Amigos do Fingidor

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Deus salve o Brasil
Tenório Telles


Viver é um desafio cotidiano. Renascemos todos os dias para a faina de assegurar a sobrevivência, de não se deixar morrer ou sucumbir ao desânimo. É preciso fé e coragem para se manter vivo, entusiasmado e com o coração em chamas. A mais decisiva de todas as perdas é a da esperança.

Perder a esperança é perder o lume, o brilho dos olhos, a força que nos move o ser e nos impulsiona para a vida. Por isso, o crime maior desses senhores que se apossam do poder e o transformam num bem particular, usurpando o dinheiro público e condenando a sociedade a uma existência de privações e necessidades, é a subtração da esperança dos cidadãos. Alimentam sonhos e expectativas nos indivíduos e depois os abandonam, agindo em proveito próprio e deixando o povo órfão de suas promessas.

Esses assassinos de sonhos são seres menores, que se contentam com o presente e a satisfação de suas vaidades pessoais. Não têm amor no coração, sentimentos de grandeza humana, tampouco compaixão pela multidão de deserdados que perambula pelas ruas do País em busca de trabalho, de pão e de dignidade para as suas vidas. São eles que geram a miséria e as excrescências humanas que depois precisam eliminar pelo assassínio.

As últimas semanas foram lamentáveis, mas pedagógicas. Sobretudo por ter nos mostrado que o País vai mal porque está contaminado pela desonestidade e desamor, pelos valores humanos e pela pátria. Todas as esferas do poder, nesta Nação infeliz, estão corroídas pela ambição e pelo individualismo. O trágico dessa situação é que isso não é novo. No século XVII, o padre Antônio Vieira escreveu um sermão dedicado aos “Ladrões”, que bem poderia ter sido escrito hoje, tal a sua atualidade:

“O roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza... // O ladrão que furta para comer, não vai nem leva ao inferno; os que não só vão, mas levam, de que eu trato, são outros ladrões de maior calibre e de mais alta esfera... Não só são ladrões... os que cortam bolsas, ou espreitam os que se vão banhar para lhes colher a roupa; os ladrões que mais própria e dignamente merecem este título são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e legiões ou o governo das províncias... os quais já com manha, já com força roubam e despojam os povos. Os outros ladrões roubam um homem, estes roubam cidades e reinos; os outros furtam debaixo de seu risco, estes, sem temor nem perigo; os outros, se furtam, são enforcados; estes furtam e enforcam”.

Pobre País o nosso. Condenado a ser a eterna pátria do futuro, sem futuro, esmagado pela violência e incúria de governantes sem sonhos, sem generosidade e sem compromisso com a construção de uma sociedade menos desigual e menos injusta, governada sob o reinado do bem comum e do respeito à lei. E o que mais nos aflige é que nossos heróis, aqueles que nos ensinaram a acreditar nos sonhos de um mundo feliz para o ser humano, hoje são comensais do poder. Nos bairros, nas fábricas, nos campos, o povo, traído em suas esperanças, resiste como pode. Fomos abandonados por nossos profetas. Que Deus salve o Brasil.

domingo, 30 de agosto de 2009

Edgar Allan Poe - literatura e revelação


No próximo dia 2 de setembro, às 18h30min, a Quarta Literária da Livraria Valer promoverá um encontro especial em homenagem ao poeta, contista, crítico literário e editor americano Edgar Allan Poe, que completa em 2009 dois séculos de nascimento e 160 anos de morte. Trata-se da palestra intitulada Edgar Allan Poe - literatura e revelação, que será proferida pelo escritor Cláudio Fonseca no Espaço Cultural da Livraria Valer (avenida Ramos Ferreira, 1195 - Centro).
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Edgar Allan Poe (Boston, 19 de janeiro de 1809 - Baltimore, 7 de outubro de 1849) escreveu o famoso poema O Corvo, um dos mais traduzidos do mundo e deu início ao moderno romance policial com Os crimes da rua Morgue. Sua influência se estendeu à poesia simbolista, à ficção científica, ao realismo fantástico e ao romance policial moderno e psicológico.

Poe escreveu novelas, contos, poemas e crítica literária, exercendo larga influência em autores fundamentais como Baudelaire, Verlaine, Borges, Maupassant e Dostoievski. Os contos de horror ou góticos apresentam invariavelmente personagens doentias, obsessivas, fascinadas pelo mistério, dominadas por maldições hereditárias, seres que oscilam entre a lucidez e a loucura, vivendo numa espécie de transe, como espectros assustadores de um terrível pesadelo. Entre os contos, destacam-se O gato preto, Ligeia, O coração delator, A queda da casa de Usher, O poço e o pêndulo, Berenice e O barril de amontillado. Os contos analíticos, de raciocínio ou policiais, entre os quais figuram os antológicos O mistério de Marie Roget, Os crimes da Rua Morgue e A carta roubada, ao contrário dos contos de horror, primam pela lógica rigorosa e pela dedução intelectual que permitem o desvendamento de crimes misteriosos.

Em seus contos, Poe se concentrava no terror psicológico, vindo do interior de seus personagens ao contrário dos demais autores que se concentravam no terror externo, no terror visual se valendo apenas de aspectos ambientais. Geralmente, os personagens sofriam de um terror avassalador, fruto de suas fobias e pesadelos, que quase sempre eram um retrato do próprio autor, que sempre teve sua vida regida por um cruel e terrível destino. Em seus relatos, o delírio do personagem se mistura de tal maneira à realidade que não se consegue mais diferenciar se o perigo é concreto ou se trata apenas de ilusões produzidas por uma mente atormentada.Em quase todos os contos, sempre há um mergulho nas profundezas da alma humana, em certos estados mórbidos da mente, em recônditos desvãos do subconsciente. Por esses aspectos a psicanálise estudou a obra de Poe, uma vez que ela possui uma grande leva de exemplos que ilustram suas demonstrações. Independentemente desse aspecto, sua obra é lembrada pelo talento narrativo impressionante e impressivo, pela força criadora monumental e pela realização artística invejável, fazendo com que Edgar Allan Poe seja considerado um dos maiores autores de contos de mistérios de todos os tempos e o primeiro verdadeiro crítico literário americano.


O palestrante
Cláudio Fonseca é economista, administrador e professor universitário. É pós-graduado em História e Crítica da Arte, Gestão da Qualidade e Gestão Estratégica Empresarial. Escreveu a peça de teatro Borges - A linguagem do Sonho, ganhadora do Prêmio Governo do Estado, em 2003. Na quarta literária já apresentou a obra de Mário Quintana, Jorge Luis Borges, Baudelaire e Franz Kafka. Cláudio Fonseca estará autografando a segunda edição de seu livro de poemas VITRAL, lançado pela Editora Valer.
pedra mística 8


terminada a festa, o filho pródigo avisa:
– pai, isto não é uma visita.

(Allison Leão)

sábado, 29 de agosto de 2009

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

À deriva, na varanda, e o perau do pensamento
Zemaria Pinto*

Parece que foi anteontem, mas já se vão 13 anos desde A Cor da Palavra Primária, a última “provocação” poética de Arnaldo Garcez, que viria formar, ao lado de Com Sabor de X e Y, O Lado Vermelho do Azul e O Ai do Samurai um intrigante quarteto poético, como um berro calado contra a mesmice e a mediocridade que insistem em se autoclassificar como poesia.

Buscando a síntese, podemos afirmar que a poesia de Garcez vai das experiências verbivocovisuais – seja lá o que isso for – das vanguardas primitivas, em Sabor, até o mais desassombrado lirismo de A Cor: “Como é simples / ver a luz / sem medir / sua intensidade / quando só / se deseja / viver em / liberdade”. E neste Varanda do Pensamento, o que nos aguarda?

Nesse lapso de tempo, Garcez firmou-se como artista plástico, mas não deixou de registrar suas inquietações existenciais também na poesia. Integrante de uma geração que se intitulou “marginal”, ele jamais aceitou o rótulo: independente, sim; por isso mesmo, à margem das obviedades globalizantes, porém construindo um trabalho sólido, que não se entrega, e amadurece a cada passo: “o poeta / não tem mais ilusão / sabe / que toda manhã / nasce da escuridão”.

A palavra, suspensa no ar, não precisa do suporte do quadro: ela é em si mesma. O poema, entretanto, precisa, para eternizar-se, do suporte do livro – ou, melhor, de uma mídia, que pode, nestes tempos virtuais e pouco virtuosos, ser, inclusive, o livro – brinquedo de papel, pedacinho colorido de saudade. Assim nasce esta coleção de 60 poemas, como 60 gritos desferidos contra o monocórdio barulho da madrugada. Da mesma forma como o artista plástico é temático, compondo a cada exposição uma sequência de quadros que reinventam, expressivamente, o real, o poeta transcende a lírica amorosa e amplia o espectro da sua poesia para além do mero diálogo de uma só voz: são poemas reflexivos, onde o elemento existencial não se afasta do banal cotidiano, representado pelo sexo e pelos encontros/desencontros amorosos que o transsubstanciam. Puro rock’n’roll.

É interessante notar o uso recorrente de algumas palavras, tatuando o discurso poético de Varanda: entre as 12 mais usadas, temos um empate entre conotação positiva e conotação negativa. Esse equilíbrio, entretanto, é apenas aparente. Vejamos: vida, verdade, destino, amor, sentido, razão – palavras positivas; vazio, desejo, solidão, silêncio, dor, escuridão – palavras negativas. Ocorre que “destino” é uma palavra que, em determinados contextos, assume conotação negativa – estão aí as tragédias gregas que não me deixam mentir. A palavra “sentido”, por seu turno, faz parceria com “razão”, e pairam, ambas, sobre os dois grupos, oscilando, ora para um ora para outro. Classifico a palavra “desejo” como negativa pensando em Nietzsche e em Schopenhauer, sem qualquer inflexão de caráter piedoso. Assim, a preponderância é negativa, sobrando ao lado apolíneo as insípidas, apoéticas e manjadíssimas “verdade”, “vida” e “amor”, tributárias da lírica água-com-açúcar, com a qual Garcez jamais fez acordo: “o que vive / dentro de mim / está solto / na varanda do pensamento”.

