Amigos do Fingidor

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Poesia e leitura nos dias de hoje

 

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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

A poesia é necessária?


Gaza

Claudio Daniel

Para Ualid Rabah

I


escuras são as palavras
do canto:
demolidas
como as casas
na faixa de gaza.
shemá israel!
adonai eloheinu
adonai ehad.
espectros
torvos
arrastam fardos
fiapos
farrapos
de si mesmos.
pedras
queimadas
ruínas
de vidas
mutiladas
torvo horror
medonho
furiais
furiais
furiais
ínferos
antros
infernais
fomes corcundas
farpas arames
fumaça
turvas
antiflores
sob a lua de gaza

  


terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Picância da murupi

Pedro Lucas Lindoso

 

Neste carnaval recebemos a visita de um casal amigo de São Paulo. Ela, ex-colega de trabalho. Ele, biólogo, ora pesquisando pimentas. A vinda a Manaus não consistia somente em ver o teatro ou o encontro das águas. O principal objetivo de nosso amigo biólogo era conhecer, provar e levar para seu laboratório em São Paulo a nossa famosa pimenta murupi.

Como eu gosto de pimenta, especialmente a murupi, fui logo dando meus conselhos. Disse que deveria procurar a murupi da bundinha. Era essa mesma que o rapaz queria. E eu, chovendo no molhado. Ele explicou que o nome se deve ao formato da ponta arredondada. É a capsicum chinense. Tem ardência forte, com sabor cítrico frutado bem marcante.

Então você já provou nossa verdadeira murupi? Ele disse que não. Só conhecia de livros e artigos de outros pesquisadores. Encontrou algumas em São Paulo. Mas acha que são variáveis enxertadas. Não tem a ponta arredondada. Foi a dois supermercados e só encontrou a variável, sem a ponta arredondada.

Claro, a verdadeira murupi é a da bundinha, lhe disse. Inclusive é menor que essas “fakes”. Vamos procurar nas feiras. Fomos ao Mercadão. Infelizmente, só tinha murupi sem bundinha.

De fato, as menores são mais ardidas. São retorcidas e mudam de cor do verde claro para amarelo ou laranja quando maduras.

Fomos encontrá-las na Feira do Produtor, na Zona Leste. Foi uma alegria. Aprendi que a ardência é causada pela Capsalsina. Um composto químico que estimula os perceptores de calor na boca e na pele. A murupi da bundinha é ardida. E perguntei logo o que se deve fazer para diminuir o ardor?

Deve-se comer alimentos gordurosos como leite, iogurte, azeite, por exemplo. Ou então ácidos como limão e vinagre. A água pode espalhar a picância. Não se deve tomar. Muita gente parece não saber isso.

Foi então que perguntei se podia se medir a picância. Claro. Existe a escala de Scoville. Mede o teor de Capsalsina. Existem faixas da escala. “Scoville Hot Unity” (SHU). A leve vai de 100 SHU a 2.500 SHU. Média, de 2.500 SHU a 30.000 SHU. Quente, de 30.000 SHU a 100.000 SHU. E extra picante, de 100.000 SHU a 300.000 SHU. Acima de 300.000 SHU é extremamente picante. A murupi da bundinha tem ardência acima de até 100.000 SHU. Nossa! Muita ardência. Quanta picância!


domingo, 22 de fevereiro de 2026

Manaus, amor e memória DCCLXIII


Rua Inácio Guimarães, nos Educandos, década de 1970.
Colaboração: Cel. Roberto Mendonça.

 

sábado, 21 de fevereiro de 2026

O Mulateiro do Clube da Madrugada pede socorro no Centro Histórico de Manaus

O Mulateiro, na praça Heliodoro Balbi, 
onde o Clube da Madrugada nasceu.
Texto: Juscelino Taketomi.
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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Poetas, filósofos e xamãs

 

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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

A poesia é necessária?

 

O eu coxo ou o homem-linguado

            Antônio Cunha

 

Tenho a face torta

Por desdenhar da vida

 

Tenho as pernas tortas

Por desandar na vida

 

Tenho a visão torta

Por desvendar a vida

 

Tenho a alma torta

Para que caiba em mim

 

Deus escreveu-me torto

Por linhas incertas



terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Que dor é essa!?

Pedro Lucas Lindoso

 

Domingo de sol. Mas teve um pouco de chuva. Passou. A meninada não para de correr. Chama a atenção os que jogam futebol. Está rolando aquela bola. Os menores brincam de pique manja. A curuminzada não para quieta. Mas o bom é que a bola corre solta. Bendito campinho de futebol.

Os mais velhos aproveitam a delícia de um tambaqui assado na brasa. Estão todos num sítio, lá para as bandas do Tarumã.

De repente, um dos curumins da bola chega ofegante. Diz estar sentindo uma dor. “Bem aqui do lado”. Tia Idalina, em férias de Carnaval em Manaus, foi logo diagnosticando:

– Isso é dor de burro, menino. Pega aí uma plantinha e põe na cintura do calção que passa.

