Amigos do Fingidor

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Ouro, Incenso e Mirra

Jorge Tufic

Graças à minha longa convivência, na juventude, com o poeta Alencar e Silva, recordá-lo, hoje, significa também identificar a gênese perfeita do estágio atual de sua poesia numa constante de busca e revelação: idéias e visões apocalípticas que aderem, na maturidade física e espiritual, ao fascínio misterioso da Vida de Cristo, ao milagre da fé e à suprema eficiência da arte como instrumento de catequese.
Autor consagrado de oito volumes do gênero, é, contudo, a partir do livro intitulado “Sob o Sol de Deus” que se processa, a meu ver, o fenômeno de seu tranqüilo apostolado junto às escrituras religiosas que, antes, certamente, eram restritas ao âmbito  apenas de seus textos prediletos. Deve ter sido, portanto, lento e gradativo esse avanço da Luz Verdadeira, enquanto a dúvida e a “perplexidade existencial” recuavam para dar lugar a um novo compêndio de beleza, sabedoria e verdade. Trata-se agora de “Ouro, Incenso e Mirra”, poesia como os demais, território onde a pena do mestre tem sabido harmonizar os preceitos doutrinários com o legítimo acorde da expressão poética.

Lírico até o sétimo degrau de sua Obra Poética (“Sob o Sol de Deus”), Alencar e Silva torna-se épico ao testemunhar a palavra e os passos do Filho de Nazaré através deste poema composto em cinco segmentos e cinquenta sonetos, todos elaborados com a simplicidade evangélica de quem sabe entrelaçar os fios de uma túnica sagrada. Dá-nos, assim, com a publicação deste livro, uma síntese, inclusive, do homem que sente, na pele e no coração, os martírios e o caos do seu próprio tempo, o que me leva a supor tenha sido este o porto, a rota, a direção ou o sentido que ele perseguia além dos desafios comuns a todo pedestre incomum, além de todos os signos dramáticos que o cercaram na mocidade, além do cálice e do horto invadidos pelo medo.
Releio, enquanto escrevo estas linhas, o seguinte trecho de uma carta sua, com data de 15 de março de 1954: “Sei que sempre tive, na tua pessoa, um observador dos meus passos pelos difíceis caminhos do pensamento, ou um comovido espectador dos meus momentos trágicos, para não dizer tristes...” Mais este outro, agora de um poema autógrafo, s/d: “Porque eu perdi a rota / (ou porque nunca a encontrei) / esta medonha inquietação / começa a desesperar-me: / Onde um porto? / Em que praia, / em que ponta de terra / atirarei meu barco, / para morrer de dormir? / Invejo as conchas – e a beleza de sua morte.”

Com exceção de “Painéis” (1952), “Lunamarga” (1965), “Território Noturno” (1982), “Sob Vésper” (1986), “Poesia Reunida” (1988), e os dois últimos, da fase mística por excelência, confirmam diante de mim, a segura evolução do poeta. E aqui está, segundo Astrid Cabral, “a constante presença do mar carregado de associações com as grandes distâncias, as terras longínquas, a evasão para o infinito”. Mas diria eu que a Planície, a Amazônia, esse íntimo lendário subjacente às metáforas perdidas em 300 anos de colonização, sempre foram as preocupações do filósofo, do teórico ardoroso, do filho da gleba esfíngica, zombeteira e transcendental. Tanto que, embora tenham passados anos sobre estes fatos, ainda lhe retenho o discurso sobre antigos modelos asiáticos que ele expunha aos amigos, na certeza de estar propondo um desenvolvimento menos agressivo para essa parte do setentrião brasileiro. Vivia-se então na década de cinquenta, bem longe, por conseguinte, das festividades ecológicas e do oba-oba carnavalesco sobre os estragos, já agora totalmente irreversíveis, contra a Mãe Natureza.
Companheiro inexcedível, poeta genuíno, amigo sincero e bom, todas estas qualidades, no entanto, em nada interferem quando se impõe a necessidade de reiterar, para nós mesmos, a influência e a grandeza deste poeta sobre a geração Madrugada; e, muito antes dela, sobre os jovens da minha geração. É claro que, no momento em que o leio, sobrepõe-se a análise de sua poesia; mas logo a imagem do poeta, do homem inserido no contexto de sua época, do lutador integrando os suplementos literários, ampliam sobremodo a expectativa de um pré-texto afetivo, convertem o modesto projeto do leitor pretensioso numa possível anotação para um livro de memórias.

Seja-me permitido, contudo, admitir que dos Quatro Monges improvisados no auge de uma aventura romântica pelo Sul do País, apenas um deles, Alencar e Silva, por coincidência o menos eloquente, tivera a coragem de seguir, em verdade, o caminho Daquele que, por sua vez, nunca deixa que a lâmpada mágica do poeta seque, ou corra o risco de sua chama tremeluzir em plena escuridão.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Manaus, amor e memória XLIII

Só para lembrar que, assim como a Biblioteca Pública, o Mercadão está fechado há anos, sem data para ser reaberto.
E haja reforma!

sábado, 28 de janeiro de 2012

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Uma análise do Eu – 11/13

Zemaria Pinto


A expressão prosaica – contrapondo-se à linguagem forçadamente poética da poesia que os antecede, os modernistas buscam a simplicidade da expressão e, por conseguinte, o uso de uma linguagem mais próxima do falar cotidiano. Observe o poema Pronominais, de Oswald de Andrade (1890-1954), uma das principais figuras do movimento modernista: 

Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido 

Mas o bom negro e o bom branco
da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro 

No estudo mais importante sobre a poesia de Augusto dos Anjos, Morte e vida nordestina, o poeta Ferreira Gullar anota cerca de três centenas de palavras e expressões corriqueiras encontradas na poesia de Augusto dos Anjos, demonstrando com isso “como ele se afastou do convencionalismo poético de sua época e como se aproxima da linguagem ‘prosaica’ da poesia pós-22”. Anotemos algumas dessas palavras, só para despertar no leitor a curiosidade de descobrir outras no mesmo padrão: antropofagia, atômico, anúncios, acesso de asma, bacalhaus, barriga, crédito, caspa, doença, debochada, esterco, Estado, ferrugem, fedor, gás, homicídio, imundície, lamparina, latifúndios, monopólio, neurótica, ovo, psicologia, processo, quiosque, raio x, suicídio, teta, urubu, vinagre. 

Há que se ressaltar também o aspecto gráfico, inusitado para a época, que por vezes Augusto dos Anjos utiliza. Observe a seguinte estrofe de Monólogo de uma sombra: 

É uma trágica festa emocionante!
A bacteriologia inventariante
Toma conta do corpo que apodrece...
E até os membros da família engulham,
Vendo as larvas malignas que se embrulham
No cadáver malsão, fazendo um s. 

