Zemaria Pinto
O dia amanheceu como tantos outros para aquele
formigueiro decadente: Nimalino fazia o café, dava um beijo de despedida no
marido e se encaminhava apressado para a cama, procurando feito um doido o
celular debaixo do travesseiro.
(Marcos
Souza, em “Nimalino”, conto do
livro
Cidade decadente: personas)
Ao usar como epígrafe um fragmento de
texto do próprio autor, não quero estabelecer paralelos entre as duas obras,
mas sim conexões que fluem naturalmente de um livro para o outro, sem que eles percam
a independência que os justifica enquanto obras literárias que se projetam para
o futuro. Da invisibilidade à marginalidade, a cidade – antagonista – é configurada
como um organismo hostil, que molda a sua imagem e semelhança seus habitantes
e, feito um Chronos enfurecido, devora-os com sofreguidão.
O caro leitor não passará incólume pelo
primeiro capítulo deste Um Grande Circular, que, no título,
intertextualiza com Euclides da Cunha e toda a tradição da literatura
edenista/infernista que tem a Amazônia como síntese mal realizada do Paraíso
Perdido em oposição ao Inferno Verde. Marcos Souza sabe do que está falando,
por isso desperta seu anti-herói quase com carinho, evocando um tão distante e
tão próximo Gregor Samsa:
Quando
certa manhã Letério despertou de sonhos intranquilos, urgiu no seu íntimo um
ímpeto incontrolável de dar as caras ao mundo. (“Sol infernal, dilúvio divino”)
A metamorfose de Letério transforma-o de
modo inverso à metamorfose de Samsa, pois é isso que ele busca alcançar: uma
narrativa profundamente ligada às contradições da vida urbana em Manaus,
utilizando como protagonista-guia um personagem socialmente invisível. É ele
quem alimenta essa cidade antagonista.
A obra aborda temas como exclusão,
violência, mercantilização das relações humanas e espetacularização da miséria,
ao mesmo tempo em que propõe uma reflexão crítica sobre os limites da
civilização moderna e seus mecanismos de controle. Usando uma escrita marcada
pelo lirismo e pela oralidade regional, o autor transforma a cidade em um
espaço simbólico de opressão e sobrevivência. Não resisto a citar Bourdieu,
para quem a violência simbólica, “é a violência suave, insensível, invisível a
suas próprias vítimas, que se exerce essencialmente pelas vias puramente
simbólicas da comunicação [...] e do sentimento.”
Letério vive, por cerca de vinte anos, em uma tubulação de esgoto no bairro Tancredo Neves, afastado da vida social convencional. Essa condição extrema não é tratada apenas como miséria material, mas como um ponto de observação privilegiado. Do subterrâneo e das madrugadas, Letério elabora uma leitura crítica do mundo que o cerca, percebendo que a cidade funciona segundo uma lógica excludente, em que indivíduos valem pelo que produzem ou consomem. Ao circular pelas ruas à noite, ele se mantém fora do ritmo produtivo diurno, recusando-se a aceitar o modelo de vida imposto pela sociedade urbana. Esse é o âmago de uma poética da invisibilidade, que, alheio a Bourdieu ou a qualquer outro teórico, Letério elabora sem ter a mínima consciência disso, como um espasmo orgânico.
A oposição simbólica entre noite e dia é
um dos eixos centrais da obra. O dia representa vigília, trabalho sem prazer e
padronização social, enquanto a noite se configura como espaço de liberdade
relativa, anonimato e reflexão. É nesse intervalo temporal que Letério se sente
autorizado a existir. No entanto, mesmo nesse espaço de suposta liberdade, as
relações são marcadas pela violência, pelo medo e pela instrumentalização do
outro, o que evidencia que a exclusão não se restringe a um período do dia, mas
estrutura toda a vida urbana.
A relação entre Letério e Iriane aprofunda
essa crítica social. Iriane, uma auxiliar de cozinha, enxerga no protagonista a
possibilidade de estabilidade emocional e financeira, projetando nele
expectativas de ascensão social. O encontro entre os dois, porém, é marcado
pelo desencontro e pela frustração, revelando a dificuldade de estabelecer
relações genuínas em um ambiente regido por carências materiais e simbólicas. O
episódio evidencia ainda a solidão estrutural dos personagens, que buscam no
outro uma saída individual para problemas que são coletivos.
Outro aspecto relevante da novela é a
inserção do episódio do assalto à casa lotérica, narrado sob diferentes
perspectivas. A cena explicita a banalização da violência e sua transformação
em espetáculo midiático, denunciando a forma como a mídia e o poder público
manipulam informações e constroem narrativas convenientes. A multiplicidade de
pontos de vista rompe com a linearidade tradicional e reforça a ideia de que
não há verdades absolutas, apenas versões modeladas por interesses específicos.
A metalinguagem, presente nos diálogos
entre o autor-narrador e um editor fictício, contribui para a dimensão crítica
da obra. Ao questionar a coerência da narrativa, o editor representa o olhar
normativo da crítica tradicional, enquanto o narrador defende a legitimidade de
uma escrita caótica, fragmentada e desconfortável, tal qual a realidade que
procura retratar. Esse recurso reafirma o compromisso da novela com uma
literatura que não busca apenas agradar, mas provocar reflexão e – quem sabe? –
indignação.
Dessa forma, Um Grande Circular se consolida como uma obra de forte crítica social, que utiliza a invisibilidade como lente para examinar as estruturas urbanas, morais e econômicas da sociedade contemporânea. Ao acompanhar o percurso de Letério, o leitor é convidado a questionar os valores que sustentam a normalidade social e a reconhecer a humanidade daqueles que habitualmente permanecem invisíveis. A narrativa encerra-se reafirmando a ideia de circularidade: a cidade segue seu curso, enquanto os excluídos continuam girando à margem, presos a um sistema que os ignora, mas do qual não podem ser dissociados.
