Amigos do Fingidor

terça-feira, 31 de maio de 2016

Galinha que se mete com pato...



Pedro Lucas Lindoso


Depois de um profícuo e prazeroso exílio de mais de trinta anos em Brasília, retornei a Manaus, onde reatei amizades, laços e muitos contatos. O último que fiz, em pequena incursão pela floresta, foi com o famoso Curupira. Sim, caros leitores, eventualmente, tenho contatos com o um dos garotos mais astutos que conheço.
O Curupira tem seus pés virados para trás e monta nos caititus com um cachimbo na boca.
É o sujeito mais ecologista que conheço. Um verdadeiro ecochato. Protege como ninguém a floresta, os animais e as plantações. Se alguém ou um caçador quer fazer algo que possa prejudicar o meio ambiente ele procura enganar o criminoso ambiental. Faz a pessoa se perder na mata.
Outro dia mostrou-me seu machado, feito de casco de jabuti. Mas nunca foi usado para destruir ou cortar árvores. O Curupira fica especialmente zangado quando alguém destrói um ninho de passarinho ou mata filhote de animal.
Conhece todos os bichos da floresta e deles me dá notícia. A onça pintada é nosso maior felino. Como não há leão por aqui, disputa com a suçuarana a coroa de rei (ou rainha) da floresta.
Parece que há alvoroço não só nas cidades. Aqui pela floresta, a coisa está complicada, segundo me disse o curupira. Muita conspiração entre os macacos. Existem os de vários tipos: o prego, o preto, o de cheiro, o da noite. Parece que eles andam se desentendendo. Até a preguiça, sempre solitária, manteve conversa com o quati. Enquanto o caititu e a capivara, com as antas e tamanduás, andaram se encontrando às escondidas.
Os tucanos, como se sabe, não tem muita resistência de voo. Tem o bico comprido e ao atravessar um rio muito caudaloso, muitas vezes caem antes de alcançar a outra margem.
Até entre os domésticos a coisa está complicada. No vilarejo perto de sua jurisdição, abateram muito pato para fazer ao tucupi. Colocaram galinha para chocar ovo de pata. É um perigo. Quando nascem os patinhos, eles correm para o lago. A galinha, que não sabe nadar, quer ir atrás dos filhotes. Fica atarantada, de um lado por outro, na beira do lago.
Aprendi uma grande lição com meu amigo Curupira. Ele me disse: 
Galinha que se mete com pato ou fica doida ou morre afogada.

sábado, 28 de maio de 2016

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Portugal para principiantes 1


Tom Jobim dizia que o Brasil não é para principiantes. Realmente, a terra do Jucá, do Cunha e do Calheiros – onde o presidente da república diz em alto e bom som que foi secretário de segurança por duas vezes, e por isso sabe tratar com bandidos – não pode ser para principiantes.

Mas Portugal se deixa observar por curiosos e diletantes, que lá aportam diariamente, de todos os pontos do mundo, procurando entendê-lo. 


Terreiro do Paço, na Baixa Lisboa, às margens do Tejo, é o umbigo da capital portuguesa.

Arco Triunfal, no Terreiro do Paço, entrada para a Rua Augusta e o Rossio.

Detalhes do Arco Triunfal.

Azulejo representando uma batalha medieval, no bairro de Alfama.

A Baixa Lisboa vista do Castelo de São Jorge, tendo o Tejo como moldura. À esquerda, no centro, o Terreiro do Paço. Ao fundo, a ponte 25 de Abril, chamada, à época da ditadura, de ponte Salazar (vômito).  
Da metade para baixo, a Baixa; da metade para cima, o Bairro Alto. 
Ora, pois...
Vistos do Castelo de São Jorge.

No Castelo de São Jorge, à espera dos invasores, que vinham pelo Tejo.

Detalhes do Castelo de São Jorge, no alto da Alfama, o mais antigo bairro da cidade.

Mais detalhes do Castelo de São Jorge.

Templo católico da Alfama.

Teatro Nacional D. Maria II, na praça D. Pedro IV, ou, se preferirem, Pedro I do Brasil, construído sob a supervisão do escritor Almeida Garrett, e inaugurado em 1846.
A calçada da praça, mais conhecida como praça do Rossio, é uma cópia descarada do piso da nossa praça de São Sebastião, alvo também de cópia pelos piratas que criaram o calçadão de Copacabana. Ó raça...

Detalhe do pórtico do Teatro D. Maria II.


