Amigos do Fingidor

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quinta-feira, 22 de outubro de 2026

A poesia é necessária?

 Às portas do inferno

Zemaria Pinto (1957 – ?)

 

Um dia eu achei que ia morrer aos 27 anos, como um poeta maldito.

Depois, achei que não passava dos 50, idade em que morriam os heróis românticos.

Temendo morrer antes dos 70, sobrevivi. Mas estou chegando lá.

Estou vendo a negra claridade me queimando as retinas

e trovões de mil megatons me arrebentando os tímpanos

as mãos tremendo sem meu controle

e a memória definhando como um peixe na maré baixa.

 

Quando nasci nenhum anjo torto, mouco ou louco veio ler a minha mão, o que não estranhei: anjos são patéticos, a menos que tenham asas de avião.

Eu nasci em plena Revolução. Nas guerras de guerrilhas dos pântanos de Cuba, do Cambodja e do Vietnão.

Mas comecei a morrer quando a ditadura me chutou da rede esplêndida em que eu dormia.

E morri com Malcolm X.

Morri com o Che Guevara.

Morri com Luther King.

Morri com Marighela.

Morri com Lamarca.

Morri com Oswaldão.

Tirando o Che e o Capitão, todos negros.

É negra a Revolução?

Aí lembrei de outras revoluções, que me passaram como passa o fantasma da história:

o rock’n’roll, a bossa-nova, o cinema novo

a minissaia, a anticoncepção, o feminismo, o ativismo gay 

o movimento negro, o movimento indígena

Gal, o tropicalismo, Gal, as dunas do barato, Gal, LE-GAL

Gal, índia ou hippie, era tudo Gal, tudo igual, tudo FA-TAL, Gal!!!

 

ofingidor foi minha pequena revolução: mas ninguém entendeu porra nenhuma – um dia entenderão?

 

Até que, do fundo do ABC, surgiu a luz.

Pálida luz de esperança, que teima em bruxulear.

Em 1989, 1994, 1998 nossa pequena revolução permanente perdeu para a Globo e falsos ideólogos da esquerda.

Quatro eleições depois, quatro mandatos – de Lula a Dilma – e alternado a Globo com golpistas e fascistas, mais dois mandatos de Lula! Ou não!?

Não cabe a dúvida: só precisamos vencer a Globo!

O fascismo está encurralado!

 

E aqui estou eu, às portas do inferno dos setenta

surdo cego senil mas ainda juvenil

e se em mim não acreditam, rimem, rimem, rimem!

Amem!

Amém! 


sábado, 3 de outubro de 2026

Recepção a Sergio Cardoso, cadeira n° 2

 Noite de 13 de agosto de 2017

 

 

A Academia Amazonense de Letras reúne-se nesta noite para reafirmar sua perenidade, representada pela posse de um novo acadêmico e o paradoxo que isto produz: um signo de mudança como paradigma de imutabilidade.

Tristeza e alegria são componentes antagônicos de um mesmo processo, cujo propósito é a permanência da instituição acadêmica. Tristeza, porque lamentamos a falta do confrade antecessor. Alegria, porque celebramos a chegada de um novo companheiro. Assim, a Academia se renova e, às vésperas de completar um século de fundação, rejuvenesce. Pois é desta matéria que é feita a Academia Amazonense de Letras: da vida e da obra de seus pares.

Muito me honra a tarefa de que fui incumbido nesta noite: recepcionar o novo membro desta Casa – o cineasta, fotógrafo, dramaturgo e artista plástico Sergio Cardoso. O meu amigo Sergio Cardoso, a quem me dirijo agora.

 

A cadeira N° 2

Sergio, na cadeira para a qual foste eleito tens por patrono Euclides da Cunha, que tanto bem fez à literatura brasileira, especialmente com o seminal Os Sertões – um ensaio histórico-político-antropológico e antropofágico, com sabor de romance e cheiro de poesia. Mas Euclides também, involuntariamente, causou muito mal à literatura brasileira, pois seus êmulos perderam-se na tentativa de reproduzir seu estilo, realizando apenas pálidas caricaturas do modelo. Euclides escrevia como um rio amazônico – cheio de nascentes, braços, furos, paranás, meandros, vaus, peraus, lagos, igapós, estuários e afluentes.

Quem te antecede na cadeira n° 2, é Moacir Andrade, o Maninho, artista de reconhecimento internacional, que pintou a Amazônia com uma originalidade ímpar e com um estilo paralelo ao de Euclides na escrita, onde a poesia das cores narra lendas e mitos e fixa paisagens e costumes amazônicos. De algum modo, que eu não sei traduzir em palavras, Euclides da Cunha e Moacir Andrade são almas gêmeas – talvez, na inquietação; na invenção, talvez. Com certeza, na independência criativa de ambos. O teu desafio é manter acesa essa chama, o que para ti, decerto, não será obstáculo, pois tens, nas várias modalidades artísticas que abraçaste, essa centelha que ilumina mundos.   

