Amigos do Fingidor

sábado, 31 de março de 2012

quinta-feira, 29 de março de 2012

As mulheres proibidas de Eça de Queirós

Zemaria Pinto
 

Fruto, ele mesmo, de uma união irregular, posteriormente legitimada, Eça de Queirós utiliza o tema “mulheres proibidas” nos seus principais romances, O crime do Padre Amaro, O primo Basílio e Os Maias, para coroá-lo no último: A tragédia da Rua das Flores. Entre tantas proibições impostas pela moral burguesa da segunda metade do século XIX, a questão do incesto é apenas um item a mais na lista das “proibições”, sem as quais, afinal, um bom romance, como uma vida razoavelmente movimentada, não é nada.

AMÉLIA − filha da S. Joaneira, concubina do Cônego Dias, o destino não reservara a Amélia sorte diferente à da mãe: apaixonada pelo Padre Amaro, rompe com o noivo, e mantém um relacionamento muito comum nos estreitos limites da província. Grávida, entretanto, é conduzida ao aborto e à morte prematura. Se Amélia é ingênua e sonhadora, Amaro é sórdido e medíocre: abraçara a carreira religiosa sem nenhuma convicção e suas ações são tidas e havidas como corriqueiras no viciado ambiente clerical português. Eça mostra a face corrompida e hipócrita daquele segmento que tanta influência exercia junto à sociedade de sua época.

LUÍSA − criada rigorosamente dentro dos padrões românticos, rica, ociosa, sonhadora e entediada, Luísa trai o marido com o primo canalha e canastrão, Basílio, que, não por acaso, fizera fortuna no Brasil, no negócio da borracha... Luísa é burra e extremamente frágil. Dominada por Basílio, sofre com o adultério e deixa-se envolver pela criada Juliana, que, sabedora dos fatos, inverte os papéis senhora/criada. O marido acaba descobrindo tudo, e Luísa, como as heroínas românticas que faziam sua cabecinha oca, morre, lentamente, acometida de uma “febre nervosa”. Aqui, Eça escreve um libelo contra o falso moralismo pequeno-burguês, que condena o adultério, mas induz a ele de forma sistemática.   

MARIA EDUARDA − os irmãos Maia, Carlos e Maria Eduarda, protagonizam, de forma inconsciente, como Édipo e Jocasta, um caso de incesto. Grandioso painel da alta burguesia portuguesa do século XIX, Os Maias não termina em tragédia, embora os amantes se separem após o esclarecimento da trama. Eça, num lance ousado de realismo e extremado lirismo, conduz Carlos da Maia, já  conhecedor da identidade de sua amada, ao leito de Maria Eduarda, numa atitude desesperada, mas lúcida, como a reafirmar uma última tentativa de negação à proibição daquele amor proibido.

GENOVEVA − Mas não se pode falar das “mulheres proibidas” de Eça de Queiroz sem citar a marginalizada Genoveva, de A Tragédia da Rua das Flores. Quer dizer, marginalizado é o livro, não a personagem. Publicado 80 anos após a morte de Eça, A Tragédia repete o tema do incesto: Genoveva, inconscientemente, como Jocasta, de novo, torna-se amante de seu próprio filho, Vítor. Ao tomar conhecimento da verdade, ela se mata. Vítor fica sem saber o motivo do suicídio da mulher amada. Obra menor, a crítica foi unânime em abominar esse texto de Eça, onde faltou, sem dúvida nenhuma, o polimento final do gênio.

Os textos de Eça de Queiroz inserem-se na realidade de seu tempo. Eça coloca-se a serviço da República, no combate às viciadas instituições vigentes: a monarquia, a igreja, a família, o ideal burguês. Na famosa carta a Teófilo Braga, apensa ao Primo Basílio, ele afirma com todas as letras: “eu não ataco a família  − ataco a família lisboeta”. Mais adiante, após explicar os elementos que compõem essa família a partir de personagens seus, ele arremata: “uma sociedade sobre estas falsas bases, não está na verdade: atacá-las é um dever.” É um dever.

Obs: a ideia foi do Inácio Oliveira, que à época - 1996/97? - editava o caderno de cultura do Amazonas em tempo. A ele dedico.

Viajando pela História do Amazonas

quarta-feira, 28 de março de 2012

Millôr Fernandes (16/08/1923 - 27/03/2012)

Não dá para definir o Millôr numa categoria: escritor, dramaturgo, chargista, poeta, tradutor, artista plástico e mais uma porrada de coisas. 50 anos antes do Gênesis, do Robert Crumb, ele fez (escreveu, desenhou, pintou) Esta é a verdadeira história do paraíso, um dos primeiros livros que eu li e dos que mais me marcaram. 

terça-feira, 27 de março de 2012

segunda-feira, 26 de março de 2012

A palavra na ficção 2/2

Jorge Tufic



O mau uso dos diálogos tem sido outro pecado de muitos escritores. É o caso de personagens do tipo zé-prequeté falando como literatos, isto é, o oposto do uso excessivo de gíria ou transcrição da fala do joão-ninguém. José de Alencar é criticado por ter posto nos lábios de seus índios o modo de falar dos portugueses. Porém, o romantismo tinha lá suas leis, como a de que os diálogos nunca reproduzissem a fala dos “sem fala”. O sertanejo que falasse como o doutor da cidade, com acatamento e respeito às normas gramaticais.

Há também o vício da repetição exagerada de vocábulos, na mesma frase, no mesmo parágrafo, no mesmo capítulo, no mesmo conto. Os mais comuns são: “que”, “mas”, “estava”, “era”. Vejamos este caso: “João dos Bois ia levantar mais tarde. Antes de levantar...” Contemos os “que” neste trecho: “Mieko achava que devia voltar à lavoura novamente e conversa com o Noriel a pedir que ele não contasse a ninguém o que tinha acontecido.” Do mesmo livro é a frase: “Foi só depois que o Roberto tinha levado a Arume que a Mieko achou que podia escrever.” 

Semelhante ao senão apontado é o uso forçado de figuras de linguagem, o emprego desnecessário dos artigos, o descuido na conjugação dos verbos, os cacófatos. Tudo isso é muito comum em narradores brasileiros do final século XX e depois. Para isto, dizia-se: “Fulano não tem estilo.”  

Passemos aos personagens. Um dos erros mais comuns é o excesso de personagens em contos. A não ser que somente dois ou três deles participem diretamente da ação. A primeira causa disso será o surgimento de personagens desnecessários, sem lugar na ação, supérfluos. Depois, a confusão no enredo. O tamanho da narrativa não comporta muitos personagens. E não será a evolução do gênero que irá mudar isso.  

E para que personagens sem nome? Cabível em contos com muitos personagens. Somente os principais, dois ou três, terão nomes.  

Outro equívoco de alguns narradores: o aparecimento súbito de um personagem secundário, irrelevante, e o seu repentino desaparecimento. Melhor excluí-lo da história.

Vejamos a descrição dos personagens. O narrador não precisa descrever o caráter dos personagens. Se fulano é mau ou bom, não cabe ao narrador qualificá-lo e, sim, ao leitor. Suas ações e suas palavras o pintarão aos olhos do leitor. Também é ocioso descrever o aspecto físico dos personagens, especialmente em conto. No romance realista e naturalista a descrição não podia faltar. Como não se deliciar o leitor com o corcunda de Notre-Dame? Porém, a descrição não se fazia gratuitamente. Sem o aleijão do personagem o romance não existiria. A descrição de defeitos ou características não faz sentido, a menos que o aspecto físico do personagem seja imprescindível à história. Se fulano é cego, manco, perneta, se assim descrevendo o personagem quis o narrador simplesmente “enfeitar” a história, homenagear alguém, seja lá o que for – a descrição então será uma excrescência. 

