Amigos do Fingidor

terça-feira, 29 de novembro de 2022

Manaus no Jornal Nacional


Pedro Lucas Lindoso

 

Somos um país continental. Isso é fato. Não é à toa que as televisões apresentam o que se chama de jornal local. Mas é inegável que o Brasil como um todo é sempre informado somente do que acontece no sudeste. Estados como Acre, Piauí e o nosso Amazonas raramente são notícias nos jornais de âmbito nacional.

Durante muitos anos morando em Brasília observava que nunca davam notícias sobre Manaus. O máximo que o Jornal Nacional chegava era em Recife. Em termos de notícias. E quase todo dia anunciam a morte de alguém famoso. Assiste-se ao jornal para saber quem morreu. Hoje nem isso é mais novidade. A morte de uma celebridade se espalha pela internet como rastilho de pólvora.  

 Durante a pandemia, Manaus ficou conhecida como a cidade onde a Covid foi excepcionalmente mais perversa. Nos primeiros meses da pandemia o Jornal Nacional propagava para o Brasil e o mundo uma cidade que não conseguia enterrar seus mortos. Fileiras de covas de nossos cemitérios eram mostradas para o Brasil e o mundo.

Depois, tivemos a questão da falta de oxigênio nos hospitais. O Jornal Nacional nos colocava como notícia de destaque. Tristes dias.

Mas nem tudo é tristeza. Nesta semana fomos notícia. E graças a Deus de uma forma simpática. A Federação Internacional de Futebol, a famosa FIFA, destacou Manaus ao mostrar para o mundo as ruas enfeitadas com adereços para Copa.

Este ano, a Prefeitura da Cidade, além de patrocinar, criou o concurso cultural “Ruas da Copa”. A tradição de decorar algumas ruas da cidade teve início há 40 anos. Foi na Copa do Mundo de 1982, realizada na Espanha.

Desde então, de quatro em quatro anos, os moradores preparam as Ruas da Copa para serem pontos de encontro de torcedores em dias de jogos da Seleção.

Uma das pioneiras e mais destacadas é a Rua Santa Isabel. Já venceu outros concursos. Os moradores se envolvem e muitos têm orgulho de morar na rua. A Rua Santa Isabel já foi patrocinada nas copas de 2014 e 2018. Obviamente também foi uma das vencedoras do concurso. As ruas da copa recebem apoio com palco, som, telão LED e iluminação para transmitir os jogos da Copa do Mundo. O importante é que muitos turistas estão indo ver essas ruas. Isso é excelente!

Com a notícia no Jornal Nacional muitas ruas na cidade se animaram a fazer a decoração. Espera-se que a cidade seja lembrada sempre de maneira positiva pelos telejornais. Isso incrementa o Turismo. Uma indústria que precisa ser incentivada. É Manaus torcendo pelo hexa!

 

domingo, 27 de novembro de 2022

Manaus, amor e memória DXCV

 

Prédio da Booth Line e Bolsa Universal.

quinta-feira, 24 de novembro de 2022

A poesia é necessária?

 

Sete sonetos de amor e morte

Mario Faustino (1930-1962)

 

I

O mundo que venci deu-me um amor

 

O mundo que venci deu-me um amor,

Um troféu perigoso, este cavalo

Carregado de infantes couraçados.

O mundo que venci deu-me um amor

Alado galopando em céus irados,

Por cima de qualquer muro de credo.

Por cima de qualquer fosso de sexo.

O mundo que venci deu-me um amor

Amor feito de insulto e pranto e riso,

Amor que força as portas dos infernos,

Amor que galga o cume ao paraíso.

Amor que dorme e treme. Que desperta

E torna contra mim, e me devora

E me rumina em cantos de vitória...

 

II

Nam sibyllam...

 

Lá onde um velho corpo desfraldava

As trêmulas imagens de seus anos;

Onde imaturo corpo condenava

Ao canibal solar seus tenros anos;

Lá onde em cada corpo vi gravadas

Lápides eloquentes de um passado

Ou de um futuro arguido pelos anos;

Lá cândidos leões alvijubados

Às brisas temporais se espedaçavam

Contra as salsas areias sibilantes;

Lá vi o pó do espaço me enrolando

Em turbilhões de peixes e presságios –

Pois na orla do mundo as delatantes

Sombras marinhas, vagas, me apontavam.