Fotos e texto: Zemaria Pinto


quinta-feira, 26 de maio de 2016

Primeiras leis organizando a medicina


João Bosco Botelho


Sem dúvida, na Mesopotâmia, nos anos 1700 a.C., os tratamentos não cirúrgicos eram mais frequentes. Alguns registros indicam a crença coletiva no poder curador da água. Dessa forma, centros de curas eram construídos próximo às margens dos rios.
A partir da compreensão de os astros serem deuses, se tornou corrente que a vida, a morte, a saúde e a doença dependeriam da vontade dessas divindades. Assim, o tratamento só seria competente se os curadores decifrassem as mensagens dos astros. Esse conjunto de crenças valorizou o adivinho como personagem essencial para evitar a doença, interpretando o horóscopo e o fígado do carneiro sacrificado.  
Por outro lado, o Código de Hamurabi, esculpido num bloco negro de diorita, exposto no Museu do Louvre, constitui importante fonte de informação, tanto em relação aos tipos de tratamentos médicos quanto aos pagamentos e penalidades, respectivamente, como recompensa pelo sucesso e castigo pela má prática.
É possível que esse conjunto normativo, inicialmente, não representasse código de leis como entendemos hoje, mas, provavelmente fosse um conjunto de decisões ditadas pelo rei Hamurabi, posteriormente, tornadas leis, em torno do ano 1700 a.C.
Em relação à Medicina, de modo muito claro, esse conjunto de leis estabeleceu a estratificação social, onde médicos atendiam pessoas de diferentes estratos sócio-econômicos e recebiam remuneração ou penalidades diferenciadas;  a medicina como especialidade social e o trabalho médico remunerado.       
Nas leis dedicadas à medicina, existe clara maior atenção ao trabalho médico invasivo, isto é, à cirurgia, fazendo pressupor que os procedimentos invasivos determinavam mais conflito se comparados às consultas clínicas. Desse modo, é possível entender porque eram tão severas as penalidades para as cirurgias com resultados insatisfatórios.
As principais leis que regeram a Medicina, no código de Hammurabi, são as seguintes:    
§ 215: Se um médico fez em um awilum, uma operação difícil com um escalpelo de bronze e curou o awilum ou (se) abriu a nakkaptum de um awilum com um escalpelo de bronze e curou o olho do awilum, ele receberá 10 siclos de prata;

§ 216: Se foi o filho de um muskenum, ele receberá 5 siclos de prata;

§ 217: Se foi o escravo de um awilum, o dono do escravo dará ao médico dois siclos de prata;

§ 218: Se um médico fez em um awilum uma operação difícil com um escalpelo de bronze e causou a morte do awilum ou abriu a nakkaptum de um awilum e destruiu o olho do awilum, eles cortarão a sua mão;

§ 219: Se um médico fez uma operação difícil com um escalpelo de bronze no escravo de um muskenum e causou-lhe a morte, ele deverá restituir um escravo como o escravo (morto);

§ 220: Se ele abriu a sua nakkaptum com um escalpelo de bronze e destruiu o seu olho, ele pesará a metade de seu preço;

§ 221: Se um médico restabeleceu o osso quebrado de um awilum ou curou um músculo doente, o paciente dará ao médico 5 siclos de prata;

§ 222: Se foi um muskenum, dará 3 siclos de prata;

§ 223: Se foi o escravo de um awilum, o dono do escravo dará 2 siclos de prata.

A transparente punição da má prática médica proporcional à importância sociopolítica do doente traduz a construção daquela sociedade escravista e rigidamente hierarquizada.

Semelhante aos dias atuais, a ausência no Código de Hammurabi de penalidade aos curadores ligados às crenças e idéias religiosas, indicam que eram menos fiscalizados: se a reza não conseguisse curar, a culpa seria da pouca fé do doente...