No embate entre as palavras, entretanto, não é a polaridade que deve ser discutida, mas o efeito que elas causam sobre o leitor. Consciente disso, Garcez desafia-o a mergulhar nos poemas, como num mar improvável, onde os símbolos, à deriva ou no perau, estão sempre à espera de seu Édipo, seu Jung, seu Lévi-Strauss ou mesmo seu Indiana Jones: “deixo tudo solto / na paisagem / dos olhos / do pássaro / que voa dentro de mim”. Arqueologias da mente.

*Apresentação do livro Varanda do pensamento,
de Arnaldo Garcez, lançado no último dia 26 de agosto.
o rajá


com o cair da tarde, reparto o corpo em mil pedaços. a luz desce até mim, e a transparência do meu ser brilha na escuridão, que me cerca. diante dos meus olhos, o arco-íris se multiplica. no fundo do mar os peixes guardam a pedra encantada, e no céu brilha a estrela azul. quando o rajá chega, escancaro as janelas para ouvir melhor os clarins lá fora. ao tentar falar-lhe, ele já seguia montado no camelo que o trouxe. assim, calço as sandálias, os meus pés já não doem tanto. o galo anuncia o cair da madrugada. a noite se reparte em estrelas. e, antes de partir, lembro-me do menino da manjedoura.

(Adrino Aragão)

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Anibal Beça

Rogel Samuel*
Anibal Beça no Flifloresta - novembro/2008. Foto: Rogelio Casado.

Anibal era um daqueles amigos que eu via raramente. Mas quando nos encontrávamos era como se sempre estivessem juntos.

A última vez que o vi foi no Armando, quando fui até a sua mesa elogiá-lo por sua participação no CD de Luiz Baccelar.

Faz anos, muitos anos.

Recentemente ele me mandou um email com poemas e inscreveu-se na minha lista de "seguidores do blog", onde ele está agora.

Anos antes, ele estava no nosso antigo "Site do escritor".

Por duas vezes estive em sua casa. Na primeira vez, há décadas, fui almoçar (eram famosos seus almoços, suas peixadas...).

A segunda vez foi num grupo de escritores para o encontro político com Thiago de Mello. Estavam todos lá, os escritores todos, os amazonenses, em torno do Thiago.

Anibal eram um grande poeta, premiado poeta.

Recebo de minha Amiga Amelia Pais o seguinte soneto:


A manhã



A manhã nasce entre as muitas janelas
invadindo meu corpo fatigado,
sede dos meus caminhos sem cancelas,
na luz de muitos astros albergados.


Casa onde me recolho das mazelas,
dos louros, derroteiros, lado a lado,
para ouvir de mim, franco, das seqüelas:
Ecce Homo! Eis o triste camuflado.
Essa tristeza de há muito em residência
às vezes se constrói em face alegre
máscara sem eu mesmo em aparência
num carnaval escuro no seu frege.
O que me salva, cor nessa vivência,
é saber que a poesia é quem me rege.


(outubro 3 de uma manhã chuvosa na primavera amazônica.)
Aníbal Beça - N.13 Set 1946/F. 25 de Agosto de 2009
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*Publicado originalmente no blog de Rogel Samuel.
As Santas Casas
João Bosco Botelho

Assistência em hospital europeu - século XVII.

A primeira Santa Casa foi fundada, em Lisboa, em 1498. A maior motivação da realeza portuguesa não foi a assistência médica aos milhares de necessitados e famintos que perambulavam até morrer, nas cidades e nos campos, entre um e outro surto da peste negra.

A administração real acreditava que poderia controlar melhor um único hospital — Santa Casa —, evitando os roubos dos administradores e os impostos da Igreja. Alguns documentos descrevem o quanto era difícil gerenciar as incontáveis pequenas entidades assistenciais, mantidas pela caridade das generosas doações dos ricos, em vida ou firmadas nos testamentos, que em contrapartida esperavam encontrar aberta a porta do céu.

Desse o início, a Santa Casa de Lisboa desfrutou de muitas regalias ordenadas pelo rei D. Manuel (1495-1521), em especial, a liberação de todos os impostos. Em consequência do fechamento dos núcleos assistenciais menores e das vantagens reais, ocorreu vertiginoso crescimento político e econômico da primeira Santa Casa.

Bem impressionado com o crescente volume das doações que chegavam de todas as partes do reino e do além-mar, desafogando as finanças, o rei impôs novas regras à Irmandade da Misericórdia. O Mordomo da Santa Casa, escolhido a dedo, seria o único autorizado a realizar a coleta das esmolas em Lisboa e doações testamentárias, tudo perfeitamente embasado em Mt 25, 34-36: Então dirá o rei aos que estiverem à sua direita: “Vinde, benditos de meu Pai, recebei por herança o Reino preparado para vós desde a fundação do mundo. Pois tive fome e me destes de comer. Tive sede e destes de beber. Era forasteiro e me recolhestes. Estive nu e me vestistes, doente e me visitastes, preso e viestes ver-me”.

Em pouco mais de vinte anos, tratadas como negócios muito lucrativos, recebendo vultosas doações, as Irmandades da Misericórdia, entidades gerenciadoras das Santas Casas, multiplicaram-se nas colônias. O testamento de Mem de Sá pode oferecer as razões desse sucesso: a terça parte dos bens do Governador Geral, no Brasil, ficou com a Misericórdia da Bahia e a mesma percentagem do patrimônio, em Portugal, foi legada à Misericórdia de Lisboa.

A Misericórdia de Goa, fundada no governo de Lopo Soares (1515-1518), também teve importância estratégica porque essa cidade indiana recebia muitos viajantes e era o porto final da penetração dos portugueses no Oriente. Os jesuítas, atentos à dinâmica das relações políticas, ao perceberem o significado dessa Misericórdia, reivindicaram e obtiveram do Vice-Rei Mathias de Albuquerque, em 1551, a exclusividade da Mesa Diretora e o recolhimento dos donativos.

As regalias patrocinadas pelo cargo de Mordomo não deveriam ser poucas. Só isso explica a atitude do paulista José Ortiz de Camargo, em 1651, que recusou ser juiz de São Paulo de Piratininga para não renunciar ao título de provedor da Misericórdia.

O chamamento à caridade, subentendida como pressuposto do acesso mais fácil ao paraíso, colocado na ordem do dia pelas diversas ordens religiosas, principalmente a jesuíta, teve papel de destaque no conjunto político que favoreceu a consolidação das Santas Casas como centros de assistência médico-social. Na administração da coleta das esmolas, os religiosos estendiam o poder temporal e aumentavam a riqueza da Igreja, sempre amparados pelo imaginário da caridade cristã.

Nos séculos seguintes, ocorreu o fortalecimento da aliança Estado-Igreja, para suprir as graves deficiências da assistência médica. A resultante materializou-se nas Santas Casas da Misericórdia espalhadas em mais de setecentas cidades no mundo cristão.

No Brasil, a primeira Santa Casa, a do Rio de Janeiro, já estava consolidada em 1582, quando a frota de Diogo Flores Valdés chegou com muitos doentes a bordo. Nos três séculos seguintes, seguiram-se trezentas e vinte e seis Irmandades da Misericórdia.

A Santa Casa da Misericórdia de Manaus, encravada na floresta amazônica, mais de três séculos depois, reproduziu os mesmos princípios da caridade cristã que nortearam a primeira Santa Casa em Lisboa.

Uma das últimas, a Misericórdia amazonense chegou como onda retardatária do processo colonizador português, na época em que, na Europa, os antigos critérios da hospitalização dos doentes sofriam severas críticas.

O reclamo popular da falta de hospital, em Manaus, influenciou a decisão tomada pelo Presidente da Província do Amazonas para fundar a Irmandade da Misericórdia. Era trágica a situação hospitalar em Manaus, na segunda metade do século XIX. A inauguração da Santa Casa da Misericórdia ocorreu em 16 de maio de 1880. Apenas nove anos depois, apareceram os primeiros problemas da viabilidade econômica do hospital, apesar das facilidades tributárias recebidas.

Em Manaus, também foram mantidos os principais pontos do Estatuto da Misericórdia de Lisboa, baseados em Mt 25, 34-36, onde predominavam ações de caridade, como obrigações voltadas à assistência aos necessitados e doentes, também entendidas como ações facilitadoras para ganhar o paraíso após a morte.

Santa Casa - Rio de Janeiro, século XVIII.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Os signos da modernidade na Suíte para os habitantes da noite
Zemaria Pinto*
Capa de Suíte para os habitantes da noite, de
Anibal Beça (13/09/1946-25/08/2009)

Não, senhores, a Poesia não está em crise: a Poesia é crise. Por consubstanciar-se na própria aventura da linguagem, a Poesia é uma constante de questionamento, busca e mutação, renovando-se a partir de si mesma e do contágio com as outras artes e com o cotidiano. Entretanto, se analisarmos sua história desde os antigos até o Romantismo, veremos uma distância muito grande entre o comportamento e a consciência desse comportamento. Os poetas que alicerçaram a Poesia enquanto arte valeram-se de recursos técnicos que permitem sua sobrevida através dos séculos. Mas é o poeta moderno que equaciona esse problema em limites palpáveis: de Baudelaire aos Campos, de Laforgue a Bandeira, o poeta moderno tem pensado sua poesia com o estofo da intemporalidade e da universalidade. Muda a forma, mudam-se as escolas, mas ela mantém-se fiel à sua tradição histórica, num trabalho de resgate permanente do estabelecido, com o qual se engendrará o novo.

E eis que se instala o paradoxo: o novo criado a partir da tradição, e não como resultante de um conflito entre esta e aquele. É aqui, então, que se instaura a crise. João Alexandre Barbosa, no ensaio As ilusões da modernidade, afirma que, para o poeta moderno, “a tradição que interessa é aquela que, traduzida, implica no desbravamento de novas possibilidades de utilização da linguagem da Poesia”. O poeta fundará, portanto, sua modernidade no caráter atemporal e universal de seu trabalho, e numa terceira ilusão: a da ubiquidade, ou seja, ser de todas as épocas e de todos os lugares, rompendo a linearidade tempo/espaço, ou melhor, fragmentando-a a partir da leitura dos intertextos que compõem o poema.

