábados na Academia: Revisitando Nabuco

A Academia Amazonense de Letras estará promovendo nos três próximos sábados uma série de conferências destinadas a lembrar o centenário de morte de uma das mais importantes figuras da história do Brasil: Joaquim Nabuco (1861-1910). Monarquista, mas abolicionista de primeira hora, fundador da Academia Brasileira de Letras, amicíssimo de Machado de Assis – que mantinha seu retrato na sala de visitas e com quem manteve volumosa correspondência –, Joaquim Nabuco foi uma figura extraordinária de intelectual e político.

Entre outros títulos, Nabuco legou-nos textos hoje clássicos, como O abolicionismo (1883), Um estadista do império (1899) e Minha formação (1900).

As conferências, com o título geral de Revisitando Nabuco, têm início marcado para 10h00, na seguinte ordem de apresentação/conferencistas:

22/05 – Bernardo Cabral;

29/05 – Armando de Menezes;

05/06 – Robério Braga.

As inscrições poderão ser feitas de segunda a sexta-feira, de 09 às 13 horas, na sede da AAL, rua Ramos Ferreira, 1009 – Centro. Telefone: 3234-0584.

Importante: serão concedidos certificados para complementação de créditos acadêmicos.

Processos históricos na ética médica (5/7)

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João Bosco Botelho


5. Em Roma, antes da cristianização

A deontologia e a ciência médica, em Roma, até o século 5 d.C., foram construídas em torno da herança greco-hipocrática.

Após a conquista militar romana da Ásia Menor e da Grécia, nos anos vinte do século 2 a.C., ocorreu certo esvaziamento político-econômico de algumas cidades-estados gregos que não interessavam ao poder romano. Os médicos dessas cidades, alguns sob forte influência da Escola de Cós, migraram para cidades romanas importantes.

O forte conjunto organizador romano impôs severo controle da saúde pública aumentando a oferta de água potável por meio dos aquedutos, coleta dos esgotos, banhos púbicos, rígida regras para o sepultamento fora do perímetro urbano, aterro dos pântanos, presença do médico pago pelo poder público em muitas cidades. No Império de Adriano, no século 2 d.C., os médicos foram dispensados do serviço militar e, nessa época, a maior parte das cidades romanas, mesmo as nos territórios conquistados, tinha médico remunerado pela administração pública.

Possivelmente, para suprir a demanda crescente de médicos nos novos territórios conquistados, Júlio Cesar ampliou as prerrogativas oferecidas por Diocleciano e ofereceu aos médicos os direitos de cidadão romano e prerrogativas fiscais.

É possível que no fim do século 2 os médicos gregos ocupassem lugares destacados na estrutura administrativa da Medicina romana. Esse fato provocou forte resistência, entre os cidadãos romanos mais cultos, gerando queixas pessoais e coletivas que fazem pensar que tenham se distanciado dos preceitos hipocráticos. Plínio, o Velho, no seu livro Histórias Naturais, e o historiador Marco Pórcio Catão fizeram algumas das mais severas críticas aos médicos gregos.

Como resposta da administração aos descaminhos de muitos médicos, no fim do século 3, o imperador Júlio César assinou a Lei Aquilia e a Lei Cornelia, que puniam severamente a prática do aborto e com o banimento dos médicos que provocassem a morte do doente.

6. Na cristianização de Roma e reinos europeus

O processo da cristianização de Roma, durante o reinado do Constantino e após, fruto do enfraquecimento das fronteiras romanas pelas invasões dos visigodos, introduziu mudanças no sistema mercantil escravista para o feudal e em outros conceitos éticos e morais à prática médica.

Nesse processo complexo, a Medicina se distanciou dos conceitos gregos jônicos da físis e se aproximou da doença como mal, como castigo pela afronta a Deus, já valorizada nas culturas da Mesopotâmia, Índia e Egito. Sem pretender simplificar muito, o tratamento mais importante para a doença como mal, seria a força de Deus e de Jesus Cristo, intervindo para promover a cura por meio do milagre.

É possível compreender essa abordagem, que motivou outros conceitos teóricos à ética e moral, também nas práticas médicas, como uma regressão às conquistas greco-romanas. Regressão que iria se materializar na organização urbana, no medievo cristão europeu, com as administrações das cidades se descuidando dos cuidados com a higiene pessoal, traçados das ruas, abastecimento de água potável, enterramento dos corpos nos limites urbanos e esgoto sanitário. Seguindo o exemplo de Jesus Cristo e dos apóstolos, cujos sacerdócios incluíram muitas curas milagrosas, o milagre passou a ser a principal fonte de recuperação da saúde. Nesse sentido, nos séculos seguintes se intensificaram as peregrinações aos santuários católicos curadores e a devoção aos santos com poderes de curar determinadas doenças.

Com o fechamento das escolas de Medicina nos moldes greco-romanos, no final do século 5, as práticas médicas se aproximaram das abadias e mosteiros, onde padres e freiras prestaram assistência aos doentes sob a égide da ética e da moral cristã.

Nesse período, sob a guarda das proibições eclesiásticas impondo nova ordem à ética médica, impedindo as práticas cirúrgicas, mais duramente a partir do século 9, certamente motivadas pelos maus resultados, as necessidades sociais buscaram caminhos alternativos para sanar as dificuldades. Entre os séculos 10 e 11 existem muitas referências sobre um personagem estranho e temido, que preencheu os espaços vazios deixados pela proibição eclesiástica da prática cirúrgica: o cirurgião-barbeiro. Sem qualquer formação médica e vínculo institucional, esses homens andarilhos percorriam os caminhos entre as cidades medievais, cortando cabelos, barbas e unhas, sem qualquer obrigação ética, amputavam membros gangrenados, lancetavam abscessos, quase sempre seguidos de morte dos doentes. Para evitar que fossem mortos pelos parentes do doente morto, de tempos em tempos, eram obrigados a fugir rapidamente.

Cada vez mais fechada sob si mesma, no interior das abadias e conventos, distante das recomendações hipocráticas, os padres sem qualquer preparo médico que exerciam a Medicina fora dos muros das instituições cristãs, provocaram tantos conflitos, motivados pela má prática nos procedimentos cirúrgicos, causando sequelas e mortes, que as autoridades cristãs, nos Concílios de Rems (1131) e de Roma (1139) proibiram que os religiosos exercessem a Medicina fora das abadias e mosteiros.