quarta-feira, 25 de maio de 2016

terça-feira, 24 de maio de 2016

Somos todos brasileiros



Pedro Lucas Lindoso

No último dia 19 de abril foi comemorado o dia do índio. Há uma canção que diz que “todo dia era dia de índio”. Porém, desde que os portugueses tomaram conta dessa terra, as coisas mudaram muito por aqui.
A jovem Carla é filha, neta e bisneta de índios legítimos do alto rio Negro, mas definitivamente não se reconhece como tal. Já Paulinho Ianomâmi é neto de índios, filho de cearense com cabocla e se considera índio. Milita pelos direitos da Nação Ianomâmi.
Antes de contar a história de Carla, preciso relatar rapidamente as origens de Toshio, Mohamed e Enzo. Todos brasileiros e como brasileiros se reconhecem e se orgulham de ser.
Toshio é neto e filho de japoneses. Sua mãe apaixonou-se por um brasileiro, mas foi proibida de casar. Casou-se então com o pai de Toshio, legitimo representante da Terra do Sol Nascente. Toshio pai faleceu manobrando um trator, deixando Toshio filho tão pequeno a ponto de não se lembrar do pai. Sua mãe casou-se com o brasileiro e deixou a colônia. Toshio só fala português e nem gosta de sushi. Não se reconhece como japonês.
Mohamed Silva é neto de árabes. Sua mãe fugiu para casar com seu pai. Tornou-se católica.  Mohamed leva o nome do avô por remorso da mãe. O casal mudou de cidade e Mohamed cresceu com os primos Silva. Mohamed não sabe nada de Árabe e não come quibe. É vegetariano. Diz-se brasileiro da gema.
Enzo é neto de italianos. Seu avô Paolo Andreotti chegou em Santos solteiro. Casou-se por lá mesmo com uma descendente de índios caiçaras. Seu pai Antônio Andreotti casou-se com uma linda catarinense filha de açoriana com alemão. Enzo se diz brasileiro, mas se considera um verdadeiro italiano. Por ser neto de Paolo Andreotti, tem dupla cidadania. Fala italiano, adora massas e prepara-se para fazer uma especialização em universidade italiana na Toscana.
Voltamos à história da Carla. Foi salva por uma freira salesiana. Algumas tribos sacrificam uma das crianças gêmeas. Como seus pais adotivos são amazonenses de classe média alta, descendentes de portugueses, não podem esconder a origem étnica da filha adotiva.
Carla estuda em bom colégio, faz ballet e inglês. Já foi à Disney e adora o Beach Park em Fortaleza. Não deseja conhecer a tribo de seus pais biológicos. Conhece a sua história e não gosta de ser chamada de índia. Questionada eventualmente ela responde sempre:
– Não sou índia. Tenho orgulho de ser amazonense e brasileira. 
Carla tem razão. Somos todos brasileiros. Inclusive o Enzo Andreotti e Paulinho Ianomâmi.


segunda-feira, 23 de maio de 2016

A enchente



Inácio Oliveira

           A enchente começou em uma manhã de segunda-feira. Quando acordamos, os degraus que desciam do assoalho haviam sumido debaixo d’água. Já não era possível descer as escadas e caminhar até a praia como no verão. O rio começou a subir, disse o meu pai cuspindo um resto de tabaco. Eu já sabia porque desde a noite passada ouvia-se o rumor das águas. Pelo resto da manhã ficamos, minha irmã e eu, olhando o rio crescer lentamente. Estávamos felizes porque aquilo era algo em que podíamos confiar: a enchente e depois a vazante. Podíamos confiar na natureza. Fizemos uma arca na cerca para ver quantos dias a água levaria para atingir; no final da tarde já havia ultrapassado aquela marca. Quando mamãe serviu o jantar todos comeram em silêncio ouvindo o rio passar por debaixo da nossa casa, como se isto fosse algo solene. Sentia-se o rio enchendo como quando se enche um jarro com água.
           Durante a noite ventou forte, as árvores remexidas pelo vento davam a impressão de uma revoada de pássaros ferozes. Achávamos que ia chover, mas o resto da noite foi de calor e sufocação. Lembrei-me daquela noite, já distante, em que Verônica esteve conosco pela última vez. Com o vento, a corda que sustentava a canoa ao mourão se rompeu e na terça-feira pela manhã vimos nossa canoa descendo o leito do rio numa viagem impossível. Agora estávamos presos em casa, a terra firme estava a quilômetros de distância. Se alguém pulasse n’água e fosse nadando à tardinha chegaria no outro lado, meu pai disse isso sabendo que ninguém jamais pularia no rio para escapar da enchente. O nosso mundo se tornara líquido.
           Depois de três dias os animais continuavam em pé em cima da maromba espantando os mosquitos com o rabo, sustentados apenas pelo hábito de estarem vivos. Uma vaca ajoelhou e cedeu sob o peso da longa espera precipitando-se no rio, pôs a cabeça para fora e se deixou ser arrastada pela correnteza; afundou lentamente, deixando uma espuma branca sobre a água. O rio engole tudo, disse a minha mãe. Agora podíamos ver apenas a copa das árvores sobre as águas. O pé de jenipapo tinha as folhas felizes no meio da enchente. Na sexta-feira choveu o dia todo, a chuva caindo sobre a água me deu a ideia de uma coisa triste, algo sem nenhum propósito. Sem que percebêssemos a enchente havia tomado conta também dos nossos sentidos.