 

A nossa geração

Atingida a linha demarcatória dos 60 anos, começo a olhar para trás e para os lados, buscando enxergar o que construímos nesse tempo que se constitui, há muito, na segunda metade de nossas vidas. Embora o conceito de geração seja controverso, variando de acordo com a matéria e ao sabor de interesses esquemáticos, quero falar aqui, Sergio, brevemente, da nossa geração – minha e tua. Mas antes digo o que entendo por geração: não é apenas um lapso de tempo, medido em anos; antes, é um tempo interior, medido por um calendário afetivo, em que pessoas de idade aproximada, ainda que pensando diferente, têm afinidades eletivas.

Os da nossa geração nascemos pouco antes da instalação da ditadura militar. Crescemos com ela e nos anos 70 fomos para as ruas. Em 1984, um congresso acanalhado e acovardado atropelou a História e adiou as “diretas já” por 5 anos. Crescemos sob a repressão, sim, mas fomos sempre libertários.

Quero homenagear aqui a nossa geração, pedindo desculpas antecipadas por eventuais omissões.

Na literatura: Antônio Paulo Graça, Cláudio Fonseca, Dori Carvalho, Marco Adolfs, Milton Hatoum, Pedro Lucas Lindoso, Rita Alencar e Silva, Simão Pessoa e Tenório Telles.

Nas artes plásticas: Arnaldo Garcez, Bernadete Andrade, Fernando Jr., Homero Amazonas, Jorge Palheta, Otoni Mesquita e Rui Machado. 

Na música: Afonso Toscano, Antônio Pereira, Armando de Paula, a dupla Candinho & Inês, Celdo Braga, Lucinha Cabral, Mauri Mrq, Roberto Dibo e Zeca Torres.

No teatro: Chico Cardoso, Francisco Carlos, Luiz Vitalli, Nonato Tavares, Socorro Langbeck e Théo Correa.

E não posso deixar de referir os confrades Aristóteles Alencar, que você, carinhosamente, diz que é seu “médico do coração”, Geraldo dos Anjos, pesquisador e historiador, e Mazé Mourão, jornalista e cronista.

Assim como tu, Sergio, todos esses nomes, de alguma forma, fazem parte do meu calendário amoroso de uma geração que deu muitos frutos. E ainda por muito tempo – os que aqui estamos – faremos da arte a nossa missão.

 

Verdes anos

Nascido Sergio Vieira Cardoso, em 10 de março de 1954, nesta cidade de Manaus, que mais tarde viria a ser o ponto referencial de tua obra – cinematográfica, fotográfica, plástica, dramática; ou, para usar o adjetivo que os gregos antigos lançavam mão para classificar tudo o que não era utilitário – tua obra poética. Porque tu pensas poeticamente – e é poesia o que resulta de teu trabalho, no cinema, na fotografia, na pintura, no teatro.

E num exercício de imaginação, vejo-te inicialmente caminhando, de mãos dadas com dona Ruth e seu Fernando, pelas calçadas da Ramos Ferreira, onde nasceste, há não mais que 100 metros da Academia Amazonense de Letras. Funcionários públicos, teus pais, assim como tua avó materna Dinah – pianista, fluente em francês e influência decisiva na tua formação –, lutavam contra as adversidades enfrentadas pelas famílias pobres de Manaus, as mesmas dificuldades que meus pais, certamente, encaravam naqueles anos pós-guerra e pré-Zona Franca. O menino Sergio lutava, desde muito cedo, a luta da gente grande. Mas não descuidava de ser menino, apenas, inventando e construindo brinquedos de madeira – aviões, barcos, trens e até um projetor de cinema, feito com espelhos e lentes de óculos – e encenando as principais cenas dos filmes assistidos, com cenografia própria, luzes e, sobretudo, imaginação. 

A amizade com o sociólogo e ex-presidente desta Casa André Araújo foi fundamental na tua formação. O velho e generoso amigo te emprestava coleções inteiras, com autores russos e franceses, especialmente, além do bom Monteiro Lobato – e poesia também, do jovem Thiago de Mello ao maduro Drummond, que já passara da fase de querer ser moderno para se pretender eterno. Em paralelo, como qualquer garoto da nossa geração, gibis, gibis e mais gibis. O Teatro Juvenil dos Capuchinhos foi outra semente que te plantaste. E não podemos esquecer das novelas de rádio, fonte da tua dramaturgia, junto com o cinema, a que assistias nos cineclubes da cidade, mas também no Guarany, Polytheama, Odeon e Avenida.

Mas nem tudo era entretenimento. A arte exige introspecção, recolhimento – e tu tinhas momentos que eram só teus. E a religiosidade, que é uma de tuas marcas, brota do silêncio, junto com tua arte, embora nunca tenha interferido nela. Mas, sem dúvida, é o teu suporte espiritual para seguir lutando – e criando.    

