Amigos do Fingidor

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Uma poética da invisibilidade em Um Grande Circular

 Zemaria Pinto

 

O dia amanheceu como tantos outros para aquele formigueiro decadente: Nimalino fazia o café, dava um beijo de despedida no marido e se encaminhava apressado para a cama, procurando feito um doido o celular debaixo do travesseiro.

 

(Marcos Souza, em “Nimalino”, conto do livro

Cidade decadente: personas)

 

Ao usar como epígrafe um fragmento de texto do próprio autor, não quero estabelecer paralelos entre as duas obras, mas sim conexões que fluem naturalmente de um livro para o outro, sem que eles percam a independência que os justifica enquanto obras literárias que se projetam para o futuro. Da invisibilidade à marginalidade, a cidade – antagonista – é configurada como um organismo hostil, que molda a sua imagem e semelhança seus habitantes e, feito um Chronos enfurecido, devora-os com sofreguidão.  

O caro leitor não passará incólume pelo primeiro capítulo deste Um Grande Circular, que, no título, intertextualiza com Euclides da Cunha e toda a tradição da literatura edenista/infernista que tem a Amazônia como síntese mal realizada do Paraíso Perdido em oposição ao Inferno Verde. Marcos Souza sabe do que está falando, por isso desperta seu anti-herói quase com carinho, evocando um tão distante e tão próximo Gregor Samsa:

 

Quando certa manhã Letério despertou de sonhos intranquilos, urgiu no seu íntimo um ímpeto incontrolável de dar as caras ao mundo. (“Sol infernal, dilúvio divino”)

 

A metamorfose de Letério transforma-o de modo inverso à metamorfose de Samsa, pois é isso que ele busca alcançar: uma narrativa profundamente ligada às contradições da vida urbana em Manaus, utilizando como protagonista-guia um personagem socialmente invisível. É ele quem alimenta essa cidade antagonista.

A obra aborda temas como exclusão, violência, mercantilização das relações humanas e espetacularização da miséria, ao mesmo tempo em que propõe uma reflexão crítica sobre os limites da civilização moderna e seus mecanismos de controle. Usando uma escrita marcada pelo lirismo e pela oralidade regional, o autor transforma a cidade em um espaço simbólico de opressão e sobrevivência. Não resisto a citar Bourdieu, para quem a violência simbólica, “é a violência suave, insensível, invisível a suas próprias vítimas, que se exerce essencialmente pelas vias puramente simbólicas da comunicação [...] e do sentimento.”

Letério vive, por cerca de vinte anos, em uma tubulação de esgoto no bairro Tancredo Neves, afastado da vida social convencional. Essa condição extrema não é tratada apenas como miséria material, mas como um ponto de observação privilegiado. Do subterrâneo e das madrugadas, Letério elabora uma leitura crítica do mundo que o cerca, percebendo que a cidade funciona segundo uma lógica excludente, em que indivíduos valem pelo que produzem ou consomem. Ao circular pelas ruas à noite, ele se mantém fora do ritmo produtivo diurno, recusando-se a aceitar o modelo de vida imposto pela sociedade urbana. Esse é o âmago de uma poética da invisibilidade, que, alheio a Bourdieu ou a qualquer outro teórico, Letério elabora sem ter a mínima consciência disso, como um espasmo orgânico. 

A oposição simbólica entre noite e dia é um dos eixos centrais da obra. O dia representa vigília, trabalho sem prazer e padronização social, enquanto a noite se configura como espaço de liberdade relativa, anonimato e reflexão. É nesse intervalo temporal que Letério se sente autorizado a existir. No entanto, mesmo nesse espaço de suposta liberdade, as relações são marcadas pela violência, pelo medo e pela instrumentalização do outro, o que evidencia que a exclusão não se restringe a um período do dia, mas estrutura toda a vida urbana.

A relação entre Letério e Iriane aprofunda essa crítica social. Iriane, uma auxiliar de cozinha, enxerga no protagonista a possibilidade de estabilidade emocional e financeira, projetando nele expectativas de ascensão social. O encontro entre os dois, porém, é marcado pelo desencontro e pela frustração, revelando a dificuldade de estabelecer relações genuínas em um ambiente regido por carências materiais e simbólicas. O episódio evidencia ainda a solidão estrutural dos personagens, que buscam no outro uma saída individual para problemas que são coletivos.

Outro aspecto relevante da novela é a inserção do episódio do assalto à casa lotérica, narrado sob diferentes perspectivas. A cena explicita a banalização da violência e sua transformação em espetáculo midiático, denunciando a forma como a mídia e o poder público manipulam informações e constroem narrativas convenientes. A multiplicidade de pontos de vista rompe com a linearidade tradicional e reforça a ideia de que não há verdades absolutas, apenas versões modeladas por interesses específicos.

A metalinguagem, presente nos diálogos entre o autor-narrador e um editor fictício, contribui para a dimensão crítica da obra. Ao questionar a coerência da narrativa, o editor representa o olhar normativo da crítica tradicional, enquanto o narrador defende a legitimidade de uma escrita caótica, fragmentada e desconfortável, tal qual a realidade que procura retratar. Esse recurso reafirma o compromisso da novela com uma literatura que não busca apenas agradar, mas provocar reflexão e – quem sabe? – indignação.

Dessa forma, Um Grande Circular se consolida como uma obra de forte crítica social, que utiliza a invisibilidade como lente para examinar as estruturas urbanas, morais e econômicas da sociedade contemporânea. Ao acompanhar o percurso de Letério, o leitor é convidado a questionar os valores que sustentam a normalidade social e a reconhecer a humanidade daqueles que habitualmente permanecem invisíveis. A narrativa encerra-se reafirmando a ideia de circularidade: a cidade segue seu curso, enquanto os excluídos continuam girando à margem, presos a um sistema que os ignora, mas do qual não podem ser dissociados.


Projeto Gráfico e capa: Wilson Prata
Fotografias: Samuel Liberato 
Apresentação: Zemaria Pinto
Temiporã Edições