Pedro Lucas Lindoso
Uma
amiga cearense de tia Idalina foi visitá-la. Passava na TV o horário eleitoral
quando dona Cirene, escandalizada com uma das propostas de certo candidato,
exclamou:
– Esse
sujeito merece um sabacu.
Tia Idalina perguntou da amiga do Ceará o que
significava sabacu. Sabacu é uma ave. Mas é uma gíria cearense. Uma espécie de
cascudo. Juntam-se as duas mãos com os dedos entrelaçados. Depois a gente
assopra para aprisionar o ar entre as palmas das mãos antes de deferir o golpe.
Faz um barulho estalado.
Esse
pessoal do Ceará é mesmo fenomenal. Tem uma espécie de vaia que só eles sabem
fazer. Agora descobri o cascudo cearense. O sabacu.
As duas
amigas riram muito e a conversa descambou para esses atos físicos comuns entre
adolescentes ou pais, quando precisam castigar os filhos. Minha mãe beliscava a
gente. Principalmente se o malfeito era diante de alguma visita, conta Idalina.
A minha puxava a orelha da gente. Literalmente. E nos ameaçava com um terrível
grito: “eu te trituro sua moleca”, recorda Cirene.
Meus
irmãos tinham mania de malinar uns aos outros aplicando caçoleta. “O que é
isso?” Pergunta Cirene. Consiste em estalar o dedo contra a orelha alheia,
provocando um pequeno estalo ou ardência passageira.
Voltando
à propaganda política, Idalina comenta:
– Acho
de última o sujeito se apresentar como coronel, capitão ou cabo. Vai ser
polícia ou deputado? É como professor fulano, doutor fulano de tal. Vai dar
aula, clinicar ou atuar como parlamentar? Merece uma sulipa, um peteleco.
Aquele golpe rápido dado na região do pescoço, nuca ou orelha.
Idalina
acha que muitos ali merecem mesmo um bom sopapo, para criar vergonha na cara.
Essa propaganda eleitoral funciona como um jogo de “caça ao exagero
mentiroso”. O candidato fala uma coisa,
promete outra e no fim, se eleito, entrega outra.
Minha
amiga, como a gente não pode dar um tapa nesse aí, vamos perguntar o óbvio – e
solta: “Tá bom… e o plano? E a proposta?” É o ‘vai melhorar’, repete sempre
isso. Só rindo mesmo.
Veja
só, a maioria deles se expressam cinicamente, com aquele sorriso de comercial:
“Pode confiar.” E você: “Confio… só em alguns.” E olhe lá!
No
final, o “sopapo que merecem” é o voto consciente. E claro, minha amiga, nosso
deboche como argumento. E o voto certo e consciente. É aquela nossa vingança
democrática. Em vez de bater, que a gente não pode. Quer saber? Propaganda é
barulho… E quem sabe, responde. Vamos aguardar os debates.