sábado, 21 de maio de 2016

sexta-feira, 20 de maio de 2016

paixão


Zemaria Pinto

 
a nona sinfonia explode

tua lâmina me rompe o ventre

e faz jorrar o sangue da minha carne

plantando-me tua semente

 
a paixão violenta – o grito

a lágrima sufocada – ah, a alegria

língua que lambe o mundo

 
o beijo a dentada

contigo, eu pelo espaço:

Beethoven & boleros

 
sou uma égua de fogo

 

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Homens e deuses curando doenças



João Bosco Botelho

 

No panteão mesopotâmico, de 2.500 anos, entre os deuses causadores de doenças, se destaca o temido Pazuzu, cuja representação é uma mistura grotesca de homem, leão e escorpião, com quatro asas emplumadas, pernas e garras.
Por outro lado, as descrições dos quadros clínicos de muitas doenças eram de extraordinária clareza: febres acompanhadas de outros sinais e sintomas sugestivos de malária; apoplexia, provavelmente resultantes de lesões cerebrais agudas; tuberculose em diferentes fases da evolução clínica; muitâme, uma doença infecciosa endêmica desconhecida; distúrbios mentais, atribuídos aos ferimentos ou aos demônios; doenças dos olhos e ouvidos; dores articulares; tumores; abscessos; taquicardia; lesões da pele, inclusive hanseníase e doenças venéreas.
Os sintomas de muitas doenças foram descritos com extraordinária precisão:
Tuberculose pulmonar: “o doente tosse muito e de modo contínuo; a expectoração é densa e, às vezes, contém sangue, sua respiração dá um som semelhante ao de uma flauta, sua pele é fria mas os pés estão quentes, ele sua muito e seu coração está muito perturbado. Quando a doença é extremamente grave os intestinos se abrem muitas vezes”;
Otite: “Fogo penetra no interior do ouvido, paralisando a audição. Grande quantidade de pus irrompe no local e seu estado é de dores”;
Gastrite: “Quando alguém come e bebe até ficar satisfeito, sentindo depois dores no estômago como se sua pele inteira queimasse como fogo”;
Hepatite: “Quando os olhos de alguém ganham uma coloração amarela e a doença avança até sua vista, de modo que o interior do olho se torna amarelo como cobre... quando ele vomita e a bebida... quando até seu rosto e o corpo todo se torna amarelo, então a enfermidade resseca o corpo todo do doente, de modo que ele chega a falecer”;
Asma brônquica:Quando o doente sofre de tosse; quando sua traquéia produz um chiado ao respirar; quando tem acessos de tosse...” 

É possível que essas maravilhosas descrições clínicas, entre muitas, foram feitas por médicos, reconhecidos pela administração:
Ashipu, como responsável pelo diagnóstico da doença, indicava o deus ou o demônio causador e analisava se os pecados do doente estavam relacionados à doença. Também prescrevia o rito do encantamento que deveria ser seguido para afastar o mal e obter a cura;
Asu, o médico e especialista em remédios obtidos a partir das plantas medicinais também cirurgião. Muitos vegetais com propriedades curativas eram receitados, como a raiz da mandrágora que permaneceu no receituário até o final da Idade Média. Como essa planta lembra, grosseiramente, o corpo humano, era-lhe atribuída propriedade mágica.
Baru, curador ligado às idéias e crenças religiosas, adivinhador, predizia o futuro, orientando contra as doenças e catástrofes coletivas.
Não é possível separar, rigidamente, as áreas de atuação dos três curadores: todos trabalhavam ligando o conhecimento historicamente acumulado  às crenças e ideias religiosas.
O ensino da medicina ocorria no interior dos templos e ficava restrito aos parentes dos sacerdotes e ricos.
Esse fato não é novidade, tanto nas sociedades escravistas quanto no presente é certo que os pobres têm muito menos acesso aos tratamentos médicos e à possibilidade de serem estudantes de Medicina. Na Mesopotâmia, não era diferente. Assim, é precisa a observação de Heródoto, no século 5 a.C.: levar os doentes à praça pública, para serem tratados por alguém que tivesse experiência na mesma doença.