A par da formação artística, estudando na Divina Providência, no Princesa Isabel e no IEA, não negligenciaste de sólida formação profissional. Advogado, frequentaste a Velha Jaqueira, e te tornaste procurador efetivo da Procuradoria Geral do Estado. Administrador cultural, tens várias especializações na área, em programas de formação nacionais e internacionais, consolidadas pela experiência prática em vários cargos públicos, entre os quais o de Superintendente da Televisão Educativa do Amazonas, o de titular da Superintendência Cultural do Estado, diretor do Centro Cultural Cláudio Santoro, do Centro Cultural Palácio Rio Negro e do Departamento de Difusão Cultural da Secretaria de Estado da Cultura.

 

Madureza

A tua arte, Sergio Cardoso, é multifacetada. Uso essa expressão para fugir do surrado clichê do multi-instrumentista, mesmo porque não te vales de vários instrumentos, senão de dois conjuntos deles: teus olhos e tuas mãos. Os sentidos se amalgamam e se amoldam, deixando que os olhos toquem e as mãos vejam e a criação seja algo para além dos sentidos convencionados pela obviedade cotidiana.

Pintura, fotografia, cinema, teatro – a tua arte traduz-se no embate dialético entre imagem e movimento, que tem como síntese sinérgica uma obra de arte de alta expressão.

Tivemos oportunidade, no ano passado, de assistir ao belo documentário que fizeste no centenário de Djalma Batista: com simplicidade, a partir de depoimentos e de imagens de época, compões o retrato do cientista e redimensionas o ser humano, dando-lhe a sua estatura real: um gigante humanista. Djalma Batista é mais que mero nome de rua – é um mito e uma referência a ser imortalizada pela permanente relembrança; e o teu filme consolida isso, de uma vez por todas.

A tua obra cinematográfica – especialmente, os documentários – precisa circular, Sergio. E já se contam às dezenas, sempre envolvendo figuras de proa da vida amazonense, como Hahnemann Bacelar, Arnaldo Santos, Jerusa Mustafa, Flaviano Limongi, José Gaspar, o homem que ensinava a amar o cinema, o nosso coração de campeão Ricardo Pepeta – carrasco dos rionegrinos como eu –, entre tantos outros.

Como artista de múltiplas faces, tua maior característica é a inquietude, exatamente aquela inquietude que fundamenta as obras de teu patrono e de teu antecessor: a inquietação da busca, da procura constante e, sobretudo, do questionamento permanente. Não satisfeito com a pintura, enveredaste pela fotoplastia, um conceito ainda não encontrável nos manuais de arte acadêmica. Teus experimentos já foram mostrados em várias exposições, mas a mim tocou-me, especialmente, Harborligths, que trazia uma série de fotografias, com interferências plásticas e textuais, do lado podre do porto de Manaus, o trecho da Manaus Moderna tomado por mendigos, bêbados e drogados de todos os naipes e matizes. Um delírio magrittiano, que eu vi assim:

 

cidade

podre paisagem truculenta transcendente pobreza instalada onde um dia a miséria da cidade flutuante foi transposta aos limites suburbanos da cidade mutante onde um dia a mata foi violada e seu vestido verde incinerado e os meninos curupiras transgrediram a dimensão do sonho e cavalgando alados cavalos da memória foram habitar o palácio esculpido  no rochedo onde um dia um magritte flutuou balões de gente as luas no museu de tudo figurado em melancia a cona escancarada em riso de deboche ó noite ó grafites a fenda no muro o rio aberto em mar os barcos ancorados no horizonte as coxas da cidade ávidas expostas ao membro dissoluto fotografias da cidade desfeita em urina e fezes não não haverá dia não haverá o delírio das cores aquecidas pelo degelo dos andes pelo desejo das ondas onde dantes havia apenas a água transparente do rio negro onde um dia profetas alienados esculpiram versículos definitivos e definidores destinados a eternizar a guerra sob a falsa paz que transcende a cidade anabolizada a pobreza da paisagem podre da cidade[1]

 

A fotografia e o cinema fizeram o século XX acreditar, durante muito tempo, que a pintura e a escultura e todos os seus derivados haviam se esgotado – a arte morreu! Mas a arte não morre, ela se retempera, se renova e se reinventa. Como em Oh City – Stages, uma de tuas mais recentes exposições, onde fotografia, cinema e pintura conviveram pacificamente, desnudando a violência da cidade:

 

Oh City – Stages foi uma exposição em movimento, cinética, ou como escreveria Glauber Rocha, kynetyka, fazendo longas ilações sobre a rede nazistalinista que se infiltra na palavra e na vida de todos nós, sem identidade e sem vontade, reduzidos a meros pontos no universo abstrato sergiocardosiano.

Uma exposição do deslocamento: nos videocines, o movimento de autos, o movimento de gente. Nas fotos, o desfoco era o foco. Em Therminalcódigos e Ethereoplanoviario, as máquinas de triturar almas, os corpos sem almas, os rostos amorfos, meros pontos nos quadros.