Agora a questão do narrador. Durante muito tempo prevaleceu em prosa de ficção a onisciência do narrador, fosse personagem ou não. Porém, tudo mudou a partir de James Joyce. O narrador onisciente desapareceu. Os pensamentos dos personagens não podem ser do conhecimento do narrador. “Fulano tencionava matar sicrano.” “Ele se sentiu culpado de alguma coisa.” A interferência excessiva do autor-narrador é um mal maior para a narrativa. Assim como o excesso de observações e explicações. Não deve o narrador dar informações, sobretudo se inúteis à trama. Exemplo: “Na curva do caminho surgiu um cavaleiro: era o Vadico, um velho conhecido que batia muito na mulher.” Tal informação é até sem sentido no conto, vez que Vadico nem sequer volta à cena.  

Mencionar nomes de cidades, logradouros, somente se absolutamente necessário ao enredo. Dizer que fulano mora na Rua São Sebastião ou na Avenida Dom João poderá ser necessário, sim. Se não o for, para que o nome do logradouro? Nunca explicar o óbvio. Como assim: “Em Fortaleza, a bela capital do Ceará, vivia fulano.” Aliás, nunca explicar nada. “Isto aconteceu porque...” Melhor o mistério. Cada leitor fará uma dedução. Nunca opinar. “Aquela mulher era má.” Cabe ao leitor o julgamento dos personagens. O narrador não é juiz, não decreta nada. Sua função é tão-somente narrar. 

Moreira Campos, um dos mestres do conto brasileiro ou um dos melhores discípulos dos grandes mestres, seguia à risca as lições de Tchecov. Em “Breves palavras”, apresentação do livro Dizem que os cães veem coisas, escreveu: “Sou fiel, quanto à síntese, ao conceito de Tchecov: ‘Se a espingarda não vai atirar no conto, convém tirá-la da sala.’” Ainda desse mestre a advertência de que, “se você vai derrubar a casa, apodreça de logo a cumeeira.” 

Em suma: para escrever boa prosa de ficção é preciso além de conhecer todas as técnicas de narrar e muito talento  saber lapidar, transpor, alterar, substituir, riscar, cortar, remendar, costurar palavras, frases, parágrafos inteiros. E não ter medo do cesto de lixo, de ser cruel consigo mesmo. Não ter complacência com o vício, o erro, a mediocridade. Não ter piedade nem de si mesmo nem de personagens.  

domingo, 25 de março de 2012

Manaus, amor e memória LI

Prédio da Beficente Portuguesa.
Vejam que tranquilidade que era a Joaquim Nabuco antes da Uninorte...

sábado, 24 de março de 2012

quinta-feira, 22 de março de 2012

Simão Pessoa e a arte de ser canalha

Zemaria Pinto

 


No meio de tanta bobagem classificável sob o duvidoso título de “literatura de autoajuda”, um rótulo-mala, onde tudo cabe, finalmente temos um livro verdadeiramente útil. Nada a ver com a filosofia pé-de-chinelo do Paulo Coelho ou as besteiras neurolinguísticas do Lair Ribeiro. Nada a ver com anjos, gnomos, e muito menos com a última moda dos salões de beleza, a tal de inteligência emocional. Nada disso. Trata-se do Manual do Canalha Uma Estética Machista Para O Terceiro Milênio, do ecritor amazonense Simão Pessoa, editado pela Topbooks, do Rio de Janeiro, e encontrável nas livrarias sérias da cidade.

O Manual do Canalha se inscreve na mais antiga tradição literária universal, que tem início com o Satiricon, do romano Petrônio, no primeiro século da era cristã, e vai ao Decameron, do italiano Boccaccio, além de Gargântua e Pantagruel, do francês Rabelais, na passagem do medievo à renascença, obras marcantes do ponto de vista literário, mas que deixaram atrás de si, ao longo dos séculos, rastros de ódio, incompreensão e intolerância dos medíocres de todos os tempos, que só entendem a arte como algo distante da fedentina da vida, e não um simples prolongamento desta.

Mas não é nesses autores que Simão Pessoa se baseia para compor o Manual do Canalha. Ele vai mais longe, ao século I antes de Cristo, beber nas fontes sublimes do poeta romano Ovídio e sua Ars Amatoria, a popularíssima Arte de Amar.  Ovídio constrói uma “teoria da sedução”, ensinando ao truculento homem romano, afeito mais às artes da guerra que do jogo amoroso, como aproximar-se do objeto de seu desejo e como prendê-lo com presentes, falsas manifestações de ciúme e algumas palavras amáveis, de vez em quando, que ninguém é de ferro.

Simão Pessoa, o nosso Ovídio caboclo, divide o seu Manual do Canalha em doze capítulos, de leitura deliciosa, bem-humorada e denunciadora do machismo, que tem por principais vias condutoras, segundo Simão, “as vovozinhas cândidas, as mulherzinhas dondocas e as mãezinhas possessivas”.

No capítulo “A Arte Milenar da Paquera”, por exemplo, Simão atualiza o grande Ovídio, ensinando ao machão moderno a “chegar junto” em bares, lanchonetes, discotecas, praias, shoppings, manifestações de protesto e outras ocasiões. Os capítulos “Macetes do Bom Gourmet” e “O Que Elas Querem é Phoder” complementam-se ao dar dicas primorosas sobre o comportamento amoroso. “Como Receber Com Elegância” e “O Convidado Que Todos Querem Convidar” também são complementares entre si, na medida em que dão as dicas de como o machão deve se comportar quando o “embalo” é na sua casa ou quando ele apenas “visita”.

Um capítulo altamente instrutivo é “Doenças Sexualmente Transmissíveis”, um verdadeiro tratado sobre blenorragia, sífilis, herpes, cancros e outras dores de cabeça. Mas é em “Casamento: Você Ainda Vai Ter Um”, que o Manual do Canalha atinge a perfeição. Em trinta e cinco páginas antológicas, Simão Pessoa, do alto de sete experiências bem sucedidas, descreve passo a passo a lenta agonia de um macho imbecil apaixonado, até, muitos anos e muitos filhos depois, a sua gradual recuperação, que, aliás não dura muito tempo, afinal, como diz a canção jobiniana, “fundamental é mesmo o amor: é impossível ser feliz sozinho”. 

OBS: Publicado no Amazonas em tempo, logo após o lançamento da 1a. edição da Topbooks, que já era a 2a..