 

quarta-feira, 18 de maio de 2016

terça-feira, 17 de maio de 2016

Idalina, a garanchosa



Pedro Lucas Lindoso

Recebi um telefonema de tia Idalina. Estava aos prantos. Dizia não aguentar mais essa situação de crise e com o país dividido. Idalina tem um grupo no whatsapp – “chez-Idalina”. O grupo é composto pelos diversos sobrinhos e sobrinhas de Idalina. Tanto os do Rio como os de Manaus.
Ocorre que ela tem dois sobrinhos que tem posições políticas diametralmente opostas. Um deles postou algo que não agradou, o que o outro respondeu:
– Se eu concordasse com você, ambos estaríamos totalmente errados.
Idalina não sabe explicar se foi a sutileza da resposta ou se os ânimos estavam mesmo muito exaltados, o fato é que o rapaz saiu do grupo.
Não se conformando com a saída do whatsapp do tal sobrinho, pediu a todos que evitassem disputas e postagens políticas no chez-Idalina. Explicou-lhes que ela mesma estava sempre indecisa. Porém agora não tinha certeza de mais nada.
Como estamos em preparação para o Festival Folclórico de Parintins, pediu aos sobrinhos que se detivessem tão somente as disputas bovinas. Com relação à politica, conclamou a todos a se perdoarem 70 vezes 7 e a não guardar rancor.
Obviamente na disputa bovina há os que torcem pelo Caprichoso, cor azul. E há os que torcem pelo Garantido, cor vermelha. As disputas entre os dois grupos de sobrinhos meio cariocas meio amazonenses sempre foi bastante saudável. Nunca houve problemas.
         Idalina está contente porque esse ano o início do festival vai coincidir com o dia de São João. Ou seja, começa na sexta, dia 24 de junho. Todos estarão chez Idalina.
Há vários anos titia arma uma pequena arena no “play” (assim os cariocas chamam salão de festas). É uma verdadeira festa junina amazonense. Tacacá, bolo podre, banana frita, mugunzá e um delicioso aluá, que só ela tem a receita.
De um lado ficam os sobrinhos do Garantido, cor vermelha. Do outro ficam os do Caprichoso, cor azul.
Idalina se diz garanchosa. Veste-se de calça azul e camisa vermelha. E se diverte.



sábado, 14 de maio de 2016

sexta-feira, 13 de maio de 2016

o sonho que te sonhei


Zemaria Pinto

o sonho que te sonhei
na noite em que não ligaste
começou num pesadelo:
te procurava assaltado
buscando por toda parte
por vielas escondidas
barrancos enlameados
barracos tão desdentados
que pareciam sorrir
escarnecendo de mim

– me vi perdido entre sombras
entre sombras que vivi
as mesmas que te guardavam
quando perdi-me de ti

no sonho que te sonhava
as lâminas rebrilhavam
sem nenhuma simetria
forjando um balé infame
de ritos cotidianos
e o sangue que o chão marcava
pelas trilhas do caminho
eram sinais decifrados
de sacrifícios inúteis
a um Deus sacrificado

– tentei gritar mas o grito
ecoou dentro de mim
a solidão de um vagido
no silêncio absoluto

quando por fim te encontrei
num leve vestido branco
entre o vasto plenilúnio
e a manhã dos girassóis
meu corpo se uniu ao teu
e o corpo com que sonhei
deixou de ser corpoenigma
com seus cheiros, com seu gosto
de mel e sal entranhados
na pele dos meus sentidos

(– no sonho me desencontro
do desencanto da vida
tecendo em tons de delírio
esta balada falida)

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Não é assim que a banda toca