Duas câmeras fixas registraram a sandice do trânsito de automóveis na Barbarapólis. Em outro plano, uma câmera fixa registrava o vai e vem na orla do mercadogrande. Num, o tempo do quando, instantâneo esquizofrênico instante. Noutro, o tempo do sempre, da repetição lerda, lesmática, neurótica. Um: aves rapaces rapinam, sangrando os fígados das máquinas. Outro: vermes bípedes, em movimentos centrípetos, indo do nada para o nada e ao nada retornando, mas sempre adiante, reafirmando a autofagia do eterno retorno: não precisamos de luz.[2]

 

Ao marasmo da arte decorativa, o artista inquieto se doa por inteiro e transfunde seu sangue para injetar vida em sua arte porque “uma obra de arte é uma coisa viva; qualquer obra de arte será viva ou não será arte.”[3] Esta frase do poeta Ferreira Gullar justifica porque não me limitei a fazer aqui um inventário de tuas exposições. São tantas dezenas delas, seria cansativo. Além dos prêmios, que merecidamente recebeste. Prefiro instigar a plateia a olhar com olhos de pensar, e dizer que, na próxima oportunidade, não se furte a descobrir a vida que pulsa na arte em movimento de Sergio Cardoso.

Movimento que se observa sobretudo no teatro, para o qual tens tem sido, ao lado do confrade Márcio Souza, o mais fértil autor amazonense, chegando mesmo a criar um universo próprio – uma cidade, Lazone, à margem do rio das Sombras, com um teatro imponente, galerias subterrâneas, uma cidade flutuante e personagens que transitam de uma peça a outra, num grande painel suprarreal. São mais de 20 peças, algumas ainda inéditas e pelo menos dois prêmios de melhor dramaturgia no Festival de Teatro da Amazônia, por “A herança maldita de Mercedita de La Cruz” e por “Carmem de Lazone”.

Devo ressaltar a tua condição de escritor, essencial para seres aceito na Academia Amazonense de Letras: escritor de ficção, desfeita qualquer dúvida quanto à homologia entre o texto dramático e a literatura de ficção.

É desnecessário destacar que Lazone é Manaus – virada pelo avesso. Virtuosa e dissimulada. Casta e depravada. Mítica e desmistificada. Uma cidade em contínua desconstrução, em permanente metamorfose, em perene movimento.

Lazone está para tua obra como o condado de Yoknapatawpha está para a obra do romancista norte-americano William Faulkner. Isto está gravado em fogo nas dez peças e mais de trezentas páginas d’O livro do teatro urbano das mulheres de Lazone, onde tu trabalhas

 

sobre um fio de navalha: humor e tragédia se misturam, em cenas antinaturalistas, com uma agilidade cinematográfica. Não à toa, o cinema é uma referência constante, seja no nome das personagens seja nas inúmeras citações de títulos clássicos. Tudo potencializado, as situações criadas, de um humor amargo, aproximam-se do dramalhão hollywoodiano das primeiras décadas do cinema falado, com pitadas de noir; mas algumas figuras monstruosas remetem ao expressionismo alemão.

As mulheres de Lazone reinventam a história da cidade de Manaus, desde a crise da borracha até a primeira década deste início de século, contemplando exatos cem anos de imaginação a serviço da fantasia, onde convivem em deliciosa desarmonia cobras-grandes, vampiros, tartarugas radioativas, mendigos, loucos, socialites, prostitutas, malandros, políticos corruptos, fantasmas diversos e toda uma fauna de criaturas aprisionadas no dia a dia da cidade. E a despeito da grande quantidade de personagens a transitar no palco, a solidão das protagonistas – muito mais que a geografia e a história comuns – é o fio que costura as peças, dando-lhes unidade, estabelecendo vasos comunicantes entre elas, como num corpo vivo, montando esse extraordinário painel da arte cênica amazonense.

Amanda Catalatas, Mundica, Gilda, Carmem, Dorothy, Ambrozhia, Salomeh, Sabine, Crhisályda e Mercedita são mais que meras criações da mente inquieta de Sergio Cardoso: são arquétipos de mulheres que pintaram, com tintas épicas, a história cotidiana, banal, medíocre, desta cidade abrasadora, à margem esquerda do rio Negro.[4]

 

Imagem e movimento – opostos harmonizados na imagem em movimento do cinema ou do teatro – ou no movimento cristalizado em imagem do quadro ou da fotografia – são conceitos realizados plenamente na tua arte, plural e polimórfica, singular e convergente, inflexível e resistente – arte que valoriza, eleva e dignifica o fazer artístico no Amazonas.

 


Concluindo

Meu caro Sergio, eu meu nome e em nome de todos os acadêmicos – dos presentes aqui nesta noite memorável, e dos que, por algum motivo, não puderam aqui estar –, dou-te as boas-vindas e te conclamo ao trabalho. Porque a glória maior de ser membro da Academia Amazonense de Letras não é ter uma foto na galeria e o nome gravado na parede da Sala da Memória. Ser membro da Academia Amazonense de Letras é deixar que ela faça parte de ti, pelo teu trabalho. Conhecendo o teu talento e tua capacidade, confiamos todos que será fácil e prazeroso desincumbir-te de tal tarefa.

Reitero, Sergio, em nome de nossos pares, os votos de boas-vindas: a cadeira de número 2 é tua; esta Casa passa a ser também a tua casa.

