Pedro Lucas Lindoso
Dona
Graça trabalhava como merendeira em uma escola municipal. Além de cantina,
salas de aula, diretoria e banheiros, a escola possui uma biblioteca.
Infelizmente era pouco usada e até desconhecida por alguns alunos.
Quando
eu era menino em Brasília estudei na Escola Parque. O sistema Escola
Classe/Escola Parque foi idealizado pelo professor e pedagogo Anísio Teixeira.
Tínhamos aulas de Música. Artes, Natação, Artes industriais e Biblioteca. Sim,
aula de biblioteca. Não quis dizer aulas na biblioteca.
O que
se fazia na aula de biblioteca? Ora, apreendia-se a usar o dicionário,
diferenciar livro de ficção de não-ficção.
Conceitos como livros de referência, periódicos, jornais, revistas etc.
Para que servem e como usá-los. Mas o mais importante era o constante incentivo
para nos tornarmos leitores. Incentivados a um difícil hábito para muitos.
Gostar de ler!
Dona
Graça, a merendeira, mesmo sem ter tido aula de biblioteca, intuitivamente,
sabia que a leitura é um habito. Os
alunos devem ser não só incentivados, mas também ensinados a gostar de ler.
Não
havia bibliotecária na escola. Quem ficava na biblioteca era uma professora
asmática que fora readaptada. A readaptação deu-se porque a professora não
tinha mais condições físicas de dar aulas. Quando as escolas não sabem o que
fazer com readaptados, mandam tomar conta da biblioteca.
Dona
Graça depois de sua função na cantina ia para a biblioteca. Tornou-se uma
leitora voraz. E só tinha até a quarta série primária. Começou então a ajudar a
professora asmática a arrumar os livros, limpar o espaço e convencer os alunos
a ler.
Certo
dia a professora readaptada finalmente se aposentou. A diretora, para não
fechar a biblioteca, perguntou se Graça gostaria de ficar no lugar da
aposentada. Ela topou. Uma outra merendeira substituiu Graça na cantina.
A merendeira então pós em prática os planos
adiados da readaptada. Graça aliou-se às quatro professoras de Língua
Portuguesa. Promoveram concurso de poesia, de contos, de acróstico e até de
haicai. Às sextas comemorava-se aniversários de escritores. Preferencialmente,
autores portugueses e brasileiros. Mas qualquer celebridade da literatura
poderia ser comemorada. Os alunos faziam lanche comunitário. O projeto ficou
denominado de “merenda com leitura”. Um sucesso. Dona Graça e as professoras de
Português montaram cinco estratégias para levar as crianças a se tornarem leitores.
1.Tornar
a leitura divertida. Deixar a criança escolher livros. Seja de aventura,
mistério, futebol, games, ou histórias em quadrinhos.
2.Ler
junto com a meninada no começo. Alguns minutos diários em voz alta ou
alternando a leitura.
3.Conectar
com interesses deles. Sugerir livros parecidos com personagens e assuntos de
que a criança goste.
4.
Valorizar o esforço, com elogios curtos e elogiar a “curiosidade” e a
“continuação”. Não só o fato da criança
“ter lido” determinado livro. E ainda incentivar a troca entre amigos e colegas
5.
Facilitar o acesso à biblioteca. Tornar o local agradável, refrigerado,
decorado, limpo e atraente
Graça fez EJA e cursou Pedagogia. Ela resume sua saga: “da merenda para a leitura”.