O poeta moderno é, pois, um criador de enigmas. A distância entre o leitor e o poeta pode ser medida pela tensão que este consegue ao ignorar os signos da linguagem estabelecida, que resultariam num discurso lógico, multiplicando significados, multifacetando a leitura. Aqui, faz-se útil o exercício da crítica, mais que em qualquer outra atividade artística. Um romance pode prender seu leitor pela boa trama. Um quadro pode encantar pela carga emocional que transmite. Uma sinfonia ou uma simples canção serão agradáveis ao ouvido, prescindindo de um socorro crítico. Mas a crítica do poema arquiteta uma ponte entre o poeta e o leitor, fornecendo a este algumas possibilidades de leituras, independentes do impacto causado pela musicalidade e pelas imagens que o poema transmite numa leitura acrítica. T. S. Eliot, no ensaio As fronteiras da crítica, afirma que “o crítico é um crítico (de poesia) se o seu objetivo primordial, ao escrever crítica, for o de ajudar seus leitores a compreender e a sentir prazer”. A ele cabe, portanto, desvendar o que Pound classificou como “a dança do intelecto entre as palavras”, ou a essência mesma da Poesia.

Essas reflexões vêm-me, um tanto desencontradas, a propósito da leitura de Suíte para os habitantes da noite, de Anibal Beça, vencedor do 6° Prêmio Nestlé de Literatura Brasileira, categoria Poesia, em 1994. Anibal é o poeta moderno por excelência, a partir do momento em que elege a linguagem como o referencial de seu fazer poético. Já fora assim em Filhos da Várzea, também em Itinerário Poético, livros anteriores. Esta Suíte traz um poeta mais amadurecido, não apenas pelo inevitável passar do tempo, o que em alguns escritores traduz-se por repetição ou enfado, mas por guardar no cerne da sua elaboração poética uma força renovada, que transforma a linguagem, de objeto, em sujeito do poema.

O crítico situado nesta insípida pós-modernidade, que não se submete às saturações impostas por modismos acadêmicos, com suas vertentes que transitam da antropologia à psicologia, passando por “gias” e “ismos” inimagináveis, tem dificuldade de enquadrar o analisado em escolas, o que facilitaria sobremaneira o esclarecimento didático. Como não vivemos no centro de nenhuma revolução estética, e o estilo de nossa época só será definido daqui a algumas décadas, vou arriscar nestes comentários, apenas para efeito de melhor entendimento, classificar o poeta Anibal Beça em uma escola ou estilo consagrado. É um risco consciente, mas é uma tentativa de casar uma crítica que se pretende atual com a tradição literária que embasa a própria criação do autor.

Temos na Suíte as mais diversas formas poéticas: da ode ao soneto, da balada ao auto, resgatados da tradição, até ousadias formais historicamente recentes, como o poema concreto e o poema-práxis, além do poema livre das amarras rítmicas, cuja musicalidade se constrói a partir da interação entre autor e leitor. Ao lado da elaboração formal múltipla e inquieta, nota-se a preocupação com o enriquecimento da linguagem, a partir do uso de palavras exiladas do coloquial, bem como a criação de inúmeros neologismos. Leitor de Dante, Camões e Pessoa, fato evidenciado no texto, Anibal sabe que o poeta é o guardião da língua. Outra característica facilmente observável na Suíte é a dicotomia em que ela se alicerça: noite-dia, loucura-razão, sem que se estabeleça uma predominância de valor, antes, procurando o equilíbrio. Esse embate constante se trava também, sem que o poeta tome partido, na tensão entre fé mística e erotismo, urbano e bucólico, paixão e humor, apolíneo e dionisíaco, onde os contrários não se negam: se completam, se complementam como parte de uma estética una. Por fim, a definição de Dámaso Alonso, acerca da poética de Góngora – “intensa no pormenor, densa no conjunto” –, enquadra-se à perfeição na poesia de Anibal Beça. Despido dos vícios que distinguem o Barroco, o poeta toma para si o que há de positivo naquela escola, reinventando a tradição e inserindo-se em seu tempo, num movimento circular de intemporalidade,

Uma outra evidência do caráter intencionalmente neobarroco da Suíte para os habitantes da noite é o empréstimo que ela faz à música para intitular seus “movimentos”. Enquanto forma musical, a suíte foi estabelecida no século XVII, reunindo os ritmos de dança então em voga (sarabanda, giga, alemanda, entre outros), caracterizando-se como uma sucessão de peças de caráter contrastante, porém escritas numa mesma tonalidade. Tendo o barroco Johann Sebastian Bach, na primeira metade do século XVIII, como seu mais notável criador, a suíte, com o passar do tempo, perdeu sua característica dançante, passando a designar trechos sinfônicos representativos de óperas, balés ou música incidental para teatro. É, pois, com o sentido original que Anibal Beça designa a Suíte.

A tradição lírica brasileira não guarda muita afinidade com os poemas de longo fôlego, tanto que classifica Invenção de Orfeu, de Jorge de Lima, como poema épico, querendo livrar-se, talvez, do estigma de não termos um “poema nacional”. A nossa lírica dá preferência à poesia confessional, à Bandeira, ou questionadora do mundo, das invenções de Drummond, mas (quase) sempre de maneira fragmentada, sem um fio condutor. Anibal não fugiu à regra, negando-a: a Suíte é composta de poemas que podem ser lidos, e entendidos, independentes entre si, porém há uma guia, a mão do poeta-condutor, que atravessa todo o poema, desde o “Prólogo” – e assim me assino esse uno e esse outro Majnun – até a “Balada como/vida”, com sua coda em pianíssimo, figurando o transitório da vida, até então cantada em outros tons – altos e bons.

Tendo como ponto de partida a tradição persa, através da desventura do poeta Majnun, que enlouqueceu por amor a Laila, despojando-se de suas riquezas para viver no deserto, a Suíte traça um movimento sinuoso até um provável presente amazônico e aqui se universaliza:

Um rio negro lava minha aldeia
leva meu silêncio

Os elementos do poema, entretanto, são refratários a qualquer análise de cunho sociológico. Não espere o leitor encontrar em Anibal Beça, e em especial nesta Suíte, uma atitude linear e franca: somos conduzidos por labirintos habitados por animais tão domésticos, como o gato, o galo, ou mesmo “éguas mouras”, para, num repente, confrontarmo-nos com “um tigre de basalto” ou com

Os lobos sempre esses lobos
assaltantes da memória
recorrências de mim mesmo
ou de um outro que me habita

Mas o poeta que nos conduz (Majnun? Anibal?) não esquece das “musas reclusas musas” ou da “mulher de um sonho distante”, a própria Noite-Laila, o inconsciente, a desrazão, a fúria criadora do Louco-Majnun, que, enquanto poeta, representa o limite da palavra, palavra que se multiplica em lua (luaura, lualcoólica, lualém, luasente, luamante) ou noite (noitensa, noitelúrica, noitestelar, noitemporal, noiterminal). “Onde a Poesia?”, o poeta se pergunta: num auto-novena, no verbo em desconstrução, na contramão do silêncio, ou na solidão do Poema?

A trajetória que a Suíte percorre, do extremo Oriente às barrancas do Amazonas, enveredando por esse tempo milenar e atual, é uma clarividência de seu caráter de obra permanente, não fosse pelo rigor estético de sua elaboração a partir de sutis intertextos, que o leitor descobrirá ao sabor da leitura-viagem (via linguagem), e que funcionam como fachos a alumiar a caminhada na noite escura do poemenigma.

*Posfácio do livro Suíte Para Os Habitantes da Noite, de Anibal Beça, editado pela Paz e Terra, em 1995 – vencedor do 6º Prêmio Nestlé de Literatura brasileira.

Fantasy Art - Galeria

Julie Bell.
drops de pimenta 25


─ Vem ver como a lua tá bonita.
─ Tou lendo o jornal.
─ ...
─ Cadê?
─ Uma nuvem...

(Zemaria Pinto)

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Um até breve para o gordo
Benayas Inácio Pereira
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Da esquerda para a direita, Marcos Frederico, Aldisio Filgueiras, Anibal Beça e Zemaria Pinto, na Editora Valer - 2008.

Confesso-me incapacitado para falar da dor que sinto neste instante. Parece que Deus, de uns tempos a essa parte resolveu testar de vez minha tolerância e ver até onde eu suporto tantas perdas. Não desejo aqui ficar entregue ao desalento.

Há uns dias passei na casa do meu amigo Anísio Mello e falamos a respeito destes nossos amigos que sem mais nem menos resolvem à revelia mudar-se para o andar de cima. Não adianta a gente ficar se lamentando.

O filósofo Epiteto repetia sempre que têm coisas que podemos controlar e outras que fogem do nosso alcance. É verdade! Como evitar a morte? Não precisamos ter medo dela, pois enquanto vivemos, ela está ausente e quando ela chega, nós já não estamos. No papel funciona tudo bem, mas ainda não descobri o segredo de saber lidar com as perdas.

Anibal Beça é apenas mais um para ser colocado na lista das pessoas que amei e que se foram. Ele, naturalmente não teve tempo de se despedir de mim, mas em todas as vezes que estive ao seu lado, no leito do hospital, falávamos de tudo. Pusemos as fofocas em dia e tivemos papos deliciosos. Quando ele passou para a CTI, ainda o visitei duas vezes. Nestas duas ocasiões não conversamos, porém, nessa mudez falamos novamente de tudo.

Agora, o Gordo”parte. Parabéns, Deus, por mais esta conquista. Aqui na Terra vamos seguindo cada vez mais enfraquecidos. Há uma carência muito grande de grandes homens, e principalmente daqueles que ainda se lembram de encher de poesias, as páginas gélidas e brancas de um papel rascunho qualquer.

Quer saber, Deus? Não sei até aonde Você pretende chegar. Sei que o ciclo da vida chega para todos nós e minha geração parece ter chegado aos pontos mais críticos da existência. Eu gostaria, no entanto, que Você desse uma trégua por uns tempos. Afinal, eu preciso me recuperar do desânimo atual.

Quando a você, caro Anibal, obrigado por tudo. Aprendi muitas coisas com você e espero não o ter decepcionado.