Paulo Sérgio Medeiros

Vontade de botar a boca no trombone, mas sei que não é assim que a banda toca. Ver a classe de educadores pianinho? Não é assim que a banda toca. Levar a educação na flauta, não é assim que a banda toca. Levar a educação na valsa, não é assim que a banda toca.
Minha diegese nesse texto não tem fundamentos científicos e não é baseado em nenhuma pesquisa, é só um ponto de vista mesmo.
O aluno tem 14 anos de idade e está no sexto ano quando deveria estar no nono. Ok, houve um ruído aí no seu processo de ensino-aprendizagem, mas não vou pormenorizar essa questão, pois a natureza do ruído é variada. Vamos para a solução encontrada pelos pensadores.
Criaram ou inventaram o AVANÇAR. O que isso significa? Significa que o aluno-estourado do sexto ano pode ao final do ano letivo ser aprovado para o nono ano. Surreal? Nada! Real! Surreal é já no primeiro bimestre o professor definir por sua conta e risco o quanto esse aluno vai avançar. Sim, porque esses alunos podem avançar duas casas ou três. E vocês sabem quem é que joga os dados? (Foi inevitável não abrir um sorriso irônico agora) O professor! Professor-mãe Diná, Pois é, no primeiro bimestre o professor, num solo de guitarra, já crava quem avança duas ou três casas. Aí eu me pergunto: Ainda preciso enganar, quero dizer, dar aula pra essa turma?
Confesso que sempre fui péssimo nessa coisa de adivinhação. E se esse cara que eu apostei que ia avançar muito desandar no decorrer do ano? Sorry, Paulo. Você vai ter de honrar sua palavra. Ele vai avançar muito e fuck the rest!
Esse sistema desafinou. O AVANÇAR é de dar dó. AVANÇAR é ENGANAR. E pra mim, não é assim que a banda toca.

A serpente como símbolo da cura



João Bosco Botelho

           Os professores das faculdades de medicina que convivem com os alunos dos primeiros períodos percebem, sem dificuldade, nas expressões gestuais, o imenso orgulho de eles estarem na faculdade, e, especialmente, o cuidadoso uso das batas brancas com a serpente enrolada no bastão bordada no bolso ou na manga. Os mais entusiasmados ainda exibem as canetas e chaveiros enfeitados com a serpente.
           A ancestral relação, datando de 2500 anos, da serpente como símbolo de cura, já estava presente na teogonia e na teofania mesopotâmicas. No complexo panteão de deuses e deusas curadores, se destacam: Ningischzida, filho de Ninurta, representado pelas duas serpentes enroladas no bastão, e Sachan, a deusa-serpente.
           Simultaneamente, talvez como sequência teogônica, a narrativa mítica do herói Gilgamesh, o rei sumério, da cidade-estado de Uruk (hoje em dia Warka, no Iraque), a serpente se relaciona à vida eterna. Essa extraordinária narrativa, recuperada na tradução de doze tábuas de argila, infelizmente incompletas, encontradas por arqueólogos, em Nínive, na antiga Acádia, escrita em linguagem acádia, durante o reinado de Assurbanipal (668-627 a.C.).
A descrição desse épico explica, inicialmente, a natureza de Gilgamesh como sendo mais divino que humano, mas também reconhecido como construtor e guerreiro, simultaneamente, tirano e despótico. Os deuses, atendendo às súplicas do povo, enviaram Enkidu para matar Gilgamesh. A luta titânica não resultou em vencedor e vencido. Ao contrário, os dois tornaram-se amigos e partiram para novas aventuras. Longe de Uruk, enfrentam Huwawa, o guardião divino dos bosques de Cedro. Apesar de faltarem partes das tábuas que contam parte da história, é possível deduzir que Gilgamesh derrota Huwawa. Voltando para Uruk, Ishtar, a deusa do amor e da fertilidade propõe-lhe casamento. Gilgamesh sabendo do triste destino dos homens que se uniram a ela recusa o convite. Ishtar, enciumada e colérica, convence o pai a enviar o touro celestial para matar Gilgamesh. Ele e Enkidu enfrentam e derrotam o monstro. Por ter participado do duelo, Enkidu recebe a ameaça de castigo em sonho, quando os três deuses, Anu, Ea e Shamah, dizem-lhe que irá morrer em breve. Como previsto, adoece e morre. Gilgamesh, desconsolado chora a morte de seu amigo e parte numa perigosa viagem em busca do sábio Ut-Napishtim, único sobrevivente do dilúvio, justo e piedoso no meio da barbárie e da injustiça, que possui o segredo da imortalidade.
Os deuses mandaram Ut-Napishtim construir um barco no meio do deserto e esperar o pior. Durante seis dias e seis noites, aconteceu o dilúvio, tão intenso que até os deuses se assustaram. Gilgamesh sobreviveu ao dilúvio e quando o nível das águas baixou, surgiu a nova Mesopotâmia.
Na busca da imortalidade, Gilgamesh ouve do imortal Ut-Napishtim que a planta da vida eterna está no fundo de um lago, e parte na busca da imortalidade. Como sempre, enfrentando muitos desafios, triunfa. No caminho de volta a Uruk, cansado, descansa na margem do lago e, ao acordar, vê a serpente roubar a planta milagrosa; após engoli-la, rejuvenesce, mudando a pele. Nada mais resta a Gilgamesh a não ser chorar, amargamente, a perda da imortalidade.
Desse modo, é admissível estabelecer relações históricas e míticas entre as batas dos estudantes de medicina, a serpente representando o deus Ningishzida e o mito de Gilgamesh, todas como metamorfoses da luta épica contra a morte.