A representação gráfica da letra s adquire uma força visual que passaria desapercebida se o poeta se limitasse a reproduzir o seu nome - esse. Observe agora os seguintes versos: 

(...) De cada ser, ex.: o homem e o ofídio, (Os doentes)

(...) Custa 1$200 ao lojista! (idem)

(...) Tenho 300 quilos no epigastro... (Tristezas de um quarto minguante)

(...) Desde que, 6a-feira, 3 de maio, (idem) 

Tudo muito prosaico, não? Pois bem, esta é uma das principais críticas que se faz a Augusto dos Anjos – o caráter prosaico de sua poesia. A crítica (paradoxalmente, modernista) toma como referência para analisar a poesia de Augusto dos Anjos não a produção que viria depois dele e que ele antecipava, mas sim aquela poesia essencialmente “poética” que se praticava antes dele. Cabe aqui uma discussão: o que é e o que não é poético? Existem palavras ou expressões poéticas? Por exemplo, a palavra lua. É possível que haja unanimidade em que esta é uma palavra poética. E a expressão lua de prata? Com certeza já foi poética um dia, hoje é apenas um lugar-comum. Para Augusto dos Anjos, em As cismas do destino, o luar tem a “cor de um doente de icterícia”, o que dá uma outra dimensão ao fenômeno.

O poético, em verdade, resulta da combinação das palavras e expressões e de como o leitor percebe essa combinação. No Poema negro há a seguinte estrofe: 

A passagem dos séculos me assombra.
Para onde irá correndo minha sombra
Nesse cavalo de eletricidade?!
Caminho, e a mim pergunto, na vertigem:
– Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem?
E parece-me um sonho a realidade. 

A essência dessa estrofe são as clássicas perguntas, que um dia, mais cedo ou mais tarde, todos nós nos fazemos: quem sou? De onde vim? Para onde vou? Parece mesmo que toda a metafísica resume-se a essas três questões. Nada mais banal, portanto. No entanto, há, nessa estrofe, dois versos que a redimem de qualquer banalidade: 

Para onde irá correndo minha sombra
Nesse cavalo de eletricidade?! 

Vamos esmiuçá-los: há dois substantivos (sombra e cavalo) mais uma locução adjetiva (de eletricidade) e um verbo de ação (correndo). Sombra é uma metonímia que representa o “eu lírico”: ele poderia dizer, prosaicamente, para onde irei?, simplificando o entendimento. O verso seguinte é uma explosão poética: a combinação de palavras tão distantes (cavalo e eletricidade) causam um efeito absolutamente novo, dando a ideia exata da rapidez da passagem do tempo, enunciada no primeiro verso – a passagem dos séculos me assombra.

Por tudo o que se disse, leitor, duvide quando você ler ou ouvir sobre o poético e o não poético, especialmente na poesia de Augusto dos Anjos. É preciso compreender que a poesia se faz também de matéria cotidiana, por isso não pode se dissociar da realidade. Querer uma poesia sem a mácula do dia a dia é querer uma poesia alienada e, portanto, supérflua, inútil.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Fantasy Art – Galeria

Aphrodite's Belt.
Cris de Lara.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

O papel do escritor contemporâneo na Amazônia

Jorge Tufic
(Discurso do presidente do Conselho Estadual de Cultura do Estado do Amazonas,
Sr. Jorge Tufic, pronunciado na abertura do I Encontro Cultural da Amazônia,
promovido pela SCA, de 20 a 28 de agosto/88).
Senhores escritores da Amazônia, sejam bem-vindos ao Conselho Estadual de Cultura. É com imenso prazer que atendemos ao pedido e às recomendações da Superintendência Cultural do Amazonas, propondo a este Encontro, à guisa de tema, o papel do escritor contemporâneo da Amazônia.
Assim, perguntamos: de que modo poderão as Amazônias conhecer-se para melhor integrar-se em sua própria defesa, enquanto preocupação daqueles que a vislumbram ou intensificam na trama de um romance, na metodologia de um ensaio ou na metáfora de um poema? O que, afinal, se conhece deste fenômeno, numa visão conjunta de sua história, ou de quantos deslumbramentos se tenham convertido na exploração de motivos tirados de sua paisagem, sem excluir o exótico e o pitoresco? Podemos, ainda, considerar exauridos os ciclos econômicos da região, o diálogo de suas grandezas naturais, os episódios de guerra, a ecologia, o problema das populações autóctones e as atmosferas localizadas, com larga tematização e quase nenhum empenho em aprofundar ou renovar os instrumentos da língua e da linguagem?
Sejam quais forem as respostas a tais perguntas, o certo é que é chegado o momento da união, da confederação e dos encontros periódicos, nos quais, sem dúvida, a simples troca de experiências e objetos culturais entre as várias Amazônias compreendidas pelos geógrafos, historiadores, antropólogos, observadores e estudiosos, possa conduzir ao núcleo germinal de uma única Amazônia, como resultado da plena consciência de suas origens comuns, em dez mil anos de lutas e caldeamentos. Se podemos afirmar, em abono a essa tese, que os antepassados ameríncolas perderam seus domínios e sua identidade em quatro estágios diferentes, mas sucessivos – derrota militar, falta de resistência imunológica, derrota pela fome e pelo escravismo e derrota étnico-cultural, segundo o historiador Antônio Loureiro, a mais terrível de todas, – onde nos colocarmos, hoje, frente aos países ricos que nos infligem derrotas semelhantes na taxa de juros e no endividamento externo, senão como vítimas de um novo e definitivo genocídio? Diante dessa realidade, também se coloca o escritor amazônico.
Não é, pois, à toa que tornamos a nos voltar, cada vez mais assustados, para as rupturas havidas no lento e diferenciado processo da nossa colonização, que nos fizera herdeiros de uma cultura imposta, zelosa em manter aqueles povos nativos subalternos do esquecimento e do massacre, de cuja sabença nada se sabe, mas de cujo destino nos tornamos repetidores. Lemos tudo pelo avesso nas cores desse arco-íris de poeira e solidão. Somos a última abertura de um ciclo a fechar-se. Estamos completamente vencidos pelas diferenças que estabelecemos e cultivamos.
Amazônias diferentes e tão semelhantes, aqui se encontram. Irmanadas, sobretudo por aquele “algo extraño y triste” de que nos falara Humboldt. Dez mil anos de solidão – resumidos ou “tensificados” nos cem anos do romance de Gabriel Garcia Marques – instalaram no ar e nos seres a nostalgia de um confronto impossível, mas onde a retórica e o fantástico levam vantagem. Deste modo também, as mitologias do espaço construído passaram o rolo compressor nas fábulas ingênuas, nas “bíblias” e no lendário dos primitivos habitantes destas terras e destes rios. A pólvora, o fio da espada e a racionalidade evangelizadora conseguiram, finalmente, dizimar os guardadores desse universo mágico. Todavia, e por isso mesmo, “algo extraño y triste”, ficou. O próprio Amazonas, na comparação de Santos Chocano, ao vir das Cordilheiras, não é mais que “a silenciosa lágrima de um rio.”
Antes e durante esse longo período, nada consta, se não esparsa e raramente, tenham as tribos indígenas da Amazônia se unido e se levantado contra os invasores de seus territórios. Nômades e livres, elas preferem se aliar ao invasor e dão a entender, claramente, que a terra não era de ninguém. Hoje, após tantos conflitos e divisões, quando as sociedades tribais praticamente se reduzem, se extinguem ou se dispersam diante do avanço das máquinas e da usura pelas jazidas de minério, as diversas Amazônias já formam, como partes de um todo, o esboço de uma complexa mas única nacionalidade. Os pobres se entendem. Pelo menos deveriam entender-se. Senão essa mistura de raças que vai do tribal ao social, do social ao nacional e deste ao continental e universal, não teria sentido histórico. Este seria mais um item que parece merecer a nossa reflexão. Tanto mais quando fomos o cenário monumental para onde acorreram as primeiras levas que contribuíram para a formação do Homem Amazônico. Elas já traziam consigo o fogo e os instrumentos líticos, embora aqui já estivessem, desde muito, as curiosas edificações e canoas transformadoras, depois do terceiro cataclismo; os primeiros animais, peixes, aves, e o grande mistério que nos dá notícia de uma linguagem perdida. A linguagem que devemos perseguir.
Nada disto, senhores escritores da Amazônia, já foi ou estará sendo feito ou decifrado. A esfinge prossegue olhando para nós, donos que somos de um código refratário ao mergulho e ao vôo que lhe habitam os arredores. Ainda não dispomos, sequer, de mínima parte que seja desse belo compêndio de iniciação, em termos de linguagem. A dimensão orgânica da Amazônia, as vísceras e os acordes de sua extensão mítica, continuam à espera de nós, poetas, romancistas, filósofos, antropólogos, estudiosos, contudo envolvidos nos aspectos exteriores da fábula. Falamos em seu tamanho, em sua altura e comprimento, mas esquecemos a sua alma.
Aqui estamos, entretanto, para sabê-la no contexto de sua totalidade. Suas dimensões primárias já parecem delineadas. Falta-nos, assim, penetrar as suas dimensões extraordinárias, as quais também se relacionam com o papel do escritor, como sendo o principal de seus intérpretes.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Manaus, amor e memória XLII