Abraços – e até breve!
Anibal Beça (13/09/1946-25/08/2009)

Anibal Beça, na noite de sua posse na
Academia Amazonense de Letras, em 19/05/2005.
A UM VALENTE DAS LETRAS
O poeta morreu. Aquele cubículo – cabine espacial de suas verdades – está escuro. Os livros, que cercavam o seu corpo... no escuro. O computador por onde navegava como borboleta... no escuro. Faz escuro naquele canto de sua casa onde ele existia voando seus sonhos. As pernas; os pés; virando raízes... A mente... Espírito Santo... Agora, que se foi...Ficou.
(Marco Adolfs)
O personagem


Ele vivia com uma necessidade interna dantesca. Circulava em eventos, festas e circuitos de forma quase obsessiva. Tentando ver e ser visto. Tornara-se tão doente de aparecer que não sabia mais cultivar o tempo da naturalidade. A sua obsessão se tornara uma verdade tão absoluta que ele até virara um personagem de si mesmo. Existindo apenas em um figurino composto para impressionar seus pares. Quando elaborou seu último texto discursivo, viu-se transfigurado em palavras de solidão.

(Marco Adolfs)

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Varanda do pensamento - novo livro de Arnaldo Garcez

Clique sobre a imagem, para ampliá-la.
Djalma Batista – um herói do nosso tempo
Tenório Telles


A Amazônia, além de última fronteira da civilização e um dos últimos espaços naturais do planeta, conserva-se como um enigma a ser decifrado. É a grande esfinge do nosso tempo. Desde os primeiros viajantes, inúmeras explicações, teorias e visões foram construídas sobre esse universo verde, líquido e misterioso.

O poeta Pereira da Silva, fascinado com sua grandeza e pujança, concebia-a como a representação do paraíso. Outros, amedrontados e sem compreender sua natureza superlativa e enigmática, imaginavam-na como um mundo cheio de riscos, uma representação do caos originário. Algumas mentes sensatas e altivas assumiram o compromisso e o desafio de estudá-la e decifrá-la, como forma de protegê-la e usufruir de maneira responsável os seus bens.

Djalma Batista faz parte dessa linhagem de pesquisadores que ousou enfrentar a esfinge. Fruto desse gesto de coragem e compromisso com a Amazônia, produziu uma das reflexões mais consistentes e atuais sobre a complexidade da região: “A natureza amazônica não está suficientemente conhecida e estudada. Considero, por isso, em primeira prioridade, a necessidade de incentivar pesquisas científicas e tecnológicas, que venham a servir de orientação indispensável”. Aliás, o grande mérito de seu trabalho foi ter percebido o caráter diverso e integrado desse mundo em contínuo processo de vida e renovação. Problematizou muitas questões sustentadas por ilustres cientistas do nosso tempo: a natureza como um organismo vivo, a noção de equilíbrio dos ecossistemas naturais, o reconhecimento da biodiversidade como fator de desenvolvimento e formação de uma consciência ecológica.

Seu livro O Complexo da Amazônia é o resultado de uma existência dedicada à ciência e ao estudo sobre a realidade amazônica. Não é só um diagnóstico sobre a complexidade desse universo, o que explica o subtítulo da obra: “Análise do processo de desenvolvimento”. É uma declaração de compromisso e proposição de caminhos possíveis para engendrar possibilidades inovadoras em termos de desenvolvimento para a Amazônia, capazes de compatibilizar a produção de riqueza e seu usufruto pelas suas populações, sem negligenciar a preservação do meio ambiente. Por isso, advertia: “É urgente que se crie uma agrotécnica para os trópicos, até hoje desconhecida, e que permita o aproveitamento racional das terras amazônicas e a produção de alimentos”.

O que sobressai, além do estudioso, na personalidade de Djalma Batista é a figura humana. Construiu uma trajetória ímpar, fundada em compromissos éticos, políticos e num entendimento de que a ciência não é um fim, mas instrumento para melhorar a condição humana, os processos sociais e gerando qualidade de vida para a sociedade. Seus leitores terão muito a aprender com suas reflexões e seus estudos, mas, sobretudo, com o seu exemplo como cientista, intelectual e pai de família. Foi um homem de sua época, que, como poucos, honrou seus valores e consagrou sua vida à sua maior causa – a Amazônia. Profeta de um mundo incompreendido e ameaçado, Djalma é um dos heróis do nosso tempo.

domingo, 23 de agosto de 2009

2ª edição de Pepeta - Páginas de vida e história


Pepeta – Páginas de vida e história é um livro de opiniões e significados, falas e revelações, sentimento e lembrança, em que a autora emerge nas circunstâncias e no contexto da vida do personagem, oferecendo uma narrativa afetiva da trajetória de um dos grandes ídolos do futebol amazonense, José Ricardo dos Santos Silva – Pepeta, artífice de feitos gloriosos do Nacional Futebol Clube, e da própria seleção amazonense, especialmente nas décadas de 60 e 70, reconstituindo fatos e fases da cidade de Manaus. O livro contém fotos, documentos e reportagens recolhidos em pesquisa feita na Biblioteca Pública Municipal. A autora inseriu cada foto nos acontecimentos sociais, culturais, políticos e religiosos de então.

Para o escritor Tenório Telles, membro da Academia Amazonense de Letras, Carmen firma-se como cronista dos fatos, atores e acontecimentos cotidianos que enformam a história da cidade de Manaus. Ao fixar literariamente a trajetória mágica de Pepeta, reconstitui o cenário histórico da década de 60 do século passado. Carmen Novoa presta ainda um serviço à história do desporto no Amazonas, ao mesmo tempo em que resgata um dos momentos mais expressivos e vitoriosos do futebol regional, tendo como protagonista essa figura lendária da torcida amazonense: Pepeta, um jogador de excepcionais qualidades.

A data do lançamento da 2.ª edição deste livro marca o aniversário de 40 anos da vitória histórica do Nacional Futebol Clube no Maracanã, quando o então atacante Pepeta marcou o gol da vitória. Foi no dia 24 de agosto de 1969; o jogo era Nacional, do Amazonas, contra Maringá, do Paraná, definindo o vencedor do campeonato brasileiro no torneio Centro-Sul e Norte-Nordeste. O único gol da partida, feito por Pepeta, fez Limongi, então presidente da FAF, proferir em alta voz: “Fizemos história”. Este livro é um testemunho dessa história memorável.

A AutoraCarmen Novoa Silva é escritora, pesquisadora e poeta. Ocupa a cadeira n.º 33 da Academia Amazonense de Letras. Tem publicados os livros: Trilhos de Prata (1992); Decálogo de Manaus (1994); Credo à Imaculada do Amazonas (1995); Canção a Manaus (2001); organizadora do livro Andrômaca, de Péricles Moraes (2008).

Evento: Lançamento do livro Pepeta – Páginas de vida e históriaAutora: Carmen Novoa Silva
Páginas: 206
Data: 24 de agosto de 2009 (segunda-feira)
Horário: 19h
Local: Restaurante Stravaganza – Hotel Mercure, avenida Mário Ypiranga Monteiro (antiga Recife), 1.000 – Adrianópolis
Contatos: 3635-1324 (Editora Valer); 9982-9290 (autora)
pedra mística 7

para luiz bacellar, que um dia escreveu um belo haicai na sua “volta ao mundo em 9 flagrantes”. este, fotografado em new york, era mais ou menos assim:

o musicista ceguinho
estende um velho caneco:
coleta um floco de neve.


daí a pouco morre de hipotermia. deus exagerando na esmola.

(Allison Leão)

sábado, 22 de agosto de 2009

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Vitrais das noites e lendas visitam Brasília
Adrino Aragão
Meu verso é semente
lançada entre ruínas
e olhares de fábula.
(Jorge Tufic)
Capa de Quando as noites voavam, de Jorge Tufic.
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Houve uma noite na I Bienal Internacional de Poesia, realizada na Capital Federal (2008), em que, na voz do poeta Jorge Tufic, os vitrais das noites e as lendas cobriram de magia e encantamento o Auditório do Museu Nacional. Não falo, ou melhor, não escrevo de caso ouvido ou de caso contado. Escrevo o que vi e ouvi diante de meus olhos, não apenas diante de meus olhos acostumados a eventos culturais semelhantes em outros grandes centros do País, mas sim diante de um público seleto, estudantes, jornalistas, professores, escritores, críticos, leitores, gente que ama a Poesia e as Artes de modo geral. O depoimento do poeta Tufic dá a dimensão de sua participação e de seus companheiros palestrantes na Bienal: “O convite para participar do evento de tamanha magnitude me foi feito pelo grande Antonio Miranda. O honroso espaço, reservado a cada poeta, deu-me a oportunidade de ler alguns poemas de minha autoria, não deixando de fora aqueles que estão no Quando as noites voavam, trilogia amazônica que, já acrescida de uma quarta parte, encerra, talvez para sempre, este ciclo poético-lendário a que tanto me dediquei ao longo de 30 anos em Manaus”. E, num gesto de modéstia que lhe é próprio, confessa: “Ponto alto, contudo, de meus contatos em Brasília foi a reunião de amigos que tivemos numa das dependências do Hotel Nacional, quando fui “intimado” a dar meu depoimento sobre as origens do Clube da Madrugada, assunto este que me parece uma continuação dessa mesma atmosfera que permeia as estórias dos mais antigos habitantes da Hiléia”.

Jorge Tufic, como um dos fundadores mais produtivos do Clube da Madrugada, dá-nos o seguinte depoimento:

“Para se ter uma idéia do Clube da Madrugada, basta lembrar que ele foi criado (1954) numa praça, ao ar livre, tomando a lição dos pássaros, dos ventos e da vida em redor. Essa lição de liberdade arejava os sentidos e tornava mais ampla e profunda a convivência do grupo, integrado por sonhadores, visionários, poetas, estudantes, ficcionistas, músicos, artistas plásticos, antropólogos, filósofos, economistas, políticos, comerciantes etc. A distância, fechados em seus gabinetes, dormitavam os conservadores. Mas havia as exceções, como André Araújo, Geraldo Pinheiro, padre Nonato, Sebastião Norões e outros, que nos davam seu apoio e nos acolhiam em seu meio. Assim foi que as primeiras reuniões fora dos cercados da praça seriam realizadas nos bares e cafés onde esses mestres costumavam se encontrar; e a seguir, em lugares ainda mais fechados, como na casa do Desembargador André Vidal de Araújo e na Escola de Serviço Social, dirigida e mantida por ele, em cujo auditório Francisco Batista pronunciou conferência sob o título “Conceituação do Modernismo no Amazonas”. (...) “Até que chegássemos aos anos setenta, o CM já tinha ocupado e mantido, por longos períodos, páginas inteiras nos jornais: A Crítica, Jornal do Comércio, O Jornal, além de revistas e periódicos que estampavam a produção literária da equipe e dos colaboradores, entre os quais podemos mencionar nomes famosos como Assis Brasil, Nauro Machado, José Alcides Pinto, Nunes Pereira, Pessoa de Moraes, Jorge Amado, Max Martins, Benedito Nunes e outros. Por ocasião do lançamento da Poesia de Muro, a adesão dos Estados do Nordeste foi maciça. Outro feito histórico: o trabalho para se construir e lançar os monumentos em homenagem a Gonçalves Dias e a Bruno de Menezes, existentes na Praça da Polícia, local da ‘sede’ do Clube. É impossível detalhar, contudo, todos os passos do movimento madrugada”.