O menino irmão das águas

terça-feira, 20 de março de 2012

segunda-feira, 19 de março de 2012

A palavra na ficção 1/2

                                                                               Jorge Tufic



Tenho encontrado leitores que me fazem perguntas embaraçosas como esta: “O que devo fazer para aprender a escrever conto, novela, romance?” No mais das vezes, digo-lhes: “Comece lendo os clássicos.” Alguns me responderam: “Mas eu já li quase todos e, mesmo assim, ainda não sei como escrever um conto.” Ora, há dicionários, manuais, tratados que dão noções sobre espaço, ação, incidente, drama, conflito, unidade dramática, história, célula dramática, lugar, tempo, passado anterior ao episódio, tom, personagens, tipos, caricaturas, linguagem, concisão, concentração de efeitos, diálogo, diálogo interior, monólogo interior, discurso direto, narração, descrição, ponto de vista, foco narrativo, primeira pessoa, narrador onisciente, começo, fim. Também o conhecimento de tudo isto parece não ser suficiente para dar ao aprendiz de escritor o cadinho para a realização da obra de arte. E, por falar em cadinho, captei a seguinte lição de Adolfo Casais Monteiro, em Os Pés Fincados na Terra: “A arte não é invenção pura; o artista é como que um cadinho em que se realiza a mistura dos ingredientes que são o pó da experiência.” Muitos sociólogos ditos marxistas insistem em afirmar que toda pessoa é capaz de criar qualquer obra de arte, desde que se lhes dêem condições sociais e culturais para o exercício dessa capacidade. Ora, milhares e milhares de pessoas letradas, bem vividas se dizem poetas porque sabem escrever versos. No entanto, não são poetas ou não conseguem escrever bons poemas. Os gramáticos seriam então os melhores poetas, contistas ou romancistas.  

Muitos desses escritores principiantes estudaram gramática, leram os principais livros – da Antiguidade aos dias de hoje –, se debruçaram sobre manuais, tratados, dicionários de literatura, e, crentes de já saberem tudo e estarem prontos para a criação literária, tentaram escrever contos, novelas, romances. O resultado, porém, tem sido desastroso. Faltou-lhes o quê? Persistência? Nem sempre. Humildade? Talvez. Imaginação? Quem sabe? Talento? Não sei. 

Há quem pense ser mais fácil escrever contos ou poemas curtos que romances. Como se tudo fosse questão de tamanho. Ora, contistas são contistas, poetas são poetas, romancistas são romancistas. Alguns escritores conseguem ser bons como poeta, contista e romancista. Muito contista sonha com um grande romance e frequentemente o ensaia nos contos mais longos. Já o narrador mais afeito à arte de narrar nunca confunde alhos com bugalhos. Confunde-se também conto com crônica, o que é menos grave. Pior é chamar de conto simples anedota, piada, notícia, comentário etc. No livro A Nova Literatura: O Conto, Assis Brasil faz didática distinção entre conto, crônica, prosa poemática e poema em prosa. Crônica é um relato, bastante pessoal, onde o autor nomeia e descreve acontecimentos, criando enredos num tempo histórico passado. O poema em prosa e a prosa poemática são formas confessionais, ausentes de fabulação.

À medida que o homem avança no tempo em sentido contrário à caverna (ou todo movimento é um retorno?) mais se torna difícil expressar-se por conceitos. Assim, a oralidade primitiva se confunde cada vez mais com a escrita dos novos tempos. Isto não quer dizer que o caso, o conto oral tenda a desaparecer. Ora, como não encontrar semelhanças entre o conto rural, que se confunde com a lenda, e o conto urbano de feições realistas? Difícil também delimitar os campos do imaginário e do real. 

A história curta, tradicionalmente conhecida como conto, não só tem servido de objeto de discussões entre narradores e teóricos em busca de definições, como tem dado ensejo a constantes rebatismos, mercê das transformações sofridas pelo gênero. Muitos estudiosos elaboraram vastas enunciações do conto. Arranjar, porém, novos nomes para o gênero parece tarefa sem proveito. Porque a cada conceituação e a cada transformação seria preciso um novo batismo. 

Os manuais, os tratados, os dicionários não tratam de questões menores ou de noções rudimentares da arte de escrever literatura. Pois eu quero aqui dedicar algumas palavras a essas “outras noções” de como escrever “corretamente” prosa de ficção. Ou como não escrever “incorretamente” prosa de ficção. 

Comecemos pelo emprego exagerado de lugares-comuns e gírias. Os livros estão cheios de “nariz aquilino”, “lágrimas de crocodilo” e outros chavões. Se não é possível a metáfora, que se descreva o nariz do personagem com criatividade. Vejamos a gíria na frase: “O gatinho andava ao meu redor.” Ora, daqui a alguns anos quem poderá imaginar que o narrador se referia a um rapazinho e não a um felino? O escritor poderá passar como genial: o “gatinho” seria uma metáfora.

Há escritores que abusam da grafia distorcida de vocábulos, na certeza de estarem sendo fiéis à língua do povo, realistas, e de estarem preservando o idioma português. Ora, por que escrever “home” em vez de “homem”, “bêbo” em vez de “bêbado”, “eu tô com fome”? Neste caso, para ser fiel ao propósito de escrever como fala o zé-povinho, melhor seria: “eu tô cum fomi”. Guimarães Rosa fez malabarismos para não cair nessa esparrela. Escreveu sempre a fala do povo do sertão mineiro, porém com invejável inventividade, sabedoria, consciente do significado de cada sílaba, de cada vocábulo, de casa frase.

(Conclui na próxima segunda-feira)

domingo, 18 de março de 2012

Manaus, amor e memória L

Manhã de sol tropical, possível reunião do Clube da Madrugada.
Da esquerda para a direita: o compositor Arnaldo Rebelo, os escritores Jorge Tufic, Thiago de Mello, Francisco Vasconcelos e Elson Farias, e o artista plástico Moacir Andrade.

sábado, 17 de março de 2012

quinta-feira, 15 de março de 2012

Terra de icamiaba, uma utopia amazônica

Zemaria Pinto



Definitivamente, literatura não é um assunto que apaixone multidões. Mas todo ano, alguns milhares de jovens envolvem-se na polêmica a respeito dos livros indicados para o exame vestibular. A maioria deles, com certeza, jamais sequer abriu um livro. De uma hora para outra, entretanto, para defender uma dezena de questões, eles defrontam-se com a obrigação de ler oito livros, entre romance, conto e poesia, sem ao menos saber distinguir os gêneros.

Tirar a literatura do vestibular seria nivelar por baixo. Entretanto, meus amigos, o buraco é mais embaixo: começa lá no ensino fundamental. Mas esse é outro papo.

Sem conhecer uma nova edição desde 1934, a Universidade do Amazonas tirou Terra de icamiaba, de Abguar Bastos, do inferno do esquecimento, através de uma edição que chega a irritar, tantos os erros de revisão. Cheguei a contar, numa única página, até cinco erros, o que é, para dizer o mínimo, pouco didático. Mas vamos ao livro.

Eu disse romance? Tecnicamente, Terra de icamiaba não chega a ser um romance. É uma narrativa que se utiliza de uma estrutura onde a historia principal, contada de maneira linear, é engordada com narrativas paralelas, que se relacionam, às vezes artificialmente, com as diversas personagens surgidas ao longo da trama. Abguar Bastos usa, nessas narrativas paralelas, temas do folclore amazônico, suas lendas e seus mitos. Algo que o romano Petrônio, por exemplo, fez, há dois mil anos, com o delicioso Satiricon. Pena que Abguar Bastos não tenha o mesmo senso de humor de Petrônio.

Pelo contrário, Terra de icamiaba é uma narrativa de um acontecimento idealizado, a revolução do pobre explorado contra o explorador capitalista, vivido por personagens de um maniqueísmo estereotipado: os maus são maus à exaustão; e os bons são tão bonzinhos que chegam a ser chatos. Nesse conflito, o capitalista malvado, não por acaso, é também estrangeiro, o que dá à trama inevitáveis cores nacionalistas. E aí o modernista Abguar Bastos resvala pelo mais incipiente romantismo.