Do tempo em que fumar era charmoso...

sábado, 21 de janeiro de 2012

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Uma análise do Eu – 10/13

Zemaria Pinto

4) Linguagem – prenúncios do Modernismo


Há vários aspectos na linguagem de Augusto dos Anjos a serem observados. Não é pretensão deste trabalho esgotá-los, mas nunca é demais lembrar que é na essência da linguagem, em como ela se organiza, em como ela funciona para o leitor, que está a arte de escrever. Vamos procurar mostrar-lhe, leitor, como, apesar de vazada numa forma tradicional, a linguagem usada por Augusto dos Anjos já prenuncia o Modernismo, que, oficialmente, tem suas primeiras manifestações somente em 1917, para explodir na Semana de Arte Moderna, em fevereiro de 1922, tornando-se o evento artístico (não apenas literário) mais importante e influenciador do século XX, no Brasil.

Paródia e humor – Esta é uma abordagem inédita, leitor. Se você se der ao trabalho de recorrer a outras fontes para melhor compreender a poesia de Augusto dos Anjos, com certeza lerá que ele era um pobre coitado, um sofredor, um incompreendido etc. Já mostramos, na análise do tema central, que a opção de Augusto dos Anjos é por uma estética da dor, para assim melhor denunciar a degradação humana. Na análise dos motivos, mostramos como o autor trabalha em detalhes essa estética. Isso não elimina, contudo, já o dissemos também, a sinceridade do autor. Nossa proposta agora é mostrar que na estética da dor cabem também a paródia, a ironia e até mesmo algum humor, elementos fundamentais da escola modernista.

O poema transcrito abaixo, As pombas, é de Raimundo Corrêa (1859-1911), notório parnasiano. É possível que você já o conheça, pois é um dos poemas mais antologiados do período. 

Vai-se a primeira pomba despertada...
Vai-se outra mais... mais outra..., enfim dezenas
De pombas vão dos pombais, apenas
Raia sanguínea e fresca a madrugada. 

E à tarde, quando a rígida nortada
Sopra, aos pombais, de novo, elas, serenas,
Ruflando as asas, sacudindo as penas,
Voltam todas em bando e em revoada... 

Também dos corações onde abotoam,
Os sonhos, um por um, céleres voam,
Como voam as pombas dos pombais; 

No azul da adolescência as asas soltam,
Fogem... Mas aos pombais as pombas voltam,
E eles aos corações não voltam mais... 

É um poema singelo e a reflexão que encerra beira mesmo a pieguice: ao contrário das pombas, que, apesar de livres, voltam sempre para “casa”, os sonhos da adolescência são esquecidos na idade adulta. Num processo paródico, que consiste na imitação irônica, Augusto dos Anjos escreveu O morcego: 

Meia-noite. Ao meu quarto me recolho.
Meu Deus! E este morcego! E, agora, vede:
Na bruta ardência orgânica da sede,
Morde-me a goela ígneo e escaldante molho. 

“Vou mandar levantar outra parede...”
– Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho
E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho,
Circularmente sobre a minha rede! 

Pego de um pau. Esforços faço. Chego
A tocá-lo. Minh’alma se concentra.
Que ventre produziu tão feio parto?! 

A Consciência Humana é este morcego!
Por mais que a gente faça, à noite, ele entra
Imperceptivelmente em nosso quarto! 

A paródia, leitor, pode imitar a forma e/ou o conteúdo, subvertendo-os. Neste caso, nós temos uma imitação clara de conteúdo. Às pombas está contraposto o morcego. Se aquelas, diurnas, são símbolos do bem e da graça, este, noturno, é o símbolo do mal e da desgraça. Se aquelas têm toda a liberdade de ir e vir, este insiste em atormentar o “eu lírico” no espaço limitado de um quarto. À singeleza de pensamento do primeiro poema, opõe-se a grave reflexão do segundo: é uma metáfora da consciência do homem atormentado pelas falhas cotidianas. Se o poema parnasiano versava sobre sonhos adolescentes, o poema de Augusto dos Anjos trata de um sentimento que somente os éticos ainda o tem: o remorso, a culpa.

