Pedro Lucas Lindoso
Meu amigo Chaguinhas me relata que um cliente do Sudeste
precisava de uma certidão a ser obtida junto a um cartório em Coari. Chaguinhas
lhe disse que era impossível obter o documento para o mesmo dia. Não havia voo
de Manaus para Coari naquela data. Perguntada a distância entre Manaus e Coari,
Chaguinhas disse que não chegava a 400 km. Então, o cliente pediu a Chaguinhas
para mandar um carro lá. Despesas por conta dele.
Os amazonenses sabem que não há estrada de Manaus para Coari.
Mas o pessoal do Sul desconhece a nossa realidade.
Certo dia, quando ainda havia horário de verão, recebi uma
ligação de um call center às 6:00 horas da manhã. Argumentei o inconveniente
com a atendente que, em total desconhecimento sobre fusos horários, contra
argumentava:
– Mas aqui em São Paulo são oito horas, senhor.
Em recente concurso público de nível federal algumas pessoas
perderam a prova. O portão fechou pelo horário de Brasília.
O mundo inteiro fala sobre a biodiversidade da Amazônia.
Fala-se muito sobre a riqueza de nosso ecossistema. Mas esquecem que aqui
existe uma sociedade. Há indígenas, na floresta e nas cidades, há os
ribeirinhos, as sociedades tradicionais. Portanto, não há que se falar somente
em biodiversidade. É importante reconhecer a nossa sociobiodiversidade.
Os estatutos da ONU sobre biodiversidade preconizam que a
utilização dos recursos naturais deve respeitar a cultura e os costumes das
populações locais.
Foi criado um conselho para a Amazônia. Espera-se que sejam
ouvidos os povos da região. Os povos da Amazônia construíram relações materiais
e espirituais que se entrelaçam com esse maravilhoso ecossistema.
Há saberes, tradições, conhecimentos e uma diversidade
cultural que precisa ser respeitada. Mesmo porque acredita-se que esses
conhecimentos levam, ou melhor, possibilitam, a manutenção do ecossistema, a
sobrevivência da floresta. A manutenção da própria vida como um todo.
Chaguinhas e eu
chegamos à conclusão de que a Amazônia é um enigma para os brasileiros do
Sudeste. Eles parecem que não nos conhecem mesmo. Para decifrar esse enigma que
é a Amazônia, o conselho deve privilegiar e ouvir verdadeiros amazônidas. Senão,
a região continuará sendo desconhecida.
E o enigma, indecifrado.