Amigos do Fingidor

terça-feira, 8 de setembro de 2026

Alfas e betas

Pedro Lucas Lindoso

 

Você me disse que não gosta de ser politicamente de esquerda porque, no Credo, Jesus está sentado à direita de Deus. Mas imagine que você chega ao Céu e se encontra com Eles. De fato, Jesus está sentado à direita de Deus. Porém, na sua perspectiva, Ele vai estar à sua esquerda.

Essa já ultrapassada divisão iniciou-se há mais de 200 anos,  durante a Revolução Francesa. Na convocação da primeira Assembleia Nacional Constituinte, uns ficaram à esquerda, outros à direita. Mas para quem estava presidindo, no caso, Jean Bailly, sucedido por, dentre outros, Mirabeau e Robespierre, pois o cargo de presidente era rotativo, a perspectiva também mudava. Assim, quem tinha ido para direita, agora era visto, pela presidência, ao lado esquerdo. E vice-versa.

Imagine se os constituintes tivessem definido que os que estavam à direita seriam alfas e os da esquerda seriam betas. Nada seria diferente. Os alfas de direita são os ricos e seus amigos, os nobres e seus amigos, os burgueses, os incluídos em privilégios mesmo sendo pobres e trabalhadores. E ainda os que não querem compartilhar as riquezas com os betas que são geralmente os trabalhadores, os pobres, as minorias, os excluídos e os que os apoiam.

Há os que ficaram no meio. Se consideram de centro. Ou centro alfa ou centro beta. Eu penso que Jesus era beta. Vivia curando cegos, paralíticos, leprosos. Vivia no meio do povão.

Nesses últimos tempos o Brasil e também muitos países estão polarizados entre alfas e betas. Muitas brigas entre familiares, amigos e colegas que não perdoam seus parentes que tem uma ideologia diferente da sua.

Há os alfas que fizeram coisas imperdoáveis para os betas. Como participar ativamente dos acontecimentos de 8 de janeiro de 2023. É disso que trata o livro de Maria José Silveira, cujo título é “Imperdoável”.

Sem querer dar “spoiler”, o romance aborda a vida de três amigos de juventude. Ao se conhecerem eram todos betas. Porém, uma das duas garotas se torna alfa radical. A amizade, apesar de abalada, continua. Os outros dois, o rapaz e a outra moça, permanecem com os mesmos ideais betas. Mas aí algo imperdoável acontece. 

Maria José Silveira nasceu em Jaraguá, no interior de Goiás. Ainda criança se mudou para Goiânia. Morou em Brasília, Paris, Lima, Rio de Janeiro, atualmente, mora em São Paulo. Mestre em Ciências Políticas e formada em Comunicação e Antropologia, é escritora, tradutora, editora e autora de dezenas de livros. Escreveu romances, dos quais o primeiro, A mãe da mãe de sua mãe e suas filhas, recebeu o Prêmio Revelação da APCA, em 2002. Alguns de seus livros já foram publicados nos Estados Unidos, França, Itália, Espanha, Chile e China. Casada com meu irmão Felipe Lindoso, é minha cunhada, pela qual tenho admiração e afeto.