Deliberadamente antiparnasiano, Augusto dos Anjos leva a paródia ao extremo no poema O martírio do artista. Um dos temas caros do parnasianismo era exatamente escrever sobre o fazer poético, em exercícios metalinguísticos, onde a forma é colocada acima de tudo. Em um poema excepcional em todos os sentidos, Inania Verba, expressão latina que significa “palavras inúteis”, Olavo Bilac (1865-1918) questiona a impossibilidade de expressão por não encontrar as palavras exatas (a forma, leitor) que reflitam aquilo que o poeta sente mas não consegue exprimir: 

Ah! quem há de exprimir, alma impotente e escrava,
O que a boca não diz, o que a mão não escreve?
– Ardes, sangras, pregada à tua cruz, e, em breve,
Olhas, desfeito em lodo, o que te deslumbrava... 

O Pensamento ferve, e é um turbilhão de lava:
A Forma, fria e espessa, é um sepulcro de neve...
E a Palavra pesada abafa a Ideia leve,
Que, perfume e clarão, refulgia e voava. 

Quem o molde achará para a expressão de tudo?
Ai! quem há de dizer as ânsias infinitas
Do sonho? e o céu que foge à mão que se levanta? 

E a ira muda? e o asco mudo? e o desespero mudo?
E as palavras de fé que nunca foram ditas?
E as confissões de amor que morrem na garganta? 

Agora, observe O martírio do artista, de Augusto dos Anjos: 

Arte ingrata! E conquanto, em desalento,
A órbita elipsoidal dos olhos lhe arda,
Busca exteriorizar o pensamento
Que em suas fronetais células guarda! 

Tarda-lhe a Ideia! A Inspiração lhe tarda!
E ei-lo a tremer, rasga o papel, violento,
Como o soldado que rasgou a farda
No desespero do último momento! 

Tenta chorar, e os olhos sente enxutos!...
É como o paralítico que, à mingua
Da própria voz, e, na, que ardente o lavra, 

Febre de, em vão, falar, com os dedos brutos
Para falar, puxa e repuxa a língua,
E não lhe vem à boca uma palavra! 

Em oposição à elegância e delicadeza com que Bilac descreve o desespero do poeta por não encontrar as palavras que exprimam seus sentimentos, temos em Augusto dos Anjos uma caricatura, que culmina com o poeta comparado ao paralítico que, em desespero, tenta arrancar da língua, com as próprias mãos, as palavras que não lhe vêm naturalmente. A propósito, leia também o poema A ideia, que é um complemento de O martírio do artista.

Quando falamos de humor, precisamos fazer uma distinção: há a graça, uma disposição de espírito, e há o sarcasmo, que é uma manifestação violenta – e nem sempre engraçada. Para o primeiro caso, há inúmeras ocorrências em Augusto dos Anjos. Por exemplo: “Ah! Um urubu pousou na minha sorte”, extraído do poema Budismo moderno, que virou dito popular para designar um período de azar. Em Psicologia do vencido há um verso, “profundissimamente hipocondríaco”, que, pelo inusitado da combinação das palavras, acaba por tornar-se engraçado: um sujeito hipocondríaco já é um problema, imagine-se então um profundissimamente hipocondríaco... O segundo terceto de O deus-verme é também exemplar: 

Ah! Para ele é que a carne podre fica,
E no inventário da matéria rica
Cabe aos seus filhos a maior porção!  

A preocupação do verme com a alimentação dos filhos humaniza-o, o que não deixa de ser um paradoxo, pois é de cadáveres humanos, na visão de Augusto dos Anjos, que ele se alimenta.  Nesse processo de “humanização” do verme, Augusto dos Anjos chama-o também, em Psicologia do vencido, de “operário das ruínas”. Enfim, o leitor poderá descobrir muitas outras situações que revelam esse olhar humorado do poeta.

Mas há também o sarcasmo, que encontra seu paroxismo em uma quadra de As cismas do destino: o “eu lírico” vocifera contra a ética cristã, que, esgotada, prega um tipo de atitude que não encontra correspondência na prática:  

Escarrar de um abismo noutro abismo,
Mandando ao Céu o fumo de um cigarro,
Há mais filosofia neste escarro
Do que em toda a moral do cristianismo!

Os homens do passo certo

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Declínio

Inácio Oliveira


Os historiadores modernos possuem uma controversa teoria para explicar o declínio do Império Romano no século V. Acredita-se que toda a água encanada utilizada pelos romanos escorria por tubulações feitas de chumbo, e hoje sabemos que um organismo em contato com o chumbo acaba se enfraquecendo e se tornando vulnerável a uma série de doenças. Eu sei disso por que sou biomédica, fiz especialização em infectologia e trabalhei em diversas clínicas de diagnóstico de doenças. Via casos assim todos os dias: pessoas contaminadas com vírus, bactérias e protozoários; por meio de alimentos, de água, de fezes, de insetos, de animais domésticos, de metais pesados, e até do ar, enfim, as pessoas se contaminam com qualquer coisa. Como eu ia dizendo, os romanos expostos por um longo tempo ao chumbo acabaram adquirindo uma série de doenças, seus soldados se tornaram cada vez mais fracos e seus exércitos ficaram indefesos, as crianças que nasciam já vinham com sua carga genética danificada pelo chumbo. O Império Romano não foi derrubado pelas invasões bárbaras e sim pelo chumbo.

Vocês podem achar que esta história de Império Romano não tem nada a ver com a minha história, que isto não passa de devaneios de uma senhora de idade. Mas eu estou falando do Império Romano porque é interessante notar como uma das forças mais poderosas da história da humanidade ruiu sob suas tubulações de água encanada; é interessante notar como aquilo que nos destrói pode estar dentro de nós, em silêncio, imperceptível. E principalmente estou falando do Império Romano porque foi a partir da sua história que eu tirei a minha vingança. Vocês saberão porquê.