Ao mesmo tempo, os grandes teóricos do cristianismo como Abelardo, Bernard de Chartre, Tomas de Aquino, entre outros, iniciam o processo de resgate doutrinário das obras de Platão e Aristóteles, obrigando novas leituras da ética médica.

No século 13, tentando vencer as resistências eclesiásticas, Jean Pitard, um cirurgião-barbeiro, funda a Confraria dos Cirurgiões, sob a guarda de São Cosme e São Damião, introduzem normas éticas aos cirurgiões-barbeiros e roupas diferenciadas que os distinguiriam dos outros que permanecem contrários ao novo código ético das confrarias.

Do outro lado, esses núcleos médicos em algumas abadias e certos mosteiros, serviram como sementes às futuras universidades que seriam criadas a partir do século 13, em vários reinos da Europa, na alta Idade Média, quando a ética médica sob forte influência da Igreja, passariam por novas mudanças.

As abadias de Salerno e Montpelier, dois dos núcleos mais importantes das futuras universidades, se distinguiriam por retomarem antigos conceitos éticos gregos da Escola de Cós. Ambas valorizaram a base ética da Medicina, até hoje válida: “Em primeiro lugar, não façam mal”.

Outrossim, o lado sombrio da intolerância, patrocinada pelos julgamentos políticos da Inquisição, destruiu os núcleos éticos da Medicina, colocando-os sob o fogo das fogueiras de lenha verde sob o estigma da bruxaria, assassinando milhares de pessoas que praticavam a Medicina-empírica fora dos dogmas cristãos: herveiros, parteiras e benzedores.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

V Caravana SOS Encontro das Águas – convite


O poeta amazonense, Thiago de Mello e o escritor Tenório Telles, em conjunto com o movimento “SOS Encontro das Águas”, convidam cientistas, escritores, artistas, professores, comunitários, pescadores, ribeirinhos, políticos, religiosos, estudantes, militantes e jornalistas interessados em preservar os bens comuns do Amazonas para participar da V Caravana Fluvial SOS Encontro das Águas.

A missão da V Caravana Fluvial SOS Encontro das Águas é realizar uma expedição de reconhecimento ecológico, geográfico e social da região do Encontro das Águas dos rios Negro e Solimões, formadores do maior rio do mundo, o Amazonas. Ribeirinhos, pescadores, moradores da Colônia Antônio Aleixo e pesquisadores das instituições de ensino e pesquisa do Amazonas serão os guias da expedição que promoverá a integração entre o saber popular e o científico. Os ecossistemas naturais e antrópicos, as comunidades, as degradações ambientais de origem pública e privada e os empreendimentos que possam ameaçar a ecologia e a paisagem da inigualável região do Encontro das Águas serão avaliados com a finalidade de subsidiar o tombamento da área como Patrimônio da Humanidade, a preservação da área como Unidade de Conservação de Uso Sustentável, e ações de recuperação ambiental e paisagística e de sustentabilidade das comunidades locais.

Data: 25 de maio de 2010,

Horário de saída do navio-motor do Porto do CEASA: 08h00

Horário de retorno ao Porto do CEASA:

1º opção – 11h30 (para que outros militantes possam se integrar à equipe)

2º opção – 17h00

Local de saída e retorno: Porto do CEASA

Data limite para confirmar presença: 21/05/20010 (sexta-feira) – enviar e.mail para o sosencontrodasaguas@gmail.com comunicando, se possível, o número do celular e se permanecerá na expedição somente no período da manhã ou o dia inteiro.

Plano de Trabalho:

• Manhã- Margear parte do lado esquerdo da região do Encontro das Águas: Ceasa; Siderama; visualizando ilhas do Marapatá e Xiborena; Refinaria, Portos (Janjão etc.); Sitio Geológico Ponta das Lajes (afloramento arenítico e falésia do Mirante Encontro das Águas); Reserva de Patrimônio Natural Nossa Senhora das Lajes (CETAM/BSGI/Soka Gagai); adutora da Ponta das Lajes; Local pretendido para construção do Porto das Lajes; meio do rio no ponto de contato das águas dos dois rios; canal de entrada do Lago do Aleixo; restinga do Lago do Aleixo (margem externa); canal de saída do Lago do Aleixo, Porto Bertoline; Remanso do Boto, Canal de saída do Lago do Puraquequara; retorno pela mesma margem, mas passando por dentro do Lago do Aleixo para visualizar a Colônia Antônio Aleixo, Igarapé da Lenha, Igarapé do Tracajá, Penitenciaria do Puraquequara, Conjunto Aline Lindoso, Indústria Sovel e Lago do Buraco do Oscar; Ceasa.

• Tarde – Margear parte do lado direito da região do Encontro das Águas: Ceasa; Ilhas do Marapatá e Xiborena; Careiro-da-varzea; almoço; Terra Nova, Comunidade de São Francisco, São José.

Observações:

- Solicitamos aos convidados que puderem colaborar com o valor mínimo de R$ 5,00 para as despesas da Expedição Fluvial.

- Os que permaneceram no período da tarde deverão fazer a gentileza de arcar com o valor de R$ 18,00 para custear seu próprio almoço em uma das comunidades que iremos visitar e que nos servirá peixe (pescado no Encontro das Águas).

Venha colaborar com a geração de conhecimento e a preservação do Encontro das Águas, que bravamente resiste aos impactos causados pela industrialização e pelo abandono governamental, que não institui políticas de preservação desse manancial que alimenta a vida, a história, o turismo e a poesia do povo do Amazonas !!

Relembramos a todos que a reunião geral do “SOS Encontro das Águas” ocorrerá no dia 22/05/2010, às 15h00, no Centro Social do Lago do Aleixo, Comunidade 11 de Maio, Colônia Antônio Aleixo, próximo ao ponto final do ônibus, na margem do Lago do Aleixo.



(Movimento Socioambiental “SOS Encontro das Águas”)

Fantasy Art – Galeria

Castle of sin.
Frank Frazetta.

drops de pimenta 63

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─ Você chegou tarde de novo, ontem...

─ Estava com uns amigos...

─ Tenho certeza que sim; sua timidez não lhe permitiria varar a noite com estranhos!


