Amigos do Fingidor

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Cristianismo: o maior dos processos de substituição



 João Bosco Botelho

 

    Existiram muitos heróis míticos na história das crenças e das ideias religiosas. A mensagem cristã de libertação modificou completamente a estrutura sociopolítica do mundo. Dois mil anos depois continua tendo sedução irresistível, capaz de penetrar na profundidade do sentimento humano.

    De acordo com os Evangelhos, Jesus Cristo veio ao mundo como o filho de Deus com poderes de curar e ressuscitar e anunciar a nova mensagem escatológica: o cristianismo como a Nova Aliança.

    Não é adequado deixar de pensar na existência de outras condições sócio‑políticas para sedimentar a incrível sedução que acompanhou a mensagem salvífica anunciada pelo cristianismo primitivo.

    A miséria atingira patamar insuportável para o povo ouvinte das primeiras mensagens cristãs. Naquela época, a popula­ção do Império Romano fora calculada entre 65 a 70 milhões de pessoas e somente perto de quatro milhões, segundo os dados demográficos levanta­dos pelo imperador Augusto, eram cidadãs romanas.

    Os hebreus, no oriente helenístico, que já adoravam um Deus único alguns milhares de anos antes, alcançaram a proporção de um para cada dez habitantes e faziam parte desse bizarro mosaico de mentalidades. Esses grupos judeus reproduziam, ao longo de mais de mil anos, as próprias experiências sagradas por meio de três elementos de coesão social: a fé monoteísta, a sinagoga e o sábado. Esse conjunto oriundo da memória oral estava transcrito nos livros sagrados (Tora e Talmud) e era utilizado também como instrumento de organização social.

    A tradição semita vivia a religião de fé monoteísta plena de espe­rança no futuro, capaz de modificar o intolerável jugo estrangeiro contestador dos elementos sagrados do judaísmo. A promessa de Deus aos profetas transformou os hebreus no povo do futuro que desfrutaria da terra prometida farta de leite e mel. Assim o judaísmo rompeu com o tempo cíclico e estabeleceu a crença num tempo final.

    É evidente que as ideias religiosas se manifestam de modo sincrético, sem que se possa estabelecer limites precisos onde começa uma expressão de religiosidade e termina a outra. O cristianismo primitivo, nascido no seio das massas populares judias perseguidas pela implacável dominação romana, foi aquecido pelas crenças mais antigas do judaísmo, que continuava esperando o seu herói mítico de salvação (Jo 1, 49) – "Então Natanael exclamou: Rabi, tu és o filho de Deus, tu és o Rei de Israel!"

    Ainda nesse ponto da história, o cristianismo era manifestação religiosa de povos oprimidos, desesperados para minorar os sofrimentos, pleno de sincretismo, onde os curadores e adivinhos de todos os matizes tinham espaço.

    Os primeiros padres da cristandade deslocaram grande parte da antiga escato­logia judaica e passaram com nitidez de uma concepção coletiva para valorizar mais o individual, onde a confissão a Jesus era a única salvação.

    Com a passagem de religião dos desprotegidos para a do poder dominador iniciou a perseguição aos curadores e adivinhos não alinhados com a nova ordem (At 16, 16‑18).

    Mesmo existindo ouros vetores, na Europa central, o processo de cristianização abandonou completamente os cuidados coletivos com a saúde, alimentação e higiene das práticas sociais do judaísmo. O tipo da arquitetura, do arco romano ao arco gótico, e o agravamento das epidemias que castigaram a Europa durante o medievo estão inseridos nesse equivocado processo de substituição.