Bepe, o herói, tem contornos épicos, é forte, culto e justo, mas faltou ao jovem escritor (Abguar Bastos tinha 19 anos quando publicou a primeira edição de Terra de icamiaba, com o título pouco literário de Amazônia que ninguém sabe), faltou ao jovem escritor, eu dizia, fôlego para fazê-lo um herói dentro dos padrões da verdadeira tradição épica: o herói que é conduzido à gloria pelo sofrimento. Para compensar essa falha, logo nos primeiros parágrafos, o autor chama Bepe, ingenuamente, de “gênio do lugar”, para que o leitor entenda logo quem vai ser o bambambã da historia.

O enredo é muito simples: Bepe, filho de um migrante cearense com uma paraense, depois de estudar em um seminário, em Belém, onde recebe formação humanista, retorna ao lago do Badajós, região do Amazonas, onde herdara alguma terra de seus pais. Decepcionado com a vida urbana, não demora muito para descobrir que lá no Badajós o povo é explorado por políticos ladrões e cínicos, representados pelo Coronel Epifânio; e pelo capital estrangeiro, representado pelos regatões e agiotas Calazar, judeu, Amar, marroquino, e Lazaril, holandês; finalmente, descobre que ali, no Badajós, a justiça é comprada a peso de ouro, quando um juiz toma-lhe as terras, exploradas há décadas por seu pai, para entregá-las ao bandido Lazaril.

Revoltado, Bepe reúne homens de sua confiança e corta todas as amarras com a civilização estabelecida, seguindo à procura da terra onde “não há tribunais, nem repartições públicas”, e onde “não se vende nada para ninguém; dá-se, com direito a uma oferta recíproca”. Em busca da terra prometida, o grupo dá uma mãozinha à natureza, para que ela se vingue dos agiotas, numa plástica e sangrenta tempestade de ouriços.

As icamiabas do título são as lendárias guerreiras Amazonas, que habitavam as margens do Nhamundá, e que estão na origem mítica de nossa história. Ao conduzir sua gente àquele sítio, Bepe como que simboliza a reinvenção da Amazônia, refundando-a como a cidade Manoa, idealizada sob o signo libertário. Hoje, isso parece bobagem, mas há 70 anos, quando o monstro nazista tomava proporções imensuráveis, e o sonho socialista ainda parecia possível, era uma bela utopia. 

Apesar de todos os seus defeitos, Terra de icamiaba é um livro de leitura fácil e prazerosa. A linguagem, que às vezes apela a um filosofismo vazio, é quase sempre fluida e muitas vezes poética, lembrando o Raul Bopp de Cobra Norato, o grande poema amazônico, contemporâneo de Bastos: 

– quando arco-íris bebe água no Badajós, as flores se miram no ventre da aparição;

– empoleirado nos sopros, um murucututu debulha presságios;

– a madrugada dilacera jasmins e flores de laranja;  

Terra de icamiaba é uma alegoria de fundação. Não de uma nação, como é o caso de Iracema, de José de Alencar, mas de uma nova sociedade, fundada em pressupostos libertários utópicos. Seu esquecimento talvez se dê em função desse absurdo distanciamento da realidade de um mundo tão mesquinho, tão violento, tão injusto. Tão distante do ideal da Terra de icamiaba. 

Obs: publicado há uns 15 anos, no Amazonas em tempo.

Lançamentos da EDUA

terça-feira, 13 de março de 2012

segunda-feira, 12 de março de 2012

A suposta crise da poesia

Jorge Tufic



Em sessenta anos de Modernismo, divididos entre quatro gerações classificadas de acordo com Ortega Y Gasset, para quem “uma geração é um período ou zona de datas abrangendo cerca de quinze anos, que se distribuem sete anos antes e sete depois de um ano central assinalado como época determinante e característica”, a poesia brasileira teve altos e baixos, chegou a encalhar na “experiência” de 45, mas obteve um alento novo através do Concretismo, que lhe propunha uma linguagem não discursiva, verbi-voco-visual (palavra x som x figura), utilizando o ideograma como forma ideal e muitas vezes caindo no poema figurativo. Veio depois do Neo, a praxis, o poema manipulado de Roberto Pontual, a poesia de muro original do Amazonas (fase teórica), o sincretismo pernambucano – e o poema/processo, este último com o objetivo de “dissociar a Poesia (estrutura) do Poema (processo), separando, definitivamente, o que é língua de linguagem, dentro da literatura”. Nesse intervalo, sobressaem as manifestações isoladas que pretendem conciliar a função estética da poesia com a mensagem social, a falta de recursos materiais com a publicação alternativa, a poesia marginal etc. etc. Em “Canto Melhor”, Ed Paz e Terra, Manoel Sarmento Barata orienta sua crítica neste mesmo sentido.

Verso, palavra, ausência de verso, arte gráfica, processo. Em comunicação apresentada ao I Seminário de Literatura das Américas, Domingos Carvalho da Silva aborda o problema da palavra, o verso e a suposta crise da poesia, recolocando a poesia como verso e o verso na dependência de seus componentes métricos defendidos por Aristóteles, em sua “Arte Retórica e Arte Poética”. No estudo da palavra, o Autor se desdobra amplamente em torno do significado polivalente de signo ou de metáfora que lhe assegura o uso multívoco da linguagem conotativa, isto é, poética, fenômeno que ocorre espontaneamente, no ato de criação do poema, e não de propósito, como quer Umberto Eco, transferindo, assim, para o campo denotativo da razão o ato semiconsciente da elaboração poética. Pondo em relevo o envelhecimento e a morte das palavras, de que se nutrem e renascem outras, ele chega ao Concretismo e à opção pelo retrato daqueles que, temerosos da exaustão da palavra falada e da sintaxe da língua viva, tentaram substituí-las pelos signos gráficos, então considerados elementos concretos independentes do próprio significado e implantados no espaço branco do papel, manifestação, segundo DCS, não de poesia, mas da arte gráfica.

Quanto ao verso, defende-o como sendo a própria estrutura da poesia, como a pele do corpo, valendo ressaltar a diferença que estabelece entre prosa e poesia, entre verso e a linguagem discursiva, entre a linguagem conotativa e a linguagem denotativa, coloquial ou científica. Diz: “O verso – de medida regular ou não – é a base rítmica da estrutura do poema. Ocorre porém que nem todos os que usam o chamado verso livre são verdadeiros poetas, isto é, nem todos têm o instinto do ritmo da linguagem poética: na maioria dos casos são simples prosadores que invadem a área da poesia, instaurando nesta o ritmo da prosa, que é apenas respiratório e gramatical.”

Crise da poesia?

Colocada pelo conferencista como suposta, já que, citando Claudel, a poesia está em tudo, salvo nos maus poetas, logo se depreende que essa “crise” resulta de vários fatores externos à obra de arte, e como tal influenciadores em seu constante processo de renovação, de equilíbrio prioritário no desequilíbrio dos acontecimentos que lhe temperam a couraça para novos embates travados com o tempo. A clássica procura de adequação entre fundo e forma, persistente na elaboração de uma linguagem poética capaz de sentir o mundo como presença do homem, inscreve-se também entre os sintomas de crise, numa época tumultuosa em que “a poesia ficou impressa no livro, que continua a entrar discretamente pela porta da frente de nossas casas, ao passo que a imagem de televisão atravessa as próprias paredes”.