(Zemaria Pinto)

terça-feira, 18 de maio de 2010

Nelly Miranda no Tacacá na Bossa

o barco

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Marco Adolfs

Com a ordem de ativar o fogo da fornalha, a tripulação do Paes de Carvalho deu início aos preparativos da partida. Passageiros elegantemente vestidos e uma leva de retirantes fluviais se aglomeravam no cais do porto à espera do sinal para o embarque. Com todos sabendo da extrema pontualidade dos gaiolas, tudo parecia controlado e dentro do tempo estipulado para a saída. O comandante João de Deus, devidamente descansado, observava do alto da cabina de comando o transporte das últimas cargas e os movimentos necessários que a sua tripulação tinha que fazer. Como sempre, sua escala seguiria o trajeto da linha do Juruá, passando por lugarejos inexpressivos até chegar ao porto principal. Além da carga de sempre, naquela noite o Paes de Carvalho estava levando mais de duzentas pessoas.

Passados um quarto de hora e praticamente transportada toda a carga – o que já vinha acontecendo desde o dia anterior –, o comandante pediu ao seu imediato que ordenasse a subida dos passageiros, enquanto ele iria vistoriar, junto com um funcionário da Capitania dos Portos, o acondicionamento final dos volumes. O que lhe preocupava, além da quantidade e peso da carga, que talvez excedesse mais de cem toneladas, era o volume, bastante significativo, de inflamáveis e explosivos que, naquela noite, o vapor estava carregando. Eram mais de cem caixas de gasolina, cerca de trezentas caixas de querosene e sessenta caixas de pólvora que seriam levadas para a cidade de Seabra e para um lugarejo do alto Juruá. O comandante João de Deus sabia do risco que corria transportando esses volumes com aquela quantidade de passageiros circulando pelos conveses. Acidentes já haviam acontecido em outros barcos e ele preocupava-se sobremaneira com isso. Comentou o fato com o funcionário da Capitania e procurou logo se afastar daquele local do vapor onde os combustíveis estavam acondicionados. Verificou as amarras mais uma vez e acreditou que nada de mau aconteceria.

– Estão com as amarras fortemente enlaçadas – comentou, dirigindo-se ao funcionário.

Já com todos os passageiros acomodados em seus camarotes e lugares, e a fornalha em seu ponto de pressão adequado, à meia-noite o comandante deu o sinal para os maquinistas acionarem os motores. Neste exato momento, passageiros começaram a afluir para a lateral do barco, ansiosos por uma despedida ou aceno na direção de familiares ou conhecidos. Lentamente o Paes de Carvalho distanciou-se do porto, iluminando, com suas luzes e holofotes, trechos daquele rio cobertos pelo clima de uma madrugada fria e que se prenunciava insidiosa. O comandante respirou fundo e desviou o olhar para uma folhinha afixada ali perto. Marcava o dia 19 de março de 1926.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Manaus, amor e memória XIV

A praça da Matriz, sem camelô e sem ladrão...

domingo, 16 de maio de 2010

Classificados

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Jorge Tufic

COLOMBOVO

Era um róbi, mas também um agradável exercício, a mania que sempre tive de por ovos de galinha na posição horizontal. A par disso, talvez por mera vaidade, sem a menor preocupação de explicar que jamais fora possível colocá-los nessa posição unicamente com o auxílio das mãos, quando isto só contribui para o desequilíbrio do corpo em movimento. O “segredo”, afinal, consiste em dar-lhes, com as mãos, o devido apoio mecânico para que possam encontrar o seu exato eixo gravitacional; e, assim, como por mágica, ficarem de pé em qualquer superfície plana, até mesmo no vidro ou na mica de um relógio. Quando passei isso a alguns jovens do bairro de Santo Antonio, em Manaus, todos eles obtiveram sucesso.


LEITURALEM

Leitura não é só de letras. Também de mundo, é. O olhar tem brilhos capazes de penetrar nos abismos, quer das palavras ainda em busca de sentido, quer das coisas. Leia-se um pouco de Sartre, tome-se a carona dos vastos painéis de Fernando Pessoa. Isto é leitura. Ainda mais quando letras e labirintos possam franquear os limites da sedução pelo mito. Com efeito, o mito é a leitura de todos os fenômenos que cercam as possibilidades de um clarão a mais em nossas deambulações metafísicas, aqui onde se toca o mistério, a esperança e a renúncia ao que se mostra fácil e monótono.


O SEBO DOS MORTOS-VIVOS

Precisando adquirir um exemplar de meu livro, publicado em 1999, sob o título de Quando as noites voavam, estive numa livraria de Manaus, e ali me disseram que o preço do mesmo era de 35 reais.

– E o autor, tem desconto presumível?

– Acho que não.

Idêntica parada aconteceu-me em Fortaleza: encontrei meu Curso de Arte Poética ao preço de 35 reais, estando fora de questão a hipótese de qualquer abatimento para o autor da obra.

E não ficou por aí. Já em São Paulo, encontrei num sebo da Paulista um exemplar do meu livro Retrato de Mãe, ao preço de raridade: 60 reais.

Desisti das andanças, vivamente preocupado com o fato de já estar morto há mais de cinquenta anos, e, portanto, sem direito a um desconto de, no mínimo, 20% na compra de meus próprios livros.

sábado, 15 de maio de 2010

quinta-feira, 13 de maio de 2010

IV Festival Internacional de Poesia de Dois Córregos

Nosso amigo Jorge Tufic estará dando palestra no sábado, às 14h, com o tema "O protesto de Bocage". 

Processos históricos na ética médica (4/7)

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João Bosco Botelho


B. No Egito

As principais fontes históricas que fornecem informações das práticas médicas, no Egito, são o livro de Heródoto, “História”, e o de Deodoro de Sicília, “Livro Sagrado”, os papiros que receberam os nomes das pessoas que divulgaram os respectivos conteúdos, Smith, Eberth.

Do mesmo modo que na Mesopotâmia, no Egito no segundo milênio a.C., também:

– Existiam as três Medicinas – divina, empírica e oficial – que se relacionavam em maior ou menor dimensão;

– Não existiam processos teóricos capazes de estruturar a Medicina oficial fora das ideias e crenças religiosas;

– Os tratamentos eram espécies de receitas de bolo, usadas sem variações. Contudo, algumas delas são particularmente muito interessantes porque além de prescreverem corretamente, como o uso do digital para as doenças do coração, adicionavam prognósticos, em duas vertentes, as doenças curáveis e as incuráveis;

– O médico era um especialista social reconhecido e remunerado pela administração do faraó;

– Os médicos também identificados com nomes diferentes, prestavam serviço em diferentes áreas do reino: na corte, templos, minas, cidades conquistadas;

É possível que os conflitos entre médicos e pacientes não tenham alcançado níveis suficientemente intensos para gerar respostas junto à administração do reino. No Egito, do segundo milênio a. C., não se conhecem registros específicos de códigos que regessem, a exemplo do de Hammurabi, as práticas médicas.