O tio do menino, que é médico, tranquilizou a todos explicando tratar-se de dor aguda e pontual na lateral do abdômen, comum em corredores e atletas, tecnicamente chamada de dor abdominal transitória, relacionada ao exercício.

Esses meninos fizeram muito esforço. Não fazem intervalo. Pior! Não sabem respirar adequadamente. Ou então deve ser porque acabaram de comer e o diafragma se “esforçou” muito. Foram logo jogar bola. Deve desaparecer. É só pararem um pouco de correr que passa.

Lá vem mais dois. Que dor é essa? Tia Idalina repetiu o diagnóstico e a receita. Mudou só o nome da dor. É dor de facão. Põe uma plantinha na cintura. Vai passar.

Mas a garotada continuava na bola. Um bando de fominhas. São jovens, bons corredores. Não temem dor de burro. Nem dor de facão, como diz o outro. Encaram a dor e a risada com a coragem de meninos do século 21. Jogam futebol olhando memes de jogos do brasileirão. Comem barrinhas de suplementos que caem na hora certa… ou na hora errada. É quando a dor de burro vem conhecer cada costela desses projetos de craque de peladão.

Um dos rapazes, sentindo a dor que vem de lado, pensa alto: “Calma, dor, a gente só quer terminar a pelada sem tropeçar na própria dignidade.”

 O outro curumim responde: – Ela é esperta: chega sorrateira, igual mucura que aparece sem avisar.

O tiozão médico interrompe: – Vamos respirar: inspira, inspira… solta. Respira alto, menino.

  Os rapazes terminam o jogo com sorrisos tortos, respiração rápida e a promessa de que a próxima bola será mais divertida. Com mais memes, mais água e mais energético. E se despedem daquela dor chata. Achando graça dos nomes que os coroas deram para aquela dorzinha incômoda. E dizem todos: “Até a próxima, dor!”

E a pergunta final que necessita de uma resposta honesta e precisa. Afinal, tio. Essa dorzinha chata que a gente sente. Que dor é essa? Dor de burro ou de facão? A resposta veio na lata.

Quando eu era menino, isso era chamado de dor de veado!

 

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Manaus, amor e memória DCCLXII


Carnaval de 1913.

 

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Literatura: tradição e modernidade

 

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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

A poesia é necessária?

 

Soneto profético

Antonio Carlos Secchin

 

A bola de cristal é opaca e preta,

nela pouco se vê ou se pressente. 

O vidro estilhaçado de uma greta

libera a luz noturna do presente.  

Antevejo a raiz de uma semente

incapaz de dar paz a este planeta,

pois você, o jasmim e a violeta

florescem contra mim feito serpente.

Enxergo nada além desse horizonte,

onde ao escuro sucede o mais escuro.

O certo é não prever nenhum poente

que possa me levar para o futuro.

Na bola opaca eu leio, transtornado:

seremos bem felizes no passado.

 

 

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

O incrível homem sem sombra

 Pedro Lucas Lindoso

 

Um homem subia o rio remando sua canoa. De repente, um bordejar. A sombra do caboclo, refletida nas águas do rio, desaparece.

Inacreditavelmente, uma enorme sucuri comeu a sombra do homem. Desse dia em diante o caboclo ficou conhecido como o homem sem sombra. Essa história está contada no livro de meu amigo Hélito de SouzaGuajará. Causos em prosa e verso.

Verdade ou não, fiquei matutando como teria sido o acontecido. A canoa balançando como quem dança uma toada de boi. E a sucuri atrás. E a sombra, que antes era companhia inseparável do ribeirinho, projetada no rio, vira história de pescador. Mas como seria para um homem da floresta viver sem sua sombra? Como acender o fogo sem o auxílio da sombra?   O fósforo deve tremer. A fumaça possivelmente escreveria ruidosas figuras mitológicas que apavoram os povos da floresta. E o vento, curioso, passaria a sussurrar no ouvido do homem coisas surrealistas.

Estar sem sombra modificaria totalmente o cotidiano do caboclo. Sem sombra, o tempo parece tropeçar na rotina da floresta.  O sol sobe, desce, sobe de novo, como se estivesse perdido. Entre o Passado, o Presente e o Perder-se-sombra. Ainda assim, o caboclo encontra maneiras de contornar a falta da sombra.  Aprende a andar de cabeça erguida.  Usa o peso da carga nas costas para lembrar que o corpo ainda tem presença, mesmo sem a sombra.

Pede aos espíritos da floresta, à mãe d’água, aos botos. Ao curupira, às onças e até aos macacos que lhe emprestem seus contornos de luz. Chega a noite e a falta da sombra, que foi comida pela sucuri, é motivo para o caboclo meditar. Cochichando para a lua, pergunta: Se eu não tiver sombra, serei sombra do que fui? Ora, minha sombra pode ter ido, mas o meu jeito de caminhar ficou. Eu já aprendi a ouvir os passos do chão e   sentir o chão sem a sombra.