Fui casada durante vinte anos com Marcelo Augusto. Como todos sabem Marcelo Augusto sempre foi um homem exemplar: um homem honesto e justo, íntegro e incorruptível, um exemplo de advogado, de filho, de marido, de amigo e de cidadão, um exemplo de ser humano. Estou usando as palavras proferidas por um amigo dele que fez o discurso no dia do seu enterro enquanto seu corpo descia para alimentar os vermes. Acontece que chegamos a uma idade em que a máscara, assim como a pele firme em nosso rosto, começa a ruir e a verdade vem à tona, a inevitável verdade sobre aquilo que somos. Por isso quero, antes de morrer, revelar toda a verdade sobre Marcelo Augusto e sobre nosso casamento. Nosso casamento nunca foi feliz como todos supunham e Marcelo Augusto nunca foi um homem honesto e justo, íntegro e incorruptível, nem um exemplo de advogado, de filho, de marido, de amigo ou de cidadão; antes, foi um ser humano execrável, que mereceu o destino que teve.

Conheci Marcelo Augusto no último ano da faculdade, eu fazia residência no hospital universitário e ele era um vagabundo maconheiro que se disfarçava de revolucionário do movimento estudantil, mas, além disso, era um homem muito bonito, sagaz e ardiloso. Sabia usar todas as suas relações em benefício próprio, nenhum ato seu era espontâneo ou gratuito, e assim ele conseguia convencer qualquer pessoa a fazer qualquer coisa. Eu era uma jovem biomédica ingênua e presunçosa, sabia tudo a respeito do corpo humano, mas era incapaz de perceber o que é um homem em sua essência. E naquela época o fascínio que Marcelo Augusto causou em mim foi instantâneo, eu me apaixonei. 

Formamo-nos no mesmo ano e casamos um ano depois. Marcelo Augusto conseguiu um emprego público como advogado devido suas influências políticas. Daí nunca parou de crescer na carreira pública, um ano depois já trabalhava na Defensoria. Eu me especializei, trabalhei em diversos hospitais, tínhamos uma vida confortável. Porém depois de algum tempo, quando chega aquele inevitável momento em que a paixão acaba, comecei a perceber algo estranho em Marcelo Augusto, algo que sempre houve e que eu não notara até então. Ele me dava sempre a impressão de estar falando uma coisa e pensando outra, o tipo de pessoa que quanto mais se convive menos se sabe a respeito.

Depois do nosso casamento tive a oportunidade de cursar mestrado na Espanha, o grande sonho da minha vida, eu poderia ter sido uma pesquisadora de prestígio, mas Marcelo Augusto como sempre me convenceu a abdicar do meu sonho. Eu deveria ficar e cuidar de “nossas coisas”, da nossa casa e da pequena fortuna que ele acumulava ano após ano; na verdade ele queria alguém que cuidasse dele mesmo, que mantivesse sua vida em ordem, que fizesse pose com ele nos jantares chatíssimos para os quais era convidado, portanto eu era a pessoa ideal, uma mulher bonita, de boa família, inteligente e elegante. No fundo eu sabia que Marcelo Augusto jamais gostou de mim e isso ficou claro com o tempo: ele me tratava com impaciência, com desprezo e praticamente não falava comigo quando estávamos sozinhos em casa. Nos lugares onde íamos e na frente de outras pessoas, até mesmo de estranhos, ele era atencioso e gentil comigo, sorria e me chamava de querida. Sempre odiei, desde menina, que me chamassem de querida.

Meu casamento se revelava um inferno, porém Marcelo Augusto ficava cada vez mais rico e o dinheiro dele era meu também, nunca deixei de pensar assim e isso me deu forças para continuar sorrindo e fazendo pose ao seu lado. Quanto mais ele me fizesse sofrer mais dinheiro ele teria que ganhar. Pois eu gastava de acordo com o meu humor; quanto mais angustiada eu ficava maior seria a fatura do cartão de crédito. Tudo passou a me entediar, não tinha mais disposição para trabalhar. Eu trabalhava no Instituto de Hematologia, não suportava ficar olhando para o sangue das pessoas doentes distribuído em diversas lâminas e submetê-los à cálculos e contagens incompreensíveis para descobrir quais eram suas doenças, em muitas lâminas as células do câncer brilhavam no microscópio e eu podia saber se era leucemia, câncer do útero, do pulmão, enfim, se estava no inicio ou avançado, e isso me deprimia. Gostaria que em uma daquelas lâminas com células de câncer brilhando o sangue fosse de Marcelo Augusto, ou então chegar em casa e ver o seu sangue se coagulando ao redor do seu corpo por algum motivo que o destino tornara trágico.

Um dia, por uma discussão domestica qualquer, Marcelo Augusto me empurrou contra a cerâmica da cozinha, eu cai no chão, humilhada. Pensamentos terríveis passaram pela minha cabeça, poderia ter pego um das facas sobre a pia e o esfaqueado enquanto ele virava as costas para uma mulher que ele tornara infeliz, jogada no chão. Nosso casamento havia se tornado uma coisa beligerante. Mesmo sem evidências passei a desconfiar que Marcelo Augusto tivesse uma amante, não havia outro motivo para ele me humilhar daquela forma. Parei de trabalhar e me concentrei em monitorar Marcelo Augusto secretamente, ele era obcecado pelo trabalho que consistia em fraudar contratos e licitações e defender políticos corruptos, se ele tivesse uma amante não seria do seu meio. Após um tempo de espionagem descartei a hipótese da amante, um homem que tem uma amante não possui a expressão avara e entediada que Marcelo Augusto tinha.

Sua rotina consistia de passadas rápidas no fórum, encontros intermináveis com políticos e empresários e terminava seu dia enfurnado no seu escritório nos altos de um prédio. No escritório Marcelo Augusto recebia muitos clientes, sempre à tarde. Havia dias em que Marcelo Augusto trabalhava até altas horas, isso não me incomodava, eu poderia aproveitar minha solidão, já que mesmo presente ele não me faria companhia. Passei a fazer basicamente duas coisas da minha vida: comer e comprar. Comia e me sentia gorda, ficava deprimida e por isso saía para fazer compras e depois dava vontade de comer, era um ciclo vicioso.

Em uma tarde depois de comprar um chapéu que certamente eu nunca usaria senti vontade de visitar o escritório de Marcelo Augusto. Não sei por que senti essa vontade, eu odiava aquele escritório e sua decoração esnobe. A secretária devia ter saído, pois a recepção estava vazia. A tarde caia e o Hall estava deserto, senti um calafrio, uma espécie de medo, como se algo terrível fosse me acontecer. A porta estava entreaberta, entrei sorrateira, o escritório era espaçoso de dois pés: havia uma mesa de centro com uma pequena escultura simbolizando a justiça, piso acarpetado, dois quadros horrendos na parede, uma massa acrílica disforme, pretensamente arte moderna, sofás em couro de tom marrom, duas estantes embutidas com livros de capa dura completavam a decoração, na parte superior havia sua mesa com o computador, muitos papeis, uma cadeira executiva, grande demais para uma única pessoa, em uma parte oculta do escritório havia um closet onde Marcelo Augusto dispunha de diversos ternos, de varias marcas e cortes que ele trocava durante o dia de acordo com cada ocasião, dentro do closet havia um divã onde Marcelo Augusto descansava todos os dias. Caminhei silenciosamente pelo escritório que vazio parecia maior, pequenos ruídos vinham de dentro do closet, me aproximei e afastei lentamente a porta do closet de modo que dava pra ver apenas uma parte do divã: Marcelo Augusto estava nu de joelhos sobre o divã, parecia um leitão, afastei mais um pouco a porta e foi possível ver um corpo de mulher com seios enormes, um ser andrógino, dúbio, feito delicadeza e brutalidade. Marcelo Augusto estava sendo sodomizado por um travesti.