3. Na Grécia, entre os séculos 7 e 5 a.C.

As principais fontes históricas são os dois livros de Homero, Ilíada e Odisseia, que fornecem informações quanto à existência de práticas médicas semelhantes às da Mesopotâmia e do Egito: apesar de existir a Medicina-oficial e médicos reconhecidos socialmente, eram muito fortes as relações das práticas médicas com deuses e deusas curadores e/ou provocadores de doenças.

Como nas culturas que se desenvolveram nas margens de rios e lagos férteis da Mesopotâmia, da Índia e do Nilo, na Grécia homérica, não existia um processo teórico para entender a Medicina fora das crenças e idéias religiosas.

Do mesmo modo, apesar dessa forte ligação, também os representantes das três Medicinas, divina, empírica e oficial, também pensaram e praticaram tratamentos, com claros registros nos livros de Homero, para controlar a dor e ampliar os limites da vida, claramente identificados com uma Medicina que não tinha vínculo com os panteões. Esse imbróglio da origem do pensamento grego que antecedeu a fase seguinte, a da Medicina hipocrática, também ajuda a compreender as razões dos porquês, até hoje, em certas circunstâncias, a Medicina-oficial também é pensada atada às crenças e ideias religiosas.

4. Na Grécia dos séculos 4 a.C.

O marco organizador foi a escola de Cós e o principal agente foi Hipócrates. Apesar de saber-se, pelos indicativos etimólogos e linguísticos, que das 72 obras contidas no “Corpo Hipocrático”, como é conhecido o conjunto de textos produzidos na ilha de Cós, somente 12 foram claramente escritos por Hipócrates, esse conjunto filosófico e médico iniciou o processo da separação maior (ainda em curso) da Medicina-oficial em relação às ideias e crenças religiosas.

Um dos mais importantes é o texto de Políbio, genro de Hipócrates, que elaborou a Teoria dos Quatro Humores, a primeira teoria para explicar a saúde e as doenças fora das ideias e crenças religiosas. O corpo seria constituído de quatro humores: sanguíneo, linfático, bilioso amarelo e bilioso preto; quando ocorresse a predominância de um sobre os outros, ocorreria a doença. Por essa razão, é possível considerar esse acontecimento como o primeiro corte epistemológico da Medicina-oficial.

Em conjunto a esse movimento de Cós, algumas obras de Platão, além de reconhecer a notabilidade de Hipócrates, deixam claras algumas características da Medicina grega desse período, com forte influência dos conceitos jônicos da natureza; entre os mais importantes, a noção de físis, como elemento de ligação à materialidade da Medicina.

Nesse contexto, com certa influência jônica das igualdades do clima sobre todos, no extraordinário livro “Leis”, pela primeira vez na História, ficou claro à humanidade que naquele tempo existia marcante diferença entre as práticas médicas nos ricos e pobres. De modo satírico, Platão descreve que quando estão consultando pessoas ricas, os médicos explicam detalhadamente a doença e as características do tratamento. Ao contrário, quando consultam os escravos, as consultas eram rápidas, sem qualquer explicação sobre a doença e o tratamento.

Um exemplo marcante da presença do pensamento jônico é o livro “Dos ventos, águas e regiões”, de autor desconhecido, do século 4 a. C., que assegura a impossibilidade de ser bom médico aos que não conhecem as características das estações do ano, o clima, os ventos, as águas e o curso do Sol.

Um desses textos, o Juramento, voltado ao interesse do doente, mesmo com forte presença das ideias e crenças religiosas ainda no parágrafo introdutório, é o estágio divisor entre o antes e o depois na história da ética médica. Desse modo, a Medicina iniciou outra fase – ser útil ou não ser nociva à vida humana (primum non nocere) – e o médico entendido como o agente dessa ação. A segunda mais importante mudança em relação ao Código de Hammurabi foi a introdução do segredo médico. A vertente dominante para conceber a Medicina como suporte à vida, jamais causando malefício, também está fixada no juramento ao condenar a cirurgia para a retirada da pedra da bexiga, quando sempre determinando a morte do doente.

Ao lado desses extraordinários avanços e controle ético da Medicina-oficial, as Medicinas divina e empírica continuavam presentes na estrutura social. Asclépio, o deus protetor da Medicina, filho de Apolo, também taumaturgo, e da bela Corones, era festejado no dia 18 de outubro. Asclépio foi educado pelo centauro Quirão para ser mais cirurgião do que médico, possivelmente para proteger mais os cirurgiões, já que naquela época as complicações das cirurgias eram mais freqüentes, se comparadas com as práticas médicas não invasivas. Ainda sob a perspectiva de proteger a vida, a construção do panteão de Asclépio deixou o legado de duas filhas, Hígia e Panaceia, vinculadas aos tratamentos clínicos, e dois filhos, Podalírio e Macaão, citados por Homero, que se distinguiram como cirurgiões na guerra de Troia. Nos séculos seguintes, Asclépio também representado por uma serpente enrolada num bastão da madeira, recebeu fama inimaginável, algumas vezes promovendo ressurreições dos mortos e curando todos os doentes que não conseguiam a saúde pelos favores de outros deuses e deusas. Contudo, temendo que a ordem do mundo fosse alterada pelas ressurreições, Zeus determinou a morte de Ascépio com os raios dos Ciclopes.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Fantasy Art – Galeria

The Kindling.
Dorian Cleavenger.

drops de pimenta 62

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─ Perdi a aliança...

─ Onde? No serralheiro ou no ralo do motel?


