Amigos do Fingidor

domingo, 5 de dezembro de 2010

Arrebentando de vez com o arrebatamento: after 0:00AM

Jorge Bandeira

É preciso destruir tudo, até mesmo as ruínas
Allen Ginsberg


Coisas para depois da meia-noite, texto e direção teatral de Denni Sales é uma avulsão de sentimentos exacerbados, cenas de clímax ou anticlímax desvairados, são o arrancar de um carnegão e suas pústulas, cenas do subterrâneo que todos conhecem, mas que no Teatro nos conduzem ao seu cerne avantajado, ao beco de onde não podemos fugir.

A peça visceral começa ao som inquietante de “Silence”, da banda de trip hop Portishead, e a emblemática frase de um brasileiro, que abre o disco Third, o terceiro em onze anos desta banda fantástica. A frase em questão: “esteja alerta para a regra dos três, o que você dá retornará para você, essa lição você tem que aprender, você só ganha o que você merece”; nos insere nesse enigmático e labiríntico teatro em que seres dramáticos mergulharão ao longo da encenação teatral. De forma abrupta, assistimos a cenas que aparentemente se iniciam sem conexões umas com as outras, mas que no decorrer da trama percebemos a capacidade do dramaturgo (sim, um dramaturgo!) de encadear sua história de forma segura, sem atropelos num enredo recheado de uma visão áspera das circunstâncias da vida. Denni Sales é o autor de um outro texto, Feliz Aniversário, além de esquetes para os Sábados Detonados e para Os Obscenos.

Não é um niilismo, e sim um acerbo, existe aí uma sutil diferença que coloca COISAS na abrangência necessária do refletir a situação vexatória, que nos instiga a rever certos conceitos, mas que não estão ali para fazer a cabeça de nenhum espectador. A iluminação projetada por Márcio Braz é feita com penumbras ocasionais e luzes de strobo, margeando as emoções e sensações dos universos preferidos dos insanos e admoestados personagens centrais, Liz Boa (Ariane Feitoza) e Marcelo (Efraim Mourão). Também não é uma apologia do sofrimento humano dos excluídos, dos dejetos sociais. Trata-se de uma constatação da crueza da vida. Unicamente isso. Uma fissão aos espíritos apaziguados, que enxergam a vida apenas pelo lado mais prosaico da mesma, o das convenções reguladoras do Estado e da sociedade, e das amarras e falsidades dos convencionais dogmáticos, de todos os matizes e religiões.

A multimídia, e nela a colocação do teatro pós-dramático, nas cenas de sexo explícito no data show erótico, com o coito anal, vaginal, ejaculações e “boquetes” são projetados nas paredes e alcançam até mesmo os nossos corpos, e isso tudo é feito de uma forma bem calculada, o diretor tem a condução do espetáculo repleto de paixões infrenes.

Não há apaziguamentos aqui, e aos de falsa moral ou contaminados pelos fundamentalismos do religare religioso aconselho a assistirem de olhos e ouvidos fechados a este caudaloso inferno na Terra. Aos de liberdade no sangue e mente, é uma das raras oportunidades em Manaus de presenciar algo diferente e fora do comum, e de uma estética e linguagem dignas do ingresso pago. A trilha sonora incidental, a atualidade com o Portishead, o bate-estaca das Raves via incursão na música eletrônica, eis um Teatro do século XXI, apagando de vez a belle époque do século XIX deste lugar da Barra, mas de uma BARRA onde quem não estiver atento às vicissitudes desta sofrida vida, fode-se mesmo.

O recado é dado da forma mais direta, usando a linguagem seca dos personagens, condutores do caos, que não possuem nenhum resquício de romantismo ou visão exótica de suas vidas. São marginais embrutecidos pelo fedor do lixo que a sociedade e o Estado não recolhem das ruas. E deste lixo virá um ser disforme, mutatis mutandis, e criará sua maneira própria de agir, de transgredir.

Os lampejos e as faíscas, na simbologia da música e da iluminação, conduzem para as mudanças nos personagens, que padecem suas “mortes” e são capacitados para uma “nova vida”. A violência policial, um figurino realista, são objetivos cruciais perseguidos pelo autor/diretor, sem floreios, sem uma gota de academicismo, é algo da sarjeta mesmo, um hiper-realismo que não há cristão que não entenda, de um fôlego só, uma porrada na “boca do estômago”.