Essa mesma crise da poesia, compreendida também como desgaste de sua “popularidade”, de sua cobertura crítica pelos meios de comunicação e de seu acesso ao leitor, foi posteriormente ressaltada pelo poeta Fernando Mendes Viana, em tom de súplica e socorro, no artigo intitulado “SOS para salvar a poesia” (Suplemento Literário de Minas Gerais, de 05.12.70) e objeto de comentário assinado por nós (em 14.13.71). Fazíamos, ali, uma profissão de fé nos princípios eternos que acionam o carro de Apolo, nessa corrida milionária com as ogivas espaciais. E dizíamos que, apesar dos contrários ou por isso mesmo, a poesia é concebida nas origens, ou seja, que por impulso de mágicas ela devolve ao instrumento receptivo a limpidez objetiva de quem penetra numa cortina de chuva. As palavras subsequentes são frutos dessa travessia incolor, transparente, e adquirem a extensão de um fogo que se grava nas árvores, e o ar das cinzas revoltas é o mesmo que brilha nas flores de maio. Os acontecimentos, as fábulas, o motejo, os crimes, as guerras, os encontros, as ruas, as pontes, os rios, as máquinas, o amor e a pedra, latejam no pólen do verso. Do verso verso ou da palavra verso, poema, feito para conter o sonho dos milênios. Não, não pode existir morte possível da poesia! Ela se nutre das partes mortas de todos os seus arredores, transfere-se de vaso, renasce, permanece. Daí o seu poder de antecipação na descoberta dos velos misteriosos, e os atributos de vidente que se confere ao poeta. Os temas, por mais vulgares, se diluem e perenizam nos símbolos poéticos. Desse modo, a suposta crise da poesia decorre de um mal-entendido, a partir do momento em que os domínios do verso-pelo-verso receberam o impacto de novas estruturas, o sangue novo das pesquisas novas, o diálogo aberto com os outros campos do conhecimento,

Em suma, defendida como verso, representada como ideograma, processada como gesto de fazer algo equivalente a figuras ou construções geométricas, a poesia é condição primordial de existência decorrida na tranquilidade que sobrevive ao caos para o cosmo, do eu particular para o eu cósmico, do informe para o sublime, do sublime para o mágico. Quer seja palavra, verso ou meras representações estruturais, manipuladas ou “escritas”. Pois, em noventa anos de Modernismo, uma coisa é certa: continuamos tão perto das primitivas inscrições rupestres, quanto o homem do Universo.

domingo, 11 de março de 2012

Manaus, amor e memória XLIX

Atentem para as legendas laterais. À direita, "botequim de 1a. ordem"; à esquerda, "jogos diversos".
Sutileza, teu nome é Grande Café Central.

sábado, 10 de março de 2012

Fantasy Art – Galeria

After Midnight.
Todd F. Jerde.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Frontões, um marco de passagem

Zemaria Pinto



No quase-vácuo que se forma na literatura amazonense da primeira metade deste século, três poetas se destacam do marasmo geral, trazendo consigo a marca da migração que caracterizara a economia destroçada do ciclo da borracha: o maranhense Maranhão Sobrinho (1879-1915), o piauiense Jonas da Silva (1880-1947) e o cearense Hemetério Cabrinha (1892-1959). Os três escolheram viver, produzir e morrer em Manaus. Os três deixaram marcas profundas numa poesia que só viria encontrar sua verdadeira identidade a partir da década de 50, com a movimentação instituída pelo Clube da Madrugada, que sintonizaria a província ao que de melhor se produzia no resto do país.

A EDUA, Editora da Universidade do Amazonas, marca mais um gol de placa ao dar a lume a segunda edição de Frontões, o último livro de Hemetério Cabrinha, publicado em 1958. Frontões é um marco de passagem na poesia amazonense, e não por acaso Cabrinha dedica-o “aos ilustres membros do Clube da Madrugada, na figura intelectualmente destacada de Farias de Carvalho.” O tempo confirmaria na obra do então jovem poeta homenageado (Pássaro de Cinza e Cartilha do Bem Amar com Lições do Bem Sofrer) uma afinidade, um quase parentesco inegável com Cabrinha. 

Carpinteiro de ofício, na poesia Cabrinha vai mais além, construindo “frontões que o coração entre sonhos embuça”, como ele escreve em “Proêmio”, que abre o volume, fazendo um paralelo entre sua poesia e os adornos arquitetônicos que dão título ao livro: “Se meus versos não têm o esplendor de obra-prima, / A pureza da forma e a nobreza da rima... / Se lhes falta fulgor; / Há neles, entretanto, agudos sentimentos / Suavizando o clamor dos grandes sofrimentos / Urdidos pela dor.”

Parnasiano na forma (“Oiro na ganga bruta em rústica bateia”), a profissão de fé é de um nômade pós-romântico, dilacerado pela incompreensão e injustiça humanas, como podemos observar nestes fragmentos de “Resignação”: “O mundo me foi sempre avesso, duro, escasso... / Existem para mim só aflições extremas... / Em cada anseio meu há uma chaga aberta...” Não seria nenhuma ousadia afirmar que, além de Olavo Bilac − a quem parodia com reverência, melhor dizendo, intertextualiza, em “Tortura da Glória” e “Lendo Bilac” −, o português Antero de Quental (“Só males são reais. Só dor existe.”) frequentava também a cabeceira de Hemetério Cabrinha. Vem de Quental, talvez, seu gosto pelos poemas de ideias, reflexões pessoais que transgridem o conceito de que a imagem é o fundamento da poesia. Mas se a Quental atormentava e seduzia a dúvida transcendente, Cabrinha sofria com a crença exacerbada, pois boa parte dos poemas de Frontões deixa clara sua fé inabalável na doutrina espírita, como podemos perceber em “Convicção”: “Tenho a certeza de já ter vivido / Através de outros mundos, outras eras.” E apesar de acreditar que “Entretanto, através do próprio lodo / Todo o universo se transforma, todo, / E a própria Eternidade se renova”, sua vida é um calvário só, onde o sofrimento não tem nome, não é detalhado, mas existe acima de tudo, como em “Angústia”: “Quanto tenho sofrido ultimamente! / Como este mundo me tem sido avesso!”

Outro autor da predileção de Cabrinha é Augusto dos Anjos. Ainda que distante de alcançar o estro do poeta paraibano, Cabrinha “apropria-se” de seu vocabulário antilírico em versos inteiros, como em “Monera, larva, lama, lesma, verme”, “Num óvulo misérrimo e abjeto”, “Da podridão dos úteros inchados / dos sangrentos refolhos das placentas” ou em expressões como “embriogenia das moneras” ou “expansão genésica dos sexos”.

Esta aproximação superficial com Augusto dos Anjos, bem como a possível proximidade de Antero de Quental, deve levar-nos a refletir sobre o caráter contraditório da “dor” em Cabrinha. É claro que sua poesia não melhora nem piora em função de sua “sinceridade”, uma herança romântica que não acabou com o Romantismo, e, muito pelo contrário, é ainda hoje uma prática comum, a despeito do caráter intrinsecamente mercantilista da arte. Em que consiste, afinal, essa contradição em Cabrinha?

O poema “Por Enquanto, Não” é exemplar: “Disseram que eu morrera. Ainda é tão cedo / Para deixar em paz o velho mundo, / Onde, por entre espinhos me enveredo, / Como um simples rafeiro vagabundo. // Bem quisera eu fugir deste degredo! / Deste terrível lupanar imundo, / Onde, hoje, a vida é simplesmente o enredo / De um romance de fel e dor fecundo. // Para que viver mais, quem sobre os ombros, / A cruz da vida tem pesado tanto, / E trá-la a tropeçar por entre escombros? // Disseram que eu morrera. No entretanto, / Como um fantasma vil causando assombros / Ainda arrasto o cadáver por enquanto.” Ora, em que acreditar, no ceticismo quase cínico deste poema ou em toda a derramada oratória espírita? Mais, ainda, no poema “Meu Aniversário”, o poeta lamenta “Mais um ano de dor, mais uma folha lida / No romance real e vil de minha vida.” A isso se contrapõe uma lírica amorosa romântica que ora se realiza com toques eróticos (“Idílio” e “Cuidado”, por exemplo) ora denota frustração, mas sem nenhuma tendência suicida, como no belo “Encontro”, que narra um des/encontro na idade madura, e que, pelo seu equilíbrio, merece ser destacado entre composições que beiram a pieguice.