De fato, a história do Clube da Madrugada é escrita por grandes debates, eventos, e várias são as fases do movimento. Sempre marcado em ferro e fogo pelo trabalho de cada “afoito madrugadense”, expressão usada por Guimarães Rosa no hall do Hotel Amazonas, quando esteve em Manaus. “Dá pena” – como diz Jorge Tufic - “que esses debates não tenham sido gravados – mas onde o gravador, naqueles tempos? Basta dizer que os livros, que hoje se lêem em tradução portuguesa, eram lidos no próprio original inglês, alemão ou francês. As únicas traduções eram feitas em espanhol”.

Na trajetória dos mais de 50 anos de poesia, Jorge Tufic viajou por quase todas as formas poéticas: soneto, verso livre, poema concreto, práxis, poesia de muro e outros experimentos de renovação da literatura brasileira. Nunca, no entanto, por modismos; mas por compreender que a arte da escrita é, antes de tudo, exercício de alquimia e encantamento. Gênios da pintura, como Van Gogh, Cézanne, Monet e outros gigantes, revelaram, ao longo de suas vidas, que é na mistura das tintas que os grandes artistas encontram a química das cores definitivas com que pintam suas telas universais.

Tudo isso para dizer: só alguém como Jorge Tufic, poeta do Mundo (acreano de nascimento, amazonense por escolha e filho de libaneses), poderia tecer, com os fios da sabedoria de um velho pajé espiritual, e com o encanto narrativo de Sherazade, Quando as noites voavam, livro de tamanha força poética e incomparável riqueza de conteúdo. Afinal, ensinam os mestres, os mitos não são apenas estórias universais; os mitos “moldam e espelham nossas vidas – exploram nossos desejos, nossos medos, nossas esperanças”.

Nesse contexto, diríamos que, pelos rios sagrados dos mitos e lendas, e sob a ritualística de cantos e danças evocados pelo poeta Tufic correm filigranas de pura poesia de inspiração divina, como acontece sempre que poesia e mito se unem. Leiam esses versos:
Contam que foi assim.
As águas baixaram tanto
que os peixes subiram para a terra,
tomaram forma de gente.

Uma Cobra do tamanho do arco-íris
espalhou essa gente pelas margens do rio.
Antes da pupunha e do arumã,
antes do Dia e da Noite...

(pág.21)

Neste princípio de noite
meus dedos têm furos de flauta

(pág.77)

Nestas paragens da Noite,
a lua se despe no fundo do lago

(pág.80)

Desvair a Cobra-Grande
até o visgo da lenda

(pág.79)

Na verdade, nada escapa ao sopro mágico de flauta do poeta Jorge Tufic. Nem mesmo, e principalmente, as ações criminosas e impunes do homem contra a floresta, rios, peixes, pássaros, animais, enfim contra a Natureza. É quando, então, o poeta, como um Deus enfurecido, impõe sua flauta incandescente, e derrama-se um canto melancólico e assustador, como no belíssimo e comovente poema “Que será de ti, Amazônia?”, do qual extraímos os versos:
Que será de ti, Amazônia,
enquanto não forem avaliadas tuas perdas
e teu desgaste
em quatrocentos anos de falsa
prosperidade para o homem;
e de lenta,
lentíssima agonia
para os sonhos e as riquezas
que te habitam?

(pág.136)

Que será de ti, Amazônia,
quando tuas lendas não tiverem mais
onde pousar; e a doce flauta
do uirapuru
quebrar-se numa profunda elegia
sobre os rios que mínguam
e os areais que avançam?

(pág.137)

Quando as noites voavam, de Jorge Tufic, é livro para ficar, ao lado de Cobra Norato, de Raul Bopp, como obra-prima da literatura brasileira. E, naturalmente, para ser lido e refletido, agora. Antes que os rios morram de sede, os pássaros silenciem, a floresta tombe em definitivo. E o homem, sem Deus, sem esperança no coração, desapareça da face da terra – como um verme engolido pela serpente insaciável da ganância e do egoísmo em acumular riquezas.
invenção


de barro, o primeiro homem. em seguida, vieram o segundo, o terceiro, o quarto, logo um exército deles. pisando o barro, os homens de barro marcharam. homem e barro, barro e homem. um, dois, feijão com arroz.

de barro não presta, seu bobo. vem o sol e parte ele todo. o jeito é soprar. com força. mais força ainda. como se você avivasse o fogo no fogareiro de carvão.

com o sopro, o barro se fez homem. mais tarde, com o calor do sol, o homem partiu-se ao meio.

nada mais pôde ser feito. o seu criador já cuidava de outros inventos.

(Adrino Aragão)

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Jorge Tufic - 40 anos de AAL
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Jorge Tufic, ao lado de Aluisio Sampaio e Arthur Engrácio.

“Nos arredores de meus 38 anos, e após um longo período madrugadense de ojeriza aos ademanes acadêmicos, levara-me o acaso a pertencer ao Conselho Estadualde Cultura, convidado pelo Elson Farias. E ali eu fui obrigado a conviver com metade do Colegiado toda ela composta por membros de nossa Academia, sobressaindo-se desse grupo figuras seletivas como André Araújo, Genesino Braga,Djalma Batista, João Mendonça de Souza, entre outros, não menos brilhantes.

Para minha surpresa, contudo, apesar da resistência em não aceitar as idéias e a linguagem desses “imortais”, acabamos por nos entender naqueles momentos em que a decisão do Conselho batia, sobremaneira, com o pensamento do Clube da Madrugada, isto quanto à tentativa de destruição de nosso patrimônio histórico, salvo apenas no papel e na retórica.

Djalma Batista era, então, presidente da Academia Amazonense de Letras. Pediu-me ele que eu me candidatasse à vaga de Aristófano Antony, cujo patrono é Jonas da Silva, inscrevendo-me com cinco obras de minha autoria, além do respectivocurrículo. Recusei-me à proposta, daí porque eu já tinha assinado uma declaração feita ao Norões de que jamais aceitaria pertencer à AAL. Não conformado com isso, Djalma conseguiu cinco assinaturas de acadêmicos, que, assim, apresentaram meu nome como candidato à Cadeira número 18. Devia receber-me meu grande amigo Álvaro Maia, falecido em maio de 1969. Em vez do autor de ¨Buzina dos Paranás¨, recepcionou-me o poeta Elson Farias, e a noite dessa festa indicava a data de 20 de agosto de 1969.”

Jorge Tufic na sua paisagem favorita: entre os livros.
Paraíso, caridade e hospitais na Europa medieval
João Bosco Botelho
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L’Hôtel de Dieu – Séc XIV.

A etimologia de paraíso tem ligação com paradaiza, do persa, que originou pardes, no hebreu, e paradeisos, no grego, significando jardim. Sem dúvida, não um jardim qualquer, mas retratando o lugar pleno de conforto e prazeres.

Cipriano, no século III, destacou-se na primeira concepção cristã de eternidade com bem-aventurança, plena de fartura e felicidades: “Uma terra luxuriante, na qual os campos verdejantes estão cobertos de plantas nutritivas e guardam intactas suas flores perfumadas”. Na mesma linha, São Pedro Damião, no século XI, adicionou o pressuposto de que, no paraíso, não existiria a miséria presente no medievo: “Não vemos mais nem lama, nem lodo, nem contágio. Aqui, o horrível inverno não castiga mais, nem o tórrido verão. A floração contínua de rosas cria uma primavera perpétua”.

Atentos ao protestantismo que recusava as idéias de um paraíso materializado, os teóricos do Concílio de Trento (1545-1563) iniciaram o processo para adicionar obrigações que justificassem o acesso à bem-aventurança após a morte, com destaque à participação laica na graça santificante.

Os cristãos uniram as determinações conciliares à caridade, para garantir as delícias do paraíso, após a morte. Com a aquiescência da Igreja, entenderam que a ajuda prestada aos enfermos desamparados, com certeza, contaria créditos para que fossem esquecidas, no Julgamento Final, as injúrias e crimes cometidos durante a vida, não importando quantos malefícios tivessem causado.

Sem que os teóricos trentinos tivessem especificado como seria a ajuda aos doentes, o senso comum firmou duas alternativas: abrigar os doentes nos castelos ou agrupá-los em instituições administradas pela Igreja. A primeira, presente nas canções de cavalaria, foi discretamente rejeitada pelos senhores feudais, temerosos da contaminação pelas doenças infecciosas, em especial, a lepra e a peste. Então, só para os ricos, a segunda tornou-se instrumento para alcançar o paraíso por meio das generosas contribuições para construir os L’Hôtel de Dieu (Hotel de Deus) e os Xenodochium pauperum, debilium et infirmorum (Hospital dos pobres, dos fracos e dos enfermos) e manter longe os pestilentos.

Como os donativos somaram quantias inimagináveis, afinal, os abastados desejavam as delícias do paraíso depois da morte, tornou-se necessário criar novas ordens religiosas para administrar a fortuna e os novos hospitais. Entre as mais importantes, destacaram-se os Hospitalários de São João, Antoninos e Espírito Santo, que atuaram intensamente em vários reinos europeus, em especial em Portugal, onde os avanços sociais e políticos contra os dogmas eclesiásticos medievais foram muito mais tardios, se comparados aos reinos da França, Itália e Inglaterra.

De modo geral, quanto maior a miséria coletiva, maior é o chamamento à caridade. Nesse sentido, Portugal foi particularmente castigado pela peste negra, pelo menos com duas dezenas de surtos, registrados entre 1188 e 1496.