Denni Sales não fica na superfície, ele lacera as carnes de suas presas. Penetra, de forma inclemente, no mais ínfimo da condição humana. Penetra vigorosamente, mas estranhamente sua montagem nos reconforta pelo paradoxal. E nisso temos a literatura dramática minuciosamente trabalhada como poética da comiseração. Ocorre uma quebra do maniqueísmo nos níveis imagéticos e dos símbolos caros a uma tradição enraizada desde nosso batismo. Na Idade Média, Denni Sales seria queimado vivo, junto com seu elenco, não tenham dúvidas.

Neste elenco as atuações nos fazem arregalar os olhos. Ariane Feitoza (Liz Boa) é uma puta e tanto, puta atriz mesmo, e seu desempenho é cativante, e o brilho de seus olhos é fulgurante, em especial nos momentos de pura poesia de seus “bifes”, de sua comunicação direta com a plateia. Efraim Mourão é um sacana, seu Marcelo é feito com um cinismo avassalador, e as surpresas de COISAS têm neste seguro e talentoso ator sua linha mestra, nas emblemáticas cenas do ato inicial do velório e também no boquete hospitalar. É pau puro, meu velho, sangue e esperma que se mancomunam num turbilhão de ações canibalescas e sexuais de afronta máxima, um personagem obcecado pelo improvável e pelo dilaceramento de tudo e todos.

O encadeamento da trama flui natural, mesmo neste caminho tortuoso destes seres inclassificáveis, arautos do opróbrio, da abjeção extrema. Os planos e níveis do espaço cênico, o uso eficaz do piso superior do palco, as mudanças de cenários, há uma precisão e zelo com as mudanças de cena, fazendo que a ação torne-se dinâmica aos olhos do público. Ainda sobre o elenco, saliento a interpretação sem exageros de Paulo Altallegre, condutor de um pai religioso e tragado pelo desenlace surreal de uma vida marcada por dissimulações totais. Dimas Mendonça é o algoz que se torna vítima, e no final é ele o responsável pela Parusia, na linda cena final do Cristo Libertário. Brunier Bulcão, Vitor Kaleb e Fadia Rodrigues completam o competente elenco, que não se deixou intimidar pela escrita arrebatadora de sensações de Denni Sales. Aceitaram o desafio com a dignidade dos artistas sensíveis e generosos para com o Teatro.

Os serviços de limpeza dos garis, os boyzinhos nas suas festinhas barganhadas pelo poder econômico de seus papais, as drogas como permanências obrigatórias desse universo, a bebida, as cores, um Jesus Profano, a inversão dos valores banais, a linguagem fula, direta, popular, as personagens e suas perversões, a contaminação via crueza do texto, uma infinidade de cenas de forte impacto visual, palavras de profundidade e “profanidades”, penetração do soro no ânus do dilacerado peniano, o sangue menstrual escorrendo pela coxa-xoxota da puta Liz Boa, que ela esfrega na cara do filhinho de papai, o pastor que se decepciona com o enviado, que aos seus olhos agora deve ser o enVIADO, a Bíblia sendo rasgada pelo infeliz e incrédulo discípulo epistolar, pois este Jesus faz sua opção pelos excluídos socialmente, pelos dejetos, pela banda podre social, condição inadmissível para um dogmático fã do Antigo e Novo Testamento. A possibilidade de salvação desta bestial humanidade advirá pela bissexualidade, ou pela pansexualidade (que envolve tudo!).

Por isso, talvez, “Ave, Lúcifer” dos mutantes fecha este ciclo de Coisas para depois da meia-noite, uma notável viagem ao submundo que todos já conhecem, mas que sem a coragem teatral desses intérpretes, e com o controle das esferas dos recursos cênicos dirigido por Denni Sales, seria somente uma pálida alegoria das sarjetas. E aqui a sarjeta vira um luxo numa caixa preta. Depois dessa Meia-Noite a carruagem cerebral não se transforma em abóbora!