(Zemaria Pinto)

terça-feira, 11 de maio de 2010

O seringal

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Marco Adolfs


...Bem, o que lembro daquele seringal? E o que posso relatar daqueles anos de crise? Lembro do látex transpirado e transformado. Do tempo lento e de pessoas acomodadas àquela vida. E eu com todo o tempo de minha infância para observar e viver tudo aquilo. Os barracões e cabanas; os trechos da floresta; e o rio. Meus passeios de canoa, ouvindo ao longe os apitos de vapores que passavam e que aportavam. Às vezes sentava-me à varanda do barracão principal e, enquanto comia alguma fruta, pensava em como era bom viver ali. Apesar da solidão das noites chuvosas. Mas nesses momentos, deitado em minha rede, eu escutava os milhões de pingos despejados por entre as árvores. Uma enorme canção de ninar sem tempo para terminar. Desviava então o meu olhar infantil para a luz difusa de um candeeiro, colocado na cozinha, ali perto. Naquele instante meus olhos tentavam desvendar o sentido da minha existência. Relembrava das brincadeiras e das histórias. Das manhãs e tardes quando o sol brilhava intensamente lá fora e o rio se fazia tão maravilhosamente presente.

Foi nesse mundo tão plástico e elástico, mas ao mesmo tempo tão concentrado, que eu via o meu pai a comandar as ações dos homens e depois desaparecendo por longos períodos de viagem. Elástico e concentrado. Eu o via assim. E sempre de roupa branca, engomada e brilhando ao sol. Fiquei sabendo que aquelas roupas eram inglesas. No seringal tudo parecia vir de longe. Só a borracha é que vinha ali de perto. Elástica e concentrada. Lembro das pélas concentradas e arrumadas na praia, exalando aquele odor característico, à espera do vapor que as transportaria. E meu pai a comandar e a despachar tudo. Ele se chamava José Simas de Andrade. Dono do seringal “Vitória”. Carregando sempre um chapéu de palha na cabeça que tirava de vez em quando para se abanar e afastar o suor que escorria de seu rosto vermelho e volumoso. Meu pai era um homem gordo e alegre. Gostava de fartura e trazia muitos presentes quando voltava de suas constantes viagens. É claro que naquele tempo ele tinha muitos problemas para resolver: contratar mão-de-obra para a extração do látex; comprar mantimentos; despachar as pélas e manter minha mãe e sua prole. E isso era tudo.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Padre Nonato Pinheiro

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Li no excelente Blog do Coronel, de Roberto Mendonça, que o Pe. Nonato morreu num cubículo, “morreu em 7 de dezembro de 1994, em um cubículo no subsolo de um hotel, situado na avenida Joaquim Nabuco, em Manaus, abandonado, solitário, cercado apenas de livros aos quais tratou com estima e apreço”.


Ele era um homem ilustre, quando o conheci, sempre elegante na sua batina, e frequentava a mais culta sociedade de Manaus. Respeitadíssimo.

Foi professor de latim de minha mãe. Ele gostava muito de minha mãe, porque ela se chamava Stella, e ele logo a mandava declinar o substantivo.

Amigo de Álvaro Maia e outras personalidades, certa vez o encontrei no gabinete de Genesino Braga, na Biblioteca Pública. Genesino me apresentou e apertamos as mãos. Naquele momento pude ver como ele ela uma pessoa frágil. Suas mãos tremiam. Ainda que jovem, uns 40 anos talvez, o rosto marcado pelo sofrimento, aquela arrogância era uma capa protetora, tinha toda uma sociedade contra si, difamado que era.

O melhor prosador de sua época, seus escritos estão perdidos nos jornais de Manaus. Inteligentíssimo, muito culto, memória fotográfica, dia virá em que seus artigos serão editados em livro.

O melhor de sua prosa está espalhado em jornais e revistas e nas colunas que assinou.

Fui aluno de sua mãe, Diana Pinheiro, naquele casarão da vinte e quatro de maio.

E fui seu leitor assíduo.

domingo, 9 de maio de 2010

E.S. (Educação Sexual) 2/2

Allison Leão


Mesmo em meio ao infindável mar de saias e pernas, A.M.A. se destacava. Às vezes F.O.B. ficava no fim baixo da escadaria do colégio, olhando para o alto. Regozijava-se em poder identificar A.M.A. apenas pelo par de pernas. Primeiro, pelo método da negação: aquela com cicatriz de queimadura feita em escapamento de moto era Ana Célia; uma cabeluda, que não se depilava nunca, era Ivete; os joelhos mais ossudos eram de Dolores; as pernas gordas e sempre suadas, de Úrsula; as mais manchadas, de Telma; umas que pareciam parênteses, de Cibele; as cobertas pela longa saia, da pentecostal Jussara; as nem um pouco cobertas, da desinibida Irene.


Depois, o método positivo: as pernas de A.M.A. Os olhos de F.O.B. as identificavam com deliciosa facilidade. Seu olhar subia a partir das meias soquete, desenhava o sinuoso contorno até perder-se em imaginações por debaixo da saia azul-marinho. Subia estonteado pela cintura até os seios na provocadora contraluz do tergal branco. F.O.B. demorava-se na diáfana curva dos seios, como se já os conhecesse. E enfim, o rosto...

Para F.O.B., que crescera videando angelicais apresentadoras de programas infantis, A.M.A. era obviamente bela. Parecia que não suava, de tão perfeita (F.O.B. odiava suor.). Os olhos verdes, a pele branca e os longos cachos dourados da moça-princesa, no entender de F.O.B., naturalmente combinavam com ele. Pois se ele não tinha nariz chato, pele escura nem cabelo crespo, era mais do que natural, era lógico que ela seria dele. Na média, pensava F.O.B., os iguais ficam com os seus.

Foi assim que, naturalmente, aquele ano passou. E naturalmente eles se aproximaram. Algumas vezes, trocaram beijos na praça. Mesmo ali, entre guetos de góticos, metaleiros, hippies e surdo-mudos – gente suja e burra, como ele os via –, F.O.B. não se aborrecia: seus neurônios só se concentravam na sua áurea namorada. No último dia de aulas ele a acompanhou no caminho para casa. A.M.A. estava linda. Usava uma camisa verde com uma rosa em róseo bordada sobre o seio esquerdo, o que realçava sua delicada beleza de moça loira. Naturalmente, os passos foram lentos. E erraram o caminho de casa, naturalmente. Até que se viram numa construção abandonada, quase sem saber como haviam chegado ali. Quase como se seus corpos, e não eles, os tivessem conduzido. Não tardou para o calor lhes subir entre ambos, o que também é coisa muito natural. A.M.A., semidespida, o rosto pegando fogo de vermelho, já não era mais simplesmente a angelical figura de minutos antes; e algo como a vaga idéia de uma pureza dourada potencialmente conspurcada atordoou F.O.B. Mas entendamos: F.O.B. não chegou a saber se a idéia era boa ou ruim. Sequer reconheceu aquela confusão como uma idéia plena. Seu atordoamento derivava de ter-se percebido deleitado com o que sentia ante a anunciação da idéia. Tão confuso e excitado estava F.O.B., que ignorou os suores de ambos os corpos. Pela primeira vez, F.O.B. sentia que poderia ser excessivamente físico, guiado pelo que o corpo lhe ordenasse. O coice da vontade aplacando a razão. Lúcido, como, agora?

