Jaguaribe, o Rio Poeta
Luciano Maia
Para Sânzio
Azevedo
Este rio inventou muitas palavras
recortadas nos remansos intumescidos
de enxurrada,
metáforas sonoras do tempo das lavras,
escritas na vastidão de pautas
imemoriais,
guardadas na lembrança antiga dos
meninos de várzea.
O Jaguaribe me ditou poemas
chegados da infância de suas águas,
enlaçados aos sonhos camponeses
e aos retiros misteriosos
dos córregos sonâmbulos
que lhe entregam a dádiva
da tímida invernada sertaneja.
Este rio, poeta matuto do meu vale,
me ensinou uma canção interminável,
vinda dos primordiais sinais da fonte
pequena
até as enluaradas vigílias da sua
mansa barra.
Para não me esquecer dos seus poemas,
releio os passos lentos de suas
águas,
revisitando os areais tão vastos
de sua ilha fecunda.
Ó Parapuã, pátria dos cataventos!
Versos do rio! Cânticos fluviais,
rapsódias das luas campesinas,
ó terra interior,
promessas nas ramagens,
silêncio visitado de suspiros,
versos de amor, distância e
inquietude!
Rio Jaguaribe, poeta matuto do meu Vale.