Amigos do Fingidor

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Eu sou Frankelda

Tainá Vieira

 

No final de semana passado, assistimos, em família, ao filme Soy Frankelda. Uma animação mexicana de fantasia, dirigida por Arturo Ambriz e Roy Ambriz, emocionante e muito significativa.  Emocionante porque esse mundo da fantasia consegue nos tirar do mundo enfadonho que é a vida, na maior parte; e significativa porque narrativas ousadas como essa, que abraçam o grotesco, o sombrio e o inquietante, nos obrigam a olhar novamente para a própria vida. Elas nos lembram que os monstros nunca existiram apenas nos livros ou nas telas; eles sempre encontraram maneiras de caminhar entre nós. Nesse sentindo, a história da corajosa Francisca Imelda é um convite para ampliar nossa perspectiva sobre como lemos e interpretamos os sinais que todas as expressões artísticas nos apresentam diariamente.

A arte nunca fala apenas de si mesma. Ela fala de nós, de nossos medos, de nossas violências, de nossas ausências e dos silêncios que insistimos em naturalizar. Talvez por isso tantas histórias pareçam tão fantasiosas quando, na verdade, apenas estampam aquilo que a realidade já faz com crueldade. E sim, vou insistir na mesma linha de pensamento. Vou falar sobre o mesmo assunto tantas vezes quantas forem necessárias, porque, em todos os séculos, a mesma história continua sendo contada, apenas em idiomas diferentes. Os cenários mudam. Os figurinos mudam. As personagens recebem novos nomes. As tecnologias avançam, mas o enredo permanece assustadoramente semelhante.

A história pode até se fragmentar ao longo do tempo; as personagens são renovadas, contudo, o cerne, a essência enraizada nas mentes dos algozes que se proclamam detentores do saber supremo, continua intacta onde quer que seja. É sempre a mesma necessidade de controlar quem pode falar, quem pode escrever, quem pode criar e quem merece ser lembrado. E nós estamos aqui justamente para isso: insistir em expor e expurgar esse mal que atravessa todos os espaços e que teima em continuar mesmo percebendo que a sua presença já não é mais tolerada.

É por isso que estamos sempre no front, olhos atentos a todo instante para capturarmos quaisquer sinais positivos que nos ajudem nessa luta, foi assim que encontrei Francisca Imelda, a protagonista da narrativa. Quando criança, ela sonhava em ser escritora, mas sua maneira de imaginar e contar histórias era considerada absurda demais. Como poderia uma criança e, pior ainda, uma menina, pensar daquela forma? Sua imaginação era tratada como desvio. Sua criatividade, como ameaça. Mais tarde, já jovem, ouviu de um editor que uma mulher não poderia escrever daquele jeito. Essa cena me atravessou de uma maneira forte demais. Por que será? Talvez porque, de uma forma ou de outra, essa ainda seja uma história que conhecemos bem. Mudam-se as palavras, mas permanece o mesmo julgamento.

Quantas mulheres tiveram seus sonhos enterrados antes mesmo de florescerem? Quantas desistiram porque aprenderam cedo que precisariam pedir licença para existir intelectualmente? Quantas boas histórias foram publicadas sob pseudônimos, atribuídas a homens ou simplesmente esquecidas por que suas autoras ousaram pensar além do que lhes era permitido? E quantas obras extraordinárias ficaram escondidas nas margens da história, esperando que alguém finalmente lhes devolva a voz? Verenilde Pereira é um grande exemplo disso. Sua escrita permaneceu durante décadas distante do reconhecimento que merecia, como acontece com tantas outras mulheres cujas produções são tratadas como periféricas apenas porque desafiam a lógica de quem sempre acreditou possuir o monopólio da literatura e do pensamento. Mas hoje, o livro Um rio sem fim atravessa tantos territórios sem pedir licença porque ele não precisa e nunca precisou de disso para existir.

Voltando ao filme, Frankelda abandona o seu mundo “real” e mergulha no submundo de suas próprias criações. Um lugar onde as histórias possuem corpo, respiram, sentem medo e desejam existir. Mas é justamente ali que suas narrativas são roubadas por um contador de histórias ultrapassado, egoísta e profundamente machista. Um personagem convencido de que jamais existirá alguém capaz de escrever melhor do que ele. Alguém tão embriagado pela própria superioridade que acreditava possuir o direito de tornar sua toda criação que lhe despertasse admiração. É impossível não reconhecer esse personagem para além da fantasia. Ele representa uma figura histórica, representa todos aqueles que confundem conhecimento com propriedade. Que acreditam que inteligência é território privado. Que transformam o saber em instrumento de poder e fazem do apagamento alheio a condição para manterem intacta sua falsa grandeza.

É assim que pensam muitos dos que se consideram “grandes intelectuais”. Convencidos de sua própria imortalidade, recusam-se a aceitar que novas formas de contar histórias possam surgir. Permanecem encapsulados em um mundo de soberba e de uma pieguice arcaica, incapazes de perceber que a literatura é um organismo vivo, que respira, muda de pele e renasce a cada geração. Estão tão ocupados contemplando a própria imagem que deixam de perceber o sol novo que insiste em nascer todas as manhãs. Mas, Eu sou Frankelda não é apenas um filme sobre monstros, fantasmas ou mundos imaginários. É, sobretudo, uma narrativa sobre o preço de existir com autenticidade. Sobre a coragem necessária para continuar criando quando tudo ao redor diz que a sua voz não deveria existir.

É sobre escrever mesmo quando tentam transformar a sua escrita em erro. É sobre imaginar mesmo quando insistem que a imaginação precisa caber em moldes pré-estabelecidos. Criar talvez seja o maior ato de desobediência que existe, porque toda criação inaugura uma possibilidade de mundo que antes não existia.  No fim, Eu sou Frankelda nos lembra que toda história que insiste em nascer merece ser contada. E talvez essa seja a maior vitória de todas: continuar escrevendo, apesar do medo, apesar das portas fechadas, apesar das tentativas constantes e grosseiras de silenciamento. Porque, não importa quantos “pesadeleiros reais” existam no mundo. Sempre nascerá uma Frankelda. Alguém disposta a rasgar o véu da cápsula onde a arrogância tenta esconder a própria insignificância. Alguém que compreenderá que as histórias nunca pertencem aos que as aprisionam, mas aos que têm coragem de lhes dar voz, independente das normas pré-estabelecidas.