quarta-feira, 11 de maio de 2016

Fantasy Art - Galeria


White Dream.
Alberto Pancorbo.

terça-feira, 10 de maio de 2016

Cleóbulo, o pávulo



Pedro Lucas Medeiros

Dizem que o que mata o caboclo é a pavulagem.  O velho e bom dicionário Aurélio, define pávulo, ou pábulo, como fanfarrão e gabola. Mas nós, amazonenses, sabemos que a pavulagem transcende a fanfarronice e a gabolice. Além de convencido e blasonador, o pávulo quer ser, sem o ser. Enfim, a pavulagem é uma instituição.
Cleóbulo, finado servidor da Prefeitura de Manaus, exerceu a pavulagem em alto estilo e dela foi vítima, coitado.
Entrou para os quadros da municipalidade em questionável concurso público no cargo de auxiliar de portaria. Como tinha o curso de técnico em contabilidade, e se dizia “perito contador”, foi logo galgando a função de auxiliar de contabilidade. Isso tudo antes da Constituição Federal de 1988, quando o Ministério Público era uma reles promotoria, sem poder para fiscalizar a lei e os desmandos governamentais com a eficiência dos dias de hoje.
Um dos primeiros carros de Cleóbulo, o pávulo, foi um Monza de segunda mão sem ar-condicionado. Ele andava com as janelas fechadas e um ventilador de pilha a lhe amenizar o calor. Quem duvidaria que aquele automóvel fosse desprovido de ar?
Sempre bem vestido, de sapatos engraxados. Cleóbulo engraxava principalmente a sola dos sapatos, para ter aparência de novo. Morador do Bairro da Compensa, alardeava habitar para os lados da Ponta Negra. Certa vez, tirou férias e disse que ia ao Rio de Janeiro. Escondeu-se em um sítio, do outro lado do rio, no Município do Careiro. Coisas de Cleóbulo, o pávulo.
Com a velhice e prestes a se aposentar, gabava-se que seu destino final era o Cemitério São João Batista, local onde são enterrados os amazonenses ilustres, como ele. Como se sabe o tal cemitério está com lotação esgotada. Hoje a maioria dos sepultamentos é feita no cemitério do Tarumã.
– Morro, mas não vou para o Tarumã, dizia ele. É longe e sem tradição.
De fato, a família de Cleóbulo tem um jazigo no São João Batista. Lá estão seus avós, pais e tios. Quem é a responsável é sua prima Clarinda. Função herdada de seu pai Clemilsom, tio de Cleóbulo e o último da família a falecer.
Pois bem, Clarinda alertou Cleóbulo, contemporâneo de Clemilsom Filho, que quem morrer primeiro é bom esperar cinco anos. Senão vai para o Tarumã.
Ao saber que seu primo Clemilson Filho estava gravemente enfermo, teve um enfarte fulminante e morreu. Possivelmente apavorado em ser enterrado no Tarumã. Em sua lápide está escrito:
Aqui jaz Cleóbulo, o pávulo. Descanse em paz.

sábado, 7 de maio de 2016

sexta-feira, 6 de maio de 2016

exercício nº 14



          Zemaria Pinto

A cidade anoitece os seus desígnios         
sobre as hordas de selvagens andarilhos,
murmurando gritos sob o burburinho
dos inúteis, dos descrentes e dos bêbados.

A cidade, com seus círculos vorazes
de granizo e fogo e gelo e sangue e serpes:
a cidade-precipício e suas sendas,
suas sombras, seus pudores, seus pecados.

Sob a luz difusa revejo Francesca,
fazendo strip-tease à música do vento.        
Outros tantos corpos nus por nós passeiam
lágrimas, canções, sussurros e gemidos.

Quedo-me em silêncio ao pé da Poesia,
embriagado de desejo e agonia.

quinta-feira, 5 de maio de 2016

BBB Melo e Póvoas



Paulo Sérgio Medeiros

Hoje saiu mais uma colega de trabalho. Vamos a suposta conversa do gestor com a colega.