Tudo ali parecia ter sido arquitetado de uma forma diabólica para que eu jamais esquecesse qualquer detalhe, e também jamais fosse possível contar nada daquilo para ninguém nem mesmo para minha melhor amiga, se eu tivesse uma. Observei aquela cena por uma fração de segundos, fechei os olhos na tentativa inútil de evitar que aquilo se gravasse na minha memória e me destruísse. Naquele momento eu sabia de duas coisas: eu jamais esqueceria o que havia visto e jamais contaria aquilo para ninguém. Saí daquele escritório como se sai de um pesadelo, a recepção continuava vazia, não havia ninguém em todo o andar e mesmo se houvesse ninguém me veria, pois naquele momento eu era lívida e transparente. Não lembro como cheguei em casa, não lembro como dormi naquela noite, e é difícil lembrar como os dias se sucederam depois daquilo. Os dias simplesmente se sucedem, indiferentes.

É difícil acreditar, mas mesmo morando na mesma casa eu nunca mais olhei nos olhos de Marcelo Augusto. Eu havia me tornado uma espécie de zumbi, engordara e me entediava com tudo, deixei até mesmo de fazer compras. Essa indiferença não incomodou Marcelo Augusto, eu não saía de casa, não fazia nada, para ele estava tudo bem. Eu existia apenas para ele ser um homem casado, um homem de família. Eu não tinha forças para me separar, não me sentia capaz de falar daquilo com ninguém. Tudo em minha vida se tornara incomunicável, eu não teria feito o que fiz se não fosse por nojo, se não fosse por asco. Ele chegava cada vez mais tarde em casa, eu já estava dormindo mas quando ele deitava comigo na cama eu não conseguia mais dormir, sentia um frio no estomago, uma vontade de vomitar. Marcelo Augusto passava o braço sobre o meu corpo e dormia, eu ficava imaginando ele, o único homem que eu amara, com travestis e outros homens em todas as formas possíveis de perversões.

Eu só queria nunca mais ter que olhar para Marcelo Augusto, nunca mais ter que ver ele tirar a roupa perto de mim para eu não ter que lembrar daquela cena, nunca mais ficar a noite toda acordada com o braço dele sobre o meu corpo, nunca mais ouvir ele me chamar de querida. Ele poderia sofrer um ataque fulminante do coração, morte súbita, câncer, acidente de carro, cair da escada, ser assassinado por um inimigo, ser estrangulado por um michê, mas essas coisas só acontecem com quem não precisa acontecer.

Sempre dormia pela manhã depois que Marcelo Augusto saía; em uma dessas manhãs eu tive um sonho horrível. Sonhei que Marcelo Augusto me obrigava a fazer sexo oral nele enquanto ele era sodomizado por um homem negro. Foi nesta manhã que eu comecei a urdir meu plano, uma mulher não podia dormir pela manhã e sonhar uma coisa dessas.

Eu ainda tinha em casa alguns materiais de laboratório; consegui destilar pequenas quantidades de chumbo; como Marcelo Augusto não almoçava nem jantava em casa, apenas tomava café, o processo seria lento; seria melhor assim, não correria o risco de ninguém desconfiar. Eu mesma preparava o café para Marcelo Augusto, como eu não tomava café seria fácil, eu havia preparado uma quantidade exata de chumbo para cada dia que seria adicionado ao café enquanto eu o preparava. De acordo com os meus cálculos levaria de três a seis meses para que o chumbo afetasse o seu sistema hematopoiético, a produção de células do seu corpo seria danificada produzindo células com deficiência e até mesmo nocivas, seu sistema imunológico se enfraqueceria ou se fortaleceria demasiadamente e nas duas condições sua saúde se deterioraria e como ele era negligente com a saúde morreria em menos de dois anos sem ninguém suspeitar de nada.

Enquanto Marcelo Augusto tomava banho pela manhã, sua pasta inseparável estava sobre a penteadeira no quarto, estava entreaberta, de um bolso pendia uma discreta etiqueta de uma marca famosa de lingerie, puxei-a para fora, era um conjunto completo: calcinha, sutiã e cinta-liga de um vermelho berrante. Coloquei-a de volta sem que ele percebesse. Agora eu sabia, ele não daria aquela lingerie para nenhuma mulher, ele mesmo a usaria debaixo dos ternos caros e bem cortados que ele possuía. Enquanto cumprimentasse seus clientes e sócios com aperto de mão firme e voz empostada; como quem diz você pode confiar em mim, ele sentiria por baixo do terno o fio dental da lingerie.

Ao fim de três meses sendo submetido à dieta de chumbo, Marcelo Augusto começou a sentir os primeiros sintomas: sentia náuseas, dores de cabeça, dores de estomago, estava cada vez mais estressado, se aborrecia com qualquer coisa, certa manhã acordou vomitando. Eu, solícita e tolerante, cuidava dele. Todas as manhãs Marcelo Augusto tomava seu café, sorvia todo o liquido escuro da xícara como um viciado em chumbo. A saúde de Marcelo Augusto piorava progressivamente, ele não conseguia mais trabalhar como antes, esquecia com facilidade das coisas, brigou com os sócios. Seus negócios ilícitos com o governo estavam sendo investigados, emagrecera rapidamente, suspeitei que ele estivesse sendo chantageado por um de seus michês, estava sempre à beira de um ataque. Eu aumentei a dosagem de chumbo.

Relutante, Marcelo Augusto procurou um médico amigo meu que garantiu que seu estado era grave. Fez uma série de exames sem chegar a nenhuma diagnóstico preciso, consultou outros especialistas, sem sucesso. Durante algum tempo, as coisas pioraram terrivelmente. Marcelo Augusto tinha sono intranquilo, passava mal durante a noite, eu cuidava dele com prazer. Eu sabia que tudo aquilo iria passar, em breve eu estaria livre; com sua morte, as investigações sobre ele seriam esquecidas e eu poderia aproveitar seu dinheiro ilícito. Enquanto ele agonizava imaginava os lugares que eu, uma viúva, conheceria, faria compras em todos os shoppings do mundo, no fim a humilhação de uma vida inteira seria reparada, era só uma questão de tempo.