Parnasiano, místico, romântico, epígono de Bilac, Quental e Augusto dos Anjos, embora isso tudo seja contraditório, Frontões mostra-nos um autor que tem pressa de viver e de mostrar sua produção. Assim, completa sua obra com poemas de cunho social-romântico (“Preto-Velho” e “Itatiaia”), poemas de inspiração parnaso-regionalista (“O Amazonas”, “Canção do Amazônida”, “Boiúna” e “A Pororoca”) e os longos poemas narrativos, já publicados anteriormente, “Satan”, “Caim” e “Cristo do Corcovado”. Como curiosidade, a duas fábulas interessantes, “A Aranha” e “O Grilo”, vêm juntar-se ao que hoje classificaríamos como poesia de autoajuda: “Canção da Dor”, “A Caridade”, “Conselho”, “Filosofando” e o execrável “Parêmias”. Bobagens, filosofices. 

Seria inútil, até porque não é isso o que se espera da poesia, tentar entender a personalidade de Cabrinha a partir dos poemas de Frontões. Mas sua autocomiseração alia-se a uma consciente marginalização, uma autoexclusão do mundo que o cerca, desde a dedicatória, no fundo bem-humorada: “Aos que me repudiam; aos que me odeiam; aos meus inimigos, esses que me ensinaram a perdoar e esquecer ofensas: esta página incolor.” Não é muito provável que Cabrinha conhecesse aquele samba de Noel, gravado em 1933 por Mário Reis: “O mundo me condena / E ninguém tem pena / Falando sempre mal do meu nome (...)” A aura marginal do poeta de Vila Isabel decorria do enfrentamento ao seu meio social. E quanto a Cabrinha, qual a motivação de sua arenga com o mundo? Não seria isso apenas um sintoma de seu romantismo? 

E aqui me refiro ao romantismo enquanto vertigem, e a esta enquanto sensação de ter o mundo girando a nossa volta, ou, inversamente, de que giramos descontroladamente no centro do mundo. A vertigem é a recusa às regras, aos modelos, às normas − é o grito pela liberdade de criação. A vertigem não comporta a arte vestida de linho branco sob a brisa de uma tarde azul de domingo. Não, a vertigem é o caos, a anarquia, a aventura, o desequilíbrio, a lama, a podridão, a escuridão. A vertigem é o não.

Mago, profeta, predestinado, o gênio romântico sob a vertigem tem êxtases místicos, que lhe descortinam o suprarreal e o infinito. A beleza torna-se relativa e seus ingredientes passam a ser antagônicos. As inquietações populares, ele as busca enquanto elas ainda adormecem no seio do povo. O romântico é um revolucionário. Sua pátria é o mundo. E ele parte em busca de outros mundos, procurando a essência, o primitivo, o primordial.

Mas esses dois parágrafos aí em cima coadunam-se mais com o gênio romântico de um Antonin Artaud ou de um Glauber Rocha do que com o nosso estimado Hemetério Cabrinha, que não conseguiu romper a carapaça parnasiana, e, longe de ser moderno, não foi autenticamente romântico. Para usar uma imagem arquitetônica, tão ao seu gosto, Cabrinha foi ponte, foi passagem. Sua importância histórica é bem maior que a discussão sobre a in/sinceridade de seu autodilaceramento. Seus bons poemas ficarão como candeias na noite tenebrosa de uma literatura que procura se afirmar para além do convencional, além do óbvio. Cabrinha retornou ao nosso convívio, e é ele mesmo. E isso é muito bom.

(Publicado no segundo semestre de 1997, no Amazonas em tempo.)

Deus, Amor, Morte




A poesia de Hilda Hilst é emblemática da intensidade e do caráter indomável desse sentir que – mais do que humano – é afirmativo de nossa humanidade. Paixão e amor, associados a um profundo sentido de eternidade, metáfora do diálogo tensivo que intenta com Deus, são margens fundamentais de seu discurso poético.

O trabalho de Gabriel Albuquerque é um tributo à obra singular de Hilda Hilst, que nem sempre recebeu da crítica a atenção merecida, sendo objeto de culto de um círculo limitado de leitores e estudiosos de sua produção poética, como Sérgio Buarque de Holanda, Sérgio Milliet e Anatol Rosenfeld – que, como ressalta Gabriel, foram “os primeiros a se deterem sobre aquela poesia, reconhecendo-lhe medidas e desmedidas, atentando para as atitudes líricas e para o efeito que tais atitudes causavam como realização poética”.

O título do livro – Deus, Amor, Morte e as atitudes líricas na poesia de Hilda Hilst – tem caráter enunciativo, em que seu autor sintetiza os fundamentos temático-existenciais e estéticos da lírica hilstiana. Gabriel Albuquerque empreende uma análise minuciosa do corpus poético da escritora, identificando os elementos seminais que enformam-lhe o discurso poético: “Verifiquei, ao longo da leitura dos livros de poesia de Hilda Hilst uma predominância de certo idealismo de base teológica. É bem verdade que encontramos livros da poeta dedicados à morte, ao amor e a Deus indistintamente...” É significativo o fato da autora entender a morte de forma particular, não como cessação de tudo ou condenação irremediável, mas como face inevitável da vida e experiência reveladora de sentidos e possibilidades de diálogo com o inefável e o ser das coisas.

Hilda Hilst viveu de forma intensa e incondicional o milagre de ser-no-mundo. Experimentou os dilemas, angústias e a volúpia de existir num tempo e numa sociedade que abdicou do bem e do belo, da paixão de ser e da alegria do encontro. O fundamental é que não passou sem descobrir o selvagem coração da vida, ainda que tenha sofrido e purgado de forma profunda suas dores e a solidão. Mas, como dizia o filósofo Søren Kierkegaard: “Ame profunda e apaixonadamente. Você pode sair ferido, mas essa é a única maneira de viver a vida completamente.” Hilda viveu sem medo e, por isso, desvelou a face do mundo, a face de Deus. O testemunho disso é a sua poesia, evocada neste livro delicado e sincero do professor Gabriel Albuquerque.

Sobre o autor

Gabriel Arcanjo Santos de Albuquerque é mestre pela Universidade de São Paulo, com a dissertação Tradição e memória: a poesia de Luiz Bacellar em três movimentos, e doutorou-se pela mesma instituição, em 2002, com a tese Deus, Amor, Morte e as atitudes líricas na poesia de Hilda Hilst. Atua em três áreas distintas das humanidades: literatura brasileira contemporânea, narrativas orais e políticas públicas para promoção da ciência. É professor da Universidade Federal do Amazonas, onde leciona literatura brasileira e trabalha com tecnologias para a educação. É pesquisador do CNPq com o projeto Brasil, Brasis – insulamento e produção literária no Amazonas. Tem poemas publicados pela revista Teresa – USP e artigos, pelas revistas Literatura Brasileira Contemporânea – UnB e Estudos Portugueses e Africanos – UNICAMP. É organizador do primeiro Catálogo de Programas de Pós-Graduação – FAPEAM, instituição da qual foi pesquisador entre 2007 e 2008. Foi consultor da CAPES para projetos na área de formação e capacitação para uso das TICs e da FUNARTE, para a bolsa FUNARTE de estimulo à produção literária em 2007. No momento, orienta trabalhos sobre literatura brasileira contemporânea, narrativas orais e políticas públicas para uso das TICs.