As epidemias do século XIV, agravadas pelas guerras intestinas da nação portuguesa, mostraram-se tão desesperantes que o enterro dos mortos tornou-se impossível. Os cadáveres acumulavam-se por toda parte, oferecendo aos que sobreviviam a ideia da chegada do fim dos tempos e o cumprimento das previsões apocalípticas.

Impedidos ao acesso de Jerusalém, conquistada pelos muçulmanos, os que resistiram à morte, pela doença ou fome, marcharam em grandes procissões na direção de Compostela, na busca do milagre, no santuário de São Jaime. Muitos peregrinos morriam no caminho ou não conseguiam continuar, impedidos pela fragilidade física. Com o dinheiro da caridade, muitas hospedarias-hospitais foram construídas nos caminhos que levaram a Compostela e utilizadas pelos devotos, seja para recuperar as forças e seguir a procissão ou morrer.

Em Portugal, junto à caridade também permearam outros interesses. Não se deve estranhar que, em muitos casos, estivessem ligados às vantagens financeiras. O argumento ganha suporte no fato de que D. Pedro, em 1420, escreveu ao irmão D. Duarte, sugerindo a intervenção real na administração das hospedarias-hospitais, como alternativa para reabilitar a debilitada economia do reino.

A Igreja e Portugal passaram a disputar acidamente esse filão inesgotável de recursos que a caridade representava. As ordens religiosas devem ter sido mais ágeis, ao ponto de a situação ter ficado insustentável, causando prejuízo à arrecadação real. A reação foi imediata. Por ordem de D. Duarte, publicada nas Ordenações Alfonsinas, de 1446, ocorreu a intervenção nas albergarias-hospitais, instruindo que todos os legados doados às irmandades deveriam ser encaminhados aos tribunais laicos e não mais aos religiosos.

A dissolução compulsória das albergarias-hospitais foi seguida de medidas tomadas por D. João II, para organizar um hospital único, sob o controle da administração real. Somente em 1479, por meio da Bula de Xisto IV (1471-1484), o rei de Portugal recebeu a autorização para construir um hospital único nas principais cidades e sob a administração laica.

Contrariando a expectativa, a unificação das incontáveis instituições de caridade voltadas à assistência médica, idealizada para fugir do controle de Roma, não deu certo. Pouco mais de dez anos depois, a Igreja suplantou o Reino português adaptando o antigo projeto centralizador para criar as Santas Casas, sob a administração dos Hospitalários de São João, dos Antoninos e do Espírito Santo, que se firmaram da Ásia às Américas, inclusive chegando a Manaus, no século XIX, que continuaram receberam doações ainda mais abundantes dos ricos desejosos do paraíso.
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Hospital dos Peregrinos, em Compostela.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Fantasy Art – Galeria

Gryphon's Search.
Boris Vallejo.
drops de pimenta 24


─ Você já vai beber?
─ Só uma dose...
─ Amanhã é dia de trabalho.
─ Ainda é cedo...
─ Tá bom, só não vale pedir chá de boldo às duas da manhã, falou?

(Zemaria Pinto)

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Antologia Meninos ME

Simão Pessoa e Zemaria Pinto estão na Antologia Meninos ME.
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Mulheres Emergentes (o ME) é um jornal poético que publica autores novos junto aos já reconhecidos, circula internacionalmente, idealizado e editado pela poeta Tânia Diniz, desde 1989, em Belo Horizonte, MG.

Entre os inúmeros projetos realizados através dele, está o lançamento em 2007 da Antologia ME 18, com 41 autoras, para comemorar os 18 anos do ME.

Agora, em uma homenagem inédita e de carinho especial, lança a puramente masculina Antologia Meninos ME, homenageando os homens sempre presentes nesta trajetória de 20 anos de arte e poesia ME, e convocou os meninos!

Da editora, dizem os escritores que apresentam a Antologia Meninos ME:

(...) O que a poesia faz emergir em mais uma antologia que brota no chão de Minas? O garimpo, ocupação atávica, contagia a escritora, a editora, Tânia Diniz.
Poesia que emerge de uma “coletânia” e que oscila entre o silêncio, o sonho e a medula (...)
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(Caio Junqueira Maciel)

(...) Não tem jeito, ela faz emergir a poesia a tempo e fora de tempo, façachuva ou faça sol. E agora, ela emerge entre os homens, os "homens emergentes"! (...)
(Affonso Romano de Santa´Anna)
O ser superior


Uma pressa exagerada em mostrar-se sabedor e culto. Ansioso por púlpitos e discursos. Assim caminhava em sua busca de reconhecimento social. Formatando discursos quase como se fosse máquina copiadora reestruturando o verso e o reverso de um mesmo assunto. Sentia-se um ser superior. Mas era apenas produto de uma superação bem urdida. Quando retornava à sua casa e se despia, aí se via como realmente era.

(Marco Adolfs)

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Uma tela na parede
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Juventude abandonada
Tenório Telles

Meu Deus! A loucura e a maldade deitaram raízes no coração do homem e o tornaram indiferente e egoísta. Perdemos o sentido do bem e do justo, da fraternidade e da compaixão. Esquecemos que somos irmãos: que o sofrimento do próximo nos diz respeito, que fazemos parte da grande família humana e que todos merecemos a felicidade, e uma vida digna. O mundo, o grande mundo, é uma dádiva da providência – é a nossa casa, concebida como um jardim, com flores, plantas, bichos, água... passarinhos para nos alegrar. Tudo foi feito para que fôssemos felizes.

Vinicius de Moraes dizia que “é melhor ser alegre que ser triste”! Mas como ser alegre com tanto sofrimento e infortúnio, com a violência devorando tantas vidas. Por falar nisso, lembrei-me de uma experiência recente: senti saudade de um velho amigo e fui ao cemitério visitá-lo. Depois de conversar um pouco com ele, de lhe falar da falta que me faz e recordar tantas coisas boas que vivemos, decidi visitar outros túmulos: gosto de ler os epitáfios, as mensagens dos familiares, de observar o tempo em que viveram e a idade dos habitantes desse mundo chamado saudade.

Surpreendeu-me a quantidade de pessoas mortas na flor da idade: com quinze, dezesseis... até os vinte e dois anos. Inquieto, perguntei a um coveiro sobre a causa da morte de tantos jovens. Informou-me que aquela tragédia era fruto da violência: que a juventude estava sendo morta, vitimada por tiros, esfaqueamentos e acidentes. Disse-me, ainda, que aqueles jovens eram oriundos de famílias pobres e morriam em brigas de galera, assassinados por matadores de aluguel, envolvimento com o narcotráfico ou em confronto com a polícia. Voltei pra casa com uma tristeza muito grande: pensei tanto nesses meninos que não tiveram a chance de viver, amadurecer para o milagre da vida, chegar à maturidade e ser cidadãos.

O pior é que essa situação passa despercebida. Não desperta a comoção das pessoas, tampouco a reação da sociedade. Afinal, quem se preocupa com a destruição dessas vidas? É gente humilde, sem importância social e sem sobrenome. Os poderes públicos não se importam, vivem envolvidos com outras coisas mais significativas, com projetos de grande repercussão social e rentáveis politicamente. Não há tempo a perder com coisas periféricas, com gente sem voz, anônima e desimportante. Essa situação, amigo leitor, não me sai da cabeça. Pergunto-me: como um país pode tolerar tamanha brutalidade e desperdício de vidas?

O que esperar de uma sociedade que mata ou permite que seus jovens sejam mortos? Estamos nos tornando uma nação de velhos e, ainda assim, permitimos que a juventude seja destruída. Dos que escapam, muitos são vitimados pelas drogas, pelo alcoolismo, pela pobreza e falta de oportunidade. As ruas estão cheias de crianças e jovens tentando sobreviver: vendendo balas, frutas, fantasiadas de palhaço e limpando pára-brisas de carros por algum trocado. O gesto desses meninos é um pedido de socorro: querem uma chance de ter um futuro e uma vida decente. Infelizmente esbarram na indiferença social. Os agentes públicos estão cegos para as suas demandas. Os políticos estão envolvidos em discussões mais importantes, preocupados com seus salários, incompatíveis com o trabalho excessivo e a responsabilidade. Para agravar, a sociedade cala. Enquanto isso, nos cemitérios, os coveiros enterram nossos jovens.

domingo, 16 de agosto de 2009

pedra mística 6


no céu noturno, o avião piscando longe, longe. ou será uma estrela nômade?

(Allison Leão)

sábado, 15 de agosto de 2009

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Recital e leitura dramática de textos alusivos a Os Sertões

Euclides da Cunha (1866-1909) estava escrevendo sobre a Amazônia.

No centenário da morte de Euclides da Cunha, ocorrida na manhã de um domingo, em 15 de agosto de 1909, o Coral do INPA e o Grupo Teatral Faz-de-conta, da Escola Municipal Albérico Antunes de Oliveira, realizam uma homenagem ao mestre de Os Sertões.

Trata-se de recital lítero-musical e leitura dramática de textos alusivos à Guerra de Canudos e ao livro Os Sertões. O evento acontecerá sábado, dia 15 de agosto, às 10h, na Livraria Valer (Rua Ramos Ferreira, 1195, Centro).
Quando declina o dia
Inácio Oliveira


A cidade estava entardecida, as luzes em fotoelétrico foram se acendendo devagar, como um dia artificial que surge dentro da noite que cai. Há muitos anos, sim, que não se viam; agora ali, um diante do outro naquela mesa de bar. O silêncio de quando se viram pela primeira vez os paralisava agora, novamente.

Os anos haviam emprestado a eles uma espécie de calma e sabedoria que só mesmo o tempo é capaz de dar. Talvez ele tivesse sofrido. Só mesmo um homem que tivesse sofrido o suficiente teria aquela humildade nos pequenos gestos de arrastar uma cadeira para que ela sentasse, uma mulher que já havia dividido sua cama, sua vida e por pouco não o destruíra.

Em algum momento da vida eles haviam cometido um erro terrível e o resultado era esse, muitos anos depois: um bar à deriva no fim da tarde. Lembravam-se de quando se conheceram. Dezessete anos, ele. Ela, menos. Um dia ele ira olhar para ela e sentir apenas ódio, um tipo de ódio que só se sente mesmo por alguém que já se amou um dia. Mas como saber disso ali naquele preciso momento em que o frágil equilíbrio da vida deles se desatava.