Marcelo Augusto só parou de tomar seu café com chumbo quando precisou ser internado, parecia ter envelhecido muitos anos nos últimos meses. Fiquei com ele todos os dias no hospital para constatar seu padecimento, ele perdera a arrogância que tinha, uma candura envolvia seu sofrimento. Por um momento cheguei a pensar que eu o amava, mas foi só por um momento. Nos últimos dias ele parecia querer me dizer alguma coisa, nem mesmo ali me sentia capaz de lhe revelar toda a verdade que ele e eu escondíamos. Eu queria que ele morresse como um homem justo e honesto, integro e incorruptível, afinal eu seria a viúva desse homem. A morte nos daria uma dignidade que nós não tínhamos.

Tudo ocorreu como eu planejara, Marcelo Augusto foi enterrado com todas as honrarias, as investigações sobre ele foram abafadas, morria um homem bom. A primeira coisa que fiz foi vender a casa e viajar mundo afora. Mas não importava o lugar onde eu estivesse, toda vez que dormia aquela cena grotesca invadia meus sonhos, eu procurava me manter acordada o máximo possível. Com o tempo, as bebidas, as drogas e os calmantes já não eram suficientes, mesmo acordada eu via Marcelo Augusto de joelhos no divã; só que agora ele sabia que eu o estava olhando, então ele sorria para mim com um prazer hediondo, obsceno.  Já não consigo mais viver com isso, por isso escrevi este relato.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

O décimo quinto dia

Jorge Tufic


Em termos de física moderna, “um objeto em movimento parece contrair-se na direção de seu movimento e se encurta à medida que sua velocidade aumenta, até que, ao alcançar a velocidade da luz, desaparece completamente ( “A Dança  dos Mestres Wu Li”, Gary Zukov, Ece editora, pag.141). Em tempos de ficção literária, essa teoria extrapola da realidade da física no continuum espaço/tempo, em sentido contrário: aqui, a narrativa se expande no tempo real e, quando atinge as soluções mais imprevistas, já não cabe no espaço imaginário de  um simples dia cronológico, mas ala-se com a noite para nunca mais terminar. Na “velocidade” de cada situação ou segmento da estória, a duração joyceana trava as  cordas do relógio para conferir o terreno descontínuo da marcha obrigatória. E assim, num só dia, o autor deste livro instaura, na selva amazônica gizada para a construção de uma grande hidrelétrica, a “Odisséia” de uma expedição científica nas matas do Uatumã. À semelhança de “Ulisses”, de James Joyce, seus capítulos obedecem à uma divisão ternária, mais convencional  do que propriamente cabalística , enquanto o texto da obra se comporta tranquilamente numa só divisão quaternária, aí sim, querendo talvez sugerir a alternativa de várias escalas em busca de uma quarta musical, onde todos os sons, ruídos e mistérios da biota tragam porventura a resposta certa para uma única pergunta: – “Valerá a pena fazer tudo isso?”

Mas enquanto a resposta não vem, os seis integrantes do grupo estão a caminho: um botânico, chefe da expedição, um zoólogo, um geólogo e um engenheiro florestal. No apoio, José, caboco da região, mateiro e cozinheiro, e Domingos, guia. Domingos, o índio, surpreende com as suas andanças, previsões e descobertas durante todo o percurso. Componente mágico da pesquisa em demanda das terras altas ou do platô, sede e comando virtual do gigantesco projeto, divisor de águas das bacias do Uatumã e Urubu, o guia nativo parece vencer o mutismo e não se cansa de afastar a cortina invisível do som e da sombra, para revelar os perigos da floresta. Implica também com a burrice e o instinto predatório do caboco: “Caboco não tem cara de nada. É mistura” (pag.21). Chega-se a ouvir a bulha do mateiro rompendo, com seu terçado, a galharia fechado e o cipoal teimoso. Atrás dele ou passando à frente embrulhado no jogo das nuvens, ora indulgente com a falta de sutileza do caboco, ora dono da trilha e do mato, Domingos é o pé de onça. Enquanto um pisa, o outro levita. Enquanto um caminha, o outro se desloca. E assim vão, com os homens do instrumento, da ciência e da dúvida reunindo e dando ordens para acampar. De 6 às 9, de 9 às 12, de 12 às 15, de 15 às dezoito horas de um dia qualquer, o décimo quinto de uma expedição parcialmente esmagada pela ameaça do confronto desigual, movido a diesel, com a selva primigênia, algo maior do que todos os papéis da equipe inspira o autor onisciente a pesar os dois lados. Jorra então o saber, ou a sabença que gera o ensaio. Na verdade, ressalvada a técnica e a linguagem próprias do romance, este livro de Getúlio Alho tem desde já assegurado lugar de destaque entre os melhores que falam da Amazônia.

Depois de algumas tentativas, no teatro e na simples recolha do lendário para fazer “estrelismo”, cujos autores acabaram falhando por culpa da pressa, exatamente nessa pausa estratégica em nada favorável para editar livros, Getúlio Alho solta o produto de seu trabalho, conquista o prêmio “Cidade de Belo Horizonte”, e resgata a boa prática do trançado indígena em seu plano de romance. Ele já tinha, inclusive, a experiência de “Anhuera”, o inventor do futuro. Aqui também – neste “O Décimo Quinto Dia” – estão reunidas as marcas vivas de suas inquietações pela posse de elementos capazes de fazer a textura do enredo, sem cair no relatório. Daí a interferência do nheengatu e do tucano, alternando as falhas da História com a vigília cósmica daqueles filhos das águas pretas.

Nos dois incidentes mais graves da expedição, onde quatro índios e um branco são mortos, verifica-se claramente que o que houve entre eles foi falta de comunicação, essa mesma que falta entre o homem e a natureza. Nem por isso, contudo, Balbina deixaria de ser construída: “Um lago de um milhão de metros cúbicos numa área de mais de quinhentos mil hectares...” Expedições anteriores dizimaram as tribos de autóctones e despacharam os garimpeiros para uma outra área. As folhas das árvores ecoam nas folhas do livro, e esse trânsito de imagens fertiliza o registro das menores ocorrências, fenômenos, coisa, ação. Súbitos mergulhos no passado de cada personagem ligada à região pelas raízes do umbigo, descortinam, por outro lado, os tremendos conflitos que arrasaram os parintintins. Numa outra viagem de memória, Domingos revive a maloca de seus antepassados, e a breve “cerimônia” de seu casamento: – “Taqui tua mulher. Cuida dela pra que ela te dê muitos filhos!” – A moça pirá-tapuia ficou ao seu lado, humilde, quieta, submissa. Ele se levantou, deixando-a só, e foi pescar. Voltou com um peixe: – “Toma. Prepara pra gente comer.” – Ela recebeu o peixe, limpou-o e preparou-o, servindo-lhe com beiju e pimenta; só depois que ele acabou de comer é que se serviu e comeu. Estavam casados.”

