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quinta-feira, 11 de abril de 2024

A poesia é necessária?

 

A pantera

Jorge Luis Borges (1899-1986)

 

Atrás das fortes grades a pantera

Repetirá o enfadonho itinerário,

Que é (mas não sabe) seu fadário

De negra joia, aziaga e prisioneira.

Vão e vem aos milhares, em desfiles

Infindáveis, mas é só uma e eterna

A pantera fatal em sua caverna

Traça a reta que um eterno Aquiles

Traça no sonho que sonhou o grego.

Não sabe que há prados e montanhas

De cervos cujos trêmulas entranhas

Deleitariam seu apetite cego.

Em vão é vário o orbe. A jornada

Que cumpre cada qual já foi fixada.

 

Tradução: Josely Vianna Baptista



quinta-feira, 13 de abril de 2023

A poesia é necessária?

 

Arte poética

Jorge Luis Borges (1899-1986)

 

Mirar o rio, que é de tempo e água,

E recordar que o tempo é outro rio,

Saber que nos perdemos como o rio

E que passam os rostos como a água.

 

E sentir que a vigília é outro sonho

Que sonha não sonhar, sentir que a morte,

Que a nossa carne teme, é essa morte

De cada noite, que se chama sonho.

 

E ver no dia ou ver no ano um símbolo

Desses dias do homem, de seus anos,

E converter o ultraje desses anos

Em uma música, um rumor e um símbolo.

 

E ver na morte o sonho, e ver no ocaso

Um triste ouro, e assim é a poesia,

Que é imortal e pobre. A poesia

Retorna como a aurora e o ocaso.

 

Às vezes, pelas tardes, uma face

Nos observa do fundo de um espelho;

A arte deve ser como esse espelho

Que nos revela nossa própria face.

 

Contam que Ulisses, farto de prodígios,

Chorou de amor ao avistar sua Ítaca

Humilde e verde. A arte é essa Ítaca

De um eterno verdor, não de prodígios.

 

Também é como o rio interminável

Que passa e fica e que é cristal de um mesmo

Heráclito inconstante que é o mesmo

E é outro, como o rio interminável.

 

 (Trad. Rolando Roque da Silva)

 

sexta-feira, 2 de junho de 2017

as portas


Zemaria Pinto

talvez por influência do Borges à cabeceira,
pela 3a. vez sonhei que voava.
o curioso é que  ao contrário das outras vezes
– quando atingi o orgasmo –
caí em um rio pantanoso
apedrejado por duas crianças
que não acreditaram em mim.


terça-feira, 4 de novembro de 2014

Não considero mais a felicidade inatingível


Não considero mais a felicidade inatingível, como eu acreditava tempos atrás. Agora sei que pode acontecer a qualquer momento, mas nunca se deve procurá-la. Quanto ao fracasso e à fama, parecem-me totalmente irrelevantes e não me preocupam. Agora o que procuro é a paz, o prazer do pensamento e da amizade. E, ainda que pareça demasiado ambicioso, a sensação de amar e ser amado.


      (Jorge Luis Borges (1899-1986), aos 71 anos, em Ensaio autobiográfico)

quinta-feira, 28 de março de 2013

Tigre no Espelho – Análise da obra 3/6

 
Zemaria Pinto
 
Os contos
 
 
Faremos a seguir breves comentários sobre cada um dos contos de Tigre no Espelho. Recomendamos que a leitura desses comentários, aliada a tudo o que já dissemos antes, seja sucedida pela leitura dos textos de Adrino Aragão, posto que não pretendemos, de forma alguma, esgotar o assunto. O leitor deve ter em mente que este resumo é apenas um facilitador, e que nada substitui a leitura do texto original.
 
Tigre no espelho – A narrativa que dá título ao livro mostra-nos o argentino Jorge Luis Borges (1899-1986), um dos escritores fundamentais deste século, especialista em literatura fantástica. Borges, acometido de cegueira desde os 55 anos, anda pela casa como se caminhasse por um labirinto. Na biblioteca, ele encontra-se consigo mesmo, envelhecido. Adrino Aragão serviu-se de dois contos de Borges para compor o seu. A esse processo, os especialistas chamam de “intertextualidade” ou cruzamentos de textos. O primeiro desses textos chama-se “O Outro” e tem rigorosamente o mesmo enredo, só que invertido: o velho Borges encontra-se com um Borges jovem e cheio de saúde e os dois entabulam uma conversa na qual não faltam humor e muita poesia. O segundo texto borgeano no qual Aragão se baseou é “Borges e Eu”, do qual transcrevemos a primeira frase:
 
Ao outro, a Borges, é a quem sucedem as coisas.
 
