Amigos do Fingidor

Mostrando postagens com marcador Cruz e Sousa. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Cruz e Sousa. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

A poesia é necessária?

 

O Assinalado

Cruz e Sousa (1861-1898)

 

Tu és o louco da imortal loucura,
O louco da loucura mais suprema.
A terra é sempre a tua negra algema,
Prende-te nela a extrema Desventura.

Mas essa mesma algema de amargura,
Mas essa mesma Desventura extrema
Faz que tua alma suplicando gema
E rebente em estrelas de ternura.

Tu és o Poeta, o grande Assinalado
Que povoas o mundo despovoado
De belezas eternas, pouco a pouco...

Na Natureza prodigiosa e rica,
Toda a audácia dos nervos justifica
Os teus espasmos imortais de louco!

 

quinta-feira, 21 de julho de 2022

A poesia é necessária?

 

Litania dos pobres

Cruz e Sousa (1861-1898)

 

Os miseráveis, os rotos

São as flores dos esgotos.

São espectros implacáveis

Os rotos, os miseráveis.

São prantos negros de furnas

Caladas, mudas, soturnas.

São os grandes visionários

Dos abismos tumultuários.

As sombras das sombras mortas,

Cegos, a tatear nas portas.

Procurando o céu, aflitos

E varando o céu de gritos.

Faróis à noite apagados

Por ventos desesperados.

Inúteis, cansados braços

Pedindo amor aos espaços.

Mãos inquietas, estendidas

Ao vão deserto das vidas.

Figuras que o Santo Ofício

Condena a feroz suplício.

Arcas soltas ao nevoento

Dilúvio do Esquecimento.

Perdidas na correnteza

Das culpas da Natureza.

Ó pobres! Soluços feitos

Dos pecados imperfeitos!

Arrancadas amarguras

Do fundo das sepulturas.

Imagens dos deletérios

Imponderáveis mistérios.

Bandeiras rotas, sem nome,

Das barricadas da fome.

Bandeiras estraçalhadas

Das sangrentas barricadas.

Fantasmas vãos, sibilinos

Da caverna dos Destinos!

Ó pobres! O vosso bando

É tremendo, é formidando!

Ele já marcha crescendo,

O vosso bando tremendo...

Ele marcha por colinas,

Por montes e por campinas.

Nos areais e nas serras

Em hostes como as de guerras.

Cerradas legiões estranhas

A subir, descer montanhas.

Como avalanches terríveis

Enchendo plagas incríveis.

Atravessa já os mares,

Com aspectos singulares.

Perde-se além nas distâncias

A caravana das ânsias.

Perde-se além na poeira,

Das Esferas na cegueira.

Vai enchendo o estranho mundo

Com o seu soluçar profundo.

Como torres formidandas

De torturas miserandas.

E de tal forma no imenso

Mundo ele se torna denso.

E de tal forma se arrasta

Por toda a região mais vasta.

E de tal forma um encanto

Secreto vos veste tanto.

E de tal forma já cresce

O bando, que em vós parece.

Ó pobres de ocultas chagas

Lá das longínquas plagas!

Parece que em vós há sonho

E o vosso bando é risonho.

Que através das rotas vestes

Trazeis delícias celestes.

Que as vossas bocas, de um vinho

Prelibam todo o carinho...

Que os vossos olhos sombrios

Trazem raros amavios.

Que as vossas almas trevosas

Vêm cheias de odor das rosas.

De torpores, de indolências

E graças e quintessências.

Que já livres de martírios

Vêm festonadas de lírios.

Vêm nimbadas de magia,

De morna melancolia.

Que essas flageladas almas

Reverdecem como palmas.

Balanceadas no letargo

Dos sopros que vêm do largo...

Radiantes de ilusionismos,

Segredos, orientalismos.

Que como em águas de lagos

Boiam nelas cisnes vagos...

Que essas cabeças errantes

Trazem louros verdejantes.

E a languidez fugitiva 

De alguma esperança viva.

Que trazeis magos aspeitos

E o vosso bando é de eleitos.

Que vestes a pompa ardente

Do velho sonho dolente.

Que por entre os estertores

Sois uns belos sonhadores.

 

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

A poesia é necessária?



Crianças negras
Cruz e Sousa (1861-1898)


Em cada verso um coração pulsando,
Sóis flamejando em cada verso, e a rima
Cheia de pássaros azuis cantando
Desenrolada como um céu por cima.

Trompas sonoras de tritões marinhos
Das ondas glaucas na amplidão sopradas
E a rumorosa música dos ninhos
Nos damascos reais das alvoradas.