Evento: lançamento do livro Deus, Amor, Morte e as atitudes líricas na poesia de Hilda Hilst
Autor: Gabriel Albuquerque
Editora: Valer
Páginas: 154
Valor: R$ 30
Data: 10 de março de 2012 (sábado)
Horário: 10h
Local: Livraria Valer (Rua Ramos Ferreira, 1195 – Centro)
Contatos: Valer: (92) 3635-1245 / autor: 8803-0641; 3305 4028; gasalbuq@gmail.com


(Release da editora)

quarta-feira, 7 de março de 2012

Fantasy Art – Galeria

An audience of one.
Tony Kew.

terça-feira, 6 de março de 2012

Quarta Literária: obras que mudaram o Amazonas



A Quarta Literária é um encontro mensal entre escritores, professores, estudantes e leitores, em que são discutidos temas ligados à literatura, às artes e a cultura em geral, firmando-se como um espaço para geração de novos conhecimentos e diálogo intelectual. Após as discussões há sorteio de livros e é servido o Chá Poético.

Promovida há treze anos pela Livraria e Editora Valer a Quarta Literária de 2012 será especialmente dedicada aos clássicos da literatura regional com o ciclo de palestras intitulado Série Clássicos Regionais: Obras que mudaram o Amazonas. Serão dez palestras ministradas ao longo do ano sempre na primeira quarta-feira de cada mês sobre obras como A Selva, de Ferreira de Castro, Inferno Verde, de Alberto Rangel, Galvez, imperador do Acre, de Márcio Souza, Beiradão, de Álvaro Maia, entre outros. As palestras terão início às 18h30 e a entrada é franca.

Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer. São livros que, quanto mais pensamos conhecer por ouvir dizer, quando são lidos de fato mais se revelam novos, inesperados, inéditos. Dizem-se clássicos aqueles livros que constituem uma riqueza para quem os tenha lido, mas constituem uma riqueza não menor para quem se reserva a sorte de lê-los pela primeira vez nas melhores condições para apreciá-los. Toda primeira leitura de um clássico é na realidade uma releitura, bem como toda releitura de um clássico é uma leitura de descoberta como a primeira.

O primeiro encontro de 2012 acontecerá no dia 07 de março, às 18h30, no Espaço Cultural da Livraria Valer (Av. Ramos Ferreira, 1195, Centro), com a palestra sobre a obra Muraida, de Henrique João Wilkens, ministrada pelo professor Marcos Frederico Krüger

Sobre a obra Muraida

Muraida, poema épico que aborda a cristianização dos índios muras, de autoria de Henrique João Wilkens, militar português que serviu na Amazônia. Escrito em 1785, com o título Muhuraida, é o primeiro poema épico escrito no Amazonas. Como um bom português, Wilkens escreve o poema em oitava rima camoniana, a narrativa visa informar como ocorreu o processo de rendição, conversão e reconciliação da feroz nação Mura a João Pereira Caldas, Governador e Capitão General, que tinha sido do Pará e então nomeado para o Governo Geral das Capitanias de Mato Grosso e Cuiabá, encarregado da efetiva execução do tratado preliminar de paz e limites entre as Coroas de Portugal e Espanha; nesta ocasião, Wilkens se encontrava na Vila de Ega, no Rio Solimões.

Sobre o palestrante Marcos Frederico Krüger

Possui mestrado em Letras (Letras Vernáculas) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1982) e doutorado em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (1997). Publicou, dentre outros, o livro Amazônia: mito e literatura (2003); Poesia e Poetas do Amazonas (2006); Antologia do Conto do Amazonas (2009), Poesia e poetas do Parnasianismo, Simbolismo, Pré-Modernismo (2010), estes três últimos em parceria com o professor Tenório Telles. Recebeu em 2006 o Prêmio da Prefeitura Municipal de Manaus (categoria ensaio de literatura) com o livro A sensibilidade dos Punhais, que estuda a presença do mar na poesia do Amazonas. Já integrou, junto com outros professores e críticos literários, o júri do Prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira.
(Release)

segunda-feira, 5 de março de 2012

Os passarinhos e outros bichos



Os bichos fazem parte de nossas vidas. O convívio com os animais despertam, em nosso ser, sentimentos de afeto, cuidado e amizade. O escritor Tenório Telles aborda, nas crônicas que compõem seu livro esse tema – sua relação com alguns desses seres do mundo animal. Retrata-os de forma delicada e com profunda humanidade. O autor declara seu amor pelos cachorros, pelos passarinhos (encanta-se por um bem-te-vi atrevido) e até por uma formiguinha que o visita em seu trabalho. Com ilustrações de Humberto Rodrigues, Os passarinhos e outros bichos é uma obra escrita para crianças e jovens como forma de despertar em seus corações o sentimento de respeito pela bicharada. A leitura desta obra é um valioso exercício de afetividade.

A infância de Tenório foi habitada por bichos, plantas e seres imaginários. Foi na beira do rio Solimões, na casa de seu avô Francisco, que despertou para o milagre da vida, aprendeu a amar a natureza: ajudava a cuidar dos bezerros e das galinhas que ciscavam no quintal. Amava as plantas de sua avó – seus canteiros sempre viçosos... As flores coloriam de alegria seu olhar de menino. Mas o que lhe fascinava mesmo eram as histórias encantadas contadas pelos mais velhos: morria de medo do boto, da cobra-grande e do mapinguari. Quando sonhava com esses seres, suas noites eram de tormento. Essas vivências o ajudaram a ver a vida com outros olhos – com mais humanidade e respeito pelos filhos da mãe natureza.

Seu livro é fruto desse querer bem pelos animais, pelas árvores e flores e pelos viventes que habitam o mundo da imaginação. Ele é dedicado às crianças da Creche Escola Bebê Bombom, que pediram ao autor para escrever textos para “gente pequena” também.


(Release da editora)

Dicas! Dicas!

Jorge Tufic


Os fatos acontecidos até àquele momento, através de concentradas audiências com algumas personagens tontas de superstição e romantismo, se enquanto duravam lhe mantinham o sistema nervoso como um lago de peixes marulhantes, passadas carruagens e martírios, seu estado de reflexão voltara a mergulhar no vazio. Como tudo que nasce, cresce e morre. A camada gelatinosa da memória é um tecido de encantos. Portanto, caleidoscópico. À medida que se desmonta com as sutilezas da observação desinteressada nos fundamentos cromáticos, mais suas lâminas reduzem as formas do movimento visual, para que se chegue ao movimento real.
O mesmo resulta com as aparências mais simples. Mas será necessário que se parta da simplicidade que é um título como este – UMA ALMA SEM PAZ, impresso no centro de uma página em branco –, para os múltiplos do cosmo verbal metafísico que elegera seus núcleos de expressão nestas quatro unidades semânticas, sem que esta circunstância, no entanto, impusesse qualquer limite ao tempo de vigência ao objeto “sem paz”, ou, como no caso do romancista de Loudun, às 336 páginas de possessora narrativa.