Imaginando que F.O.B. soubesse o que fazer, mas não como fazer, A.M.A. segurou-lhe o pênis aflito e tentou conduzi-lo até sua áurea vagina, delicadamente, como se com esse gesto ela tivesse o corpo inteiro de F.O.B. em suas mãos. Iniciação, mudança, transformação: F.O.B. tão perto de tudo isso!

Mas que luz de alerta será a que agora se acende?

F.O.B. ainda teve uma nesga de razão, o suficiente para se lembrar de sua até então inseparável Erotic – testada eletronicamente. Enquanto A.M.A. contorcia-se de excitação, F.O.B. executava os procedimentos técnicos com o preservativo, tantas vezes repassados em lições semanais com Doutor Papai e Doutora Mamãe. Três anos de uma longa mas natural expectativa!... F.O.B. ligaria o tempo de espera ao prazo de validade da camisinha antes que penetrasse a ansiosa vagina de A.M.A. Na precária iluminação do ambiente, F.O.B. confirmou a desgraçada suspeita. Havia 8 dias a validade de sua Erotic expiara. E o pênis de F.O.B. voltou, teso e virginal, para a gaveta das expectativas.

A.M.A. foi compreensiva. Apesar da frustração, a fria cautela de F.O.B. – oito dias são 8 dias – era correta. Aos quinze anos, um filho... Um desastre! F.O.B. de repente pareceu a A.M.A. um daqueles admiráveis homens que podem passar a vida inteira sem jamais sentir os sobressaltos que as surpresas e as desgraças dão ao comum da gente.

F.O.B. garantiu que no dia seguinte iria à farmácia comprar novas camisinhas. E que se encontrassem ao fim da tarde, talvez ali mesmo... E obteve de A.M.A. a promessa de um telefonema confirmando o encontro, agora muito melhor planejado. Mas ela não telefonou. Nem nunca telefonaria.

Quando se reiniciaram as aulas, F.O.B. soube que A.M.A. se transferira para o Colégio Estadual, onde a proporção entre moças e rapazes era bem mais equilibrada que no Instituto de Educação, e seu coração foi sacudido por mais um sentimento desconhecido, que ele não soube compreender.

Poucos meses depois, viu-a de longe na mesma praça onde um dia a beijara. Ela estava de costas, em meio a um grupo de jovens, e vestia roupas escuras. Mas a silhueta ainda era inconfundível, apesar dos cabelos agora curtos. F.O.B. já caminhava resoluto em direção a A.M.A quando uma série confusa de sentimentos o atingiu: um outro rapaz beijou duas vezes o rosto que ele um dia fizera arder – outro a usar o que fora seu. Entalado pelo choque, deixou que suas pernas o levassem para longe dali. Não pela chegada do oponente, que bem podia ser apenas um amigo. Também o cigarro entre os dedos de A.M.A. era-lhe, naquele momento, irrelevante – apesar de ser um hábito nada saudável, observaria depois. Impossível para F.O.B. era aproximar-se de A.M.A. enquanto ela vestia a camiseta cuja estampa ele agora divisava com exatidão: a imagem, a careta de Janis Joplin flagrada no instante de um rouco, grotesco e assombroso Yeah!

A.M.A. não servia mais para F.O.B. Naturalmente.

sábado, 8 de maio de 2010

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Grande Feira de Livros no prédio da Jaqueira

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Grande Feira de Livros da EDUA

(Editora da Universidade Federal do Amazonas)


Mais de dez mil livros, cerca de 400 títulos


Álvaro Maia, Arthur Reis, Koch-Grümberg, Alexandre Rodrigues Ferreira, Paul Marcoy, Mário Ypiranga Monteiro, Márcio Souza, Otoni Mesquita, Renan Freitas Pinto, Selda Vale, Euclides da Cunha, Djalma Batista, Padre Samuel Fritz, Jorge Tufic, Luiz Bacellar, Zemaria Pinto, Frei Gaspar de Carvajal e muitos outros grandes autores


Preços: a partir de R$ 2,00 – 

Local: Prédio da Jaqueira

(antiga Faculdade de Direito, na Praça dos Remédios)



Quando: durante todo o mês de maio

De: segunda a sexta-feira

Das: 9 às 17 horas

Mozart na Sexta Filosófica

Processos históricos da ética médica (3/7)

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João Bosco Botelho



2. Códigos que regulavam a profissão médica no segundo milênio a.C.

A. Mesopotâmia

Nas culturas que se desenvolveram mais intensamente, durante o segundo milênio a. C., no oriente, as práticas médicas estavam claramente dependentes das ideias e crenças religiosas por meio de muitos deuses e deusas taumaturgos. Não existia um processo teórico para explicar a saúde e a doença fora das ideias e crenças religiosas.

Nesse conjunto complexo, o médico, nominalmente reconhecido, fazia parte dos especialistas sociais. Existem fortes indicativos de um início consistente quanto à preocupação dos médicos em relativamente a:

– Entender, dominar e modificar a multiplicidade dinâmica das formas e funções do corpo;

– Estabelecer parâmetros do normal e patológico;

– Vencer as limitações impostas pelo determinismo da dor e da morte fora de controle.

Assim, é possível identificar curadores que conviviam simultaneamente em torno de ações específicas para controlar a dor e aumentar os limites da vida vinculados, às três Medicinas, cujos limites eram imprecisos:

– Medicina-divina: fortificada nos templos dedicados às muitas divindades, cujos agentes, sacerdotes e sacerdotisas, com forte destaque social, ofereciam a cura por meio de rezas e encantamentos sob a guarda dos deuses e deusas curadoras. Como uma facção muito forte, nesse conjunto, os adivinhos floresciam como alternativas para superar as adversidades futuras. Apesar de terem existido outras fórmulas divinatórias, a leitura do fígado do carneiro sacrificado ritualmente era a mais importante, a ponto de terem produzidos vários textos em escrita cuneiforme, que ensinam os procedimentos mais adequados para adivinhar o futuro por meio da hepatoscopia. É possível que a escolha do fígado como a parte corpórea mais importante estivesse relacionada ao predomínio sanguinolento do órgão, mesmo após a morte do animal, reproduzindo conhecimento historicamente acumulado, muito anterior ao sedentarismo, do sangue como elemento vital que ligava os ancestrais aos outros animais. Enfim, alguns registros nas tábuas de escrita cuneiforme, atestam que os agentes da Medicina-divina, na Mesopotâmia, além de encantadores, eram reconhecidos como exímios adivinhos. Essa característica dos curadores, na Mesopotâmia, não passou despercebida aos que redigiram alguns livros do Antigo Testamento, no período do cativeiro mesopotâmico, que demonstram forte influência da adivinhação.