 

III

Inferno, eterno inverno, quero dar

 

Inferno, eterno inverno, quero dar

Teu nome à dor sem nome deste dia

Sem sol, céu sem furor, praia sem mar,

Escuma de alma à beira da agonia.

Inferno, eterno inverno, quero olhar

De frente a gorja em fogo da elegia,

Outono e purgatório, clima e lar

De silente quimera, quieta e fria.

Inverno, teu inferno a mim não traz

Mais do que a dura imagem do juízo

Final com que me aturde essa falaz

Beleza de teus verbos de granizo;

Carátula celeste, onde o fugaz

Estio de teu riso – paraíso?

 

IV

Agonistes

 

Dormia um redentor no sol que ardia

O louro e a cera, dons hipotecados

Da carne postulada pelo dia;

Dormia um redentor nos incensados

Lençóis que a lua póstuma cobria

De mirra e de açafrões embalsamados;

Dormia um redentor no navegante

Das mortalhas de escuma que roía

O verme de seus sonhos abafados;

E até no atol do sexo triunfante

Do mar e da salsugem da agonia

Dormia um redentor: e era bastante

Para acordá-lo o verso que bramia

No cérebro do atleta e lá morria.

 

V

Onde paira a canção recomeçada

 

Onde paira a canção recomeçada

No capitel de acanto de teu lar?

Onde prossegue a dança terminada

Nas lajes de meu tempo de chorar?

Rapaz, em minhas mãos cheias de areia

Conto os astros que faltam no horizonte

Da praia soluçante onde passeia

A espuma de teu fim, pranto sem fonte.

Oh juventude, um pálio de inocência

Jamais se estenderá sobre outra aurora

Mais clara que esta clara adolescência

Onde o lupanar da noite hoje devora:

Que vale o lenço impuro da elegia

Sobre teu rosto, lúcida alegria?

 

VI

Ego de Mona Kateudo

 

Dor, dor de minha alma, é madrugada

E aportam-me lembranças de quem amo.

E dobram sonhos na mal-estrelada

Memória arfante donde alguém que chamo

Para outros braços cardiais me nega

Restos de rosa entre lençóis de olvido.

Ao longe ladra um coração na cega

Noite ambulante. E escuto-te o mugido,

Oh vento que meu cérebro aleitaste,

Tempo que meu destino ruminaste.

Amor, amor, enquanto luzes, puro,

Dormido e claro, eu velo em vasto escuro,

Ouvindo as asas roucas de outro dia

Cantar sem despertar minha alegria.

 

VII

Estava lá Aquiles, que abraçava

 

Estava lá Aquiles, que abraçava

Enfim Heitor, secreto personagem

Do sonho que na tenda o torturava;

Estava lá Saul, tendo por pajem

Davi, que ao som da cítara cantava;

E estavam lá seteiros que pensavam

Sebastião e as chagas que o mataram.

Nesse jardim, quantos as mãos deixavam

Levar aos lábios que o atraiçoaram!

Era a cidade exata, aberta, clara:

Estava lá o arcanjo incendiado

Sentado aos pés de quem desafiara;

E estava lá um deus crucificado

Beijando uma vez mais o enforcado.

 

 

terça-feira, 22 de novembro de 2022

Pablo Milanés (24/2/1943 – 22/11/2022)


Pablo Milanés, por Ricardo Heredia.

Pablo Milanés, por Pancho Cajas.


 

Copas – eu vi Pelé jogar

Pedro Lucas Lindoso

 

Do alto de meus sessenta e cinco anos de idade, afirmo que essa será a minha décima sétima Copa do Mundo como brasileiro e fervoroso torcedor da seleção canarinho.

Sabemos que a primeira Copa do Mundo foi no Uruguai, em 1930. O país sede foi campeão. O Uruguai veio a ganhar novamente em 1950. Uma das copas mais tristes e traumáticas para o povo brasileiro. Foi uma grande decepção. Em pleno Maracanã. O nosso mais icônico estádio de futebol. O estádio estava sendo inaugurado.  O jogo de final foi contra o Uruguai. O gol uruguaio, ao final do segundo tempo, é um fato que o futebol brasileiro não consegue esquecer.

Meu saudoso tio Justino Baumann estava lá. Ele dizia que o mais impressionante foi o silêncio das pessoas ao sair do Maracanã. Um silêncio estarrecedor. Alguns choravam. Outros pareciam paralisados. Foi um trauma coletivo que até hoje é repassado de geração em geração. Para os aficionados em futebol, é claro. E são muitos os brasileiros. Possivelmente alguém jogou uma praga na seleção do Uruguai. Eles nunca mais foram campeões.