E são teus os aplausos de todos os que aqui se encontram.

 

 

***



[1] Zemaria Pinto. Texto incluído no folder da exposição Harborlights, que ficou de 27 de março a 23 de abril de 2014, no Espaço Thiago de Mello, da Livraria Saraiva, em Manaus.

[2] Zemaria Pinto. Adaptado de O caos em construção – um olhar crítico-poético sobre Oh City – Stages. In: Revista Valer Cultural. Ano 1, nº 8, dez/jan 2014. Páginas 72-75.

[3] GULLAR, Ferreira. Argumentação contra a morte da arte. 8ª ed., 1ª reimpressão. Rio de Janeiro: Revan, 2005. p. 132.

[4] Zemaria Pinto. Adaptado da apresentação de O livro do teatro urbano das mulheres de Lazone, de Sergio Cardoso. Manaus: Valer, 2013. Páginas 19-20.


segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Homenagem a Márcio Souza


Clique sobre a figura, para obter o acesso.



 

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Uma poética da invisibilidade em Um Grande Circular

 Zemaria Pinto

 

O dia amanheceu como tantos outros para aquele formigueiro decadente: Nimalino fazia o café, dava um beijo de despedida no marido e se encaminhava apressado para a cama, procurando feito um doido o celular debaixo do travesseiro.

 

(Marcos Souza, em “Nimalino”, conto do livro

Cidade decadente: personas)

 

Ao usar como epígrafe um fragmento de texto do próprio autor, não quero estabelecer paralelos entre as duas obras, mas sim conexões que fluem naturalmente de um livro para o outro, sem que eles percam a independência que os justifica enquanto obras literárias que se projetam para o futuro. Da invisibilidade à marginalidade, a cidade – antagonista – é configurada como um organismo hostil, que molda a sua imagem e semelhança seus habitantes e, feito um Chronos enfurecido, devora-os com sofreguidão.  

O caro leitor não passará incólume pelo primeiro capítulo deste Um Grande Circular, que, no título, intertextualiza com Euclides da Cunha e toda a tradição da literatura edenista/infernista que tem a Amazônia como síntese mal realizada do Paraíso Perdido em oposição ao Inferno Verde. Marcos Souza sabe do que está falando, por isso desperta seu anti-herói quase com carinho, evocando um tão distante e tão próximo Gregor Samsa:

 

Quando certa manhã Letério despertou de sonhos intranquilos, urgiu no seu íntimo um ímpeto incontrolável de dar as caras ao mundo. (“Sol infernal, dilúvio divino”)

 

A metamorfose de Letério transforma-o de modo inverso à metamorfose de Samsa, pois é isso que ele busca alcançar: uma narrativa profundamente ligada às contradições da vida urbana em Manaus, utilizando como protagonista-guia um personagem socialmente invisível. É ele quem alimenta essa cidade antagonista.

A obra aborda temas como exclusão, violência, mercantilização das relações humanas e espetacularização da miséria, ao mesmo tempo em que propõe uma reflexão crítica sobre os limites da civilização moderna e seus mecanismos de controle. Usando uma escrita marcada pelo lirismo e pela oralidade regional, o autor transforma a cidade em um espaço simbólico de opressão e sobrevivência. Não resisto a citar Bourdieu, para quem a violência simbólica, “é a violência suave, insensível, invisível a suas próprias vítimas, que se exerce essencialmente pelas vias puramente simbólicas da comunicação [...] e do sentimento.”

Letério vive, por cerca de vinte anos, em uma tubulação de esgoto no bairro Tancredo Neves, afastado da vida social convencional. Essa condição extrema não é tratada apenas como miséria material, mas como um ponto de observação privilegiado. Do subterrâneo e das madrugadas, Letério elabora uma leitura crítica do mundo que o cerca, percebendo que a cidade funciona segundo uma lógica excludente, em que indivíduos valem pelo que produzem ou consomem. Ao circular pelas ruas à noite, ele se mantém fora do ritmo produtivo diurno, recusando-se a aceitar o modelo de vida imposto pela sociedade urbana. Esse é o âmago de uma poética da invisibilidade, que, alheio a Bourdieu ou a qualquer outro teórico, Letério elabora sem ter a mínima consciência disso, como um espasmo orgânico. 

A oposição simbólica entre noite e dia é um dos eixos centrais da obra. O dia representa vigília, trabalho sem prazer e padronização social, enquanto a noite se configura como espaço de liberdade relativa, anonimato e reflexão. É nesse intervalo temporal que Letério se sente autorizado a existir. No entanto, mesmo nesse espaço de suposta liberdade, as relações são marcadas pela violência, pelo medo e pela instrumentalização do outro, o que evidencia que a exclusão não se restringe a um período do dia, mas estrutura toda a vida urbana.

