Amigos do Fingidor

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Cem Anos de Solidão: do caos ao caos

Zemaria Pinto




Poucos livros têm a unanimidade, de crítica e de público, de Cem Anos de Solidão, do colombiano Gabriel García Márquez. Em 1967, quando foi lançado, ele já publicara quatro outras ficções, O Enterro do Diabo, em 55, Ninguém Escreve ao Coronel, em 57, além de Os Funerais da Mamãe Grande e O Veneno da Madrugada, ambos de 62, e não vendera mais que 700 exemplares de cada. Foi somente após o extraordinário sucesso de Cem Anos de Solidão, 8 mil exemplares vendidos só na primeira semana, que o mundo tomou conhecimento de García Márquez.

Capa de uma edição lá dos anos 1970.
Cem Anos de Solidão conta a saga da família Buendía. O patriarca José Arcadio Buendía e a matriarca Úrsula Iguarán, primos entre si, fundam a vila de Macondo, cujo único contato com o mundo dá-se a partir das visitas anuais do cigano Melquíades e sua trupe. O ímã, a lupa, a alquimia, a fotografia, o gelo e a dentadura postiça são algumas das novidades que Melquíades introduz na ingênua e pacata Macondo, enquanto esta vivia aquela fase que Freud chamaria de “beatitude de origem”. Marshall McLuhan observa que os homens “criam as ferramentas, e as ferramentas, por sua vez, recriam os homens”. Desde a Bíblia ou o Corão todo avanço tecnológico transtorna e desumaniza o homem ou, seguramente, modifica-o em definitivo. A cada visita de Melquíades a Macondo, a cidade se transforma, e mesmo quando, vítima do tempo, ele deixa de frequentá-la, seus portões já estavam escancarados à perversidade do progresso. Ao longo de cem anos e cinco gerações, García Márquez conta, num ritmo vertiginoso, a história de Macondo, a partir da história dos Buendía, desde a travessia, por dois anos, do imenso pântano que nunca os levaria ao mar até a destruição final, prevista nos pergaminhos de Melquíades. Do gênesis ao apocalipse sem redenção. Do caos ao caos. 

Da geração seguinte, a figura mais espetacular, cuja presença permeia toda a narrativa, é a do Coronel Aureliano Buendía, que promoveu 32 revoluções, tendo perdido todas, e teve 18 filhos, de 18 mulheres diferentes, todos assassinados. A personagem do Coronel é uma bela alegoria da frustração revolucionária que se abate sobre a história da América Latina. Doce quase sempre, cruel quando necessário, o Coronel Aureliano Buendía torna-se um herói nacional, mas na cosmogonia de Macondo, sua função é a do herói primordial. Muito mais que seu pai, o fundador da cidade, que apodrece de velhice e loucura amarrado a um tronco no quintal, Aureliano Buendía transforma-se em vida num mito. O poder, ainda que não o poder instituído, torna-o solitário, isola-o do mundo. A solidão é uma das recorrências da obra de Gabriel García Márquez, desde aquele coronel a quem ninguém escrevia, passando pelo patriarca em seu palácio tomado pelas vacas, ou o Santiago Nasar, cuja morte fora anunciada sem que nada fosse feito para evitá-la, ou, ainda, a infanta Cândida Erêndira, solitária em sua cama, rodeada de machos ávidos pelo seu sexo barato.

A estrutura fabulosa de Cem Anos de Solidão jamais é gratuita: García Márquez passa ao leitor a segurança da irrealidade nos acontecimentos fantásticos ou sobrenaturais. Não há exageros. Tudo se mescla de maneira plausível para o leitor, como a presença constante do espectro de Melquíades. Esta não é uma invenção do maldenominado “realismo fantástico”: Shakeaspeare já fizera isso. Maurício Babilônia, que viria a ser o pai do último Buendía, aquele que testemunharia a queda de Macondo, tinha sua presença anunciada pela grande quantidade de borboletas amarelas que o seguiam por toda parte. Remédios, a bela, que despertava paixões mortais mas se mantinha pura e absolutamente alheia ao mundo, eleva-se aos céus numa tarde de sol levada por um “vento de luz”... O que a crítica européia chamou de “realismo fantástico” escondia na verdade um forte preconceito contra uma literatura vinda do terceiro-mundo, exótica para eles. Além das influências óbvias de Kafka, Faulkner e Hemingway, está por trás da técnica de García Márquez uma aguda observação do cotidiano. Em entrevista a Paris Review, em 81, ele declarava que o tom narrativo utilizado em Cem Anos de Solidão fora baseado na maneira como sua avó costumava contar histórias para ele: “ela contava coisas sobrenaturais e fantásticas, mas as contava com a mais completa naturalidade”. Ao escritor cabe dar credibilidade àquilo que escreve, por mais irreal que possa parecer numa primeira leitura, ou não haveria literatura. A transformação da realidade é condição elementar no processo de criação, ou não haveria arte. Ora, se Cem Anos de Solidão é um mito da criação, ou melhor, uma cosmogonia, da criação à destruição, ou, ainda, como resumiu Harold Bloom, é “uma Bíblia”, não se deve estranhar que esteja eivada de histórias fantásticas, como todos os livros sagrados. Pois o realismo maravilhoso, ou fantástico, os conceitos se confundem, é apenas isso: a forma mais antiga de se fazer literatura.

Com seus portões abertos ao mundo, e desde que Melquíades profetizara que “dentro em pouco o homem poderá ver o que acontece em qualquer lugar da terra, sem sair de sua casa”, Macondo deixa de se espantar com o mundo real, e sua irrealidade caribenha assume foros de pólis civilizada: a navegação, a estrada de ferro, os estrangeiros, e uma inevitável companhia bananeira, tomam conta da cidade e da quarta geração dos Buendía, com a mesma força com que as incontáveis guerras destruíram a terceira geração, até que uma chuva de quatro anos, onze meses e dois dias começa por devolvê-la às origens. A degradação e a decadência física e moral minguam, aos poucos, Macondo e os Buendía.

Da última geração, Aureliano Babilônia, o sobrevivente antes do fim, decifra os códigos deixados pelo velho cigano e percebe que naqueles pergaminhos estava escrita a história de sua família, “inclusive nos seus detalhes mais triviais, com cem anos de antecipação”. Somente no último parágrafo percebemos: o texto que estamos lendo é, na verdade, o texto de Melquíades; e o narrador, que em princípio parecia estar fora da trama, onipresente, é o próprio Aureliano Babilônia, numa inversão classificada por Mario Vargas Llosa como “deicídio”, porque “a realidade fictícia, no instante de desaparecer, canibaliza seu próprio narrador para destruir-se com ele, criando a ilusão de que nada existe fora da realidade ficcional”.

Aureliano Babilônia, o último Buendia, antes de chegar ao verso final do manuscrito, já havia “compreendido que não sairia nunca daquele quarto, pois estava previsto que a cidade dos espelhos (ou das miragens) seria arrasada pelo vento e desterrada da memória dos homens no instante em que (ele) acabasse de decifrar os pergaminhos e que tudo o que estava escrito neles era irrepetível desde sempre e por todo o sempre, porque as estirpes condenadas a cem anos de solidão não tinham uma segunda chance sobre a terra”.

Obs: Publicado no Amazonas em tempo, por ocasião dos 30 anos do livro, em 1997.