Para mim, a mais inesquecível das copas foi a de 1970. Eu era um garoto de 13 anos e morava em Brasília. Havia pouco tempo que a televisão no Brasil passou a ser em cores. Poucas pessoas tinham TV em cores. Anunciaram que seria armado um grande telão colorido no campus da UnB. Nenhum dos meus irmãos quis se responsabilizar por mim.

Um colega de escola, José Fernando, me convidou e seu pai aceitou me levar junto com o filho. Foi inesquecível. O Brasil foi tricampeão, como todos sabem. Ficamos com a Jules Rimet para sempre.  As comemorações aconteceram na 109 Sul. O Bar Beirute até hoje está lá. Possivelmente um dos mais antigos de Brasília. Fecharam a rua. Mas nessa fuzarca não me deixaram ir.

Meu tio Baumann morava nessa quadra. Do seu apartamento podíamos ver todo o movimento e a alegria do povo. O Brasil estava em regime de exceção. Muitas coisas eram proibidas. Havia uma censura forte. Inclusive de costumes. Um sujeito chamado Portuga ficou pelado em pleno Beirute. Toda a cidade comentou. Hoje não seria notícia.

Nossa seleção era formada por Félix; Carlos Alberto, Brito, Piazza e Everaldo; Clodoaldo, Gérson e Rivellino; Jairzinho, Pelé e Tostão. O técnico foi o famoso Zagallo. Esses jogadores conquistaram o planeta e mudaram o futebol mundial. Alguns são conhecidos em todos os cantos, como Pelé, ícone maior do futebol. Eu vi Pelé jogar!


domingo, 20 de novembro de 2022

Manaus, amor e memória DXCIV


Casa da Criança, na Ramos Ferreira.

sexta-feira, 18 de novembro de 2022

Leituras Compartilhadas de Crônicas Favoritas



 

João do Rio e “A alma encantadora das ruas”

Zemaria Pinto

Aos amigos livreiros e editores

independentes manauaras

Celestino Neto e Simas Pessoa,

personagens de João do Rio.

 

João Paulo Alberto Coelho Barreto nasceu em 1881 e morreu dias antes de completar 40 anos. Algumas fontes acrescentam ainda ao longo nome “Emílio Cristóvão dos Santos”, em lugar de “Alberto”. Mas, João do Rio só nasceria em 1904, nas páginas d’A Gazeta de Notícias. Era apenas mais um dos muitos pseudônimos que o jovem jornalista usava – entre os quais, o enigmático X –, mas acabou sendo sua marca definitiva, sua verdadeira identidade.

Naquele mesmo ano, Paulo Barreto publica uma série de reportagens que depois enfeixa em livro: o original, e ainda hoje fundamental, As religiões no Rio, um ensaio cultural e antropológico, dando destaque às religiões de matriz africana, até então um tabu. Em 1907, uma comissão presidida por Silvio Romero, do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, aprova o livro e o autor: “O livro As religiões no Rio, do Sr. Paulo Barreto, é único em seu gênero na literatura brasileira (...) O autor merece um lugar neste Instituto.”

Jornalista de profissão, contista, romancista, dramaturgo e, sobretudo, cronista, João do Rio, o Paulo Barreto, foi eleito, em 1910, na sua terceira tentativa, para a Academia Brasileira de Letras, presidida então por Ruy Barbosa. Tinha 28 anos.

Ruy Castro o descreve como “mulato, muito gordo, fala mansa, olheiras escuras, fraques coloridos, chapéu coco, charuto à boca, diamante na gravata.” Acrescente-se: homossexual assumido. Um escândalo.

Para seu biógrafo João Carlos Rodrigues, A alma encantadora das ruas, publicado em 1908, é “uma das três melhores obras sobre a cidade do Rio, ao lado do clássico Memórias de um sargento de milícias e de Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá, que só seria publicado em 1919.”   

A crônica de João do Rio extrapola qualquer conceito que tenhamos de crônica. Tratando do dia a dia da cidade, o autor faz reflexões que só encontram paralelo no gênero ensaístico. Simpático ao sarcasmo e humor negro de Oscar Wilde, suas crônicas-reportagens-ensaios antecipam o gênero consagrado por George Orwell, a essa época apenas uma criança. Vide “Um dia na vida de um vagabundo” ou “Como morrem os pobres”, do autor inglês, como exemplo do que afirmamos.  

