Pedro Lucas Lindoso
O Bloomsday tornou-se uma tradição em
várias partes do mundo. Além da Irlanda, claro.
Existe em razão do clássico livro de James Joyce – Ulysses. O Bloomsday
interessa principalmente àqueles que gostam das Letras, Literatura em geral. O halloween, outra manifestação cultural
estrangeira, está sendo comemorado efusivamente no mês de outubro, no Brasil e
outros países.
As
tradições culturais que nos influenciam chegam de modos diversos. Algumas por
livros infantis. Outras por livros que se tornaram clássicos da Literatura
mundial. Como o Ulysses, obra-prima
de James Joyce.
O
Brasil, que nunca foi feito de uma só cor, de uma só língua, de uma só memória,
costuma receber tudo com curiosidade. Às vezes, com encanto. Às vezes com
exagero.
O Bloomsday, por exemplo, é uma dessas
tradições estrangeiras que chegam com certo charme discreto. Vem da Irlanda, de
James Joyce, de Leopold Bloom caminhando por Dublin em 16 de junho,
transformando um dia comum em literatura. Celebrar o Bloomsday é, de algum modo, celebrar a leitura, a cidade, o
passeio, a conversa de bar, o pensamento que se perde e se encontra. É uma
festa menos barulhenta, talvez por isso mais interessante. Não exige fantasia
comprada, não pede susto, não se impõe nas vitrines. Convida. Quem quiser
entra. E Manaus já entrou na onda. Sob a batuta do poeta, escritor e editor
Nelson Castro.
Já o halloween parece ter vindo mais
fantasiado de mercado do que de tradição. Abóboras iluminadas, bruxas de loja e
monstros em promoção. O problema é quando a importação vem com apagamento.
Somos um país multicultural, contudo, multiculturalidade não é empilhar
costumes estrangeiros. Não é apagar as
marcas dos povos originários que foram violentados e silenciados.
Se
temos espaço para Leopold Bloom caminhar por nossas ruas, pelo que eu,
pessoalmente, sou fascinado, também precisamos abrir passagem para os
encantados, os orixás, os caboclos, os mestres de tradição oral, os cantos
indígenas, os tambores negros, as festas de terreiro, os maracatus, os
congados, os bois, os carimbós, as ladainhas, os mitos, o Gambá, recentemente
reconhecido pelo Estado do Amazonas, por meio do COPHAM, Conselho do Patrimônio
Histórico e Artístico do Amazonas, como bem imaterial.
Tradições
que não vieram de fora porque já estavam aqui. O Gambá, espécie de tambor, é
presente em Maués e na calha do rio Madeira.
Talvez
o problema não esteja em celebrar o que vem de longe. O problema está em
esquecer o que mora perto. Uma cidade que lê Joyce pode muito bem celebrar
Jorge Amado, Machado de Assis, Carolina de Jesus e Cora Coralina, dentre vários
outros.
O
estrangeiro não precisa ser inimigo. O Bloomsday
pode nos lembrar que a literatura é capaz de transformar um dia qualquer em
celebração. Porque, no fundo, uma cultura viva é riqueza imaterial a ser
preservada. Pode passar um irlandês de chapéu, pode passar uma criança
fantasiada de fantasma, pode passar um tambor de Gambá chamando o povo, pode
passar um cortejo negro, pode passar uma liderança indígena lembrando que a
terra tem memória.
Que
venham, então, as tradições estrangeiras que nos ampliem, como o simpático Bloomsday. Mas que fiquem de pé, no centro da roda, as
tradições que nos fundaram.
Quanto
ao Bloomsday em Manaus, será
comemorado neste 16 de junho, sob a batuta de Nelson Castro. Mas é preciso ler pelo
menos alguns trechos de Ulysses, de
James Joyce. O que não é coisa fácil.