Compare com uma das falas do Borges envelhecido. É rigorosamente a mesma, não? Mas Adrino Aragão não é Jorge Luis Borges e a ótima idéia perde-se num emaranhado de citações, às vezes gratuitas. Se em Borges o encontro é verossimilhante, em Aragão assume foros de fantasmagoria, como a espera por De Quincey (escritor morto há 140 anos). Em Borges nada é facilitado. O fecho de “Borges e Eu” é exemplar:
 
Não sei qual dos dois escreve esta página.
 
O Borges de Aragão, infelizmente, saberia.  
 
A Velha Remington – Jovem e desconhecido escritor compra uma velha máquina de escrever, marca Remington, de um outro, consagrado, escritor de contos eróticos e transforma-se, ele também, num sucesso do gênero. Certa noite, os personagens sobre os quais escrevia, o velho careca e a mulher de calcinha, tornam-se reais. Pensando estar louco, ele tira um período de férias, mas, ao retornar, transforma-se em personagem do velho careca, que, por sua vez, vira escritor.
 
Este texto, cujo narrador é onisciente, está entrelaçado com outros do livro. Observe, leitor, que a mulher de calcinha é a Olga de “Por que não matei Olga?” e o jovem escritor erótico é o Avelar de “As tias”, que aqui “sonham com aventuras eróticas e orgasmos impossíveis.”
 
Uma leitura mais imediatista afirmaria que houve uma passagem de um estado de sanidade mental à loucura. Mas o leitor deve evitar essa solução fácil, afinal a literatura é uma recriação da realidade e não seu mero reflexo.
 
Você é testemunha, Ulisses – Escrito sob a forma de diálogo, porém com um interlocutor que não se manifesta (o gato Ulisses), este conto é uma reflexão sobre o ofício do escritor. Para manter acesa a chama, ele acredita que está sempre produzindo uma obra-prima. O escritor alimenta-se de esperança. A “conversa” com o gato é uma metáfora da condição solitária do escritor, um criador de mundos que tem na palavra o seu principal instrumento de trabalho, mas que, se não consegue atingir o público, fica a falar às paredes. Ou aos gatos.
 
Chamamos sua atenção para a semelhança com “O contador de histórias”, sobre o qual falaremos mais adiante. A situação é a mesma, apenas o enfoque é diferente: escritor apaixonado pelo seu ofício, jornalista desempregado, abandonado pela mulher.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Estelionato editorial

Zemaria Pinto


Precisando dar mais consistência a um texto, socorri-me do meu velho exemplar de A origem da tragédia (Lisboa: Guimarães, 1988), tradução de Álvaro Ribeiro. Mas assim como fiz há pouco tempo com o Zaratustra, resolvi que estava na hora de pegar uma edição mais nova, numa tradução mais “próxima” do original. Encontrei um volume numa velha livraria ali da 24 de maio. Uma edição brasileira, da Centauro, 2004. Olhei rapidamente o nome do tradutor na própria ficha bibliográfica, e, constatando que era outro, levei o livro.

A edição pirata, da Centauro.
A 5a. edição, de 1988, original.

Somente em casa percebi a fraude: os textos eram rigorosamente iguais. Um fenômeno borgeano, coisa de Pierre Menard.

Olhando com mais calma, vi que o livro novo tinha dois tradutores, um na ficha (Joaquim José de Faria) e outro logo acima (Peter Klaus Ivanov). O Faria aparece também como preparador de originais. E se na Ficha aparece como 5a. edição, mais acima registra-se 12a. edição.
A trapaça.
Clique sobre a figura, para ampliá-la.
O original.

Pra não dizer que os textos eram iguais, algumas tônicas, que valiam para 2004, foram abrasileiradas e eventuais erros da tradução original (que remonta à década de 1950) foram corrigidos.

O capítulo 17: a palavra "absolvidos" não cabe no contexto
O pirata corrigiu o erro original.

























Fala-se tanto em pirataria, mas o que rola no mundo das editoras é de estarrecer. O exemplo acima, depois soube, é um caso muito antigo. Tanto quanto as traduções da Martin Claret.

