Zemaria Pinto
Relutei
muito antes de escrever esta nota. Resisto ainda. Mas preciso seguir em frente.
Começo pelo fim: a conclusão expressa no título.
O livro
de contos de Ricardo Kaate Lima, vencedor do Prêmio Literário Cidade de Manaus,
de 2022, traz à literatura feita no Amazonas uma ramificação do gênero
fantástico como ainda não víramos nas melhores páginas de Erasmo Linhares ou
Adrino Aragão.
Na
verdade, se “o fantástico é a suspenção da realidade e o maravilhoso é a
realidade estendida”, como eu disse sobre os anões de Márcia Antonelli, estamos
diante, em A lança de Anhangá, de um caso extremo de realismo
maravilhoso, onde o não-real faz parte da realidade: uma paradoxal realidade
não-real, que assume, muitas vezes, uma ambientação distópica de pura fantasia
– fantasy art. Literatura em estado pleno.
Ricardo
Lima assume o regionalismo que a literatura anêmica do “Sul maravilha” – lembrando
a querida Graúna, criada pelo irmão do Betinho – insiste em fazer de conta que
não existe. Os sete contos do livro trazem narrativas que contrapõem a gente
comum e entidades que extrapolam a mitologia amazônica, como Anhangá, o demônio
do título. Aliás, autores de peso, como Câmara Cascudo e Nunes Pereira,
registraram que a grafia correta é Anhanga, mas a literatura – a melhor
literatura, como Gonçalves Dias e Machado de Assis – registra Anhangá. Nenhuma
dúvida. Mas o Anhangá de Kaate é menos um demônio que um justiceiro, na melhor
tradição das Graphic novels.
Ambientados
numa Amazônia futurista não muito distante, os contos de Kaate Lima colocam o
leitor, de supetão, entre as “guerras lunares de Phobos e Europa”, ou “em algum
lugar entre as Trevas Exteriores e as Terras Devastadas”. E pra não dizer que
não falei das flores, registro sem spoilers a narrativa mais completa do
livro, “O prelúdio da escuridão”, uma novela noir, para ser lida em
preto e branco, com todas as nuances de cinza. Sim, novela, não apenas pela
extensão, cerca de cem páginas, mas pela complexidade da trama e da narrativa.
No
centro dos acontecimentos, passados numa cidade semidestruída chamada Manaus,
assistimos ao confronto entre o agente federal Heitor Navarro e Anhangá, o
senhor das trevas, sugador de almas. O pano de fundo é um país dominado pelo totalitarismo
nazifascista, lembrando a ficção de George Orwell e a história real das guerras
do século 20: o Big Brother, aqui chamado de Grande Líder e sua milícia
de “pacificadores”, mais a palavra de ordem de Franco antes de acionar o
garrote vil, traduzida literalmente, “Viva la muerte!”.
Os
contatos com a história recente do Brasil são muitos, como o slogan oficial,
sobre a foto do Grande Líder: “O enviado de Deus protege o Brasil do caos”. Substitua
caos por “comunismo” e terá a impressão de um déjà-vu. Mas a ação do
vigilante justiceiro não passava em branco nas camadas inferiores,
economicamente, da população, que buscava a proteção não do Grande Líder, mas
de uma entidade espiritual em quem pudesse confiar:
–
Arrependam-se! O fim está perto! O Anhangá é o Cavaleiro do Apocalipse trazido
pelo senhor Jesus!
Os
velhos professores “aposentados” pelo Grande Líder sabiam que Anhangá é um
servo de Yurupari, o Legislador divinizado, que se encontra como base em todas
as religiões e mitos ancestrais. Tempos medonhos pedem tempos de mudança.
Heitor Navarro percebeu isso.
A
literatura de Ricardo Kaate Lima é mais que mero entretenimento: é uma
prospecção profunda e simbólica do que nos espera no breve tempo que ainda
temos pela frente.
A Lança de Anhangá (São Paulo: Cachalote, 2024), de Ricardo Kaate Lima, foi lançado no segundo semestre do ano passado, e vem obtendo excelente recepção crítica. No Brasil.