A relação entre Letério e Iriane aprofunda essa crítica social. Iriane, uma auxiliar de cozinha, enxerga no protagonista a possibilidade de estabilidade emocional e financeira, projetando nele expectativas de ascensão social. O encontro entre os dois, porém, é marcado pelo desencontro e pela frustração, revelando a dificuldade de estabelecer relações genuínas em um ambiente regido por carências materiais e simbólicas. O episódio evidencia ainda a solidão estrutural dos personagens, que buscam no outro uma saída individual para problemas que são coletivos.

Outro aspecto relevante da novela é a inserção do episódio do assalto à casa lotérica, narrado sob diferentes perspectivas. A cena explicita a banalização da violência e sua transformação em espetáculo midiático, denunciando a forma como a mídia e o poder público manipulam informações e constroem narrativas convenientes. A multiplicidade de pontos de vista rompe com a linearidade tradicional e reforça a ideia de que não há verdades absolutas, apenas versões modeladas por interesses específicos.

A metalinguagem, presente nos diálogos entre o autor-narrador e um editor fictício, contribui para a dimensão crítica da obra. Ao questionar a coerência da narrativa, o editor representa o olhar normativo da crítica tradicional, enquanto o narrador defende a legitimidade de uma escrita caótica, fragmentada e desconfortável, tal qual a realidade que procura retratar. Esse recurso reafirma o compromisso da novela com uma literatura que não busca apenas agradar, mas provocar reflexão e – quem sabe? – indignação.

Dessa forma, Um Grande Circular se consolida como uma obra de forte crítica social, que utiliza a invisibilidade como lente para examinar as estruturas urbanas, morais e econômicas da sociedade contemporânea. Ao acompanhar o percurso de Letério, o leitor é convidado a questionar os valores que sustentam a normalidade social e a reconhecer a humanidade daqueles que habitualmente permanecem invisíveis. A narrativa encerra-se reafirmando a ideia de circularidade: a cidade segue seu curso, enquanto os excluídos continuam girando à margem, presos a um sistema que os ignora, mas do qual não podem ser dissociados.


Projeto Gráfico e capa: Wilson Prata
Fotografias: Samuel Liberato 
Apresentação: Zemaria Pinto
Temiporã Edições

 

 

domingo, 14 de junho de 2026

“Garrote” conquista o 3º lugar na Mostra Oficial do Festcine Saberes Amazônicos, de Roraima

  

Manaus/Boa Vista, 12 de junho de 2026 – O curta-metragem “Garrote”, dirigido por Bruno Pantoja, foi premiado com o 3º lugar na Mostra Oficial do Festcine Saberes Amazônicos 2026. A cerimônia de premiação aconteceu na noite desta sexta-feira (12/06), no Centro Amazônico de Fronteiras (CAF) da Universidade Federal de Roraima (UFRR), em Boa Vista, marcando o encerramento da primeira edição do festival.

O Festcine Saberes Amazônicos é o primeiro festival de cinema regional e temático de Roraima e representa a consolidação de um projeto com foco na produção da Região Amazônica e de Roraima.

A Mostra Oficial Saberes Amazônicos reuniu produções de ficção de diferentes estados da Amazônia Legal. “Garrote” competiu ao lado de “Boiúna” (PA) e “No limite do lavrado” (RR) , consolidando a proposta do festival de promover o intercâmbio cultural e a valorização do audiovisual autoral e independente da região.

Organização e premiados.


Sobre o curta “Garrote”

 

Com 25 minutos de duração, o filme se passa em Manaus, em 2021, durante o colapso da crise do oxigênio na pandemia de Covid-19. A trama acompanha João, um músico negacionista, e Maria, uma engenheira pragmática, que enfrentam o desgaste de uma convivência forçada durante o lockdown. A história é inspirada livremente no texto teatral “Cenas da vida banal”, de Zemaria Pinto, que também assina o roteiro.

“É uma história sobre reclusão e revelação. João e Maria representam muitas pessoas, cada um com suas falhas e qualidades, vivenciando uma tragédia particular em meio a uma tragédia coletiva”, explica Bruno Pantoja.

O elenco é composto por Amanda Magaiver e Begê Muniz, e a produção executiva é assinada por Maíra Dessana. O filme aborda temas como negacionismo, masculinidade tóxica, saúde mental e relacionamentos abusivos, tendo sido contemplado pela Lei Paulo Gustavo (2023) Governo Federal e Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Amazonas.

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Serviço

· Evento: Festcine Saberes Amazônicos 2026

· Datas: 11 e 12 de junho de 2026

· Local: Centro Amazônico de Fronteiras (CAF) – UFRR, Boa Vista (RR)

· Filme premiado: “Garrote” (curta-metragem)

· Premiação: 3º lugar – Mostra Oficial Saberes Amazônicos

· Direção: Bruno Pantoja

· Elenco principal: Amanda Magaiver, Begê Muniz

 

Informações para a imprensa:

Bacaba Produções

e-mail: bacabaproducoes@gmail.com

Redes sociais: @ciadeartesbacaba  

quinta-feira, 14 de maio de 2026

A poesia é necessária?