Quem quiser conhecer mais sobre os meandros escabrosos do mercado editorial brasileiro, leia o blog Não gosto de plágio da Denise Bottmann, tradutora e profunda conhecedora do assunto.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Borges & Borges ou o enigma do outro

Zemaria Pinto
Jorge Luis Borges, por Cameron Stewart.
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Navegando pelas ondas por vezes tediosas da Internet, deparei-me, dia destes, com uma notícia fantástica: dois homens armados assaltaram uma biblioteca pública na periferia de Buenos Aires e roubaram todos os exemplares ali disponíveis dos livros escritos por Jorge Luis Borges − cerca de 50 volumes.

Os ladrões levaram também 33 exemplares de livros escritos por Borges em parceria com Adolfo Bioy Casares. Pela avaliação do diretor da Biblioteca, os livros eram velhos e não contavam entre eles nenhuma edição rara, não tendo praticamente nenhum valor de revenda. Para trás, os assaltantes deixaram computadores, aparelhos de TV e de vídeo, além de enciclopédias novas e caras.

O fantástico dessa historinha é que ela parece saída das páginas de um livro do próprio Borges, o mais importante autor de língua espanhola do século XX.

Nascido na Argentina a 24 de agosto de 1899, Borges foi menino-prodígio, escrevendo contos e aprendendo línguas antes mesmo de ir para a escola. Aos 15 anos, a família muda-se para a Suíça, deixando o jovem Borges mais próximo do esplendor europeu.

De volta à Argentina, publica, em 1923, seu primeiro livro, Fervor de Buenos Aires, com o qual inicia uma carreira que o transformaria em verdadeiro mito.

Espelhos, labirintos, tigres, punhais e o interminável rio de Heráclito são algumas das imagens recorrentes de Borges. Alguns de seus melhores contos são narrados na primeira pessoa, identificando-se ele próprio como o narrador, como se contasse suas memórias. Borges inventava livros e contava histórias sobre esses livros.

Chegou mesmo a inventar um país e um mundo e toda uma bibliografia a respeito. Em Borges, a fronteira entre ficção e ensaio é tão tênue que Antônio Paulo Graça, no ensaio “As Afinidades Ilusórias”, diz que ele revogou, dinamitou a idéia de sujeito.

Cego aos 56 anos, Borges tinha humor e paixão suficientes para viver unicamente em função da literatura, mesmo impedido de ler e escrever. Umberto Eco homenageou-o como o bibliotecário Jorge, de O Nome da Rosa, que, a despeito da cegueira, era o guardião de todos os livros e autor de todas as tramas...

Perguntado, uma ocasião, em uma praça, se era mesmo Borges, respondeu, irônico: − às vezes... No conto “O outro”, de O Livro de Areia, o velho Borges encontra-se com um incrédulo jovem Borges que o sonhava naquele instante, a quem o velho aconselha, sem melancolia:

− Quando alcançares a minha idade terás perdido a visão quase por completo. Verás a cor amarela, sombras e luzes. Não te preocupes. A cegueira não é uma coisa trágica. É como um lento entardecer de verão.

No poema “Arte Poética”, ele sentencia:

Às vezes, pelas tardes, uma cara
Nos olha lá do fundo de um espelho;
A arte deve ser como esse espelho
Que nos revela nossa própria cara.

Em abril de 1985, Borges despede-se dos amigos argentinos e parte para sua última viagem à Europa. Em junho do ano seguinte, ele morre na mesma Suíça de sua adolescência.

O poeta Thiago de Mello, que fez com o autor de O Aleph, História Universal da Infâmia, Ficções e O Livro dos Sonhos, entre tantos outros, duas grandes entrevistas, poucos anos antes de sua morte, tem uma opinião definitiva e borgeana sobre ele:

− Borges não existe. Desconfio que ele não passa de uma invenção dele próprio. Ele construiu – dia a dia –, com os seus poemas, contos e ensaios, um fascinante labirinto, em cujo pátio de palavras e estrelas deixou gravadas as leis que regem o destino da natureza humana.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Desfazendo um equívoco – aliás, quatro
Zemaria Pinto

Instantes não é de Jorge Luis Borges, como Marionete não é de Gabriel Garcia Márquez. Tampouco aquele “poema” idiota, que se lê de cima para baixo e vice-versa, não é da Clarice Lispector. Mas antes, muito antes da Internet, um autor brasileiro virou celebridade, permanecendo anônimo. Ele escreveu este poema:

Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

O poema correu mundo, atribuído a ninguém menos que Vladimir Maiakóvski. No máximo, diziam que Eduardo Alves da Costa o traduzira para o português. Brecht também é apontado, eventualmente, como autor do poema. O mais curioso é que agora circula pela Internet uma apresentação que mostra a seguinte cadeia: Maiakóvski é o autor original, que inspirou Brecht, num poema parecido, que inspirou um certo Martin Niemöller, que inspirou um tal de Cláudio Humberto – o assecla do Collor?

