Pedro Lucas
Lindoso
Você me
disse que não gosta de ser politicamente de esquerda porque, no Credo, Jesus
está sentado à direita de Deus. Mas imagine que você chega ao Céu e se encontra
com Eles. De fato, Jesus está sentado à direita de Deus. Porém, na sua
perspectiva, Ele vai estar à sua esquerda.
Essa já
ultrapassada divisão iniciou-se há mais de 200 anos, durante a Revolução Francesa. Na convocação
da primeira Assembleia Nacional Constituinte, uns ficaram à esquerda, outros à
direita. Mas para quem estava presidindo, no caso, Jean Bailly, sucedido por,
dentre outros, Mirabeau e Robespierre, pois o cargo de presidente era rotativo,
a perspectiva também mudava. Assim, quem tinha ido para direita, agora era
visto, pela presidência, ao lado esquerdo. E vice-versa.
Imagine
se os constituintes tivessem definido que os que estavam à direita seriam alfas
e os da esquerda seriam betas. Nada seria diferente. Os alfas de direita são os
ricos e seus amigos, os nobres e seus amigos, os burgueses, os incluídos em
privilégios mesmo sendo pobres e trabalhadores. E ainda os que não querem
compartilhar as riquezas com os betas que são geralmente os trabalhadores, os
pobres, as minorias, os excluídos e os que os apoiam.
Há os
que ficaram no meio. Se consideram de centro. Ou centro alfa ou centro beta. Eu
penso que Jesus era beta. Vivia curando cegos, paralíticos, leprosos. Vivia no
meio do povão.
Nesses
últimos tempos o Brasil e também muitos países estão polarizados entre alfas e
betas. Muitas brigas entre familiares, amigos e colegas que não perdoam seus
parentes que tem uma ideologia diferente da sua.
Há os
alfas que fizeram coisas imperdoáveis para os betas. Como participar ativamente
dos acontecimentos de 8 de janeiro de 2023. É disso que trata o livro de Maria
José Silveira, cujo título é “Imperdoável”.
Sem
querer dar “spoiler”, o romance aborda a vida de três amigos de juventude. Ao
se conhecerem eram todos betas. Porém, uma das duas garotas se torna alfa
radical. A amizade, apesar de abalada, continua. Os outros dois, o rapaz e a
outra moça, permanecem com os mesmos ideais betas. Mas aí algo imperdoável
acontece.
Maria
José Silveira nasceu em Jaraguá, no interior de Goiás. Ainda criança se mudou
para Goiânia. Morou em Brasília, Paris, Lima, Rio de Janeiro, atualmente, mora
em São Paulo. Mestre em Ciências Políticas e formada em Comunicação e
Antropologia, é escritora, tradutora, editora e autora de dezenas de livros.
Escreveu romances, dos quais o primeiro, A mãe da mãe de sua mãe e suas
filhas, recebeu o Prêmio Revelação da APCA, em 2002. Alguns de seus livros
já foram publicados nos Estados Unidos, França, Itália, Espanha, Chile e China.
Casada com meu irmão Felipe Lindoso, é minha cunhada, pela qual tenho admiração
e afeto.