– Medicina-empírica: nesse grupo, apesar de os agentes, homens e mulheres do povo, não exercerem as práticas nos templos, também com forte partilha com as ideias e crenças religiosas, estavam parteiras, erveiros, encantadores e benzedores. Heródoto, no seu extraordinário livro “História” descreveu um dia de festa, numa praça, quando muitas doentes e curadores encontravam-se, para buscar a solução das doenças. Ao cruzarem com alguém que apresentava sinais e sintomas de alguma doença que sabiam como curar, os curadores de tudo e todos interrompiam a caminhada para orientar, oferecer o tratamento.

– Medicina-oficial: tanto na Mesopotâmia, quanto em outras culturas que se organizaram e prosperaram no segundo milênio a.C., os processos do aprendizado, amparados pelos poderes dominantes, na formação do médico, como o único agente da Medicina-oficial, estavam dentro dos templos das divindades curadoras mais importantes. Também por essa razão, é possível justificar, historicamente, os estreitos laços da Medicina-oficial com as ideias e crenças religiosas. Por outro lado, também é importante relembrar que, nessas culturas, apesar da íntima inter-relação entre os agentes e as Medicinas divina, empírica e oficial, existem fortes indícios de que paralelamente existiam práticas médicas oficias que se mantinham distantes dos templos e do panteão.

Um desses indícios de práticas médicas oficiais, executadas por médicos reconhecidos pelas estruturas de poderes, é o Código de Hammurabi, do fim do século 19 a.C., um dos mais antigos códigos de leis voltado à organização social, na Mesopotâmia, em escrita cuneiforme, hoje, em exposição no setor de antiguidades orientais, no museu do Louvre. Na realidade, foi a primeira estrutura de leis contendo, claramente, os direitos e deveres dos médicos, estabelecendo o pagamento pelos bons serviços e severas punições pela má prática. Também é interessante assinalar que os preços e castigos variavam de acordo com o estamento social do doente. Os preços mais caros pelos serviços prestados e castigos mais severos pelos maus resultados estavam ajustados aos doentes mais ricos e socialmente importantes.

Os registros nas tábuas de argilas, realizados por médicos, são claros quanto às descrições precisas de muitas doenças: malária, hepatite, tumores no pescoço, amigdalite, fraturas com ou sem complicações, febres, transtornos mentais e outras.

Apesar de não ser o código de leis mais antigo, é possível estruturar alguns preceitos valorativos em torno do Código de Hammurabi, até hoje, entendido para manter a ordem interna do reino:

1. Mesmo reconhecido como uma gigantesca tentativa de unificar e reformar o direito no reino, claramente, não abrange todos os pontos conflituosos do cotidiano social da época;

2. É essencialmente dirigido para conter os abusos em diversas áreas das relações sociais, certamente geradoras de situações de conflito;

3. Dos 282 artigos do Código de Hammurabi, 12 deles regulavam os trabalhos dos médicos, contidos num conjunto de outros que tratava dos direitos e deveres dos veterinários, barbeiros, pedreiros e barqueiros;

4. As dos trabalhos médicos compreendem oito leis, todas voltadas ao trabalho médico-cirúrgico;

5. Os direitos e deveres dos médicos que executavam procedimentos invasivos e os dos doentes submetidos às cirurgias estavam vinculados, estritamente, à ordem escravista numa sociedade rigidamente hierarquizada. Nesse sentido, o pagamento pela boa prática e o castigo para má prática, eram proporcionais à importância social do doente, respectivamente, quanto mais importante na ordem social fosse o doente, mais dispendioso o pagamento e os castigos mais severos;

6. Para que o Código de Hammurabi legislasse de modo tão explícito os direitos e deveres dos médicos e doentes, em detrimento de outros que não foram citados, era porque os conflitos sociais determinados pelas más práticas e/ou maus resultados alcançaram níveis de conflitos suficientes para gerar resposta administrativa.

Dessa forma, na Mesopotâmia, no período Hammurabi, foi iniciado o processo de controle das atividades profissionais dos médicos.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Fantasy Art – Galeria

Luis Royo.

drops de pimenta 61

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─ Nós precisamos conversar...

─ ...

─ Já não é mais a mesma coisa...

─ ...

─ Talvez ainda seja possível...

─ Não me leve a mal, mas a gente pode jantar primeiro?


(Zemaria Pinto)

terça-feira, 4 de maio de 2010

Código Penal - lançamento

Cecília Meireles na Quarta Literária

Foto de mulher

Marco Adolfs



O cadáver estava estendido no chão, coberto por um lençol e ladeado por duas velas acesas. Nada mais prosaico, hoje em dia, que um cadáver assim, pensei.

– Não, ninguém conhece – disse dona Marina, moradora do sexto andar do meu prédio. – Parece um turista – observou outra, curiosa.

Agachei-me, levantei o lençol para ver melhor onde a bala tinha entrado e vi a carteira saindo do bolso da bermuda. Era de couro e apresentava-se um pouco gasta. Puxei-a lentamente, levantei-me e comecei a vasculhar lá dentro. Tinha alguns dólares, alguns documentos necessários e a cédula de identidade: Hermírio Fraga; data do nascimento em 1946; naturalidade brasileira; nascido no Rio de Janeiro. Mas o que mais me chamou a atenção em um dos compartimentos daquela carteira foi uma fotografia 3X4 de uma bela mulher. A cabeça envolvida por um manto. Parecia de origem árabe.

Olhei ao redor e então pensei que naquela Avenida de Nossa Senhora de Copacabana, precisamente naquele trecho, um corpo como aquele deveria ter sido atropelado por um ônibus e não ter sido atingido por uma bala.