 

exercício nº 21

Zemaria Pinto

 

soneto  meu, faustino de armação

tramado e arquitetado em vário

pé

desarma-se

em vis desvios vãos

limítrofes

à tinta e ao papel

 

(meu      canto      fraturado

              é um crânio

              morto

 oco       osso

 síntese de nada

              ou

 cousa alguma:

                         crianças & urubus

 canteiros            de         noturnos

                     girassóis)

 

soneto meu de têmpera diversa

forjado em noites

                             sob lamparinas

                             silvos de partidas

                             salvas perdidas

 

a ti revelo-te

                       tua natureza

a ti entrego-te

                       meu braço destro

                       meu sexo

                       meus olhos

                       e meus delírios



sexta-feira, 1 de maio de 2026

Apresentando Sublingual: cac+os flutuantes

Zemaria Pinto

 

As palavras nos conduzem a armadilhas incontornáveis.

Quando fui convidado pela Gracinete Felinto, coordenadora deste evento, para apresentar de público a segunda edição de Sublingual: cac+os flutuantes, me surpreendi fazendo estranhos exercícios de memória.

Eu me vi em Boa Vista rodeado de amigos poetas em meados da última década do século passado.

Eliakin Rufino era nosso guia na cidade que era dele. Thiago de Mello exercia um outro tipo de domínio: sua figura de branco vestida pairava no ar, com um permanente sorriso entre ironia e traça, navalha e veludo.

Anibal Beça chamava a atenção por seu porte gigantesco. Era fascinante imaginar como diante de todo aquele volume brotasse tanta delicadeza.

Terêza Tenório não perdia a oportunidade de mostrar seus poemas mais recentes e contar histórias de seu Pernambuco. Até de uma fantástica “perna cabeluda”. O riso fácil e escancarado, Terêza me lembrava um impossível porquinho-da-índia.

E aquela menina, de traços tão amazônidas, quem seria? Não me lembro de como foi a resposta, mas daquele momento em diante ela não parou mais de falar.

Calaram-se os gigantes Thiago e Aníbal. Calou-se a bela Terêza e o circunflexo incrustado em seu nome como uma joia – apenas para torná-lo mais belo.

Mas a menina chamada Grace Cordeiro segue falante, há mais de 30 anos. Uma senhora de seu ofício, aprendido nas melhores fontes: os melhores autores.

Pois Grace tem uma qualidade que eu preciso destacar: é uma leitora como poucas. Porque um poeta sem leitura não é poeta. No máximo, domina a técnica de sobrepor linhas umas às outras. Às vezes, nem isso. Quando a gente cita um poeta que ela não conhece, ela trata de municiar-se de informações e corre atrás de aprender mais um pouco.

Registre-se ainda que Grace soube esperar a sua poética amadurecer – outra virtude rara entre pessoas que dão prioridade à luz quando deveriam almejar apenas ser invisíveis.

Foi dessa inquietação que nasceu seu livro mais recente: Sem secretos dentes, uma homenagem ao poeta piauiense-tropicalista Torquato Neto. Antes, A pedra, o rio e as borboletas já ilustravam essa tese – e não apenas com poetas dos livros, mas das imagens, como em “Daguerreótipos do Século da Solidão”. Por fim, em Sublingual, a linguagem explode em exercícios de intertextos e metalinguagem, muitas vezes só perceptíveis por sentidos adestrados para sentir.

Celebrar esta nova edição de Sublingual: cac+os flutuantes é reencontrar aquela Boa Vista dos anos 1990 e ver que a chama acesa por nomes como Thiago de Mello, Aníbal Beça e Terêza Tenório continua vibrando na escrita de Grace Cordeiro. Que estes cactos/cacos continuem a nos ferir e a nos curar com sua poesia feita de silêncios amadurecidos e leituras profundas. A menina não parou de falar — e a voz da mulher está mais cristalina e potente do que nunca, antecipando o passado em construção.

Ou não?



segunda-feira, 30 de março de 2026

Thiago de Mello: 100 anos em 1 minuto


Thiago de Mello (30/03/1926-14/01/2022): 
100 anos em 1 minuto, 
por Zemaria Pinto.

 

quarta-feira, 11 de março de 2026

Centenário de Thiago de Mello

 

Podcast: Centenário de Thiago de Mello.
Com Neiza Teixeira, Mauri Mrq e Zemaria Pinto.
Clique sobre a figura, para obter acesso.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

PPGL - Conversas com Egressos: Zemaria Pinto

 

Clique sobre a figura, para fazer a conexão.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Cidade nua: máscaras da decadência

 

Zemaria Pinto

 

Nós somos os homens ocos

Os homens empalhados

Uns nos outros amparados

O elmo cheio de nada. Ai de nós!

(T. S. Eliot)[1]

 

O âmago da literatura moderna – e de toda arte que vem depois do Romantismo – é a cidade.

Baudelaire teorizou sobre o paradoxo multitude x solitude: “Quem não sabe povoar a sua solidão também não sabe estar só em meio a uma multidão atarefada”.[2] O poeta solitário se perde na multidão; e, sendo parte da multidão, encontra-se irremediavelmente só.