O certo: assim como Instantes não é de Borges, Marionete não é de Garcia Márquez e aquela "coisa" não é de Clarice, o poema No caminho, com Maiakovski é do cidadão brasileiro, nascido em Niterói, em 1936, chamado Eduardo Alves da Costa. O poema que correu mundo atribuído a outros é, na verdade, um fragmento de um poema mais extenso (publicado hoje nO Fingidor - confira: http://ofingidor2008.blogspot.com/2009/01/no-caminho-com-maiakvski.html), lá dos anos 70, anos de chumbo.


Eduardo Alves da Costa.

A história: Martin Niemöller (1892-1984), pastor luterano alemão, nas suas prédicas antinazistas, fazia variações em torno de um mesmo tema:

Quando os nazistas levaram os comunistas, eu me calei; eu não era comunista.
Quando eles prenderam os sociais-democratas, eu me calei; eu não era social-democrata.
Quando eles levaram os sindicalistas, eu não protestei; eu não era sindicalista.
Quando eles levaram os judeus, eu não protestei; eu não era judeu.
Quando eles me levaram, não havia mais ninguém que protestasse.

Às vezes, ele usava negros em vez de comunistas, ou palestinos em vez de judeus. Dependia da platéia. O pastor jamais pretendeu escrever um “poema”. Se Eduardo Alves da Costa não lera Niemöller, então foi mera coincidência a possível semelhança que se observa. Se lera, trata-se de um singelo caso de intertextualidade.

Não tenho aqui o “poema” de duas cabeças que imputam a Clarice Lispector, mas, só para relembrar, Instantes, atribuído a Borges, é aquela bobagem que começa assim:

Se eu pudesse viver novamente a minha vida, na próxima trataria de cometer mais erros.
Não tentaria ser tão perfeito, relaxaria mais.
Seria mais tolo ainda do que tenho sido; na verdade, bem poucas pessoas levaria a sério.
Seria menos higiênico.
Correria mais riscos, viajaria mais, contemplaria mais entardeceres, subiria em mais montanhas, nadaria em mais rios.


Se alguém lembrou de uma musiqueta do Nando Reis... Pois é, parece que o ex-titã também foi enganado ou, esperto, pegou carona. A autora foi identificada: chama-se Nadine Stair. Parece que tudo começou como uma brincadeira, que foi crescendo, crescendo...

Marionete, atribuído a GGM é aquele:

Se por um instante Deus se esquecesse de que sou uma marionete de trapo, e me presenteasse um pedaço de vida,
possivelmente não diria tudo o que penso, mas definitivamente pensaria tudo o que digo.
Daria valor às coisas, não pelo que valem, senão pelo que significam.
Dormiria pouco e sonharia mais, pois agora entendo que por cada minuto que fechamos os olhos, perdemos sessenta segundos de luz.

Calma, leitor, controle suas entranhas. O autor desse permanece no anonimato. Espera-se que para sempre.

sábado, 11 de outubro de 2008

Tradução da Arte Poética, de Borges

Quando peguei o meu surrado exemplar de O Fazedor, para transcrever o poema que está publicado hoje no Fingidor, deparei-me, borgeanamente, com uma tradução da quinta estrofe, com a minha letra, sem qualquer outra observação. A "minha" tradução pareceu-me bem melhor que a do livro. No Google, fui atrás de outras traduções e achei várias, usando, com o mesmo significado, "face", "rosto" e "cara". Lendo o original, matei a charada: Borges usa a palavra "cara" e não "rostro" ou qualquer outra. Vejam se não fica mesmo melhor:

Às vezes, pelas tardes, uma cara
Nos olha lá do fundo de um espelho;
A arte deve ser como esse espelho
Que nos revela nossa própria cara.