Os fatos que geram a linguagem podem, em contrapartida, gerar novos incidentes por meio de uma linguagem capaz de transformar novos fatos em nova linguagem. Seccionando-lhes a corrida em busca do lógico, torna-se possível desviar o Cavaleiro de Numiers de sua rota, ao servir de fantoche à especulação literária dos psicógrafos, ou desenvolver espaço no sentido de aproveitar as vítimas do arquipélago de Gulag, como elementos de guerrilha contra as ditaduras capitalistas. Não diria o mesmo das mil e uma noites nem das sábias histórias dos derviches, já que a fantasia e a procura da verdade não fazem tão mal quanto transformar a verdade em fantasia.
Traçadas estas linhas gerais, espontaneamente alguns livros desceram das estantes e pousaram no meio da escrivaninha, imitando o deslocamento de objetos por levitação indireta. Ali estavam os três marcos subjetivos que urdiram os primeiros calendários: os egípcios com o reinado de Yokmose, os gregos com as Olimpíadas e os romanos antigos com a fundação de Roma. Em seguida à queda de Roma, inicia-se a Idade Média. Não é mais a leveza de um carro de guerra dos hicsos que ilustra esse longo período de trevas. Em seu lugar é o guerreiro Carlovíngio, que assume a história. A dialética e a astronomia estavam ainda longe de um código de posturas que resguardasse a população dos surtos de epidemia. E, finalmente, a história moderna com os tempos de glória da revolução francesa. Os três quadros dominam, por instantes, a paisagem dos edifícios na moldura da tarde provinciana, quando padre Lactance grita aos ouvidos de Urbano Grandier: “Dicas! Dicas!” Aldous Haxley interfere para esclarecer ao leitor que “o encanto da história e sua lição enigmática consistem em que, de uma época a outra, nada muda, no entanto, tudo é completamente diferente.”

Como tudo é diferente! – sugere Tinoco. As velhas torres esquecidas já deixaram de abrigar andorinhas. Nem por isso deixa-se de vê-las como abrigo de alguma coisa, exceto de andorinhas.  As guerras continuam, salvo que a morte deixou de ser untada com as lágrimas da ausência. As praças parecem desertas, mas em algum lugar, dentro delas, há bosques e fontes onde o corpo se une ao conteúdo das águas. A escravidão foi abolida, porém as grandes indústrias mantêm-se pela força do trabalho. O balcão de Julieta ostenta luminária de butique européia e seu título é Romeo e Juliet.
Dicas, Urbano Grandier, dicas! Enquanto não há dicas, alguns escritores se pintam de Londun e clamam por uma exorcisão interessada, menos no texto do que nos lucros da venda. Texto? As letras se debulham no abatedouro da crise, como galinhas enfurecidas! O manuscrito capeado de sarnas confunde-se com a pele da noite. E o mistério dos fins retoma as algemas do espírito em sinal de que os princípios é que respondem se uma coisa deve ou não ser entendida.

Com isto, adormeceu. Na certeza de que a rotina do seu dia, ligeiramente torcida pelo barlavento, em nada poderia modificar o peso dos átomos sobre a justa engrenagem dos silfos. Muito embora a dança deles seja, como realmente vinha sendo, o espetáculo dos outros.

domingo, 4 de março de 2012

Manaus, amor e memória XLVIII

Diante de tanta elegância, tanto garbo, abster-me-ei de quaisquer comentários...

sábado, 3 de março de 2012

Fantasy Art – Galeria

Woodland Harmony.
Michael Fishel.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Memorial de Aires ou o Elogio da velhice

Zemaria Pinto



Memorial de Aires, publicado em 1908, foi o último livro de Machado de Assis. Naquele mesmo ano, o mais festejado autor brasileiro viria a falecer.

Machado, que já zombara dos vivos através das memórias póstumas de Brás Cubas, parece, no Memorial de Aires, olhar o mundo com um sorriso terno, embora cético, irônico e pragmático.

O Conselheiro Aires, um diplomata aposentado, viúvo, vive sozinho, mas tem uma vida social razoavelmente intensa na pequena cidade do Rio de Janeiro do final do século passado. Entrado nos sessenta anos, sua única preocupação parece ser preparar-se com serenidade para o inevitável descanso final. Aires não sofre com isso. Pelo contrário: pelas anotações de seu diário, observamos uma personagem fria, seca, que, sem ser amarga, contempla o mundo com ironia, tomando como seu lema um verso do romântico Shelley: eu não posso dar o que os homens chamam amor.

Aires só se expressa pelo intelecto, jamais pela emoção. Sua faina diária é observar, comparar e analisar, com fino humor, o pequeno universo que o cerca.

O Memorial de Aires é composto pelas anotações, ao longo de dois anos, desse cotidiano doméstico. Se fôssemos extrair-lhe um enredo, poderíamos tomar como centro não a história do Conselheiro, que nada de interessante lhe acontece, mas sim a de um casal seu amigo, Aguiar e Carmo.

Machado de Assis, por Baptistão.
Sem filhos, há muito tempo pegaram para criar um recém-nascido chamado Tristão, filho de uma amiga de D. Carmo. Tristão cresce e é tomado de volta por sua mãe, que o leva a morar em Portugal, deixando de dar notícias. Anos depois, o casal de velhos afeiçoa-se de Fidélia, uma jovem viúva a quem o pai renegara por não concordar com seu casamento. Fidélia torna-se, então, a nova filha do velho casal. A situação complica-se quando Tristão volta ao Brasil para uma breve estada com os padrinhos. Como não poderia deixar de ser, apaixona-se pela bela viúva Fidélia, herdeira de grande fortuna, retornando com ela para Portugal, onde seguirá carreira política. Os velhos Aguiar e Carmo, desolados, depois de conhecerem a felicidade junto aos dois filhos postiços, abandonam-se à sua solidão.

Aires conta essa história quase romântica com tintas pálidas, notas econômicas e uma linguagem despojada de ornamentos, como se a contasse a si mesmo, conversando com o papel em branco. Daí sua simplicidade e espontaneidade.

O Conselheiro Aires já fora personagem de destaque em Esaú e Jacó, o livro anterior de Machado de Assis, o que leva muitos críticos a ver no velho Conselheiro uma projeção do escritor. E talvez seja, pela estatura intelectual refinada e pelo humor tão próximos, além de outras similitudes como a viuvez e o fato de não ter filhos. D. Carmo, entretanto, o próprio Machado de Assis confessou-o a Mário de Alencar, é a sua esposa Carolina, morta quatro anos antes. D. Carmo é forte, bondosa e compreensiva, colocando o amor ao velho companheiro acima de tudo.

Alguém pode observar que a velhice é o ponto de convergência das frustrações humanas. É uma boa frase de efeito, menos para quem, como o Conselheiro Aires, ou como o velho Machado de Assis, souber envelhecer com a consciência de que este é um estágio inevitável, e que se deve chegar até ele vivendo-o plenamente nas suas limitações.

A terceira idade é tempo de novas descobertas, de novos prazeres, de novas paixões, o que é uma maneira de prolongar a vida: afinal, a morte não gosta de gente feliz.


Publicado no Amazonas em tempo, no final do século passado... 

quinta-feira, 1 de março de 2012

Míssil de língua

João Sebastião



A balbúrdia estava generalizada quando ele apareceu, míope, gago e cardíaco, para emitir a sentença lapidar:

– Eles são adultos, mas se comportam como crianças em férias; são bonitos e inteligentes, mas agem como débeis mentais.

A plateia fulminada sorriu em cinza e amarelo.