Amigos do Fingidor

terça-feira, 4 de agosto de 2026

Da merenda para a leitura

Pedro Lucas Lindoso

 

Dona Graça trabalhava como merendeira em uma escola municipal. Além de cantina, salas de aula, diretoria e banheiros, a escola possui uma biblioteca. Infelizmente era pouco usada e até desconhecida por alguns alunos.

Quando eu era menino em Brasília estudei na Escola Parque. O sistema Escola Classe/Escola Parque foi idealizado pelo professor e pedagogo Anísio Teixeira. Tínhamos aulas de Música. Artes, Natação, Artes industriais e Biblioteca. Sim, aula de biblioteca. Não quis dizer aulas na biblioteca.

O que se fazia na aula de biblioteca? Ora, apreendia-se a usar o dicionário, diferenciar livro de ficção de não-ficção.  Conceitos como livros de referência, periódicos, jornais, revistas etc. Para que servem e como usá-los. Mas o mais importante era o constante incentivo para nos tornarmos leitores. Incentivados a um difícil hábito para muitos. Gostar de ler!

Dona Graça, a merendeira, mesmo sem ter tido aula de biblioteca, intuitivamente, sabia que a leitura é um habito.  Os alunos devem ser não só incentivados, mas também ensinados a gostar de ler.

Não havia bibliotecária na escola. Quem ficava na biblioteca era uma professora asmática que fora readaptada. A readaptação deu-se porque a professora não tinha mais condições físicas de dar aulas. Quando as escolas não sabem o que fazer com readaptados, mandam tomar conta da biblioteca.

Dona Graça depois de sua função na cantina ia para a biblioteca. Tornou-se uma leitora voraz. E só tinha até a quarta série primária. Começou então a ajudar a professora asmática a arrumar os livros, limpar o espaço e convencer os alunos a ler.

Certo dia a professora readaptada finalmente se aposentou. A diretora, para não fechar a biblioteca, perguntou se Graça gostaria de ficar no lugar da aposentada. Ela topou. Uma outra merendeira substituiu Graça na cantina.

 A merendeira então pós em prática os planos adiados da readaptada. Graça aliou-se às quatro professoras de Língua Portuguesa. Promoveram concurso de poesia, de contos, de acróstico e até de haicai. Às sextas comemorava-se aniversários de escritores. Preferencialmente, autores portugueses e brasileiros. Mas qualquer celebridade da literatura poderia ser comemorada. Os alunos faziam lanche comunitário. O projeto ficou denominado de “merenda com leitura”. Um sucesso. Dona Graça e as professoras de Português montaram cinco estratégias para levar as crianças a se tornarem leitores.

1.Tornar a leitura divertida. Deixar a criança escolher livros. Seja de aventura, mistério, futebol, games, ou histórias em quadrinhos.

2.Ler junto com a meninada no começo. Alguns minutos diários em voz alta ou alternando a leitura.

3.Conectar com interesses deles. Sugerir livros parecidos com personagens e assuntos de que a criança goste.

4. Valorizar o esforço, com elogios curtos e elogiar a “curiosidade” e a “continuação”.  Não só o fato da criança “ter lido” determinado livro. E ainda incentivar a troca entre amigos e colegas

5. Facilitar o acesso à biblioteca. Tornar o local agradável, refrigerado, decorado, limpo e atraente

Graça fez EJA e cursou Pedagogia. Ela resume sua saga: “da merenda para a leitura”.