A constante da obra, no entanto, é o empenho de Batista, o chefe da expedição, em tornar viável o projeto de Balbina. Racionando à maneira dos  primeiros colonos portugueses, parecia-lhe anormal e descoberto de lógica deixar “milhões e milhões de quilômetros quadrados de matas virgens à disposição de meia dúzia de índios que logo morreriam de fome, desprovidos de ferramentas ou capacidade para tirar da terra o mínimo para seu sustento diário”. A lógica formal, o Santo Ofício e o “martelo das feiticeiras”, exorcizavam agora, em nome da Represa, a todos quantos, filhos da gleba primitiva ou netos do trovão, se oporiam de algum modo ao traçado dos altos gabinetes de Brasília. O destino da região já estava decidido. Desse no que desse!

Linguagem simples, informação copiosa, realismo-naturalismo sem retórica, técnica segura, relato vivo, crítico e atual para avaliar-se o tamanho da violência para tão poucos resultados práticos – este é o livro do escritor-arquiteto Getúlio Alho, onde, ao término de sua leitura, esta pergunta desaba sobre nós como se fosse a própria represa de Balbina: – Valeria a pena fazer isso?

Hoje sabemos que não. Que não valeria.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Manaus, amor e memória XLI

Pessoal do Clube da Madrugada, em manhã festiva dos anos 70, ao pé do falso mulateiro.
Da direita para a esquerda, só para fugir à regra, entre ilustres desconhecidos, reconhecemos:
Van Pereira, Álvaro Páscoa, Moacir Andrade, Antísthenes Pinto, Aluisio Sampaio, Mário Amorim, Jorge Tufic, Jefferson Peres e Jair Jacqmont.

sábado, 14 de janeiro de 2012

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Uma análise do Eu – 9/13

Zemaria Pinto



Morressem as impressões do mundo externo e ficassem apenas as expressões desse mundo? Exprimirão estes versos de Augusto dos Anjos o que ele procurava com sua estética da dor? Ora, leitor, o Expressionismo, uma das muitas escolas que surgiram na Europa no início do século, rezam os manuais, busca expressar a percepção que o artista tem da realidade objetiva pelas reações e associações que ela lhe desperta. É “a expressão das vivências íntimas, da reação subjetiva aos estímulos exteriores, buscando ‘a verdade atrás das coisas’”, no entender de Celso Luft; ou ainda, como nos ensina Gilberto Mendonça Teles, é a arte criada a partir da “expressão da vida interior, das imagens que vêm do fundo do ser e se manifestam pateticamente.”

O que temos na poesia de Augusto dos Anjos, conforme podemos depreender dos poemas analisados: o “eu lírico” reflete a realidade observada, mas não de maneira “fotográfica”; pelo contrário, a realidade sempre nos chega deformada, absurda, muitas vezes grotesca ou patética. Os poemas da segunda fase, sem exceção, trilham esse caminho expressionista, sem qualquer vacilo. E como são a grande maioria do livro, podemos afirmar que, apesar de alguns poemas ainda ecoarem estilos do século XIX, é predominante nos poemas do Eu, o Expressionismo. 

Circunscrito, no início do século, praticamente só à Alemanha, é pouco provável que Augusto dos Anjos tenha tomado contato com o Expressionismo. Isto, entretanto, não nega nossa hipótese. Pelo contrário, reforça a importância do trabalho de Augusto dos Anjos, desenvolvido a partir das influências citadas, mas em paralelo ao que se fazia na Europa, criando, de maneira original, seus próprios processos expressionistas. No Brasil, o Expressionismo foi absorvido pelo furacão modernista, que deglutia as formas importadas, procurando abrasileirá-las. Na literatura (já que o movimento, a partir da pintura, espalhou-se por todas as artes), o maior representante da escola é o escritor tcheco Franz Kafka (1883-1924), autor, entre outras obras, de O Processo, A Metamorfose e O Castelo.  

É importante ainda observar, na análise de As cismas do destino, como a intuição de Augusto dos Anjos é privilegiada: além de criar (repetimos: a partir das influências comuns) uma nova forma de escrever poesia, ele antecipa alguns procedimentos típicos da poesia modernista. Observe-se novamente as estrofes onde o Destino mostra ao poeta que ele jamais entenderá o mundo. O autor usou da enumeração caótica, numa torrente de imagens que só fazem sentido naquele contexto, mas que, isoladamente, têm plasticidade e concretude para existirem como tal. Um processo absolutamente modernista.

A terceira estrofe, já citada, antecipa o Surrealismo, ao fazer a inusitada comparação:  
Lembro-me bem. A ponte era comprida,
E a minha sombra enorme enchia a ponte,
Como uma pele de rinoceronte
Estendida por toda a minha vida! 
A estrofe 14, por outro lado, antecipa o próprio Kafka, de quem ele jamais ouvira falar, mesmo porque o romance O Processo, que narra as desventuras de um cidadão nos labirintos da justiça, só seria publicado em 1925: 
Ah! Com toda certeza, Deus me castigava!
Por toda a parte, como um réu confesso,
Havia um juiz que lia o meu processo
E uma forca especial que me esperava! 
Mais adiante, na estrofe 34, ele antecipa o “Big Brother”, que o inglês George Orwell (1903-1950) criou no romance 1984, publicado em 1949, descrevendo uma sociedade totalitária, onde as mínimas ações de todos são ostensivamente vigiadas:    
Ninguém, de certo, estava ali, a espiar-me,
Mas um lampião, lembrava ante o meu rosto,
Um sugestionador olho, ali posto
De propósito, para hipnotizar-me! 

                   A sinonímia poeta/profeta está presente no imaginário ocidental desde Sócrates, via Platão, para quem “é quando estão possessos e inspirados por um deus que eles recitam todos esses belos poemas”. As “antenas da raça”, como os chamava Ezra Pound, colocam-se à frente de seu tempo como profetas porque usam a imaginação com mais liberdade que os demais artistas. Augusto dos Anjos era um desses poetas/profetas a quem só o tempo fará a justiça devida.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Fantasy Art – Galeria


The Oceans Daughter.
Randy Asplund.