Amigos do Fingidor

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Aguardando os debates

Pedro Lucas Lindoso

 

Uma amiga cearense de tia Idalina foi visitá-la. Passava na TV o horário eleitoral quando dona Cirene, escandalizada com uma das propostas de certo candidato, exclamou:

– Esse sujeito merece um sabacu.

 Tia Idalina perguntou da amiga do Ceará o que significava sabacu. Sabacu é uma ave. Mas é uma gíria cearense. Uma espécie de cascudo. Juntam-se as duas mãos com os dedos entrelaçados. Depois a gente assopra para aprisionar o ar entre as palmas das mãos antes de deferir o golpe. Faz um barulho estalado.

Esse pessoal do Ceará é mesmo fenomenal. Tem uma espécie de vaia que só eles sabem fazer. Agora descobri o cascudo cearense. O sabacu.

As duas amigas riram muito e a conversa descambou para esses atos físicos comuns entre adolescentes ou pais, quando precisam castigar os filhos. Minha mãe beliscava a gente. Principalmente se o malfeito era diante de alguma visita, conta Idalina. A minha puxava a orelha da gente. Literalmente. E nos ameaçava com um terrível grito: “eu te trituro sua moleca”, recorda Cirene.

Meus irmãos tinham mania de malinar uns aos outros aplicando caçoleta. “O que é isso?” Pergunta Cirene. Consiste em estalar o dedo contra a orelha alheia, provocando um pequeno estalo ou ardência passageira.

Voltando à propaganda política, Idalina comenta:

– Acho de última o sujeito se apresentar como coronel, capitão ou cabo. Vai ser polícia ou deputado? É como professor fulano, doutor fulano de tal. Vai dar aula, clinicar ou atuar como parlamentar? Merece uma sulipa, um peteleco. Aquele golpe rápido dado na região do pescoço, nuca ou orelha.

Idalina acha que muitos ali merecem mesmo um bom sopapo, para criar vergonha na cara. Essa propaganda eleitoral funciona como um jogo de “caça ao exagero mentiroso”.  O candidato fala uma coisa, promete outra e no fim, se eleito, entrega outra.

Minha amiga, como a gente não pode dar um tapa nesse aí, vamos perguntar o óbvio – e solta: “Tá bom… e o plano? E a proposta?” É o ‘vai melhorar’, repete sempre isso. Só rindo mesmo.

Veja só, a maioria deles se expressam cinicamente, com aquele sorriso de comercial: “Pode confiar.” E você: “Confio… só em alguns.” E olhe lá!

No final, o “sopapo que merecem” é o voto consciente. E claro, minha amiga, nosso deboche como argumento. E o voto certo e consciente. É aquela nossa vingança democrática. Em vez de bater, que a gente não pode. Quer saber? Propaganda é barulho… E quem sabe, responde. Vamos aguardar os debates.