Agora o tempo havia posto um sossego em todas as coisas e enquanto iam pensando essas coisas enormes, o mundo, devagar, ia girando ao redor deles. Eles não queriam mais lembrar de nada, lembranças eram uma espécie de traição, traição do momento presente.

O único motivo pelo qual estavam ali é que estavam se reencontrado no tempo. Quantas voltas foram necessárias que o mundo desse para que este momento fosse possível, e agora o que fazer com ele? O que dizer? O que pensar? Eles diziam coisas que não pensavam, pensavam coisas que não diziam. O que havia então com as palavras? O que elas escondiam? Do que elas os livravam? Ambos ali naquela mesa de bar eram qualquer coisa como uma fotografia ou uma pintura que houvesse captado algo que as palavras jamais poderiam expressar.

Acertar as contas com o passado era uma idéia meio ridícula, pois não havia nada mais irremediável que o passado, antes era uma aceitação maior de tudo. Ele quisera tanto ter sido um homem bom, como agora o era, no entanto quando a experiência vem aí ela quase já não serve mais.

Enquanto ela falava, ele ia catando as palavras no ar, formando frases estranhas que só mais tarde, quando estivesse sozinho, entenderia. Toda possibilidade de comunicação estava esgotada em algumas poucas palavras e pequenos gestos. Percebeu que ela falava de sonhos, essa palavra que não tinha um significado preciso e que as pessoas gostavam tanto de usar, mas eram sonhos desfeitos, estragados pelo tempo como fruta que se tardou em colhê-la. A gente morre quando deixa de sonhar, ela dissera.

Deu vontade de contar para ela que dos muitos lugares por onde andara havia em Amsterdã uma prostituta que ele pagava por se parecer demais com ela; às vezes eles iam para o quarto e ele pedia que ela ficasse quieta na cama enquanto ele do divã olhava para ela, olhava daquela forma que se olha para lembrar depois. Quando isso acontecia, ela cobrava mais caro e ele pagava sem reclamar, mas dizer isso assim para ela parecia uma coisa absurda e sem sentido, a mulher que ela um dia fora havia se perdido em algum momento em que ele estivara ausente.

O tempo e a vida haviam machucado ela de tal forma que de seus cabelos pendia um leve tom de prata, seus lábios eram tristes, não beijáveis, ela nem tivera tempo de envelhecer, seus olhos ainda eram jovens, embora em seu corpo se notasse o lento e imperdoável esvanescer do tempo. Por um momento ele quis esquecer que um dia já havia amado aquela mulher.

Por que voltar agora depois de tanto tempo, ela perguntava.

Todo homem ao menos uma vez na vida devia sair do lugar de onde nasceu só para um dia poder voltar. Era bom voltar para onde se é esperado, talvez, e apesar de tudo, ela ainda o esperasse. O tempo perdoa tudo, cicatriza tudo e a tudo esquece. Mas não era isso, era a doença agora. O médico em Munique sentenciara, três anos no máximo, um tumor inoperável na cabeça. Ele perdia lentamente a visão, tinha convulsões, delírios – e no meio disso tudo ele às vezes chamava o nome dela, mas ninguém o ouvia no apartamento vazio. O que é o sofrimento de um homem quando ninguém pode escutá-lo?

Ele queria voltar para morrer em casa, os parentes todos mortos, amigos não tinha, mas havia ela, talvez ainda o esperasse. Talvez estivesse casada? Esquecido dele? Não, improvável. Durante aqueles anos todos ela fora apenas uma lembrança, mas inundava toda a vida dele.

Nos dias que se seguiram à partida dele ela desejou esquecer aquele homem, no entanto ela sentia sempre uma falta de não saber exatamente o quê e no fundo ela sempre o estivera esperando. A coisa mais triste do mundo é uma mulher esperando seu homem, mesmo que ela não saiba disso. Ela casou, teve filhos, separou-se. Gastou seus melhores momentos esperando por algo que ela não entendia direito.

Refeitos do choque de estarem ali, eles pareciam dar-se as mãos como quem diz atravessaremos juntos essa várzea. Eles tinham a paz dos que muito sofreram, uma paz que talvez não desejassem, mas que enfim se chamava paz.
a bruxa


arremessou a ânfora na vidraça da biblioteca. a noite se espatifou no oco da sala. das páginas do livro deixado aberto na escrivaninha, saltou a bruxa montada na vassoura. antes que ele gritasse, a bruxa o imobilizou completamente. do chapéu pulou o urso de cordas, batendo o tambor. e ao aceno da bruxa o corvo, bicando a folha de papel da máquina de escrever, devorou o poema, que o poeta nunca mais conseguiria escrever.

(Adrino Aragão)

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Uma etnografia do parentesco Waimiri-Atroari

Foi lançado, no início desta noite, na Banca do Largo, ao lado do Teatro Amazonas, no Centro de Manaus, o livro Romance de primos e primas, do antropólogo Marcio Silva.

Uma parceria firmada entre a Editora Valer e a EDUA pretende editar uma série de livros na área de Antropologia. A coleção faz parte do conjunto de ações do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal do Amazonas. Romance de primos e primas é o primeiro livro da série “Etnológicas”. O trabalho foi realizado com base na pesquisa de parentesco entre os Waimiri-Atroari, um dos povos indígenas da Amazônia.

Marcio Silva é linguista e antropólogo, com doutorado em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Especialista em parentesco, atualmente é professor da Universidade de São Paulo (USP), editor da “Revista de Antropologia da USP”, pesquisador da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e professor colaborador da Universidade Autônoma de Barcelona, na Espanha.

Colaborou por duas vezes, em 1988 e 1999, como professor visitante na Universidade Federal do Amazonas (UFAM).

Marcio diz que apesar da obra ser intitulada como romance, não se trata de um texto ficcional, mas de uma etnografia, ou seja, estudo de um determinado grupo social por meio da coleta de dados. “Este livro não deve ser lido como romance, pois o romance dado ao título é de primos e primas e não do autor. Trata-se de um romance interessado nos outros, ilustrativo das relações de parentesco entres os Waimiri- Atroari”, explica.

Durante o ano em que viveu junto à comunidade indígena, no período de março a novembro de 1987, dedicou-se à pesquisa de campo, que resultou na tese sobre a união entre parentes próximos dessa etnia. Ele explica que, para os Waimiri-Atroari, o melhor casamento é aquele entre indivíduos que se classificam como primos cruzados próximos. “Eles afirmam que é sempre melhor casar entre si, ou seja, entre corresidentes, pois assim reiteram os laços de aliança entre eles, mas as pessoas só se casam quando se gostam”, ressalta.

Segundo o autor, esse estudo etnográfico sobre o parentesco dos Waimiri-Atroari é importante porque, apesar de ser uma etnia que tem destaque internacional, até recentemente era completamente desconhecida desse ponto de vista e, por isso, estava à margem das pesquisas sobre esse tema. “O trabalho pretende preencher essa lacuna, contribuindo para a ampliação da etnografia regional e, assim, permitir o diálogo com outras pesquisas desenvolvidas na região, que também se defrontam com sistemas de parentesco semelhante. Quero voltar à comunidade e entregar pessoalmente às lideranças da aldeia um exemplar, como forma de agradecimento a essa sociedade indígena”, destaca Marcio.

Waimiri-Atroari
Os Waimiri-Atroari, povo indígena de língua caribe, são habitantes de uma região localizada ao sul do Estado de Roraima e norte do Amazonas. O idioma falado por todos é denominado kiña-yara e a língua portuguesa é usada apenas em situações específicas do cotidiano, como, por exemplo, quando há contato com não-índios. As atividades de subsistência desenvolvidas na região são a caça, a pesca e a agricultura. Atualmente, os Waimiri-Atroari também utilizam o artesanato como fonte de renda para aquisição de instrumentos industrializados, dos quais já dependem. A venda é feita em Manaus pelo “Programa Waimiri-Atroari”, que comercializa as peças produzidas na aldeia em exposições e outros eventos.
Sífilis: sexo e pecado
João Bosco Botelho
Tratamento da sífilis, século XVII.

Desde os primeiros registros, na escrita cuneiforme, na Mesopotâmia de Hammurabi, existe a associação doença-pecado.

A sífilis tem lugar especial entre as doenças historicamente identificadas como consequência do pecado cometido.

Hoje a sífilis não representa mais nenhum perigo à sobrevivência do homem. O diagnóstico pode ser realizado precocemente em qualquer laboratório médico e o tratamento se efetiva com algumas injeções de penicilina. Porém, nem sempre foi assim. Essa doença já representou um grande estigma, significando a certeza da dolorosa incapacidade física, da loucura seguida da morte.

O médico Jerônimo Frascastoro (1483-1553), nascido em Verona, na Itália, escreveu em 1521, a obra que o imortalizou: Syphilis Sive Morbus Gallicus, trazendo pela primeira vez a compreensão da sífilis atada à transmissão sexual, mas também ligada ao castigo de Deus. O texto começa estabelecendo o caráter endêmico da doença:
Vi vários casos de uma semente má desconhecida
Traziam expostas já de algum tempo
Por toda Europa, parte da Ásia e da Líbia qual tempestade
Irrompeu no Lácio, por causa da triste guerra dos gauleses
e recebeu o nome daquela gente

Nos versos 76-80 e 113-115, do livro I, com genialidade, Fracastroro associou claramente a sífilis com a sexualidade:
Quando nas pastagens ao lar livro longamente: e então
se firmaram os vícios
Oh! tu que esperas a liberdade pelo trabalho
Pouco te opões ao cuidado que a todos domina
Princípios: com esforço de memória guarda estes preceitos
Embora pouco os prazeres do amor: molestem face toda a vida

O personagem central do livro é um pastor devotado que ama tanto o rei a ponto de divinizá-lo. Como castigo sofreu a fúria dos deuses, manifestada sob a forma de uma doença, até então desconhecida, que Fracastoro denominou syphilis.

Por outro lado, a sífilis também era conhecida como mal de Nápoles, mal alemão, mal dos cristãos e mal dos judeus. A múltipla sinonímia evidencia que os grupos sociais, na busca do culpado pelo sofrimento e pela morte antecipada, atribuía ao inimigo a responsabilidade do problema.