E os macacos riem da situação. O vento também sorri e aplaude com folhas. A sucuri, quem sabe, mastiga a sombra discretamente no fundo do rio. O Curupira, guardião da floresta, convoca os animais para uma reunião de emergência.  O macaco prego avisa que vai fazer um show de stand-up. E grita: Bem-vindo ao show O Homem Sem Sombra. Mas não dá certo. A bicharada toda querendo tirar fotos. Montaram um grupo de whatsapp.  Amigos Antes, Depois e Sem Sombra”.

Todos da floresta dão risada da situação. Os macacos batucam em troncos como se fosse o Festival de Parintins. Enquanto isso, a sucuri lá no fundo do rio, continua mastigando a sombra do caboclo. Em doses homeopáticas. Num antropofágico e total silêncio.

O caboclo, sem sombra, parece estar conformado com sua sina. E termina por se ver um homem, mesmo sem sombra, mas um homem das águas, um homem de fogo, um homem inteiro, um homem da floresta. Só que sem sua sombra.

E a floresta, os bichos, o curupira e os botos, cúmplices da sucuri, lembram ao caboclo que a vida continua. Mesmo sem sombra, com mais risadas, menos reflexos e muita coragem de se adaptar às surpresas e revezes que só acontecem na nossa fantástica, densa, pitoresca e perigosa floresta das chuvas.

 

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Adrino Aragão (6/10/1936 – 7/2/2026)


Para saber mais sobre Adrino aragão, clique aqui.

 

Manaus, amor e memória DCCLXI

 

Rua Urucará, no bairro de Cachoeirinha, anos 1970.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

A poesia é necessária?

 

Naquele remoto agora

Alexei Bueno

Naquele remoto agora

Há um vulto que, rente ao muro,

Consulta, abstraído, a hora,

De quando era o seu futuro?

 

Naquele agora remoto

A folha até hoje espera

A brisa que a atire ao esgoto,

Mas nada em torno se altera.

 

Remoto agora, naquele

Lapso eu era e sou eu.

Brilhava na minha pele

O sempre o mesmo outro céu.


terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Entre Tristão e Tritão

Pedro Lucas Lindoso

 

O drama de Tristão e Isolda, por alguma razão que desconheço, era uma das referências constantes de vários mestres do Departamento de Letras da UnB. Isso no final dos anos de 1970, quando cursei Letras.

Não só pelos professores de Literatura Medieval Inglesa e Shakespeare. Mas também os que lecionavam outras literaturas. Era comum os mestres se referirem a trágica história de amor proibido entre o cavaleiro Tristão e a princesa irlandesa Isolda. Minha filha Marina, que esteve por lá vinte anos depois, parece concordar comigo.

Na história, Tristão é mandado a Irlanda para buscar Isolda, prometida ao Rei Marcos, seu tio. Na viagem de volta, Tristão e Isolda bebem uma poção mágica.  A bebida era destinada à Isolda e ao Rei Marcos. Tristão e a princesa bebem a poção por engano e se apaixonam.

Mesmo casada com o Rei Marcos, Isolda e Tristão, apaixonados, iniciam um romance secreto.  Há várias situações de separação, encontros e desencontros secretos, com uso de disfarces e simulação. O romance, porém, é descoberto.

Tristão é expulso do reino e casa-se com outra mulher, também chamada Isolda. Ferido de morte, Tristão manda chamar a primeira Isolda, a da Irlanda, para curá-lo.

A outra Isolda, sua esposa, mente ao dizer que ela não virá. Há outro engano envolvendo a cor das velas do navio. Enganado, ao ver o barco voltar sem a amada, Tristão morre.

Ao vê-lo morto, Isolda morre de tristeza. Os dois corpos são encontrados abraçados e entrelaçados.

A história veio à tona porque Catarina e Isadora, filhas de Marina, vestidas de Ariel, a pequena Sereia, querem que eu seja o Tritão. No conto da Disney, baseado em outro de Andersen, Tritão aparece de barbas brancas. Na mitologia, entretanto, Tritão é filho de Poseidon, sendo um jovem e guapo ser das águas.

A princesa Ariel tem mais sorte que Isolda e que a original, de Andersen. No mundo mágico de Walt Disney, Ariel se casa com o príncipe Eric e vivem felizes para sempre.

E eu, o vovô da história, fiquei matutando entre Tristão e Tritão. Mesmo porque um não tem nada relacionado ao outro. Acabei por escrever essa crônica.

 

domingo, 1 de fevereiro de 2026

Manaus, amor e memória DCCLX

 

Cine Popular, depois Cine Pop, ficava na esquina da Silva Ramos com Barcelos.