Fulvos leões do altivo pensamento
Galgando da era a soberana rocha,
No espaço o outro leão do sol sangrento
Que como um cardo em fogo desabrocha.

A canção de cristal dos grandes rios
Sonorizando os florestais profundos,
A terra com seus cânticos sombrios,
O firmamento gerador de mundos.

Tudo, como panóplia sempre cheia
Das espadas dos aços rutilantes,
Eu quisera trazer preso à cadeia
De serenas estrofes triunfantes.

Preso à cadeia das estrofes que amam,
Que choram lágrimas de amor por tudo,
Que, como estrelas, vagas se derramam
Num sentimento doloroso e mudo.

Preso à cadeia das estrofes-quentes
Como uma forja em labareda acesa,
Para cantar as épicas, frementes
Tragédias colossais da Natureza.

Para cantar a angústia das crianças!
Não das crianças de cor de oiro e rosa,
Mas dessas que o vergel das esperanças
Viram secar, na idade luminosa.

Das crianças que vêm da negra noite,
Dum leite de venenos e de treva,
Dentre os dantescos círculos do açoite,
Filhas malditas da desgraça de Eva.

E que ouvem pelos séculos afora
O carrilhão da morte que regela,
A ironia das aves rindo a aurora
E a boca aberta em uivos da procela.

Das crianças vergônteas dos escravos
Desamparadas, sobre o caos, à toa
E a cujo pranto, de mil peitos bravos,
A harpa das emoções palpita e soa.

Ó bronze feito carne e nervos, dentro
Do peito, como em jaulas soberanas,
Ó coração! és o supremo centro
Das avalanches das paixões humanas.

Como um clarim a gargalhada vibras,
Vibras também eternamente o pranto
E dentre o riso e o pranto te equilibras
De forma tal que a tudo dás encanto.

És tu que à piedade vens descendo.
Como quem desce do alto das estrelas
E a púrpura do amor vais estendendo
Sobre as crianças, para protegê-las.

És tu que cresces como o oceano, e cresces
Até encher a curva dos espaços
E que lá, coração, lá resplandeces
E todo te abres em maternos braços.

Te abres em largos braços protetores,
Em braços de carinho que as amparam,
A elas, crianças, tenebrosas flores,
Tórridas urzes que petrificaram.

As pequeninas, tristes criaturas
Ei-las, caminham por desertos vagos,
Sob o aguilhão de todas as torturas,
Na sede atroz de todos os afagos.

Vai, coração! na imensa cordilheira
Da Dor, florindo como um loiro fruto
Partindo toda a horrível gargalheira
Da chorosa falange cor do luto.

As crianças negras, vermes da matéria,
Colhidas do suplício a estranha rede,
Arranca-as do presídio da miséria
E com teu sangue mata-lhes a sede!



quinta-feira, 23 de maio de 2019

A poesia é necessária?



Acrobata da dor
Cruz e Sousa (1861-1898)


Gargalha, ri, num riso de tormenta,
Como um palhaço, que, desengonçado,
Nervoso, ri, num riso absurdo, inflado
De uma ironia e de uma dor violenta.

Da gargalhada atroz, sanguinolenta,
Agita os guizos, e convulsionado
Salta, gavroche, salta, clown, varado
Pelo estertor dessa agonia lenta...

Pedem-te bis e um bis não se despreza!
Vamos! retesa os músculos, retesa
Nessas macabras piruetas d’aço...

E embora caias sobre o chão, fremente,
Afogado em teu sangue estuoso e quente,
Ri! Coração, tristíssimo palhaço.

sábado, 15 de dezembro de 2012

Cruz e Sousa não é mais patrono na Academia Amazonense de Letras


Zemaria Pinto
 

A ignorância perdoa-se; a estupidez, não.
(João Sebastião, poeta nefelibata, filósofo de boteco, profeta do caos)
 

O advogado e jornalista Júlio Antônio Lopes tomou posse, na noite de ontem, como o mais novo imortal na Academia Amazonense de Letras (AAL), na qual passa a ocupar a cadeira 23, que tem como patrono Cruz e Silva (...)
(Jornal A crítica, página A8, edição de 15/12/2012)

 

Eu já desconfiava que, em algum momento após aquele 25 de setembro de 2011 quando falecia o amigo Alencar e Silva, a cadeira 23 da AAL havia trocado de patrono.
 
Cruz e Sousa (1862-1898).
 
Na próxima oportunidade, considerando que a AAL será a única academia de letras – desde a Brasileira até a mais humilde das academias municipais – a não ter o extraordinário poeta negro entre seus patronos, reivindicarei o seu nome para a cadeira 27, que ocupo, substituindo Tavares Bastos, que o tempo tratou de obscurecer. 