Classificado por uns como pré-modernista – o que não quer dizer absolutamente nada –, por outros como art nouveau, o que é falso, João do Rio está mais próximo do Decadentismo, com toda a carga negativa que essa classificação carrega, e sem qualquer relação com o Simbolismo, como querem alguns críticos. Eu diria que muito próximo do que viria a ser o Expressionismo.

A alma encantadora das ruas desnuda a pequena burguesia da capital, mostrando as ruas e a sua paisagem sórdida (“O que se vê nas ruas”), a sua pobreza crônica e epidêmica (“Três aspectos da miséria”), os crimes cotidianos (“Onde às vezes termina a rua”) e a música que brota desse povo-paisagem (“A musa das ruas”). Estes quatro títulos mais o introdutório “A rua” reúnem vinte e sete textos elegantes, mas sem afetação – e com o realismo de um apaixonado pelo “cinematographo”, que apenas engatinhava. 

“Os mercadores de livros e a leitura das ruas” é uma faísca, crítica e bem-humorada, entrevista na obra ainda envolta em sombras desse autor, que, a título de descrever a psicologia das ruas a partir dos vendedores de livros usados, mostra que a leitura popular estava estagnada, havia pelo menos cinquenta anos. E se o povo estagnou em seu nível de leitura, estagnou também na vida.

O jornalista de família pobre, que mandava cortar seus ternos em Paris, foi polêmico e arrebanhou muitos detratores, ganhou fama e atraiu muita inveja. Em menos de 20 anos construiu uma carreira literária sólida e ainda, mais de cem anos depois, por desvendar. Seu enterro, numa tarde de domingo, depois de dois dias de velório, saiu do jornal A Pátria, local escolhido por sua mãe – que rejeitou a ABL e o IHGB. Fora seu último local de trabalho. Segundo seu biógrafo, “estima-se que cerca de cem mil pessoas tenham participado”, e, para quem duvidar, “existe registro cinematográfico”.

Este foi João do Rio, o dândi que amava as ruas.

 

 

Bibliografia:

CASTRO, Ruy. Metrópole à beira-mar: o Rio moderno dos anos 20. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

RIO, João do. A alma encantadora das ruas. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

RODRIGUES, João Carlos. João do Rio: vida, paixão e obra. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.


quinta-feira, 17 de novembro de 2022

A poesia é necessária?

 

Tarifa de embarque

Wally Salomão (1943-2003)

 

Sou sírio. O que é que te assombra, 

estrangeiro, se o mundo é a pátria em que 

todos vivemos, paridos pelo caos?

Meleagro de Gádara (100 a.C.)

 

 

Não te decepciones

ao pisares os pés no pó

que cobre a estrada real de Damasco.

Não descerres cortinas fantasmagóricas:

camadas de folheados

– água de flor de roseira

água de flor de laranjeira –

que guloso engolias,

gravuras de aldeãs portando ânforas ou cântaros,

cartões do templo de Baal

e das ruínas do reino de Zanubia em Palmira,

fotos do Allepo, Latakia, Tartus, Arward

que em criança folheavas nas páginas da revista ORIENTE

na idade de ouro solitária e febril

por entre as pilhas de fardos de tecidos

da loja Samira;

arabescos, poços, atalaias, minaretes, muezins, curvas

caligrafias torravam teus cílios, tuas retinas

no vão afã de erigires uma fonte e origem e lugar ao sol

na moldura acanhada do mundo.

 

Síria nenhuma iguala a Síria

que guardas intacta na tua mente régia.

Nunca viste o narguilé de ouro que tua avó paterna

– Kadije Sabra Suleiman –

exibia e fumava e borbulhava nos dias festivos

da ilha de Arward.

 

Retire da tela teu imaginário inchado

de filho de imigrante

e sereno perambule e perambule desassossegado

e perambule agarrado e desgarrado perambule

e perambule e perambule e perambule.

Perambule

– eis o único dote que as fatalidades te oferecem.

Perambule

– as divindades te dotam deste único talento.


terça-feira, 15 de novembro de 2022

Cidadã sênior

 Pedro Lucas Lindoso

 

Tia Idalina votou em Bolsonaro nas eleições de 2018. A importância dada aos valores familiares e à vida foram primordiais para sua escolha.

