Amigos do Fingidor

sexta-feira, 4 de abril de 2025

A lança de Anhangá: mais que um livro novo, uma nova literatura

 Zemaria Pinto

 

Relutei muito antes de escrever esta nota. Resisto ainda. Mas preciso seguir em frente. Começo pelo fim: a conclusão expressa no título.         

O livro de contos de Ricardo Kaate Lima, vencedor do Prêmio Literário Cidade de Manaus, de 2022, traz à literatura feita no Amazonas uma ramificação do gênero fantástico como ainda não víramos nas melhores páginas de Erasmo Linhares ou Adrino Aragão.

Na verdade, se “o fantástico é a suspenção da realidade e o maravilhoso é a realidade estendida”, como eu disse sobre os anões de Márcia Antonelli, estamos diante, em A lança de Anhangá, de um caso extremo de realismo maravilhoso, onde o não-real faz parte da realidade: uma paradoxal realidade não-real, que assume, muitas vezes, uma ambientação distópica de pura fantasia – fantasy art. Literatura em estado pleno.

Ricardo Lima assume o regionalismo que a literatura anêmica do “Sul maravilha” – lembrando a querida Graúna, criada pelo irmão do Betinho – insiste em fazer de conta que não existe. Os sete contos do livro trazem narrativas que contrapõem a gente comum e entidades que extrapolam a mitologia amazônica, como Anhangá, o demônio do título. Aliás, autores de peso, como Câmara Cascudo e Nunes Pereira, registraram que a grafia correta é Anhanga, mas a literatura – a melhor literatura, como Gonçalves Dias e Machado de Assis – registra Anhangá. Nenhuma dúvida. Mas o Anhangá de Kaate é menos um demônio que um justiceiro, na melhor tradição das Graphic novels.

Ambientados numa Amazônia futurista não muito distante, os contos de Kaate Lima colocam o leitor, de supetão, entre as “guerras lunares de Phobos e Europa”, ou “em algum lugar entre as Trevas Exteriores e as Terras Devastadas”. E pra não dizer que não falei das flores, registro sem spoilers a narrativa mais completa do livro, “O prelúdio da escuridão”, uma novela noir, para ser lida em preto e branco, com todas as nuances de cinza. Sim, novela, não apenas pela extensão, cerca de cem páginas, mas pela complexidade da trama e da narrativa.

No centro dos acontecimentos, passados numa cidade semidestruída chamada Manaus, assistimos ao confronto entre o agente federal Heitor Navarro e Anhangá, o senhor das trevas, sugador de almas. O pano de fundo é um país dominado pelo totalitarismo nazifascista, lembrando a ficção de George Orwell e a história real das guerras do século 20: o Big Brother, aqui chamado de Grande Líder e sua milícia de “pacificadores”, mais a palavra de ordem de Franco antes de acionar o garrote vil, traduzida literalmente, “Viva la muerte!”.

Os contatos com a história recente do Brasil são muitos, como o slogan oficial, sobre a foto do Grande Líder: “O enviado de Deus protege o Brasil do caos”. Substitua caos por “comunismo” e terá a impressão de um déjà-vu. Mas a ação do vigilante justiceiro não passava em branco nas camadas inferiores, economicamente, da população, que buscava a proteção não do Grande Líder, mas de uma entidade espiritual em quem pudesse confiar:

– Arrependam-se! O fim está perto! O Anhangá é o Cavaleiro do Apocalipse trazido pelo senhor Jesus!

Os velhos professores “aposentados” pelo Grande Líder sabiam que Anhangá é um servo de Yurupari, o Legislador divinizado, que se encontra como base em todas as religiões e mitos ancestrais. Tempos medonhos pedem tempos de mudança. Heitor Navarro percebeu isso.

A literatura de Ricardo Kaate Lima é mais que mero entretenimento: é uma prospecção profunda e simbólica do que nos espera no breve tempo que ainda temos pela frente.  

 

A Lança de Anhangá (São Paulo: Cachalote, 2024), de Ricardo Kaate Lima, foi lançado no segundo semestre do ano passado, e vem obtendo excelente recepção crítica. No Brasil.

 

quinta-feira, 3 de abril de 2025

A poesia é necessária?

  

A baforada do vazio

(fragmento de O drone de Yebá Buró)

Thiago Roney

 

Antes o mundo não existia

resistia o puro silêncio alado,

sempre incalculável,

do despovoado.

 

Antes o eu das coisas não existia

subsistia a poesia despida de fome,

sempre incessante,

do sem nome.

 

Antes o tempo não existia

persistia o instante bruto e contido,

sempre imóvel,

do infinito.

 

Antes o verbo não existia

insistia a voz muda e desmedida,

sempre ininterrupta,

do não-nascido.

 

Antes a forma não existia

remanescia o conjunto aliviado

sempre indizível,

do desabitado.



quarta-feira, 2 de abril de 2025

terça-feira, 1 de abril de 2025

Reflexões de Idalina

Pedro Lucas Lindoso

 

Tia Idalina me liga via whatsapp para me informar que desistiu de ir passear em Nova Iorque. Apesar de gostar muito da cidade, disse que é um desconforto usar banheiro por lá. Não tem bidé. Muito menos ducha.

Idalina não tem dúvidas de que o papel higiênico é a opção mais comum e prática. Mas discorda que seja totalmente eficaz na limpeza completa. Tem certeza que a relação do papel com as pessoas é ambivalente. Concorda que é prático e facilmente acessível. Mas gera uma montanha de resíduos. Quem nunca se pegou pensando na quantidade de árvores que se vão para manter esse hábito no mundo inteiro?

Advoga que o bidé é uma excelente opção para a limpeza completa e suave. Ora, o uso do bidé ajuda a limpar a área com água, sendo muito mais higiênico e confortável. Mas os americanos não usam. Uma das grandes contribuições dos franceses para a humanidade. Mas até eles deixaram de usar. Não se sabe o porquê. Os americanos com certeza não utilizam bidé em razão da colonização puritana. Os puritanos emigrados da Inglaterra eram moralistas rigorosos na aplicação de ideias e de costumes. Não usariam bidés, por certo. Titia tem umas teorias próprias e poucos ortodoxas. Mas deve ter razão.

E por que não adotam a ducha? É outra opção que permite a limpeza com água. É mais fácil de instalar em algumas configurações de banheiros.

Idalina ouviu dizer que no interior usam sabugo de milho e até jornal. Um horror. O uso do jornal pode ser arriscado devido à tinta e ao papel áspero. Já o sabugo de milho pode ser desconfortável. Mas é certo que a escolha do método vai depender das preferências pessoais e, claro, da disponibilidade dos materiais.

Disse à Tia Idalina que uma boa opção são os lenços umedecidos. Oferece uma limpeza mais suave e eficaz que o papel higiênico seco. Adverti titia de que ela deve escolher lenços que sejam biodegradáveis. Não podemos esquecer nossos princípios básicos de Ecologia. E ainda lhe disse que deve escolher lenços que não contenham produtos químicos irritantes.

Idalina vai reconsiderar e estudar a possibilidade de usar lenços umedecidos. Coisa que não existia na sua juventude.

Titia não tem dúvidas de que o uso da água, tanto no bidé como na ducha, são os mais higiênicos. E acrescenta: a ducha e o bidé são símbolos de um cuidado refinado. Oferecem uma abordagem mais delicada e definitivamente mais eficaz. Para Idalina a sensação de água fresca é revigorante e sinônimo de limpeza verdadeira.

Finalmente Idalina não abre mão de seu conforto e praticidade. E lembra-nos que a higiene é um ato de amor, por nós e pelo planeta.