Pedro Lucas Lindoso
Portugal,
Brasil e demais países lusófonos festejam o Dia Mundial da Língua Portuguesa,
no dia 5 de maio. A data foi instituída pela ONU – Organização das Nações
Unidas.
Olavo
Bilac – poeta, jornalista e cronista –, considerado o príncipe dos poetas
brasileiros, tem entre seus sonetos mais famosos “Língua Portuguesa”. Bilac é
parnasiano por excelência. Seus sonetos são de extremo rigor técnico. Usa
muitas figuras de linguagem, inclusive o paradoxo, como nesse poema em que faz
loas a nossa língua. Vejamos:
Última
flor do Lácio, inculta e bela,/És, a um tempo, esplendor e sepultura:/Ouro
nativo, que, na ganga impura/A bruta mina entre os cascalhos vela...//Amo-te
assim, desconhecida e obscura,/Tuba de alto clangor, lira singela,/Que tens o
trom e o silvo da procela,/E o arrolo da saudade e da ternura!//Amo o teu viço
agreste e o teu aroma/De virgens selvas e de oceano largo!/Amo-te, ó rude e
doloroso idioma,//Em que da voz materna ouvi: “meu filho!”/E em que Camões
chorou, no exílio amargo,/O gênio sem ventura e o amor sem brilho! (*)
A
Língua Portuguesa é, antes de tudo, um diálogo entre continentes, vozes e
culturas diversas que se recusam a ficar quietas. Em cada canto lusófono, a
língua revela-se inculta e bela, esplendor e sepultura, como se o poeta Olavo
Bilac tivesse apontado não apenas paradoxos, mas a própria vida que se escreve
com fonemas, sotaque diversos e batidas do coração.
A
riqueza da língua está na sua capacidade de coexistir contradições e paradoxos
tão bem delineados por Bilac.
Inculta,
no sentido de viva, pulsante, que aprende com a fala do povo; bela, no sentido
de criar, renovar, envolver o falante e o escritor com imagens que atravessam o
tempo.
E
preciso celebrar a língua portuguesa. É ao mesmo tempo prisma de um povo e
ponte entre povos. Não é apenas um código. Ela é o fermento da fala cotidiana,
do verso livre, do humor que desata a tensão do dia a dia, do repente
nordestino que embala o canto de viola, das nossas toadas de boi. E ainda no
improviso do cotidiano que transforma dor em sorriso.
Importante
também é ressaltar a tradição filológica herdada de Portugal. Lá, onde a
gramática tem sobriedade e a pronúncia tem música. A língua em Portugal é
memória de descobrimentos, de história, de literatura que perscruta o mundo sem
perder a cadência da sua própria voz.
Angola,
Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Timor, Brasil. Cada país imprime o seu timbre, o seu modo de
dizer, a sua tradição cultural que se torna universal pela proximidade que a
língua oferece. Em cada país, o português se torna casa, escola, rua, poema.
A ideia
exposta por Bilac “Última flor do Lácio” traduz-se, hoje, não apenas como uma
homenagem ao latim que foi, mas a verdade inquietante de que o português floresce
de modo inculto e belo. E que se oferece aos neologismos, gírias, expressões
populares, que se reinventa no palco da linguagem digital, nas redes, nos memes
que carregam verdades simples, como o afeto e o riso.
Bilac,
ao falar do esplendor, podemos entender como o brilho que a língua joga ao se
adaptar a novas ideias, ao incorporar palavras de outras culturas, ao
transformar o modo de pensar com precisão e beleza. É o esplendor que o
Português permite que a ciência, a literatura, o jornalismo, a música, se
complementem em pompa, fausto, riqueza e vida.
Ao usar
a palavra sepultura, Bilac nos lembra nossas falhas e equívocos. Ao tempo em
que entende que há no Português uma
sepultura necessária. E preciso enterrar preconceitos que impedem o
crescimento, de usos que desumanizam, de velhas hierarquias que não reconhecem
a riqueza da diversidade linguística.
Neste 5
de maio, não celebremos apenas uma norma ou uma norma única. Celebremos, antes,
a capacidade da Língua Portuguesa de acolher o ontem, o hoje e o amanhã, sem
perder a sua essência. Celebremos as vozes que viajam de Portugal, atravessam o
Atlântico, chegam às praias do Brasil, às aldeias da África, às capitais da
Ásia e ao interior da nossa imaginação. Celebremos o português que é abraço,
debate, invenção, memória.
E,
assim, com um brinde à língua que sempre nos surpreende, ao idioma que, em cada
sotaque, em cada frase, em cada refrão, nos recorda que somos uma comunidade de
falantes, que aprendemos uns com os outros, que escrevemos juntos a história
que chamamos de lusofonia. Inculta e bela, esplendor e sepultura. Bilac nos
lembra que o português é tudo isso. A Língua Portuguesa é a casa onde cabemos
todos.
(*) BILAC, Olavo. Obra reunida. Org: Alexei Bueno. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1996.