Um poema de Cruz e Sousa aos beócios: 

Oh! trânsfugas do bem que sob o manto régio
manhosos, agachados – bem como um crocodilo,
viveis sensualmente à luz dum privilégio
na pose bestial dum cágado tranquilo.
 

Eu rio-me de vós e cravo-vos as setas
ardentes do olhar – formando uma vergasta
dos raios mil do sol, das iras dos poetas,
e vibro-vos à espinha – enquanto o grande basta,
 

O basta gigantesco, imenso, extraordinário –
da branca consciência – o rútilo sacrário
no tímpano do ouvido – audaz me não soar.
 

Eu quero em rude verso altivo adamastórico,
vermelho, colossal, d’estrépito, gongórico,
castrar-vos como um touro – ouvindo-vos urrar!

(“Escravocratas”, publicado no livro Obra Completa (1961). Poema integrante da série O Livro Derradeiro.)


Divirta-se mais clicando aqui.

domingo, 30 de setembro de 2012

Cruz e Sousa e a academia dos bacharéis


Zemaria Pinto 

 
No último dia 25, ao noticiar a eleição do acadêmico que irá ocupar a cadeira n° 23 da Academia Amazonense de Letras, o jornal onde o eleito trabalha noticiou o fato, informando que o patrono da referida cadeira era um tal de Cruz e Silva. Como notícias de jornais são descartáveis, imaginei que a pessoa que escreveu a matéria no calor da luta confundiu o poeta Alencar e Silva, o ocupante anterior, com o genial poeta catarinense Cruz e Sousa, o verdadeiro patrono da cadeira 23.

Já esquecera o incidente quando, há pouco, lendo o tal jornal onde trabalha como advogado e assina colunas o futuro acadêmico, deparo-me novamente com a aberração: o “patrono Cruz e Silva”, citado em matéria de mais de meia página, com o sorridente bacharel e futuro acadêmico. Jornalistas não precisam conhecer literatura, claro. Mas acadêmicos não podem ignorar seus símbolos. Quem deu a informação errada? O próprio “novo nome da academia”? O presidente, bacharel e jornalista? Os eleitores bacharéis? Tenho certeza que o vice-presidente, também bacharel e jornalista, não foi, porque em seu “dicionário biográfico”, ele dá a informação correta, apesar de tropeçar na grafia – Cruz e Souza, com z -, o que não chega a ser incomum.

Podia continuar calado, no meu canto, mas agredir o autor de Broquéis e Faróis duas vezes em menos de uma semana é demais pro meu estômago.

Como a poesia continua sendo necessária, apesar dos bacharéis, dos jornalistas e dos acadêmicos, fiquem com um poema de João da Cruz e Sousa:

Acrobata da dor



Gargalha, ri, num riso de tormenta,
Como um palhaço, que, desengonçado,
Nervoso, ri, num riso absurdo, inflado
De uma ironia e de uma dor violenta.

Da gargalhada atroz, sanguinolenta,
Agita os guizos, e convulsionado
Salta, gavroche, salta, clown, varado
Pelo estertor dessa agonia lenta...

Pedem-te bis e um bis não se despreza!
Vamos! retesa os músculos, retesa
Nessas macabras piruetas d’aço...

E embora caias sobre o chão, fremente,
Afogado em teu sangue estuoso e quente,
Ri! Coração, tristíssimo palhaço. 
      
 
Cruz e Sousa (1861-1898)
 

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

A invenção do Expressionismo em Augusto dos Anjos 11/12

Zemaria Pinto

Resumindo sem concluir

Fortemente influenciada pela filosofia de Schopenhauer e pelo pensamento budista; percutindo as vibrações inovadoras da poesia de Baudelaire; tomada por uma sede de conhecimento que não obtinha respostas satisfatórias das ciências; obstinada pelo mundo microscópico que só àquela época começava a ser explorado; reflexo, enfim, de um país em transformação, em um mundo em transformação, a poesia de Augusto dos Anjos encontra o seu Zeitgeist, o espírito dionisíaco de seu tempo, em uma expressão inédita na literatura brasileira, que desnorteou, por muito tempo, sua recepção crítica.

Não entramos no mérito da psique do poeta. Antes, partimos do princípio, corroborado por poucos, de que ele era um cidadão comum, levando uma vida dentro dos padrões de normalidade, constituindo família, inclusive. Bacharel em Direito, optou por ser professor, o que talvez lhe desse mais tranquilidade para levar sua obra adiante. Poeta desde a adolescência, seus poemas mais antigos, dos dezesseis anos, já trazem a marca de um eu lírico melancólico, marcado pela solidão e pela reflexão sobre o estar-no-mundo.

