Pedro Lucas Lindoso
Quando
meu saudoso pai José Lindoso foi governador do Amazonas continuei morando em
Brasília, terminando meu curso universitário. Tirei férias e vim passar o Natal
com meus pais. Um amigo da faculdade me disse que faria uma viagem de quatro
dias para conhecer Manaus. Naquela época não havia celular. Dei a ele um
telefone que seria da residência onde o governador, meu pai, e mamãe residiam.
O fato
é que o amigo tentou falar comigo diversas vezes e não conseguiu. De volta a
Brasília brincou comigo dizendo que eu estava incomunicável por estar protegido
por uma forte e eficiente cerca de jurubeba. Disse-lhe que sem saber, sem
merecer e sem necessidade fiquei protegido por suposta cerca de jurubeba que
lamentavelmente impediu de nos vermos em Manaus.
Recentemente,
esse mesmo amigo me telefonou convidando-me para sua posse num mandato tampão
de prefeito de uma importante cidade do Nordeste. Infelizmente não pude
comparecer. Liguei ao amigo no número registrado no celular. Não era mais dele.
Liguei em diversos números da prefeitura. Nada. Ainda não consegui falar com
ele.
Depois
de muitos anos quem ficou protegido por uma cerca de jurubeba foi ele.
Diferente de mim. Ele sabe que a cerca existe. Possivelmente merece estar lá. E
os seus assessores acreditam que há necessidade dessa jurubeba.
A
planta jurubeba cresce em cercas, beiras de estradas e terrenos baldios. Como
metáfora popular, trata-se de uma barreira difícil, cheia de “espinhos”. A
jurubeba é um arbusto nativo do Brasil que alcança até três metros de altura. É
um arbusto rústico, com espinhos curtos e curvos no tronco. Existe um dito
popular que entende a “cerca de jurubeba” como ideia de “blindagem às pessoas
importantes. Os VIPs. No caso de políticos, é função de assessores manter
governantes e autoridades afastados do “povo” e protegê-los de críticas,
curiosos ou gente “de interesse”.
O
assessor ou os assessores acham que estão ali para proteger o assessorado das
demandas espinhosas. Assim, tentam impedir as pessoas de ter contato com a
autoridade. Tudo para vetar a entrada de gente indesejada ou inconveniente. O
pior, nestes casos, é que há assessorados que adoram esse tipo de assessor.
Conhecendo meu amigo de longa data, ele provavelmente não é um desses.
Há
pessoas que ainda nem foram eleitas e já estão cercadas de jurubebas.