– O que foi que houve? Alguém viu quem atirou? – perguntei, olhando de volta para a plateia.

– A bala saiu de um desses prédios – afirmou um senhor de meia-idade, adiantando-se.

– O senhor tem certeza? – perguntei.

– Absoluta – respondeu.

“Trabalho de pistoleiro” – pensei precipitadamente –. “contratado por alguém, ou por vingança, ou para queima de arquivo?” Puxei meu celular do bolso e liguei para a delegacia relatando o fato. Logo o corpo seria removido e eu iniciaria as investigações de praxe, já que aquela morte caía sob a minha jurisdição.

Mas o que mais me intrigava naquela história não era a morte, nem o morto, nem a forma como aconteceu, mas sim a existência daquela fotografia de uma bela mulher na carteira da vítima. Por um obscuro instinto policialesco eu desconfiava que aquela foto talvez se tornasse a parte mais importante de toda a minha investigação.

Bala saindo pela janela de um prédio, morte de um provável homem solteiro, foto de mulher bonita na carteira?... Sei não... Poderia ser um crime de paixão. Encomendado ou praticado diretamente pelo ciúme de alguém.

“Mais um caso para o investigador Parreira resolver” pensei, aborrecido e entediado com tudo aquilo.

Ao sair do local do crime, fui direto para uma lanchonete de esquina e comi um pastel oleoso, acompanhado de refresco de caju. Aquela foto de mulher começava a me dizer tudo. E a minha barriga também.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Manaus, amor e memória XIII

Inaugurada em 1865, com o nome Praça 5 de Setembro, o povo desde sempre chamou-a de Praça da Saudade, porque fora construída em local onde antes havia um cemitério. Ao centro, o monumento dedicado a Tenreiro Aranha, o filho político do poeta Bento de Figueiredo Tenreiro Aranha, considerado o primeiro artista amazonense.

 Cortesia do amigo Roberto Mendonça, o poema de Anisio Mello (1927-2010), foi publicado em 1959, no Correio do Norte, folha quinzenal paulistana, dirigida pelo próprio Anisio.

domingo, 2 de maio de 2010

E.S. (Educação Sexual) 1/2

Allison Leão


Aos doze anos, Felipe de Oliveira Borboleta (F.O.B.) percebeu que estava apto a iniciar atividades sexuais que envolvessem uma pessoa além dele mesmo. Pelas amplas informações obtidas nos livros de ciências, F.O.B. podia reconhecer os sinais de sua plena disposição física. Quanto à disposição psicológica, o conhecimento caseiro, obtido através de incansáveis instruções, o deixava à vontade para determiná-la.

Um dia (era uma sexta-feira), seu pai (psiquiatra) despiu a esposa (ginecologista) em frente ao menino. Para F.O.B., não era novidade alguma ver a mãe assim (se bem que nos últimos meses ela evitasse os antes rotineiros banhos com o filho). Ao som da tranquilizadora Primavera de Grieg, Doutor Papai sentou F.O.B. numa cadeirinha e passou a explanar, demorada e detalhadamente, uma palestra sobre o funcionamento do aparelho reprodutor feminino. Para melhor compreensão às operações concretas típicas da idade do garoto, Doutor Papai desenhou, com incrível perfeição, os órgãos internos na pele nua da barriga de Doutora Mamãe. Quanto aos órgãos externos, obviamente eles já se expunham por sua própria natureza de externalidade. F.O.B. acabava de comer o indigesto mas necessário fruto de sua árvore do conhecimento. Isso aconteceu no dia em que completava 5 anos de idade.

Na semana seguinte, Doutor Papai e Doutora Mamãe trocaram de função. E não houve a necessidade de tantos desenhos. Assim, desde aquela primeira enxurrada de informações e durante anos, semana após semana – sempre às sextas e com tranquilizadoras sinfonias –, a vida de F.O.B. foi um irrefreável acumular de informações. Para não correr riscos com a típica seletividade da memória juvenil, Doutor Papai e Doutora Mamãe entregavam, ao final de cada palestra, um manual ou uma revista científica a F.O.B., a partir de cujo conteúdo se sabatinaria o aprendiz, na semana seguinte. Nestes tempos de AIDS e gravidez precoce, quanto mais e mais cedo os jovens tiverem informações, melhor para a nossa sociedade, repetiam esse irrefutável preceito o Doutor e a Doutora.

Quando a voz de F.O.B. principiou a dar repiques, quando lhe eclodiram as primeiras espinhas, quando os braços, longuíssimos e desajeitados, pareceram pertencer a outra pessoa e quando a polução noturna ficou mais frequente, não havia dúvida: por decisão própria, F.O.B. foi a uma drogaria e comprou seu primeiro pacote de camisinhas. Erotic – testadas eletronicamente.

F.O.B. sabia que estava preparado, mas o resto do mundo parecia sequer desconfiar de sua plenipotência sexual. Mesmo assim, não se desesperou, pois os manuais diziam que tais eventos são de grande importância na vida de um jovem e que exatamente por isso devem ocorrer naturalmente. E, naturalmente, seguindo o que diziam os manuais, F.O.B. aguardou o grande momento. Até lá, ficaria a camisinha Erotic no bolso, inseparável; sua iniciação, pensava F.O.B., era mais do que iminente. Enquanto isso, nosso pequeno homem não descuidava de cultivar uma penugem no queixo, que passava por cavanhaque, como um aviso de masculinidade e prontidão para as fêmeas.

Mas eis que aos quinze anos cá estava F.O.B. tão virgem como quando nascera. Permanecia à espera do grandioso acontecimento natural. Consultara várias vezes os manuais, mas eles eram sempre muito vagos sobre a data específica do evento. Uns diziam que por volta dos 12 anos. Outros, até os 18. Na escola, nas aulas de Ensino Religioso, o professor enfatizava a preservação da castidade até o casamento. Felizmente, essa opinião não contava para F.O.B., pois nela não havia a menor sombra de base científica.

A espera ficou mais angustiante quando F.O.B. foi matriculado no Instituto de Educação, último estabelecimento de ensino laico na cidade a conservar o rigor e a disciplina do estudo. Felizmente ou infelizmente para F.O.B., a população feminina era maioria esmagadora no Instituto. E mais esmagado ele sentiu-se ainda ao conhecer Aseta Michele dos Anjos (A.M.A.).

(Conclui no próximo domingo, 09/05)

sábado, 1 de maio de 2010