A partir de um dado momento, que situamos em meados de 1906, essa melancolia se exacerba e a expressão – marcada por um parnasianismo à Raimundo Correa, e um simbolismo apoiado especialmente em Cruz e Sousa, conforme o demonstra fartamente Magalhães Júnior (1978, p. 49-79) –, a expressão que vinha se tornando cada vez mais áspera, encontra finalmente o seu tom – um tom que não combinava com o pacato professor.

Não era mais o eu lírico que se expressava, mas um desdobramento deste: uma personagem sofrida, misantropa, misógina, que parecia ter uma só finalidade na vida – sofrer. Com a melancolia em crescimento exponencial, aquela personagem – a quem chamamos de máscara lírica – amadurece não apenas a linguagem, mas também as reflexões.

O problema que se colocava era com relação às representações miméticas da realidade, da qual os simbolistas procuravam fugir, mas somente os expressionistas lograram conseguir de forma integral, recriando a realidade, distorcendo-a até deixá-la irreconhecível. Para atingir o nível de linguagem pretendido, subvertendo as noções padronizadas de beleza, o poeta desenvolve o conceito que ele chamaria de “dor estética”, que consiste essencialmente em manifestar a dor com arte – sem precisar senti-la. Essa noção de dor é de Schopenhauer, mas também é budista; em ambos, viver é sofrer; então, se o poeta não sofre, ou não sofre tanto, é preciso inventar a dor, por meio de uma personagem – a máscara lírica.  

“Queixas noturnas” é o poema inaugural dessa nova fase, que daria a maioria dos 58 poemas da edição inicial do Eu. Dois anos mais tarde, Augusto dos Anjos publica o poema seminal “As cismas do destino”, que forneceria motivos a muitos outros poemas, unindo forma e conteúdo num mesmo ideário expressionista. Um desses motivos recorrentes é a utilização de um universo de microrganismos, sempre em contraponto com o universo humano. Aí reside a base do “cientificismo” de Augusto dos Anjos: o antagonismo entre as ideias de evolução e criação. De maneira singela, ele resolve isso, entregando à criação as formas simples de vida (moneras e similares) e creditando todo o resto à evolução. Isso explicaria porque a humanidade chegou a um estágio de total degradação, parasitária, tomada pelo vício e pela corrupção dos costumes.

No “Monólogo de uma sombra”, poema que abre o Eu, após zombar das ciências e bradar contra a permissividade, uma espécie de deus-verme vaticina que somente a Arte pode redimir a Humanidade. Em “Os doentes”, uma alegoria da degradação, a ideia de que a Arte é a única saída para a Humanidade retorna, e o poema termina de forma otimista, “o começo magnífico de um sonho”, “a gestação daquele grande feto, / que vinha substituir a Espécie Humana!” (p. 249). Para Schopenhauer, a arte é a única razão para que o sofrimento seja suportável, ainda que seja representação do sofrimento: 

A fruição do belo, o consolo proporcionado pela arte, o entusiasmo do artista que faz esquecer a penúria da vida, essa vantagem do gênio em face de todos os outros homens, única que o compensa pelo sofrimento que cresce na proporção de sua clarividência e pela erma solidão em meio a uma multidão tão heterogênea – tudo isso se deve ao fato de que o Em-si da vida, a Vontade, a existência mesma, é um sofrimento contínuo, e em parte lamentável, em parte terrível; o qual, todavia, se intuído pura e exclusivamente como representação, ou repetido pela arte, livre de tormentos, apresenta-nos um teatro pleno de significado. Esse lado do mundo conhecido de maneira pura, bem como a repetição dele em alguma arte, é o elemento do artista. (2005, p. 349-350) 

Mas a arte é apenas um consolo, sem poder para fazer cessar o sofrimento imanente ao ser humano. Todavia, o artista faz a sua parte, transformando sua arte em arma de convencimento, buscando colocar a Ideia no proscênio desse “teatro pleno de significado”. Ainda que tudo seja provisório, impermanente.

domingo, 25 de setembro de 2011

Alencar e Silva (1930-2011)

Alencar e Silva, em foto recente.
Faleceu no Rio de Janeiro o poeta amazonense Alencar e Silva, autor de Sob vésper, Lunamarga e Território noturno, entre outros títulos.
Alencar foi um dos fundadores do Clube da Madrugada.
Na Academia Amazonense de Letras ocupava a cadeira 23, de Cruz e Sousa.
Leia alguns poemas de Alencar e Silva nO Fingidor.