Para Nietzsche, essa solidão é um poço sem fundo: “Eu sou de hoje e de outrora; mas em mim há qualquer coisa que é de amanhã e de depois de amanhã, e de mais distante. (...) Estou cansado dos poetas (...) todos turvam suas águas para parecerem profundos.”[3]

Mário de Andrade pinta o mesmo quadro com as cores de uma tragédia inevitável: “Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta, / Mas um dia afinal eu toparei comigo...”[4]

Para expressar sua cidade moderna e decadente, como em um Scorsese depois de horas, Marcos Souza opta por desenvolver um painel da cidade que esmaga o poeta – e aqui uso a palavra na sua acepção primordial, negando o fazedor burocrata, e sublinhando com Heidegger o papel de “pastor do Ser”,[5] dando o poeta lugar ao prosaico narrador.

São dez contos, cada um seguido de uma coda, ou uma “pílula citadina”, dando o arremate necessário à narrativa principal, que leva o nome do anti-herói. Nomes comuns, como Dhione, Clodoaldo, Flaviana, Helenice e Alísio; até nomes improváveis, como Felinaldo, Dendróff, Dédipaulo, Lollitd e Nimalino. Cinco a cinco. Dito assim parece simples, mas não.

Para mostrar a decadência da cidade, que não é designada, cabendo ao leitor situá-la em sua própria geografia imagética, Marcos Souza reúne as dez personas acima mencionadas, cujas idiossincrasias dão forma e substância à decadência que ele quer desnudar, nos contos de Cidade decadente: personas.[6]


Os contos se desenvolvem numa viagem entre a mediocridade dos personagens que dão nomes aos contos e algumas características físicas próprias que tangenciam o surreal, caso de Flaviana, bem como suas relações com a cidade inominada, além de eventuais pecados e até mesmo poderes especiais, como os de Alísio. Marcos Souza acha espaço até para a felicidade da família Dendróff, diluída na infelicidade das demais personas, inclusive da artista galesa fluida Lollitd, de gênero fluido, que não sabia como expressar sua genialidade, da qual ela e seus fãs decadentes não tinham nenhuma dúvida. Mas, também, nenhuma certeza.  

De bônus, Marcos Souza enriquece seu texto salpicando leituras que vão de Pitty, a cantora, e Chico Anysio, um especialista em máscaras, até Machado de Assis e Shakespeare, sem deixar de mirar a mediocridade cotidiana e os pecados banais do dia a dia, como a soberba de Clodoaldo e do Professor Felinaldo; o incesto do impronunciável Dédipaulo; e a prostração mórbida, preguiçosa, de Dhione e Helenice.

Um personagem destaca-se nesse vendaval de mediocridades: Nimalino, que traz em si todo o repertório dos pecados capitais, aqueles dos quais se origina toda a gama de pecados do cristianismo. De modo reverso, quando não identificamos o pecado capital, caso da ira e da gula, achamos facilmente a ausência da “virtude capital” correspondente; no caso, paciência e temperança. Casado com Dani (Daniel?), o sustentáculo moral e financeiro do casal, Nimalino deixa-se envolver por uma cartomante, o que os condenará à danação (ou à decadência) eterna.

Nesta breve resenha do segundo livro de Marcos Souza, não posso deixar de enfatizar sua visão sobre a literatura contemporânea, a partir do sabor que dela emana, alternando entre o amargo e o ácido, e onde a mediocridade é a regra não a exceção.


Na cidade decadente, (...) os escritores fazem mais questão de ter o rosto estampado numa matéria de jornal do que ter seus livros lidos. (...) A literatura está morta. (...) Não há leitores na cidade decadente, somente colecionadores de livros. Estes pararam de ler quando descobriram que é perfeitamente possível uma pessoa ser leitora e integralmente estúpida. (p. 109)

 

Mas a sua própria literatura, máscula e maiúscula – sem que isso seja um insulto às florescentes amazonas e cavaleiros da literatura classificada por gênero –, é uma amostra de que há vida inteligente, sim, no entorno do Teatro Amazonas.

Leitora, leitor, leitore (?): liga aí o GPS...

 



[1] ELIOT, T. S. Os homens ocos. Tradução: Ivan Junqueira. In: Poesia. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981. p. 115-120.

[2] BAUDELAIRE, Charles. Pequenos poemas em prosa (O spleen de Paris). Tradução: Aurélio Buarque de Holanda Ferreira. In: Poesia e prosa. Organização: Ivo Barroso. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995. p. 289.

[3] NIETZSCHE, Friedrich. Assim falava Zaratustra – um livro para todos e para ninguém. Tradução: Mário Ferreira dos Santos. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2008. p. 175.

[4] ANDRADE, Mário de. Remate de males. In: Poesias completas. São Paulo: Círculo do Livro/Martins Fontes, sem data. p. 187-255.

[5] apud PAZ, Olegário e MONIZ, António. Dicionário breve de termos literários. Verbete: poesia. Lisboa: Editorial Presença, 1997. p.169.

[6] SOUZA, Marcos. Cidade decadente: personas. Manaus: edição do autor, 2024.