Os pitagóricos interessavam-se pelo estudo das propriedades dos números. Para eles, o número, sinônimo de harmonia, era considerado como a essência das coisas, criando noções opostas (limitado e ilimitado) e sendo a base da teoria da harmonia das esferas.

No entanto, o universo é uma harmonia de contrários. O ser capaz mora perto da necessidade. Até concordo que ajudes teus semelhantes a levantar a carga, mas nunca a carregues. Tenho certeza que com organização e tempo, acharás o segredo de fazer tudo e bem feito.

Peço-te, eduque as crianças, para que não seja necessário punir os adultos. Ou em estado de dúvida, suspenda o juízo. Eu sei que os homens são miseráveis porque não sabem ver nem entender os bens que estão ao seu alcance.

Então venho através dessas palavras, suspiros da alma, dizer-te; despreza as estradas largas, siga os carreiros.

Venha bater um papo com Pitágoras aqui fora da casa, professora de matemática.

Os primeiros registros escritos da medicina



João Bosco Botelho
            
Nas primeiras cidades-estados da Mesopotâmia (Ur, Ourouk, Sumer e Nippur), ocorreram notáveis avanços na medicina.
No início da década de 1920, alguns textos em escrita cuneiforme, da biblioteca de Assurbanipal, foram publicados por Campbell Thompson. Entre os mais importantes, o Tratado de Diagnósticos e Prognósticos Médicos, de 1600 a.C, com quarenta tábuas, descrevia com precisão as práticas médicas.
Os registros entendiam o coração como sede da inteligência e o fígado como o centro da circulação, com informações organizadas em subseções expondo doenças de crianças e mulheres por meio de observação minuciosa e aguçada.
Os conceitos terapêuticos mesopotâmicos baseavam-se na crença de que as mudanças no curso da saúde e da doença se encontravam estritamente unidos e subordinados à vontade dos deuses. Essa compreensão, em si mesma teocêntrica, aliava-se à importância dos movimentos dos corpos celestes, onde os astros sendo deuses poderiam predizer o futuro, em especial, as condições da saúde e da doença.
As doenças e curas se explicavam por meio de complexa relação entre os deuses bons ou gênio bondoso e deuses maus ou demônios. O gênio bom protegia as pessoas dos demônios causadores de doenças, onde cada enfermidade conhecida e temida era associada ao deus mau.
No complexo panteão mesopotâmico se destacava o poderoso deus Marduk, que, acima de qualquer outro, poderia oferecer a saúde ou a doença.
É interessante assinalar que a palavra shêtu significava simultaneamente doença, pecado ou castigo divino. Essa constatação sugere que a ancestral e temida relação entre doença-pecado, até hoje utilizada em alguns processos catequéticos, está presente desde as primeiras linguagens escritas.
 Desse modo, é possível teorizar que o significado pessoal e coletivo da doença, nas primeiras cidades da Mesopotâmia, estivesse contido entre quatro pressupostos de naturezas mágicas: castigo divino, ofensa a determinado deus, intervenção direta dos deuses maus e resultante do abandono do deus bom ou da influência de demônios.
Por essa razão, a intervenção do curador de todos os matizes, sem se saber onde começava a religião e terminava a prática religiosa, se iniciava na confissão do doente. A terapêutica também embutia o objetivo de purificar o indivíduo por meio da catarse induzida pelo remédio de qualquer natureza, em especial as rezas e as oferendas.
A tradução da tábua cuneiforme, com seis por três centímetros de tamanho, lembrando um cartão de visitas, pertencente ao médico Urlugaledina, representa essa teorização: o nome do médico entre duas figuras desenhadas na argila; à esquerda, um deus, e à direita, uma planta medicinal, e o texto: “Ó deus Edinmugi, vizir do deus Gir, que protege os animais quando tem seus filhos, o médico Urlugaledina seu servo”.
Igualmente impressionante é o fato de essa presença mágica não estar dissociada do enorme conhecimento médico historicamente acumulado reforçando a utilidade social e, por isso mesmo, valorizado e reproduzido sem esforço: compressa aquecida e embebida com resina alcalina para tratar as feridas traumáticas, que são, ainda hoje, de comprovada utilidade. Pelas descrições, algumas delas liberavam sabão, que ajudaria a proteger contra as infecções bacterianas. É de tirar o fôlego a clareza da descrição das doenças – tuberculose, amigdalite, gastrite, acidente vascular cerebral, malária e dezenas de outras – no Tratado de Diagnósticos e Prognósticos Médicos, de 1600 a.C.