A chegada da pandemia e a contínua polarização da sociedade começaram a angustiar Idalina. Ela administra um grupo de Whatzapp familiar. As brigas e desavenças entre os membros começaram a incomodá-la. Ela proibiu assuntos de política no grupo. Sem muito sucesso.

As mortes de familiares e conhecidos durante a pandemia foram motivo de muita tristeza para Idalina. A chegada da vacina foi um alento. Idalina tem um sobrinho que trabalha no Instituto Oswaldo Cruz. Ela o respeita e admira muito. Tudo que ele diz ela acata sem pestanejar.

Uma de suas melhores amigas, dona Maria do Perpétuo Socorro, conhecida como Petinha, decidiu não tomar a vacina. Disse que não iria virar jacaré. Idalina insistiu para que Petinha tomasse a vacina. Ela recusou. Se o presidente não acredita na vacina e não toma, por que tomaria? Era sempre o argumento de Petinha. Que também dizia que usar máscara era besteira.

 Dona Petinha pegou Covid e faleceu em menos de uma semana do diagnóstico. Naquela mesma semana o presidente apareceu sem máscara em aglomerações. Foi a gota d’água. Idalina desde então deixou de ser eleitora de Bolsonaro.

Com o início da campanha eleitoral de 2022, Idalina encantou-se desde logo com a senadora Simone Tebet. Fez até campanha para ela. Pediu votos entre suas amigas e desejou muito que Simone conseguisse ser a tão desejada terceira via.

Com o resultado do primeiro turno, aguardou o posicionamento de sua candidata. Como Simone optou por Lula, ela foi atrás e anunciou que votaria em Lula. 

Uma de suas amigas pró-Bolsonaro lhe disse que Lula ia acabar com banheiros masculino e feminino. Todo mundo vai usar um mesmo banheiro!

Idalina ficou apavorada. Disse que do alto de seus setenta anos não iria se submeter a isso. Usar mictório!

No dia das eleições ficou nervosa. Lembrou-se da Petinha. Não votaria em Bolsonaro. Lembrou-se da estória dos banheiros. Pensou: tenho setenta anos. Não sou obrigada a votar. Ficarei em casa. Sou cidadã sênior.

 

segunda-feira, 14 de novembro de 2022

Crônicas favoritas: leituras compartilhadas Entretextos


Para assistir ao vivo, no YouTube (18h - Manaus):
https://www.youtube.com/channel/UCLGlQmNmRbRCREdxtYIi2nQ

 

domingo, 13 de novembro de 2022

Manaus, amor e memória DXCIII


Ponta Negra, sem maquiagem.

 

quinta-feira, 10 de novembro de 2022

A poesia é necessária?

 

50 anos sem Torquato Neto (9/11/1944 – 10/11/1972) 


let’s play that

 

quando eu nasci

um anjo louco

um anjo solto

um anjo torto

veio ler a minha mão

 

não era um anjo barroco

era um anjo muito solto

louco louco muito doido

com asas de avião

 

e eis que o anjo me disse

apertando a minha mão

entre um sorriso de dentes

vai bicho

desafinar o coro dos contentes

 

let’s play that

 

cogito

 

eu sou como sou

pronome

pessoal intransferível

do homem que iniciei

na medida do impossível

 

eu sou como sou

agora

sem grandes segredos dantes

sem grandes secretos dentes

nesta hora

 

eu sou como sou

presente

desferrolhado indecente

feito um pedaço de mim

 

eu sou como sou

vidente

e vivo tranquilamente

todas as horas do fim

 

pra dizer adeus

 

adeus

vou pra não voltar

e onde quer que eu vá

sei que vou sozinho

tão sozinho amor

nem é bom pensar

que eu não volto mais

desse meu caminho

 

ah,

pena eu não saber

como te contar

que o amor foi tanto

e no entanto eu queria dizer

vem

eu só sei dizer

vem

nem que seja só

pra dizer adeus


Torquato Neto, ele mesmo.



Vivendo Nosferato no Brasil (1970), filme de Ivan Cardoso.



Na capa do icônico Panis et Circencis (1968):
Os Mutantes (Sergio, Rita e Arnaldo), Tom Zé,
Caetano (segurando foto de Nara),
Maestro Duprat, Gal, Torquato e
Gil (com a foto de Capinam).




quarta-feira, 9 de novembro de 2022