O controle da epidemia sifilítica foi iniciado, a partir de 1929, com a penicilina. Quatro séculos passaram-se para que a humanidade compreendesse que a sífilis nunca foi uma doença moral.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

drops de pimenta 23


─ Tem que trocar a lâmpada da sala.
─ Ah, troca aí...
─ Isso é coisa de homem.
─ Tudo bem, então eu não cozinho mais!

(Zemaria Pinto)

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Fabricação Cultural no Amazonas
Célio Cruz*

No mês passado, recebi por e-mail uma carta indignada do compositor Armando de Paula ao Governador do Estado, e, no último domingo, ouvi pelo rádio um comentário no programa Zona Franca, do Joaquim Marinho, que tinham em comum sérias, pertinentes e sinceras críticas à política de cultura do Estado do Amazonas. O primeiro denunciava a ausência de apoio da SEC (Secretaria de Estado da Cultura) à produção cultural local, especialmente na realização em Manaus da 61ª reunião da SBPC; o segundo reclamou que o Estado estava em todas, como produtor de cultura: ópera, jazz, cinema, e parece que vai produzir também um festival de dança, e que isso não seria propriamente trabalho do Estado.

Concordo com ambos, e já manifestei a minha concordância com o Armando através de resposta ao e-mail que ele enviou, e com o Marinho, pessoalmente, durante o lançamento do novo livro do Márcio Souza. Conquanto dispensem apresentação, é bom que se esclareça que tanto o Armando de Paula quanto o Joaquim Marinho têm bagagem de sobra para fazer com propriedade os comentários que fizeram sobre a nossa cultura, em momento mais do que necessário.

Não precisa muito esforço para perceber que a opção da SEC, há mais de doze anos, é pela produção de eventos de alta visibilidade midiática e política, mesmo sem lastro de movimentação cultural local. Explico: temos festival de ópera e um festival de jazz onde não se tem sequer um conservatório de música; temos um festival de cinema onde não há qualquer incentivo à produção de cinema, e por aí vai. Aliás, não há incentivo à produção artística nenhuma. Na verdade, não percebo coerência nem mesmo na própria programação dos espetáculos, nem seu viés econômico, social ou turístico. Temos eventos caríssimos destituídos de sentido realizados ano após ano e temos a principal biblioteca do Estado fechada há pelo menos três anos, por exemplo. O próprio festival de jazz amazonense é o único do mundo produzido e dirigido pelo governo, sem falar que, por mais que eu me esforce e consulte meus amigos que entendem mais de jazz do que eu, não encontro referência dos nomes dos convidados, com exceção, é claro, da nossa gloriosa Leny Andrade. De qualquer forma, não há como perceber qual é a intenção do festival, assim como dos outros eventos produzidos pela SEC.

O Estado do Amazonas se tornou um produtor de cultura. Totalmente desvinculado de sua realidade e com um indisfarçado desprezo pela produção local, pelos criadores e produtores, agentes culturais de um modo geral, sua história, sua memória, suas várias leituras da realidade, sua visão de mundo, o Estado do Amazonas, tal como no ciclo da borracha, resolveu modernizar a administração cultural para alcançar parâmetros americanos e europeus. O Estado se tornou um fabricador cultural.

O termo FABRICAÇÃO CULTURAL foi criado ou explorado pelo Professor Teixeira Coelho, em seu livro Dicionário Crítico de Política Cultural[1], o qual esclarece o seguinte sobre o significado da expressão:

Processo de mediação cultural com ponto de partida, etapas intermediárias, fim e finalidade previstos. Tem por meta, alternativa ou cumulativamente, a transmissão de conhecimentos e técnicas determinadas; a formação de uma opinião cultural específica; a conformação de um modo de percepção ou a produção de uma obra cultural previamente estipulada. Neste processo, os objetivos são predeterminados, cabendo ao agente ou mediador cultural orientar as atividades de seu público na direção estabelecida. Opõe-se, neste sentido, à ação cultural, processo de invenção e construção conjunta, entre mediadores e público, dos fins e meios culturais visados, não raro definidos apenas no decorrer do próprio processo.

O Professor ainda esclarece que o termo faz remissão à sua origem do latim, que significa “engano, artifício, dolo” e caracterizou períodos tenebrosos da humanidade, como o Estado Novo, no Brasil, o nazismo alemão e o fascismo italiano. E é exatamente o que observamos e vivenciamos no Estado do Amazonas na gestão atual da SEC, uma política pronta, arbitrária e individualista de cultura, que sequer deveria merecer este nome. Mas, como disse o Márcio Meira, atual superintendente da FUNAI, não ter política cultural é, em si, uma opção de política cultural.

O Estado deveria, tal como no tempo em que o Joaquim Marinho era Superintendente Cultural do Amazonas, ser um fomentador de cultura, agindo no apoio às manifestações culturais, na pesquisa cultural, na implantação de infra-estrutura para que as manifestações culturais legítimas aconteçam; aí se incluem a instalação e manutenção de teatros, bibliotecas, museus, escolas etc., além da divulgação local, nacional e internacional dessa produção, como também da história, da memória e dos costumes amazonenses, o jeito de ser e ver o mundo, a formação cultural. E não é só isso. O Estado deveria, tal como dispõe a Constituição Federal, franquear o acesso da sociedade às fontes de cultura, fazer com que ela se encontre consigo mesma e se veja e se ame, e, a partir daí, crie, desenvolva e fortaleça a sua própria identidade e autoestima. Isso, definitivamente, o nosso Estado não faz.

O projeto da SEC, por melhor que pareça a alguns, cansou, exauriu-se por completo e se tornou insuportável, a ponto mesmo de comprometer seriamente o nosso futuro como civilização e a sustentabilidade amazônica. É um projeto provinciano e retrógrado que reflete a falta de afinidade e de sensibilidade do Governo do Estado com relação à cultura. Temos reconhecidamente um problema de identidade e o projeto da SEC aprofunda essa crise, que se arrasta desde sempre até os dias atuais.

O recado aqui segue no mesmo sentido dado pelo Armando e pelo Marinho com relação à condução da política cultural do Estado: a força da política da SEC até pode estar correta, mas a direção está totalmente errada, o que vem a ser muito pior do que no tempo em que não havia dinheiro para a cultura. Termino com um poema do poeta Eduardo Alves da Costa, musicado pelo Armando de Paula.

Querem meu verso de nariz pro ar
Equilibrando a esfera
Enquanto alguém bate com a varinha
Para me por no compasso
(...)
Mas eu nascido num tempo de sussurros
Tenho a voz contundente
E por mais que eu me esforce
Não sirvo pra cantar no coro.


________________________________
* O autor é compositor.

[1] Ed. Iluminuras, São Paulo/SP, 2004, p. 175.
Falar é preciso...


Ele vivia falando, falando e falando. Sua verve literária se dissipando como poeira ao vento em palestras infindáveis. “Se pelo menos tivesse tempo de escrever um romance...”, pensou. Mas não, tinha que falar. Falar sempre. Falar pelos cotovelos com frases decoradas e em desespero contido. Os aplausos alimentando sua alma como pipocas. Sua escrita era uma fala eterna. Vaidade da oratória engolindo o próprio rabo.

(Marco Adolfs)

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Homens que fazem a diferença
Tenório Telles

Dignificar a vida é o desafio que cabe a cada ser humano. Essa atitude exige discernimento e coragem. Não é sem razão que poucos homens fazem de suas existências um testemunho do bem, do justo e da nobreza. A maioria opta em ser parte do rebanho e passa pelo mundo sem deixar as impressões de seu percurso. Essa reflexão me fez lembrar do poema de Francisco Otaviano, “Ilusões de vida”, em que expressa com rara beleza e intenso conteúdo de humanidade o sentido de nosso estar-no-mundo: “Quem passou pela vida em branca nuvem / E em plácido repouso adormeceu; / Quem não sentiu o frio da desgraça, / Quem passou pela vida e não sofreu, / Foi espectro de homem – não foi homem, / Só passou pela vida – não viveu”.

Viver é esse confrontar-se com os percalços da caminhada, assumir posições, fazer escolhas, ter coragem de dizer não quando todos dizem sim. É, sobretudo, ter atitude e usar toda energia e vitalidade de que dispomos para não nos perdermos, não nos amesquinharmos e, assim, nos resignarmos diante das injustiças e do reinado do mal. Isso não é tarefa fácil, exige determinação, renúncia e um fortalecimento permanente de nosso ser e de nossas convicções. Essa situação se torna ainda mais dramática num tempo como o que vivemos, em que os valores, a bondade e a justiça são atributos de poucos, que, não raro, são chamados de antiquados, de gente ultrapassada.

A verdade é que tudo tem um preço e na vida somos chamados a fazer escolhas. A todo instante somos colocados diante de situações em que temos de escolher entre o que é justo e o que reprovável, o que engrandece e o que nos diminui, o que ilumina e o que nos empobrece. E o preço que pagamos pelas escolhas e atitudes erradas que tomamos pode ser a nossa ruína, a subtração do que temos de melhor. Em meio à covardia e oportunismo que caracterizam o mundo contemporâneo, alenta-nos saber que muitos seres humanos, pela coragem e pelo exemplo enobrecedor, fizeram e fazem a diferença. São eles que renovam a vida e presentificam a promessa de um tempo novo, construído sob o reinado da justiça, da fraternidade e do bem comum.

Esses homens quando partem o mundo fica diminuído. Mas esse tipo de gente não morre. O galardão que recebem pela história que construíram e exemplo de vida é a unção da memória e a lembrança de sua gente. Isso os distingue daqueles que, movidos pelo egoísmo, preocupam-se apenas com seus interesses e o desejo incontido de acumular. Para eles a vida se resume a ganhar, ter status, posição e poder. Gente assim vive na ilusão, sacrifica o que tem de melhor em função de coisas tão efêmeras. Querem a riqueza, mas não sabem que a maior fortuna a que pode almejar o homem é ter o coração justo e a alma generosa. Como afirmava o filósofo Kant: “Não somos ricos pelo que temos, mas sim pelo que não precisamos”.

Como estrelas que fulguram no firmamento, os homens bons, os justos, as almas iluminadas, especialmente os que lutam pelo bem comum são faróis que iluminam a consciência da civilização e mantém viva a esperança de um tempo novo para a humanidade. Afinal, o que seria a existência sem Sócrates, Confúcio, Cristo, Thomas Morus, Lincoln, Gandhi, Mandela, Darcy Ribeiro?